Leitura Partilhada
sexta-feira, outubro 31, 2003
  Contracapas III
Outra contracapa virtual, que faz a ponte para a nossa era da informação. Diz Paula Alzugaray:

Cem anos antes da explosão da internet, o mundo já estava repleto de maníacos pela informação. Havia os que chegavam ao “extremo” de conectar-se aos fios telegráficos de grandes jornais europeus. Fonógrafos, telégrafos, radiômetros, gramofones, telefones, teatrofones e toda espécie de avanço no terreno das utilidades (ou inutilidades) domésticas povoavam os desejos das elites já na virada do século 19. É o que mostra um crítico observador da burguesia européia da época, o escritor português Eça de Queirós, em seu A Cidade e as Serras.

Seus últimos romances refletem sobre os excessos da tecnologia e do consumo e retomam (com um saudosismo tipicamente português) as virtudes da ingenuidade e os valores da aristocracia rural.


Tão próximo de nós, um século depois?

Leitora
 
  Contracapas II
Uma contracapa virtual, esta do Instituto Camões:


Escrito numa linguagem extremamente dúctil e situado já longe das preocupações sociais e do empenhamento político da Geração de 70, A Cidade e as Serras tem como personagem principal Jacinto, um rico aristocrata que no seu palacete de Paris, nos Campos Elísios (o célebre nº 202), dispõe de um ambiente confortável e requintado, onde reúne as mais sofisticadas maravilhas tecnológicas da civilização, mas que, ao voltar a Portugal com o velho amigo Zé Fernandes, vem a descobrir na sua antiga casa senhorial de Tormes, junto ao Douro, os atractivos de um regresso à natureza, pouco a pouco reforçado tanto pela beleza da paisagem como pelas virtudes de uma vida cada vez mais saudável e próxima dos ancestrais costumes portugueses, libertando-o do tédio e dando enfim um sentido à sua existência.

Leitora
 
  Contracapas I
A LP&M Pocket paresenta assim o livro:


Este livro, publicado um ano após a morte de Eça de Queiroz, mostra um escritor menos cáustico e nem tão ácido em relação a sociedade burguesa do seu tempo. Mas se é menos agressivo e contundente, segue sendo divertido, irônico, abordando um tema original e manejando a sátira com elegância, palavra que alcança com precisão toda a prosa de Eça de Queiroz.
A cidade e as serras é basicamente uma sátira ao culto da tecnologia. Revela um personagem que tornou-se célebre em sua obra, Jacinto de Tormes, o dândi espirituoso, português residente em Paris, homem inteiramente em dia com todos os avanços tecnológicos. Do outro lado, Zé Fernandes, um crítico das grandes cidades, do progresso, e denunciador de seus malefícios. Eça de Queiroz foi um dos maiores escritores de língua portuguesa em todos os tempos. Seu estilo elegante, sarcástico e irônico causou controvérsias e ataques na sua época.


Leitora
 
  Leituras cruzadas: Odisseia in A Cidade e As Serras
Depois de nos termos cruzado com a Odisseia em Ulysses, voltamos agora a cruzar-nos com ela:

«Aquele grande mar da "Odisseia", resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sobre o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas divinas, exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da Pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... (...) E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Helade, entre o mar muito azul e o Céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca.»

É já fora da Cidade (portanto, da Civilização) que se dá o encontro com a Odisseia, um dos pilares da civilização em que vivemos, no sentido mais espiritual da palavra.


riverrun
 
  Abarrotado de Civilização
Zé Fernandes, recém-chegado da barbárie da Península, assistia aos prazeres da Super-Civilização que Jacinto desfrutava na cidade onde Baudelaire já passeara o seu tédio. Mas Jacinto fartou-se.

Fartou-se de ler: «...jornais de Paris, jornais de Londres, Semanários, Magazines, Revistas, Ilustrações...» (...) «É uma seca... Não há que ler.»

Fartou-se dos aparelhos completadores e facilitadores da Vida: «o seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu Radiómetro, o seu Gramofone, o seu Microfone, a sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua Imprensa Eléctrica, a outra Magnética,...»

E até se fartou da sua majestosa biblioteca: «Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes e, sem lhes provar a substância, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua abundância.»

Nessa noite valeu-lhe a melancolia de um velho Diário de Notícias, para esquecer, mas acabaria por mergulhar no perigoso pessimismo de Schopenhauer.


riverrun
 
  As equações da Troti
Quanto ao desafio que a Troti nos propôs, vou responder, não com uma equação, mas com uma ideia, a qual, julgo, é atribuída a Goethe:

mais importante do que termos aquilo que desejamos, será desejarmos aquilo que temos.

A máquina desejante que somos, defronta-se, de forma permanente, com os dois termos da equação:

. (o que desejamos*ter), de carácter aleatório - depende da nossa capacidade, mas também de uma boa dose de razoabilidade e daquele factor X chamado sorte;

. (o que temos*desejar) - está sempre ao nosso alcance: valorizar e relativizar.

Desejar é ser; é deixarmo-nos volatilizar, transportar, voar; é rendermo-nos à utopia e ao sonho; mas o voo começa e acaba, invariavelmente, com os pés no chão.

J.M.
 
  E a saga continua...
"(...) Todos afundavam a face, murmuravam: "Lá está!" (...)
De repente, Todelle teve uma ideia:
- É muito simples... É pescar o peixe!
O grão-duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Está claro! Pescar o peixe! E no gozo daquela facécia, tão rara e tão nova, toda a sua cólera se sumira, de novo se tornara o príncipe amável, de magnífica polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir à pesca miraculosa! Ele mesmo seria o pescador!(...)

- Oh Jacinto, erga essa luz! - gritava ele, inchado e suado. - Mais!... Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o pode prender. Agora... Qual! Que diabo! Não vai!
Tirou a face do poço, resfolgando e afrontado. Não era possível! Só carpinteiros, com alavancas!... E todos, ansiosamente, bradámos que se abandonasse o peixe!"

Navegadora
 
  A saga do peixe encalhado...
"(...) - Fogo?
Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente, ao subir o peixe de Sua Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado!
O grão-duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como um esmalte mal posto:
- Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque não o trouxeram à mão, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?(...)
O grão-duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o grã-duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inércia de bronze eterno.(...)"
Acho que esta saga é uma das peripécias mais hilariantes de todo o livro de Eça. Não podia deixá-la despercebida.

Navegadora
 
  Leitura Partilhada na NTV
Esta semana tive a oportunidade de ver e ouvir as Autoras do Blog "Leitura Partilhada", na NTV, no programa de Francisco José Viegas.
A participação, a divulgação e o incentivo a novas formas de leitura interactiva e participativa, partilhando pontos-de-vista através da internet, é sem dúvida, uma nova forma de (re)ler os textos literários.
Parabéns às Autoras

Manuel Moreira
 
  Geórgicas de Vírgílio
Geórgicas - Poema didático sobre a agricultura, dividido em quatro livros:
• cultura da terra;
• cultura das árvores, especialmente da vinha;
• criação animal;
• apicultura.


A obra de Virgílio, baseada em estilos gregos, deu origem a chamada escola virgiliana, que influenciou a poesia ocidental por muitos anos, até mesmo, autores épicos dos séculos XVI e XVII como Camões, Tasso, Milton.

( em www.mundocultural.com.br/literatura)


Troti
 
  O quê?
“- Sua Excelência sofre de fartura…fartura de Paris…na simbólica Cidade…ele não encontrava agora forma de vida espiritual ou social, que o interessasse…”

“Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem defendidas contra toda a intrusão do mundo…

“…os brocados, as alcatifas, tantos móveis roliços e fofos, todos os seus metais e todos os seus livros, tão espessamente o oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira, suja e acre…que o enfurecia:
-Oh este pó da Cidade!”

“Para o campo? O quê? Para o campo? …E na sua face enrugada, lampejava…indignação.”

“E nada mais instrutivo e doloroso do que este supremo homem do século XIX, no meio de todos os aparelhos reforçadores dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos séculos – estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de viver!."


Troti
 
  Très. très, très chic...
“-Oh Jacinto! Quem é esta Diana?

...É uma grande cocotte!

-Tua?

-Minha, minha…Não !Tenho um bocado.
Somos uns sete, no Clube.
Eu pago um bocado…para dotar a cidade de uma cocotte monumental.
De resto não chafurdo…Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de limão.

-…E para cima?

-Oh! Para cima tem pó-de-arroz!....Uma maçada!"

Troti
 
  Très, très chic...
“Mas ele teimava…E agora era por intervenção de uma máquina que abotoava as ceroulas.”


“Para quê?”…”Não vale a pena!” – “Que maçada!...”


Troti
 
  Très chic...
“….o jacto de água a ferver rebentou furiosamente, fumegando e silvando… como se todas as forças da natureza, submetidas ao serviço de Jacinto, se agitassem, animadas por aquela rebelião de água….

…havia mortos?

-Vem no Fígaro!
O quê! O meu Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos Elíseos!

Imaginem! Água a ferver, como no Vesúvio…Mas é de uma novidade!

Estou morrendo por admirar as ruínas!

…por causa de uma inundação…Ah, Jacinto é hoje o homem, o único homem de Paris!”


……………..


“Às nove horas…Todos os lumes eléctricos, subitamente, em todo o 202, se apagaram!

- Meus amigos, há uma desgraça…

…o elevador dos pratos…o peixe de Sua Alteza…encalhado!

- Uma maçada! E tudo falha!


Troti
 
quinta-feira, outubro 30, 2003
  Pleno por fora, vazio por dentro
Jacinto, por fora, é um homem pleno.
É pessoa de múltiplas actividades: “Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa…”. Estas tarefas cívicas – “presidente do…, comanditário do…, director da…, sócio dos…”- a par das diversificadas deambulações que tinha de perfazer – “uma visita…, outra…, assistir…,acompanhar…,escolher…,comparecer…, presidir…”, muito bem organizadas e encaixadas nas 24 h disponíveis do Príncipe – “e ainda se acavalavam outras” - disputavam o seu lugar com permanentes solicitações – “sujeitos apressados…, escudeiro… com bilhetes…,fornecedores…, negociantes…,inventores…, alfarrabistas…, “

“Jacinto circulava estonteado…exalando com a face moída o seu queixume eterno:
- Que maçada…uma seca!
Depois, à pressa, sem gosto…picava aqui e além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta.” ………….

“E tu, Zé Fernando, que vais fazer?”

“- Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!”.




E Jacinto a gramar os fretes! Tudo artificial!

Jacinto, por dentro, é um homem vazio.

Troti
 
  Assinatura do génio
 
  Transferência de Eça para a encantadora Paris...



Ora Paris, como sabes também tem sido o meu sonho.
Carta a Oliveira Martins, 15 Ag. 1888


Leitora
 
  notas paralelas
Como habitualmente, estou a fazer a minha pesquisa sobre o autor. Mas neste caso, sinto-me... intimidada! É um autor bem conhecido de todos, próximo. Parece-me não fazer muito sentido colocar notas bibliográficas. Mas vou tropeçando por aspectos curiosos e não resito em partilhá-los.

Deixo a informação sobre o autor para os especialistas que se queiram manifestar...




Anúncio da morada de escritório em Évora
In O Distrito de Évora, nº 10 (.1867), p. [1]
BN J. 483//4 M.


Leitora
 
  Para quê?
A Civilização não trouxe só as laranjas. Trouxe uma panóplia de muitas outras preciosidades:
- Um “roupão branco de pêlo de cabra do Tibete”
- Uma “mesa de toilette, toda de cristal”
- “Biombos de Quioto”
- “Pijamas de pelúcia”
- e “escovas”:

“As escovas renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto - porque as havia largas…estreitas e mais recurvas….côncavas…pontiagudas…rijas…
E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, permanecia este Príncipe passando pêlos sobre o seu pêlo durante catorze minutos.”


Para quê?



Troti
 
 
…”E assim, pela disposição dos cubos diabólicos, eu chego a verificar os espaços hipermágicos!...”

“Eu coçava a barba:

“Eu venho de Guiães, das serras…”


Troti
 
  A problemática da laranja
“E por sobremesa simplesmente laranjas geladas em éter.”
- Em éter, Jacinto?
O meu amigo hesitou…
- É novo…Parece que o éter desenvolve, faz aflorar a alma das frutas…
Eis a Civilização!”

Troti

 
  Uma festa?
Estado de espírito de Jacinto, a viver em PARIS, com todos os luxos que o
6º sentido( o dinheiro no dizer de Somerset Maugham )pode proporcionar:

“Conjecturas, uma maçada!”
“Bocejo arrastado e vago”
“Mas com efeito -…- é uma seca…”
“É uma maçada.”
“.. derramou…um olhar desconsolado”
“… não tenho apetite, já há tempos…Já há anos.”
“…de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.”
“Que maçada!...Uma seca!
“Por fim nem vale a pena, é uma seca!
- “…só lhe davam uma impaciência e uma fadiga…
“Não vale a pena…Não vale a pena!”
“Agora, porém era sem fervor…”
“o meu Príncipe emudecia…para escancarar bocejos de fartura.”
“Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...


“ – Uma festa?”
“Folheias Paris num resumo…Mas é uma maçada amarga!

Troti
 
  Jacinto
(Jacinto-das-searas - planta bolbosa …flores em cacho…frequente em Portugal nas sebes, lugares sombrios e campos cultivados.- Grande Enc. Port. Bras.)


Jacinto vive em Paris, na cidade luz, mas está na escuridão. É uma planta sempre fechada dentro do seu bolbo, sem espaço para respirar e fazer brotar as flores. Inundado pela tecnologia – “Só o fonógrafo…me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho” , abafado pelas máquinas modernas que vivem por ele, afundado na Civilização, atafulhado de informação, Jacinto vegeta. ..”emagrecera…o bigode murcho…corcovava”.

Vive fora do tempo e do espaço:

“Ele erguera uma tapeçaria…que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios, os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade.”

“Vivera – cumprira com serenidade todas as funções…”

Mas estava morto. De tédio.

Troti
 
  O Príncipe
“Jacinto nasceu num palácio…Jacinto não teve sarampo nem lombrigas…Entre os camaradas, erguendo a sua espada de lata…foi logo o vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das merendas…Rico, rijo,…o seu valor genuíno, …nunca foi desconhecido, nem desapreciado…e não recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa,,,E no céu as Nuvens, se avistavam Jacinto sem guarda-chuva, retinham com reverência as suas águas até que ele passasse… Por isso nós lhe chamávamos “O Príncipe da Grã -Ventura.”

Jacinto vivia assim “uma Vida de segurança e doçura” em Paris…acreditando que “não há senão a cidade”…”no campo…ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão…em meio da Natureza, ele assistia à súbita e humilhante inutilização de todas as faculdades superiores…As searas não compreendem as Geórgicas…”

Troti
 
  A matéria morna do amor
(com os devidos agradecimentos ao Jorge, a quem roubei a expressão)

Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé Fernandes - Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno rubro e rugidor; ora me parecia ser uma faminta fogueria onde flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só conservo a impressão de uma alcova forrada de cretones sujos, de uma bata de lã cor de lilás com sutaches negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore de um lavatório, e de um corpos tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a sensação de incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a escorrer.
nastenka-d
 
  Eça
 
  Leitura Partilhada na NTV
Gostei de ver e ouvir as responsáveis pelo blog "Leitura Partilhada", esta semana à noite na NTV, no programa de Francisco José Viegas.
A divulgação do Blog e da leitura a três dimensões (leitor, livro e outros leitores) partilhando leituras, é indubitavelmente o enriquecimento da nossa forma de ver, ler e perspectivar as obras literárias....
Parabéns.
Manuel Moreira
 
  Equação II
Outra proposta:


Alguma ciência
X + Supra Humanidade = Alguma felicidade
Alguma potência


Por favor mandem outras.

Troti
 
  Uma imagem sublime que Eça traz a meus olhos
Sobre os relâmpagos:

«os fiacres rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos claros.»



Acreditem, fiquei horas com esta frase. Poesia pura, não vos parece?


Leitora
 
  Religião
«A religião é o desenvolvimento sumptuoso de um instinto rudimentar, comum a todos os brutos, o terror.»



Leitora
 
  A Serra I
«Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser tão nobremente composto só restava um estômago e por baixo um falo! A alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas ondas lustrais da Civilização, para largar nelas a crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e jacíntico!»



Leitora
 
  Domingo simples e natural
«O meu Príncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles. E bruscamente, levantando os ombros com uma determinação imensa, como se deslocasse um mundo:
- Oh Zé Fernandes, vamos passar este domingo nalguma coisa simples e natural...
- Em quê?
Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, através da Vida Universal, procurasse ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois, descansando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito longe, cansados e com pouca esperança:
- Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!»


Leitora
 
  Biblioteca
«Que majestoso amazém dos produtos do Raciocínio e da Imaginação!»



Leitora
 
  Equações
Eu proponho uma equação diferente:


Alguma ciência
X + Suma decência = Alguma felicidade
Alguma potência


Por favor mandem outras.

Troti
 
  A CIDADE E AS SERRAS
A história do Jacinto começa assim:


Suma ciência
X = Suma felicidade
Suma potência


Este postulado é uma utopia mas ele ainda não sabe.

Homem habituado a não precisar de questionar a vida, acaba, pura e simplesmente, por não a conseguir realizar. A base da equação que abraçou não tem consistência porque não tem essência: à partida, ele descarta a Humanidade como uma das peças elementares. O Humanismo é um pilar fundamental e sem ele não pode existir qualquer felicidade. É um factor que ele de início não vê, não pensa nele, a formação e vivência que teve embalam-no para um sentido da vida em que o “eu” é uma entidade fictícia, sem coesão interior, que vive e funciona como mais uma das máquinas que a civilização criou.
O que ele vai descobrir através de uma evolução metafísica é que, só ele, com a sua força íntima e o seu fulgor anímico pode elevar a sua condição de homem e realizar-se como ser humano.

Troti


 
  Ainda a respeito de "As Horas", fica um excerto que considero por demais realista e inquietante.
- Para onde vamos depois da morte?
- Para onde vamos? Vamos para o lugar de onde viemos.
- Mas eu não me lembro de onde vim.
- Nem eu...

in As Horas de Michael Cunningham


ip

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  AS ONDAS DA LUZ NAS HORAS DO SER
A transparência da aurora em que a substância é uma promessa, dá lugar a uma alvura incandescente sobre a qual se distingue um esboço de identidade. Sentimos um brilho a inundar o espaço e adivinhamos uma aura humana definida e límpida, que se impõe aos nossos olhos na crescente intensidade de um halo. Foco de luz no apogeu de um clarão, assistimos à sua verdade como um ser inteiro e único. Visionamos o núcleo e conhecemos o fulgor da perfeição criativa. Num ritmo fosco e imemorial, Aquele que existe avança, perante nós, na névoa do crepúsculo e dilui-se na penumbra de um teatro de sombras. O núcleo é então uma silhueta nublada, marioneta obscura à deriva na noite, nula, imersa na densidade de imagens fugidias, invisíveis nas trevas.


Troti

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“Mortos somos revelados nas nossas verdadeiras dimensões, que são surpreendentemente modestas.”


Troti

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quarta-feira, outubro 29, 2003
  Uma contracapa especialmente bonita...

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“Não é curioso que, mesmo agora, seja difícil dizer a palavra “morte”?”



Troti
 
  O passarinho
“Virginia acorda…o trabalho à espera e ela ansiosa por se lhe juntar, do mesmo modo que se poderia juntar a uma festa que já tivesse começado no andar de baixo, uma festa cheia de inteligência e beleza, sem dúvida, mas cheia também de alguma coisa mais refinada do que inteligência ou beleza, alguma coisa misteriosa e dourada, uma centelha de celebração profunda, da própria vida, como sedas que sussurram em soalhos encerados e segredos murmurados num tom mais baixo do que a música. Ela, Virgínia, podia ser uma rapariga com um vestido novo, prestes a descer para uma festa, prestes a aparecer na escada, fresca e cheia de esperança.”



(“É possível morrer. Laura pensa, de súbito, como ela – como qualquer pessoa – pode fazer uma escolha dessas…Podia, pensa, ser profundamente reconfortante, podia dar uma sensação de tanta liberdade: partir, simplesmente…está satisfeita por saber…que é possível parar de viver. Existe conforto em encarar toda a gama de opções, em considerar sem medo e sem astúcia todas as escolhas possíveis. Imagina Virgínia Woolf, virginal, desequilibrada, vencida pelas impossíveis exigências da vida e da arte; imagina-a a entrar num rio com uma pedra.”)


“A dor coloniza-a, substitui rapidamente o que era Virgínia por quantidades cada vez maiores de si mesma e o seu avanço é tão violento, os seus contornos anfractuosos tão nítidos, que ela não pode deixar de a imaginar como uma entidade com vida própria.”

“Parece-lhe, neste momento, ter um pé de cada lado de uma linha invisível”

“…neste momento….sente a proximidade do antigo demónio…e sabe que estará de facto absolutamente só se e quando o demónio resolver aparecer de novo…O demónio é uma barbatana rasgando ondas escuras. O demónio é o breve, palpitante nada que foi a vida de um tordo. O demónio suga toda a beleza do mundo…Virgínia sente agora…uma certa grandeza trágica, pois o demónio não é insignificante, não é sentimental: ferve nele uma letal, uma intolerável verdade.”

“É melhor, na realidade, enfrentar a barbatana na água do que viver escondida…”

……………………………..

“… esta é a hora do passarinho morrer e não vamos mudar isso…É um ser selvagem, quererá morrer ao ar livre…- Deixemo-la agora em paz, todos…


Troti


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  Mrs. Woolf
Chegamos, finalmente, a Mrs. Woolf. É por ela que, desde o início, nos reunimos – é ela quem produz o tal objecto dotado de beleza, aquele que é o ligante entre as três mulheres.
É impossível ler os fragmentos ligados a Mrs. Woolf sem convocar tudo o que sabemos sobre Virginia, sobre a obra e vida de Virginia, sobre a morte de Virginia também. Mas mais importante do que especular sobre a vida de Virginia, o livro debruça-se sobre este dia; o dia em que ela inicia a escrita de “Mrs. Dalloway”, desde que acorda, certa da morte de Clarissa (mata-se por qualquer coisa que, superficialmente, parecerá muito insignificante), até ao momento em que pensa Clarissa não morrerá; não pela sua própria mão. Como poderia ela suportar perder toda estas coisas?
Morrerá qualquer outra pessoa. Deve ser alguém com uma inteligência maior do que a de Clarissa; deve ser alguém com talento e mágoa suficientes para virar costas às seduções do mundo, às suas chávenas e casacos.

Mrs. Woolf não é Mrs. Dalloway, embora a molde com qualidades que sente faltarem-lhe; nem é Clarissa, nem Mrs. Brown.
Será outra pessoa, será um poeta perturbado, um visionário, que morrerá.
nastenka-d

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  Tempo
E o que dizem do tratamento do tempo em “As Horas”, depois de tudo o que se falou sobre a importância que este tem na obra de Virginia Woolf?
São descritos três dias, um para cada personagem – mas o facto de decorrerem em anos diferentes é obliterada pela mistura dos fragmentos que nos chegam. Aliás, não fosse a (incrível) coincidência do parentesco entre Mrs. Brown e Richard, que acaba por estabelecer uma continuidade entre as duas épocas, poderíamos acreditar que nos encontrávamos perante um único dia, vivido simultaneamente em épocas paralelas.
Por isso, proponho um exercício: e se não se desse a tal (que eu considero absolutamente inverosímil) coincidência?
nastenka-d

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terça-feira, outubro 28, 2003
  O fracasso pode ser narrativo
Em As Ondas, Rhoda, a personagem que não sobrevive, dizia: «I cannot make one moment merge in the next . […] I do not know how to run minute to minute and hour to hour, solving them by some natural force until they make the whole and indivisible mass that you call life.»
Parece-me que um dos traços distintivos da escrita de Cunningham tem a ver precisamente com a noção (diametralmente oposta) de que a vida tem de ser levada hora a hora, frase a frase, porque aos seres humanos é necessário fazer parte de uma história e, às vezes, de uma ou mais ficções quase tão bem arquitectadas como As Horas.

E se um dos temas fundamentais dos romances de Cunningham se relaciona com a sensação de fracasso que decorre da consciência do hiato existente entre aquilo que imaginamos e aquilo que podemos de facto criar, isso acontece também porque é nesse hiato que ele e nós tantas vezes nos refugiamos para (tentar) contar histórias, e assim sobreviver.
Alex

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“Nós queremos tanto, não queremos?”


Troti

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  ?
”Por que outro motivo lutamos para continuar a viver, por muito acomodados ou feridos que nos encontremos?”


Troti

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  A Festa
“Que emoção, que choque estar viva numa manhã de Junho, afortunada, quase escandalosamente privilegiada…Ela, Clarissa Vaugham, uma pessoa comum…vai comprar flores e dar uma festa…estava destinada a encantar, a ser bem sucedida.

Esta noite dará a sua festa.

Ama… o televisor…Ama o carro, ela ama o mundo…

Aqui está o mundo, e tu vives nele e sentes-te grata. Tentas sentir-te grata.

Clarissa, com 52 anos, sabe que atrás destas portas…não há nada mais… que pessoas vivendo as suas vidas.

Estamos na meia idade…Somos tudo, tudo ao mesmo tempo. Não é extraordinário?

Clarissa sente-se, de súbito, deslocada.

É-lhe revelado que toda a sua mágoa e solidão deriva simplesmente de fingir viver neste apartamento…e que, se partir será feliz…será ela mesma…Depois essa sensação passa…Isto é de facto…a sua vida. Não quer outra.

…não pode deixar de sentir o declínio do mundo por ela…sou insignificante, pensa.

“Ela podia…ter entrado noutro mundo. Podia ter tido uma vida tão intensa…
como a literatura.

Aquilo é quem eu era. Isto é quem eu sou...

Ela é uma interessante mulher comum…

…Fui comprar flores para a festa…”




“Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora …saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, …desejamos, acima de tudo, mais.”

Troti


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  E o romance é convertido num filme pela indústria americana...
Reconheço que o livro estava a pedir essa expansão. Lembro-me que quando soube da decisão fiquei contente, e ansiosa para poder ver o resultado. Relembrei a sequência de imagens que a leitura me provocou, as ligações entre as histórias, a luz comum, os ruidos comuns, as pontes entre estas 3 mulheres e os três momentos... Sublime desafio!

Mas. Chegou o momento de ver o resultado, e. Um livro destes e o filme é. Claro que a indústria se rendeu, houve óscares, sucesso de bilheteira. E?

Eu saí triste da sala de cinema. Tive vontade de reler o livro para esquecer, para completar. Provavelmente é inevitável quando se gosta muito de um livro. Mas.

Esqueçam o filme, mesmo se tiverem gostado... leiam o livro!

Leitora

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  Pensamento : o lar é o reflexo dos seus habitantes
" Sally and Clarissa live in a perfect replica of an upper-class West Village apartment; you imagine somebody's assistant striding through with a clipboard: French leather armchairs, check; Strickley table, check; linen-colored walls hung with botanical prints, check; bookshelves studded with small treasures acquired abroad, check. Even the eccentricities - the flea-market mirror frame covered in seashells, the scaly old South American chest painted with leering mermaids - feel calculated, as if the art director had looked it all over and said, "It isn't convincing enough yet, we need more things to tell us who these people really are."
O recheio do lar é o reflexo de quem lá habita.
Navegadora

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  Outros medos de um escritor...
"Almost two hours have passed. She still feels powerful, though she knows that tomorrow she may look back at what she's written and find it airy, overblown. One always has a better book in one's mind than one can manage to get onto paper. (...)"
Navegadora

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  Que outra coisa podia ter feito?
"Se fosse capaz de falar, diria alguma coisa - não sabe ao certo o quê - sobre ele ter tido a coragem de criar e sobre, o que talvez ainda fosse mais importante, ter tido a coragem de amar singularmente, ao longo das décadas, contra toda a lógica. Falar-lhe-ia de como ela, Clarissa, o amara em troca, o amara intensamente, mas o deixara na esquina de uma rua há mais de trinta anos (e, na realidade, que outra coisa podia ter feito?)". p. 198

imorgado

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  A cidade de Nova Iorque
Se Mrs Dalloway nos abre a porta da sua casa em Westminster e passeia connosco nas ruas de Londres, pela mão de V. Woolf, já Clarissa Vaughan (a encarnação de Mrs Dallway para Richard) nos leva a Nova Iorque e dá-nos a entrever a vida em Greenwich Village no fim do século XX (como faz questão de sublinhar o autor logo no 1º capítulo).

"Nova Iorque, no seu estridor e na sua severa decrepitude castanha, no seu insondável declínio, gera sempre algumas manhãs estivais como esta, manhãs invadidas em todo o lado por uma afirmação tão determinada de vida nova que é quase cómica, como uma personagem de cartoon que sofre infindáveis e horrendos castigos e sai sempre incólume, ilesa, pronta para mais."
Cf. p. 15 da edição de "AS Horas"
pelo Público, trad. de
Fernanda P. Rodrigues.

E depois há a palavra "imersão" para descrever a experiência (durante os dias de semana) de aceder (a partir do hotel, do carro, da saída do metro, enfim...) às ruas de Nova Iorque.

imorgado

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  Mrs. Brown
Como, interroga-se Laura, pôde alguém capaz de escrever uma frase como aquela – capaz de sentir tudo quanto estava contido numa frase como aquela – acabar por se suicidar?
Enquanto Clarissa vive o seu dia esquecida do seu cognome, das óbvias simetrias entre ela e a Mrs. Dalloway do romance de Virginia Woolf (mesmo das simetrias entre ela e a prória Virginia Woolf), Laura Brown vive o seu sob a sombra do romance. E, como nós o fizemos há duas semanas, enquanto liamos “As Ondas”, interroga-se sobre a mulher que o escreveu – sobre a sensibilidade da mulher que o escreveu.
Virginia Woolf fascina-a. Fascina-a por tudo o que pressente em si mesma de Virginia. Fascina-a porque, apesar do quotidiano (o supermercado, o cabeleireiro, o marido e o filho), não se esqueceu ainda de Laura Zielski, a rapariga solitária, a leitora incessante. Não se esqueceu ainda do que poderia ter sido (de que poderia, como diz Neville de “As Ondas”, ter sido qualquer coisa); não se esqueceu de tudo o que deseja – produzir um objecto dotado de beleza, uma coisa maravilhosa mesmo para aqueles que não a amam. E esse desejo – essa consciência do desejo em simultâneo com a consciência da sua incapacidade para o cumprir – torna a sua existência pesada, muito mais do que qualquer exigência, formulada ou não, que lhe possa ser feita.
nastenka-d

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  «O livro que temos na nossa imaginação»
O tom é dado pelo prólogo: imediatamente conhecemos o fim, pelo menos um dos finais que nos esperam. No entanto, apesar do suicídio de Virginia Woolf pairar sobre o livro desde as primeiras páginas, há uma outra qualidade que transcende, ultrapassa, ou pelo menos não permite que a tristeza e a depressão dominem. (Mais à frente, veremos que Mrs. Brown pensa o mesmo.)
Tudo isto penetra na ponte , ecoa na madeira e na sua pedra e penetra no corpo de Virginia. O seu rosto, comprimido de lado contra a estaca, absorve tudo: a camioneta e os soldados, a mãe e o filho.
nastenka-d

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  ?
"O amor é profundo, um mistério, quem quer compreender todas as suas particularidades?

Troti

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  ?
"O que está afinal errado nas pessoas?

Troti

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  O Bolo V


Laura Brown é a personagem mais forte do livro. É por ela que passam as angústias da identificação do eu, é ela que nos deixa ir na sua viagem interior. É Laura que vive a tentação de libertação, a indefinição do rumo, a definição do trilho, a escolha do caminho.
Numa simples tarefa - fazer um bolo – Laura projecta a sua desorientação e parte para uma introspecção profunda que lhe mostra as faces da incerteza e da procura, da opção da vida e da determinação da morte Sentimos a tristeza da frustração, a morte do sonho, a imposição da realidade, o peso da responsabilidade, a opção do destino.


É ela que vai viver, a partir de agora, As Horas.




“Enquanto põe os pratos e os garfos na mesa…parece subitamente a Laura que conseguiu, que no último momento foi bem sucedida – do mesmo modo que um pintor poderia, com uma última pincelada de cor, salvar um quadro da incoerência; do mesmo modo que um escritor poderia escrever a linha que poria em evidência os padrões encobertos e a simetria do drama.”



.Troti

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  O Bolo IV
“Laura encontra-se numa espécie de zona crepuscular…É ela e ao mesmo tempo não é…Apodera-se dela uma sensação de não ser…não é ninguém, não é nada…Esteve ausente…O peso e a textura da vida reafirmam-se; a sensação de não estar em lado nenhum desaparece…Ela reconhece-se como mulher e mãe…


“O rapazinho percebe …observou-a a fazer um segundo bolo e a meter o primeiro debaixo de outro lixo.”
“Fizemos-lhe um bolo muito bonito”…-Sim, fizemos-lhe…”
(“Claro que deve perceber quando ela está a mentir”)
(Observá-la-á sempre.”)


“Dan, ao apagar as velas, espalha …gotículas se saliva clara na superfície
lisa da cobertura do bolo.”
(“Um espasmo de fúria sobe …por ela…Ele é vulgar…
grosseiro, estúpido…Ela está ali presa, encurralada para
sempre…tem de continuar.”)


“Gostavas de me ajudar a cortar o bolo?”-pergunta-lhe o pai. Richie …sim
( Laura observa….A sala parece-lhe… cheia com o futuro.
Tem importância. Brilha.”)



“Laura lê o momento enquanto ele passa. Aqui está, pensa; já lá vai. A página está prestes a ser virada…


…E se aquele momento…fosse suficiente? E se decidisse não querer mais do que isso?...


Laura hesita…
Vens-te deitar?...
– Vou.”


Troti

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  O Bolo III
”Entrou em pânico…sentia-se vazia, exaurida pelo filho, pelo bolo…”
( “Enlouquecer é isto?)
(“E por isso saíra durante umas horas…”)


“O que Laura lamenta, o que quase não consegue suportar é o bolo.”
(“…esperara criar alguma coisa mais bonita, mais expressiva.”)


“Quer o sonho de um bolo expresso num bolo real…Queria ter criado um
bolo que banisse a mágoa, mesmo que fosse por momentos.”)
(“Não conseguiu. Desejaria não se importar com isso. Algo está
errado nela.”)
(“…durante..duas horas está realmente livre…Irá para um hotel”)


“…veio, de alguma maneira obscura, para fugir de um bolo.”
(“Tem a chave, passou a barreira.”)
( “Tem de novo a sensação de ter entrado num sonho…”)
(“Está tão longe da sua vida. Foi tão fácil.”)

(“Aqui está em segurança…Á espera de alguém.
De alguma coisa.)

Troti

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  O Bolo II
“O bolo saiu menos bom do que ela esperara. É apenas um bolo…mas ela imaginara algo mais…Imaginara um bolo maior, mais excepcional. Este bolo…dá uma sensação de pequenez…não apenas no sentido físico, mas também como entidade…
“O seu bolo pode não ter saído bem, mas ela é amada…”
(“O que preferiria ela então?”)


“Olha nervosamente para o bolo, com pena de não poder escondê-lo.”
( “Laura compreende…Uma pessoa pode ser competente
ou indiferente”)
(“Laura …tentou e falhou…”)


“Que mais se poderá dizer a respeito do bolo?”
(“…visão, …raiva…empenhada acima de tudo em criar…
o quê? Isto…este bolo de aniversário…”)
(“Sente-se…cansada”)
(“…este mundo, parece-lhe de súbito…atrofiado…distante de tudo.”)


“… sem hesitar, pega no bolo e despeja-o para o latão do lixo.”
(“Agora pode recomeçar”)


Troti

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  O Bolo I
“Ela, Laura, gosta de imaginar…que também tem um laivo, um lampejo de brilho…
(“…esperançadas suspeitas fechadas…. A mulher de mágoas…
que preferia estar noutro lado….que aceitou…)
(“Que se passa com ela?)




“Pensa no bolo que fará…”
(“É quase perfeito, é quase suficiente, ser uma jovem mãe
numa cozinha amarela…”)
(“Ficará ali. Fará tudo o que é preciso, e até mais.”)


“Vai fazer um bolo de aniversário – apenas um bolo - , mas na sua mente, neste momento, o bolo é brilhante e magnífico…É apenas um bolo…Mas mesmo assim…Há bolos e bolos.”
(“Neste momento….espera sentir-se tão satisfeita como um escritor
ao escrever a sua primeira frase…”
(“Por um momento ela quer apenas partir…ser livre…”)


“Parece de súbito fácil fazer um bolo, criar um filho.”
(“Parece possível… que tenha transposto…a linha que
sempre a separou…de quem preferiria ser.”)
(“Parece que vai ficar bem. Não perderá a esperança. Não lamentará
as suas possibilidades perdidas, os seus talentos inexplorados.”


Troti

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segunda-feira, outubro 27, 2003
  O eterno medo do escritor, neste caso de Virginia
"(...)She will write for an hour or so, then eat something. Not eating is a vice, a drug of sorts - with her stomach empty she feels quick and clean, clearheaded, ready for a fight. She sips her coffee, sets it down, stretches her arms. This is one of the most singular experiences, waking on what feels like a good day, preparing to work but not yet actually embarked. At this moment there were infinite possibilities, whole hours ahead. Her mind hums. This morning she may penetrate the obfuscation, the clogged pipes, to reach the gold. She can feel it inside her, an all but indescribable second self, or rather a parallel, purer self. If she were religious, she would call it the soul. It is more than the sum of her intellect and her emotions, more than the sum of her experiences, though it runs like veins of brilliant metal through all three. It is an inner faculty that recognizes the animating mysteries of the world because it is made of the same substance, and when she is very fortunate she is able to write directly through that faculty. Writing in that state is the most profound satisfaction she knows, but her access to it come and goes without warning. She may pick up her pen and follow it with her hand as it moves across the paper; she may pick up her pen and find that she's merely herself, a woman in a housecoat holding a pen, afraid and uncertain, only mildly competent, with no idea about where to begin or what to write. (...)"
Não consegui ultrapassar este excerto do livro de Cunningham sobre aquele eterno medo da página em branco. O poder inibidor da folha por estrear. Decerto que para além de Virginia, de Cunningham muitos de vocês, escritores ocasionais, já passaram por esses momentos de frustração completa! Quando li este excerto lembrei-me imediatamente de uma frase de Josephine March que dizia que o escritor nunca deveria saber o que iria escrever. O que acham vocês disto?
Navegadora

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  A beleza tem degraus?
Em As Horas , as personagens são humanamente imperfeitas, (con)vivem com uma beleza manchada de carne, de sensações, de tempo e de mortalidade.
À sua maneira, todas elas cultivam essa vida perecível e é precisamente por isso que desejam uma beleza maior e têm vontade de (a) criar, sabendo sempre, no entanto, que correm o risco de fracassar, pois o fracasso faz parte da sua natureza:

«Escrever em semelhante estado é a mais profunda satisfação que conhece, mas o seu acesso a ele vem e vai sem avisar. Pode pegar na caneta e segui-la com a mão enquanto ela se move pelo papel; pode pegar na caneta e descobrir que é meramente ela própria, uma mulher de roupão segurando uma caneta, receosa e hesitante, apenas moderadamente apta, sem nenhuma ideia acerca de por onde começar ou do que escrever.» (p. 39)
Alex

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  As Horas e a música
Há já bastante tempo que li o livro e, por essa razão, não tenho bem presente todo enredo. Mas lembro-me, perfeitamente, que do que mais gostei no livro foi a forma como a história das três personagens principais se cruzava à medida que o livro avançava.
Gostei tanto do livro que fui imediatamente comprar o “Mrs. Daloway” da Woolf. Que acabei por não ler porque o ofereci a um outro BC’er.
Entretanto, vi o filme. Que, apesar das execelentes interpretações da Nicole Kidman e da Julianne Moore, me desiludiu um pouco, pois parte da história foi cortada, para variar. No entanto, a banda sonora é lindíssima e comprei-a logo ao sair do cinema. Eu sou assim, BSOdependente!
No cd vem um pequeno texto de Michael Cunnigham, do qual cito aqui algumas partes:
The shortest and simplest answer I’ve ever been able to offer when asked why I write novel is, because I can´t sing, play an instrument, or compose sonatas. I mean no disrespect to literature if I say that (…) Being in love with music but possessing no talent for producing it, I try to compensate by listening to music almost every morning before I start to write, to keep reminding myself that language on the page can be almost as rhythmic and penetrating as the work of Schubert, Van Morrison, or Philip Glass.
Each novel I’ve written has developed a soundtrack of sorts; a body of music that subtly but palpably helped shape the book in question. I don’t imagine most people who’ve read any of my books could readily see their connections to a particular pieces of music (…) The one constant since I started trying to write novels, however – my only ongoing act of listening fidelity – has been the work of Philip Glass.
I love Glass’s music almost as much as I love Woolf’s “Mrs. Dalloway”, and for some of the same reasons. Glass, like Woolf, is more interested in that which continues than he is in that which begins, climaxes, and ends; he insists, as did Woolf, that beauty often resides more squarely in the present than it does in the present’s relationship to past or future. Glass and Woolf have both broken out of the traditional realm of the story, whether literary or musical, in favor of something more meditative, less neatly delineated, and more true to life. For me, Glass can find in three repeated notes something of the strange rapture of sameness that Woolf discovered in a woman named Clarissa Dalloway doing errands on an ordinary summer morning. (…)

E este texto continua.
É claro que a BSO do filme é da autoria de Philip Glass, como não podia deixar de ser. É um cd lindíssimo!! Tal como se fica com vontade de ler o “Mrs. Dalloway” depois de ler “As Horas”, também se fica com vomntade de ouvir Philip Glass depois de ler este pequeno texto de Michael Cunningham!

Florbela

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  Mrs. Dalloway
Vou começar com uma evidência: é em Mrs. Dalloway que estamos mais próximos (mas também mais inconscientes) de Mrs. Dalloway. Desde logo na forma como Clarissa sai, no dia da sua festa, para comprar flores; mas também na simetria que se estabelece entre as personagens de um romance e do outro. Mas talvez o que mais aproxima a personagem do romance que lhe dá nome seja a forma como ela vai percorrendo as ruas, e como se relaciona com o que vê, como indiscriminadamente pensa num vestido ou reflecte naquilo em que se tornou, aos cinquenta e dois anos. A paragem em frente a uma montra de livraria desperta-lhe recordações, uma recordação em particular: : Parece ter sido nesse momento que começou a residir no mundo. Ou então diz-nos o que sente, no momento exacto em que o sente, passando da memória à sensação: Os seus lábios tocam a pele de Bárbara e o momento torna-se súbita e inesperadamente perfeito.
E talvez seja essa a chave (uma das chaves), para Clarissa, chamada Mrs. Dalloway: a substituição do prazer dos objectos pelo prazer das sensações.
nastenka-d

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  Sob influência e sem angústia
A obra "As Horas" de Michael Cunningham parece-me consistir num bom contra-exemplo para a argumentação em que assenta a teoria de Bloom sobre a influência (está certo, Harold Bloom* fala sobretudo da influência poética, mas mesmo assim permito-me continuar nesta linha de interpretação). Onde Bloom fala da angústia da influência e da praga que ela constitui para todos os poetas que se querem originais, Cunningham, na esteira de outros grandes autores, prontifica-se a ficar à mercê dessa influência do/a grande autor/a, assumindo-a e revitalizando a sua própria escrita através dessas vozes que o antecederam.

Não sei se concordam comigo, mas se a personagem de Mrs Brown age explicitamente sob a sugestão da sua leitura de Mrs Dallway (e não é esse o estado do leitor, por excelência?), o próprio Cunningham o faz também. O escritor compõe toda a trama convocando a escritora V. Woolf e, sob sugestão da obras dela, escreve este "As horas". E, pordoem-me a arrogância (ou a leviandade), mas há um ou outro parágrafo em que entrevemos a presença de Mrs Woolf. De passagem.

Richie, o menino de Laura Brown, não é verdadeiramente uma personagem do universo "As Ondas"?

"Momentaneamente, Richie muda de forma. Momentaneamente, brilha, intensamente branco."


*Harold Bloom, A angústia da influência, uma teoria da poesia, \trad, Miguel Tamen, ed. Cotovia, Lx., 1991.

imorgado

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«Não creio que
duas pessoas
pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
V.»


«I dont
think two
people
could have been happier than we have been. V.»




Leitora

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  «O começo de um livro é precioso»
(Socorro-me do título do último livro de Llansol)

Ainda falta comprar as flores.

Mrs. Dalloway disse qualquer coisa (o quê?) e foi ela mesma comprar as flores.

Mrs. Dalloway disse que compraria ela mesma a s flores.


Gosto particularmente da forma como são enlaçados os primeiros capítulos de “As Horas”. A frase, Mrs. Dalloway disse que compraria ela mesma a s flores, é um dos inícios de um livros mais bonitos que conheço; abre-nos verdadeiramente as portas de um mundo. Talvez tenha soado na época, como pensa Mrs. Woolf, «um pouco comum demais», começar assim um livro a meio de uma acção, e logo uma tão aparentemente fútil como sair para comprar flores para uma festa. Mas tornou-se incontornável, e Cunningham sabe-o, usa a frase, declina-a, como chave para os três mundos que nos faz abrir.
nastenka-d

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  Revisão de "Mrs Dalloway" da V.Woolf??
Sinceramente, não me parece.

Joyce também não reviu "A ODISSEIA", antes reviu o romance em si, pretendeu voltar a página a todos os modelos que partiram do clássico de Homero e que aos olhos de Joyce estava totalmente esgotado. Arrasa, por exemplo, com a estrutura pré-instalada, com o "herói"... Joyce pretendeu rever a história da literatura, e conseguiu-o, apesar da relutância com que as suas duas obras fundamentais foram recebidas.

Já Cunningham parece querer render a justa homenagem a Virginia. Vai buscar a sua obra, não só "MRS DALLOWAY" que dá o mote e do qual rouba passagens, nomes, e o título que inicialmente tinha sido escolhido, mas também a poesia de "AS ONDAS", o diário da escritora... E ficciona o ficcionado, claro, retomando o contexto de "MRS DALLOWAY", transportando-o para um dia de Junho do final do século XX em Nova Iorque.


Leitora

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- É um livro muitíssimo esquisito.
- É o que toda a gente parece pensar.
- Dá a sensação de ter algumas dez mil páginas. Não acontece nada. E de repente, bum! Ela mata-se.


nastenka-d

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  Evocação: Virginia Woolf no prólogo
«She walks purposefully toward the river, certain of what she'll do, but even now she is almost distracted by the sight of the downs, the church, and a scattering of sheep, incandescent, tinged with a faint hint of sulfur, grazing under a darkening sky. She pauses, watching the sheep and the sky, then walks on.»



"Detém-se a observar as ovelhas e o céu e depois continua a andar" Apesar de determinada, não deixa de observar o encanto do mundo. Estava longe do mar, senão pararia a ouvir as ondas...


Leitora

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  Sobre o Autor
Michael Cunningham nasceu em Cincinnati, Ohio, em 1952. Reside em Nova Iorque.

Publicou A Home at the End of the World em 1990, Flesh and Blood em 1995. O seu conto White Angel ganhou o prémio Best American Short Stories no ano 1989.

Em 1999 com o romance The Hours ganhou dois prestigiadíssimos prémios literários: Pulitzer Prize for Fiction e PEN/Faulkner Award.



Leitora

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domingo, outubro 26, 2003
  O que nos salvaria da destruição se fôssemos invadidos por extraterrestres
Vale a pena ler esta entrevista em que Michael Cunningham fala sobre o livro e o filme a que este deu origem.
As partes que achei mais interessantes abordam alguns dos temas centrais de As Horas, como o desejo de beleza, o impulso para a criação e a possibilidade do fracasso:

«I don't think you need to know anything about Woolf in order to be able to understand her compulsion to create something beautiful, which is one of the things that I think makes the human species most interesting and most worth preserving. If extraterrestrials suddenly appear before us and say, "Give us one reason why we shouldn't destroy the earth," I would say, "We're trying to make something beautiful!" We fail more often than we succeed.»

«One of the things I came to understand in Laura Brown that I think is also true of my mother is that she was driven by some of the same impulses that drove Virginia Woolf: the desire to create something greater than a human being could possibly create. The only difference was one of them was trying to make a perfect cake and one of them was trying to write a great book.»
Alex

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  "As Horas"
Um dia. Três mulheres. Muitos sentimentos.

Confesso: “As Horas” não é uma das minhas obras favoritas. É um livro escrito de forma muito hábil, feito de tramas que se reflectem, situações que se cruzam, ocorrências que se mesclam, vidas urdidas numa teia de sentidos em ziguezague. Dá ao leitor a sensação estranha de, também ele, entrar de alguma forma na ficção – quem nunca teve a mente a fervilhar; quem nunca viveu um momento especial ? Promove, assim, uma identificação mais imediata com as protagonistas e com a acção:


O autor aplica-se neste exercício de coincidências e aqui lhes deixo alguns exemplos:



“Neste momento há infinitas possibilidades, horas inteiras à sua frente…”
……
“Há esta hora, neste momento…”
(Mrs Woolf)


“Neste momento…espera sentir-se tão satisfeita e cheia de expectativa como um escritor ao escrever a primeira frase…
(Mrs. Brown)

……………………………………………………………………………………….


“Que emoção, que choque estar viva numa manhã de Junho…vai comprar flores e dar uma festa…”
(Mrs. Dalloway)

“Pode ser um bom dia e , por isso, precisa de ser tratado cuidadosamente…”
(Mrs. Woolf)

“…quando abriu os olhos há minutos… soube que ia ser um dia difícil…
(Mrs.Brown)

………………………………………………………………………………………


“O espelho é perigoso;.às vezes mostra-lhe a manifestação de ar escuro que
iguala o seu corpo, toma a sua forma, mas se mantém atrás, a observá-la.”
(Mrs. Woolf)

“Quando olha para o espelho…imagina, por instantes, que está alguém atrás dela. Claro que não está ninguém; é apenas uma ilusão provocada pela luz. Durante um momento…imaginou uma espécie de eu fantasma, uma segunda versão de si mesma, parada logo atrás dela, observando.”
(Mrs. Brown)

…………………………………………………………………………………………..


“Ela falhou e agora as vozes voltaram, sussurram, indistintas, imediatamente
fora do alcance da sua visão, atrás dela, aqui, não…”
( no prólogo de “As Horas”)

“Estou a começar a ouvir vozes e não me consigo concentrar.”
(bilhete de suicídio de Virgínia Woolf)

“Depois de ela ter passado para este reino de implacável luminosidade começam as vozes.”
(Mrs. Woolf)

“-Elas estão aqui, Richard?
- Quem? Ah, as vozes? As vozes estão sempre aqui.”
(Mrs. Dalloway)

…………………………………………………………………………………………….


“Virgínia vê que o pássaro…já está morto…O olho, uma perfeita conta preta, está aberto e os pés cinzentos, maiores do que seria de esperar, enrolados sobre si mesmos.”
(Mrs.Woolf)

“Richard jaz…Ainda tem calçados os chinelos de feltro cinzento…Tudo quanto consegue identificar…são os seus lábios entreabertos e um olho aberto.”
(Mrs. Dalloway)

…………………………………………………………………………………………….


“No calor matinal de Junho, despida do roupão, a cadeira, com o seu arrojado tecido novo, parece surpreendida por se descobrir como uma cadeira.”
(Mrs. Brown)

“A cadeira de Richard…forro …sem cor e entretecido…braços gastos…cheira a putrefacção irreversível…ninguém lhe pegaria.”
(Mrs. Dalloway)

…………………………………………………………………………………………….


“Parece, não sabe porquê, que saiu do seu mundo e entrou no mundo do livro.”
(Mrs. Brown)

“Tem a sensação de haver saído de casa (onde há carne de vaca assar e candeeiros acesos) e entrado no reino da ave morta.”
(Mrs. Woolf)

…………………………………………………………………………………………….


“Noutro mundo, ela poderia ter passado a vida inteira a ler. Mas este é o novo mundo, o mundo resgatado …”
(Mrs Brown)

“Ela podia, pensa, ter entrado noutro mundo. Podia ter tido uma vida tão intensa e perigosa como a própria literatura.”
(Mrs. Dalloway)

……………………………………………………………………………………………


“Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.”
(carta de despedida de Virgínia Woolf para o marido )

“- Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.”
( frase de despedida de Richard - Mrs. Dalloway)




E há também as flores, há os beijos, há o amor, há a homosexualidade, há a vida e há a morte.


Troti
………………………………………….

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  Horas, horas, horas...
“Mas ainda há as horas, não é verdade? Uma e depois outra…e depois…há mais outra…"

Troti

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  "As Horas"
“Uma expectativa… antes de o Big Ben bater as horas. Ei -lo agora! Ressoava. Primeiro um aviso musical; depois a hora, irrevogável…lá em cima, no céu estava o que ela amava: vida…este momento…




Excerto de "Mrs. Dalloway" de Virgínia Woolf no livro "As Horas" de Michael Cunningham


Troti

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  Voltamos às Ondas
Ondas siderais de olhos cristalinos,
de amantes sinceros na aurora da vida,
ondas de abraços, de beijos infernais,
ondas violentas de espaços perdidos,
de sinais esquecidos na poeira do olhar,
ondas desorientadas, despidas, estéreis,
ondas de exaltação e de prodígio,
ondas desesperadas de intenção,
ondas, ondas, ondas,
de infâncias vividas num prado de incertezas,
ondas impulsivas de gestos intensos,
ondas furtivas de desejos famintos,
ondas pantanosas, desertas de sentido,
divididas, emotivas, sinuosas,
ondas desmembradas, desprotegidas,
ondas de magma que traem os passos,
ondas sinistras de jogos perversos,
de alcance desmedido e cárcere secreto,
ondas estranhas, enormes, caprichosas,
ondas de silêncio, de soluços ingratos,
ondas arrebatadas, destrutivas, finais,
gigantes em pranto no extremo do que é ser.

Troti
 
sábado, outubro 25, 2003
  Digestão
Introdução ao processo da nutrição

Uma vez ingerido o alimento, inicia-se uma série de transformações e uma acidentada viagem pelo corpo, até que os nutrientes nele contidos cheguem às células: o seu destino final.
A digestão é o processo mediante o qual os alimentos que ingerimos se decompõem nas suas unidades constituintes, até se obterem elementos simples que sejamos capazes de assimilar…
A digestão começa na boca…

.............

Absorção celular

Este é o último passo do processo e o fim desta viagem. Os nutrientes que flutuam no nosso mar interior são absorvidos pelas nossas células, passando através das membranas que as recobrem, e uma vez no interior são digeridos, transformados e utilizados em função das necessidades…
( pwp.netcabo.pt/naturosofia)




Para uma boa digestão, “Ulisses” deve levar-se à boca de uma forma correcta. É útil alguma temperança para degustar as iguarias inesperadas. Optar por pequenas garfadas, salivar bastante, tomar o paladar, envolver com a língua vários sabores, deslocar um pedacinho para a bochecha e descobrir-lhe o gosto, extrair as seivas e espremer os sucos, destapar os temperos e explorar as matérias, sorver os perfumes e chupar o tutano, apartar os ossos, trincar os nervos, esmoer as cartilagens e jorrar as espinhas, sugar os molhos, derreter o mel e destilar o fel, evitar os soluços, impregnar bem nas papilas gustativas as substâncias preferidas, controlar a gula e mastigar até ao fim, fazer um bolo alimentar perfeito, deglutir convenientemente, ruminar se necessário...

Como experiência gastronómica “Ulisses” pode ser um pitéu.
Um pitéu para o maori não é o mesmo que para o inuit ou o masai.

Troti
 
 
Neste capítulo aparecem frases carregadas de sentido:


“Conversas de coração para coração”

“Porque a vida é uma corrente.”

“Miséria gentil.”

“Não há gratidão nas pessoas.”

“Nunca se sabe com quem se está a falar.”

“As palavras são inúteis.”

“A natureza abomina o vazio.”

“Os acontecimentos vindouros projectam as suas sombras à frente.”



“Com humildade vai-se pela vida fora.”

Troti
 
  Paralelismo
Há várias referências que estabelecem um paralelo evidente com a narrativa da “Odisseia”.

- “E arpoando os homens como peixes, os Lestrígones levaram para casa o seu repugnante jantar”


- “Circe…depois que lhes deu a poção e eles a beberam, bateu-lhes com a vara, para logo os encurralar nas pocilgas…E choravam, encurralados, enquanto Circe lhes lançava…coisas de que se alimentam os porcos…


Ulisses sobe para a cama da lindíssima Circe e fica no seu palácio “comendo carne em abundância e bebendo vinho suave.
Bloom sonha: “Tragando néctar numa festanças com deuses, pratos de ouro, tudo ambrósia.”


Troti
 
sexta-feira, outubro 24, 2003
  Que homem é Bloom?
Bloom sonha com Molly, recorda velhos tempos e medita:

"Como o tempo voa, hein?...Mas então eu era mais feliz. Ou eu era esse? Ou sou eu agora eu? Tinha vinte e oito. Ela tinha vinte e três...O tempo não se pode trazer de volta...E voltarias atrás? Não és feliz em tua casa, pobre mauzão?...Inútil voltar atrás. Tinha de ser...Corrente da vida.


Ao mesmo tempo desespera com a aproximação da hora em que será efectiva a sua traição :
"Duas"...O tempo a passar...Os ponteiros a andar. Duas. Ainda não."
"Depois, por volta das seis já posso. Seis. Seis. O tempo já terá passado. Ela.


Na sua lascí­via pensa em comprar "uma dessas saias interiores de seda, para a Molly, da cor das suas ligas novas... "Mas não consegue :
"Hoje..Hoje..Nem pensar."

Ele sabe da traição e não age. Não a vai travar. Ele sabe e aceita. Ele é o homem que suporta ouvir falar de Blazes Boylan e engole o incómodo com o vinho:

"Sinto-me melhor. Borgonha. Um bom estimulante..Quem foi o primeiro que destilou? Um tipo qualquer que andava triste. Coragem à custa do álcool."

Que vê Blazes Boylan :É.É...É?...Sim, é...Talvez não me tenha visto...Num minuto estou a salvo...Não me viu...Passa das duas...O meu coração!...Portão..Salvo!."

E que foge do motivo da sua angústia.

Que homem é Bloom?
Pelos frequentadores do pub ficamos a saber que é um excelente irmão(da maçonaria), que é "Homem decente e pacífico...É um homem seguro...Sabe-se que deu a mão a alguém que precisava de auxílio...Oh, Bloom tem um lado bom".

Mas também ficamos a saber que "...há uma coisa que nunca fará" que nos faz compreender que ele não se envolve, não vai nunca "perder as estribeiras", não se compromete. Vê-se bem este aspecto no relacionamento com as correspondentes. Bloom é um plácido. Agora.

Vamos conhecendo Bloom à  medida que Joyce deseja.

"E se eu me atirasse daqui abaixo?"

Troti
 
  Ainda Virginia Woolf
A Cristina tinha-nos prometido um texto de Yourcenar sobre Virginia Woolf, a propósito da tradução que ela fez de "As Ondas". Pois bem, aqui o temos. Obrigada!
nastenka-d
 
  Nassau Street: onde tudo começou
A meio de Lestrygonians (8º capítulo) Bloom passa por Nassau Street, precisamente a rua onde Joyce e Nora se encontraram pela primeira vez no dia 10 de Junho de 1904:

He crossed at Nassau street corner and stood before the window of Yeates and Son, pricing the field glasses.

No mesmo capítulo, mas já na Grafton Street, agora na tradução de Houaiss, que me parece bem mais alegre e próxima da linguagem de Joyce que a portuguesa:

A Rua Grafton alegre com toldos abertos seduzia-lhe os sentidos. Musselinas estampadas, sedas, damas e dotárias, tilintar de arreios, casqueios surdestrepitando no calçamento rescaldante.

A rua é o mar onde Bloom navega com os sentidos à deriva.

A fotografia em baixo mostra Nassau Street como era no período em que Joyce e Nora se conheceram. Lá está a Yeates and Son, no lado direito.




riverrun
 
quinta-feira, outubro 23, 2003
  Contrastes
O homem pode ser basicamente um animal, mas tem a faculdade de pensar. Neste capítulo Bloom pensa com bondade. Assistimos a um desnudar da sua humanidade, reveladora de uma sensibilidade que se pressentia no 4º capítulo:

- Ele tem pena das gaivotas:
“Espera,. Aquelas pobres aves.”

- Ele tem piedade pela filha de Simon Dedalus:
“Meu Deus, a roupa dessa pobre criança está em farrapos. E também parece mal alimentada.”

- Ele é compreensivo com a Sr.ª Breen:
“Deixa-a falar. Olha-a a direito nos olhos. Acredito em ti. Confia em mim.”

- Ele fica triste com o sofrimento de Mina Purefoy:
“O seu pesado olhar de pena absorvia as notícias. Estalou a língua em compaixão. Tch! Tch!.

- Ele é critico em relação aos partos:
“Tinham de inventar uma coisa para acabar com isso.”

- Ele é atento às dificuldades das mulheres versus homens:
“Devia haver sítios para as mulheres. A correr para as pastelarias.”

- Ele tem humanidade pelo rapaz cego:
“Eu atravesso-o…Pegou-lhe gentilmente pelo magro cotovelo: depois tomou-lhe a mão frágil, vidente, para o guiar…Pobre rapaz.”



“As pessoas deviam ajudar”


Este é um capítulo de contrastes.

Troti.
 
 
.....................


“Dizem que foi uma freira que inventou o arame farpado.”


Troti
 
 
Queria salientar o pensamento de Bloom em relação às mulheres. Ao mesmo tempo que, para elas, vai a sua solidariedade de que já falei, vai também o seu sarcasmo e a sua volúpia ( “O que eu queria era ser um touro para ela” ) . Em relação a Molly esta sensação é permanente, e surgem na sua mente imagens de recordações libidinosas, potenciadas pela euforia do espírito que a acalmia da fome saciada lhe proporciona.”O vinho resplandecente permanecia-lhe no paladar, tragado… “Parece um toque secreto que me conta memórias”:

“Branca e refrescada de loções a sua mão tocava-me, acariciava:…Arrebatado jazia sobre ela, os lábios cheios abertos cheios, beijei-lhe a boca. Uum…Lábios macios, quentes, pegajosos, como gelatina…Flores eram os seus olhos, toma-me, olhos desejosos…Ela jazia quieta…Jazia sobre ela selvaticamente…os seios de mulher…os duros mamilos erectos. Quente, lambi-a. Ela beijava-me. Eu era beijado. Cedendo tudo…

Desta imagem ele parte para uma divagação sobre a beleza feminina invocando as “Deusas esbeltas. Vénus, Juno: curvas que o mundo admira. Pode-se vê-las no museu da biblioteca…deusas nuas. Ajuda à digestão. Tudo para ver… Nunca olhei. Vou olhar hoje… Para ver se ela.”

Até as mulheres na sua imobilidade de pedra, mas moldadas com as curvas perfeitas da sensualidade feminina, o fazem vibrar!

Troti
 
  «O fluxo da linguagem, é isso. Os pensamentos. Solene.»
«That is how poets write, the similar sounds. But then Shakespeare has no rhymes: blank verse. The flow of the language it is. The thoughts. Solemn.»


Leitora
 
  «Pela obra é que se conhece o artista.»
Leitora
 
  Dublin, Irlanda
«Estranho que nunca tivesse visto o seu país verdadeiro. Irlanda, minha pátria.»

«Dublin. Tenho muito, muito que aprender.»

«Querida, suja Dublin»



Fico dividida. Por um lado sigo Bloom pela cidade, admiro a sua energia através dos seus olhos. Acredito que Joyce teve saudades da sua cidade. Por outro... interrogo-me se de facto Joyce gostava da sua terra. O retrato que faz dela é cru, desencantado.

Valerá, então, a imagem que nós, leitores, temos da cidade; as nossas projecções de memórias ou referências reais/imaginárias resolverão este dilema entre cidade amada, pátria desamada...


Leitora
 
quarta-feira, outubro 22, 2003
  Mulheres... e muito mais.
«A woman brought sin into the world. For Helen, the runaway wife of Menelaus, ten years the Greeks.»

«Uma mulher trouxe o pecado ao mundo. Por Helena, a fugitiva esposa de Menelao, dez anos os gregos.»



Assim. Em poucas palavras e frases incompletas, faz-se uma ponte com a ODISSEIA, e continua-se a destratar as companheiras, as pretendidas, e as outras todas...

E depois a magia destas frases, incompletas mas suficientes. Contidas. E também reveladoras de uma certa pressa de linguagem que seria praticada pelos jornalistas. Que é praticada por nós, também, nos diálogos e essencialmente no fluir do pensamento. Pormenores que nos cativam. Pormenores (?) que nos reflectem?

Leitora
 
  OS PENSAMENTOS
"A pobre faminta gaivota
Voa sobre as águas turvas."

"Isso é o que os poetas escrevem, com os sons parecidos. Mas Shakespeare, por sua vez, não tem rimas: verso branco. O FLUXO DA LINGUAGEM, É ISSO. OS PENSAMENTOS."


Troti
 
  Instinto 2
Lembram-se dos cegos do "Ensaio sobre a Cegueira"?


Troti
 
  Instinto
Este é o capítulo em que Joyce decide mostrar que o homem, na sua origem, é um animal, decidindo deixar-nos “Ver alimentar os animais”.
Escolhe o acto de comer para descobrir os mais básicos instintos humanos e os mais feios comportamentos. As descrições dos rituais alimentícios são repulsivas e cheias de palavras que causam nojo: “imundície”, “fedor”, “mijo”, “ranço” e semeadas de figuras com “Odores de homem”. “A escarrar serradura”, “devorando como lobos”, “a cuspir no prato: cartilagens semimastigadas”, “ a palitar os dentes”, “ a ruminar o emborcado”.
Essencial à vida, a comida é aqui explorada na sua vertente mais redutora para o ser humano. Bloom sente esta promiscuidade e transmite-nos um crescendo de rejeição. “Sou eu assim?”. “Cresceu-lhe o nojo”. “Fora, odeio porcos a comer.” Afasta-se desta bestialidade de comportamento e assistimos às suas sensações noutra vertente de acção. Com a fome e o instinto surge em Bloom a exaltação dos sentidos :

“Uma cálida carnosidade humana fixou-se-lhe no cérebro. O seu cérebro rendeu-se. Perfume de abraços tomou-o por inteiro. Com a carne obscuramente esfomeada, ansiava mudamente por adorar…Devo comer…Depois sinto-me melhor…acossado ainda…Corpos perfumados, quentes, cheios. Todos beijados, rendidos…

”O suave fogo do vinho queimou-lhe as veias. “
“Champagne e ostras…Faz efeito no sexual. Afrodisíaco.”
“Não me importaria de ser criado num hotel de moda…mulheres seminuas.”
“Tocados os seus sentidos, humedecidos, recordavam.”

Os instintos básicos aplacados sossegam a dor. Não é em vão que Joyce insiste em mostrar a podridão. Basicamente a humanidade é assim e só se redime com os instintos saciados.

“Comer ou ser comido. Matar! Matar!”


Troti
 
  Condição humana
«Formas adoráveis de mulheres esculpidas, junónicas. Adoráveis imortais. E nós a enchermo-nos de comida num buraco e a deitar fora por detrás: comida, quilo, sangue, excremento, terra, comida: ter de alimentar-se como quem abastece uma locomotiva.» Claro que é simplista dizer que a condição humana se resume a isto. Mas é o que temos mais tendência a esquecer, que somos bichos, feitos de matéria densa e carnal. E Joyce relembra-nos; só fechando o livro poderemos fugir a esta consciência.
nastenka-d
 
terça-feira, outubro 21, 2003
  United States of America vs. "One Book called Ulysses"
Ulysses não é só um livro difícil, mas também um livro perigoso, um livro violento, um livro radical, um livro fora-da-lei, um livro clandestino, um livro anti-colonialista, um livro anti-social, um livro psicótico, um livro pornográfico, um livro terrorista. Pareceu-me, portanto, oportuno partilhar as leituras do juiz que decretou finalmente, em 1933, a permissão para Ulysses circular livremente nos EUA. Até então Ulysses estivera banido do país por decisão do tribunal, alegando obscenidade:

«On cross motions for a decree in a libel of confiscation, supplemented by a stipulation -- hereinafter described -- brought by the United States against the book "Ulysses" by James Joyce, under Section 305 of the Tariff Act of 1930, Title 19 United States Code, Section 1305, on the ground that the book is obscene within the meaning of that Section, and, hence, is not importable into the United States, but is subject to seizure, forfeiture and confiscation and destruction.»

Durante esse período, muitos exemplares de Ulysses foram queimados pelas autoridades alfandegárias norte-americanas. No entanto, o interesse pelo livro levou a que muitos exemplares fossem traficados como contrabando através do Canadá e houve até mesmo um editor que lançou uma edição pirata do livro. Foi então que Joyce assinou um contracto com uma editora nova-iorquina, a Random House, que conseguiu junto do tribunal a livre entrada de Ulysses no país onde Benjamin Franklin disse um dia: «Without Freedom of Thought, there can be no such Thing as Wisdom; and no such Thing as publick Liberty, without Freedom of Speech.»

O documento que decretou o desfecho do caso termina assim:

«Without letting either of my assessors know what my decision was, I gave to each of them the legal definition of obscene and asked each whether in his opinion "Ulysses" was obscene within that definition.

I was interested to find that they both agreed with my opinion: that reading "Ulysses" in its entirety, as a book must be read on such a test as this, did not tend to excite sexual impulses or lustful thoughts but that its net effect on them was only that of a somewhat tragic and very powerful commentary on the inner lives of men and women.

It is only with the normal person that the law is concerned. Such a test as I have described, therefore, is the only proper test of obscenity in the case of a book like "Ulysses" which is a sincere and serious attempt to devise a new literary method for the observation and description of mankind.

I am quite aware that owing to some of its scenes "Ulysses" is a rather strong draught to ask some sensitive, though normal, persons to take. But my considered opinion, after long reflection, is that whilst in many places the effect of "Ulysses" on the reader undoubtedly is somewhat emetic, nowhere does it tend to be an aphrodisiac.

"Ulysses" may, therefore, be admitted into the United States.»


JOHN M. WOOLSEY
United States District Judge
December 6, 1933

O documento completo pode ser lido aqui.


riverrun
 
  Homens, homens, homens
(de volta a Ulisses, depois de Woolf)
«Gelado de ananás, limão cristalizado, caramelo de nata.» Começa assim o oitavo capítulo, mas logo nos afasta dos sabores preferidos da infância. Este é um capítulo dedicado á miséria humana, em todas as suas formas. »Deus quer vítimas em sangue. Nascimento, hímen, martírio, guerra, fundação de um edifício, oferta de um rim queimado.»
Nada nem ninguém escapa à enumeração das misérias: nem a filha de Simon Dedalus, irmã de Stephen, vinda do seu lar desfeito pela morte da mãe, à porta da casa de penhores; nem o pobre tonto Farrell, figura ossuda ambulante, ou a loucura anunciada de Dennis Breen, que procura reparação por duas letras de uma carta anónima recebida; ou a velhice precoce da senhora Breen: «Miséria gentil. Costumava vestir-se com gosto. Rugas à volta da boca. Apenas um ano e picos mais velha do que Molly.»
Mas é ao chegar ao restaurante Burton que nos deparamos com o retrato mais cruel da condição humana: «Odores de homens. A escarrar serradura, fumo de cigarro adocicado e quente, fedor de tabaco de mascar, cerveja entornada, mijo cervejento de homem, ranço de fermento.» São os homens, como gaivotas, a lançarem-se sobre a comida; apenas lhes falta, como aos Lestrígones da Odisseia, arpoar homens como peixes para deles fazerem refeição. Bloom recua; mas não é ele mesmo um glutão? Não recuará ele perante o seu próprio reflexo?
A única remissão seria a ternura que se desprende das recordações de Bloom do passado com Molly. «Olhando-a da lareira podia vê-la no quarto desatando as varetas do espartilho: branca.» Mas nem isso Joyce nos deixa, terminando o capítulo com o fugaz aparecimento de Boylan, o amante de Molly; e com a fuga de Bloom. Também nesta cobardia – miséria humana.
nastenka-d
 
  De volta ao "Ulisses"
Voltamos ao "Ulisses" depois da belíssima viagem com "As Ondas" e chocamos de frente com a prosa menos poética possível. O capítulo 8 aborda uma temática essencialmente gastronómica . Mas não só.

De repente surge a seguinte frase:

"Ninguém é nada"

E ficamos a pensar outra vez!

Troti
 
segunda-feira, outubro 20, 2003
  Dizer que Ulisses é muito difícil de ler é uma verdade incontestável!
Pelos monólogos interiores num turbilhão de flashes, pela extraordinária complexidade da estrutura, pelas múltiplas referências (sócio-políticas, históricas, religiosas, literárias,..), pelas eternas simbologias, pelas citações em línguas ininteligíveis, pela mudança repentina de direcção, pela linguagem labiríntica, pelo difícil encadeamento das frases,…. enfim, pela sua incomensurável diversidade.



Mas o desafio faz parte integrante do amor pelos livros.



Chegar ao fim e sentir que valeu a pena,

perceber que, afinal, existia uma ponte para chegar lá

e, ainda por cima, ter o privilégio de poder fazê-lo convosco,

tornam a leitura deste Ulisses uma viagem inesquecível.



J.M.
 
  Bloom
Bloom é um anti-herói e, nesse sentido, está profundamente perto de nós. Não é verdade que os nossos heróis não precisam de comer, tomar banho, masturbar-se ou evacuar?

J.M.

 
  Bloom
Joyce dedica-se a todas as camadas que o compõem, desde as prosaicas necessidades físicas até aos meandros do seu inconsciente, e pinta-o de todas as cores:

simpático, cordial, sensível, humano, generoso, guloso,

medíocre, ridículo, desleal, fraco, envergonhado, inseguro,

desiludido, angustiado, submisso, triste, desintegrado, desprezado,

desejante, lascivo, sonhador, melancólico, pensativo, incompleto,

um homem como todos os homens de Dublin, como todos os homens de todas as cidades do mundo.

J.M.

 
  Bloom
Bloom poderia ser qualquer um de nós. Ao mesmo tempo, Bloom é único.

J.M.
 
  Bloom
Bloom é um homem só, um homem que deseja, um homem que busca um sentido, um homem de uma vulgaridade tocante.

J.M.

 
  Graças à Leitura Partilhada, ganhei coragem para ler o Ulisses
E, correndo o risco de repetir o que já por todos foi referido, gostaria de partilhar as minhas impressões deste início de leitura.



A forma como Joyce nos ajuda a percepcionar a importância de cada minuto...

É como se este livro nos fizesse despertar uma outra consciência do tempo.

Poderá o dia 16/06/1904 vir a ter um papel crucial em cada um dos nossos dias?!

J.M.
 
  Notas sobre a leitura de AS ONDAS
Ao começar a ler esta obra literária da grande escritora Virginia Woolf , fiquei um pouco apreensiva.Tive que ler duas vezes a primeira página para começar a compreender de que tratava o livro.
A temática que woolf aborda nas " ondas" não é uma das minhas preferidas.Fala do existencialismo e da razão de ser do ser humano, seus sentimentos, sofrimentos , angústias e mágoas.
Woolf teve a mestria de criar seis seres imaginários cada um com as suas caracteristicas.
Bernard, curioso e verbalmente criativo;Susan, interessada na unidade familiar; Rhoda, ingenua e temerosa; Jinhy, sensual e superficial;Neville, com a sua obsessão pela ordem e rigor intelectuais; Louis, com o seu complexo de inferioridade.
Demonstrando cada um deles seus medos, angústias,tristezas, solidão e o medo terrivel da morte, comunicando-os entre si.
Através destas personagens imaginárias Woolf consegue expor aquilo que a preocupa : a passagem do tempo,o sentido de existência humana, a realidade das coisas e a morte.
Todos eles têm uma vida própria e convivem entre si diariamente até uma certa idade.
Após se casarem e terem filhos já não há aquela comunicação ardua que havia nos tempos de adolescência.
Após a morte de Percival(ponto crucial da história),tudo muda.Ficam mais carrancudos e sem vontade de viverem. A vida para eles já não faz sentido, percival para eles era como um deus que eles idolutravam e que lhes comandava a vida e dava razão para eles viverem e crescerem exteriormente e interiormente.
A morte é aquilo que mais os assusta.
Li a obra fio a pavio. Mas houve uma coisa que eu não consegui entender. Estes seres imaginários de woolf eram animais ou seres humanos?
Após uma troca de ideias com outros bookcrossers percebi que estes seres imaginários eram seres humanos.
Apesar de não ser a temática que mais goste, gostei de ler esta obra.

Vanessa

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  Nota sobre a Agenda da Leitura Partilhada
Fantástico este mergulho n'AS ONDAS... Com pele e cabelos ainda salgados, restos de algas e areia, saudades das conchas, planeamos já as nossas próximas leituras.

O ULISSES de James Joyce volta a dominar a Leitura Partilhada a partir de hoje, mas tal como vem sucedendo, irá dando lugar a outras leituras, outras discussões:

- Outubro 27-28-29 Revisitamos V.Woolf pela mão de Michael Cunningham - AS HORAS


- Outubro 30-31 e Novembro 01 passeio prometido pel' A CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queirós
(neste caso foi-nos recomendada a ante leitura de "O segredo de Eça, Ideologia e ambiguidade em A Cidade e as Serras" do Frank F. Sousa, Ed. Cosmos, Lx 1996)

- Novembro 10-11-12 serão dedicados a um livro de poesia de poeta português, que oportunamente será revelado

- Novembro 13-14-15 e mais uma vez seguindo a sugestão da Comunidade de Leitores da Biblioteca Almenda Garrett, serão de Henry James A VOLTA DO PARAFUSO

- Novembro 24-25-26 seguiremos a sugestão da Sarah: DESGRAÇA de J.M.Coetzee





Como habitualmente, todos estão convidados a participar.


Leitora
 
 
«É sempre incompleta a nossa dissolução nas experiências que vivemos.»


Leitora

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  Bernard e os Livros e a Partilha da Leitura
«Quando tenho de esperar, pego num livro. Se desperto de noite, tacteio a prateleira em busca de um livro. A acumulação de conhecimentos ignorados aumenta constantemente no meu cérebro. De vez em quando destaco um fragmento, que tanto pode ser de Shakespeare como de uma mulher chamada Peck e digo para mim mesmo, enquanto fumo um cigarro deitado na cama: "assim é Shakespeare, assim é Peck", com a certeza de um reconhecimento e a surpresa de um conhecimento que me dá uma alegria infinita embora incomunicável. Foi desse modo que Neville e eu compartilhamos as nossas Pecks e os nossos Shakespeares; comparamos as diferentes versões que deles tínhamos e essa troca de pontos de vista permitiu a cada um de nós ver a uma nova luz o seu próprio Shakespeare e a sua própria Peck. Depois deslizamos para um desses silêncios que só raras palavras perturbam, como uma barbatana que fende a vasta extensão silenciosa para logo em seguida voltar a afundar-se nas profundezas, deixando atrás de si um leve ondular de satisfação e contentamento.»

Como não poderia encontrar melhores palavras, dedico esta citação a todos os que iluminaram a minha leitura d'AS ONDAS. Sinto-me afortunada. É muito bom poder ler convosco. É, sim: ondular de satisfação e contentamento.


Leitora

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  Borboletas e falenas flutuam nas ondas
Parece que Virginia Woolf ficou fascinada pelas falenas depois de ler uma carta da sua irmã Vanessa onde esta dizia: «a dança louca das falenas à volta da lâmpada, ao meu redor». Esse fascínio foi tão forte que ela começou a forjar uma novela a que iria chamar «As falenas». Quando terminou a obra, intitulou-a, afinal, «As Ondas».

As borboletas dançam nos primeiros dois tempos da novela, ao despertar do dia e durante as descobertas da infância. As crianças caçam as borboletas que poisam nas flores, assim varrendo a superfície do mundo. Elas enchem as redes de asas esvoaçantes. As palavras lembram, aqui, uma pintura colorida uma música alegre ou uma dança divertida.
Rhoda é diferente, os seu olhos “assemelham-se áquelas flores pálidas, onde as borboletas nocturnas vêm poisar”.
Bernard começa a coleccionar frases e quando olha para o sol poisado no parapeito da janela, escreve na letra B: “Pó de borboleta”.
Os outro míudos, os gabarolas, os jogadores de críquete, os funcionários da Natural History Society, esses arrancam as asas às borboletas...

Depois, o sol começa a descer e no lusco-fusco surgem as falenas que povoam as noites e procuram a luz dos candeeiros, entontecidas. “Durante alguns instantes, tudo estremeceu e se curvou devido à incerteza e à ambiguidade, como se uma grande borboleta nocturna que percorresse a sala tivesse ocultado com as asas a enorme solidez das cadeiras e das mesas”.
Na maturidade, Bernard, ao descrever o velho impulso que sempre o moveu, parece descrever os movimentos duma mariposa:” o de me deixar vogar ao som das vozes dos outros entoando a mesma melodia; o de ser atirado para cima e para baixo de acordo com uma alegria, um sentimento, um triunfo e um desejo quase que despojados de sentido”.


ATL

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«Eu, segurando o caderno e anotando frases, limitei-me a registar as mudanças. Fui uma sombra ocupada a registar sombras. Mas como conseguir agora, sem um eu, sem peso e sem ilusões, num mundo sem ilusões e sem peso?»


Palavras de Bernard...

Leitora

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"HÁ UM FOGO A ARDER NO CORAÇÃO DA HERA."

Troti

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"O meu maior desejo foi o de aumentar a noite para a conseguir encher de sonhos."

Troti

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domingo, outubro 19, 2003
  "When you are silent you are again beautiful"
Toda a gente concordará que “As Ondas” de V. Woolf é um livro muito bem escrito.
Para mim, um dos factores que contribui para a terrível e implacável beleza do texto tem a ver com a forma como as suas frases minuciosamente trabalhadas aspiram a ser outra coisa e estão conscientes dessa aspiração autodestrutiva: “There should be cries, cracks, fissures, whiteness passing over chintz covers, interference with the sense of time, of space; the sense also of extreme fixity in passing objects; and sounds very remote and then very close; flesh being gashed and blood spurting, a joint suddenly twisted – beneath all of which appears something very important, yet remote, to be just held in solitude.”. As palavras sabem que o silêncio se fecha sobre a sua transitória passagem: “When the storm crosses the marsh and and sweeps over me where I lie in the ditch unregarded I need no words.”.
Algumas pessoas acham que este é um livro excessivamente bem escrito. Há leitores que paralisam com a beleza das frases e sentem que o texto é excessivamente autoconsciente e não flui. Houve críticos que se referiram a “As Ondas” como a um “doloroso fracasso”. Às vezes as razões pelas quais uma pessoa não gosta de um livro coincidem com aquelas de outra que gosta.
Alex

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  Bernard outra vez
Uma das coisas que aprecio neste romance tem a ver com a personagem de Bernard e a forma como introduz no texto uma espécie de espelho que reflecte (sobre) as palavras e os seres de palavras que somos.
Bernard falha como escritor; é apenas alguém que faz frases para viver. Mas quando ele diz “I must make phrases and phrases and so interpose something hard between myself and the stare of housemaids, the stare of clocks, staring faces, indifferent faces, or I shall cry.”, ficamos com a vaga suspeita de que o faz também para se proteger da vida.
Alex

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  O sol acabara de se pôr
Está na hora de resumir – chegou a hora de te explicar o sentido da minha vida. Não só da de Bernard, que desfia tanto a dele como as dos outros como se não passassem de mais uma das histórias que ele teve por hábito coleccionar (e reparo que escrevo ‘teve’, pois já Bernard, como todos os outros parece pertencer ao passado). Voltamos ao jardim onde os conhecemos, voltamos a ver Percival, o único que se manteve puro, inalterável, como uma marca indelével, a partir da qual os outros se referenciam. Aliás, cada um se referencia em relação a todos os outros – reparamos por fim que nunca viveram isolados, por mais sós que nos parecessem, por mais sós que realmente tenham sido. A solidão de cada um, de todos, recorta-se contra o fundo das suas histórias.
Disse que a vida fora imperfeita, uma espécie de frase por terminar.
Sentada, a dama escrevia.
As ondas quebram-se na praia.

nastenka-d

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  "Maresia"
Não "Ondas", mas "As Ondas".
Em que pensaria Virginia?...
6 personagens à deriva, procurando encontrar-se ou rever-se num ausente; personagens que falam de si, mas que não conseguem falar entre si...
As Ondas mais não são do que o reflexo da vida quotidiana; o morrer, nascer, morrer; ir para o trabalho e voltar a casa à noite; gostar, não gostar... o movimento perpétuo de ida e volta... As Ondas.
Ninguém disse que a vida é fácil... a de Virginia muito muito menos... solidão, ausência, fuga, tudo conjugado em 6 personagens que se completam e que formam uma unidade... deprimente...
Com uma experiência de vida como a que teve e a partir de uma história banal, Virginia consegue inovar na construção da narrativa, fazendo instrospecções e análises comparativas, utilizando palavras para garantir a continuidade, como se de um filme se tratasse, construído num longo traveling, no qual os personagens buscam uma perfeição inatingível, porque para lá chegar há que purificar, e tal tarefa é-lhes vedada...o purificado é ausente, está morto... não há deuses vivos...

Lancelot

- Percival continua intratável como sempre...

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sábado, outubro 18, 2003
  O sol estava a pôr-se
As ondas, ao aproximarem-se da praia, já não possuíam qualquer tipo de luz, caindo todas ao mesmo tempo com um baque surdo.
Cada um sente os alicerces sobre os quais construiu a sua vida abalados no confronto com os outros. Desprezam-se e magoam-se para continuarem a ser eles mesmos. Os olhares com que se observam fazem-nos ter consciência de quão limitada as suas vidas se tornaram, por mais ricas que possam parecer aos outros. Podíamos ter sido qualquer coisa – acabámos por escolher (às vezes parece que a escolha foi feita por nós) um par de tenazes, as quais nos foram colocadas entre os ombros.
Houve um tempo em que as coisas eram diferentes. Tempos em que podíamos romper as amarras se assim o desejássemos. Quantos telefonemas, quantos postais são agora precisos para romper este buraco no qual nos juntámos, unidos em Hampton Court? Com que rapidez a vida desliza de Janeiro a Dezembro!
E por isso percorrem os jardins, formando pares, tentando recuperar algo do que nos tinham dito páginas atrás, quando o jardim era também o cenário. É nesta altura que, paradoxalmente, pretendem, desejam tocar-se – quando a proximidade deixou de ser possível.
nastenka-d

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  O sol estava agora mais baixo
As ilhas compostas por nuvens haviam ganho em densidade e espalhavam-se frente ao sol, fazendo com que as rochas escurecessem subitamente. Subitamente também, todas as coisas que já existiam passam a ser vistas sob novos ângulos. A luz, incidindo obliquamente sobre os objectos, confere-lhes volume e peso; os gestos repetidos quotidianamente fazem-se realçar na sua natureza mecânica. Poderemos estar viver apenas porque nos habituámos a isso? Fujamos para Roma, em busca de algo que julgamos haver perdido. Mas em Roma apenas nos apercebemos de que nunca visitaremos o Taiti.
Contudo, e devido à violência do embate, a minha noite é magnificamente iluminada com algumas estrelas.
nastenka-d

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  E ainda um outro pensamento...
"Sofremos terrivelmente quando nos convertemos em indivíduos.

Navegadora

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  Diários de Virginia Woolf
Gostaria de saber se os diários de Virginia Woolf se encontram publicados no nosso país. Um grande obrigado de alguém que pretende aprofundar mais os seus conhecimentos...

Navegadora

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  QUEM SOU
“Quem sou eu?”
“Não sei.”
“…sentia que “eu sou vocês”.”
“Tudo regressa ao ponto de partida.”
“Estou só.”
“Sim, trata-se do eterno renascer, de uma incessante ascensão e queda.”



"Escusado sera dizer que tudo recomeça amanhã."

Troti

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"Sinto mil possibilidades nascerem dentro de mim. Sou sucessivamente travessa, alegre, lânguida e melancólica. Tenho raízes mas flutuo. (...) Nasci para ser estilhaçada. Nasci para que se riam de mim. Estou destinada a andar à deriva, entre os homens e mulheres de faces contraídas e línguas mentirosas, como um pedaço de cortiça num mar revolto."

lídia

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  Sim, continuamos a compartilhar AS ONDAS...
Aqui está a forma como o Espírito Errante contou o seu encontro connosco:

Falando em compartilhar, achei um blogue hoje (que, inclusive, estou lendo no momento) de que gostei muito, o Leitura partilhada. O papo da sinestesia ali, logo de começo, já me animou: é que eu adoro a mistura e ainda vejo certa necessidade dela. Hoje mesmo, eu queria porque queria que as pessoas na rua cheirassem o meu sentimento. Era uma coisa bonita, sabe, e dava pra sentir o cheiro daquilo - de quando dá vontade até de dar pulos na rua, e tava um sol gostoso alimentando aquilo tudo.

Esta semana o nosso sítio cheira a maresia, a pétalas de flores (brancas), e tem música de fundo constante, ritmada, mesmo quando lêmos em silêncio...

Leitora

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  Corram à Janela!
Tal como esperávamos, a Cristina vem enriquecer a nossa leitura, demonstrando, para começar, que "Virginia Woolf escreve sobre o tempo e o transforma numa belíssima imagem de movimento, de corrente".


Como nos alegra a todos (acompanhantes incluídos!) saber que esta foi apenas uma primeira interacção com a Lídia e a Cristina!

Leitora

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O QUE ESTAMOS A LER

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PROXIMAS LEITURAS

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

Os nossos marcadores

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