Leitura Partilhada
domingo, novembro 30, 2003
  Capítulo 10, Episódio 9.º
O letreiro reapareceu no caixilho da janela do n.º 7 da Eccles Street, depois da intromissão inesperada do marinheiro.

Certa vez Molly bebeu vinho do Porto... ah, o nosso vinho em Dublin! Mas não vou aqui revelar o que sucedeu depois, têm o relato entusiasmado de Lenehan. Prefiro copiar o comentário deste homem de Dublin, a propósito do nosso Bloom:

«- É um homem de muita cultura, Bloom - disse com seriedade. - Não é um tipo qualquer... você sabe... Esse velho Bloom tem o seu quê de artista.»


Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 8.º
Esta deambulação inclui o "local mais histórico de toda a Dublin", a câmara do conselho da abadia de Santa Maria.

O local está em ruínas: o bolor tudo cerca, os passos têm de ser dados com cuidado, escolhendo a tábua que se vai pisar...

Felizmente parece ter sido recuperada!


St. Mary's is one of Dublin's best kept secrets. Once the wealthiest Cistercian abbey in Ireland, today its is unrecognisable.Two rooms remain,the Chapter House and Stype.
Duchas,the Heritage Service, joined with the Dublin Archaeological Society and the History of Art Department of Trinity College, Dublin,in putting together an interesting exhibition.
Site is accessed by stairs only.



Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 7.º
Miss Dunne? (não a conhecíamos por outro nome?!)

Miss Dunne é telefonista. Miss dunne está incrédula, mas ele está mesmo apaixonado pela tal Marion, a incomparável Molly. «Trocá-lo e arranjar outro»! Não... antes arranjar uma daquelas saias que ficam às mil maravilhas. Tem de tentar sair mais cedo!


Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 6.º
Stephen tem uma conversa em italiano, a língua materna do maestro Almidano Artifoni.

Tendo em consideração o que se passa com todas as citações em latim, gaélico e grego, não seria de esperar uma tradução deste diálogo. Para nós, latinos, é-nos perceptível pelo menos parte da conversa. Mas não para os anglo-saxónicos! Joyce (Giacomo Joyce) tinha bons conhecimentos de italiano, e acabou por fazer pesquisas em dezenas de línguas para levar a cabo a sua última obra literária (a intraduzível!)

Esta acaba por ser uma forma eficaz de o livro se manter sempre superior a nós, acima das nossas faculdades. O leitor terá de estar sempre pronto ao estranho e ao sacrifício. E consciente que nunca apreenderá tudo...


Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 5.º
Blazes Boylan, o galante. Compra um cesto de fruta e vinho (para Molly?). Galante que se preze não perde uma oportunidade de olhar o decote da empregada loira. Mas sendo brindado com uma segunda oportunidade, olhou-lhe para dentro da blusa com mais aprovação!


Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 4.º
Encontramos as irmãs de Stephen. Empenham os livros de casa (alguns de Stephen) para conseguirem dinheiro para comer. Mas nem isso parece resultar. O almoço de hoje é uma sopa de ervilhas que lhes foi dada por uma freira.


Os homens da casa matarão sede de cerveja em breve...


Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 3.º
O marinheiro perneta continua a sua deambulação, alternando um resmungo de mau humor "Por Inglaterra" com um grunho de funda voz "lar e beleza".

Desta vez tem mais sorte: uma moeda de cobre de uma gorda senhora com quem se cruzou no passeio, e uma outra, lançada à pressa por um roliço braço de uma senhora apanhada em roupa interior num apartamento para alugar.

Lar e beleza, decerto!


Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 2.º
Num belo dia de Junho, alquém «inclinou a aba do chapéu para dar sombra aos olhos e apoiou-se no umbral, olhando ocioso para fora.»

Mas o guarda 57C, de serviço, «deteve-se para deixar passar o tempo.»


Belíssima forma de o dizer, não vos parece?

(Por favor não esquecer: quando alguém me perguntar "então, paraste?" terei a graça de citar "Não; detive-me para deixar passar o tempo..."?)


Leitora
 
  Capítulo 10, Episódio 1.º
Partimos com o reverendo Conmee, e temos o primeiro encontro com o marinheiro perneta, que lhe pede uma esmola.

«O padre Conmee abençoou-o e deixou-o ao sol pois a sua bolsa continha, bem o sabia, uma única coroa de prata.»

Aqui fica o nosso aviso: todos temos estendido bonés ou símples olhares a Joyce, pedindo esmolas de luz. No seu sorriso enigmático, Joyce bem sabe que apenas tem uma moeda de ouro no bolso, toda a sua fortuna...


Leitora
 
  Capítulo Dez
Dizia eu há dias que ainda não me apatecia escrever sobre este capítulo, queria devaniar em matemáticas e geometrias... Pouca gente acreditou, bem sei... mas entretanto, depois da "desgraça" reli o capítulo. A releitura torna-o um pouco mais perceptível, mas não menos mágico e ritmado. Wandering Rocks, aqui têm um título adequado.

Personagens deambulam pelas ruas de Dublin após o almoço, vêem e são vistas, cruzam-se, repetem olhares, tecem os seus comentários. Mostram-se e apresentam-nos a Dublin de Joyce.

Um capítulo com uma estrutura tal que podia ser um livro completo. E a mecânica é altamente eficaz: os episódios seguem-se com naturalidade, como partes de uma engrenagem, e vários momentos sáo revistos de acordo com a perspectiva da personagem que acompanhamos.

Confesso-me encantada. Por isso, aqui vão 18 posts avulsos, um sobre cada parte do capítulo...


Leitora
 
sábado, novembro 29, 2003
  Diálogo...
“-Olhe-me para esse tipo de chapéu alto.
...
Quem? Onde?
...
Está a olhar.
...
-Mata-se a olhar para trás.
...
Oh Deus! Não são os homens uns idiotas temíveis?
...
Esses é que a levam boa – disse então tristemente.”





Diálogo entre duas sereias, a Bronze e a Ouro, miss Douce e miss Kennedy.


Troti
 
  "O meu epprifftráphio..."
“Soou. Azul flor.
Mas olhai: desvanecem-se as brilhantes estrelas.
Rompe a aurora.
Bate o relógio.
Adeus amor!
Flor.
Quando o amor absorve.
Um véu ondula sobre as ondas.
Perdido.
Tudo está perdido.
Apelo nocturno ao luar: longe, longe.
Sinto-me tão triste.
Escuta!
Negro. Som profundo.
Mas espera.
Lá em baixo, no fundo escuro da terra.
É só que me sinto triste.”



Título e texto , relativos a Bloom, compostos com palavras e frases que aparecem nas primeiras 72 linhas do capítulo 11.
Bloom está triste porque sabe que Molly vai cometer adultério.


Troti
 
  "Bronze e ouro
"Bronze e Ouro ouviram os cascos ferrados, a retinir em aço"

No "Ulisses", estas são as primeiras palavras do capítulo 11 intitulado "As Sereias"



Richard Hamilton: Bronze by Gold





colour aquatint, 1987

Hamilton began making drawings and prints of episodes from James Joyce's great novel Ulysses in 1949 and the project continues. An exhibition of the oeuvre was held at the British Museum and at the Irish Museum of modern Art in 2002.
The image is taken from the episode Sirens of James Joyce's Ulysses (chapter 11), and is of the barmaids Miss Douce and Miss Kennedy, who personify Homer's Sirens. "Bronze by gold, miss Douce's head by miss Kennedy's head, over the crossblind of the Ormond bar..." Hamilton's double portrait Bronze by Gold was first drawn in 1949, and engraved in the 1980s. It is a monumental image, recalling an even earlier manifestation of the pop impulse in art, Edouard Manet's Bar at the Folies Bergère (1882). The Bass beer the barmaid in Manet's painting serves is also drunk by characters in Ulysses. Where Manet's barmaid stands alone, her world doubled by the mirror behind the bar, Hamilton's Joycean barmaids are a twosome, embracing as they pull simultaneously on two phallic beerpulls. Their dresses, jewelry, well-coiffed hair and tough presence make them intimidating figures for the men at the bar.



Troti
 
  Impressões de Joyce
"I understand that you may begin to regard the various styles of the episodes with dismay and prefer the initial style much as the wanderer did who longed for the rock of Ithaca. But in the compass of one day to compress all these wanderings and clothe them in the form of this day is for me possible only by such variation which, I beg you to believe, is not capricious."

(letter from Joyce to Harriet Shaw Weaver, 6 August 1919,
Letters 1:129, Selected Letters, p. 242)





"Perhaps I ought not to say any more on the subject of the Sirens but the passages you allude to were not intended by me as recitative. There is in the episode only one example of recitative, on page12 in preface to the song. They are all the eight regular parts of a fuga per canonem: and I did not know in what other way to describe the seductions of music beyond which Ulysses travels."

(letter from Joyce to Harriet Shaw Weaver, 6 August 1919,
Letters 1:129 Selected Letters, pp. 241-42)




"One great part of every human existence is passed in a state which cannot be rendered sensible by the use of wideawake language, cutanddry grammar and goahead plot," Joyce once wrote to Harriet Weaver. (Letters III: 146).





"Sirens" concerns itself with music in many forms, both explicit – songs sung, lyrics quoted, piano played, noises transcribed, and implicit – the dense music of the chapter’s language. Joyce told his friend Georges Borach:

I wrote this chapter with the technical resources of music. It is a fugue with all musical notations: piano, forte, rallentando, and so on. . . . Since exploring the resources and artifices of music and employing them in this chapter, I haven’t cared for music any more. I, the great friend of music, can no longer listen to it. I see through all the tricks and can’t enjoy it any more." (Borach 326)




‘Perhaps I ought not to say any more on the subject of the Sirens. But the passages you alluded to were not intended by me as recitative. There is in the episode only one example of recitative on page 12 in preface to the song. They are all the eight regular parts of a fuga per canonem: and I did not know in what other way to describe the seductions of music beyond which Ulysses travels. I understand that you may begin to regard the various styles of the episodes with dismay and prefer the initial style, much as the wanderer did who longed for the rock of Ithaca. But in the compass of one day to compress all these wanderings and clothe them in the form of this day is for me only possible by such variation which, I beg you to believe, is not capricious. In confirmation of what I said in my last letter, I enclose a cutting from a Dublin paper just received announcing the death of one of the figures in the episode [J. G. Lidwell].’ (Letter of 6 August; Letters p.129; Ellmann, James Joyce, p.475.)






Aqui ficam impressões de Joyce relativas ao capítulo 11 "As Sereias"


Troti
 
sexta-feira, novembro 28, 2003
  Na natureza do mal
Uma leitura em dezanove tempos de "Desgraça". A sua terra, toda a terra, está inabitável.
Obrigada, Luís.
nastenka-d
 
quinta-feira, novembro 27, 2003
  Ulysses: Homero ou América?
Wandering Rocks (10º capítulo) tem exactamente 19 partes, quase tantas quantos os 18 capítulos de Ulysses. É quase como um Ulysses em miniatura, onde se encontram os principais estilos e onde quase todas as personagens mais importantes do livro se cruzam, de alguma forma.

Também é curioso que neste capítulo se detectem tantas referências à América (aos EUA, entenda-se), um país que foi construído a partir de outros e que pode ser visto quase como uma metáfora do livro: um país pioneiro, livre e desconhecido, um melting pot de referências culturais, um puzzle de diferentes línguas. E quantos milhares de irlandeses para lá emigraram e nunca mais regressaram?

And America they say is the land of the free. I thought we were bad here.
I smiled at him. America, I said quietly, just like that. What is it? The sweepings of every country inclunding our own. Isn't that true? That's a fact.

In America those things were continually happening. Unfortunate people to die like that, unprepared.



1ª nota: Lembro-me de há alguns anos ter lido um livro do Jacinto Lucas Pires intitulado Para Averiguar do Seu Grau de Pureza que só mais tarde, ao ler Ulysses, percebi que, independentemente das diferenças de estilo, era quase uma adaptação deste capítulo a Lisboa. Será, Jacinto?

2ª nota: Espero ter oportunidade para ler o livro de Coetzee proximamente.


riverrun
 
  Espuma dos Dias
A sugestão de leitura da DESGRAÇA partiu da Sarah, e ainda bem que no-la sugeriu. Gostei muito de a ler, assim como os demais participantes.


Escreveu a Sarah, entretanto:

Atenção não se sintam obrigados a gostar dele. Afinal, é só um livro.
Porque julgo que há outras leituras para fazer deste livro, vou esperar serenamente que elas franqueiem a náusea. António Lobo Antunes escreve depois do cansaço. Talvez Coetzee possa ser lido - talvez possa ser um bocadinho amado? - depois da náusea. E decido relê-lo.



Penso que a nossa leitura não foi assim tão dramática, mas compreendo a análise. E concordo, Coetzee merecerá ser amado. Aguardo novas dessa releitura. Os melhores votos, e beijinhos, Sarah!

Leitora
 
  Dois comentários
1. (ainda sobre as cores da pele):
A fundamental theme in Coetzee’s novels involves the values and conduct resulting from South Africa’s apartheid system, which, in his view, could arise anywhere. www.utc.edu/~engldept/booker/coetzee.htm

2.
Uma coisa espantosa neste livro foi a sua incapacidade de desencadear em mim quer o síndrome de Zuckerman quer o síndrome de Bulhão Pato (ver Luís em a natureza do mal). Quando leio tendo a identificar-me ou identificar outras pessoas com alguns aspectos dos personagens. Quando tal não acontece, geralmente, desinteresso-me do enredo. A linguagem desta "Desgraça", que afinal são várias, agarrou-me desde o início. Umas vezes gostei de Lurie, outras não, mas isso foi secundário. Para mim, trata-se de uma excelente obra literária sobre a sobrevivência do coração à humilhação, às violações da dignidade humana, sobre a recuperação da esperança em tempos cada vez mais difíceis.

Termino com uma frase de Coetzee:

"I am not a herald of community or anything else. I am someone who has intimations of freedom (as every chained prisoner has) and constructs representations of people slipping their chains and turning their faces to the light."
(books.guardian.co.uk/)

Mariana
 
quarta-feira, novembro 26, 2003
  Não tenho resposta
Creio que a dimensão absoluta da obra "Desgraça" é muito difícil de entender. Temos o percurso de David Lurie - obstinação inicial e aceitação desolada; temos o percurso de Lucy – compreensão da mudança e determinação pessoal; temos o percurso de Petrus – evolução social e imposição. O mais óbvio é encarar a história do ponto de vista de Lurie, do seu erro e da sua desgraça, mas a total dimensão deste vocábulo ultrapassa uma mera conotação pessoal e abrange a dramática tragédia da integração e convivência entre brancos e negros, a realidade tremenda e a absoluta violência que se vivem dia-a-dia na África do Sul.

Na obra “A Gente de July”, Nadine Gordimer escreve:

“- Que pensam os negros? Que pensam os combatentes da liberdade?”

Eu não tenho resposta.


Troti
 
  A Desgraça
Clara Ferreira Alves escreveu no Expresso de 6 de Julho 2002 uma apreciação sobre esta obra. Aqui ficam algumas das suas palavras:

“ A África do Sul é um país com outro país lá dentro, o do seu passado, onde as pessoas faziam coisas diferentes. Coetzee...escreveu a morte interior de um homem e descreveu essa morte do homem branco que é o fim da ilusão da superioridade. É quando deixamos de acreditar que caímos em desgraça.”


Troti
 
  Realidade
“Será feliz? Sim, acredita que sim. Contudo, não esqueceu a última frase de Édipo: Nenhum homem é feliz enquanto não está morto…"

Troti
 
  Amor
“Este país não é para velhos. Ao que parece tem passado imenso tempo a suspirar. Arrependimento: uma nota de arrependimento, a deixa para se retirar..."

"Encostado à parede do lado de fora da cozinha, escondendo o rosto entre as mãos, suspira, suspira e, por fim, chora..."

"Uma boa pessoa. Não é uma má resolução a tomar numa época negra..."

"...aprendeu a concentrar toda a sua atenção no animal que estão a matar, dando-lhe aquilo que já não sente dificuldade em chamar pelo nome: amor."



Troti


 
  Os animais
"–As Autoridades da Igreja tiveram um longo debate acerca deles e decidiram que eles não têm almas propriamente ditas…As suas almas estão presas ao corpo e morrem com ele."

"Continuo a pensar que os animais não têm propriamente vidas individuais. Na minha opinião, não vale a pena uma pessoa torturar-se, a pensar qual deles sobrevive e qual deles morre. Contudo…"

"Não deixa de ser curioso que um homem egoísta como ele se tenha oferecido para tratar de cães mortos."

"O que o cão nunca poderá compreender (nunca na vida! pensa), ...é como é possível entrar-se no que parece uma sala vulgar e nunca mais sair. Acontece algo nesta sala, algo inexprimível. Aqui, a alma é arrancada ao corpo; paira breves momentos no ar, torcendo-se e contorcendo-se e, depois, é sugada e desaparece..."




Para mim está aqui a humanização de Lurie. O facto de conceber que os animais podem ter alma.



Troti
 
  Onde está o coração?
“Aquele sentimento volta a apoderar-se dele: falta de vontade, indiferença, mas também uma sensação de leveza, como se tivesse sido comido por dentro e apenas sobrasse a carcaça carcomida do seu coração.


(Quer dizer o que lhe vai no coração. A questão é, o que lhe vai no coração?

............….Disse que havia qualquer coisa no seu coração.

No meu coração? Não.)




...primeiro na quinta de Lucy e agora aqui, não consegue entregar-se ao projecto de alma e coração. Há algo de errado na sua concepção, algo que não vem do coração."



Troti
 
  Subjugação
“Guerra, atrocidade, cada palavra com que tenta resumir o dia, engole-a o dia pela goela negra abaixo…

A verdade, suspeita, é algo muito mais – procura a palavra indicada – antropológico, algo que demoraria meses a compreender plenamente, meses de paciência, meses de conversas calmas com dezenas de pessoas e com a ajuda de um intérprete…

………………Acorda David. Estás no campo. Estás em África.

É uma sorte ter escapado com vida.

Foi a história que falou através deles…Uma história de maldade…Pode ter parecido pessoal, mas não foi. Eram os antepassados a falar.


……………….Acho que, acima de tudo são violadores…Eles acham que eu devo alguma coisa…

Escravatura. Eles querem que sejas escrava deles.

………………-Não é escravatura. É submissão. Subjugação.”


Troti

 
  África profunda
“Ele fala italiano, fala francês, mas o italiano e o francês não o vão salvar aqui, na África profunda…

…é um risco ter seja o que for…há gente a mais e coisas a menos. O que existe deve entrar em circulação de forma a que todos tenham a hipótese de serem felizes um dia. É essa a teoria; agarremo-nos à teoria e aos confortos da teoria. Nada de maldade humana, apenas um vasto sistema circulatório, onde a piedade e o terror são irrelevantes, É assim que se deve compreender a vida neste país. No seu aspecto sistemático. Caso contrário, uma pessoa pode dar em doida…

…o inglês é um meio impróprio para descrever a realidade da África do Sul. Frases completas no código inglês há muito se tornaram obscuras, perderam a articulação, a inteligibilidade, a nitidez. Tal como um dinossauro às portas da morte que repousa na lama, a linguagem pereceu."

Troti
 
  Reflexões sobre DESGRAÇA
Disponível na internet uma análise sobre esta obra, da autoria do Prof. Micael S. Kochin, que foi apresentada em 2002 no Encontro Anual da Associação Americana de Ciência Política.

Para servir de isco, digo-vos que o texto está dividido em 3 partes:
- O mundo a morrer sem esperança
- aqueles para quem há pouca esperança
- aqueles paquem quem ainda há esperança.

Sendo um acesso pdf, não posso colocar aqui algumas partes, mas vou ler e depois darei nota de conclusões possíveis...


Leitora
 
  A alegoria e o indizível
Habitualmente, não gosto muito de alegorias. Acabo sempre por sentir que, no esforço de fazer aderir e corresponder os seus sinais a uma certa realidade, a narrativa se torna rígida, sem espaço para aventuras, para descobertas... Como se o autor tivesse começado a escrever com um plano absolutamente definido para cada momento do livro; sinto que falta emoção, envolvimento...
Comecei a ler ‘Desgraça’ e rapidamente esta sensação se instalou; nunca consegui esquecer-me do propósito do livro, mostrar uma «nova África do Sul, (...)que retrata uma sociedade num estado de metamorfose violenta.» Nunca consegui envolver-me...
Nunca? Talvez não seja bem assim. A partir do momento em que a quinta é assaltada, o ambiente parece mudar completamente. É o que é dito? O que é descrito? Não, nada é dito. E penso que é exactamente o que não é dito que mais perturba. Não o acontecimento em si (obviamente violento), mas o que cada um imagina e fantasia acerca do que acontecia enquanto o professor Lurie estava fechado na casa de banho... É esse, para mim, o cerne do livro; remeter para quem lê o ónus da violência; e é fabuloso na sua perversidade.
nastenka-d
 
  Filosofia
.
« - Isto é muito filosófico.

- Pois é. Quando tudo o resto falha, resta-nos filosofar.»


Leitora
 
 
“Ainda há duas semanas ele estava numa sala de aula a explicar à juventude entediada do país a diferença entre matado e morto, significando um uma acção praticada e o outro uma acção sofrida. Como isso lhe parece longínquo! Eu tinha matado, eu fui morto.


O escândalo seguir-me-á, para todo o lado…


…Estou mergulhado num estado de desgraça do qual não será fácil sair. Não foi o castigo que eu recusei. Não me oponho a ele. Pelo contrário, vivo-o todos os dias, tentando aceitar a desgraça como o meu estado natural."


Troti
 
 
“Quando tudo o resto falha, resta-nos filosofar”

“Longas visitas não são boas para as amizades”

“Não é nada heróico ser-se inflexível”

“As mulheres podem ser surpreendentemente clementes”

“Quanto mais as coisas mudam mais permanecem iguais”

“Hoje em dia tudo é perigoso”

“Os desejos não consumados podem ser tão horríveis nos velhos como nos jovens

“Os animais não fazem parte da lista das prioridades da nação”



Troti
 
  Desejo...
“Não tenho qualquer defesa…
Sou culpado…”
…………………

“Não brinque connosco, David. Existe uma diferença entre declarar-se culpado e admitir que errou, sabe isso muito bem.”

………………….

“E assim ficavam satisfeitos: se eu admitisse que errei?”


…………………..

“Arrepende-se do que fez?
- Não …a experiência foi enriquecedora…

…O arrependimento pertence a um outro mundo, a um outro universo de discurso.”



- A minha defesa apoia-se nos direitos do desejo…No deus que faz estremecer até os pequenos pássaros.



Um cão aceita que se faça justiça…uma coça por uma roidela. Mas o desejo é outra história. Nenhum animal aceitará a justiça de ser castigado por seguir os seus instintos…”


Troti


 
terça-feira, novembro 25, 2003
  Conselho
.
«Se não gosta de cozinhar, case com um homem que o faça por si.»



Leitora
 
  Cores de Pele
Reconheci a extrema delicadeza do tratamento da cor da pele neste livro. Nos primeiros capítulos, fui-me propondo o jogo de testar se o David teria necessariamente de ser branco. E só na sua temporada na quinta é que essa questão se torna clara - aí a primeira referência às raças branca e negra.

Entretanto, tenho a confessar o meu tremendo fracasso: só depois de terminar a leitura e enquanto fazia as pesquisas para o blogue DESCOBRI que a Melanie é negra! Ah... sim, esta é a verdade... Já reli algumas passagens à procura de pistas. Apenas encontrei referência aos olhos negros de Melanie.

Por isso vos peço ajuda: há referência directa que me tenha escapado, ou essa cor deduz-se pelos enquadramentos sociais e familiares - por exemplo, quando o pai de Melanie, Mr Isaacs, regozija com a perda de emprego de David "assim caíram os grandes"?


Leitora
 
  Noutros blogues...
BOS não aprecia Coetzee nem a sua escrita:

John Maxwell Coetzee, escritor sul-africano nascido em 1940, ganhou o Nobel da Literatura de 2003. Ficcionista menor e politicamente correcto, sem pinga de agilidade narrativa, evidenciou-se mais na luta contra o apartheid que nas literatices.

(...)

Pura e simplesmente, não considero o sul-africano um escritor de primeiro plano na cena literária internacional.



Eu, que gostei deste livro, e não por ter desgostado de outro que li do mesmo autor, preferia que o Nobel tivesse sido atribuido a um certo escritor, português e brilhante... Continuo a espera.

Leitora
 
  Noutros blogues...
Escreveu o Bruno:

O livro nunca é bonito porque um livro destes nunca é bonito; é um livro ácido, muito azedo, onde o autor, num estilo explicativo simples nos conta de um modo sublime parte do que se alterou na África do Sul do fim do século e a borrasca que a mesma atravessa depois da libertação e do fim de um regime político repressivo e altamente segregador.
É também um livro, quanto a mim, totalmente desprovido de afecto, com personagens já incapazes de amar perante as desilusões e agruras da vida, onde parece haver um medo constante e macabro de falar das coisas que acontecem, do ódio a que estão sujeitos os brancos e da mentira e da ilusão em que vivem como se nada tivesse mudado.



Um dos aspectos que mais marcou a minha leitura foi o desconforto do silêncio, do que está lá mas nunca é noemado. Por pudor ou por medo...

Leitora
 
  Noutros blogues...
J. P. escreveu no passado dia 8 de Outubro:

«Agora toda a gente lê Coetzee. Antes do Nobel, ninguém o conhecia.» Há um desdém explícito nas palavras da senhora, que se quer fazer ouvir numa livraria de Lisboa. Por acaso, eu não estava na altura com a Desgraça na mão. Não sei se é um caso isolado. Mas, no limite, percebo a intenção. Há autores que desejaríamos que fossem só nossos – como se fizessem parte da nossa genealogia, como dizia ontem Fernando Pinto Amaral, no «Livro Aberto». No caso de Coetzee, tentar guardá-lo, também no limite, seria um atentado. Se o Nobel pôs toda a gente a ler Coetzee, ainda bem. E nem todos os anos podemos escrever isto com tamanha segurança.

Como compreendemos, apesar de tudo, esta ciumeira de leitores!


Leitora
 
  Noutros blogues...
Imaginam-se a ir a uma aula do Coetzee na Universidade onde é docente? Aqui vai uma experiência real:

I was very nearly in a class with J. M. Coetzee this quarter, on the Phaedrus, which he's teaching with Jonathan Lear. I went to the first day hoping for a seat (there were three open with about 30 contenders—no dice). For most of the class Coetzee just sat there occasionally saying something very quietly, Lear doing most of the talking and discussion-solicitation. And now he's gone and won himself a Nobel Prize, apparently. I don't know if he's teaching any more classes this year, but it's a good bet any he does teach will be damn crowded on the first day. (For some part of Saul Bellow's professorship here, I am told, his classes weren't listed at all. Wonder if they'll do something like that. Of course when I tried to go to Lear's class on The Sickness Unto Death, the meeting place wasn't listed, so maybe they already do that in other cases—though that could have been an accident.)

Now I should probably get around to reading some of Coetzee's books ...




Também nós nos quedamos pelos livros...


Leitora
 
  Noutros blogues...
Mike's Blog festeja o Nobel:

Wow. The best author nobody knows has just won the Nobel Prize for Literature. And I couldn't be happier.

Coetzee has written some of the most powerful novels I have ever read. That sounds hackneyed, but there's no other way to express it
.


Leitora
 
  Opinião de um BookCrosser
Kellerman revê também as suas memórias da leitura:

É um livro sobre o valor da vida humana individual, sobre a diferença abismal de perspectivas, sobre a incapacidade de cada um em assumir a sua pequenez na complexidade do mundo e da história.

É um livro sobre a solidão e sobre a incapacidade em compreender e ser compreendido.

É um livro desencantado, de rendição, pessimista.

É um livro insuportavelmente triste.

É um livro que não se esquece.



Leitora
 
  Opinião de um BookCrosser
TU-e-Eu fala-nos assim deste livro:

Não tenho a história completamente presente. Apenas algumas imagens violentas de invasão, tortura e o que daí advém. Apenas recordações vagas de vidas sós e incompreensão. Corpos e dor e horror e dias negros. Apenas uma sensação de deleite ante uma escrita brilhante e... de revolta ante os factos narrados cruamente, cruelmente. Apenas uma vontade de ficar com o livro e simultaneamente de rasgá-lo.

E já é tanto!!!!

Agora, à distância, permanece-me um amargo nas entranhas por ainda ser tão presente: as barreiras raciais, a agressão, a nossa limitação no comunicar, a solidão.
Um livro poderoso que arde, que queima, que marca as mãos!


Será possí­vel ficar indiferente ao livro?


Leitora
 
  Moral - Imoral - Amoral
Outra hipótese de leitura

Moral
conjunto dos costumes e opiniões de um indivíduo ou de um grupo social respeitantes a comportamento; conjunto de normas de conduta consideradas mais ou menos absoluta e universalmente válidas.

Imoral
contrário à moral; falto de moral; malcomportado; desonesto; escandaloso; devasso.

Amoral
Que supõe a ausência de toda a obrigação moral; sem moral.


fonte:dicionário da língua portuguesa da Porto Editora



Olho para cada uma das personagens e tento situá-las. A maior parte delas é mutante, evolui ou regride. Ou mostra-se como é?

Como qualificar David Lurie?


Leitora
 
  Noutros blogues...
Disse Sarah:
David é alguns homens que conheço. Homens mortos, náufragos de si próprios, e no entanto polite, e no entanto eruditos, e no entanto encantadores. Mas David também é todos os homens - desgraçadamente todos eles.

Leio Coetzee e compreendo que aquele olhar dele - aquele olhar que fere - carrega uma desgraça mais: a da linguagem do pensamento em inglês.



E fico a pensar na parte de mim que David representa...


Leitora
 
  Solidão
“ –Prosseguimos com Byron… a celebridade e o escândalo afectaram não apenas a vida de Byron mas também a forma como os seus poemas foram recebidos pelo público


…mandara-os ler “Lara”:

“Podia
Renunciar ao seu pelo bem que aos outros faria,
Mas não por pena, por dever ou sentimento,
Mas sim por uma estranha perversidade de pensamento,
Que o impelia para a frente com um orgulho velado,
A fazer o que poucos ou nenhuns teriam gizado;
E este mesmo impulso iria, pela tentação,
Conduzir ao crime a sua mente e o seu coração.

A sua loucura não se encontra na cabeça, mas no coração.”


Um coração louco. O que é um coração louco?...Reparem que não nos é pedido que condenemos este ser de coração louco…Pelo contrário, somos convidados a compreendê-lo e a simpatizar com ele. Mas existe um limite para a simpatia…Por fim, Byron sugere que não será possível amá-lo, pelo menos no sentido mais profundo, no sentido mais humano da palavra. Ele será condenado à solidão.”



Troti
 
  Fronteira
“A beleza da mulher não lhe pertence…É obrigação sua partilhá-la…


Sem um vislumbre de revelação nada existe…


…não podemos viver o dia-a-dia no domínio das ideias puras, arredados da experiência dos sentidos…


…nada o deterá…"


´
Esta frase define Lurie. Ele não tem grandes problemas de consciência "a priori ". Precisa de escoar a torrente de desejo que o assola, o impulso carnal é o seu poder.
Todo o tempo que decorre desde o primeiro contacto até à consumação do acto sexual com uma aluna trinta anos mais nova e que não o deseja, David Lurie é um fraco.




"...a rapariga que trouxe para casa...é uma aluna, uma aluna sua, sob a sua tutela."


..................................


"...ela não resiste. Tudo o que faz é desviar-se: desviar os lábios, desviar os olhos..."


..................................

"Não é uma violação, nada disso; contudo é indesejável, indesejável até ao âmago...
Um erro, um enorme erro."


.................................


"Agora aqui está ela em sua casa, arrastando complicações atrás de si. Qual será o jogo dela?...Deveria ter tido cuidado logo desde o início."



..................................

"Ela está a portar-se mal, a abusar...Mas se ela abusou, ele abusou ainda mais...Na medida em que estão juntos, se é que estão juntos, é ele quem manda, ela apenas obedece...



“…cautelosa…ela baixa os olhos…”




Lurie sente o peso...


Troti
 
segunda-feira, novembro 24, 2003
  Desejo...
“As mulheres são sensíveis a este tipo de coisas, ao peso de um olhar cheio de desejo…"


Troti
 
  Desejo
David Lurie tem cinquenta e dois anos ( 2 divórcios)…”encontra-se em boa forma, tem a mente sã…a erudição continua a ser o seu ponto fulcral…o que quer é escrever música…é a favor de vidas duplas, vidas triplas, vidas vividas em compartimentos…agrada-lhe o sossego do fim da tarde na sala da biblioteca, agrada-lhe o regresso a casa…”

Contudo, o seu coração palpita de desejo…”


Troti
 
 
“Até que certo dia, tudo acabou…Se queria uma mulher tinha de aprender a segui-la; e frequentemente, de uma forma ou de outra, a comprá-la…

Em breve, delicadamente, maliciosamente, ele será ultrapassado. É um destino do qual não poderá escapar…o envelhecimento também não é nada atraente...



…assunto que mais OCUPA os velhos: prepararem-se para morrer…”



Esta palavra OCUPA é extremamente lúcida mas definitivamente triste.


Troti
 
  Um livro sobre sexo e poder?
Uma hipótese de análise...

Dou uma grande importância ao início de cada livro. Acredito que a primeira frase, no particular, e a primeira página, no geral são fundamentais. Um cartão de visita, o arranque, a grande aposta do escritor para prender o seu leitor. A apresentação.

Vejamos, estão, a primeira frase:

«Para um homem da sua idade, cinquenta e dois anos, tem resolvido bastante bem, segundo ele, o problema do sexo.»

E a primeira página explica como é resolvido "o problema". Estará apresentado o tema do livro?

Talvez. Mas, naturalmente, esta ideia inicial é muito trabalhada ao longo do livro, desdobrando-se em diferentes combinações e produzindo estranhas consequências. Em particular a combinação com o poder. Começa com o sexo contratado, comercializado. Passa depois para o assédio. Mais tarde a violação. E depois... bem, depois outras alianças entre poder e sexo: os compromissos de conveniência, onde o sexo é tolerado em troca de protecção; o sexo como arma de terror, para afugentar a outra raça; e no limite, o sexo como extermínio racial.

A primeira frase apresenta-nos dois aspectos fundamentais do livro: o mote do sexo, que depois se transforma no binómio sexo-poder e que está presente em todo o desenrolar da acção. E também a relatividade das afirmações - segundo ele. E como o título é claro e denunciador da dureza, ao avançar para o segundo capítulo deveriamos estar preparados.

Mas não estamos.


Leitora
 
 
“Surpreende-o que noventa minutos por semana da companhia de uma mulher sejam o suficiente para o saciar…

Afinal de contas, as suas necessidades revelaram ser bastante sóbrias, sóbrias e efémeras, como as de uma borboleta. Nenhuma emoção, excepto a mais profunda, a que menos se poderia prever: um ruído de fundo de satisfação, como o zumbido do tráfego que embala o habitante da cidade ou como o silêncio da noite que embala o aldeão…

Pensa em Emma Bovary, regressando a casa saciada…após uma tarde de sexo despreocupado…Bem, se a pobre…Emma …conseguisse dar com a Cidade do cabo, ele levá-la-ia consigo numa tarde de quinta-feira para lhe mostrar o que a satisfação pode realmente ser. Uma satisfação moderada, uma satisfação moderada…”


Troti
 
  Poesia
.
«A poesia ou nos fala de imediato ao coração ou pura e simplesmente não nos diz nada. Um lampejo de revelação e um lampejo de resposta. Como um relâmpago. Como quem se apaixona.»



Leitora
 
  O multi premiado
Tenho pensado no impacto da leitura deste livro.

Antes de mais digo claramente que gostei de o ler, foram horas bem empregues. O livro emocionou-e e chocou-me em múltiplos aspectos. E obrigou-me a encarar algumas realidades que me são menos habituais. Mas compreendo os maus comentários que recebeu.

Nessa linha de raciocínio, acabei por concluir que este livro poderá ter mais importância social ou política do que literária. Eventualmente até mais importância histórica, pelo testemunho que deixa. Apesar de ser ficção - a ficção apenas facilita o acesso a leitores, em especial numa época em que estamos tão imunes e imagens e notícias...

Fico com a sensação que apenas foi premiado por isso. Que o Nobel poderá ter sido atribuido ao activista social que também escreve e nem tanto ao escritor.

DESGRAÇA é um romance duro, cru, violento. Não podemos ficar indiferentes à sua estória. Não podemos deixar de reflectir sobre nós e o nosso pequeno mundo. Mas presumo que não será "o romance da vida de" muitas pessoas.

Leitora
 
  As razões da Academia Sueca
Ao atribuir o Nobel da Literatura de 2003 a Coetzee, a Academia fez a sua habitual apreciação elogiosa ao Autor e à sua obra. Desse texto retiro algumas notas:

Sobre as personagens: cobardia, passividade, fraqueza...
at the decisive moment Coetzee's characters stand behind themselves, motionless, incapable of taking part in their own actions. But passivity is not merely the dark haze that devours personality, it is also the last resort open to human beings as they defy an oppressive order by rendering themselves inaccessible to its intentions. It is in exploring weakness and defeat that Coetzee captures the divine spark in man.


Sobre o livro DESGRAÇA: evadir-se...
The novel deals with a question that is central to his works: Is it possible to evade history?

O Convite para continuar à descoberta deste autor: descobrir semelhanças...
There is a great wealth of variety in Coetzee's works. No two books ever follow the same recipe. Extensive reading reveals a recurring pattern, the downward spiralling journeys he considers necessary for the salvation of his characters.


Leitora
 
  Ensinar
.
«Continua a ensinar, porque o ensino lhe proporciona uma forma de vida; também porque o ensina a ser humilde, porque o faz compreender quem ele é neste mundo. Compreende a ironia: aquele que vem ensinar aprende a mais interessante das lições, ao passo que aqueles que vêm para aprender não aprendem nada.»



Leitora
 
  Tudo muda...
“Quem diria! Um dia como qualquer outro, o céu azul, o sol ameno e, de repente, tudo muda, completamente!”


Troti
 
  "DESGRAÇA" de J. M. Coetzee
"O bando dos três. Três pais num....Não estavam a violar, estavam a acasalar. Não foi o princípio do prazer que os motivou, mas sim os testículos, sacos cheios de sementes ansiosas por consumar.”



Esta é a realidade que nos é desvendada. A realidade de uma mudança muito grande. A realidade de um país enorme numa vivência que não é a nossa. Uma complexidade grande demais para a nossa escassa experiência e a nossa desorientada compreensão.


Troti



 
  DESGRAÇA
Desgraça! Uma palavra que não pretendemos incluir no nosso vocabulário. Uma palavra que rejeitamos para o nosso dia a dia. Uma palavra maldita para quem quer a felicidade. Uma palavra tremenda que arrasta consigo o pranto da alma e os destroços do coração. Uma palavra que sufoca os sentidos e estrangula o pensamento. Uma palavra impiedosa, fortíssima, que toca o âmago e o marca para sempre. Uma palavra sem regresso.


Troti
 
  Lamentar
.
«Todos nós lamentamos quando somos descobertos. Nessa altura lamentamos muito. A questão não é se lamentamos? A questão é que lição aprendemos? A questão é o que vamos fazer agora que lamentamos?»

Leitora
 
  And now, ladies and gentlemen...
O último Prémio Nobel da Literatura, duas vezes Prémio Booker, John Maxwell Coetzee...


I am not a herald of community or anything else. I am someone who has intimations of freedom (as every chained prisoner has) and constructs representations of people slipping their chains and turning their faces to the light.

nastenka-d
 
domingo, novembro 23, 2003
  A morte...
"Nunca mais o vejo. A morte é assim mesmo.O papá está morto...Era o senhor Dignam, o meu pai."





"A morte é a curva da estrada.
Morrer é só não ser visto"

Fernando Pessoa (Cancioneiro)





Troti
 
  !!!!!!!!!!!!!!!!!!!
"Tom Genoni:

Here's that quote from Reader's Encyclopedia:

"It has been said that in order to fully understand 'Ulysses'
one must, at the very least, be familiar with the theology of
the Roman Catholic Church, the history of heresy, Irish legend,
European history, mythology, astronomy, Hebrew, Latin, Gaelic,
and Gypsy slang."

At the very least!!"




Troti
 
  St.Aengus (The Culdee)
"An Irish saint who flourished in the last quarter of the eighth century and is held in imperishable honour as the author of the Feliré, or Festology of the Saints...Aengus was educated at the monastic school... Becoming a hermit, he lived for a time at Disert-beagh, where, on the banks of the Nore, he is said to have communed with the angels. From his love of prayer and solitude he was named the "Culdee"; in other words, the Ceile Dé, or "Servant of God." Not satisfied with his hermitage... Aengus removed to a more solitary abode eight miles distant. This sequestered place ...was called "the Desert of Aengus"", or "Dysert-Enos". Here he erected a little oratory ... His earliest biographer (ninth century) relates the wonderful austerities practiced by St. Aengus in his "desert", and though he sought to be far from the haunts of men, his fame attracted a stream of visitors. The result was that the good saint abandoned his oratory... and, after some wanderings, came to the monastery of Tallaght... About the year 805 St. Aengus finished his famous Feliré, a poetical work on the saints of Ireland."

http://www.newadvent.org/cathen/01173a.htm




Troti
 
sábado, novembro 22, 2003
  Wandering Aengus
The Song of Wandering Aengus



I went out to the hazel wood,
Because a fire was in my head,
And cut and peeled a hazel wand,
And hooked a berry to a thread;

And when white moths were on the wing,
And moth-like stars were flickering out,
I dropped the berry in a stream
And caught a little silver trout.

When I had laid it on the floor
I went to blow the fire aflame,
But something rustled on the floor,
And some one called me by my name:
It had become a glimmering girl
With apple blossom in her hair
Who called me by my name and ran
And faded through the brightening air.

Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands,
I will find out where she has gone,
And kiss her lips and take her hands;
And walk among long dappled grass,
And pluck till time and times are done
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun.

-- William Butler Yeats






Troti
 
  Idée fixe
“Shakespeare é o feliz couto de caça de todos os espíritos que perderam o equilíbrio”


Stephen perdeu o debate na Biblioteca mas abriu caminho à especulação dos seus companheiros como nos é revelado pela conversa entre Mulligan e Haines:



“ - Devia vê-lo…quando o corpo lhe perde o equilíbrio. O Aengus errante, é como lhe chamo.
- Tenho a certeza que ele tem uma idée fixe…agora estou a especular qual poderá ser…
- Deram-lhe cabo do juízo…com visões do inferno. Nunca conseguirá captar a nota ática….É essa a tragédia dele. Nunca poderá ser um poeta. A alegria da criação…
-Dez anos…dentro de dez anos escreverá alguma coisa.
-Parece uma longa jornada…No entanto, não estranharia que acabasse por fazê-lo.”



Troti
 
  The Agenbite of Inwit



The Agenbite of Inwit
by Dale Copeland
Mixed media assemblage
100 compartments, in the frame of an old car seat
Mirrors, symbols, badges of association
Collection of Donna Willard-Moore


From James Joyce's "Ulysses" - his made-up phrase signifying the repeated bite, self-inflicted, the wound of inlooking, the hurt of self-analysis, self knowledge.
James Joyce says it better.


And Erik in McLean, VA, wrote:
You must have already heard this, but just in case: This is not a made-up phrase. It is the title of an Early Middle English religious treatise dealing with "remorse of conscience," which is what the words mean. Agen (pronounced ayen' , with the stress on the second syallable) is a pretty good equivalent of the Latin "re" prefix, and of course the morse part comes from Latin for bite. In-wit is the old word for conscience, the knowledge [of right and wrong] that is born in a person.




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Dale's studio can be found on Surf Highway, Taranaki, New Zealand



Troti
 
  Agenbyte
*Agenbyte: Middle English for "remorse." Best known from "Agenbite of Inwit" ("remorse of conscience"), from Joyce's Ulysses, a phrase itself borrowed from the title of a "medieval manual of virtues and vices intended to remind the layman of the ierarchy of sins and the distinctions among them." (Gifford, Ulysses Annotated).

www.agenbite.com



Troti
 
  Agenbite
"Agenbite" is not a word easily found in a dictionary...It was coined by James Joyce in his book Ulysses... Google finally found me a paper ("Authoritarian Grammar and Fundamentalist Articulation: A Condensed View of the Origins of Language) in which someone named Ben G. Price describes the meaning:

Consciousness, as Julian Jaynes has illustrated, is not top-down where, as Freud's interpretation requires, the already conscious mind protects itself through repression of untenable thoughts. Instead, the unconscious (or subconscious) activities of the older regions of the brain (in terms of evolution) influence and dictate to the younger, less rigid and hence more fragile conscious activities of the cerebral cortex. And it is at the crossroads of human mental development, from preconscious ancestor to ego conscious historical human, that the "voice" of internalized language begins to speak, at first from one cerebral hemisphere to the other, whence it was interpreted as unseen gods. And later as the voice of conscience created out of the memory of every reprimand or command ever heard by the individual from authorities. Elias Canetti refers to this command induced "conscience" as the Sting, and James Joyce calls it The Agenbite of Inwit."
Dalton Graham’S Journal
www.livejournal.com



Troti



 
  Stephen's Agenbite of Inwit
"Dizem que tem os meus olhos. Vêem-me assim os outros? Vivos, distantes e ousados? Sombra do meu espírito…

...Está a afogar-se. Agenbite. Salva-a. Agenbite. Tudo contra nós. Afogar-me-á com ela, olhos e cabelo. Escorridos caracóis de cabelo de algas à minha volta, o meu coração, a minha alma. Salgada verde morte.
Nós.
Agenbite of inwit’s. Inwit’ s agenbite.
Miséria! Miséria!”

( “ O anel da baía e a linha do horizonte detinham uma espessa e verde massa de líquido. Uma bacia de porcelana branca ficara ao lado do seu leito de morte, com a verde e viscosa bílis que ela rojara do fígado podre…” 1º capítulo)



Stephen, agora com a irmã, é novamente assolado pelo espectro do remorso que o atormenta desde a morte da mãe. É a profundidade da dor da sua consciência que o espeta no seu âmago.


Troti
 
  Stephen e os seus pensamentos...
"...Seres sem ser. Alto! Sempre um latejar exterior a ti e um latejar dentro de ti. O teu coração, que tu cantas. Eu entre eles. Onde? Entre dois mundos atroadores onde eles rodopiam, eu. Esmagá-los, um e ambos. Mas atordoar-me também no golpe. Esmaga-me tu, que podes... Não ainda por enquanto..."



Angústia, dualidade, hesitação, limitação, ímpeto, indecisão.....


Troti
 
  Citação
" A vida só se compreende mediante um retorno ao passado, mas só se vive para diante".

Kierkegaard



Troti
 
  Cidadão, o Cíclope
Homem monstruoso, que sozinho apascentava
Os seus rebanhos à distância, sem conviver com ninguém.

Joyce apelida de cidadão aquele que, de entre os convivas, é o que nos inspira menos simpatia; aquele que é marcadamente um cínico. Faz-se acompanhar de um cão qe imagino amarelento e feio, um entrave à sociabilidade. É este homem que, cego de raiva (como o Cíclope havia cegado por acção de Ulisses), persegue Bloom, desejando destruí-lo.

Arrancou o cimo de uma alta montanha
E atirou-o contra a nau de proa escura.

Ou:
O estupor do cavalo espantou-se e o velho rafeiro atrás do trem que parecia um demónio e toda a populaça a gritar e a rir e a velha lata a fazer barulho pela rua abaixo.
nastenka-d
 
sexta-feira, novembro 21, 2003
  Stephen e os seus pensamentos...
"...As demenciais palavras dos sofistas: Antístenes. Sabedoria de drogas. Trigo oriente e imortal mantendo-se pela eternidade da eternidade."



Antístenes

Antístenes (444 - 365/0 a.C.)
Filósofo grego. É encarado pela tradição como o fundador da escola cínica.

Segundo Antístenes, a felicidade somente pode ser alcançada mediante a eliminação dos prazeres e dores, os maiores responsáveis por abalar a tranquilidade da alma. Esta tranquilidade, por sua vez, corresponde à  verdadeira virtude, alcançada mediante o exercício da filosofia. A base de todo ensino deve consistir na preparação para a virtude; aprender significa conhecer o fundamento da virtude e, assim, aprender a dominar as próprias paixões, na conquista do auto-governo (autarquia) oriundo dos ensinamentos de Sócrates. A doutrina propagada por Antí­stenes adota como paradigma deste exercí­cio a personagem mitológica Hércules. Sendo a dominação das paixões uma tarefa verdadeiramente hercúlea, os trabalhos que este herói teve de realizar simbolizam todos os entraves que a alma deve superar para completar sua marcha em direção ao autodomínio e à  felicidade.
A filosofia de Antí­stenes adota a erística, método de disputa através da argumentação utilizado pelos sofistas e megáricos.
(www.enciclopedia.com)




Os Sofistas

Vindos de toda a parte do mundo grego, os sofistas (mestres de sabedoria), dedicam-se a fazer conferências e a dar aulas nas várias cidades-estado, sem se fixarem em nenhuma. Atenas é todavia a cidade onde mais afluem, onde no século V a. C. adquirem um enorme prestígio. Aproveitam as ocasiões em que existe grandes aglomerações de cidadãos, para exibirem os seus dotes retóricos e saber, ensinando nomeadamente a arte da retórica...

Afirmam saber de tudo...

Alheios às tradições, os sofistas mostram-se dispostos a discutirem todos os assuntos. Atribuem à linguagem uma importância fundamental, mas esta não passa de uma convenção. As palavras são com frequência destituídas do seu sentido corrente, e são usadas como instrumentos de sugestão e persuasão para convencerem os seus interlocutores. Recorrem à ambiguidade das palavras, exageram na aplicação dos três princípios lógicos, para numa cadeia de deduções e sentidos ambíguos, levarem os seu interlocutores a desdizerem-se...

Os sofistas defendem abertamente o valor formativo da cultura (Padeia), que não se resume à soma de noções, nem tão pouco ao processo da sua aquisição. A sua educação visa a formação do homem como um ser concreto, membro de um povo e parte de um dado ambiente social. A educação torna-se a segunda natureza do homem. Deste modo, os sofistas afastam-se da tradição aristocrática, ligada à afirmação de factores inatos. Os sofistas manifestam frequentemente uma visão optimista do homem, segundo a qual este possui uma inclinação natural para o bem. Protágoras foi um defensor desta posição.

Carlos Fontes
( http://afilosofia.no.sapo.pt/sofistas)



Protágoras

Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação, conforme as disposições subjetivas dos órgãos, inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula;

O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS

Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas, não na sua realidade física, mas na sua forma conhecida. Subjetivismo, relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial.
(www.angelfire.com)




"O zumbido de bater de asa das correias de couro e o zunir de dínamos da central eléctrica impeliram Stephen para diante..."



Troti
 
  Bloom, o herói
Pela primeira vez, ousa falar, defender-se... Depois de todas as humilhações a que já o vimos sujeitar-se (o isolamento, a troça, o adultério da mulher), Bloom responde, contra-ataca. Qual terá sido a gota de água? O anti-semitismo do cidadão? Ou esse terá sido apenas o pretexto para dar, finalmente, azo à  sua agressividade? E ela manifesta-se da forma mais brutal: O seu Deus era judeu. Cristo era judeu, como eu.
(Curiosamente, no episódio da Odisseia em que Ulisses defronta o Cíclope, dá-se mais importância à  sua manha do que à  sua coragem... Ao contrário do que se passa com Bloom, no Ulisses de Joyce.)

nastenka-d
 
quinta-feira, novembro 20, 2003
  16 de Junho de 1904
"Era um dia de paz..."


"Era um dia encantador..."









Troti
 
  Robert Anton Wilson
Numa entrevista, o autor da triologia "Illuminatus" fala sobre Joyce nestes termos:

Joyce fascinates me because of many other things. In Ulysses, he was the first one to write a relativistic novel, the first Einsteinian novel. Every other novel before Ulysses had one point of view, which was supposed to be the objective point of view, and in Ulysses, Joyce refuses to give you an objective point of view. He gives you about 54 different points of view, and leaves it up to you to decide which of the various narrative voices you're going to believe. And I find that a very appropriate style for the 20th Century, it's entirely compatible with relativity and quantum mechanics . . . the amount of deception and propaganda in the 20th Century world, where you can't take anything at face value. It's compatible with modern philosophy, everything from Nietzsche and Wittgenstein on, we've learned more and more about how the mind creates its own reality-tunnel; it's entirely compatible with modern psychology and neurology and cultural anthropology.

Nunca li nada deste autor, mas gostei desta passagem...



Leitora
 
  Uma receita culinária
A propósito do capítulo 10, aqui deixo uma receita para Irish White Pudding Sausage:

Ingredients: 2 1/2 lbs. medium ground pork butt, 2 1/2 lbs. fine ground pork putt, 5 cups plain bread crumbs,4,eggs lightly beaten, 8 cloves pressed garlic,1 tbsp. salt,3 tsp thyme,3 tsp.basil,3 tsp marjoram, 3 tsp black pepper, 2 cups ice water. Mix thoroughly keeping cold.Stuff into casings making 2 1/2 inch links or pat into small compact pattys. Referigerate over night before freezing.Fry to golden brown.


Ao gosto de Bloom, o herói que deambula...




Leitora
 
  Capítulo Dez
Ainda não me apetece falar sobre este capítulo! A razão é simples: continuo a pensar... Capítulo inesperado, e que de facto vem abrir um precedente na história da literatura...

Capítulo espacial. Movem-se várias personagens pelas ruas de Dublin. Cruzando. Interferido. E certas figuras vão-nos sendo apresentadas pelos diversos olhares que as observam.

Só consigo pensar em matemática, em geometria no espaço, numa peça para orquestra. Causas e consequências. Antes e depois...


Acidentalmente encontrei um trabalho (académico, decerto) em que se organiza este capítulo do ponto de vista cronológico. SACRILÉGIO!!! Fechei imediatamente a página!



Leitora (daqui a pouco eu volto; tenho de me preparar psicologicamente!)
 
  Citações utilizadas no ULISSES - IV
Alfred Tennyson Tennyson:
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles whom we knew.






Leitora
 
  Citações utilizadas no ULISSES - III
Alfred Tennyson Tennyson:
Much have I seen and known; cities of men
And manners, climates, councils, governments;
And much delight of battle with my peers
Far on the ringing plains of windy Troy.





Leitora
 
  Citações utilizadas no ULISSES - II
Alfred Tennyson Tennyson:
How dull it is to pause, to make an end,
To rust unburnished, not to shine in use,—
As tho’ to breathe were life!






Leitora
 
  Citações utilizadas no ULISSES - I
Alfred Tennyson Tennyson:
I am a part of all that I have met.




Leitora
 
  O narrador anónimo
Saímos do bar da Sereias, encontramo-nos de novo nas ruas de Dublin. Desta vez somos guiados, não por Stephen, não por Bloom, mas por uma outra voz, sem a erudição do primeiro, sem a emotividade do segundo. Leva-nos até um outro antro, apresenta-nos; é uma voz irónica, que abandona a espaços o seu registo vernacular para, papagueando discursos alheios, os pôr a ridículo. É assim com Bloom, de quem diz: Juro por tudo que se apanhares uma palha do sacana do chão e se disseres a Bloom: Veja, Bloom. Está a ver esta palha? É uma palha. Juro pela minha tia que desataria a falar durante uma hora e ainda continuava a falar.
Não se consegue reprimir o sorriso, por exemplo, perante a troca de palavras entre Bob Doran e Bloom, a propósito da morte de Paddy Dignam: a inverosímel formalidade com que nos é apresentada contrasta em absoluto com a situação que é descrita, antes e depois.
Nada é sagrado para ele: brincalhão, iconoclasta.
Quase apostaria que o seu nome é Joyce.
nastenka-d

 
  Joyce, Hemingway, Shakespeare and Company
Today in Literature
November 17, 1919

On this day in 1919 American expatriate Sylvia Beach opened her bookshop-library, "Shakespeare and Company," at 12 rue de l'Odéon, in the Left Bank section of Paris. It was an intellectual and social center for the international literary community throughout the World War years, a place where Joyce, Hemingway, Stein, et al. could be not only read, but found. Beach's determination to publish Joyce's Ulysses made her bookshop famous (and a popular stop for many book-smugglers); ironically, it was her refusal to sell her last copy of Finnegans Wake which caused her doors to finally close.

It is a tale to stir the heart of any booklover. Beach had defiantly kept her shop open through the early years of WWII, despite the reasons for closing: an ever-dwindling supply of books, and Paris reduced to only 25,000 citizens, few with time for literature; the dispersal of the "Company," as many expatriates fled home; the loss of this volunteer or friend to the death camps or the Resistance or suicide; the emotional blow of Joyce's death at the beginning of '41. One day in early December of that year, a big, gray military car stopped in front of the bookshop, and a high-ranking officer got out. He studied the display window and then asked, reader-to-reader and in perfect English, to buy Finnegans Wake. When Beach explained that she had only one personal copy left, not for sale, he clicked his heels and stomped out. Beach hid her copy of the book; the German officer returned; they had the same conversation with the same result, though this time the officer shouted, "We're coming to confiscate all your books today!" In two hours Beach and Friends had all 5000 volumes of Shakespeare and Company in hiding up on the fourth floor, where they stayed until the liberation. If the officer returned that day he must have thought he was in a Twilight rather that a Militarized Zone, as 12 rue de l'Odéon was completely empty - light fixtures, shelves, everything - and the sign outside had been painted over.

Shakespeare and Company would never reopen, but the books were liberated, Beach says in her memoirs, on August 26th, 1944, and in Hemingway style:

I heard a deep voice calling: "Sylvia!: And everybody in the street took up the cry of "Sylvia!" "It's Hemingway! It's Hemingway!" cried Adrienne. I flew downstairs; we met with a crash; he picked me up and swung me around and kissed me while people on the street and in the windows cheered. We went up to Adrienne's apartment and sat Hemingway down. He was in battle dress, grimy and bloody. A machine gun clanked on the floor. He asked Adrienne for a piece of soap, and she gave him her last cake. He wanted to know if there was anything he could do for us. We asked him if he could do something about the Nazi snipers on the roof tops in our street, particularly on Adrienne's roof top. He got his company out of the jeeps and took them up to the roof. We heard firing for the last time in the rue de l' Odéon. Hemingway and his men came down again and rode off in their jeeps - "to liberate," according to Hemingway, "the cellar at the Ritz."

http://www.todayinliterature.com/today-ct.asp?id=11/17/2003


riverrun
 
quarta-feira, novembro 19, 2003
  Puzzle ziguezague
Este é um capítulo puzzle ziguezague. Pegamos numa peça e começamos a construir o puzzle de um mapa cheio de ruas e figuras. Pomos uma peça numa zona, pomos outra peça noutra zona, e por aí fora. Mas, entretanto, as peças, em vez de se quedarem estáticas, tomam vida e ziguezagueiam pelo espaço cruzando-se umas com as outras, interligando-se umas com as outras, criando um novo puzzle a cada momento, criando vários puzzles que se sobrepõem, mas que, de uma forma singular, atingem uma unidade e uma coerência inesperadas. É uma estrutura narrativa diferente do habitual, organizada com imensa perícia.




Troti
 
  SANGUE
Estamos no capítulo 10, são cinco para as três e, em Dublin, o dia avança com os seus peões a girarem na roda da vida.


Nós sabemos que se aproxima um momento crucial, o encontro amoroso de dois amantes, Molly Bloom e Blazes Boylan . Atrás da cena está o marido Leopold Bloom. Ele sabe que daqui a pouco eles vão cometer adultério.
Joyce dá-nos o clima da volúpia ao mostrar as personagens e a sua postura. Eis os passos dos três nesta hora e pensamentos de outras personagens com eles relacionados:


Molly Bloom – está resguardada dentro de casa num “alegre e doce chilreio”…pressentimos a sua presença através duma visão parcial da sua epiderme: “Brilhou um braço roliço generosamente nu… saindo de um branco corpete e esticadas alças”.

Acerca de Molly:
Lenehan conta a M’ Coy que fez uma viagem com Molly ao lado e “a cada sacudidela que dava o trem tinha-a eu a chocalhar contra mim. Delícias do demónio. Ela tem um bom par…Eu estava sempre a ajeitar-lhe a manta por baixo…é uma égua de boa pinta, não há dúvida…”

...............................................

Leopold Bloom – escolhe um livro para Molly: com um título “Doçuras do pecado” que não poderia ser mais irónico. Aqui lê pormenores sensuais que lhe provocam uma onda libidinosa:
“Uma excitação quente caiu gentilmente sobre ele, intimidando-lha a carne. A carne rendia-se amplamente entre roupas em desordem: o branco dos olhos revirava-se em desmaio…Derretidas loções de seios…Sentir! Apertar!!


Acerca de Bloom:
M’Coy diz: -É um homem de muita cultura, Bloom…não é um tipo qualquer…tem o seu quê de artista.”
John Wyse Nolan diz”que há muita bondade no judeu.”

...................................................

Blazes Boylan – compra um cesto de fruta para Molly e ao mesmo tempo observa o decote da rapariga loura da loja “uma franguinha”. Na conversa usa de “galanteria” e “malícia” . Por sua vez a empregada “pôs em boa ordem gordas peras, cabeça contra rabo e entre elas pêssegos de pele ruborizada". Elucidativo, não acham?


(Curiosamente, a meio desta cena sentimos a presença de Bloom numa frase que Joyce intromete no meio da descrição (como faz também nas outras cenas deste capítulo) e que parece despropositada. Mas não é. Faz parte da estratégia de ligação das personagens.)

Mais tarde vamos encontrar Blazes “satisfeito de si próprio” , “ofereceu às três senhoras a ousada admiração dos seus olhos e a flor vermelha entre os seus lábios”.




Joyce é um mestre na arte da leitura entrelinhas.

Troti
 
  Voltando a Ferreira Gullar
No Diário de Notícias de hoje vem um artigo de Ana Marques Gastão sobre a obra de Ferreira Gullar e a sua força poética. Se quiserem ir espreitar está na pág.46:

"TANTA PALAVRA IMPURA POR DENTRO DA NOITE"

" Ferreira Gullar... um "foragido e um sobrevivente"...canta o corpo, o do Homem e o da cidade, na sua finitude abrupta, lírico e áspero."

Ana Marques Gastão




Troti
 
 
“Estridentes, com riso profundo, ouro após bronze, uma à outra ofereciam riso após riso, soando em modulações, bronzeouro, ourobronze, fundoestridentes, gargalhada após gargalhada. E depois ainda mais se riram.”
Serão estridentes, fúteis, o que quiserem, estas sereias; rir-se-ão de Bloom (mas porque não haveriam de o fazer? Porque lhes seria proibido?); armar-se-ão das mais superficiais formas de sedução; mas não consigo deixar de lhes sorrir com simpatia. Talvez porque sejam verdadeiras à sua natureza (ao contrário de Bloom, ao contrário de Stephen); talvez as mulheres em Ulisses o sejam sempre. Começo a achar que o senhor Joyce não seria assim tão misógino...
nastenka-d
 
  Wandering, wandering….
Errantes habitantes de Dublin deambulam pelas ruas em diversos afazeres, expostos na sua realidade. E as descrições de Joyce apresentam-nos personagens variadas com traços comuns na sua absoluta trivialidade e onde desfilam as características do tecido humano. Aqui estão homens e mulheres no dia 16 de Junho de 1904:

- “O Padre Conmee ”Tinha limpo os dentes” , usava “uma fofa luva de pelica”e tinha “tornozelos calçados com meias finas”.

- “Corny Kelleher expeliu um silencioso jacto de suco de feno, em arco, pela boca…”

- “Um marinheiro perneta …resmungou de mau humor…grunhiu obrigado…rosnou irado…e latiu com funda voz…”

- “Larry O’ Rourke “ estava “em mangas de camisa…”

- “J.J.O’Molloy “ apresentava “rosto branco e vincado de preocupações”

- “Maggy Dedalus, ao fogão…enxugava a fronte…”

- “Boody Dedalus bateu com o pé…gritou com fúria…esfomeada”

- “Katey Dedalus espreitou com olhos vesgos…levantando a tampa da chaleira com uma ponta da suja saia…”

-“Blazes Boylan …com sapatos claros novos…olhou-lhe o decote da blusa…”
( “a rapariga loura olhou-o de lado…ruborizado”)

-“Almidano Artifoni…com pressa amigável…trotou..para o eléctrico…”

-“Miss Dunne escondeu o exemplar…no fundo da gaveta…”

-“Ned Lambert fez estalar os dedos…arfou…uma constipação…”

- Tom Rochford disse…Diga-lhe que estou a boylar de impaciência…”

-“Nosey Flynn inclinou-se…fungando”

- “M’ Coy afastou uma casca de banana com ligeiros empurrões do pé…”

- “Lenehan avidamente…parou..ofegante…coçou rapidamente a nuca…”

- “Bloom folheava ociosamente…sozinho…dominando a respiração agitada..”

- ”O lojista…por barbear… escarrou no chão…ergueu uns olhos remelosos de velho catarro.”

- “Dilly Dedalus …encolheu os ombros…olhando-o nos olhos….com uma careta… as suas roupas gastas…escorridos caracóis…”

- O senhor (Simon) Dedalus…meteu a cabeça para baixo e para a frente, arqueando os ombros e deixando cair a mandíbula…endireitou-se…ameaçador….voltou-lhe as costas…

-“O Senhor Kernan…parou e aperaltou-se diante do espelho…gordo, pomposo andar…”

- “Denis Breen com os seus calhamaços, cansado de ter esperado uma hora…”

-“Stephen Dedalus …desceu Bedford Street, o punho da bengala de freixo a bater-lhe na omoplata….uma desbotada gravura atraiu o seu olhar…

- “O Padre Cowley…alisava muitas vezes o bigode…uma grande maça a fazer-lhe bojo no pescoço…”

- “Ben Dollard…veio, sem pressas, coçando-se activamente por detrás das abas do fraque…”

- “Cashel Boyle O’ Connor Fitzmaurice Tisdall Farrell, a murmurar, de olhos vidrados…franziu o sobrolho…e franziu o rosto… mostrando dentes de rato…”

- “Martin Cunningham…disse, cofiando a barba…torcendo a ponta da barba…”

- “John Wyse Nolan, atrasado…abriu muito os olhos…”

- “John Fanning – os seus grandes olhos cruéis observaram carrancuda e inteligentemente todos os rostos…soltou uma baforada pelos lábios”

- “Jimmy Henry, irritado…fez uma careta e ergueu o pé esquerdo -Ai os meus calos!”

- “Buck Mulligan …sussurrou…o colete amarelo-pálido…agitava-se alegremente com o seu riso…trincou , esfomeado…saboreou uma colherada..”

- “Jonh Howard Parnell transladou tranquilamente um bispo branco… os seus olhos contemplaram…com brilho fantasmal, o antagonista…”

- “Haines…disse…beliscando pensativamente o queixo…”

- “um corpo sem vigor…O rapazola cego voltou o rosto doentio…”

- “Mestre Patrick Aloysus Dignam..seguia mandriando…prosseguiu mandriando…transferiu as costeletas de porco para a outra mão…todo o rosto se lhe pôs cinzento…o papá está morto…”



Troti




 
  A DATA
“Miss Dunne bateu no teclado:
- 16 de Junho de 1904.”



Troti
 
terça-feira, novembro 18, 2003
  O regresso de Henry Flower
«Não és feliz em tua casa? Flor para me consolar e um alfinete para me prender. Significa alguma coisa, linguagem de flor. Era uma margarida? Inocência.»
Bloom murmura uma coisa e Flower escreve outra. (É uma coisa e escreve outra.) Diz: tens de crer; pensa: «quem me dera não ter prometido o encontro». Henry Flower pode ser uma outra versão de Bloom; mas não consegue libertar-se dele, dos seus medos e reticências.
nastenka-d
 
segunda-feira, novembro 17, 2003
  Também estou atrasada
Apesar de já ter comentado um pouco o livro "A Volta no Parafuso" estou atrasada na resposta à  Deda que nos pediu para falar sobre o encontro da Biblioteca Almeida Garrett. Assim, aproveitando a boleia da Sandra (que gostei imenso de conhecer e a quem dou os parabéns pelo blog e pelo livro), aqui vão umas ligeiras impressões sobre a reunião. Um dos aspectos mais simpáticos é a atmosfera calma e intimista em que decorrem as conversas. A noite convida à tertúlia, e a ausência de movimento e de barulho permitem uma troca de ideias agradável. Creio que a disposição circular ajuda muito, nessa noite especialmente. Foi curioso ver as expressões dos companheiros, pois o tema era ambíguo, as perguntas ficavam no ar, as vozes queriam falar mas esbarravam no fumo da perícia de Henry James, as opiniões divergiam em labirínticas direcções, as respostas ficaram no mistério da representação mental de cada um. E nós saímos sorridentes numa amena cavaqueira. Até ao próximo encontro.


Troti
 
  A Volta no Parafuso
Estou em atraso. Parece que lá não estive (a saber, na Biblioteca Almeida Garrett). Ter-me-ei dissipado na última volta no parafuso? Tento-me na resposta afirmativa a todas as dúvidas.

Gostei de quarta-feira à noite. Gostei de levar a J. comigo e um livro nos braços. Gostei de entrar no jardim do Palácio à noite e dar com um dinossauro à espreita. Gostei de encontrar a Cristina à porta de uma biblioteca ainda desconhecida. Gostei das cadeiras também em volta e de sermos nós o parafuso sobre o livro (e há sempre quem perfure demais as finas paredes da matéria de que se faz um livro). Gostei da curva do círculo preenchido pela blogosfera - havia qualquer coisa de diferente nessa volta (excluindo-me, que pouco falo e gosto mais de ouvir). Gostei da 'dizibilidade' de Henry James, no que diz não revelando, no que induz não conduzindo, na perversão do ser que sê-lo-á?

Sandra
 
  A ilha das duas sereias
«Vem até nós, famoso Ulisses, glória maior dos Aqueus!
Pára a nau, para que nos possas ouvir!»
Obedientes, entramos, baixando a cabeça. Uma sereia é de Ouro, outra de Bronze. Esperam sentadas em caixotes que o chá abra, trocando segredos: »Já experimentou o bórax com água de louro e cerveja?»; enchem o ar com as suas risadas. Os homens vão entrando, «pobres e simples homens», tentados pelos seus cabelos, cor de ouro, cor de bronze. Nem Boylan, o sedutor, o elegante, escapa ao chamamento. «Miolos excitados, rosto tocado rosto tocado pelo rubor, escutaram sentindo essa torrente sedutora, torrente sobre a pele, membros, coração humano, alma, espinha.»
Só Bloom prefere sentar-se afastado, comendo vísceras. (Teria ele, não fosse a presença do rival, preferido a companhia de Miss Kennedy e Miss Douce à de Richie Goulding? Ou será que o amor por Molly o defende das Sereias? E, nesse caso, como explicar Martha?) É a primeira vez que vemos Bloom só por sua própria vontade. Ao mesmo tempo, porém, como que para sublinhar a sua derrota pessoal, vemos a impaciência de Boylan aumentar à medida que se aproximam as quatro horas; e vemo-lo depois na tipóia, correndo por Bachelor’s Walk para ir ao encontro de Molly, «impaciente, ardente, ousado». Alguma vez veremos Bloom assim tão impetuoso?
nastenka-d
 
  Nota do Tradutor (João Palma Ferreira)
Enviado este episódio por James Joyce, da Suíça para Inglaterra, durante a 1ª Guerra Mundial, foi retido por suspeitas de se tratar de uma mensagem em código secreto. Diz-se que dois célebres escritores ingleses o examinaram para concluírem que apenas se tratava de uma excentricidade literária totalmente invulgar mas inócua.
nastenka-d
 
domingo, novembro 16, 2003
  «Caminhava à sombra de árvores com folhas pestanejantes de sol»
Sol. Árvores. Folhas. Pestanejar. Folhas pestanejantes de sol. Folhas brilhantes. Sol entre as folhas. Uma frase só. Tantas imagens fraccionadas...


Leitora
 
  Reflexão
«Mas então eu era mais feliz. Ou era eu esse? Ou sou eu agora eu? (...) O tempo não se pode trazer de volta. É como segurar água com a mão. E voltarias atrás? Só para começar. Voltarias?»

Não há ameno dia de sol que não possa ser reflectido...

Leitora
 
  O que poderia o guloso Bloom pensar sobre vegatarianos?
Ah Vejam só:
«Só legumes e frutas. Não se come um bife. Se comesses, os olhos dessa vaca perseguir-te-iam por toda a eternidade. Dizem que é mais saudável. Vento e água e nada mais. Já experimentei. Põe o indivíduo a mexer o dia inteiro. é tão mau como arenque fumado. Sonhos toda a noite. Por que chamam a isso que me deram, bife de noz? Nozarianos. Frutarianos. Para dar a ilusão de que se está a comer um bife verdadeiro. Absurdo. Demasiadamente salgado. Cozinham com soda. Fazem com que um gajo passe a noite sentado junto à torneira.»

O que mais me espanta é saber que o Bloom experimentou. Imagine-se se tivesse gostado! Teria de rever todo o seu culto pela carne...

Leitora
 
  Quem libertou quem?
"Como podemos definir o que é exorcismo? A definição é a de libertar algo ou alguém de um mal interno. "
www.sobrenatural.org.


Quem libertou quem?


Troti
 
  !
“Eles só me tinham a mim, e eu…bem, eu tinha-os”




Troti
 
  Avassalador
“…
Querido pequeno Miles…Eu só quero que tu me ajudes a salvar-te!
…eu sentia que ele queria estar comigo.


Miles …só se voltou depois de o empregado nos deixar
– Bom… enfim sós!


Mas acometeu-me uma extraordinária impressão…de que agora era ele…Estaria ele à espreita de algo que não podia ver?...Pareceu-me um presságio extraordinário.
...

- Bom, acho que posso dar-me por satisfeito por Bly me fazer tão bem!...Nunca me senti tão livre…



- Bom, e gostas?


- E a Menina, gosta?


...gosto de ter ficado aqui contigo…Em parte foi para que …desabafasses de uma vez…


Eu conto-lhe tudo…Há-de ficar aqui comigo, e ficaremos ambos bem..


mais uma vez, contra o vidro, como que para reprimir a sua confissão e impedir a sua resposta, surgia o terrível autor da nossa desgraça – o rosto branco da condenação….Está ali pela última vez!


- É ele?


- A quem te referes?


- Peter Quint, ó demónio!...Onde?


- Que importa ele agora, que és meu?...que pode ele importar? Eu tenho-te – atirei-me à besta -, mas ele perdeu-te para sempre!...


olhara…e vira apenas o dia plácido. Ao ser acometido pela perda de que eu tanto me orgulhava, emitiu o grito de uma criatura atirada para um abismo…


Apanhei-o, sim…mas ao fim de um minuto comecei a perceber o que era aquilo a que na verdade me agarrava. Estávamos sós ante o dia plácido, e o seu pequeno coração, desalojado, deixara de bater.”



DESALOJAR - …tirar dum lugar (quem ou aquilo que estava nele guardado).
Dicionário Complementar da Língua Portuguesa – Augusto Moreno




Transcrevi um pouco do diálogo entre a Menina e o rapaz para situar melhor o contexto.
O que mais me marcou ao ler "A Volta no Parafuso", além, é claro, da extraordinária tensão dramática, foi a escolha das palavras. É fantástica a forma como Henry James selecciona o termo certo para o que pretende dizer, conseguindo um efeito extremamente perturbador. Para isso, joga com uma espiral de palavras que se mesclam dentro de um círculo fechado onde rodam umas atrás das outras, com sentidos definidos e intenções contraditórias. É um texto avassalador que nos põe em brasa. E que não se esquece.

Troti
 
sábado, novembro 15, 2003
  Sós ante o dia plácido?
No texto não há um sentido privilegiado para a intriga e as personagens; elas estão sós perante algumas das forças mais ferozes da Natureza (o céu, o inferno, o silêncio, a infância, a loucura, a noite, a morte, o vazio, ...) e nenhuma integração ou conciliação é efectuada.
Até no fim do livro, num dos mais belos parágrafos finais que me lembro de alguma vez ter lido, a sensação com que ficamos é a de que o caos esteve ali, mas nem sequer o caos veio para ficar.

Alex
 
  A impoluta
«Presentemente, senti de novo – pois já vezes sem conta me capacitara disso mesmo – que o meu equilíbrio dependia do êxito da minha vontade férrea, a vontade de fechar os olhos o mais possível à verdade de que aquilo com que tinha de lidar era repugnantemente contranatura. Só arranjava forças para prosseguir tomando a “natureza” do meu partido e tomando a minha monstruosa provação como uma guinada numa direcção que era evidentemente invulgar e desagradável, mas que, afinal, apenas precisava de ser defrontada com uma volta mais apertada no parafuso da virtude humana.»



Parece-me, no entanto, que no final lhe foi impossível manter os olhos fechados; e eu pergunto-me – pois o relato termina antes que o possamos saber – quem terá sido, no final, marcada? Quem foi o parafuso, quem a madeira?


nastenka-d
 
 

Mas essas fantasias não foram tão perceptíveis que não as descartasse; e é apenas à luz – ou, diria antes, à sombra – de outros e subsequentes acontecimentos que agora me lembro delas.


Nastenka-d
 
  Mais uma volta
“Quanto mais penso nisso, mais coisas vejo, e quantas mais vejo, mais tenho medo. Já nem sei que não vejo, o que não temo!”



Troti
 
  A escolha das palavras
“Foi como um baque…esta figura…Um homem desconhecido num sítio solitário…parece-me reviver toda a sensação que me causou aquele momento. Foi como se, enquanto esta se apoderava de mim…tudo o resto fosse ferido de morte….Estávamos demasiado longe …para nos falarmos, mas houve um momento em que…uma espécie de despique entre nós…teria sido o desenlace apropriado…

A pessoa…Surgia assim de novo…e me fez…ficar sem pinga de sangue…Parei e quase desfaleci…


A aparição …Conheceu-me tão bem como o conheci…defrontámo-nos na nossa comum intensidade… Foi o silêncio de morte do nosso longo olhar que conferiu…a sua única nota de sobrenaturalidade…O momento foi tão prolongado que pouco faltaria para me fazer duvidar de eu própria estar viva.”



Nas três aparições de Quint chamou-me a atenção a terminologia escolhida por Henry James. Porque as palavras remetem para a morte….



Troti
 
  Crescendo
“Espero que o que me disse…seja uma declaração de que nunca lhe pareceu que ele fosse mau.

- Ora, nunca ter conhecimento…não foi isso que eu quis dizer!
Fiquei de novo perturbada.
-- Então já lhe pareceu…?
- Sim, claro, Menina, graças a Deus!

-Está-me a dizer que um rapaz que nunca é…?
- Para mim não é um rapaz!


Apertei -.a mais:



Ela contara-me, pouco a pouco, sob pressão, muita coisa …



Meu Deus, como eu a pressionava…”





E, assim, pressionando a nossa ansiedade numa espiral de crescendo narrativo, Henry James dá mais uma volta no parafuso da nossa mente.


Troti
 
sexta-feira, novembro 14, 2003
  Núcleos de ausência
«Ambas as crianças tinham uma candura [...] que fazia com que fossem, como dizê-lo, quase impessoais [...] Lembro-me que Miles, em especial, me dava a sensação de que não tinha, por assim dizer, uma história.» (p. 42)

«Eles não têm sido bons, têm sido ausentes.» (p. 104)

«Eu [a preceptora] era uma tela [...].» (p. 61)

Alex
 
  No vazio da tela podemos observar todas as imagens
A ausência que habita o núcleo das personagens está cheia de possibilidades interpretativas e ligações virtuais que concentram/fundem nelas vários tempos, espaços e corpos ou almas diferentes.

«Ela [Flora] não está sozinha, e nestas alturas não é uma criança; é uma mulher muito, muito velha.» (p. 151)

«Sentada à minha própria secretária [...] vi uma pessoa [...].[...] Enquanto duraram estes instantes, arrepiou-me tremendamente a sensação de que a intrusa era eu.» (p. 126)

Alex
 
  Jogos de poder
Há também, parece-me, um certo jogo de poder entre as seis figuras de "A volta no parafuso" - isso porque, pelo menos para mim, Ms. Groser é uma figura que serve sobretudo para nos dar a conhecer a evolução do pensamento da Menina. Temos então o casal de crianças, o casal sobrenatural e a Menina... que formaria também um "casal" com o tutor (ainda que no seu próprio imaginário). Cada uma dessas duplas age em planos do desejo, ou seja, projectam-se no vácuo deixado pelos outros em busca da realização dos seus próprios anseios. Mas como há sempre silêncios e ausências, o jogo de poder entre estas figuras decorre num terreno movediço, para onde o leitor também é arrastado.

Deda
 
  Observar sem cessar!
Maira Parula colocou no dia 29 de Outubro esta citação do Diário de Virginia Woolf:

Não: não quero qualquer introspecção. Registro a frase de Henry James: Observar sem cessar. Observar a aproximação da velhice. Observar a cobiça. Observar meu próprio desalento. Isto significa que ele se torna útil. Ao menos é o que espero. Teimo em aproveitar ao máximo esta época. Vou tombar com minha bandeira desfraldada. Percebo que isto tende à introspecção; mas não chega a tanto. Vamos supor que eu compre um ingresso para o museu; vá lá de bicicleta todo dia & estude história. Vamos supor que eu escolha uma importante personagem de cada época & escreva sobre ela & sobre o que está a sua volta. Ocupar-me é essencial. E agora com certo prazer constato que são sete; & tenho de fazer o jantar. Hadoque & carne moída. Acho que é verdade que se ganha algum poder sobre a carne moída & o hadoque ao escrevê-los.


É impossível não revisitar Virginia de vez em quando...

Leitora
 
  Como um parafuso a que se desse mais uma volta
Foi-me difícil começar a escrever sobre o livro – talvez porque me assustasse, talvez porque me encantasse – embora não me tenha sido difícil lê-lo. Senti-me sempre um pouco deslocada, como se a cada página o livro continuasse a escapar-me; ao mesmo tempo, identificava-me com a Menina não nomeada, com a sua tão evidente fascinação pelas crianças - tão terrivelmente belas que seria impossível não esconderem em si algo de maligno.
Penso que foi essa fascinação pelo belo, pelo terrível, pelo maligno, que me perturbou; muito mais do que o desenlace, a volta no parafuso que fere um pouco mais a alma. Que a marca, indelevelmente. Talvez seja por isso que Wilde classifique de venenoso o “pequeno conto”: porque se insinua e nos passa a habitar, como uma presença que sentimos mas não conseguimos ver.

nastenka-d
 
  Acho que foi para isso que cá vim... para ficar encantada
A Volta no Parafuso é tão conhecida por ser uma novela de James como por ser uma ópera de Benjamin Britten.
Aqui pode ler-se:
The opera was commissioned by the Venice Biennale in 1954. (...) Britten proved his technical mastery and talent of fast-writing during the creation of “The Turn of the Screw”. The premiere was set for September 1954, the libretto was completed by Myfanwy Piper at the beginning of 1954, and only by the end of March Britten started composing.

The reviews by the public and the critics varied, but the majority regarded this as the musically most refined musical-dramatic piece of its time, and this statement is not too exaggerated – in this work the synthesis of the rational and emotional aspect so characteristic for Britten was exposed in such a way that the dramatic effect was obtained with minimal means, there is no lack of mathematics and also a slightly exalted affect. The opera has two acts, formed as a succession of single episodes or scenes. Before every scene there is a variation (together 15), in which a 12-tone theme is varied – the arrangement of the interval-plays and their rotation are compared with the turning of a screw.

(...)In James' novel the unhealthy athmosphere is more exposed, it is more terrifying than Britten's opera - it seems that Britten was more interested in the issue of child protection, while James was undoubtedly intrigued by the gothic aspect, the misticism (he himself did not very much value the novel). The ending of the story is open for everyone's interpretation.




O libreto pode ser consultado aqui.
nastenka-d
 
quinta-feira, novembro 13, 2003
  Atmosfera
…”parecia que estávamos tão perdidos como um punhado de passageiros num grande navio à deriva. Bem, estranhamente, era eu quem ia ao leme!”


Troti

 
  Emoções desencontradas
“Era elegante e arrojado….afável. Impressionou-a fatalmente…

-Moral da história: a sedução ..foi irresistível. Ela sucumbiu…




Recordo-me que o princípio foi uma sucessão de altos e baixos, um sobe-e-desce de emoções desencontradas…insegura…recobrei a coragem…senti um alívio…uma boa surpresa…impressão agradabilíssima…dormi pouco…demasiado excitada…Estranhei um pouco…Mas era um alívio…irrequietude…para apreciar…para ver…para observar…para escutar…sobressaltada… uma leve opressão…um pouco amedrontada, mas também um pouco orgulhosa…fiquei surpreendida…imaginei um castelo de romance… ”



Troti
 
  As presenças possíveis
No livro Poética da Prosa, Tzvetan Todorov tem um artigo intitulado «Os Fantasmas de Henry James».
Destaco alguns passos que me parecem particularmente interessantes (o bold é meu):

«Este autor não dá importância ao acontecimento esboçado e concentra toda a sua atenção na relação entre a personagem e o acontecimento. E mais: o núcleo da narrativa será muitas vezes uma ausência (o dissimulado, os mortos, a obra de arte), e a sua procura será a única presença possível. [...] o que o intriga é a experiência que as suas personagens podem ter dos objectos. Não há outra realidade a não ser a pesquisa.» (p. 196)

«o que interessa a James é a exploração de todos os recônditos dessa realidade psíquica, de toda a variedade de relações possíveis entre o sujeito e o objecto. [...] Para ele não há real que não seja imaginário, só existem factos psíquicos. A verdade é sempre particular, é a verdade de alguém; por consequência, perguntar ‘este fantasma existirá verdadeiramente?’ não tem sentido quando ele existe para alguém. Nunca atingimos a verdade absoluta [...], estamos condenados a contentarmo-nos com as nossas percepções e com a nossa imaginação – o que, de resto, não é muito diferente.» (p. 197)

Alex
 
  "A VOLTA NO PARAFUSO"
“Se a criança dá um efeito mais retorcido, como um parafuso a que se desse mais uma volta, que dizem vocês a duas crianças…”




Volta – Acto ou efeito de voltar;… Acto de virar ou de se virar….;regresso; mudança, reviramento…; cada uma das curvas de uma espiral:.as voltas de um parafuso…


Parafuso – Cilindro, cone, ou tronco de cone feito de matéria dura…que apresenta um filete saliente em espiral, e que pode penetrar…numa matriz de matéria pouco dura….

(Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira)

Troti
 
  Trabalhamos a escuridão
Em O Ponto de Vista dos Demónios, Ana Teresa Pereira publica um texto que aborda directamente a obra de Henry James. Chama-se «O medo do escuro».
Sobre A Volta no Parafuso, ela diz:

«Por quem estava apaixonada a jovem preceptora, perdida nas torres e no silêncio de Bly? Eu sempre achei que não era pelo tio das crianças, nem por Peter Quint; mas estamos num lugar onde tudo é possível, tudo é provável e o princípio de Henry James era «Never explain».

Este texto começa com a seguinte citação do conto «Middle Years»:

«We work in the dark- we do what we can – we give what we have. Our doubt is our passion and our passion is our task. The rest is the madness of art.»

Alex
 
 
A escritora Ana Teresa Pereira tem um universo que se aproxima, em muitos casos, do de Henry James. Em ‘A Coisa Que Eu Sou’ há um texto, intitulado ‘A Portrait of Jeannie’, (sobre um conto de James com o mesmo nome), onde podemos ler algumas coisas interessantes sobre o autor; e retirar pistas para a leitura de ‘A Volta no Parafuso’...


«Vivemos no escuro», escreveu Henry James. Vivemos no escuro, fazemos o que podemos... Anos mais tarde, Truman Capote citava-o no prefácio de um dos seus livros - «o resto é a loucura da arte...» (...)
A imagem de mulheres mortas assombrou muitas das suas histórias, sobretudo depois do suicídio em 1894 da romancista Constance Woolson, com quem possivelmente tivera uma ligação. Mulheres mortas que não tinham sido amadas (...). E as suas sombras, os homens que não souberam amar, que deixaram a vida passar-lhes ao lado, que despertaram demasiado tarde (no momento em que a fera saiu da selva e saltou sobre eles, de unhas afiadas e boca sem fundo).
(...) Foram os anos em que começaram a surgir as casas terríveis, as crianças terríveis (...). A casa de ‘A Portrait of Jeannie’ prenuncia vagamente Bly (a mansão negra onde se desenrolam os horríveis acontecimentos, ou alucinações, de ‘The Turn of the Screw’). Há uma torre coberta de hera, um lago de águas escuras, imóveis, um solitário banco de pedra entre os lilases... A atmosfera é mais doce, como se estivéssemos num palácio encantado, num belo conto antigo.
Mas temos a impressão de que há alguém (ou algo) que observa, escondido nas sombras; como o protagonista, sentimos os fantasmas («as presenças») nos corredores, nas escadas, atrás das vidraças, junto ao lago.
O pai de Henry James vivera na infância com essa obsessão. A de ser observado continuamente (o olhar omnipresente de deus). Até certo ponto tê-la-á passado para o filho mais novo.
Quanto às crianças (o rapazinho e a menina, inseparáveis) fazem pensar na relação muito forte com a irmã, Alice, uma relação que não remete para a ideia de incesto mas para a de identidade. Um único ser dividido em dois.
Como em muitos textos de James é visível o desejo de regressão e de fusão dual. O desejo e o medo. Inseparáveis. (...)
Estamos num mundo «visto por dentro», como nos contos de fadas de que James tanto gostava.
Um mundo visto por dentro onde tudo é simultaneamente familiar e estranho (a realidade esconde um fundo terrível, que pode desvelar-se de um momento para o outro). Um mundo que não é uma pintura da vida, como pretende em ‘The Art of Fiction’, mas um trompe l’oeil.
Está tudo lá, o comum e o inimaginável. Depende do ângulo de que olhamos.


A Coisa Que Eu Sou, Relógio d’Água.


nastenka-d
 
  À volta da fogueira
Eu não pude ir à Biblioteca Almeida Garrett, o que me deixou triste. Por isso desafio as pessoas que lá estiveram a contar um pouco dos comentários feitos. A Nastenka - d já fez isso. Obrigada.

Uma coisa que me chamou atenção no livro é a recuperação da atmosfera de "narração" de histórias, como preconiza Walter Benjamin. Por outras palavras, acredito que o conto narrado à volta da lareira não é apenas uma forma de contribuir para o suspense - o fogo sugere o desconhecido, as sombras que se projectam na parede -, mas também a recuperação da atmosfera familiar na qual se narrava, à noite, as histórias do lugar e do dia.

Minha avó contava que, quando não havia luz eléctrica em Arouca, as pessoas da casa reuniam-se no Inverno à volta da lareira de pedra, sob o cheiro agridoce dos fumeiros pendurados na chaminé. Contava-se então não só um pouco do dia, o que cada um havia feito e as dificuldades que havia enfrentado, mas também as lendas da aldeia e os segredos familiares. Tudo muito intimista, contribuido para o ajustamento do fita orgânica que une cada membro de uma família ao outro.

Deda
 
  BAG
A Comunidade de Leitores da Biblioteca Almeida Garrett voltou a reunir-se, ontem à noite. O livro em discussão era exactamente ‘A Volta no Parafuso’, e a discussão começou com a preposição do título. Sempre ouvimos falar de ‘A Volta do Parafuso’; mas a Margarida Vale de Gato trocou-nos as voltas e propôs-nos ‘A Volta no Parafuso’... Confiámos e não nos arrependemos, e porquê? A Cristina diz que o em nos remete para uma presença (a mesma que está em todo o livro) não identificada; ou seja, assim a perturbação começa no título...
Além disso, a Biblioteca ficou de procurar o filme que a Janela encontrou ontem... Quem o viu diz que é muito bonito, e que mantém o tom ambíguo do livro. Aqui está uma das imagens que eu roubei...

nastenka-d
 

O QUE ESTAMOS A LER

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

Os nossos marcadores

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