Leitura Partilhada
domingo, fevereiro 29, 2004
  O Som da Fúria
Ao contrário de Woolf, em que a sua escrita se fecha no seu meio social, Faulkner, tal como Joyce, embrenhou-se numa cultura que lhe era estranha. O melting pot de New Orleans terá sido o ambiente ideal para criar essa mestiçagem, tal como tinha sido Trieste para Joyce. Se em Joyce, a música tradicional irlandesa e a ópera se misturam na estrutura e nos sons das palavras, em O Som e a Fúria a musicalidade passa pela fúria dos Blues e pela sonoridade do Jazz. Faulkner escreve como um branco que toca Jazz, um branco que escreve na pronúncia dos negros.

E assim temos o nosso quarteto de Jazz:

Na bateria, Benjy, de movimentos desconexos e instintivos, produz batidas lentas e descompassadas;

No contrabaixo, Quentin, introspectivo e obcecado pela exactidão do tempo, marca nas cordas um ritmo elíptico e decadente;

No saxofone, Jason sobrepõe o som do seu instrumento a todos os outros, com solos forçados e autoritários;

E na voz, Caddy aparece-nos qual Billie Hollyday, bem-humorada e sensual, mas no fundo amargurada pelas circunstâncias da vida.

O Som e a Fúria começa com uma jam session para aquecer e desconcertar, depois passa à improvisação quase cacofónica e acaba, finalmente, num som mais harmonioso e claro, mas não menos negro e desesperante.

O pregador não se mexera. O seu braço estava ainda sobre a estante, conservando a mesma pose enquanto a voz se extinguia em sonoridades que o eco repercutia pelas paredes. Um tom tão diferente do primeiro como a noite do dia, um som triste, de timbre semelhante ao de uma trompa de contralto, que lhes penetrava o coração e lhes falava por dentro mesmo depois de se extinguir em múltiplos ecos perdidos.

Faulkner não pregou o anti-racismo, mas pelo menos tornou mais familiar à cultura americana uma cultura de raízes africanas que esteve também na sua origem. Na verdade, os Blues e o Jazz acabaram por ser reconhecidos pela intelectualidade branca.


riverrun
 
 
Este livro fala-nos da nossa fragilidade, da nossa absoluta necessidade de referências afectivas.
Não penso que se trate de uma família como a de Édipo, sobre a qual cai o manto espesso da tragédia, e cujo destino é acabar em sangue e dor.
Nela, eu vejo a incapacidade para contornar factos menos felizes, a facilidade com que caminhamos para a destruição, quando nos fechamos em nós próprios, quando nos falta a tolerância, quando apenas sabemos lidar com as pequenas tragédias da nossa vida como se estivesse escrito que a vida não pode deixar de ser trágica.
J.M.
 
 
«O relógio continuava a trabalhar, solene e grave. Dir-se-ia que era o pulsar insensível da própria decadência daquela casa.»


Leitora
 
  Sublime
“Só que a nossa região...Sentia-se qualquer coisa só de andar a passear. Uma espécie de fecundidade serena e violenta que satisfazia até os mais esfomeados. Flutuando à nossa volta sem se deter protegendo as mais ínfimas pedras. Uma espécie de estratagema para que o verde não faltasse às árvores e o azul distante não fosse essa rica quimera....Até o som parecia sumir-se no ar, como se o ar estivesse gasto e cansado de transportar sons há muito tempo.”

...


“Os gritos martelavam cada vez mais longe como se no silêncio não houvesse lugar para eles.”



William Faulkner escreveu um livro sublime. A história da familia Compson é, afinal, uma história que nos diz tudo sobre o ser humano e que, no fim, se destrói no desmoronar de uma entidade colectiva que já nada pode significar. Faulkner oferece-nos nas personagens uma paleta da essência humana, da sua possível riqueza e da sua absoluta perdição. A toada de desespero é uma espiral de intensidade sensitiva, que mói a nossa realidade e nos dá a ouvir o som da verdadeira natureza do homem e a fúria da sua devastação.




"Nós ouvíamos as nossas vozes, e ouvíamos a escuridão."



Troti
 
  ..............
"O relógio continuava a trabalhar, solene e grave. Dir-se-ia que era o pulsar insensível da própria decadência daquela casa..."

Troti

 
  O mal
"...quantas vezes as pessoas fazem promessas só para aliviarem as suas consciências...


...


Nós temos de estar alerta para ver o mal ser praticado."



Troti
 
  .............
"Levamos para a eternidade o símbolo da nossa frustração."



Troti
 
  Se fosse tão simples...
“Se existisse apenas o inferno e nada mais. Se fosse tão simples como isso. Assunto arrumado. Se as coisas se acabassem em si próprias."



Troti


 
  Non Sum...
"Havia um relógio lá alto, no sol, e pensei em como, quando não queremos fazer qualquer coisa, o nosso corpo nos tenta convencer a fazê-la, sem nos darmos conta.. Senti os músculos da nuca muito tensos e ouvi o relógio dentro do bolso - tic-tac, tic-tac; e, daí a pouco, tinha-me fechado a todos os outros sons e restava apenas o relógio a trabalhar dentro do bolso.

...

Onde batia a sombra da ponte eu podia ver até muito fundo, mas não até ao fundo. Quando deixamos uma folha na água durante muito tempo daí por um bocado o tecido vegetal desfaz-se e as fibras delicadas oscilam lentamente como quando adormecemos. Nunca se tocam por mais entrelaçadas que tivessem estado anteriormente, por mais agarrradas que tivessem estado aos ossos.... Não conseguia ver o fundo, mas os meus olhos penetraram fundo na inquietação das águas antes de se darem por vencidos...

...

de novo senti a proximidade da água a correr veloz e mansa no segredo das sombras.

...

O pássaro piou outra vez, invisível, um pio profundo e desprovido de sentido, de inflexão, terminando como se abruptamente cortado por uma faca, e de novo piou, e aquela sensação da água, veloz e mansa, por lugares secretos, apenas sentida...

...

Senti a água para lá do crepúsculo, sentia-lhe o cheiro.

...

então comecei a ouvir o meu relógio...

...

Tirei o meu relógio do bolso e fiquei a ouvi-lo a trabalhar, sem saber que ele não podia sequer mentir.

...

a escuridão dorme a água mansa e veloz não é adeus.

...

De todas as palavras as mais tranquilizantes. ..Non fui. Sum. Fui. Non Sum....Eu fui. Não sou.

...




( Foi aí que te doeu quando a Caddy fugiu foi aí
...
morri o ano passado disse que tinha morrido mas nessa altura não sabia o que isso significava não sabia o que dizia.)"



A história de Quentin começa e acaba na relação com a irmã Caddy. Com ela foi e sem ela não pode ser. Quentin compreende que foi através de Caddy que se construiu como pessoa, e que, sem Caddy, atingiu o seu limite como ser humano.



"Não é quando descobrimos que nada nos pode ajudar – religião, orgulho, qualquer coisa – é quando percebemos que não precisamos de ajuda."




Troti
 
sexta-feira, fevereiro 27, 2004
 
Jason é aquele tal que não gosta de manter papéis escritos por mulheres. E tem gozo em rasgá-los. Menos os cheques de Caddy, claro. Jason é um ser tão lastimável que nem sequer me dá luta falar dos seus defeitos.
J.M.
 
  Os outros não são pessoas
Foi nessa altura que percebi que ser-se negro não é tanto ser-se uma pessoa, é mais um comportamento, uma espécie de reflexo dos brancos com quem convivem."

Tenho pensado muito nesta frase, e no seu verdadeiro significado.
As pessoas do nosso grupo (etnico, social,cultural...) são pessoas, nós vêmo-las como individuos unicos com personalidade própria. As pessoas que não fazem parte desse grupo são vistas atravez de uma serie de ideias pre-concebidas, são o nosso reflexo-mais concretamente, o reflexo de uma imagem que construimos ou que muitas vezes herdamos.
Este tipo de comportamento recusa ao outro, ao estranho, o direito à individualidade. Transforma-o num reflexo, numa imagem vista num espelho distorcido.

Joana
 
quinta-feira, fevereiro 26, 2004
  Caddy
Isso que te sorri essa coisa que te sorri através deles

nastenka-d
 
  Jason
Nunca prometo nada a uma mulher para que ela não saiba quanto lhe vou dar. É a única maneira de as ter na mão. Mantê-las na expectativa. E se não nos ocorrer melhor maneira de as surpreendermos, é dar-lhes um murro nos queixos.

nastenka-d
 
  Quentin
Tu querias sublimar um pedaço de loucura humana perfeitamente natural transformando-a num horror, e depois exorcisá-la com a verdade.

nastenka-d
 
  Benjy
Mas ele chorava mansinho, inconsolável, sem verter lágrimas; era o lamento deseperado e mudo de toda a miséria existente à face da terra.
nastenka-d
 
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
 
Aparentemente, à medida que progredimos na leitura, esta vai-se tornando menos caótica. O contrário do caos é a ordem que, por sua vez, pode ser definida como “uma apropriada combinação de meios”. Ora, isso dificilmente terá alguma semelhança com o facto de se andar, durante quase 20 anos, a ruminar num ressentimento mesquinho.
J.M.
 
  Autismo
Cada um pouco mais é do que um alienado, não vivendo senão no seu mundo. Quentin e Jason são, à sua maneira, tão autistas como Benjy. Nenhum deles ultrapassa as barreiras que os definem e conformam. Benjy vive em torno da (in)compreensão, Quentin morre por não aceitar a maturidade – e a relativização da dor – e Jason, talvez de todos o mais infeliz, por ser o único sem possibilidade de fuga, afoga-se em frustração e inveja.
A Caddy desejo melhor destino.
nastenka-d
 
  Inesgotável poço de amargura
Tudo serve a Jason – a estrada, o armazém, as sanduíches no bar, o mato – tudo em seu redor são pretextos para destilar um pouco mais de frustração. Não sei até que ponto ele se apercebe de como vive num mundo inventado – construído por ele mesmo – até ponto ele se apercebe de como tudo aquilo que ele vê e rejeita nos outros não é mais do que uma projecção da sua própria amargura.
Jason parece (e até certo ponto, é mesmo) um ser perfeitamente insuportável, desprezível, baixo, mesquinho, invejoso. Mas é a sua própria vida que ele transforma num inferno.
nastenka-d
 
  Os Homens II
"Man the sum of his climatic experiences Father said. Man the sum of what have you. A problem in impure properties carried tediously to an unvarying nil: stalemate of dust and desire."


Leitora
 
  Os Homens I
"Father said a man is the sum of his misfortunes. One day you'd think misfortune would get tired, but then time is your misfortune Father said."



Leitora
 
  As Mulheres II
"Women do have always his voice above the gabble voice that breathed an affinity for evil, for believing that no woman is to be trusted, but that some men are too innocent to protect themselves."



Leitora
 
  As mulheres I
"Father and I protect women from one another from themselves our women Women are like that they dont acquire knowledge of people we are for that they are just born with a practical fertility of suspicion that makes a crop every so often and usually right they have an affinity for evil for supplying whatever the evil lacks in itself for drawing it about them instinctively as you do bed-clothing in slumber fertilising the mind for it until the evil has served its purpose whether it ever existed or no "



Leitora
 
terça-feira, fevereiro 24, 2004
  A salvação
"Vá, agora vão todos comé o bolo antes que chegue o Jason. Não quero qu´ele se ponha a ralhá comigo por causa dum bolo qu´eu comprei co meu dinheiro.
...

- Fui eu qu´o comprei – disse a Dilsey - Não veio da despensa do Jason. Foi pò aniversário dele."



Benjy faz trinta e três anos, Benjy não compreende o conceito de aniversário, Benjy não consegue apagar as velas. Mas Dilsey, terna e humana continua a insistir na normalidade da existência e no equilíbrio da realidade. E, com este gesto tão aparentemente simples, a decisão de festejar os anos de um atrasado que nem sequer percebe a intenção, ela justifica a diferença e dignifica a vida. Algo que a própria mão de Benjy nunca poderá fazer. Faulkner dá-nos com Dilsey a voz da salvação.


"Nosso Sinhô não qué sabê s´ele é esperto ou não. Ninguém qué sabê disso, só os brancos."



Troti
 
  O dinheiro
"O Jason há-de sê um homem muito rico – disse o Versh.
- Tá sempre a agarrá o dinheiro.

...

O Jason era o tesoureiro.

.................................

Afinal, como eu digo sempre, o dinheiro não tem valor; o que tem valor é a maneira como o gastamos. Não pertence a ninguém, para quê poupá-lo. O dinheiro pertence àqueles que conseguem arranjá-lo e conservá-lo."




Jason, o dinheiro, a ganância, a perdição.



Troti
 
  O choro
"- Vou fazer queixa de ti – disse o Jason
Continuou a chorar. – Já fizeste – disse a Caddy...
...

- Eu não faço o que tu mandares – disse o Jason
- Tens de fazer – disse a Caddy...
...

Eu não vou fazer – disse o Jason ...

...

... - Julgas-te muito crescida, não julgas. Julgas que és melhor que todos os outros, não julgas.

...

Jason – disse a mãe. – ... Eras bem capaz de ficar a ver o Maury cair numa emboscada, e ainda te rias por cima.

...

- Eu cá também vou fazer queixa – disse o Jason.

...

- Eu bem lhe disse para não trepar á árvore – disse o Jason. – Vou fazer queixa dela.

...

O Jason vinha a subir as escadas. Vinha de mãos nos bolsos.

...

- Ele cortou todos os bonecos de papel do Benjy – disse a Caddy. – Vou cortar-lhe as tripas...
...ela deu um pontapé no Jason...
...Ele cortou todos os bonecos ...Só por maldade...
- Não foi por maldade – disse o Jason. Estava sentado no chão a chorar.- Não sabia que eram dele...
- Tinhas de saber – disse a Caddy - Fizeste isso só por...

...

Ouvíamos também o Jason a chorar muito do outro lado da parede.

...

O Jason continuou a fungar...O Jason começou a fungar com mais força.

...

A Caddy desabotoou a roupa do Jason. Ele começou a chorar.

...

O que é que o Jason fez,..
Cortou todos os bonecos do Benjy...

...

A Caddy e o Jason estavam a lutar no espelho

...

...O Jason chorava. Tinha as mãos nos bolsos...O Jason chorava

...............................................................................................


- O menino é um homem muito duro, Jason, s´é que chega a sê um homem – diz ela. – Dou graças ò Sinhô por me tê dado mais coração qu´a si, mesmo qu´o meu seja negro."




Palavras de Dilsey àcerca de Jason, um homem adulto sem coração. Uma criança má que chorava, chorava sempre.
Entramos na história com o choro compulsivo de Benjy, e é esse que temos sempre presente mas nos meandros dos seus berros, onde se passa toda a vida da família, insinua-se e ecoa nos nossos ouvidos o choro continuado de uma criança diferente dos outros irmãos, fechada em si, de mãos nos bolsos.



Troti
 
  A Raça negra, aos olhos de Jason
"É o que eu digo, o lugar deles é no campo, a trabalharem do nascer ao pôr do sol. Não suportam nem a prosperidade nem o trabalho leve. É deixá-los privar com os brancos e já não valem nem o trabalho de os matarmos. Ficam de tal maneira que nos enrolam com toda a facilidade mesmo debaixo do nosso nariz, como Roskus, cujo único erro foi ter morrido um dia por distracção. Passam a vida a preguiçar, a roubar e a tentarem levar-nos na conversa, levar-nos na conversa, até que um dia não temos outro remédio senão dar-lhes uma tareia e mandá-los embora."


Com uma tremenda lucidez, Faulkner faz isto, põe em evidência o pior do ser humano.


Leitora
 
  A raça, aos olhos de Quentin
"Quando vim pela primeira vez para o Leste, costumava pensar Tens de te esforçar por pensares neles como pessoas de cor e não como negros, e, se não fosse ter vindo encontrar tantos por aqui, teria perdido muito tempo e energia até descobrir que a melhor maneira de lidar com as pessoas, sejam elas pretas ou brancas, é tomá-las por aquilo que julgam ser e deixá-las em paz. Foi nessa altura que percebi que ser-se negro não é tanto ser-se uma pessoa, é mais um comportamento, uma espécie de reflexo dos brancos com quem convivem."



E pensar que, na época, esta seria uma perspectiva tolerante. Ainda hoje, talvez...


Leitora
 
segunda-feira, fevereiro 23, 2004
  Caddy III
Já não tem nada a perder. Proibida. Ignorada. Roubada. Humilhada. Continua a suplicar que tratem bem aqueles que ama, apesar de saber que não pode contar com isso. Uma sombra de si própria; anula-se para bem dos que ama. Mas está dramaticamente enganada.


"Give me the money," I says.
"I'll give it to you afterward," she says.
"dont you trust me?" I says.
"No," she says. "I know you. I grew up with you."
"You're a fine one to talk about trusting people," I says. "Well," I says. "I got to get on out of the rain. Goodbye." I made to go away.
"Jason," she says. I stopped.
"Yes?" I says. "Hurry up. I'm getting wet."
"All right," she says. "Here." There wasn't anybody in sight. I went back and took the money. She still held to it. "You'll do it?" she says, looking at me from under the veil. "You promise?"




Leitora
 
  Caddy II
O silêncio. O inconfessável. A paixão. O desejo proibido. A perda. O desespero. Incesto. Poderá não ser o melhor dos mundos, mas é o seu centro, razão de desistir.



Caddy
Dont touch me just promise
If you're sick you cant
Yes I can after that it'll be all right it wont matter dont let them send him to Jackson promise
I promise Caddy Caddy
Dont touch me dont touch me
What does it look like Caddy
What
That that grins at you that thing through them





Leitora
 
  Caddy I
A menina travessa. A irmã que subia às árvores. A menina que queira ter as outras crianças sob suas ordens. A menina dos olhos de seu pai. quem dava a mão aa Benjy, quem o afagava. Quem adormecia o Benjy, deitando-se na sua cama. A menina dos olhos e do coração de Benjy, a irmã amada. O centro do mundo. O melhor do mundo de Benjy. A alegria da casa. O amor.



"-Chhhh - disse a Caddy. Já aqui estou."


Leitora
 
  Mais sombras


...eram a imagem da própria inércia, com o mundo subjugado sob as suas sombras projectadas no sol...

...O muro penetrou na sombra e a seguir foi a minha sombra, já lhe tinha pregado a partida outra vez...

...os lápis de sol riscavam sombras por entre as árvores...

...E de novo senti a proximidade da água a correr veloz e mansa no segredo das sombras...

...as sombras deles uma sombra a cabeça dela erguia-se acima da dele no céu mais alto as cabeças deles...

...a sombra dela elevava-se esguia ao lado da sombra dele uma sombra só...

...ela penetrou na sombra ouvia os seus passos e então...



riverrun
 
domingo, fevereiro 22, 2004
  Sombra
"Dizem os negros que a sombra dos afogados fica sempre dentro de água a vigiá-los."


Troti
 
  Sombra
"Saí para a luz do sol e encontrei de novo a minha sombra."


Troti
 
  Sombra
"A relva zumbia ao luar quando a minha sombra caminhava sobre ela."


Troti
 
  Sombras
"Descemos os degraus onde estavam as nossas sombras"


Troti
 
  Má sorte
“E ninguém gosta d´ olhá para um pateta. Dá azar.

...

-O qu´é que tem este lugá – disse o T.P.
- Este lugá traz má sorte – dissde o Roskus...

...

- Que sabes tu disso – disse a Dilsey. – tiveste alguma visão?
- Não preciso de tê visões – disse o Roskus. – Pois então não está ali uma prova deitada naquela cama. Pois então não tem havido provas de há quinze anos pa cá, pa que todos vejam.

....

-Té agora aconteceram duas coisas – disse o Roskus, - E vem outra por aí. Eu vi o sinal. E tu também.

...

- E não vai ficá por aqui – disse a Dilsey. – Mostra-me um homem que não vá morrer, Deus seja louvado.
- Morrê não é o pior – disse o Roskus

...

- Este lugá traz má sorte, - disse o Roskus. – Soube disso logo no princípio, mas quando lhe mudaram o nome, então é qu´eu acreditei mesmo.
- Cala essa boca – disse a Dilsey.

...

- Eu vi o sinal – disse o Roskus


...

- E vão três, o Sinhô seja louvado – disse o Roskus, - Disse-to há dois anos. Esta casa traz má sorte."



Pressentimentos negros na boca de negros, visões de um mundo de brancos habitado por sombras.

Troti
 
 
"é tão difícil acreditar pensar que um amor ou uma dor são obrigações da bolsa compradas sem objectivo e que têm um prazo de reembolso quer o queiramos quer não e que são reembolsadas sem aviso e substituídas por outra qualquer emissão em que os deuses estiverem empenhados no momento"



Leitora
 
 
"Se existisse apenas o inferno e nada mais. Se fosse tão simples como isso. Assunto arrumado. Se as coisas acabassem em si próprias."


Leitora
 
sábado, fevereiro 21, 2004
 
"Because Father said clocks slay time. He said time is dead as long as it is being clicked off by little wheels; only when the clock stops does time come to life."


Leitora
 
 
"I heard a clock strike the hour. But then I suppose it takes at least one hour to lose time in, who has been longer than history getting into the mechanical progression of it."


Leitora
 
  "eu entrei outra vez no tempo ao som do despertador"
It was Grandfather's and when Father gave it to me he said I give you the mausoleum of all hope and desire; it's rather excruciating-ly apt that you will use it to gain the reducto absurdum of all human experience which can fit your individual needs no better than it fitted his or his father's. I give it to you not that you may remember time, but that you might forget it now and then for a moment and not spend all your breath trying to conquer it. Because no battle is ever won he said. They are not even fought. The field only reveals to man his own folly and despair, and victory is an illusion of philosophers and fools.


Com a cadência de um relógio, acompanhamos Quentin. No dia em que ele alcança o reducto absurdum de toda a experiência humana? Calmo, calculado, cirúrgico. Sem pressas, pois tudo está rigorosamente calculado...


Leitora
 
sexta-feira, fevereiro 20, 2004
 
O desenvolvimento da afectividade e da sexualidade do Quentin esteve intrinsecamente ligado à irmã pela circunstância de ... não ter mãe.

Realmente, com uma mãe neurótica, hipocondríaca, manipuladora, chantagista, desprovida de amor, totalmente desequilibrada, não era possível ter um Complexo de Édipo decente!

J.M.
 
  Caddy e os outros
Já no relato de Benjy essa diferença acontecia, mas não era tão marcada; com Quentin, no entanto, todos os outros são lançados para o fundo, do qual não se destaca ninguém senão Caddy. Benjy tinha-nos dado a conhecer as personagens, a distingui-las; mas Quentin vive intensa e exclusivamente a sua dor por Caddy. Nem o monólogo da Mãe (lembrança pálida de Molly Bloom) desvia a atenção, nem as múltiplas referências ao Pai, figura que Quentin parece encarar como modelo; nem sequer as personagens exteriores à família, que aparecem aqui pela primeira vez. Tudo se vive, sente, escreve, em função de Caddy.
nastenka-d
 
  A tela em branco
Falei já da tela não imaculada; de ter a sensação que o que lia se projectava em sentimentos, factos, emoções anteriores. Ou seriam posteriores? Talvez Faulkner também queira brincar com o tempo: como Santo Agostinho, discutir a existência de três tempos, passado presente futuro. E talvez já há muito não existam telas em branco.
nastenka-d
 
quinta-feira, fevereiro 19, 2004
  Uma questão de tempo
Intuíamo-lo no início, com a presença obsessiva dos instrumentos de medição, com os quais Quentin parece fascinado, ao mesmo tempo que os deseja destruir. Quentin escuta o tempo: o despertador destruído que leva que leva no bolso, as badaladas, os relógios da montra, cada um com a mesma certeza afirmativa e contraditória. Quentin quer perceber o tempo, procura-o no céu, na posição do sol, nas palavras de santo Agostinho; Quentin não quer mais do que controlá-lo.
Todo o restante capítulo é uma longa explicação sobre os motivos para este desejo. Tudo: o peso da responsabilidade que lhe foi entregue (venderam a pastagem do Benjy para ires para Harvard), as memórias da concorrência com a irmã (diz-me, já fizeste isto?), o percurso com a pequena italiana, que termina com a vingança do irmão desta – a que se segue a sua própria vingança, transferida para Gerald, no meio de um sonho ébrio a partir do qual começamos a perceber muito do que foi dito antes.
Todo este relato é entretanto pontuado por uma expressão repetida: o Pai dizia que. Por isso, quando nas últimas páginas a conversa entre Quentin e o Pai termina com este respondendo: era a palavra mais triste de todas nada mais existe no mundo não é o desespero até ao fim do tempo não é sequer o tempo até dizermos foi, sei que soou, de facto, a última nota. Quentin iniciara o dia com as palavras a sombra dos caixilhos apareceu nos cortinados e eu entrei outra vez no tempo. A morte é a saída.
nastenka-d
 
  Nota prévia
Não será novidade: o dia 2 de Junho de 1910 é a véspera do suicídio de Quentin, e o que lemos na segunda parte do livro o relato desse dia. Sendo assim, o que eu li e senti enquanto lia foi inevitavelmente projectado sobre esse facto – como um filme a passar sobre uma tela não imaculada.
Esperei encontrar um grande dramatismo e desespero; qualquer coisa próxima do tom de Werther. O tom era, no entanto, surpreendentemente sóbrio; e o motivo, esse, só o percebi no final. Não posso porém deixar de fazer o aviso: o que foi lido (e sentido) foi-o em relação a esse facto concreto – não acontecido, mas conhecido – e cuja relação, no tempo, com o que havia sido lido antes é, por si mesmo, mais um fio com que Faulkner nos amarra.
nastenka-d
 
quarta-feira, fevereiro 18, 2004
  Em torno de Santo Agostinho
Apresentam-se algumas considerações formuladas por Santo Agostinho, Bispo de Hipona, relativas a um aspecto fundamental da História.

nastenka-d
 
  An Introduction for The Sound and the Fury
I wrote this book and learned to read. I had learned a little about writing from Soldiers' Pay--how to approach language, words: not with seriousness so much, as an essayist does, but with a kind of alert respect, as you approach dynamite; even with joy, as you approach women: perhaps with the same secretly unscrupulous intentions. But when I finished The Sound and the Fury I discovered that there is actually something to which the shabby term Art not only can, but must, be applied.
William Faulkner, 19 August, 1933.

nastenka-d
 
  Imagens indeléveis:
O olhar simultaneamente afectuoso e impenetrável da menina italiana
Caddy representando Ofélia, deitada na água com a saia ondulante à volta das ancas, os cabelos emoldurando-lhe a mancha branca da cara
Gerald remando sob o sol do meio-dia
A mão de Quentin na garganta de Caddy, sentindo o afluxo de sangue provocado pela simples verbalização de um nome.
nastenka-d
 
terça-feira, fevereiro 17, 2004
  Sentimento
“- Bem então sou eu que não quero que ele passe dum lado para o outro – disse a Mãe – uma criança de cinco anos. Não, não. No meu colo não. Deixa-o estar de pé.
- Se o abraçar, ele cala-se logo – disse a Caddy
...
- Fazem-lhe vontades de mais – disse a Mãe. – Tu e o teu pai. E não percebem que depois quem sofre com isso sou eu.
...
Leva daqui a almofada, já disse – disse a Mãe – Ele tem de aprender a obedecer...”



Que tipo de sentimento para com os filhos é o desta mãe, completamente cega para a realidade que a rodeia; absolutamente egocentrista e incapaz de verdadeiro amor, de um amor pleno de carinho e compreensão.
Que tipo de sentimento para com esta mãe pode ser o de cada um dos seus quatro filhos?
Só pode ser fraco.


Troti
 
  Vergonha
“É isso mesmo , disse a Dilsey. Acho que chegou a minha vez de chorá. Acho que o Maury também me vai fazer chorá por ele.
O nome dele agora é Benjy, disse a Caddy.
Essa agora, disse a Dilsey. Ele ainda não gastou o nome com que nasceu, pois não.
Benjamin é um nome tirado da Bíblia, disse a Caddy.
...
Ora, ora, disse a Dilsey. Não é o nome que o vai ajudá. Mas também não lhe vai fazer mal. Não dá sorte mudá de nome...

...

Sabe por qu´e qu´o seu nome agora é Benjamin – disse o Versh. – Porqu´a sua mãe tem vergonha de si....



Genesis 35: 17ff. The biblical Benjamin was the youngest son of Jacob and Rachel, who died as a result of his birth. Before she died, she named him Benoni, "son of my sorrow", but Jacob changed his name to Benjamin, "son of my right hand."



Troti
 
  Sensações de Benjy
"...o chão era duro...
...o portão estava frio...
...o sol estava frio e brilhante...
...sentia o cheiro cristalino do frio...
...A Caddy cheirava como as folhas...
...eu sentia o cheiro da roupa...e do fumo...
...eu sentia o cheiro do Versh...
...A Caddy cheirava como as árvores ...
...cheirava como a chuva...



...As folhas a restolharem contra nós...
...os porcos grunhiam...
...eu ouvia os cascos da Quennie...
...e ouvia as nossas vozes...
...as árvores sussurravam. E a relva também...
...Só ouvíamos os ramos a abanar...
...Eu ouvia a água...
...A relva zumbia ao luar...
...ela gritava...
...ouvia o fogo e o telhado...
...nós ouvíamos as nossas vozes, e ouvíamos a escuridão... "



Troti
 
  Tony Morrison sobre a relação branco/negro na sociedade americana
Race talk as bonding mechanism is powerfully on display in American literature. When Nick in F. Scott Fitzgerald's The Great Gatsby leaves West Egg to dine in fashionable East Egg, his host conducts a kind of class audition into WASP-dom by soliciting Nick's support for the ''science'' of racism. ''If we don't look out the white race will be . . . utterly submerged,'' he says. ''It's all scientific stuff; it's been proved.'' It makes Nick uneasy, but he does not question or refute his host's convictions.

The best clue to what the country might be like without race as the nail upon which American identity is hung comes from Pap, in Mark Twain's Huckleberry Finn, who upon learning a Negro could vote in Ohio, ''drawed out. I says I'll never vote ag'in.'' Without his glowing white mask he is not American; he is Faulkner's character Wash, in Absalom, Absalom!, who, stripped of the mask and treated like a ''nigger,'' drives a scythe into the heart of the rich white man he has loved and served so completely.

For Pap, for Wash, the possibility that race talk might signify nothing was frightening. Which may be why the harder it is to speak race talk convincingly, the more people seem to need it. As American blacks occupy more and more groups no longer formed along racial lines, the pressure accelerates to figure out what white interests really are. The enlisted military is almost one-quarter black; police forces are blackening in large urban areas. But welfare is nearly two-thirds white; affirmative-action beneficiaries are overwhelmingly white women; dysfunctional white families jam the talk shows and court TV.

The old stereotypes fail to connote, and race talk is forced to invent new, increasingly mindless ones. There is virtually no movement up -- for blacks or whites, established classes or arrivistes -- that is not accompanied by race talk. Refusing, negotiating or fulfilling this demand is the real stuff, the organizing principle of becoming an American. Star spangled. Race strangled.

Joana/joaninha
 
  Quentin e a miúda italiana
Nem aquela miúda tenaz e ao rés-dp-chão, consegue fazer com que Quentin se distraia completamente do seu teatro interior o qual o recoloca sempre noutro tempo e lugar. È um livro com personagens que vivem com as obsessões da sua infância, por oposição a outras que são mais hedonistas, havendo outras, ainda, que se limitam a agir pragmaticamente, tendo em conta as circunstâncias, não?

imorgado
 
  A força de Miss Dilsey
Já repararam que uma das personagens mais poderosas, porque absolutamente devotada à sua tarefa e às suas competências profissionais, ao mesmo tempo que criatura de orgulho e de afectos para com a família, cujos ramos estende ao clâ Compson, é Miss Dilsey? E não vejo nela resquícios de medo, subordinação ou vassalagem. Há sim consciência social e, sobretudo, uma imensa ternura por aqueles seres que deambulam pela "sua" casa. É uma mulher fabulosa, dessas que encontramos por aí em algumas casas portuguesas, também, ainda.
Notem como no dia oito de Abril de 1928 Miss Dilsey é descrita, e como o autor realça a sua profunda energia (que nasce da vontade férrea e não dos músculos jovens, que ela já não tem), a sua capacidade de organizar a casa, de orientar as pessoas, de dizer o que pensa, sem temor, de tratar de tudo. A Dilsey que faz o pão, que está sempre disponível para acalmar aquele ser torturante que é Mrs. Compson, que afaga Benjy, que sentencia com Luster, que ...
Vocês vêm ali alguma alma de escrava? Vêm de sacrificada, o que é diferente.

imorgado
 
segunda-feira, fevereiro 16, 2004
  O que pensar?...
Aquilo que acabamos de ler também levanta esta questão ética complexa: a legitimidade, ou não, para castrar um inimputável, pelos vistos, potencialmente perigoso (ainda que nos repugne pensar em Benjy dessa forma).

J.M.
 
  A preto e branco
O imaginário vindo das margens do Mississippi traz-nos à memória Tom Sawyer, Huckleberry Finn, os Blues e, claro, o Ku Klux Klan. Tal como Joyce em Ulysses, com o anti-semitismo na Europa como pano de fundo, também Faulkner encontrou no racismo terreno fértil para o enredo de O Som e a Fúria, marcado pelo medo e pela estranheza do outro. A fronteira entre brancos e negros delimita o livro logo desde o início, quando os brancos jogam golfe e os negros os espreitam através da cerca. De um lado os patrões, a família Compson, do outro lado os criados negros, a família de Dilsey:

(...)
— O dinheiro dos negros é tão bom como o dos brancos, acho eu.
— Os brancos dão dinheiro aos negros porque sabem qu'o apanham de volta outra vez mal aparece um branco a tocá c'uma banda, e depois os negros têm de ir trabalhá mais p'arranjarem mais dinheiro.
(...)
— Que tens tu contra os brancos?
— Não tenho nada contra eles. Eu sigo o meu caminho e os brancos que sigam o deles. Esse espectáculo não me interessa.
(...)
— Oh — disse a Caddy. — Isso é os negros. Os brancos não fazem prantos.
(...)
Se não fosse o meu avô, tinha de andar a trabalhar como os brancos.
(...)
Não me provoques, negro atrevido — disse a Dilsey.
(...)
— Aquele branco não é pa graças — disse o Luster.
(...)
Tu vais fazê exactamente o que ele te mandá, tás a ouvir negrinho duma figa — disse a Dilsey.
(...)
Eu costumava pensar que era dever de todo o Sulista mostrar sempre consideração pelos negros.
(...)
Tens de te esforçar por pensares neles como pessoas de cor e não como negros.
(...)
Foi nessa altura que percebi que ser-se negro não é tanto o ser-se uma pessoa, é mais um comportamento, uma espécie de reflexo dos brancos com quem convivem.
(...)
...o negro implora que o deixem ir para a faculdade de teologia para estar perto do patrão...
(...)
A voz de um cão chega mais longe que o ruído de um comboio, pelo menos na escuridão. E a de algumas pessoas. Dos negros por exemplo.
(...)


Para além do contraste marcante entre as cores da pele, também outro contraste, entre a luz e a sombra, acaba por reflectir diferentes estados de espírito:

(...)
Depois a escuridão voltou, e ele ficou todo preto à porta, e depois a porta ficou preta outra vez.
(...)
A cozinha estava escura. As árvores projectavam-se negras no céu.
(...)
A árvore das flores junto à janela da sala não estava escura, mas as árvores grandes estavam. A relva zumbia ao luar quando a minha sombra caminhava sobre ela.
(...)
A Caddy veio a correr, toda branca na escuridão.
(...)
As nossas sombras estavam na relva. E chegaram às árvores antes de nós.
(...)



riverrun
 
 
«I wasn't crying, but I couldn't stop. I wasn't crying, but the ground wasn't still, and then I was crying. The ground kept sloping uo and the cows ran up the hill. (...) I quit crying, but I couldn't stop.»


Leitora
 
  Significado do nome Candace
Pelos vistos não sou só eu que associo a Caddy a cor branca, a Nastenka tambem a viu vestida de branco.
Talvez seja coincidência, mas Candace é um nome de origem grega que significa precisamente luminosidade, fogo branco e purificador.



Joana/joaninha
 
 
«Eu não era capaz de parar.»

«Eu deixei de chorar, mas não conseguia parar.»



Leitora
 
domingo, fevereiro 15, 2004
  1910, 1928, Mississipi
Ainda estavam frescas as cicartizes da guerra civil entre o norte e o sul dos Estados Unidos da América. Em quatro anos (1861-1864) a guerra matou um milhão de pessoas, o sul do país ficou completamente destruído, infraestruturas e cidades inteiras desapareceram. A sociedade sulista derrotada. O bisavô de Faulker foi um dos comandantes desta guerra, do lado sulista. Oxford, a cidade de Faulkner, foi poupada à destruição, mas várias vezes ocupada.

A reconstrução é lenta e dolorosa. A população fica necessariamente marcada pela guerra e as suas memórias, magoada, amarga.

1928 é, todavia, o último ano antes de nova catástrofe: a gande crise da bolsa em 1929, que arruina muitos investidores e tem efeitos mundiais devastadores. Crise que se desenha em "O SOM E A FÚRIA", sendo um dado adicional para compreensão da derrocada desta família, que poderá agravar-se após o final do livro...


Leitora
 
  Quando a palavra não existe
Benjy era surdo-mudo
Benjy nunca ouviu a palavra
Benjy nunca proferiu a palavra
e, sem a palavra, não há lugar para o raciocínio
e a relação com o mundo faz-se através dos sentidos e do coração
e o melhor do mundo é aquela irmã
que o trata com carinho
e que cheira como as árvores

J.M.
 
  Quem é o tradutor da edição que estão a ler?
Eu tenho a impressão que as traduções diferem bastante. A versão que eu tenho é a da Portugália Editora traduzida por Mário Henrique Leiria

Joana/joaninha
 
  A originalidade de Faulkner, segundo Jorge de Sena
«A originalidade de Faulkner reside em ter transferido para a própria narração a ambiguidade, a flutuação cronológica, a pesquisa hipotética e a tentativa das motivações psicológicas, a transfiguração evocativa dos acontecimentos, a estrutura essencial da história»


in Prefácio de Jorge de Sena a Palmeira Bravas, edição Dom Quixote



Leitora
 
  Regresso aos versos de Shakespeare
...

It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.



Parece-me a descrição perfeita para o primeiro capítulo, entendendo a enunciada ausência de significado como suprema ironia - porque Faulkner sabia que ia despertar esse sentimento de incompreensão nos seus leitores.


Leitora
 
sábado, fevereiro 14, 2004
  MARIONETAS
A obra “O Som e a Fúria” tem de ser lida mais do que uma vez. Pode dizer-se que é um livro que funciona como um círculo. Partimos de um ponto e temos de o recuperar outra vez para tudo fazer sentido.
Ao ler “O Som e a Fúria” entramos num teatro de sombras onde marionetas se agitam febrilmente, tremendo na sua solidão interior. É esta a característica mais flagrante para mim, a solidão interior.
O livro começa em sete de Abril de 1928 com a mais espantosa descrição que me foi dado ler até este momento. Porque, supostamente incoerente na boca de um idiota, é absolutamente reveladora.
Benjamin Compson ( nascido Maury, mas cujo nome foi trocado quando da descoberta da sua deficiência) é um homem de trinta e três anos, atrasado mental que, basicamente, nos apresenta um registo de sensações vividas numa sucessão sem época definida. A sua intervenção menciona factos desde a infância até à actualidade numa mescla de fragmentos sensoriais, por vezes sobreponíveis, mas completamente afastados no tempo. O que é espantoso na narrativa de Benjy é que, em 1928, ele nos ensina factos desde que é criança e tem a prodigiosa capacidade de nos introduzir no universo da família Compson com a sua sucessão de personagens amargas e frágeis, pobres e trágicas, vítimas das suas fraquezas e impotentes na sua afirmação.
Começamos com Benjy, o idiota e acabamos com Benjy, o idiota, pois é ele que tem de nos dar a chave da compreensão.


“Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of record time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life´s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more; it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing."


( Macbeth – act V William Shakespeare)



William Faulkner sabia muito bem o que queria.

Troti
 
  Quando Caddy espreita a morte da avó
.



William Faulkner THE SOUND AND THE FURY
Caddy climbs the pear tree and looks at death.


fonte: MAX'S ART GALLERY


Leitora
 
  Ressonâncias
Como indiciava um dos nossos acompanhantes que nos deixou um comentário, Zeferino, as palavras do primeiro capítulo, enigmáticas, belas, ficam na nossa memória, reaparecem de vez em quando, prendem-nos.

Benjy chora, Benjy grita. Não sabemos porquê. Ele não consegue explicar, ou somos nós incapazes de entender, de ouvir.

Ia já adiantada na leitura, acompanhando Jason, quando de repente se fez luz - compreendi finalmente o que fazia Benjy gritar junto à rede. Acreditem, festejei a conquista, pobre de mim.

Claro que o que tinha acontecido é que a razão, de tão óbvia, só eu a tinha descurado. Nas últimas páginas do livro vem descaradamente exposta a minha desatenção inicial, quando Luster, o criado que toma conta de Benjy, pergunta "Quer que lhe dê uma razão pa chorá?" Dupla provocação...


Leitora
 
sexta-feira, fevereiro 13, 2004
  Yoknapatawpha
Região ficcional, criada por William Faulkner, onde se localizam 15 dos seus romances, e muitos dos seus contos e novelas.



The official map of Yoknapatawpha County, drawn by its "sole proprietor" for inclusion in The Portable Faulkner, 1946.






Segundo o Glossário de John B. Padgett, este nome derivará de palavras em língua da tribo Chickasaw, significando terra dividida (Yocona and petopha, split land).

Retirado de um dicionário de língua Chickasaw, editado em 1915, que Faulkner teria consultado, algumas palavras que poderão estar na origem de Yoknapatawpha:

ik patafo, a., unplowed.
patafa, pp., split open; plowed, furrowed; tilled.
yakni, n., the earth; ...soil; ground; nation; ...district....
yakni patafa, pp., furrowed land; fallowed land.


Assim, o significado literal seria "plowed or cultivated land or district"


Este sentido de origem, de raiz, está marcado no trabalho de Faulkner. E Yoknapatawpha é mais uma herança que o autor nos deixou - de tão profundamente descrita e trabalhada, a região passou a ser familiar, de traços bem definidos. Uma terra exemplar do Sul, do Mississipi.

Yoknapatawpha pertence a Faulkner? Talvez não; Faulkner pertence a Yoknapatawpha, e Yoknapatawpha ao mundo literário e cultural. Yoknapatawpha permanece. O seu nome está associado a eventos culturais e universitários, a edição literária, a jornais. É uma terra que, aos poucos, nos conquista.


Leitora
 
  O prefácio de António Lobo Antunes
Diz Lobo Antunes que este é o romance mais audacioso de William Faulkner, e uma das mais importantes obras lietrárias do século XX. Refere o nevoeiro do primeiro capítulo, povoado de cheiros, cores e imagens. Subinha o maravilhamento de ler, o entusiasmo renovado das releituras, o deslumbramento, a emoção.

Voltando a página, entramos em 1928, no dia do 33.º aniversário de Benjy. Espreitamos através da cerca, por entre os intervalos das pétalas encaracoladas. Ainda tímidos, mas ávidos pelo livro que nos é prometido.


Leitora
 
  Os fragmentos no escuro
Desde logo, porque foi mudado o nome de Maury para Benjy?
Qual é o filho cujo nome nunca é pronunciado? Será Quentin? Ou Caddy?? Ou estaria Roskus a falar do antigo nome de Benjy?
E quem é a mãe de Quentin (a sobrinha)? Onde está Caddy? Quanto a Quentin (o irmão) sabêmo-lo morto; como o Pai. A Mãe, apesar das ameaças/promessas constantes, ainda não desapareceu.
Há uma constante e crescente pressão, que Roskus formula: Este lugar traz má sorte. Soube disso logo no início, mas quando lhe mudaram o nome, então é que eu acreditei mes-mo. Algo de terrível tinha já então sucedido. Só não sabemos o quê.
nastenka-d
 
quinta-feira, fevereiro 12, 2004
  A Caddy cheirava como as árvores
e imaginamo-la, vestida de branco, abandonando a rede – na que é também uma das mais belas transições desta parte, quando Quentin (a sobrinha) faz evocar Caddy, anos antes, no mesmo local, em idêntica situação: primeiro eram dois e depois era só um na rede.
Versh cheirava como a chuva, o Pai cheirava como a chuva também. A Mãe, protótipo perfeito da passiva-agressiva, cheirava a doença. Não sabemos o cheiro de Jason, mas imaginamo-lo – adocicado, quase enjoativo. E Quentin (a sobrinha), a que cheirará? E Quentin (o irmão)?
E a aparente passividade dos sentimentos é assim pontuada pelas sensações que ligam Benjy ao mundo.
nastenka-d
 
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
  Apenas sons
Ben começou de novo a soltar gemidos longos, desesperados. Mas não era nada de importância. Apenas sons. Dir-se-ia que, por uma conjunção de planetas, nele encontravam voz por um instante todo o tempo, toda a injustiça e toda a pena.


Troti
 
  .........
"Há uma maldição sobre nós a culpa não é nossa"


Troti
 
  O SOM E A FÚRIA
Foi entre as sete e as oito que a sombra dos caixilhos apareceu aos cortinados e eu entrei outra vez no tempo, ao som do despertador. Era do Avô, e quando o pai mo deu disse-me dou-te o mausoléu da esperença e do desejo...Dou-to, não para que te lembres constantemente do tempo, mas para que te possas esquecer dele de vez em quando, sem depois te esfalfares na ânsia de o recuperares. Porque, como ele dizia, nenhuma batalha se pode considerar ganha. Nem sequer travada. O campo de batalha apenas revela ao homem a sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos.

...

Podemos abstrair-nos do som por largo tempo, e nisto, num segundo de atenção, ele recria na nossa mente o longo período de tempo que não ouvimos.

...


Os três quartos começaram a bater…

...cada homem é árbitro das suas próprias virtudes quer isso seja ou não considerado corajoso é mais importante do que o acto propriamente dito do que qualquer acto ou não poderíamos estar a falar a sério e eu tu não acreditas eu estou a falar a sério e ele eu acho que és demasiado sério para me dares motivo para preocupações senão não te terias sentido impelido a lançares mão do expediente de me dizeres que tinhas cometido incesto e eu eu não estava a mentir eu não estava a mentir eu não estava a mentir e ele tu querias sublimar um pedaço de loucura humana perfeitamente natural transformando-a num horror e depois exorcisá-la com a verdade...

...tu agora também não estás a mentir mas continuas cego para o que te vai lá dentro para aquela parcela de verdade universal a sequência dos acontecimentos naturais e as suas causas que ensombram a fronte de todo o homem...tu não estas a pensar na finitude estás a contemplar uma apoteose na qual um estado de espírito temporário se tornará simétrico se elevará acima da carne e tomará consciência tanto de si próprio como da carne não te dispensará própriamente nem sequer morrerrás...

...o mais estranho é que o homem que é concebido por acidente e cujo sopro de vida mais não é do que um molde fresco já calibrado com dados jogados contra si se recusa a enfrentar aquela etapa final que ele sabe de antemão que tem de enfrentar sem recorrer a expedientes que podem ir da violência á mentirola que nem a uma criança consegue enganar até que um dia no auge do desencanto ele aposta tudo sem ver nenhum homem o faz à primeira fúria de desespero remorso ou luto fá-lo só quando percebe finalmente que nem o desespero nem o remorso nem o luto são particularmente importantes...

...cada homem é árbitro das suas virtudes mas que nenhum homem passe a outro homem receitas de bem estar...não é o desespero até ao fim do tempo não é sequer o tempo até dizermos foi
A última nota soou. Por fim deixou de vibrar e na escuridão de novo se fez silêncio....



"O Som e a Fúria " é um livro incrível.´Pelo realismo, pelo desencanto, pela secura, pela desordem, pela decadência. O crescendo da narrativa acentua o determinismo das personagens e a revelação da impotência humana.


Troti
 
 




J.M.


 
  Benjy e os sentidos
Entramos no livro e ele parece fugir-nos – o nevoeiro que habitualmente se dissipa ao fim de algumas páginas teima em manter-se, fazendo-nos confundir nomes e personagens e tempos. Não fosse o aviso lido anteriormente e a confusão seria ainda maior; mesmo assim a sensação é a de nos encontrarmos no interior de um nevoeiro denso e branco, tendo apenas como referência os fragmentos – muito dispersos – daquilo que se encontra imediatamente à nossa frente. Perdemos totalmente a noção de perspectiva, de profundidade; continuamente somos assaltados pela sen-sa-ção de que algo nos escapa.
Não deixa de ser paradigmático que à confusão no raciocínio – apenas porque este não nos é apresentado linearmente! – se junte uma profusão de percepções sensoriais: a Caddy deu-me a almofada e eu podia olhar para a almofada, para o lume e para o espelho ou a Caddy cheirava como as árvores (os cheiros com uma presença tão forte quanto a das imagens).
A impressão que fica é a de uma história construída a partir de sensações – mais uma das formas de contá-la.
nastenka-d
 
  MACBETH, William Shakespeare
O regresso de Macbeth é surpreendido por choro de mulheres.


MACBETH
I have almost forgot the taste of fears;
The time has been, my senses would have cool'd
To hear a night-shriek; and my fell of hair
Would at a dismal treatise rouse and stir
As life were in't: I have supp'd full with horrors;
Direness, familiar to my slaughterous thoughts
Cannot once start me.

Re-enter SEYTON

Wherefore was that cry?

SEYTON
The queen, my lord, is dead.

MACBETH
She should have died hereafter;
There would have been a time for such a word.
To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.



Sim, joaninha, não resistiremos a Shakespeare por muito tempo...


Leitora
 
  A tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

Macbeth, 5. 5




Ah, adorei o boneco... mas deixo também este interessante link para citações de Shakespeare e outros...


Leitora
 
terça-feira, fevereiro 10, 2004
  O SOM E A FÚRIA
"It's the book I feel tenderest towards. I couldn't leave it alone, and I never could tell it right, though I tried hard and would like to try again, though I'd probably fail again."

William Faulkner



Troti
 
  Viagem ao Mississipi
The University is proud to maintain one of the finest collections of the works of Nobel Prize-winning author William Faulkner. The University preserves Faulkner's home, Rowan Oak, as a literary shrine for all to visit.




Leitora
 
segunda-feira, fevereiro 09, 2004
  TO READ....
"Read, read, read.
Read everything."



William Faulkner


Troti
 
  "I decline to accept the end of man."
William Faulkner: Discurso, do Prémio Nobel, 10 de Dezembro de 1950, Estocolmo, Suécia


O discurso não foi extenso, tal como seria esperado de um homem que sempre os evitou ("I'm just a farmer who likes to tell stories."). Faulkner declinou claramente a sua imagem de escritor pessimista, enfatizando os elementos que tornam a literatura imortal: love and honor and pity and pride and compassion and sacrifice


the young man or woman writing today has forgotten the problems of the human heart in conflict with itself which alone can make good writing because only that is worth writing about, worth the agony and the sweat. He must learn them again. He must teach himself that the basest of all things is to be afraid: and, teaching himself that, forget it forever, leaving no room in his workshop for anything but the old verities and truths of the heart, the universal truths lacking which any story is ephemeral and doomed--love and honor and pity and pride and compassion and sacrifice. Until he does so, he labors under a curse. He writes not of love but of lust, of defeats in which nobody loses anything of value, and victories without hope and worst of all, without pity or compassion. His griefs grieve on no universal bones, leaving no scars. He writes not of the heart but of the glands.




Leitora
 
  Biografia
William Faulkner (1897-1962), who came from an old southern family, grew up in Oxford, Mississippi. He joined the Canadian, and later the British, Royal Air Force during the First World War, studied for a while at the University of Mississippi, and temporarily worked for a New York bookstore and a New Orleans newspaper. Except for some trips to Europe and Asia, and a few brief stays in Hollywood as a scriptwriter, he worked on his novels and short stories on a farm in Oxford.

In an attempt to create a saga of his own, Faulkner has invented a host of characters typical of the historical growth and subsequent decadence of the South. The human drama in Faulkner's novels is then built on the model of the actual, historical drama extending over almost a century and a half Each story and each novel contributes to the construction of a whole, which is the imaginary Yoknapatawpha County and its inhabitants. Their theme is the decay of the old South, as represented by the Sartoris and Compson families, and the emergence of ruthless and brash newcomers, the Snopeses. Theme and technique - the distortion of time through the use of the inner monologue are fused particularly successfully in The Sound and the Fury (1929), the downfall of the Compson family seen through the minds of several characters. The novel Sanctuary (1931) is about the degeneration of Temple Drake, a young girl from a distinguished southern family. Its sequel, Requiem For A Nun (1951), written partly as a drama, centered on the courtroom trial of a Negro woman who had once been a party to Temple Drake's debauchery. In Light in August (1932), prejudice is shown to be most destructive when it is internalized, as in Joe Christmas, who believes, though there is no proof of it, that one of his parents was a Negro. The theme of racial prejudice is brought up again in Absalom, Absalom! (1936), in which a young man is rejected by his father and brother because of his mixed blood. Faulkner's most outspoken moral evaluation of the relationship and the problems between Negroes and whites is to be found in Intruder In the Dust (1948).




In 1940, Faulkner published the first volume of the Snopes trilogy, The Hamlet, to be followed by two volumes, The Town (1957) and The Mansion (1959), all of them tracing the rise of the insidious Snopes family to positions of power and wealth in the community. The reivers, his last - and most humorous - work, with great many similarities to Mark Twain's Huckleberry Finn, appeared in 1962, the year of Faulkner's death.


Fonte: Nobel Lectures, Literature 1901-1967, Elsevier Publishing Company, Amsterdam



Leitora
 
  Uma fotografia
Um mestre por outro mestre



William Faulkner, Oxford, Mississippi, 1947
(Photo by Henri Cartier-Bresson)


Leitora
 
  As razões para a atribuição do Nobel de 1949
"for his powerful and artistically unique contribution to the modern American novel"


Algumas décadas depois, todas as listas das "melhores obras literárias do século" incluem invariavelmente um ou mais títulos de Faulkner, sendo o preferido "O SOM E A FÚRIA".


Leitora
 
sábado, fevereiro 07, 2004
  Este Magnífico Tijolo
Ulisses despertou-me as mais díspares emoções, de tal forma que me ponho a pensar se a verdadeira Odisseia não será a viagem, por vezes amarga, por vezes fantástica, que faz cada um dos seus leitores.

É, de facto, uma fera, pouco amigável, muitíssimo exigente; obriga-nos a puxar pelo miolo, de forma constante, e a tentar descodificar os violentos sentimentos que nos suscita, o que não é nada fácil. Debati-me com a frustração, a angústia, a vontade de o atirar pelo ar; mas também vivi o deslumbramento, a descoberta, o prazer do desafio.

É incrível como nos pode agarrar a história, contada ao longo de mais de 800 páginas, de um dia normal de um homem normal. Acabamos por sentir que, por mais banal que o seja, um facto pode assumir uma enorme relevância e interesse, desde que descrito com a mestria de um Joyce. Como se este livro nos estivesse a dizer: nós somos o Ulisses; e a verdadeira Odisseia é a viagem do Homem comum, com os seus próprios ciclopes e sereias; aquele trilho complexo, apaixonante e sofrido que é o nosso percurso, a lenta construção da nossa memória, o sentido que soubemos conferir à vida.

A leitura de Ulisses ensinou-me a estar mais atenta ao meu próprio fluxo da consciência, naqueles momentos em que caminho na rua, sem ouvir quem chama por mim, e faço a expressão fechada de quem está alheada nos seus pensamentos e só por sorte não bate com a cabeça num poste!

O que senti com a leitura de Ulisses? Juro que ainda estou em pleno processo de assimilação.

O que sinto neste momento? O orgulho de ter vivido tamanho entusiasmo e aquela sensação quentinha pelo privilégio de, convosco, ter aprendido, ter palpitado, ter partilhado momentos e emoções.

E hei-de sorrir sempre que olhar para aquela presença verde e azul, que reina na parte de cima da estante da esquerda, no meu quarto.

J.M.
 
  O que quereria Joyce?
Revolucionar? Encantar? Irritar? Deslumbrar? Atenazar-nos as meninges? Brincar? Tirar-nos do sério? Desafiar? Oferecer-nos um puzzle por montar? Fazer a exaltação do banal? Encaminhar-nos para o labirinto? Atribuir uma dimensão inusitada ao pormenor? Ocupar-nos durante séculos? Obrigar-nos a abrir quinhentas vezes aquela enciclopédia a que ninguém dava uso? Excitar ódio e paixão? Ensinar-nos a pluralidade? Chocar-nos com a sua "obsessão cloacal"? Maravilhar? Fracturar? Contribuir para que estejamos mais atentos a nós próprios? Invadir? Ajudar-nos a valorizar o sabor do tempo? Confundir? Surpreender? Chamar Ulisses a cada um de nós?

Acho que ele conseguiu, ele conseguiu, ele conseguiu…

J.M.
 
  I have no respect for anyone who has read Ulysses and liked it.
Nesta semana de balanço da nossa leitura partilhada de Ulysses, acho que também é importante trazer aqui as opiniões daqueles que acham o livro intragável, ilegível, irritante, inenarrável ou simplesmente se chateiam com toda a reputação criada à volta de um livro que não compreendem. Depois também há aqueles, muito poucos, que humildemente confessam não estar ainda à altura de um livro desta envergadura. E também há quem diga que um dos principais defeitos humanos é a preguiça. A preguiça e o medo. Parece-me que este é um livro que exige vontade e esforço do leitor como nenhum outro antes (exceptuando, mais tarde, Finnegans Wake), mas quem estiver disposto a lhe entregar uma parte da vida será recompensado por cada segundo dedicado à sua leitura.

Para isso, proponho um exercício lúdico mas educativo que é visitar a página da Amazon onde podemos encontrar 309 críticas de leitores do Ulysses. Apesar de a grande maioria das opiniões ser muito positiva, dou especial destaque àqueles que o criticam negativamente. Ulysses está longe de reunir uma opinião unânime. E ainda bem, digo eu.

Reparem, por exemplo, no rancor deste frustrado leitor, que procurava entretenimento e encontrou uma chatice:

Anyone who says time heals all wounds has never read Ulysses, October 9, 2003
Reviewer: nebber1214 from Sandwich

Ulysses is a hardcover bounded knife in the face.

Ulysses is to bad book as Gary Busey is to ugly man. "Oh, you're so ugly it's heinous. Cover that up with a paper bag." That's how bad of a book it is.

Joyce is blind in one eye because he read Ulysses and then the eye hung itself.

I'm contemplating traveling back in time and murdering James Joyce, in the face.

I have no respect for anyone who has read Ulysses and liked it.

For Ulysses to be any worse of a book, it would have to break into your house and defecate on your bed.

For two hundred pages the author decided that there would be no descriptions, only dialog in the form of a play, which made the run-on sentence that was the last thirty pages no surprise. Good books are entertaining while conveying an idea, be it humorous or profound; this book provided neither. It was long, boring, and poorly written.



Ou esta opinião vinda do Brasil:

Ulysses, Overated Book, January 6, 2004
Reviewer: Jaques-Jesus from Brasília, Brasil

It only decries Joyce's Ulysses to know it is so overated as it is. The book is not so good, it is boring, it is a colection of words and a continuous experimentation of styles that, unhappily, do not mean anything to the meaning of the story; that is, the book's language is snobbish and useless. Those who say that "love" such a writing are to be thought about as non-readers or as victims of a literary abnormality.



Ou então este, com a habitual conversa dos "pseudo-intelectuais":

The death of literature, January 11, 2004
Reviewer: am031702 from Stafford, TX USA

With _Ulysses_, Joyce truly showed the world what a elitist egotist he was. Unfortunately, too many academics were entranced by occasional flourishes of vivid imagery to see this sham for what it was (and is): An intense act of laziness and hubris by a writer who had trouble telling stories. I think of _Ulysses_ as the precursor to all the self-indulgent pseudo-intellectual garbage that turned so many people off from reading "great literature" over the last 60 some odd years. However, the greatest tragedy comes from the fact that Joyce had talent in spades and showed it on occasion, such as with many of his short stories. If he would have tried to make _Ulysses_ even semi-comprehensible, it may indeed have been as great as some make it out to be. In the end, though, it's all just gibberish without a story to drive it.



riverrun
 
 
"Mas foi maravilhoso."
 
 
"Tudo se desvanece."
 
 
"Fechar os olhos por um momento."
 
 
" O entardecer de Verão tinha começado a estreitar o mundo no seu misterioso abraço. Lá longe, no ocidente, o sol estava a pôr-se e o último resplandecer de todo o também efémero dia detinha-se amorosamente no mar e na areia."
 
 
"Maré alta na barra de Dublin"
 
 
"O tempo faz ricochete, atingido, choque após choque."

Troti



 
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
 
Miss Donne escreveu:

16 de Junho de 1904.
 
 
"Toca-me. Suaves olhos. Suave, suave, suave mão. Sinto-me tão só, aqui. Oh, toca-me depressa, agora. Que palavra é essa que todos os homens conhecem? Eu aqui estou sozinho, quieto. E triste, também. Toca-me, toca-me."
 
 
"Inelutável modalidade do visível: pelo menos, se não mais, pensado através dos meus olhos. Estou aqui para ler as assinaturas de todas as coisas, ovas e sargaços, a maré que se aproxima, essa bota corroída. Verderanho, azul de prata, ferrugem: sinais coloridos. Limites do diáfano."
 
 
"Os altivos e preciosos títulos faziam ressoar na memória de Stephen o trinufo dos seus sinos de bronze; o crescimento lento e a alteraão de ritmo e de dogma como os seus próprios e preciosos pensamentos, uma química de estrelas."
 
 
"depois desse beijo longo quase perdi o fôlego sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim e isso somos todas flores um corpo de mulher sim essa foi a única verdade que disse em toda a vida e o sol hoje brilha para ti sim isso foi o que gostei mais porque vi que entendia ou que sentia o que é uma mulher"
 
 
"A nossa estante, a escrivaninha onde nunca escrevemos, a cadeira de braços da tia Hegartg, as nossas clássicas reimpressões dos velhos mestres. Um homem e os seus amigos vivem ali em abundância."
 
 
"Gelado de ananás, limão cristalizado, caramelo de nata. Uma rapariga peganhenta de açucar tirando colheradas de gelado para um irmão."
 
 
"O pensamento é o pensamento do pensamento. Luminosidade tranquila. A alma, de certa maneira, é tudo o que é: a alma é a forma das formas. Súbita tranquilidade, vasta, incandescente: forma das formas."
 
 
"(A mão dela enfia-se no bolso esquerdo das calças e retira uma batata dura e negra, enrugada. Com os lábios húmidos, olha-a e olha para Bloom.)"
 
 
"Um rosto Stuart do incomparável Carlos, escorrido cabelo caído para os lados. Brilhava quando ela se agachava para alimentar o fogo com as botas rotas. Falei-lhe de Paris. Até tarde na cama debaixo de um cobertor de velhos sobretudos, a dedilhar uma pulseira de pechibeque, recordação de Dan Kelly. (...)
Dizem que tem os meus olhos. Vêem-me assim os outros? Vivos, distantes e ousados?"
 
 
"Mas amanhã é um novo dia, vai ser. O passado foi, é hoje. O que é agora será então amanhã como o agora era ser ontem."
 
 
"caramba espera sim espera sim ele saiu nas cartas esta manhã quando fiz o horóscopo"
 
 
"Nunca se aprende bastante com os homens."
 
 
"O ar limpo saudava-o, a tocar harpa nos seus nervos excitados, vento de ar selvagem de sementes de luminosidade."
 
 
"Quando alguém lê essas estranhas páginas de um que há muito desapareceu, sente alguém que alguém está com alguém que uma vez..."
 
 
"Viajar à volta diante do sol, roubar-lhe um dia de marcha. Manter-se assim para sempre, nunca envelhecer tecnicamente um dia."
 
 
"Todos os que te querem bem, esperam isto de ti. Todos desejam ver-te levar avante a obra que tu meditas..."
 
 
"Deixa-a falar. Olha-a a direito nos olhos. Acredito em ti. Confia em mim."
 
 
"E voltarias atrás? Só para começar."
 
 
"Com os olhos abertos, em visão, olhava fixamente através do raio de sol em que se detivera."
 
 
"Tinhamos posto grande quantidade de coisas: vinho do Porto, xerez e coraçao aos quais fizemos ampla justiça. Bebia-se com ganas e fúria."
 
 
"Abre agora os olhos. Eu quero. Um momento. Já terá tudo desaparecido entretanto?"
 
 
"Os movimentos que as revoluções produzem no mundo nascem dos sonhos e visões no coração de um camponês, numa colina."
 
 
"Sou outro agora, no entanto, ainda o mesmo."
 
 
"como isso seria emocionante ir por aí com ele às compras comprando essas coisas numa cidade nova"
 
 
"Um alegre e doce chilreio que trinava lá dentro continuou ainda um compasso ou dois e cessou. De um lado correram a cortina da janela. Um anúncio Apartamentos sem mobília deslizou no caixilho e caiu. Brilhou um roliço braço generosamente nu e foi visto de um branco corpete e esticadas alças. A mão de uma mulher lançou uma moeda por sobre a área do grademento."
 
 
"ouvi dizer àqueles rapazes da esquina de Marrowbone Lane e a tia Maria tem uma coisa cabeluda porque estava escuro e sabiam que passava uma rapariga não fiquei corada porque é que havia de ficar é apenas a natureza"
 
 
"Escuta: falar de ondas em quatro palavras: sissu, rrss, rsseeis, uuus."
 
 
"Uma voz, doce e prolongada, chamava-o do mar. Ao fazer uma curva acenou com a mão. Chamava-o novamente. Uma lisa cabeça castanha, de foca, lá longe na água, redonda."
 
 
"Que signo celestial foi simultaneamente observado por ambos?
Uma estrela precipitada com grande velocidade aparente através do firmamento desde Vega, na Lira, por cima do zénite para lá do grupo estelar da Cabeleira de Berenice, até ao signo zodiacal de Leo."
 
 
"Flor para me consolar e um alfinete para me prender. Significa alguma coisa, linguagem de flor. Era uma margarida? Inocência."

 
  Para os próximos leitores do ULYSSES
"Ide! - disse - Tendes o mundo por diante."
 
  Para os felinos que lêem connosco
"Um sábio gato malhado, esfinge a piscar os olhos, observava-o da quente soleira."
 
  Para os que iniciaram connosco
No início fomávamos um grupo de 20 candidatos a leitores do ULISSES. Outros tantos se foram juntando, aos poucos. Apesar de a maioria ter participado pouco nesta leitura, foram muito importantes para nós, pelo impulso que nos deram. E esperamos ter provado que não é impossível, que sentimos de facto prazer com a leitura - ou pelo menos com parte dela. E com a conquista.


Para a Cristinapt, a Camaro, e outros que não conseguiram a disponibilidade necessária para ler o ULISSES durante os últimos meses, mas esperam fazê-lo num futuro próximo. Como livro paciente que é, esperará pelos seus leitores.



Era o adeus? Não. Tinha de ir, mas voltariam a encontrar-se ali e disso sonharia até então, amanhã, do sonho de véspera.
 
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
  A corrente da vida
"Sempre a passar, a corrente da vida, aquilo que na corrente da vida procuramos é-nos mais querido que tuuudo o mais."


Troti
 
  Palavras de James Joyce
Ulysses (1922; Letters to Harriet Shaw Weaver): ‘I understand that you may begin to regard the various styles of the episodes with dismay and prefer the initial style much as the wanderer did who longed for the rock of Ithaca. But in the compass of one day to compress all these wanderings and clothe them in the form of this day is for me possible only by such variation which, I beg you to believe, is not capricious.’ (6 Aug. 1919; quoted in Richard Ellmann, James Joyce, 1965 Edn., p.475; Selected Letters, 1975, p.242.) ‘My head is full of pebbles and rubbish and broken matches and bits of glass picked up ’most everywhere. The task I set myself technically in writing a book from eighteen different points of view and in as many styles, all apparently unknown or undiscovered by my fellow tradesmen, that and the nature of the legend chosen[,] would be enough to upset anyone’s mental balance.’ (Letter to HSW, 24 June 1921; Selected Letters, 1975, pp.281-84; p.284.)



Ulysses (1922): ‘It is my epic of two races (Israelite-Irish) and at the same time the cycle of the human body as well as a little story of a day (life). The character of Ulysses always fascinated me even when a boy. Imagine fifteen years ago I started writing it as a short story for Dubliners! For seven years I have been working at this book - blast it! It is also a kind of encyclopaedia. My intention is not only to render myth sub specie temporis nostri but also to allow each adventure (that is, each hour, every organ, every art being interconnected and interrelated in the structural scheme of the whole) should not only condition but even to create its own technique.’ (Letter to Carlo Linati, 21 Sept. 1920; Letters [Viking, Vol I], pp.146-47; quoted in Ellmann, James Joyce, 1965 Edn., p.535, ftn.; also [in part] in W. Y. Tindall, A Reader’s Guide to James Joyce, 1959, p.132; Matthew Hodgart, James Joyce: A Student’s Guide, Routledge Kegan & Paul 1978, p.69; also in Critical Heritage [1902-1927] of James Joyce, London: Routledge & Kegan Paul, 1970, Intro., p.18

http://www.pgil-eirdata.org/html/pgil_datasets/authors/j/Joyce,James/quots2.htm



Troti
 
  "Ulisses"
“Ulisses” é um livro diferente. Esta foi a primeira palavra que me surgiu na mente. É diferente de todos os outros livros que já li e duvido que seja possível, nesta nova sociedade do imediato, surgir outra obra que se lhe compare. James Joyce embrenhou-se numa escrita sem paralelo, descarnou conceitos e criou uma nova forma de subjugar as palavras. Deu muito do seu tempo de vida a este projecto e exige em troca muito tempo de vida aos seus leitores. Porque quem resolver ler o “Ulisses” tem de saber que vai ter de lhe dar um dos seus bens mais preciosos que é o tempo. É inevitável. Vai ter de parar e procurar uma referência, decifrar um enigma, seguir um pensamento, explorar uma via. E eu acho que esta é uma das razões porque o “Ulisses” é considerado, por muitos, um livro difícil. A linguagem utilizada é rebuscada e não ajuda a fluidez da leitura, mas consegue ser extremamente viva e cativante. Dos meandros da sua mente labiríntica Joyce libertou ideias e pensamentos que cristalizaram na génese de uma obra única, sem precedentes nem sucessores. Há quem admira, quem rejeita, quem critica, quem ama, há quem seja seduzido, há quem se veja traído. Admito todas estas sensações, porque de facto, eu também as experimentei. E é essa a riqueza do “Ulisses”. Com ele sentimos os ventos, apanhamos as migalhas, navegamos nas ondas, esprememos os sucos. E, mais do que tudo, vivemos.

Só por isso, por me ter permitido viver, no que esta palavra tem de mais abrangente, considero o “Ulisses” um portento.


Troti

 
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
  Da Irlanda… Um Triplo Prazer
Assim reza a publicidade de um conhecido irish whiskey (aquele que os irlandeses dizem ser o mais antigo whisky do mundo, para grande irritação dos escoceses):

"(...) A Irlanda é um pequeno país com grande actividade artística que deu a conhecer ao mundo personalidades na música como Gury Moore e U2, entre outros internacionalmente conhecidos, no cinema Liam Neeson, Peter O’Toole e Keneth Branagh, e na literatura Oscar Wilde, George Bernard Shaw e Frank O’Connor. (…)"

"Jameson acompanhou desde sempre os momentos intensos desta nação."
Será?

As pessoas que bebem Jameson sabem o que bebem." Pode ser, mas Jameson não sabe o que a Irlanda tem.

J.M.
 
  Por falar em partes intragáveis…
Houve momentos em que me senti gozada.

Acabei por descobrir que não havia motivos para ter pudor de o confessar, assim que me deparei com esta frase exemplar:

"I've put in so many enigmas and puzzles that it will keep the professors busy for centuries."

Porventura, extravasou a dose de arrogância a que um génio tem direito…

J.M.
 
  Parabéns Joyce! (James Joyce reads from Ulysses - 1924)
Joyce nasceu em Dublin a 2 de Fevereiro de 1882, e faria ontem, portanto, 122 anos. Para assinalar esta data, ainda que atrasado, e o fim desta longa leitura partilhada, ponho à disposição de todos os interessados um documento histórico em que se pode ouvir o próprio Joyce a ler um excerto de Ulysses. É quase como ouvir um compositor a interpretar a sua obra musical.

Esse documento consiste num ficheiro mp3, com uma qualidade de som vintage, e que ocupa 1,71 MB. Convém que tenham banda larga e algum espaço na caixa de correio. Quem quiser esta raridade sonora totalmente grátis que me envie um email (alongtheriverrun@yahoo.com) antes que o neto do Joyce me ponha um processo em cima por violação dos direitos de autor. Não me perguntem como este documento chegou às minhas mãos. Apenas posso divulgar que envolveu um alfarrabista macedónio, contactos com a máfia russa em Trieste e a influência das mais altas esferas da maçonaria irlandesa.

Esta é a passagem do 7º capítulo (Aeolus) que se pode ouvir Joyce a ler:


--MR CHAIRMAN, LADIES AND GENTLEMEN: GREAT WAS MY ADMIRATION IN LISTENING
TO THE REMARKS ADDRESSED TO THE YOUTH OF IRELAND A MOMENT SINCE BY MY
LEARNED FRIEND. IT SEEMED TO ME THAT I HAD BEEN TRANSPORTED INTO A COUNTRY
FAR AWAY FROM THIS COUNTRY, INTO AN AGE REMOTE FROM THIS AGE, THAT I STOOD
IN ANCIENT EGYPT AND THAT I WAS LISTENING TO THE SPEECH OF SOME HIGHPRIEST
OF THAT LAND ADDRESSED TO THE YOUTHFUL MOSES.

His listeners held their cigarettes poised to hear, their smokes
ascending in frail stalks that flowered with his speech. And let our
crooked smokes. Noble words coming. Look out. Could you try your hand at
it yourself?

--AND IT SEEMED TO ME THAT I HEARD THE VOICE OF THAT EGYPTIAN HIGHPRIEST
RAISED IN A TONE OF LIKE HAUGHTINESS AND LIKE PRIDE. I HEARD HIS WORDS AND
THEIR MEANING WAS REVEALED TO ME.


FROM THE FATHERS

It was revealed to me that those things are good which yet are
corrupted which neither if they were supremely good nor unless they were
good could be corrupted. Ah, curse you! That's saint Augustine.

--WHY WILL YOU JEWS NOT ACCEPT OUR CULTURE, OUR RELIGION AND OUR
LANGUAGE? YOU ARE A TRIBE OF NOMAD HERDSMEN: WE ARE A MIGHTY PEOPLE. YOU
HAVE NO CITIES NOR NO WEALTH: OUR CITIES ARE HIVES OF HUMANITY AND OUR
GALLEYS, TRIREME AND QUADRIREME, LADEN WITH ALL MANNER MERCHANDISE FURROW
THE WATERS OF THE KNOWN GLOBE. YOU HAVE BUT EMERGED FROM PRIMITIVE
CONDITIONS: WE HAVE A LITERATURE, A PRIESTHOOD, AN AGELONG HISTORY AND A
POLITY.

Nile.

Child, man, effigy.

By the Nilebank the babemaries kneel, cradle of bulrushes: a man
supple in combat: stonehorned, stonebearded, heart of stone.

--YOU PRAY TO A LOCAL AND OBSCURE IDOL: OUR TEMPLES, MAJESTIC AND
MYSTERIOUS, ARE THE ABODES OF ISIS AND OSIRIS, OF HORUS AND AMMON RA.
YOURS SERFDOM, AWE AND HUMBLENESS: OURS THUNDER AND THE SEAS. ISRAEL IS
WEAK AND FEW ARE HER CHILDREN: EGYPT IS AN HOST AND TERRIBLE ARE HER ARMS.
VAGRANTS AND DAYLABOURERS ARE YOU CALLED: THE WORLD TREMBLES AT OUR NAME.

A dumb belch of hunger cleft his speech. He lifted his voice above it
boldly:

--BUT, LADIES AND GENTLEMEN, HAD THE YOUTHFUL MOSES LISTENED TO AND
ACCEPTED THAT VIEW OF LIFE, HAD HE BOWED HIS HEAD AND BOWED HIS WILL AND
BOWED HIS SPIRIT BEFORE THAT ARROGANT ADMONITION HE WOULD NEVER HAVE
BROUGHT THE CHOSEN PEOPLE OUT OF THEIR HOUSE OF BONDAGE, NOR FOLLOWED THE
PILLAR OF THE CLOUD BY DAY. HE WOULD NEVER HAVE SPOKEN WITH THE ETERNAL
AMID LIGHTNINGS ON SINAI'S MOUNTAINTOP NOR EVER HAVE COME DOWN WITH THE
LIGHT OF INSPIRATION SHINING IN HIS COUNTENANCE AND BEARING IN HIS ARMS
THE TABLES OF THE LAW, GRAVEN IN THE LANGUAGE OF THE OUTLAW.



Liner notes (by Sylvia Beach, from the earlier 1924 album)

In 1924 I went to the office of His Master's Voice in Paris to ask them if they would record a reading by James Joyce from ULYSSES. But they would agree only if it were done at my expense. The record would not have their label on it, nor would it be listed in their catalogue. I accepted the terms: thirty copies of the recording to be paid for on delivery.

Joyce himself was anxious to have this recording made. He had made up his mind, he told me, that this would be his only reading from ULYSSES. Recording was done in a rather primitive manner in those days. All the same, I think the ULYSSES recording is a wonderful performance. I never hear it without being deeply moved.



James Joyce Reads in The Modern Word:

Again, I highly recommend this tape. Joyce really brings the text to life, his voice lilting and whispering, quickening and slowing, lingering on the musical words with a loving joy.


riverrun
 
terça-feira, fevereiro 03, 2004
  Ao alcance da mão
A primeira sensação é de quase desalento: e depois do Ulisses? Estranhamente, não é tanto alegria que sinto (embora haja, confesso, uma pontinha de orgulho por não ter sido engolida pelo livro); há antes de mais um período de repouso, espécie de nojo (no sentido de luto). A Charlotte diz que acabar o Ulisses não é motivo de celebração, pois nenhuma vez voltará a ser a primeira. Há ambivalência no que sinto, como houve durante toda a leitura; nas partes intragáveis, nos fragmentos deliciosos.
Permanece a sensação de ter sido conquistada. Daqui em diante haverá que descobrir até que ponto terei conquistado Ulisses.
nastenka-d
 
segunda-feira, fevereiro 02, 2004
  Acabei de devolver Ulisses à estante!
Tentei abstrair-me do facto de estar a ler O LIVRO… impossível… tudo nos diz que se trata da obra paradigmática da literatura do sec XX… miríade de artigos, teses, textos, imagens, celebrações, referências,…. quinhentas mil interpretações… algo simplesmente incontornável…


E se nunca tivéssemos ouvido falar dele?


Presumo que o desfecho teria sido bastante diferente…. Teria, sequer, havido desfecho?!

J.M.
 
  LEOPOLD BLOOM
.



Richard Hamilton
Leopold Bloom

Year - 1983
Medium - Soft-ground, roulette, engraving and aquatint (Ed. 120)
Size - 53 x 37 cm (plate); 76 x 56 cm (sheet)




Troti
 
  THE TRANSMOGRIFICATIONS OF BLOOM
.




Richard Hamilton
The transmogrifications of Bloom

Year - 1984-85
Medium - Soft-ground and aquatint (Ed. 120)
Size - 51.3 x 41.5 cm (plate); 76 x 56.7 cm (sheet)



Troti
 
  YES
.




Richard Hamilton
Yes

Year - 1988
Medium - Etching (Ed. 24)
Size - 8 x 10.5 cm (plate); 32.3 x 25.5 (sheet)



Troti
 
  MOLLY
.



Richard Hamilton
Molly

Year - 1988
Medium - Etching and aquatint (Ed. 24)
Size - 13 x 9 cm (plate);32.3 x 25.5 (sheet)



Troti
 
  Semana de Balanço
.

Nesta primeira semana de Fevereiro, no início da Era Pós-ULISSES da Leitura Partilhada, vamos parar para balanço. Tentaremos reunir nesta página feedbacks dos que leram até ao fim, dos que tentaram mas não gostaram, dos que não conseguiram reunir a disponibilidade necessária a uma leitura tão exigente, e adiaram a aventura.

Todas as participações são bem vindas. Basta mandar um mail, ou usar as caixas de comentários.

Entretanto, deixamos de imediato o agradecimento sentido aos que nos foram acompanhando, e ajudando em tamanha aventura.
 
domingo, fevereiro 01, 2004
  Terminámos o ULISSES!
Terminámos o ULISSES!! Terminámos o ULISSES!!! Terminámos o ULISSES!!!! Terminámos o ULISSES!!!!!
 
  Y
Molly começa e acaba o seu monólogo com "Yes". Este "Y" de "Yes" é também uma representação da própria Molly. Isto pareceu-me bastante claro na ilustração que Richard Hamilton fez deste capítulo, em que podemos ver Molly na cama, de pernas abertas, formando um "Y".

Neste último capítulo de Ulysses, com um rio de palavras, Joyce ensaia já o que viria a ser em Finnegans Wake a personificação do ciclo da água e do rio Liffey, que atravessa Dublin, na personagem de Anna Livia Plurabelle. Em Ulysses, o elemento feminino aparece como origem e causa de todas as coisas: a Mãe-Terra.

Penélope espera o regresso de Ulisses, mas não foi também uma mulher, Helena, ao causar a Guerra de Tróia, quem o levou a partir?


riverrun
 
  Mudámos de gestor de comentários
Dando seguimento às muitas reclamações, a partir desta data as caixas de comentários estão diferentes. É agora mais símples colocar comentários e respostas, e receber mais participações.

Entretanto, os compentários anteriormente colocados não foram perdidos; estão acessíveis através do arquivo do Blogue.

Que vos parece?

Leitora
 
  Sobre o 18.º Capítulo
Andei fugida durante esta semana, mas tendo sempre em mente a necessidade de me decidir sobre o que dizer àcerca do último capítulo do ULISSES. Como conclui a leitura ainda durante 2003, esta incógnita vêm-me acompanhando há algumas semanas... Mas o que pode ser dito àcerca de uma capítulo destes?!

É fabuloso. É das coisas mais impressionantes que li na vida. É delicado-forte. É arrebatador. Merece todos os elogios das pessoas que detestaram o ULISSES, e saltaram directamente para o último capítulo.

É imperdível. Subscrevo o que disse a Nastenka: não vou citar; leiam-no!


Leitora
 

O QUE ESTAMOS A LER

(este blogue está temporariamente inactivo)

PROXIMAS LEITURAS

(este blogue está temporariamente inactivo)

LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

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