Leitura Partilhada
quarta-feira, março 31, 2004
  Capilla Sixtina
E estremeço ao recordá-la...



J.M.
 
  Miguel Ângelo, A Criação do Sol e da Lua


Creación de los astros y las plantas (Génesis 1,11-19)
Dijo Dios: "Produzca la tierra vegetación: hierbas que den semillas y árboles frutales que den fruto..." Y así fue (Génesis 1,11)... y vio Dios que estaba bien. Y atardeció y amaneció: día tercero. (Génesis 1,13)... Hizo Dios los dos luceros mayores; el lucero grande para el dominio del día, y el lucero pequeño para el dominio de la noche, y las estrellas. (Génesis 1,16)... y vio Dios que estaba bien. Y atardeció y amaneció: día cuarto (Génesis 1,19).

(http://mv.vatican.va/4_ES/pages/x-Schede/CSNs/CSNs_V_StCentr_08.html)



J.M.
 
  O tempo perdido
Mas, quando desaparece uma crença, sobrevive-lhe, e cada vez masi vivaz, para disfarçar a falta de poder que perdemos de conferir realidade às coisas novas, um apego fetichista às coisas antigas que tal poder animara, como se fosse nelas e não em nós que o divino residia, e como se a nossa incredulidade actual tivesse uma causa contingente, a morte dos deuses.
Será este então o tempo perdido? O tempo das toilettes admiráveis, dos homens elegantes, dos passeios no Bois, das carruagens de cavalos? Será o tempo em que os deuses viviam, e que a sua morte nos fará perder? É disto que andamos em busca, da crença nas coisas que reside em nós?
nastenka-d
 
terça-feira, março 30, 2004
  O desejo
Mesmo de um ponto de vista realista, as terras que desejamos ocupam em cada momento muito mais lugar na nossa vida verdadeira que a terra em que efectivamente nos encontramos.
nastenka-d
 
  A imaginação e a memória
Estas imagens eram falsas por outra razão ainda; é que eram forçosamente muito simplificadas; sem dúvida, aquilo a que a minha imaginação aspirava e que os meus sentidos só incompletamente e sem prazer apreendiam no presente, tinha-o eu encerrado no refúgio dos nomes.
Assim se confirma que é também a imaginação que constrói a memória; que esta é feita de muitas camadas, não necessariamente sedimentares. Recordei-me, enquanto lia esta última parte, da discussão que tivémos há uns meses a propósito de “Os papéis de K.”
nastenka-d
 
  The Bois de Boulogne in Paris
The 865 hectares Bois de Boulogne lies on the western edge of Paris and was created under Napoléon III (second part of the 19th century). Its designer, the Baron Haussman, was an admirer of the large and central London parks (such as the beautiful Hyde Park and Regent Park). He decided to create two similar parks in Paris.



They are respectively the Bois de Boulogne on the west side of Paris and the Bois de Vincennes on the east. The Bois de Boulogne, the most fashionable of the two, is bordered by the very residential cities of Neuilly and Boulogne.

The Bois de Boulogne is a favourite destination of Parisian walkers, bicycle and horse riders. It also houses the two Parisian horse courses (Auteuil and Longchamp) and the pretty Bagatelle gardens. The Roland Garros tennis courts lie on the edge of the Bois de Boulogne. At night, the Bois de Boulogne welcomes a very different population and becomes the red district of Paris.

(http://www.parisdigest.com/takingarest/boisdeboulogne.htm)

J.M.
 
  Paralelismos da paixão
Estranho o paralelismo: Swann, homem feito, experiente, com um passado de muitos amores e conquistas, que se perde de amores por Odette; Marcel, jovem inexperiente, cujo primeiro amor se chama Gilberte.

Ambos obssessivos, correm, vigiam, apegam-se a todos os elementos do quotidiano das amadas para assim ocuparem o seu dia. Reinventam a amada de forma que lhes é mais favorável, caiem irremediavelmente nos seus encantos, apesar da indiferença com que são tratados.

Estão assim tão próximos o homem e o menino?


Leitora
 
segunda-feira, março 29, 2004
  O absurdo do amor (ou a sua ingratidão)
Depois do sonho, depois da frase com que Swann dá por terminada a sua ligação, aquela de que ouvira falar obscuramente ainda na primeira parte, e na qual vivemos duzentas páginas, enternecendo-me com as suas primeiras manifestações, sofrendo com as suas angústias, desejando o seu fim e, simultaneamente, temendo-o, pergunto-me: é só isto, o amor?
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  O desabafo
Swann despede-se de nós, até ao segundo volume, com um desabafo, com que me incutiu enganadoramente alguma esperança no seu bom senso:

«E pensar que estraguei anos da minha vida, que desejei morrer, que dediquei o meu maior amor a uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo!»


Apenas mais uma reviravolta na sua instável paixão, na sua fraca determinação. Em Maio retomaremos as eficazes actividades de enamoramento de Odette - ou antes o eficaz conjunto de circunstâncias que prenderam Swann à mulher que nem o atraia, que não era bonita, que não era brilhante...


Leitora
 
  O sonho de Swann
É o que lhe serve de despedida. Não foi por força das cartas anónimas, nem por um esforço da vontade ou da razão (que constantemente o coração enganava, afastando os pensamentos que a pudessem levar a um caminho irremediável). Swann afasta-se de Odette apenas quando o amor se desvaneceu dentro de si; quando se desdobra e se vê, chorando, e ao mesmo tempo que chora sente que é outro, e não ele, quem sofre.
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  A despedida
E, assim como antes de beijar Odette pela primeira vez procurara imprimir na sua memória o rosto que durante tanto tempo ela tivera para ele e que a recordação daquele beijo iria transformar, também gostaria, ao menos em pensamento, de ter podido fazer as suas despedidas, enquanto ela existia ainda, dessa Odette que lhe inspirava amor, ciúme, dessa Odette que lhe causava sofrimentos e que já não mais tornaria a ver.

nastenka-d
 
domingo, março 28, 2004
  Elogio à Música
A própria recordação do piano falseava outra vez o plano em que via as coisas da música, que o campo aberto ao músico não é um teclado mesquinho de sete notas, mas um teclado incomensurável, ainda quase desconhecido por inteiro, em que apenas aqui e além, separadas por expessas trevas inexploradas, algumas de entre os milhões de teclas de ternura, de paixão, de coragem, de serenidade, que o compõem, cada uma tão diferente das outras como um universo de outro universo, foram descobertas por alguns grandes artistas que nos prestam o favor de, despertando em nós a correspondência do tema que encontraram, nos mostrarem que riqueza, que variedade esconde, sem que o saibamos, essa grande noite impenetrada e desanimadora da nossa alma, que tomamos por vazio e nada.

Do lado de Swann, pp. 265

Leitora
 
 
Tendo outrora pensado com terror que um dia deixaria de estar apaixonado por Odette, decidira estar vigilante e, mal sentisse que o seu amor começava a abandoná-lo, agarrar-se a ele, não o deixar fugir. Mas eis que ao enfraquecimento do seu amor correspondia ao mesmo tempo um enfraquecimento do desejo de estar apaixonado. Porque ninguém pode mudar, isto é, tornar-se outra pessoa, e ao mesmo tempo continuar a obedecer aos sentimentos da pessoa que já não é.

nastenka-d
 
sábado, março 27, 2004
 
E debaixo de todas as recordações mais doces de Swann, debaixo das palavras mais simples que outrora Odette lhe dissera, e que tomara como palavras de evangelho, debaixo das acções quotidianas que ela lhe contara, a avenida do Bois, o Hipódromo, sentia (dissimulada com o auxílio desse excedente de tempo em que nos dias mais minuciosos sobra ainda espaço para a representação e pode servir de esconderijo para certas acções), sentia insinuar-se a presença possível e subterrânea de mentiras que lhe tornavam ignóbil tudo o que para ele permanecera de mais caro, as suas melhores noites, a própria Rua La Pérouse, donde Odette sempre tivera de sair a horas diferentes das que havia dito, presença que fazia circular por toda a parte um pouco do tenebroso horror que sentira ao ouvir a confissão relativa à Maison Dorée, e, como os animais, imundos da “Desolação de Nínive”, abalava pedra por pedra todo o seu passado.

nastenka-d
 
  O infeliz no reflexo
.

Swann distinguiu, imóvel diante daquela felicidade revivida, um infeliz que lhe fez pena porque não o reconheceu imediatamente, de tal modo que teve de baixar os olhos para que não vissem que estavam cheios de lágrimas. era ele próprio.

Do lado de Swann, pp. 362


Leitora
 
  Há sempre uma maneira de compor as coisas
Lentamente, vão caindo as mentiras em que se escondia Odette – e eu pergunto-me como poderia ter sido ingénua ao ponto de acreditar na cumplicidade das catleias! Apenas vejo como desculpa o desejo em acreditar que existia, ainda que superficialmente, ainda que no passado, um amor a partir do qual tudo começara (para que Swann pudesse lamentar, como já li algures, “de que céu tão lindo caímos!”)
Assim, mesmo nos meses em que ele nunca mais se atrevera a tornar a pensar, porque tinham sido tão felizes, nesses meses em que ela o amara, já ela lhe mentia.

Tê-lo-á ela alguma vez amado? A dúvida insinua-se em mim da mesma forma que a imagino em Swann. Se o amou, foi de acordo com a sua natureza – e não com a essência mais ou menos pura que Swann lhe atribuía. Mais uma vez se verifica que o amor pouco ou nada tem a ver com aquele que é dele objecto.
nastenka-d
 
sexta-feira, março 26, 2004
 
Porque terá Marcel decidido contar esta história, pergunto-me. De repente faz-me sentido que a angústia de Swann pela posse de Odette é afim daquela que Marcel experimentava nas longas noites de Combray sem a mãe.
nastenka-d
 
  O poder da frase de Vinteuil
Esses encantos de uma tristeza íntima era o que ela tentava imitar, recriar, e até à respectiva essência, que consiste, porém em serem incomunicáveis e parecerem frívolos a quem quer que não seja aquele que os experimenta, até ela fora captada, tornada visível, pela pequena frase.

nastenka-d
 
  Experimentar
Tento convocar as mais negras de entre as minhas memórias para tentar ver Swann com outros olhos que não os que se indignam ou lamentam a sua sorte ou, pior ainda, se mostram indiferentes ao seu sofrimento, fazendo o seu fim depender apenas de um esforço da vontade. Parece-me que a chave para compreender Swann e os seus encantos de uma tristeza íntima está em experimentar o amor por Odette como se fosse nosso – de outra forma, o seu mundo sempre nos será inacessível.
nastenka-d
 
  Infelizmente recordou-se
E antes de Swann ter tempo de compreender e pensar: “É a pequena frase da sonata de Vinteuil, é preciso não ouvir!”, todas as recordações do tempo em que Odette estava apaixonada por ele e que até aí ele conseguira guardar invisíveis nas profundidades de seu ser, enganadas por aquele brusco raio do tempo de amor que julgaram regressado, tinham despertado e, em voo rápido, de novo haviam subido a cantar-lhe perdidamente, sem piedade pelo seu presente infortúnio, os esquecidos estribilhos da felicidade.

nastenka-d
 
  Sabedoria dos que não estão apaixonados
.

«Aquele pobre Swann», disse nessa noite a senhora Des Lumes ao marido, «continua amável, mas tem um ar muito infeliz. Há-de vê-lo, porque ele prometeu vir cá jantar um destes dias. No fundo, acho ridículo que um homem com aquela inteligência sofra por uma pessoa daquele género e que nem sequer é interessante, porque dizem que é idiota», acrescentou com a sabedoria dos quen não estão apaixonados, que acham que um homem com espírito só deve ser infeliz por causa de uma pessoa que valha a pena; é mais ou menos como admirar-se de que alguém se digne sofrer de cólera por causa de um ser tão pequeno como um bacilo vírgula.


Do Lado de Swann, pp. 358-359

Leitora
 
  O seu amor já não era operável
tanto que não dá, não quer dar-se conta da mudança nas maneiras de Odette. Do mesmo modo havia nele um lugar donde nunca deixava aproximar-se o seu espírito, obrigando-o a fazer, se necessário fosse, o desvio de um longo raciocínio para que não tivesse que passar por lá: era aquele lugar onde vivia a recordação dos dias felizes.
Esta alienação voluntária de Swann em relação a si mesmo é o que mais me impressiona nesta sua espiral de declínio (o caminho da servidão humana, como diz J.M.). Prefere afastar-se de tudo o que o possa despertar, obrigar a confrontar-se com a realidade da sua ligação; prefere afastar-se até de tudo quanto o definia até então: a identidade e a memória.
nastenka-d
 
  Servidão Humana V
E assim nos foi oferecida uma das versões possíveis da vida e morte de uma paixão, com as suas diversas etapas:
. a intelectual admiração de um esteta;
. a progressiva obsessão;
. o ciúme doentio;
. o masoquismo e a auto-culpabilização;
. a indiferença e o sentimento do ridículo.

J.M.
 
quinta-feira, março 25, 2004
  Chopin
Aprendera na juventude a acariciar as frases, de longo pescoço sinuoso e desmesurado, de Chopin, tão livres, tão flexíveis, tão tacteis, que começam por procurar e experimentar o seu lugar fora e bem longe da direcção em que partiram, bem longe do ponto onde se poderia esperar que o seu contacto atingiria, e que não se lançam nesse desvio de fantasia senão para voltarem - num regresso mais premeditado, com maior precisão, como que sobre um cristal que ressoasse até que nos fazer gritar - para mais deliberadamente nos atingirem o coração.

Do lado de Swann, pp. 247

Leitora
 
  Chopin estava já fora de moda
...

Mas hoje a beleza fora de moda daquela música parecia ter perdido o viço. Privada desde há alguns anos da estima dos conhecedores, perdera a sua honra e o seu encanto, e até aqueles que têm mau gosto já não encontram nela mais que um prazer inconfessado e medíocre.


Ainda bem que o longo tempo, para lá das modas, retratou a música de Chopin.


Leitora
 
  O amor de Swann é um sentimento que me e tão alheio
Eu não sei se Swann ama Odette ou se se deleita na sua propria degradação.
O século XIX parece ter sentido um estranho fascinio por este tipo de amor doentio, em que à infelicidade se junta uma especie de orgulho masoquista na sua propria queda.
Joana
 
  É sempre possível bater mais fundo III
Um homem que pressente estar a ser usado mas que faz questão de utilizar esse facto como uma arma: “todos os dias a engendrar uma nova intriga que tornasse a sua presença, se não agradável, pelo menos necessária a Odette.”
(Do lado de Swann, pp. 370)

J.M.
 
  O objecto do amor
A custo identificava a figura de carne ou de cartolina com a perturbação dolorosa e constante que nele habitava

nastenka-d
 
  Espiral de declínio
Verificava então que aquele interesse, aquela tristeza, só em si existiam como uma doença e que, quando estivesse curada, os actos de Odette, os beijos que ela teria dado, voltariam a ser inofensivos como os de tantas outras mulheres.
Chama-lhe doença – talvez porque seja mais fácil entendê-lo como um vírus que o infecta a partir de um ponto indefinido. Não quer ver que é nele mesmo que reside a fonte da sua angústia – que ela é criada dentro dele, que se espalha pela sua mente, inquinando-lhe a vida; que é ele quem a cultiva, como quem cultiva prazeres; que de outra forma o seu amor estaria condenado, porque não se apoia em nada, em qualquer razão, talvez já nem na própria Odette – como se a única forma de fazer perdurar aquele amor fosse sofrer.
nastenka-d
 
  A queda do anjo
O processo de enamoramento de Swann parte da ausência – é a partir do momento em que a presença de Odette lhe é negada que ele sucumbe ao desejo de a ter. Não posso senão especular se Swann, o diletante, se apaixona pela mulher, pelo amor que ela lhe inspira, ou pelo desejo de a possuir.
A ausência acaba assim por marcar toda a ligação de Swann: após o breve período de felicidade – ou de pacificação da angústia – logo começam as penas, os sofrimentos. Mas estes, de onde vêm, onde começam? Na língua vituperina da senhora Verdurin? No tédio de Odette? Ou nas fantasias com que Swann lhe preenche as horas que não conhece?
A dor vem do mesmo ponto onde o amor havia nascido.
nastenka-d
 
  Servidão Humana IV
Com a vida penhorada àquela obsessão, Swann não saía, não convivia, não pensava senão nela, não vivia senão para ela, em constante agitação.

Só a visão de Odette, só o pensamento em Odette, conseguiam conferir sentido à sua vida; acabou por se descentrar de si próprio, não por abnegação ou altruísmo, mas por irracional compulsão (do meu ponto de vista, uma das diferenças entre o amor da paixão).

Depois, só faltava entrar em campo o ciúme doentio: “Se a ouvia citar um nome, era certamente o de um dos seus amantes..”.

Tudo isto é profundamente humano; ninguém está livre de tal servidão.

J.M.
 
quarta-feira, março 24, 2004
  Móveis Estilo Império
Ainda andei, sem sucesso, à procura de cómodas estilo Império mas não faz mal, devem mesmo ser horríveis…

“Percebo muito bem que não se possa ter coisas bonitas, mas ao menos que não se tenham coisas ridículas. Que quer? Não conheço nada mais pretensioso, mais burguês que esse estilo horrível, com aquelas cómodas com cabeças de cisne que parecem banheiras.”
(Do lado de Swann, pp. 354)

"Estilo Francês do início do século XIX, que durou até cerca de 1830. Ainda dentro do período Neo-clássico, recebeu influências diversas do estilo anterior, Luís XVI. Por influência do Império de Napoleão que se implantara na França por ocasião da Revolução Francesa de 1789, os móveis e interiores sofreram uma tendência de linhas mais sólidas e pesadas, diferentes das que ocorriam nos móveis dos períodos monárquicos anteriores (Luís XV e XVI)."
(http://www.casaecia.arq.br/imperio.htm)

J.M.
 
  Se não tivesse havido catleias
também eu facilmente me convenceria que Odette não terá feito mais do que mentir, fingir, desde o primeiro momento em que se decidiu a seduzir Swann. Talvez seja verdade; talvez, instigada pelos próprios Verdurin, com o seu comentário “agora que não tem ninguém”, tenha visto em Swann, se não um pateta pronto a pagá-la, pelo menos um passatempo para a sua relativa solidão. Ainda assim, e como já comentei, o que me parece mais trágico em todo o romance (do ponto de vista de Swann, claro) é exactamente a perda do amor de Odette. Houve um tempo em que eu era amado, pensa Swann, mesmo fugindo a tudo o que essa afirmação implica: a sua queda em desgraça, desde o momento em que, ainda que de forma interessada, Odette parecia amá-lo. Se não tivesse havido catleias, eu facilmente acreditaria que todo o amor não passou de uma mentira, de uma construção da fantasia de Swann; assim, as catleias (como o crisântemo fechado numa gaveta da secretária; sobretudo como a pequena frase da sonata de Vinteuil) são as provas inconfundíveis do amor, da cumplicidade que pertencem irremediavelmente ao passado.
nastenka-d
 
  Qual é a fronteira entre o amor e a paixão?
Uma das características daqueles livros a que chamamos clássicos é a sua profunda actualidade. De facto, muito pouco deve ter mudado entre a forma como se amava naquela época e a forma como Hoje se ama.

Tenho, no entanto, a minha visão pessoal do amor, cujos traços não consegui vislumbrar em Swann: vi um homem obcecado, capaz de se despojar da sua dignidade, com a visão turva e o espírito tomado pelo imenso logro que ele próprio construiu. A isso, eu chamo paixão.

Porque, para mim, o amor não pode deixar de representar cumplicidade, confiança, amizade, partilha, apaziguamento, verdade, substância, consistência, luminosidade.

J.M.
 
  Classificação e história das orquídeas
As orquídeas são classificadas na divisão Spermatophyta, subdivisão Angiospermae, classe Monocotyledonae, ordem Microspermae (Gynandrae) e família Orchidaceae. A família é uma das maiores plantas floríferas, englobando quase um sétimo das existentes no planeta. É composta por cerca de mil gêneros e vinte mil espécies. O maior número de espécies ocorre nas regiões subtropicais, predominando as formas epífitas e rupícolas, enquanto as formas terrestres são mais comuns fora dos trópicos. Há diversidade no tamanho, desde aquelas com as dimensões de uma cabeça de alfinete (microorquídeas) até plantas com caules de 5 ou 6m de comprimento. São erroneamente chamadas de parasitas. Foram os orientais os primeiros a fazer referência às orquídeas. Confúncio, em 551 a.C. exaltava-as pela fragrância, chamado-as de "Ran da fragrância do Rei"("ran" ou "lan" em chinês significa orquídea). Duas espécies, Cymbidium ensofolium e Dendrobium moniliforme, foram mencionadas por Kin Han (ministro do estado chinês) em 300a.C. O primeiro livro sobre cultivo de orquídeas foi provalvelmente escrito em chinês no ano 1000 d.C. No Ocidente as plantas foram mencionados pela primeira vez por Teofrasto (aluno e amigo de Aristóteles) em 370 a.C. em "A história das plantas e a causa das plantas", dando-lhes o nome de Orchys (que em grego quer dizer testículos) por causa dos bulbos subterrâneos de certas espécies que cresciam às margens do Mediterrâneo. Duas espécies foram descritas por Dioscórides no ano 100 a.C. como tendo usos medicinais no aumento da fertilidade e virilidade. Tal crença espalhou-se por toda a Europa até o século XVII, quando H. A. Reede descreveu as primeiras orquídeas tropicais da Ásia. A Inglaterra recebeu grande número de espécies de orquídeas no século XIX, levadas por botânicos, exploradores e marinheiros. Criava-se grande interesse pela procura de espécies raras e exóticas, dando origem aos grandes viveiros. Um dos mais antigos e famosos foi James Ueicht & Sons, considerado como o melhor da Inglaterra. Esta empresa enviava coletores aos locais mais distantes do Brasil e do Japão. Em 1853, um dos jardineiros da Ueicht descobriu que era possível a hibridação de orquídeas, justamente no período de maior interesse por elas. Atualmente cultivam-se orquídeas no mundo inteiro.

(fonte: http://geocities.yahoo.com.br/piracemaecologia/GALERIAOrquidea1.html)

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  Fazer catleia
É uma pena, esta noite as catleias não precisam de ser arrumadas, não sairam do lugar como na outra noite; no entanto, acho que esta não está muito direita. Posso ver se também não têm cheiro como as outras?

nastenka-d
 
  Servidão Humana III
Swann anulou-se: sentia prazer em se privar dos seus antigos gostos, perdeu capacidade crítica, passou a apreciar o convívio com gente mesquinha, medíocre, maledicente; acabou por violentar os seus princípios, abandonar antigas relações, cessar de encontrar semelhanças com os seus semelhantes.

J.M.
 
  Críticos de Arte
.

- Na verdade, de que é que não gosta nelas? Não será um preconceito? Talvez ache que é um pouco triste, não? De resto, como eu costumo dizer, nunca se deve discutir acerca de romances nem de peças de teatro. Cada um tem a sua maneira de ver, e o senhor pode achar detestável aquilo que eu mais gosto.

Do lado de Swann, pp. 272


Eu pasmo. Mas insisto. Nunca abdicarei de nenhum dos meus direitos.


Leitora
 
terça-feira, março 23, 2004
  Odette de Crecy
«Tem medo de uma afeição? Que engraçado, e eu que não procuro outra coisa, que daria a minha vida para encontrar uma», dissera ela com uma voz tão natural, tão convicta, que o comovera. «Deve ter sofrido por causa de uma mulher. E julga que as outras são todas como ela. Ela não o soube compreender; você é um ser à parte. Foi disso que eu comecei por gostar de si, bem senti que não era como toda a gente.»


Do lado de Swann, pp. 212

Leitora - que nunca acreditou que o parvo do Swann caisse na teia...
 
  Já que não vos posso dar música…
Como não tenho “São Francisco de Assis Pregando às Aves”, de Liszt, deixo-vos um igualmente encantador “São Francisco de Assis Pregando às Aves”, de Giotto.



J.M.
 
  Eremitani Church
Started in 1276 by the Eremitani friars, the church was completed in 1306 with the construction of the wood beam ceiling by Fra'Giovanni. The church contains frescoes by Giusto de'Menabuoi and Guariento and by Mantegna (the Ovetari Chapel).
(http://freia.dei.unipd.it/civici/monument/eremi$.html)



The church was almost completely wrecked by an Allied bombing raid in 1944 and has been fastidiously rebuilt.

Photographs to the left of the apse show the extent of the damage, the worst aspect of which was the near-total destruction of Mantegna 's frescoes of the lives of St James and St Christopher - the war's severest blow to Italy's artistic heritage.

Produced between 1454 and 1457, when Mantegna was in his mid-twenties, the frescoes were unprecedented in the thoroughness with which they exploited fixed-point perspective - a concept central to Renaissance humanism, with its emphasis on the primacy of individual perception. The extent of his achievement can now be assessed only from the fuzzy photographs and the sad fragments preserved in the chapel to the right of the high altar. On the left wall is the Martyrdom of St James , put together from fragments found in the rubble; and on the right is the Martyrdom of St Christopher, which had been removed from the wall before the war.
(http://www.cityreference.com/italy/padua/eremitani/)

Mantegna was also important as a graphic artist, his many engravings exerting a powerful influence on Durer.
(http://www.artchive.com/artchive/M/mantegna.html#images)

J.M.
 
  Andrea Mantegna, “Martírio de Santiago” (1448-50)


J.M.
 
  Servidão Humana II
Prisioneiro, “não queria sentir nem amar a não ser com ela” e “tinha o hábito de dirigir para ela todos os seus pensamentos”.

“Subia para a carruagem, mas sentia que aquele pensamento (Odette) saltara lá para dentro ao mesmo tempo e se instalava nos seus joelhos como um animal amado que se leva para toda a parte e que conservaria consigo à mesa, sem que os convivas vissem…”

J.M.
 
segunda-feira, março 22, 2004
  Idade de poucas ilusões
...
Na idade de poucas ilusões de que Swann se aproximava, e na qual as pessoas sabem limitar-se a estar apaixonadas pelo prazer de o estar, sem exigir muita reciprocidade
...

(Do lado de Swann, pp. 210)


Será que queremos crescer?


Leitora
 
  Relações normais
“Quando Odette deixasse de ser para ele uma criatura sempre ausente, desejada, imaginária, quando o sentimento que tivesse por ela já não fosse aquela mesma perturbação misteriosa que lhe causava a frase da sonata, mas afecto, reconhecimento, quando se estabelecessem entre eles relações normais que pusessem fim à sua loucura e à sua tristeza, então, sem dúvida, os actos da vida de Odette haveriam de lhe parecer pouco interessantes em si mesmos…”.
(Do lado de Swann, pp. 315)

Engraçado, eu acho que é precisamente aqui que se entra no amor…
O que se pretende significar por “relações normais”?
Aquelas que passam a ser um grande aborrecimento?
Ou aquelas que deixam de ser "anormais" (como, de certa forma, a obsessão)?

J.M.
 
  Proust, Tempo, Arquitectura
De tanto ter sido já repetido, nem vale a pena insistir no facto de o verdadeiro (e único) protagonista de “À Procura do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, ser o Tempo e a sua recuperação pela Arte, mais ainda do que pela Memória; ou então, sim, pela Memória, mas uma vez que ela própria seja transfigurada pela Arte.
Por outro lado, é sabido também que, embora desde sempre (e com indiscutível razão) se tenha utilizado, para a descrição ou definição da obra a metáfora da “Sinfonia”, ele próprio, Proust, ao referir-se-lhe, utilizou a metáfora da “Catedral”, e justificou até essa utilização. E a verdade, afinal, é que ambas as metáforas são legítimas.

A “Recherche” emprega uma tão vasta concertação de instrumentos, desenvolve-se em “tempos” tão diferenciados e afinal unificados e constitui um tal manancial de recursos tipicamente musicais (como suspensões, recorrência de temas, gradações de tonalidades) que, mesmo sem falar da sua dimensão majestosa e, mais ainda, na insistência com que a arte da Música nela é citada e meditada, com facilidade, e até irresistivelmente, nos ocorre a imagem da Sinfonia.

Mas, por outro lado, não menos que as citações musicais e pictóricas, ou quase tanto como as literárias, são constantes as referências à Arquitectura, e particularmente à arquitectura religiosa, às igrejas e catedrais. Desde a igreja de Combray da infância do Narrador à catedral “persa” de Balbec, passando por inúmeras pequenas e grandes igrejas e outros edifícios (...) todos sempre descritos e interpretados segundo os “critérios próprios da Arquitectura”, a obra arquitectónica funciona na economia da “Recherche” como pólo aglutinador de memórias, de desejos, de sonhos. (...) Mas Proust, além disso, em múltiplas ocasiões, refere a vivência, no interior e no exterior, de espaço arquitectónico propriamente dito (e não apenas, embora também, da sua crosta decorativa) como algo de pelo menos tão essencial à vida espiritual do Narrador e de outros personagens (nomeadamente o diletante Swann, o pintor Elstir e a intuitiva Albertine) como as outras artes já citadas.
Ora, pensando bem, subindo agora um degrau e passando do particular para o geral, é fácil impor a metáfora da catedral na compreensão global da “Recherche”, que facilmente se apercebe como constituída por sucessivas “pedras” que funcionam com missões específicas mais ou menos essenciais – chão, paredes, tectos, vigas de sustentação... – e vão definindo “espaços” dramáticos que o leitor terá de percorrer com o mesmo vagar, a mesma disponibilidade, o mesmo tipo de contemplação, a mesma surpresa, com que deambula por um edifício, e que se articulam com uma complexidade que é tão arquitectónica como literária.

Mas o tempo e a memória, elementos cruciais que são para o entendimento da obra de Proust, interferem aqui com a paixão proustiana pela Arquitectura ao abordar repetidamente (...) a intervenção na recuperação do património construído no passado. Em simples alusões ou de forma explícita, muitas vezes comironia, outras com irritação evidente, sempre com acrimónia, Proust toma posição claríssima na querela (...) em torno da filosofia do restauro de Eugéne Viollet-le-Duc e dos seus discípulos, acentuando com frequência o carácter grotesco dos resultados da aplicação dessa doutrina. (...)
Porque, para Marcel Proust, a recuperação do tempo passado, a única possível para que não seja tempo perdido, obtém-se exclusivamente pela recriação transfiguradora que o converte em presente.

Pedro Tamen, in J-A #213

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  Sandro Botticelli, "Vénus"


J.M.
 
  Servidão Humana I
Swann sabia que Odette não justificava aquele amor: não o atraía fisicamente; não era inteligente; tinha mau gosto; era rasteira, vulgar, interesseira, promíscua, mentirosa, dissimulada.

Foi o som da frase e a recriação de uma obra de arte que, à semelhança de todas as projecções que fazemos sobre alguém, acabaram por ser um logro.

E, no entanto, ele encantava-se com todos os seus traços medíocres, só porque eram os dela, e tinha prazer em “imitar os seus hábitos e em adoptar as suas opiniões”…

Esta escravidão do indivíduo à violência dos seus afectos fez-me recordar o extraordinário “Servidão Humana”, de Somerset Maugham.

J.M.
 
domingo, março 21, 2004
  Acreditar
.

Os factos não penetram no mundo onde vivem as nossas crenças, não as fizeram nascer e não as destroem; podem infligir-lhes os mais constantes desmentidos sem as enfraquecer.


Do lado de Swann, pp. 158


Leitora
 
  Apaixonar-se
De entre todos os modos de produção do amor, de entre todos os agentes de disseminação do mal salgado, efectivamente este grande sopro de agitação que por vezes passa sobre nós é um dos mais eficazes. Então está a sorte lançada, o ser com quem nos recreamos em determinado momento é o que iremos amar. E nem sequer é preciso que nos tenha agradado até então mais ou tanto como outros. O que é necessário é que o nosso gosto por ele se torne exclusivo. E essa condição é realizada quando - nesse momento em que ele nos fez falta - a busca dos prazeres que o seu encanto nos dava foi bruscamente substituída em nós por uma necessidade ansiosa, que tem por objecto aquele mesmo ser, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam impossível de satisfazer e difícil de curar - a necessidade insensata e dolorosa de o possuir.

Do lado de Swann, pp. 245


Leitora
 
sábado, março 20, 2004
  Silêncio de Legrandin
Jantei com Legrandin no terraço; havia luar: «Há uma bonita qualidade de silêncio, não é verdade?», disse-me ele, «aos corações feridos como o meu, um romancista que há-de ler mais tarde pretende que apenas a sombra e o silêncio convêm. E, está a ver, meu rapaz, chega na vida uma hora, de que está ainda muito longe, em que os olhos cansados já apenas toleram uma luz, a que uma bela noite como esta prepara e destila com a escuridão, em que os ouvidos só podem escutar a música que o luar toca na flauta do silêncio.

Do lado de Swann, pp. 136


Leitora
 
sexta-feira, março 19, 2004
  Balbec
Nessa baía, que parece de opala, as praias de oiro parecem mais serenas ainda por estarem amarradas como loiras Andrómedas àqueles terríveis rochedos das costas próximas, àquela costa fúnebre, famosa por tantos naufrágios, onde todos os Invernos muitos barcos sossobram nos perigos do mar. Balbec! A mais antiga ossatura geológica do nosso solo, verdadeiramente Ar-mor, o Mar, o fim da terra, a região maldita que Anatole France...tão bem, pintou sob as suas eternas neblinas, como o verdadeiro país dos Cimérios, na Odisseia.


Marcel PROUST (1871 - 1922) et CABOURG - BALBEC

Marcel Proust, reconnu comme le plus grand romancier français du XXème siècle, certainement le plus illustre des " estivants " Cabourgeais.
..
De nombreux travaux et écrits, réalisés et rédigés par des personnalités illustres et compétentes, ont été consacrés aux rapports entre Proust et Cabourg, ou plutôt Balbec, nom imaginaire d'une ville dans laquelle on reconnaît pour l'essentiel Cabourg. Citons Jacques de Lacretelle : " Proust a servi Cabourg, mais Cabourg a mieux encore servi Proust. Que l'on s'amuse à feuilleter à travers les quelque mille pages d'A la Recherche du temps perdu, l'index des noms de lieux, et l'on verra que Cabourg-Balbec occupe dans l'esprit du romancier une place presque aussi grande que Paris. Pourquoi ? C'est sans doute que certains paysages, par un pouvoir miraculeux, font éclore en nous des états d'âme et des sentiments qui n'avaient su se faire jour jusque-là. Cabourg, le Cabourg de 1900, plus solitaire et plus secret qu'aujourd'hui, encore un peu sauvage et cependant plein de promesses, a marqué Proust, l'explosion de sa vie sentimentale et de ses dons d'artiste.. "
...
Si manifestement Cabourg a influencé Marcel Proust, on peut aussi constater que Proust y a laissé de nombreuses empreintes : Prix Marcel Proust, Promenade Marcel Proust, Place Marcel Proust, Collège Marcel Proust, Salles Marcel Proust... De même, des villas portent des noms se rapportant à son œuvre : Swann, Balbec…

http://www.cabourg.net/histoire/proust.html




Le Grand Hôtel actuel a été construit dans un style hybride, mélange de rococo 1900 et de renaissance italienne. Une salle de restaurant s'ouvre sur la digue par de vastes baies vitrées dont Marcel PROUST écrivait, dans "A l'ombre des jeunes filles en fleurs", que le soir "celle-ci devenait comme un immense et merveilleux aquarium devant la paroi de verre duquel la population ouvrière de Balbec, les pêcheurs et aussi les familles de petits bourgeois, invisibles dans l'ombre, s'écrasaient au vitrage, pour apercevoir lentement balancée dans le remous d'or, la vie luxueuse de ces gens, aussi extraordinaire pour les pauvres que celle des poissons et des mollusques étrangers…."

http://www.cabourg-web.com/francais/cabourg-historique/le_patrimoine_architectural.htm



L' actuel Grand Hotel



La salle à manger du Grand Hotel


L´Esplanade de la Digue



Troti

 
 
Talvez não haja pessoa alguma, por maior que seja a sua virtude, a quem a complexidade das circunstâncias não possa levar a viver um dia na familiaridade do vício que mais formalmente condena – sem que aliás o reconheça por inteiro sob o disfarce da factos especiais de que o vício se reveste para entrar em contacto com ela e a fazer sofrer.

pp158


Troti
 
 
O amor físico, tão injustamente desacreditado, força de tal modo todo e qualquer ser a manifestar até às mínimas parcelas que possui bondade e desprendimento de si mesmo, que estas qualidades resplendem mesmo aos olhos dos que o rodeiam de perto.

pp157


Troti
 
  Dois passeios
É que havia em torno de “Combray dois “lados” para os passeios, e tão opostos que, com efeito, não saíamos de casa pela mesma porta quando queríamos ir para um lado ou para o outro: o lado de Méséglise-la-Vineuse, a que se chamava também o lado de Swann porque se passava diante da propriedade do senhor Swann para ir para lá, e o lado de Guermantes...Como o meu pai falava sempre do lado de Méséglise como da mais bela vista da planície que conhecia e do lado de Guermantes como do tipo de paisagem de rio, eu atribuía-lhes, ao concebê-las assim como duas entidades, aquela coesão, aquela unidade, que pertencem apenas às criações do nosso espírito; a mínima parcela de cada um deles parecia preciosa e manifestar a sua excelência específica, enquanto, ao lado deles, antes de chegarmos a pisar o solo sagradop de um ou do outro, os caminhos puramente materiais no meio dos quais estavam situados como o ideal da vista de planície e o ideal da paisagem de rio, valiam tanto a pena de ser contemplados como pelo espectador apaixonado de arte dramática as ruelas próximas de um teatro. Mas, sobretudo, eu punha entre eles, mais que as distâncias quilométricas, a distância que existia entre as duas partes do meu cérebro em que eu pensava neles, uma dessas distâncias no espírito que não fazem mais que afastar, que separam e colocam noutro plano. E esta demarcação tornava-se mais absoluta ainda porque este hábito que tínhamos de nunca ir para os dois lados no mesmo dia, num só passeio, mas uma vez para o lado de Méséglise e outra para o lado de Guermantes, fechava-os por assim dizer longe um do outro, incognoscíveis um pelo outro, nos vasos fechados e sem comunicação entre si de tardes diferentes.


Dois lados, dois caminhos, duas opções, duas sensações


Troti
 
  Sandro Botticelli, "Primavera"

J.M.
 
  É sempre possível bater mais fundo II
“E tudo o que o envergonharia até então, espreitar por uma janela, quem sabe, talvez amanhã, pôr habilidosamente os indiferentes a falar, subornar criados, escutar às portas, não lhe parecia já ... serem mais que métodos de investigação científica de verdadeiro valor intelectual, e apropriados à procura da verdade.”
(Do lado de Swann, pp. 289)

J.M.
 
  As angústias de Guermantes
E assim, foi do lado de Guermantes que aprendi a distinguir aqueles estados que se sucedem em mim, durante certos períodos, e que chegam ao ponto de partilhar entre si cada dia, vindo um expulsar o outro o outro com a pontualidade da febre; contíguos, mas tão exteriores entre si, que já não sou capaz de compreender, nem sequer de imaginar um, o que desejei, ou temi, ou realizei no outro.

nastenka-d
 
  Amanhã, se fizer o mesmo tempo, vamos para o lado de Guermantes.
No lado de Guermantes parecem cultivar-se os prazeres mais delicados. No entanto, e tal como a mulher desconhecida que vem para ali “enterrar-se, renunciando ao mundo por ter perdido um amor, também o desgosto de Marcel de que temos notícia nasce da incapacidade em expressar essas impressões delicadas, as quais acaba por abandonar como a objectos acumulados. Guermantes é assim, em simultâneo, o prazer e a angústia; mas é também uma promessa.
E imediatamente a amei, porque se às vezes pode bastar, para amarmos uma mulher, que ela nos olhe com desprezo, como eu julgava que fizera a menina Swann, e que pensemos que ela nunca nos poderá pertencer, às vezes também pode bastar que ela olhe para nós com bondade, como fazia a Senhora de Guermantes, e que pensemos que ela poderá pertencer-nos.

nastenka-d
 
  Os prazeres sensíveis de Méséglise
Acrescentam-lhes além disso um encanto, um significado que é só para mim. Quando nas tardes de Verão o céu harmonioso rosna como um animal selvagem, e todos se aborrecem com a tempestade, é ao lado de Méséglise que devo o facto de ficar, eu só, em êxtase, a respirar, no meio da chuva que cai, o odor de invisíveis e persistentes lilases.

nastenka-d
 
  Du côté de chez Swann
É, aparentemente, o lado mais simples. Também por isso, não parece muito sedutor ou aventuroso. No entanto, é para este lado que se dirigem nos dias de tempo incerto. É nele também que se encontra a menina Swann, que desperta em Marcel uma devastadora paixão por espinheiros cor-de-rosa, temperada pela infâmia representada obscuramente por Charlus; é nele que Marcel, obtendo por fim licença para passear sozinho, se dá conta da estreita ligação entre dor e prazer, através da licenciosidade personificada pela menina Vinteuil; é nele que Marcel sonha enlaçar uma camponesa coberta de folhas, através da qual imagina ser possível tomar posse da beleza profunda da paisagem.
E, se há ainda dúvidas acerca dos desejos que habitam o lado de Swann, esta passagem será suficiente para afastá-los:
Infelizmente, era em vão que me dirigia suplicante ao forte de Roussainville, que lhe pedia que mandasse para junto de mim alguma filha da sua aldeia, a ele, o único confidente dos meus primeros desejos, quando, no alto da nossa casa de Combray, no pequeno gabinete a cheirar a lírios, apenas via a torre no meio da vidraça da janela entreaberta enquanto, com as hesitações heróicas do viajante que inicia uma exploração ou do desesperado que se suicida, desfalecente, abria dentro de mim mesmo um caminho desconhecido e que julgava mortal, até ao momento em que um rasto natural como de um caracol se juntava à folhas da groselheira-brava que se inclinavam para mim.

nastenka-d
 
  Combray=Méséglise+Guermantes
É que havia em torno de Combray dois “lados” para os passeios, e tão opostos que, com efeito, não saíamos de casa pela mesma porta quando queríamos ir para um lado ou para o outro. Finalmente, a razão da existência de dois volumes com títulos tão idênticos, razão que sempre me havia deixado curiosa. (Curiosidade que agora apenas se deslocaliza – será o lado de Guermantes complementar à infância que o lado de Swann simboliza?)
Mais do que a distância entre os dois “lados”, Marcel fala da distância que existia entre as duas partes do meu cérebro em que eu pensava neles, uma dessas distâncias no espírito que não fazem mais que afastar, que separam e colocam noutro plano. Os dois lados são físicos mas sobretudo simbólicos – e o mundo em Combray parece tão mais simples, equacionável, apreensível mesmo para a Tia Léonie, que o vive sem nele participar; o caminho a percorrer fica assim tão objectivamente traçado em função do objectivo escolhido: Méséglise ou Guermantes.
nastenka-d
 
  É sempre possível bater mais fundo I
“Por agora, cumulando-a de presentes, prestando-lhe serviços, podia descansar, sobre vantagens exteriores à sua pessoa, à sua inteligência, da tarefa esgotante de lhe agradar por si mesmo.”
(Do lado de Swann, pp. 282)

J.M.
 
  The Sistine Chapel Frescoes: “The Trials of Moses”, Sandro Botticelli
This fresco is just as ponderous and complex.

The burning bush, representing Moses' encounter with God, is there, along with Jethro's daughters, the preparations for the ascent of Mount Sinai with Moses baring his feet, Moses striking an Egyptian, as he does not yet know that he is not Egyptian.

All these episodes of Moses' history converge on Jethro's well, the central confluence, with the two figures of Jethro's daughters, all in white; once again, we find this lily-white translucency, in which Botticelli's continuing orientation toward an infinitely elegant and delicate art can be seen.

(http://www.bergerfoundation.ch/Sandro/33sixtine_english.html)



J.M.
 
  A memória imaginada de Viollet-le-Duc
Viollet-le-Duc: arquitecto do século XIX, defende, no debate sobre os modos de intervenção na cidade antiga, o restauro de edifício e monumentos, apontando um processo de intervenção em que seria a lógica do edifício a orientar o seu restauro. Segundo Viollet-le-Duc, o arquitecto deveria pôr-se no papel do velho arquitecto, imaginando o que ele faria se, voltando a esta terra mortal, fosse posto perante o seu edifício face ao novo problema do aumento ou restauro. (Camilo Boito, I Restauri in Architettura – 1893)

Agora imagine-se que não é de arquitectura que se fala... mas da construção da memória. O que é real? O que é retocado, se não totalmente reconstruído?
nastenka-d
 
  Sandro Botticelli, "The Trials of Moses," Sistine Chapel, Rome (1481-82): The Daughters of Jethro (detail)

J.M.
 
  Sensação e Leitura VIII
Os meus passeios daquele Outono foram ainda mais agradáveis porque os dava depois de longas horas passadas com um livro.


Troti
 
  Bel aubépin
Bel aubépin fleurissant,

Verdissant

Le long de ce beau rivage,

Tu es vestu jusqu’au bas

Des longs bras

D’une lambruche sauvage. ….

Or vy, gentil aubépin,

Vy sans fin,

Vy sans que jamais tonnerre,

Ou la cognée, ou les vents,

Ou les temps

Te puissent ruer par terre.




(Pierre Ronsard : Ode XXII)

http://patrick.moostik.net/?7


Troti
 
  L´aubépine en fleur



Troti
 
  L´aubépine
Le nom de l’arbre est d’origine grecque, cratos, force et aïgon chèvre ; les chèvres en broutant les jeunes feuilles prennent des forces. L’aubépine est aussi nommée épine blanche, noble épine, semellier, bois de mai ou poire d’oiseau.

C’est l’arbre du mois de mai. Il tire son nom de la nymphe Maïa, une étoile des pléiades, qui veut dire grand-mère. Maïa est l’une des sept filles d’Atlas déesse de la terre et de la fécondité. L’aubépine est associée à la lune, gardienne des cycles de l’existence (comme le saule). L’aubépine symbolise la jeune fille en fleur, jeune fille aux sentiments purs, chaste avant le mariage, mais amoureuse

http://patrick.moostik.net/?7





Troti
 
quinta-feira, março 18, 2004
  Les aubépines II
...o meu avô, chamando-me e apontando a sebe de Tansonville, disse-me: “Tu que gostas de espinheiros, olha para este espinheiro rosado; é lindo!” Era com efeito um espinheiro, mas cor-de-rosa, mais belo ainda que os brancos...
A sebe deixava ver no interior do parque uma alameda orlada de jasmins,
amores-perfeitos e verbenas...De repente parei...uma rapariguinha de um
loiro-arruivado, que parecia regressar de um passeio e trazia na mão um sacho, olhava para nós erguendo o rosto de pintas rosadas.Os seus olhos negros brilhavam...Gilberte...E já o encantamento com que o seu nome incensara aquele lugar sob os espinheiros rosados...ia conquistar, ungir, perfumar tudo o que dele se aproximasse...
...
aquela sebe faz parte do parque de “Swann”
...
Nesse ano, quando, um pouco mais cedo que habitualmente, os meus pais fixaram o dia de regresso a Paris, na manhã da partida...a minha mãe, depois de me ter procurado por toda a parte, foi dar comigo desfeito em lágrimas no pequeno cômoro contíguo a Tansonville, dizendo adeus aos espinheiros...


Troti
 
  Les aubépines I
C´est au mois de Marie que je me souviens d´avoir commencé à aimer les aubépines.

Foi no mês de Maria que me recordo de ter começado a gostar dos espinheiros.
...
Fiu encontrar esse caminho a zumbir do aroma dos espinheiros. A sebe formava como que uma sequência de capelas que desapareciam sob o amontoado de flores acumuladas em altar; sob elas, o sol poisava em terra uma quadrícula de claridade, como se acabasse de atravessar um vitral; o seu perfume estendia-se tão untuoso, tão delimitado na sua forma como se eu tivesse estado diante do altar da virgem, e as flores, também ataviadas, erguiam uma a uma diatraídamente o seu faiscante ramalhete de estames, finas e irradiantes nervuras de estilo flamejante...
...
Mas, por mais que eu ficasse diante dos espinheiros a respirar, a pôr no meu pensamento, que não sabia que havia de fazer dele, a perder e a reencontrar, o seu invisível e fixo aroma, a unir-me ao ritmo que fazia brotar as suas flores, aqui e além, com um juvenil regozijo e a intervalos inesperados como certos intervalos musicais, eles ofereciam-me indefinidamente o mesmo encanto, com uma profusão inesgotável, mas sem mo deixar aprofundar mais, como aquelas melodias que se tocam cem vezes seguidas sem com isso mergulharmos mais no seu segredo. Desviava-me deles por um momento, para os abordar depois com forças mais frescas.
...
Regressava depois para diante dos espinheiros como daquelas obras-primas que acreditamos que viremos a saber ver melhor depois de por um momento termos deixado de as contemplar, mas, por mais que fizesse uma cortina com as mãos para os ter apenas a eles diante dos olhos, o sentimento que em mim despertavam permanecia obscuro e vago, em vão procurando soltar-se, vir aderir às suas flores...
.



Troti
 
  Proust e Borges
Tinha uma certa curiosidade em saber o que é que Jorge Luis Borges, outro escritor que escreveu obcessivamente sobre a memória, pensava a respeito de Proust. Fiquei algo surpreendida quando descobri que Borges não gostava mesmo nada de Proust, achava-o um escritor sobrevalorizado.
As vidas de Borges e Proust têm um aspecto em comum que talvez explique o comum interesse pelo tema da memória, desde muito novos que ambos foram afectados por maleitas fisicas que lentamente os foram tornando em reclusos involuntários: a asma no caso de Proust e a cegueira no caso de Borges. Terá sido este afastamento progressivo do mundo exterior que os levou a explorar o mundo interior?
Proust parece-me ter sido mais feliz que Borges, creio que visitava com alegria o simulacro quase perfeito da sua vida que é o "Em busca do tempo perdido". O velho senhor argentino escrevia sobre pesadelos, sobre a infidelidade da memória e a impossibilidade de recuperar o passado.
Joana
 
 
“O trajecto que o separava dela era o que percorria inevitavelmente e era como o próprio declive, irresistível e rápido, da sua vida.”
(Do lado de Swann, pp. 249/250)

J.M.
 
  Enternecimento
“… Swann fitava naquele rosto de Odette …. aquele olhar com que, num dia de partida, gostaríamos de levar connosco uma paisagem que vamos abandonar para sempre”.
(Do lado de Swann, pp. 248)

J.M.
 
  Gentile Bellini, "The Sultan Mehmet II," National Gallery, London (1480)


J.M.
 
quarta-feira, março 17, 2004
  !!!!
Estão a imaginar em 2004 uma tia que:

Desde a morte do marido, o tio Octave, não mais quisera sair, primeiro de Combray, depois da sua casa em Combray, depois do seu quarto, e depois da sua cama, e que já não “descia”, sempre deitada num incerto estado se desgosto, de debilidade física, de doença, de ideia fixa e de devoção.

uma tia que:

se...tivesse visto por acaso passar um cão “que ela não conhecia” não parava de pensar nisso e de consagrar a esse facto incompreensível os seus talentos de indução e as suas horas de liberdade.


Estão a imaginar?


Troti
 
  Sensação e Leitura VII
Demoramos muito tempo a reconhecer na fisionomia própria de um novo escritor o modelo que tem o nome de “grande talento” no nosso museu de ideias gerais. Justamente por se tratar de uma fisionomia nova, não achamos que se assemelhe àquilo a que chamamos talento. Falamos antes de originalidade, encanto, delicadeza, força; e depois um dia verificamos que tudo isso é precisamente o talento.


Troti
 
  Sensação e Leitura VI
...pareceu-me de repente que a minha humilde vida e os reinos da verdade não estavam tão separados como eu julgara, que coincidiam até em certos pontos e, de confiança e alegria, chorei sobre as páginas do escritor como nos braços de um pai reencontrado.


Troti
 
  Onde está o calor?
“E ao passo que a visão apenas carnal que tivera daquela mulher, renovando constantemente as suas dúvidas sobre a qualidade do seu rosto, do seu corpo, de toda a sua beleza, enfraquecia o seu amor…”
(Do lado de Swann, pp. 238)

“… a adoração de uma peça de museu…”
(Do lado de Swann, pp. 239)

“… num exemplar raríssimo que contemplava ora com a humildade, a espiritualidade e o desinteresse de um artista, ora com o orgulho, o egoísmo e a sensualidade de um coleccionador.”
(Do lado de Swann, pp. 239)

Esta forma como Proust introduz o amor de Swann pareceu-me um pouco doentia.
Bem sei que o nosso objecto de amor corresponde à imagem que dele construímos, mas talvez não seja pior existir alguma aderência à realidade…

J.M.
 
  Partilha
“… e o amor tem tanta necessidade de encontrar uma justificação para si mesmo, uma garantia de duração, em prazeres que, pelo contrário, sem ele o não seriam e com ele terminam.”
(Do lado de Swann, pp. 236)

Porque tudo o que é vida precisa de ser cuidado…

J.M.
 
  Ternura
“Ele manteve-o (crisântemo) apertado contra os lábios durante o regresso e quando, ao fim de alguns dias, a flor murchou, fechou-a preciosamente na sua escrivaninha.”
(Do lado de Swann, pp. 233)

J.M.
 
  Foi tudo por causa de uma frase…
“… e reconheceu, secreta, estrepitosa e dividida, a frase aérea e odorífera que amava.”
(Do lado de Swann, pp. 225)

J.M.
 
terça-feira, março 16, 2004
  Kg
“A profundidade, a melancolia da expressão gelavam-lhe os sentidos, despertos, pelo contrário, por uma carne saudável, abundante e rosada.”
(Do lado de Swann, pp. 205)

Ora, aqui está um homem que não seguia os cânones estéticos da época, poderemos pensar. Porém….

“… o seu desejo sempre fora orientado num sentido oposto aos seus gostos estéticos.”
(Do lado de Swann, pp. 238)

Ok, mas, ainda assim, digo: Senhor Swann, precisa-se de si aqui, no anorético século XXI!!

J.M.
 
  Sarah
a visão de um rosto de uma mulher que eu pensava ser talvez uma actriz deixavam em mim uma perturbação mais prolongada, um esforço impotente e doloroso para imaginar as suas vidas. Nenhuma era mais talentosa, mais famosa e, assim, mais sonhada do que Bernhart, a diva do teatro do século XIX, aqui fotografada por Paul Nadar (que, curiosamente, também fotografou Proust...)


Her beautiful voice, the grace of her movements, and her fiery personality made Sarah Benhart one of the most famous of her days. She was very thin, with a pale face and frizzy red hair. But she was acclaimed everywhere as "The Divine Sarah".
(http://www.geocities.com/michelelynn5/sarah.html)
nastenka-d
 
  Quando nos reencontramos num livro que lemos
...

quando por acaso me conteceu encontrar, num certo livro seu, um pensamente que eu próprio já tivera, o meu coração inchava como se um deus, na sua bondade, mo tivesse oferecido, o tivesse declarado legítimo e belo.


Do lado de Swann, pp.104


Leitora
 
  Sensação e Leitura V
Por fim, continuando a seguir de dentro para fora os estados simultaneamente justapostos na minha consciência, e antes de chegar ao horizonte real que os envolvia, encontro prazeres de outro género, o de estar bem sentado, o de sentir o cheiro bom do ar, o de não ser importunado por uma visita...E de cada vez que davam horas parecia-me que fora apenas alguns momentos antes que as anteriores haviam soado; as mais recentes vinham inscrever-se muito junto das outras no céu, e não podia acreditar que sessenta minutos tivessem cabido naquele pequeno arco azul compreendido entre as suas duas marcas douradas. Às vezes, até, aquelas horas prematuras faziam soar duas badaladas mais que as últimas; havia portanto umas que eu não tinha ouvido, algo que tivera lugar não tivera lugar para mim; o interesse da leitura, mágico como um sono profundo, tinha iludido os meus ouvidos alucinados e apagado o sino de ouro na superfície azul do silêncio.


Troti

 
  Sensação e leitura IV
Já menos interior ao meu corpo que essa vida das personagens, vinha seguidamente, meio projectada à minha frente, a paisagem onde se desenrolava a acção e que exercia sobre o meu pensamento uma influência bem maior que a outra, que a que tinha diante dos olhos quando os erguia do livro...Não era apenas porque uma imagem com que sonhamos permanece marcada para sempre, e se embeleza e beneficia com o reflexo das cores alheias que por acaso a rodeiam no nosso devaneio....Pela escolha que delas o autor fizera, pela fé com que o meu pensamento seguia adiante da sua palavra como de uma revelação, elas pareciam-me ser...uma parte verdadeira da própria natureza, digna de ser estudada e aprofundada.
Se os meus pais me tivessem permitido que, quando eu estava a ler um livro, fosse visitar a região por ele descrita, teria julgado dar um passo inestimável na conquista da verdade. É que, se temos a sensação de estar sempre rodeados da nossa alma, não é como se ela fosse uma prisão imóvel: antes somos como que arrastados com ela num perpétuo impulso para a transpor, para chegar ao exterior, com uma espécie de desânimo, ouvindo sempre à nossa volta aquela sonoridade idêntica que não é um eco do exterior, mas a ressonância de uma vibração interna. Procuramos encontrar nas coisas, por isso mesmo tornadas mais preciosas, o reflexo que a nossa alma nelas projectou, ficamos desiludidos ao verificar que elas parecem desprovidas na natureza do encanto que, no nosso pensamento, deviam à proximidade de certas ideias.



Troti
 
  Sensação e Leitura III
Depois dessa crença central que, durante a minha leitura, executava incessantes movimentos de dentro para fora, para a descoberta da verdade, vinham as emoções que me eram dadas pela acção em que tomava parte, porque aquelas tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que muitas vezes uma vida inteira. Eram os acontecimentos que surgiam no livro que estava a ler...Mas todos os sentimentos que a alegria ou o infortúnio de uma personagem real nos fazem esperimentar só acontecem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que no aparelho das nossas emoções, como a imagem é o único elemento essencial, a simplificaçlão que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por muito profundamente que simpatizemos com ele, é em grande parte apreendido pelos nossos sentidos, o que quer dizer que permanece para nós opaco, que apresenta um peso morto que a nossa sensibilidade não pode levantar... O achado do romancista foi ter a ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que a nossa alma pode assimilar a si mesma. Que importa então que as acções, que as emoções desses seres de uma nova espécie, nos surjam como verdadeiras, visto que as tornámos nossas, visto que é em nós que acontecem, que mantêm sob o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar? E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, toda a emoção é decuplicada, estado em que o seu livro nos vai perturbar á maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos a dormir, e cuja lembrança irá durar mais tempo, então, eis que ele desencadeia em nós durante uma hora todas as felicidades e todas as infelicidades possíveis, algumas das quais levaríamos anos de vida a conhecer, e as mais intensas das quais nunca nos seriam reveladas.


Troti


 
  Sensação e Leitura II
... não querendo renunciar à minha leitura, ia pelo menos continuá-la no jardim, debaixo do castanheiro...
...
E não era também o meu pensamento como que outro presépio, ao fundo do qual sentia que permanecia enterrado, mesmo para olhar o que se passava lá fora? Quando via um objecto exterior, a consciência de que o via ficava entre mim e ele, bordejava-o de uma estreita orla espiritual que me impedia de tocar alguma vez directamente na sua matéria; de algum modo, esta volatilizava-se antes de eu tomar contacto com ela, como um corpo incandescente que aproximamos de um objecto molhado não toca a sua humidade porque se faz sempre preceder de uma zona de evaporação. Na espécie de barreira matizada de estados diferentes que, enquanto lia, a minha consciência ia erguendo em simultâneo, e que iam das aspirações mais profundamente ocultas dentro de mim mesmo até à visão toda exterior do horizonte que, no extremo do jardim, tinha diante dos meus olhos, o que em primeiro lugar havia em mim de mais íntimo, o punho em constante movimento que governava o resto, era a minha crença na riqueza filosófica, na beleza do livro que lia, e o meu desejo de tomar posse delas, fosse qual fosse o livro.



Troti
 
  Sensação e Leitura I
...eu tinha-me estendido em cima da cama, com um livro na mão, no meu quarto que protegia tremente a sua frescura transparente e frágil contra o sol da tarde atrás das portadas quase fechadas, onde porém um reflexo luminoso achara meio de fazer passar as suas asas amarelas, e ficava imóvel entre a madeira e os vidros, num canto, como uma borboleta poisada. Havia apenas a claridade suficiente para ler...
...
Aquela sombria frescura do meu quarto era para o sol de chapa da rua o que a sombra é para o raio de luz, isto é, tão luminosa como ele, e oferecia à minha imaginação o espectáculo total doVerão que os meus sentidos, se tivesse ido passear, só teriam podido gozar por fragmentos; e assim se harmonizava bem com o meu repouso, que (graças às aventuras contadas pelos livros, e que o vinham agitar) suportava, tal como o repouso de uma mão imóvel no meio de uma água corrente, o choque e a animação de uma torrente de actividade.



Troti
 
  .......
Em cima da mesa estava o habitual prato de maçapães; o meu tio tinha o seu blusão de todos os dias, mas diante dele, num vestido de seda cor-de-rosa e com um grande colar de pérolas ao pescoço, estava uma mulher jovem que acabava de comer uma tangerina. A incerteza em que eu estava de se devia tratá-la por senhora ou menina fez-me corar e, não me atrevendo a dirigir os olhos para o seu lado com medo de ter de lhe falar, fui dar um beijo ao meu tio.
...
Custava-me a acreditar que fosse uma “cocotte” elegante se não tivesse visto o carro de dois cavalos, o vestido cor-de-rosa, o colar de pérolas, se não soubesse que o meu tio só conhecia as de mais alta categoria.. Mas perguntava a mim mesmo como é que o milionário que lhe dava o carro de cavalos e a moradia e as jóias podia ter prazer em gastar a sua fortuna com uma pessoa que tinha um ar tão simples e tão como deve ser. E, no entanto, pensando no que devia ser a sua vida, a sua imoralidade perturbava-me talvez mais do que se se concretizasse à minha frente numa aparência especial. – por ser assim invisível como o segredo de um romance qualquer, de algum escãndalo que a fizera sair de casa dos pais burgueses e a entregara a toda a gente, que fizera desabrochar em beleza e levado para o mundo dos costumes duvidosos e para a notoriedade esta cujos jogos fisionómicos ou tons de voz, semelhantes a tantos outros que eu já conhecia, me faziam apesar de tudo considerar uma menina de boa família, e que já não era de família nenhuma.
...
Levantei-me com uma vontade irresistível de beijar a mão da dama cor-de-rosa, mas parecia-me que seria um tanto audacioso, como um rapto. O coração batia-me enquanto dizia de mim para mim: “Devo, não devo”, e depois deixei de me perguntar o que devia fazer para poder fazer qualquer coisa. E, num gesto cego e insensato, despojado de todas as razões que momentos antes achava em seu favor, levei aos lábios a mão que ela me estendia.

...
- Eu adoro os artistas - respondeu a dama de cor-de-rosa – só eles é que compreendem as mulheres...



Troti
 
segunda-feira, março 15, 2004
  Proust e Joyce
Joyce que nunca conseguiu fugir à sua herança católica, imagina um judeu chamado Bloom. Proust que nunca conseguiu fugir à sua herança judaica, imagina um católico chamado Marcel.
Joana
 
  Crescer
.

Também em mim muitas coisas foram destruídas que eu julgava que iriam durar sempre e outras novas foram edificadas dando lugar a dores e alegrias novas que então não podia prever, tal como as antigas se me tornavam difíceis de compreender.


Do lado do Swann, pp. 43

Leitora
 
  Paisagens de Roma: Piazza Della Rotonda, Piranesi


J.M.
 
  Tante Léonie
La maison de Madame Amiot (que l'on peut visiter à Illiers), la Tante Léonie de "La Recherche du Temps perdu", fut pour Marcel Proust jusqu'à l'âge de 15 ans l'abri douillet où chaque été il recueillait d'innombrables sensations et émotions.


(http://perso.wanadoo.fr/illiers-combray/Portraits3.htm)
J.M.
 
  Illiers-Combray
A 25 km de Chartres, 30 km de Châteaudun et 115 km de Paris la commune d'Illiers-Combray (Eure-et-Loir) compte 3.300 habitants et se situe entre Beauce et Perche dans la vallée naissante du Loir. Situé dans le quart sud-ouest du département d'Eure-et-Loir, le canton d'Illiers-Combray comprend 20 communes et un peu moins de 10.000 habitants. En 1971 "Illiers" est devenue "Illiers-Combray" à l'occasion du centenaire de la naissance de Marcel Proust qui, enfant, venait passer ses vacances à Illiers chez sa tante Elisabeth Amiot.



(http://perso.wanadoo.fr/illiers-combray/PageIlliers.htm)
J.M.
 
  Lugares sem tempo
estendendo através dos séculos a sua nave, a qual, de tramo em tramo, de capela em capela, parecia vencer e transpor, não apenas alguns metros, mas épocas sucessivas de que saía vitoriosa...
Ainda hoje sentimos isso, independentemente da intensidade de um eventual sentimento religioso que nos possa habitar. Mais do que identidade, oferecem um local sem tempo – tendo-o atravessado, fazem-nos sentir ao seu abrigo. Talvez para ir em busca do tempo perdido seja necessário afastarmo-nos do tempo presente.
nastenka-d
 
  Ester
Ponha o rei em todas as províncias do seu reino oficiais que ajuntem todas as moças virgens e formosas em Susã, a capital, na casa das mulheres sob a custódia de Hegai, eunuco do rei, guarda das mulheres; e dêem-se-lhes os seus cosméticos. E a donzela que agradar ao rei seja rainha em lugar de Vasti.



E o rei amou a Ester mais do que a todas mulheres, e ela alcançou graça e favor diante dele mais do que todas as virgens; de sorte que lhe pôs sobre a cabeça a coroa real, e a fez rainha em lugar de Vasti (de Ester, capítulo 2)

nastenka-d
 
  Outra viagem - Chartres
Os vitrais nunca mudavam de cor, de tal forma que, nos dias em que o sol se mostrava pouco, e lá fora o dia se mostrava cinzento, podíamos estar certos de que dentro da igreja estava bom tempo.

Mas, ou porque havia brilhado um raio de sol ou porque o meu olhar em movimento tivesse passado pelo vitral, alternadamente apagado e reacendido, um movediço e precioso incêndio, no instante seguinte este tomara o esplendor variável de uma cauda de pavão e depois tremia e ondulava numa chuva flamejante e fantástica que gotejava do alto da abóbada escura e rochosa, ao longo das paredes húmidas...



Os vitrais, diz o o prior de Combray, rivalizam com o conjunto de Chartres. Face à impossibilidade de os comparar, podemos pelo menos imaginá-los...
nastenka-d

 
  A justa proporção
Swann, não percebendo o elogio dissimulado da Tia Flora, fala finalmente sobre leitura:

«O que eu censuro nos jornais é obrigarem-nos todos os dias a dar atenção a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. Já que rasgamos febrilmente todas as manhãs a cinta do jornal, então deviamos mudar as coisas e pôr no jornal, sei lá, os... Pensamentos de Pascal (destacou esta palavra num tom de ênfase irónica para não ter um ar pedante). E seria no volume de cortes dourados, que só abrimos uma vez de dez em dez anos», acrescentou ele, demonstrando pelas coisas mundanas aquele desdêm que certos homens da sociedade costumam fingir, «que leríamos que a rainha da Grécia foi a Cannes ou que a pricesa de Léon deu um baile de máscaras. Ficaria assim restabelecida a justa proporção.»

(Do lado de Swann, pp. 32-33)


Tantos anos depois, este debate mantém-se tão actual... E os tiques tão familiares.


Leitora
 
 
«Como é que tu ainda te divertes a ler, olha que não é domingo»



Leitora
 
domingo, março 14, 2004
  De novo, Giotto
Com a Recherche, ando a reviver, com maior nitidez, alguns dos fragmentos da minha memória.
E, a propósito das inúmeras referências do livro a Giotto, tenho-me feito acompanhar por um dos magníficos lugares que tive o privilégio de conhecer: a catedral de S. Francisco, em Assis.
Giotto vive lá. Imenso, transcendente, inesquecível, arrebatador.
Tenho viajado muito até Assis, nos últimos tempos.
E não vejo a hora de ir a Pádua.

J.M.
 
  A Luz do Luar
II

Também lá fora as coisas pareciam imobilizadas numa muda preocupação de não perturbarem a luz do luar, a qual, duplicando e recuando cada coisa pela extensão diante dela do seu reflexo, mais denso e concreto que a própria coisa, ao mesmo tempo adelfaçara e dilatara a paisagem, como um mapa que estava dobrado e se desdobra.


Do lado de Swann, pp. 39

Leitora
 
  Cappella degli Scrovegni, Padua
Aos poucos, vamos desvendando uma minúscula parte do enigma.
Em cada página, essas pistas, subtis e coloridas, para a compreensão do mundo.
Em cada página, uma viagem para sítios inimaginados.
Com Proust, acabei de viajar até Pádua.


J.M.
 
  A Luz do Luar
I

Às vezes, no céu da tarde, passava a lua branca como nuvem, furtiva, sem brilho, como uma actriz que não está na sua hora de representar e que, da sala, vestida como na rua, olha por um momento para os seus colegas, apagando-se, não querendo que lhe prestem atenção. Gostava de encontrar a sua imagem em quadros e em livros, mas essas obras de arte eram muito diferentes - ao menos durante os primeiros anos, antes de Bloch me ter acostumado os olhos e o pensamento a harmonias mais subtis - daquelas em que a lua me parecia bela hoje e que então não a teria reconhecido.


Do lado de Swann, pp. 156

Leitora
 
sábado, março 13, 2004
 
Hoje vamos lanchar madalenas. Curiosamente foi um dos meus bolos da infância porque a minha mãe as escolhia regularmente como bolo para o lanche. Não as verdadeiras de Proust com a receita correcta e a forma adequada, mas uns bolinhos tipo queques, às vezes recheados. Há muito tempo que não as fazia, os bolos antigos foram sendo substituídos por novas receitas, mas o facto é que, com as madalenas e imbuída do espírito das recordações, viveram na minha mente a casa onde passei a infância, a cozinha antiga, a Benvinda a mexer a massa à mão, eu a rapar a massa de sobra da taça de louça branca e a lamber a colher de pau e depois vieram outras recordações, as barrelas onde queria sempre meter a mão, o jardim com canteiros, a cave cinzenta e triste, os vizinhos que tinham grutas, os jogos infantis na rua. E foi bom recordar.
Assim, aqui lhes deixo uns apontamentos sobre a “madeleine”, a suposta verdadeira receita e, já agora, a receita antiga da minha mãe.


La madeleine est la spécialité de la ville de Commercy, en Lorraine. On rapporte que le pâtissier de Stanislas, duc de Lorraine au 18e siècle, étant tombé malade, il fut remplacé aux fourneaux par la cuisinière du duc, une certaine Madeleine Paulmier, qui confectionna un gâteau en forme de coquille, délicatement parfumé à la fleur d'oranger, dont elle connaissait la recette pour le plus grand bonheur des invités du duc. Le dessert n'ayant pas de nom, Stanislas lui donna le nom de sa cuisinière. La fille du duc, Maria Leczinska, qui avait épousé le roi de France Louis XV, contribua à en répandre la notoriété. Plus tard, Marcel Proust ne fut pas étranger au succès de cette petite pâtisserie.
http://www.la-grange.net/2003/03/21.html


Madeleines
Parfumées et savoureuses, les vraies madeleines de Proust!



INGREDIENTS
12-16 petits moules de 4-6 cm de diamètre
• Beurre liquide et farine pour pâte (pour les moules)
• 125 g de beurre
Pâte:
• 3 jaunes d'œufs
• 150 g de sucre
• 1 pincée de sel
• 50 ml de crème (3 c.s. env.)
• 1/2 citron non traité, zeste
• 150 g de farine
• 3 pointes de couteau de poudre à lever
• 3 blancs d'œufs
1. Beurrer et fariner les moules. Les poser sur une plaque, les uns à côté des autres et les placer au réfrigérateur. Faire fondre le beurre et le laisser refroidir.
2. Pâte: tourner en mousse les jaunes d'œufs avec 100 g de sucre et le sel, jusqu'à ce que les cristaux de sucre soient entièrement dissous. Ajouter le beurre liquide, la crème et le zeste de citron. Mélanger la farine et la poudre à lever, les tamiser sur le mélange et les incorporer en soulevant. Préchauffer le four à 180 degrés.
3. Monter les blancs en neige ferme. Verser le reste de sucre en pluie et continuer de battre jusqu'à ce que la masse soit très ferme et brillante. L'incorporer délicatement à la pâte. La répartir dans les moules jusqu'aux y au moins. Faire cuire au milieu du four pendant 15-20 minutes. Les sortir, lasser refroidir sur une grille, puis démouler.

http://www.construire.ch/SOMMAIRE/0117/17recett.htm


Madalenas da minha mãe :

120 gr de manteiga
125 gr de farinha
125 gr de açucar
2 ovos
1 colher de chá de fermento
1 pingo de baunilha
1 pouco de raspa de limão

Batem-se os ovos com o açucar até ficarem espumosos. Junta-se aos poucos a farinha já com o fermento misturado e no fim a manteiga derretida em banho-Maria e o pingo de baunilha. Untam-se as forminhas, enchem-se com pouca massa e vão ao forno quente 10m dentro de um tabuleiro de folha.

Recheio opcional: leite creme com baunilha ou creme de açucar com amêndoas. Para rechear, abrem-se acima do meio, tira-se um pouco do miolo, enche-se com o creme e põe-se de novo a tampa. Cobrem-se com Icing Sugar.




Bom lanche para todos

Troti
 
  Doces sonhos
"Nessa época eu tinha a paixão pelo teatro, paixão platónica porque os meus pais ainda não me tinham autorizado a ir lá, e eu imaginava de uma forma tão pouco exacta os prazeres que por lá se saboreavam que não estava longe de acreditar que cada espectador contemplava como num estereoscópio um cenário só para ele, embora semelhante ao milhar de outros cenários contemplados, individualmente, pelos restantes espectadores.
...
Nada era mais desinteressado e mais feliz que os sonhos que cada peça anunciada oferecia à minha imaginação...
...
nada me parecia mais diferente do penacho faiscante e branco dos DIAMANTS DE LA COURONNE que o cetim liso e misterioso do DOMINO NOIR, e como os meus pais me haviam dito que, quando fosse pela primeira vez ao teatro, teria de escolher entre essas duas peças, procurando aprofundar sucessivamente o título de uma e o título de outra, já que era tudo o que delas conhecia, para tentar apreender em cada uma o prazer que me prometia e compará-lo com o que a outra continha, chegava a imaginar com tanta força, de um lado uma peça deslumbrante e altiva, e do outro uma peça suave e aveludada, que era tão incapaz de decidir qual delas iria ter a minha preferência como se para a sobremesa me dessem a optar entre arroz á imperatriz e creme de chocolate."


Doces sonhos os que povoam o imaginário em que o mundo é uma promessa.


Troti
 
  Um pedaço de céu azul
“Meu rapazinho, trate de conservar sempre um pedaço de céu por cima da sua vida...tem uma linda alma, de uma qualidade rara, uma natureza de artista, não deixe que lhe falte aquilo de que precisa.”


Palavras para Marcel do parisiense Legrandin . (pág.76)



Troti
 
  O campanário
"Reconhecia-se o campanário de Santo Hilário de muito longe, inscrevendo a sua imagem inesquecível no horizonte onde Combray ainda não aparecia...
...
E num dos maiores passeios que dávamos em Combray havia um lugar onde o caminho apertado desembocava de repente num imenso planalto fechado no horizonte por florestas desconjuntadas apenas ultrapassadas pela fina agulha do campanário de Santo Hilário, mas tão delgada, tão rosada, que apenas parecia riscada no céu por uma unha que tivesse querido dar a esta paisagem, a este quadro só de natureza, aquela pequenina marca de arte, aquela única indicação humana.
...
E era evidente que qualquer parte da igreja que observávamos a distinguia de qualquer outro edifício por uma espécie de pensamento que lhe era infuso, mas era no campanário que parecia tomar consciência de si mesma, afirmar uma existência individual e responsável. Era ele que falava por ela...
...
Era o campanário de Santo Hilário que conferia a todas as ocupações, a todas as horas, em todos os pontos de vista da cidade, a sua imagem, o seu coroamento, a sua consagração.
...
Quando, depois da missa, entrávamos no Théodore para lhe dizer que levasse um bolo maior que habitualmente(...), tínhamos diante nós o campanário que, também dourado e cozido como um brioche maior benzido, com escamas e um gotejar gomoso de sol, espetava a sua ponta aguçada no céu azul. E à tarde, quendo regressava do passeio e pensava no momento em que daí a nada teria que ir dizer boa noite à minha mãe e não tornar a vê-la, era, pelo contrário, tão doce, no dia que findava, que parecia estar pousado e mergulhado como uma almofada de veludo castanho sobre o céu empaledecido, que cedera sob a sua pressão, se escavara levemente para lhe ceder lugar e refluía para as ,margens; e os gritos dos pássaros que rodavam à sua volta pareciam aumentar o seu silêncio, dar novo ímpeto à sua flecha e atribuir-lhe algo de inefável.
...
Como é evidente há muitos outros mais belos(...)e guardo na minha lembrança vinhetas de campanários acima dos telhados com outra qualidade de arte...
...
Mas como em nenhuma dessas gravurinhas, seja qual for o gosto com que a minha memória as tenha executado, ela não conseguiu pôr o que eu perdera havia muito, o sentimento que nos faz, não considerar uma coisa como um espectáculo, mas acreditar nela como um ser sem equivalente, nenhuma delas domina toda uma parte profunda da minha vida, como a memória faz com estes aspectos do campanário de Combray nas ruas situadas atrás da igreja.
...
era sempre a ele que tínhamos de voltar, era sempre ele que dominava tudo, intimando as casas com um pináculo inesperado, erguido à minha frente como o dedo de Deus cujo corpo tivesse sido escondido na multidão dos humanos sem que por isso eu o confundisse com ela.
...
E ainda hoje, se, numa grande cidade de província ou num bairro de Paris que eu conheço mal, um transeunte me mostra ao longe(...)um determinado campanário(...)ainda que a minha memória lhe possa encontrar obscuramente algum traço de semelhança com a imagem cara e desaparecida, o transeunte, se se virar(....)pode, para seu espanto, ver-me, esquecido do passeio começado ou da compra necessária, ficar ali, diante do campanário, durante horas, imóvel, tentando recordar-me, sentindo no fundo de mim terras reconquistadas ao olvido que secam e se reconstroem; e por certo, então, e mais ansiosamente que há pouco, quando eu lhe pedia informações, procuro ainda o meu caminho, viro numa rua... mas... dentro do meu coração."



As recordações são sempre uma viagem ao âmago de nos próprios, à nossa essência mais verdadeira como seres humanos, ao nosso vibrar mais íntimo e profundo.


Troti
 
  Personalidade social
.
Mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida, nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para toda a gente e de quem cada um apenas tenha de tomar conhecimento, como de um caderno de encargos ou de um testamento; a nossa personalidade social é uma criação do pensamento dos outros. Mesmo o acto tão simples a que chamamos «ver uma pessoa conhecida» é em parte um acto intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos sobre ele e, na figura total que imaginamos, essas noções possuem certamente um importante papel.


Do lado de Swann, pp. 25


Leitora
 
sexta-feira, março 12, 2004
 
O interesse da leitura, mágico como um sono profundo, tinha iludido os meus ouvidos alucinados e apagado o sino de ouro na superfície azul do silêncio.


do lado de Swann, pp. 96
 
 
Os versos belos (a mim, que deles esperava nada menos que revelação da verdade) eram tanto mais belos quanto não significavam absolutamente nada.


Do lado de Swann, pp. 99


Leitora
 
  Giotto di Bondone, "Vices and Virtues," Scrovegni Chapel, Padua (1305-06): "Justice"

J.M.
 
  Nota sobre as experiências proustianas (Deleuze)
Fico por momentos a imaginar o que pensará Sokal de livros como Ulysses ou À la recherche du temps perdu, se é que algum dia se dignou a ler estas imposturas pós-modernistas. Ora, precisamente um dos impostores intelectuais apregoados por Sokal, Gilles Deleuze, escreveu uma nota interessantíssima sobre as experiências proustianas no seu livro, traduzido em português com o título Diferença e Repetição:

Elas têm, evidentemente, uma estrutura totalmente distinta das epifanias de Joyce. Mas trata-se também de duas séries, a de um antigo presente (Combray, tal como foi vivida) e a de um presente actual. Sem dúvida, permanecendo numa primeira dimensão da experiência, há uma semelhança entre as duas séries (a madeleine, a refeição da manhã), e mesmo uma identidade (o sabor como qualidade não somente semelhante, mas idêntica nos dois momentos). Todavia, não está aí o segredo. O sabor só tem poder porque ele envolve alguma coisa = x, que não já se define por uma identidade: o sabor envolve Combray tal como ela é em si fragmento de passado puro na sua dupla irredutibilidade ao presente que ela foi (percepção) e ao actual presente, em que se poderia revê-la ou reconstituí-la (memória voluntária). Ora, esta Combray em si define-se pela sua própria diferença essencial «diferença qualitativa», da qual Proust diz que ela não existe «na superfície da terra», mas somente numa profundidade singular. E é ela que produz, envolvendo-se, a identidade da qualidade como a semelhança das séries. Identidade e semelhança, ainda neste caso, são apenas o resultado de um diferenciador. E se as duas séries são sucessivas uma em relação à outra, elas coexistem, ao contrário em relação a Combray em si como objecto = x que as faz ressoar. Acontece, aliás, que a ressonância das séries se abre a um instinto de morte que excede ambas: assim, a botina e a lembrança da avó. Eros é constituído pela ressonância mas ultrapassa-se em direcção ao instinto de morte, constituído pela amplitude de um movimento forçado (é o instinto de morte que encontrará a sua saída gloriosa na obra de arte, para além das experiências eróticas da memória involuntária. A fórmula proustiana — «um pouco de tempo em estado puro» — designa, em primeiro lugar, o passado puro, o ser em si do passado, isto é, a síntese erótica do tempo, mas designa mais profundamente, a forma pura e vazia do tempo, a última síntese, a do instinto de morte que leva à eternidade do retorno no tempo.

Se há quem o considere impostor, também há quem o apelide de pensador do século. O pensamento de Deleuze é um jogo de espelhos que nos obriga a pensar o próprio pensamento, a pensar naquilo em que nunca tínhamos pensado antes. E isso nunca é fácil. Um dos bons exemplos é esta nota que nos abre diferentes perspectivas na leitura de Proust. Outro bom exemplo, também de Deleuze, que ainda não li e não está editado em Portugal, é Marcel Proust et les signes, Paris, PUF, 1964.

Lembro-me perfeitamente do dia, há cerca de 3 anos, em que entrei na livraria Lello no Porto e comprei este livro do Deleuze. E estar aqui, em Setúbal, passados 3 anos, a partilhá-lo na internet com pessoas do Porto, só é possível certamente graças ao rizoma de Deleuze.


riverrun
 
quinta-feira, março 11, 2004
  A propósito de Bergson-Imposturas Intelectuais
A propósito de Bergson, talvez seja interessante referir o seguinte livro: Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont, publicado pela Gradiva em 1999. Pelo menos é uma história divertida!

"O único objetivo destes autores parece ser demonstrar erudição,

mesmo que isto não seja relevante." — Alan Sokal


Em 1996, a influente revista de filosofia americana,Social Text , publicou um artigo intitulado-«Transgredir as fronteiras: rumo a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica», em Alan Sokal, eminente professor de Física na Universidade de Nova Iorque apontava as profundas semelhanças entre a teoria da gravitação quântica e a filosofia pós-moderna.
Durante algum tempo, este artigo foi amplamente divulgado e aclamado nos meios académicos ligados à filosofia e à sociologia, até que, num espetacular golpe de teatro, Sokal revela que tudo não passou de um embuste. Num desfecho digno da fabula "O rei vai nu", Sokal revelou que se tinha limitado a juntar frases sem sentido usando a impenetrável linguagem dos teóricos da pós-modernidade e o jargão tecnico das ciencias fisicas.

Na sequência do que ficou conhecido por "O caso Sokal", Sokal e o fisico francês Jean Bricmont escreveram o famoso Imposturas Intelectuais, assim descrito pelos próprios autores:

Mas o que reivindicamos exactamente? Nem muito nem pouco. Mostramos que intelectuais famosos, como Lacan, Kristeva, Irigaray, Baudrillard e Deleuze, abusaram repetidamente da terminologia e de conceitos científicos, quer usando ideias científicas totalmente fora do seu contexto, sem para tal fornecerem a mínima justificação -note--se que não nos opomos à extrapolação de conceitos de uma área para outra, mas apenas à que é efectuada sem qualquer tipo de argumentação-, quer lançando o jargão científico à cara dos leitores não cientistas, sem considerarem a sua relevância ou mesmo o seu sentido. Não reivindicamos que esta atitude invalide o resto da sua obra, em relação à qual evitamos qualquer juízo.

Por vezes somos acusados de sermos cientistas arrogantes, mas a nossa opinião sobre o papel das ciências exactas é, na realidade, bastante modesta. Não seria óptimo (quer dizer, para nós, matemáticos e físicos) se o teorema de Gödel ou a teoria da relatividade tivessem implicações profundas e imediatas no estudo da sociedade? Ou se o axioma da escolha pudesse ser usado para estudar poesia? Ou se a topologia tivesse algo a ver com a psique humana? Mas, infelizmente, nada disto é assim.

O segundo alvo do nosso livro é o relativismo epistémico, nomeadamente uma ideia que, pelo menos quando expressa explicitamente, está muito mais espalhada nos países anglo-saxónicos do que na França: a ideia segundo a qual a ciência moderna não é mais do que um «mito», uma «narrativa» ou uma «construção social» entre muitas outras5. Além de alguns abusos enormes (por exemplo, Irigaray), analisamos em pormenor uma série de confusões muito frequentes nos circuitos do pós-modernismo e dos estudos culturais: por exemplo, a apropriação abusiva de ideias da filosofia da ciência, tais como a subdeterminação da teoria pelas provas e pelos testemunhos ou a ideia de que a observação depende da teoria, para apoiar o relativismo radical.

Este livro é, portanto, constituído por duas concepções distintas, embora relacionadas entre si. Em primeiro lugar, há a colecção de abusos extremos descobertos muito ao acaso por Sokal: são essas as imposturas do título desta obra. Em segundo lugar, há a crítica que fazemos ao relativismo epistémico e às concepções erradas de «ciência pós-moderna»: estas análises são consideravelmente mais subtis. A ligação entre estas duas críticas é fundamentalmente sociológica: os autores franceses das «imposturas» estão na moda em muitos círculos académicos anglo-saxónicos, nos quais o relativismo epistémico é o pão nosso de cada dia6. Há também um vínculo lógico mais ténue: se se aceita o relativismo epistemológico, então há menos razões para se discordar das más representações das ideias científicas, que de qualquer forma não passam de um outro «discurso».


Bergson é um dos filosófos analisados neste livro, mas ao contrário da maior parte dos visados, é-lhe reconhecida uma profunda honestidade intelectual, afirmada pelo próprio Sokal numa entrevista ao Nouvel Observateur:


N. O. - A cet égard, Henri Bergson, à qui vous consacrez un chapitre entier, est un cas à part.

A. Sokal. - Avec Bergson, on ne peut pas parler d’imposture. Il a vraiment essayé de comprendre la théorie de la relativité, mais ses préjugés philosophiques étaient tels qu’ils lui rendaient impossible cette compréhension. Einstein a essayé de la lui expliquer, ils se sont même rencontrés, mais rien à faire : Bergson a décrété que le différend avec Einstein était d’ordre philosophique, alors qu’il s’agissait purement et simplement d’erreurs de physique.





Joana
 
  Eu acho que quando somos felizes nem damos conta
Somos felizes como respiramos, sem nos apercebermos.
Só quando olhamos para trás é que damos conta que naquele tempo fomos felizes, e talvez venha daí o sentimento agridoce que acomponha as recordações: o fruto doce da felicidade tem o caroço amargo da perda.
Joana
 
  A minha madeleine
Não é uma sensação ainda, antes um desejo: que ao tempo reencontrado corresponda o da felicidade. Torço os dedos, faço figas; e continuo.
nastenka-d
 
  A angústia
Toda a primeira parte de Combray remete para a ideia de angústia associada à infância. Já aqui se falou de tudo o que nos leva a recordar os “doces dias”; mas não nos esqueçamos que se sofre também, ainda que pelas razões mais estranhas, e que nos forçamos tantas vezes a esquecer. A fantasia do abandono é um traço comum a qualquer criança; talvez não haja outra forma de crescer sem passar por ela. A fantasia e a angústia que ela gera podem tornar-se de tal forma reais que se recusa qualquer explicação, qualquer argumentação lógica. Mas a emoção pode viver-se e sublimar-se de muitas formas: no caso de Marcel, aquela noite marca o fim da infância não apenas pelas rugas que crê surgirem no rosto da mãe, mas também pela descoberta de um mundo novo cheio de possibilidades: sob aqueles acontecimentos tão quotidianos, sob aquelas coisas tão comuns, aquelas palavras tão correntes, sentia como que uma entoação, uma tonalidade estranha.
E vocês, ainda se lembram do primeiro romance?
nastenka-d
 
  O prazer dos sentidos: a audição
O que tinha necessidade de mover-se, como umas folhas de castanheiro, movia-se. Mas o seu tremor minucioso, total, executado quase nas suas mínimas tonalidades e nas suas últimas delicadezas, não gotejava sobre o resto, não se fundia com ele, permanecia circunscrito. Expostos sobre este silêncio que nada absorvia deles, os ruídos mais distantes, os que deviam vir de jardins situados na outra ponta da cidade, ouviam-se pormenorizados com tal «remate» que pareciam dever esse efeito de distância apenas ao seu pianíssimo...
É impressionante a força que este trecho exerce: com algumas linhas apenas torna-se possível ouvir o silêncio – aquele em que só se repara quando o repouso da noite é quase total, e os rumores não fazem mais do que sublinhá-lo, dar-lhe corpo. Na continuação destas frases, Proust faz uma analogia com os sons de uma orquestra, e parece possível recuperar o prazer do silêncio.
nastenka-d
 
  Comédia de enganos (Céline e Flora)
«Imagina, Céline, que conheci uma jovem professora primária sueca que me deu sobre as cooperativas nos países escandinavos pormenores interessantíssimos. Tem que vir cá jantar uma noite destas.» «Acho que sim!», respondeu a irmã, «mas eu também não perdi o meu tempo. Encontrei em casa do senhor Vinteuil um velho sábio que conhece bem o actor Maubant e a quem Maubant explicou com todo o pormenor como faz para compor o papel de uma personagem. É o que há de mais interessante. É um vizinho do senhor Vinteuil, eu não sabia; é muito amável.» «Não é só o senhor Vinteuil que tem vizinhos amáveis!», exclamou a tia Céline numa voz tornada forte pela timidez e artificial pela premeditação, e entretanto lançava a Swann aquilo a que chamava um olhar significativo.»
Este diálogo é delicioso, para além de demonstrar perfeitamente o que move as duas irmãs da avó: afastadas de toda e qualquer impressão de mundanidade, tornam um simples agradecimento um trabalho de minúcia. A introdução de frases de tal forma crípticas na conversa entre Swann e o avô, que exploram os segredos da História da forma o mais ligeira possível, resulta de tal forma que faz até esquecer a angústia de Marcel, essa angústia que existe em sentir o ser que se ama num lugar de prazer onde não estamos.
nastenka-d
 
  A avó
Como podemos deixar de simpatizar com a avó de cabelo grisalho e faces enrugadas, que detesta a simetria dos jardins e por isso arranca disfarçadamente estacas às roseiras para lhes dar mais naturalidade? Esta avó que aproveita todos os pretextos para percorrer o jardim, e o faz mesmo sob a chuva, caminhando indiferente à lama?
É ela também quem dá menos importância ao sistema de castas pelo qual a irmã do marido parece reger-se – indiferença partilhada pelas suas irmãs, seres semi-ausentes, receosas de qualquer ideia de vulgaridade mundana. Imagino o que será viver sob influência de concepções de vida tão díspares – e que síntese fará delas Marcel.
nastenka-d
 
quarta-feira, março 10, 2004
  Henri Bergson II
For Marcel Proust, whose cousin Bergson married in 1891, the philosopher gave the idea for the great novel of reminiscence, À la recherche de temps perdu (1913-27).

Sartre also paid tribute to him, and Martin Heidegger, whose ontology is echoed in existentialist writing, used some of Bergson's concepts, such as "no-being".

However, Bergson's influence on existentialism is not straight forward.

On the other hand, Bergson's argumentation frustrated such philosophers as Bertrand Russell, who criticized his thoughts. (…)

Philosophers have pointed out that Bergson did not satisfactorily show how intuition could work apart from intellect.

Albert Einstein found serious mistakes from Bergson's DURÉE ET SIMULTANÉITÉ À PROPOS DE LA THÉORIE D'EINSTEIN (1921), dealing with Einstein's theory of relativity. Bergson had opposed in 1911 Einstein's ideas, but then his view had changed. He is generally regarded as having lost his public debate with Einstein (...).

(http://www.kirjasto.sci.fi/bergson.htm)
J.M.
 
  Henri Bergson (1859-1941) I
French philosopher. Rejecting sterile mechanistic accounts of the natural world, including those of Darwin and Spencer, Bergson developed an account that emphasized the subjective experience of time as the ground for human freedom. (…) Bergson argued that thought, creativity, motion, and evolution are all products of a creative impulse that emerges in opposition to material entropy. Bergson won the Nobel Prize for literature in 1927.

(http://www.philosophypages.com/dy/b2.htm#begs)
J.M.
 
 
“Marcel's favorite writer, Bergotte, is a reference to Henri Bergson and his theories of time and space. Bergson believed that time was not necessarily a linear, clock-like, measure of fixed and unchangeable moments. Instead, he believed that time, or duration as he liked to call it, involved a "flowing together" of different moments and experiences so that one individual point in time was indistinguishable from any other.”

(http://www.sparknotes.com/lit/swannsway/analysis.html)
J.M.
 
  O filósofo Rorty comenta Proust
Uma das pessoas que melhor define Proust é o filósofo americano R. Rorty (na minha perspectiva, e que é a de uma simples amadora de cada linha que Proust escreveu no “Em Busca do Tempo Perdido”). Não partilho as considerações filosóficas que caracterizam o pensamento de Rorty, por motivos que não me cabe aqui expor, mas no que à análise de Proust diz respeito compartilho em absoluto a sua interpretação. Peço-vos desde já desculpa pela forma algo pretensiosa com que julgo poder esclarecer o pensamento de Rorty ao sublinhar determinadas ideias das citações que passo a transcrever: “Também Proust (Rorty está a compará-lo com Nietzsche) está interessado no poder, mas não em encontrar alguém maior do que ele para encarnar ou para celebrar. Tudo o que queria era libertar-se de poderes finitos tornando evidente a sua finitude. Não pretendia libertar poder nem ficar numa posição para empossar outros, mas simplesmente libertar-se das descrições de si próprio proporcionadas pelas pessoas que conhecera. Não queria ser simplesmente a pessoa que essas outras pessoas pensaram saber que ele era, não queria ficar cristalizado na moldura de uma fotografia tirada segundo a perspectiva de outra pessoa. Temia ser, segundo a expressão de Sartre, transformado numa coisa pelo olhar do outro (pelo “olhar duro” de St. Loup, por exemplo, ou pelo “olhar enigmático” de Charlus). O seu método para se libertar dessas pessoas – para se tornar autónomo - foi o de redescrever as pessoas que o tinham descrito. Traçou esboços dessas pessoas a partir de muitas perspectivas diferentes – e em especial a partir de muitas posições no tempo diferentes –e, dessa forma, tornou clara que nenhuma dessas pessoas ocupava um ponto de vista privilegiado. Proust tornou-se autónomo , explicando a si próprio por que razão os outros não eram autoridades, mas simplesmente outras contingências a par dele. Redescreveu-os como sendo tanto um produto das atitudes dos outros para com eles como o próprio Proust era um produto das suas atitudes para com ele.” Pp. 136-37

(...) “(Proust) tornou finitas as figuras da autoridade não por detectar aquilo que estas “realmente” eram, mas sim vendo-as tornarem-se diferentes do que tinham sido e vendo como surgiam quando redescritas em termos oferecidos por outras figuras da autoridade que Proust jogou contra a primeiras. O resultado de todo este tornar finito foi fazer com que Proust não se envergonhasse com a sua própria finitude. Proust dominou a contingência reconhecendo-a e, desse modo, libertou-se do medo de que as contingências que encontrara fossem mais do apenas contingências. Transformou outras pessoas de seus juízes em seus companheiros de sofrimento e, assim, conseguiu criar o gosto pelo qual se julgou a si próprio. Nietzsche, tal como proust e o jovem Hegel, comprazia-se com a sua p´ropria capacidade de redescrição, com a sua capacidade de saltar entre descrições antitéticas da mesma situação.” P. 137

“O narrador de Le Temps Rerouvé não ficaria perturbado com a pergunta “quem me vai redescrever?” , já que o seu trabalho acabou assim que colocou os acontecimentos da sua vida na sua própria ordem, que fez um tecido com todas as pequenas coisas – Gilberte entre os pilriteiros, a cor das janelas da capela de Guermantes, o som do nome “Guermantes”, os dois passeios, as flechas das torres. Esse narrador sabe que tal tecido teria sido diferente se tivesse morrido antes ou depois, á que haveria menos ou mais pequenas coisas que teria de entrar no dito tecido. Mas isso não importa. Proust não tem o problema de como evitar se aufgehoben. A beleza, como depende de dar forma a uma multiplicidade, é notoriamente transitória porque é susceptível de ser destruída quando novos elementos são adicionados a essa multiplicidade. A beleza exige uma moldura e a morte proporcionará essa moldura.” Pp. 139-40

“/.../ (Proust) No final da vida viu-se a si próprio olhando para trás ao longo de um eixo temporal, observando cores, sons, coisas e pessoas a ocuparem os seus lugares a partir da perspectiva da sua mais recente descrição deles. Não se viu olhando para a sequência de acontecimentos temporais a partir de cima, como se tivesse ascendido de um modo de descrição perspectivista a um modo não perspectivista. A theoria não fazia parte das suas ambições: era um perspectivista que não tinha que se preocupar se o perspectivismo era uma teoria verdadeira. Assim, a lição que retiro do exemplo de Proust é a de que os romances são um meio mais seguro do que a teoria para exprimir o nosso reconhecimento da relatividade e da contingência das figuras de autoridade. È que os romances geralmente são sobre pessoas – sobre coisas que, diferentemente das ideias gerias e dos vocabulários finais, estão evidentemente ligadas ao tempo, envolvidas numa teia de contingências. Como as personagens nos romances envelhecem e morrem – como obviamente partilham a finitude dos livros em que aparecem – não temos a tentação de pensar que por adoptar uma atitude para com eles, adoptamos uma atitude para com qualquer tipo possível de pessoa. (...)” p. 142


Cf. Richard Rorty, Contingência, Ironia e Solidariedade, trad.Nuno F. Fonseca, Editorial Presença, Lisboa, 1992.

Essa descrição das pessoas, dos sabores, das luzes, da matéria, dos edifícios, jardins e cidades, foi-me dada a ler em português pela primeira vez pela editora Livros do Brasil. Porque a essa casa devo a tradução deste e de muitos outros livros com os quais creci, e porque é em português que eu sonho e penso, não quero deixar de lembrar aqui, agora que temos em oferenda a soberba tradução de Pedro Tamen, o esforço do tradutor Mário Quintana.

imorgado
 

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"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

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"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

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"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

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