Leitura Partilhada
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
 
“ ...a cultura, apesar dos saltos aparentes, é uma continuidade subterrânea...
( II – 191)

Troti
 
 
“O vagabundo queria também a sua hora de irresponsabilidade, de lazer, de ruminação. Farto de sensatez, de nunca ser inteiramente eu, de trazer dentro de mim um outro açaimado...sonhava com a minha própria unidade humana...”( II –p.189)

Troti
 
  "Ardia em muitas fogueiras ao mesmo tempo"
“Embora às vezes me sentisse desalentado, no íntimo estava seguro de que nenhuma força conseguiria deter-me ou arredar-me do meu caminho.
...
Que novos trabalhos me esperavam? Que triunfos? Que desilusões? Não sabia. Mas a ideia de partir ao encontro do desconhecido tinha um encanto enleante. Estar onde não estava, ver o que não via, fora sempre a fome a que nunca dera alimento suficiente. Chegava, engolia a paisagem humana e a outra dum trago, e passava adiante, na mesma avidez.”
( II . p.170)
...
.”
(II – p.175)

Troti
 
  Portugal, um mundo maravilhoso
As leituras conduzem-me invariavelmente a outras e, desta vez, resolvi recuperar os compêndios de história dos meus pais; por curiosidade em saber como era passada a mensagem por quem via as coisas do ponto de vista da Situação, isto é, num ângulo diametralmente oposto ao de Torga. Este texto de Mattoso (pai) é um pouco longo, mas muito interessante:

Quando constou que a nossa vida pública se moralizara e que Portugal havia encontrado o rumo perdido da sua grandeza, graças à acção governativa dum Chefe prestigioso, o Sr. Dr. Oliveira Salazar, muitos duvidaram da segurança da afirmação. Mas, a pouco e pouco, os factos foram confirmando o acerto e não foi mais possível duvidar da realidade. O nosso prestígio impôs-se definitivamente no mundo, nas relações internacionais, no concerto dos povos. Os grandes jornais mandaram os seus melhores representantes entrevistar os nossos homens públicos e consagraram-nos artigos altamente honrosos para a obra realizada; as esquadras das primeiras potências – Inglaterra, França, Alemanha, Itália, etc – vieram-nos prestar as suas homenagens de admiração e respeito; as nossas exposições no estrangeiro foram visitadas por um público mais numeroso, mais cuidado e mais culto; a nossa história, a nossa acção colonizadora e os nossos métodos civilizadores atraíram maior número de estudiosos; a nossa voz foi escutada e respeitada nos assuntos referentes aos grandes conflitos internacionais, como aconteceu com o caso da revolução espanhola; a nossa opinião foi solicitada com interesse para a solução de grandes questões de política mundial; o nosso País foi percorrido por professores, literatos, romancistas, cronistas, sociólogos, filósofos e políticos, que observaram cuidadosamente a nossa obra; e por toda a parte o “caso português”, o nosso sistema político e a nossa acção administrativa mereceram a atenção dos grandes jornais, das revistas de nome mundial e o estudo atento de homens eminentes, como: (…).

Graças ao Estado Novo, Portugal voltou a conquistar o seu prestígio no mundo. E este prestígio manter-se-á para glória eterna de Portugal, porque “por toda a parte o orgulho de ser português remoça o sangue dos portugueses de hoje e permite repousem tranquilas no túmulo as cinzas heróicas dos portugueses de ontem (discurso do Sr. Dr. Oliveira Salazar)”.


(António G. Mattoso, Compêndio de História de Portugal, aprovado oficialmente como livro único para o 6º ano dos liceus, 1938)

Que pena este manual ir apenas até ao início dos anos 30… Num país que pôs luto oficial no dia da morte de Adolf Hitler, tenho curiosidade em perceber como a II Grande Guerra era leccionada. Agora, continuemos com Torga.

azuki
 
  tertúlia
«Talvez que esse excesso de prcura e consciencialização nos afastasse humanamente uns dos outros. Literatos num sentido polemizante, ficava-nos pouco tempo para reparar no semelhante que vivia ao lado. E eu espantava-me de não ser capaz de encontrar entre aqueles companheiros de inconformismo e de ilusão um amigo que me desse tanto gosto de ver de vez em quando como o Alvarenga. Bons camaradas quase todos, tinham, contudo, os defeitos das próprias virtudes. Intelectualizados da cabeça aos pés, mal tocavam a realidade. Eram platónicos no amor, teóricos no desporto, metafísicos no convívio. A convicção de serem únicos distanciava-os do vulgo, tornando-os incapazes dum contacto permanente com as forças rasteiras da natureza.»

As tertúlias sempre me fascinaram, provocam-me admiração e inveja. Não tinha consciência desta frieza natural - o conceito romântico de tertúlia brilha nas minhas memórias de adolescente, e ainda não tinha sido revisto. Mas juntando vaidades individuais e desejos básicos de poder, humanamente talvez só seja possível este retrato que Torga nos faz.


Sinto, como muita gente que conheço, falta desta oportunidade de falar em grupo sobre livros, por exemplo. Volta a tal ideia romântica de tertúlia. Vejo que actualmente as tertúlias são virtuais, desenvolvem-se em blogues e em fóruns internáuticos, e continuam humanas e imperfeitas como a de Torga.

Excepção pessoal tenho-a aqui, neste blogue. Tinha de dizê-lo, apesar de poder não parecer bonito. Tenho pena de não o ter em muitos mais sítios, na net ou no espaço físico. Ah, saudades da Comunidade de Leitores, quem tem?

leitora
 
domingo, fevereiro 27, 2005
  a evolução da literatura
«Agarrado às novelas carlistas de Pio Barroja, o Alvarenga não podia compreender o novo tempo romanesco de Proust e de Gide, e menos ainda a sensualidade ambígua que documentavam em cada página. Ele, o imoralão viril, agoniava-se com os senhores De Charlus e Nathanael. Tentava chamá-lo à razão - depois de justificar os autores noutros planos mais significativos - e mostrar-lhe o que havia de corajoso e original naquelas revelações escabrosas. Inteiro e indivisível, o seu marialvismo não se rendia.»

Uma das coisas que admiro no Torga, e em muita gente de ontem e de hoje, é a capacidade de estar a par com o presente, de o acompanhar e avaliar.

Na maioria das vezes tenho a impressão que o presente nos ultrapassa, e que não somos capazes de o compreender.

leitora
 
  "A violência estava na própria vida"
“Cumprida a obrigação profissional, a devoção criadora. Arrumava o bisturi e pegava na caneta. E tinha a impressão de que continuava a abrir no papel os mesmos fleimões...As páginas sangravam como feridas rasgadas, e os poemas pareciam uivos...Testemunha de horrores, não podia entoar loas ao inefável. A violência estava na própria vida.”(II- p.147)

Troti
 
 
“...É PRÓPRIO DA NATUREZA HUMANA A AVENTURA, EMBORA ÀS VEZES À CUSTA DA PRÓPRIA DESTRUIÇÃO.”(II –p.149)

Troti
 
 
“Entre quatro paredes nuas, a minha propensão ascética encontrou pé. Limitado ao estritamente indispensável, sem cuidar de adquirir um móvel ou uma gravura de enfeita para encher aquele vazio, comecei a povoá-lo de imaginação.
(II –p.134)

Troti
 
  Partiria...
“Uma voz que só eu ouvia segredava-me a toda a hora que nunca conseguiria ser nada em coisa nenhuma atado à estaca familiar. Partiria, pois, embora não vislumbrasse em todo o mundo um lugar onde coubesse."
( II – p.129)

Troti
 
  Desesperava...
O último livro que publicara fora um fracasso...Faltava-lhe oficina. Era apenas o esqueleto dum corpo imaginado. Mas precisava de me libertar dele, de o tirar do pensamento, e passar à frente.”( II – p.125)

...

De vez em quando, era num estalão imprevisto que desesperava do meu tamanho humano( II – p.126)

Troti
 
 
Médico! Desgraçados doentes que estivessem á espera da ajuda de semelhante doutor!
...
depois de tirar a capa e ficar outra vez em pêlo, olhei-me ao espelho. A limpidez do cristal até os movimentos reflectia. Que miséria de corpo e que pobreza de espírito! Nem força física, nem mental.
Esquelético por fora e por dentro...
E tive pena de mim. Na hora em que esperava merecer da vida a alegria íntima do triunfo, tinha na minha frente a imagem dum homem aterrado.”
( II –p.107)

Troti
 
 
Fora realmente ali um habitante equívoco. Apesar das aparências – às vezes eu próprio caía no logro -, o meu espírito estivera sempre longe, perdido ou achado na terra dos homens inquietos. Agora andava ele do lado de lá da fronteira, a combater.


nastenka-d
 
sábado, fevereiro 26, 2005
 
“O tempo ...ensinara-me que no essencial não se pode ajudar ninguém.”
(II – p.168)

Troti
 
 
“Mal abandonara a Vanguarda, fundara uma revista independente, Facho, que morreu ao nascer. As boas intenções de fazer dela um farol de nova luz, não bastaram. Sobreestimara as próprias forças....faltava-me voz para dizer aonde queria ir. E falhei. O primeiro número que apareceu foi um desastre. Era ingénuo e tumultuoso. Quase todo preenchido por mim, além dessa gaguez expressiva, patenteava ainda uma evidência que o não recomendava a ninguém: a minha solidão. Com o tempo, porém, fui aprendendo a formular mais claramente o que ali apenas soubera balbuciar, arranjei colaboradores, e consegui lançar outra folha, Trajecto...
Queríamos uma arte rebelde, enraizada no circunstancial...Procurávamos um caminho de liberdade assumida, onde nem o homem fosse traído, nem o artista negado...Transitórios e condicionados, sabíamos no entanto que só merece a vida quem é capaz de tudo jogar por ela...Sonhávamos o mundo unificado num esforço mútuo de colaboração, cada qual na sua intimidade inviolável.”
( II – p.160 a 162)

Troti
 
 
“Um Portugal velho e rotineiro, de senhores e servos, estava ali vivo e presente. De mão vazia, ninguém pedisse justiça, conforto divino, instrução ou saúde. Parasitas do povo, o padre, o médico, o professor e o juiz, em nome de Deus, do saber, da lei ou de Esculápio, exigiam-lhe todas as formas de preitesia, a começar pela mais concreta: o óbolo dos frutos da terra...Crédulo e submisso como há mil anos, o camponês gemia, mas esvaziava a salgadeira, a tulha e o curral.”( II –p.150)

Troti
 
  o primeiro livro
«Mal as primeiras críticas apareceram, algumas maldosas ou imbecis, outras justas, e todas reprovativas, o Alvarenga só viu um caminho que recusei seguir: tirar a desforra a soco.
Era uma péssima estreia, que tinha, contudo, dois méritos: o do comprometimento e o da objectivação. Bem ou mal, entrara na liça; estampada, a mediocridade via-se mais claramente.»


Deste homem cerebral era esperada tal descrição a posteriori. Mas sinto falta da generosidade de uma partilha emocional. O homem duro, que nada demonstra, decerto doeu-se com as críticas, porque foi o poeta esperançado que editou a sua primeira obra. Nem com o diário terá sido sincero e demonstrado a dor, ainda que provisória? Pelo menos aqui, na Criação, mantém todas as capas e escudos de protecção.

leitora
 
 
Nas horas de maior desespero, ia pedir à arte um pouco de alívio. E, em vez de mitigar, exarcebava o sentimento. A consciência perfurante das minhas limitações, e a dificuldade expressiva, que me fazia quase chorar de raiva sobre cada frase, transformavam o acto criador um acto inquisitorial, onde eu fazia simultaneamente de juiz, de carrasco e de réu.

nastenka-d
 
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
  Será que o amor é um jogo?
Querida Troti, aqui vai a minha resposta…

Eu julgo que sim. Não apenas porque se trata de um estar que pode e que deve significar momentos de recreação mas, sobretudo, e como qualquer forma de interacção humana, porque envolve conflito, com uma ou várias soluções comportamentais (nunca lineares, claro!), que deveriam ser a “melhor” forma de cada um dos amantes proceder. Como tal, existem regras e combinações próprias, sendo que cada indivíduo dispõe das suas cartas, para jogadas e apostas várias, num contexto de confrontos a diversos níveis: afectivo, sexual, ético, cognitivo, material, estético...

Porque a definição de jogo não deve ser restringida aos momentos lúdicos, mas também entendida como um conjunto de estratégias, de alianças, de compromissos, que advêm de contratos (ainda que tácitos), com consequências que podem significar a prossecução ou não das metas desejadas. Cada comportamento tem repercussões sobre o outro, nenhum acto persiste de forma isolada. Medem-se esforços e respectivos benefícios… Enfim, não existem relações humanas pautadas unicamente pela harmonia, estando sempre presentes o confronto, a colaboração, diferentes graus de informação, aspirações diversas, expectativas díspares, leituras muito próprias, etc.

A grande questão é que o amor é um jogo de cooperação, e não de competição. Trata-se de um conjunto de possíveis combinações ganha-perde mas com uma especificidade: neste caso, a racional teoria dos jogos mandaria que ganhassem ambos os intervenientes…

(a Teoria dos Jogos é a análise matemática de situações que envolvam interesses em conflito, propondo as melhores soluções de actuação, com vista à obtenção dos objectivos desejados. Fala de expectativas e de comportamentos, de conflito e de cooperação. Ou seja, interpreta as escolhas e constrói modelos de jogos de estratégia, sendo que os agentes irão escolher os comportamentos que lhes sejam mais vantajosos, de acordo com um cálculo de probabilidades e da satisfação máxima da sua utilidade. John von Newmann, que publicou em 1944, em conjunto com Oskar Morgenstern, o livro Theory of Games and Economic Behaviour, refere que um jogo será uma situação definida por interesses competitivos, em que cada um procura maximizar os seus ganhos. E isto é válido, desde o xadrez, à política, à economia, à estratégia militar, aos comportamentos sociais,… e, porque não?, ao amor…)

Na dialéctica conflito/colaboração, podemos sempre escolher soluções comportamentais que signifiquem: favorecer ambos, prejudicar ambos, favorecer-me e mim e prejudicar o outro, prejudicar-me a mim e favorecer o outro. O desafio de cada amante, para além da questão óbvia de manter a chama acesa, é perceber que vai ganhar se ajudar o outro a ganhar, no sentido em que os interesses deverão convergir e os momentos de luta ser aplacados. Até porque, no mundo dos afectos, dar é a primeira forma de receber. Entre conflito e colaboração, só deveria existir um caminho no jogo do amor.

Em suma, mesmo que esta ideia de encarar o amor como um jogo não seja apelativa, a verdade é que ela está sempre presente, ainda que de forma não consciente. No amor, há que estabelecer e entender as regras e definir comportamentos; no limite, chegar a criar um personagem que se adeque o melhor possível aos interesses do casal. Sejamos realistas, as relações humanas são feitas de tomar e de dar, de conceder e de obter. Um marido que não ajuda a mulher nas tarefas domésticas deverá julgar saber que as consequências negativas da sua forma de estar serão menores que um confortável sono no sofá enquanto ela se esfalfa na cozinha… na cama, a mesma coisa; e por aí fora. Ganhar o jogo será encontrar formas inteligentes, éticas e sempre norteadas pela afectividade, de receber e de dar, que se consubstanciem na escolha de um caminho que permita ao casal retirar, da vida em conjunto, o máximo possível de gozo, bem-estar, cumplicidade, partilha e apaziguamento.

azuki
 
  Carlos Alvarenga
«- O casamento é uma violência - dizia. - Concebe-se lá que um homem seja condenado a vida inteira a dormir com a mesma mulher! Amar obrigatoriamente! Livra!»

leitora
 
  Será...?
Torga é um autor discreto relativamente à sua intimidade. Não nos revela os ímpetos de amante nem a arrebatação, muito menos a exaltação que o "amor" merece. Mostra-se cerebral neste campo e as suas palavras são uma facada.

“...o amor é um jogo em que se perde sempre. Todo o enigma está na maneira como cada qual reage à derrota."
( II –p.122)


Será que o amor é um jogo em que se perde sempre?
Será que o amor é um jogo?
Que acham?


Troti
 
 
“Não acreditava em Deus, mas acreditava na poesia.”
( II – p.103)

Troti
 
 
“A consciência perfurante das minhas limitações, e a dificuldade expressiva, que me fazia chorar de raiva sobre cada frase, transformavam o acto criador num auto inquisitorial, onde eu fazia simultâneamente de juiz, de carrasco e de réu.
...
o sentimento íntimo, que sempre tivera...de que o artista era um penitente solitário a enfrentar o absoluto, recrudesceu.”

( II – p.101/102)´

Troti
 
 
“Amava e destruía o amor; membro dum grupo literário avançado, deixara-o e ficara só; deslumbrado por um clarão de fé, mergulhara de novo na escuridão da descrença; em vésperas de partida para a vida prática, andava atormentado.
- Feitio excomungado, o teu! Ou te modificas, ou estás desgraçado...
- Mudar, eu?
Tinha a impressão de que os anos iam enrijando certas regiões do meu carácter. Era uma espécie de dureza progressiva, contra a qual todos os guilhos da ambiguidade, do convencionalismo, dos interesses e da conivência se quebravam. Esse monolitismo tornava cada vez mais difícil um dia a dia em que os passos bem sucedidos pressupunham maleabilidade, brandura, adaptação. Mas, embora visse claramente as vantagens de ser doutra maneira, sabia que estava condenado a pagar à vida o duro tributo da sinceridade. Nascera inteiriço, continuaria inteiriço, fossem quais fossem as consequências.”

( II –p.100/101)

Troti
 
 
“...dois homens opostos viviam dentro de mim. O campónio de Agarez, a caminho da formatura, pragmático, acautelado, instintivamente necessitado de prolongar a espécie, e o poeta, sedento de absoluto, inconformado com a precaridade das coisas terrenas, insocial e rebelde. “
( II- p.90)

Depois de ter lido algumas obras de Torga, sinto que ele viveu esta dualidade até ao fim da sua vida.

Troti
 
  Brasil, um outro universo
Casais furtivos e rivais desafiados amavam-se, desfloravam-se e matavam-se nas sombras, bêbados de aguardente, de versos e de cio. Um Brasil imenso e sensorial, dramático e nocturno, de canaviais, matas virgens luxuriantes, longos caminhos de terra batida e sol abrasador. Um Brasil da revelação da vida a acontecer, com naturalidade, longe do espírito amarrado desse Portugal pequenino que pensa pequenino, que tolhe, que se esconde, que se escandaliza.

Curioso de tudo e sensível à qualidade de cada coisa, fora dessas horas infelizes considerava aquele Brasil um deslumbramento. (...) Era uma terra nova nuns olhos novos. (...) E aquele pedaço de Minas parecia um recanto do paraíso. Um Brasil musical, ritual, miscigenado com sangue de escravo. Brasil do calor sufocante, do espaço infinito, da sexualidade desabrida, do candomblé, da natureza solta, à flor da pele, dos espíritos e dos feiticeiros, das plantas a brotar do nada e do desassombrado coito dos animais. Brasil, um outro pulsar, mais quente, mais vivo, mais terreno, mais arrebatador, mais natural.

azuki
 
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
 
«A literatura e a lenda envolviam a natureza e os monumentos dum halo transfigurador.»


leitora
 
  28 de Maio de 1926
Um golpe militar derrubara o governo constitucional, e instituíra uma ditadura.

nastenka-d
 
 
“À porfia, cada qual ia descobrindo o seu autor. Joyce, Chestov, Bergson, Fernão Mendes Pinto, Dostoievsky passaram a conviver connosco à mesa do café. Era um arco-íris humano que abarcava o mundo. Fiéis à grandeza do passado, esforçavamo-nos por dar-lhe continuidade e renovo. Erguíamos os precursores aos pedestais da compreensão e da glória, orgulhosos deles e de nós. Até nas tabernas da boémia desfraldávamos o pendão da revolta, no esforço hercúleo de abalar as raízes da Coimbra petrificada na tradição.
...
Queríamos ser a autenticidade dum Portugal local, que desejávamos tornar universal.”

( II – p.83/84)

Troti
 
 
“Incapaz de responder às urgentes interrogações que lhe fazíamos, e agora sem prestígio moral, a Universidade passou a um plano secundário na minha vida. Toda a burocracia escolar – aulas, chamadas, frequências, exames -, deixou de ter outro sentido que não fosse sair o mais depressa possível de tal engrenagem. Só fora dela, e contra ela, o espírito podia caminhar.
...
As pequenas tricas de grupo, as ambições pessoais de alguns, os fracassos e as dificuldades, não impediam que o sonho tivesse horizontes rasgados e nobres. Podia um ou outro querer apenas uma candeia; juntos, queríamos o sol.”

( II – p.82/ 83)

Troti
 
 
“Amava a pátria, evidentemente, e estava pronto a defendê-la, se fosse preciso. Mas havia um abismo entre esse íntimo compromisso e a retórica do capitão. Civil por temperamento, saíra daquela dura aprendizagem de regulamentos e obediência também paisano por convicção. Sabia agora de ciência certa que nunca me sentiria cidadão livre dentro dum uniforme, perfilado diante de ninguém.”
( II – p.80)

Troti
 
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
  Carta de Fernando Pessoa
Lisboa, 6 de Junho de 1930.


Meu presado Camarada:

Muito agradeço o exemplar do seu livro "Rampa". Recebi-o já há alguns dias. Só hoje posso escrever para lho agradecer. Li-o, porém, logo que o recebi.

Li-o e gostei dele. A sua sensibilidade é de tipo igual à do José Régio – é confundida, em si mesma, com a inteligência. O que em si é ainda por aperfeiçoar é o modo de fazer uso dessa sensibilidade. Há que separar mais os dois elementos, que naturalmente a compõem; ou que confundi-los ainda mais. Uma análise instintiva que coloque a sensibilidade desintelectualizada perante a inteligência dessensibilizada, em contraste, diálogo e reparo; ou uma síntese em que desapareçam os traços de haver dois.

Não creio impossível que qualquer, ou ambos, destes processos sejam por si atingidos num futuro próximo da sua consciência de si mesmo.

Intelectualmente – e portanto artisticamente – falando (a arte não é mais que uma manifestação distraída da inteligência), a sensibilidade é o inimigo. Não o inimigo que se nos opõe, como na guerra, mas o inimigo a quem nos opomos, como no amor. Há que vencer, pois, não por esmagamento, mas por sedução ou domínio. Chamar a sensibilidade para dentro da casa da inteligência; ou fazer a inteligência montar casa externa à sensibilidade. Imagens? Como o universo... Mas, em suma, gostei do seu livro, e por ele o felicito.

Com a melhor camaradagem e apreço


Fernando Pessoa



Troti
 
  SER LEAL
“Necessitava, portanto, de ser leal para quem me lia, de corresponder à sua confiança. Não deixar a verdade sepultada no tinteiro, nem a sinceridade disfarçada na penumbra das palavras.”
(II – p.75)

Acho que esta frase define a escrita de Miguel Torga.

Troti
 
 
“...eu seguiria o meu(caminho), de rebeldia e lucidez.
( II – p.74)

Troti
 
 
Diante do primeiro cadáver que dissequei, certas palavras que até aí me pareciam rarefeitas, ganharam sùbitamente não sei que densidade. Morte foi uma delas...E um ser aterrado emergiu das profundezas do homem...
Na “Balada da Morte” que então escrevi é que assinei verdadeiramente o meu pacto com Orfeu. Toda a miséria humana e toda a angústia da vida no paroxismo dum grito."
( II – p.73)


Balada da Morgue

ao João Gaspar Simões

Olho este corpo morto aqui deitado
E sinto impulsos de beijá-lo e ter
Toda a força de beijá-lo
Com sugestões de prazer...

Que bruta sinceridade!
Que humildade!
Que vaidade!
Que mentira! Que verdade!
Todo nu! Eu pressenti-o
Dando desejo e fastio...

Não é de mulher, não é;
Nem d´homem; nem d´animal
Irracional:
É d´Anjo predestinado
Que foi sacrificado
Para dar a noção exacta da renúncia!...

Ai! Dos corpos metidos em sarcófagos!...
Ai! De quem morre vestido!...
Nesta luxúria da Morgue
Há todo o satanismo
Que nos foi prometido
No Final...

São os gestos parados;
Os olhos vidrados;
Os ouvidos tapados;
Os sexos castrados
E, por cima de tudo, o silêncio das bocas!

Quero
Amar este sol da terra
Que mostra o calor do céu...
Anda aqui toda a loucura
Da razão que não morreu
Nos sonhos dessa Lonjura
Que nos fez, que nos perdeu...

Miguel Torga
in "Rampa" 1930


Troti
 
 
“Já matriculado na Universidade, publiquei o meu primeiro livro de versos. Uma pobre colectânea de sonetos e canções, que mais tarde destrui....A espécie de volúpia que senti ao ver as provas na mão...No sábado em que o voluminho foi à venda, parecia febril....Mal as primeiras críticas apareceram, algumas maldosas ou imbecis, outras justas, e todas reprovativas, o Alvarenga só viu um caminho que recusei seguir: tirar a desforra a soco.
Era uma péssima estreia, que tinha, contudo, dois méritos: o do comprometismo e o da objectivação. Bem ou mal, entrara na liça ;estampada, a mediocridade via-se mais claramente.”

( II – p.72/73)

Troti
 
 
«Ia pouco a pouco descobrindo que os autores procuravam criar, através das personagens que punham em movimento, símbolos perenes de realidades quotidianas. A encarnação do mal, de que a minha tia era um exemplo vivo, tinha uma representação ideal que se chama Megera...»

Nas palavras do autor, este livro é crónica/romance/memorial/testamento. Em que a sua pessoa é a personagem principal, ao lado, provavelmente, do meio em que viveu. Autor/personagem, também ele um símbolo, de orgulho, de luta, de intransigência?

Tal como aconteceu com a Recherche, vou arrastando questões em paralelo à leitura, aguardando por um eventual último volume anunciador.

leitora
 
  .. enquanto o corpo se desenvolvia em tamanho, a alma apenas medrava em amargura.
Um choro amargo de desamparo começou a cair-me dos olhos. (...) A mala, a única certeza concreta que me restava. (...) A noite, cada vez mais negra, apagava na alma toda a esperança. (...) E comecei a chorar, de angústia e de medo. Angústia de me ver sozinho no mundo; e medo daquele Brasil assim nocturno, abafadiço, irreal, com pios medonhos, sem qualquer luz a acenar ao longe. (...) Nada do que aprendera em Agarez me servia ali. Encontramos um Segundo Dia mais dramático, porque despido de ternura, solitário, assustado e triste, mas, ao mesmo tempo, inebriado, livre, apaixonado; um Brasil em que o rapaz se transforma em homem, começando a ter noção das suas capacidades, levando-as ao limite, por brio e por raiva. Tinha a impressão que íamos conquistar o Brasil. Era o último a deitar-me e o primeiro a erguer-me. Não parava de manhã à noite. (...) .. desenterrava da vontade e do corpo quantas energias tinha, a dar conta do recado o melhor que podia, por brio natural e reacção ao ódio dela. Como se não parar fosse uma forma de esquecer, de não se pensar. E eu sequioso de ternura, sem a receber, comido de desejos, sem os satisfazer, moído de trabalho, sem uma palavra de aplauso. (...) Os potros, os leitões, os novilhos tinham diariamente quem zelasse por eles. Eu, não. Era uma simples máquina de trabalho. Talvez tenha sido esta a salvação, aturdir-se roubando espaço ao lamento, ao mesmo tempo que a natureza lhe concedia a graça de uma boa cabeça, porque outros tantos teriam ficado chalupas.

azuki
 
  A liberdade assusta
No dia seguinte, quando acordei, no sítio onde ainda de véspera vicejava a mandrágora, havia uma cova.
Cuidei a princípio que ficara a dever à refrega e aos vómitos apenas essa catarse sentimental. Mas verifiquei com espanto, logo a seguir, que estava enganado. O efeito fora mais amplo, alargara-se a outros recantos da personalidade. Era como se me tivessem varrido por dentro, e um grande espaço, até ali atravancado, ficasse desobstruído. E senti pela primeira vez o gosto acre da total disponibilidade.


nastenka-d
 
terça-feira, fevereiro 22, 2005
 
“... senti pela primeira vez o gosto acre da total disponibilidade. Agora, sim, tudo quanto eu fizesse ou desejasse seria uma opção voluntária, da minha inteira responsabilidade.
Pus então em causa a resolução que tomara anteriormente de cursar medicina. Teria escolhido bem? Pesara todas as consequências do passo que ia dar? Não viria a arrepender-me mais tarde?
Acabei por concluir que devia manter a decisão. Sem qualidades pedagógicas, canhestro em línguas, inimigo de códigos e sentenças, e, sobretudo, cioso de liberdade, só na arte de Hipócrates poderia encontrar ao mesmo tempo uma profissão e um caminho humano paralelo ao que, sem diplomas de nenhuma espécie, tencionava seguir. Serviria dois amos, dando a ambos o mesmo devotamento e a mesma fidelidade. Dos honrados serviços prestados a um, tiraria o pão da boca; do inquebrantável esforço dado ao outro, nada receberia. Era uma pura imolação."

( II – p.71/72)

Troti
 
 
“Do pé para a mão, saíam-me catorze decassílabos filosóficos, que até o infinito tremia. Nas quadras nem tanto. Mas nos tercetos esmerava-me, e dava o dó de peito. Quando fui apresentado ao Dr. Marinho, cantor e poeta célebre na Academia, li-lhe à queima-roupa uma produção dessas. Nem eu sei como venci o pudor...
- Grande fecho! – sentenciou no fim...
-Não tenha dúvidas! Um fecho formidável!
Graças a Deus! Era a primeira benção autorizada que recebia....E quando a recebi senti-me dono do mundo.”

( II - p. 62)

Troti
 
  O regresso
«Por detrás da bruma que pouco a pouco ia cobrindo tudo, ficava a terra onde deixava cinco anos de vida. E a alma, magoada, negava-se a cobrir de saudades prematuras esse chão já só vislumbrado, esquecida de que não guardava apenas dele imagens tristes.»

leitora
 
  Nasceu um novo rapaz
«A cidade, agora, tinha outra realidade. O ingénuo rapazinho que a vira em espanto e desespero à chegada do Arlanza, morrera.»

leitora
 
 
Aprendera a objectivar a vida. Caminhava no chão. As palavras, os gestos e o próprio silêncio assumiam finalmente a crua função expressiva.

nastenka-d
 
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
 
“A vê-los viver uma vida insegura, apertada econòmicamente, mas rica de amor, de sensibilidade e de cultura, encontrara a resposta que há muito a alama me pedia. Aprendera ali pela primeira vez que a existência, esvaziada de certos valores, pouco ou nada significava.”
( II – p.58)

Troti
 
  Trama
«eu fiquei sozinho na espessura da mata, a olhar o emaranhado de caules e ramos, e a sobrepor, sem querer, àquela urdidura vegetal, a trama da minha própria vida.»

leitora
 
  O Segundo Dia
E fui ficando irremediavelmente sozinho no mundo. (...) Estava disposto a tirar-me dali. (...) À febre de aprender, juntara-se um sentimento surdo de revolta. (...) Brasil: até ali conhecia eu o mundo. E não era bom. Seria o resto melhor? Uma extraordinária força anímica e mental para mudar o estado de coisas! Ao contrário da maioria dos conterrâneos, a quem a ideia talvez nem passasse pela cabeça, Torga não se contenta nem se ilude. Irá desafiar a existência a que estaria destinado, despachando-se para o desconhecido. (...) Era como se Portugal fugisse de mim, e eu dele. E pretende fazer as coisas bem feitas, dê por onde der, custe o que custar, mesmo que isso signifique uma longa caminhada, escura e solitária.

azuki
 
  Crescera por fora e por dentro. Nem a mais leve sombra da confusão de outrora
.
nastenka-d
 
  UM POEMA
Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


Miguel Torga, Diário XIII

Troti
 
domingo, fevereiro 20, 2005
 
“Obstinado, quantos mais obstáculos via no caminho, mais vonrtade sentia de os transpor. Tímido por natureza, encarava as dificuldades apavorado e seduzido, ao mesmo tempo.”
( II – p.53)

Troti
 
 
“Passava os dias numa espécie de delírio febril, a calcorrear a serra de lés a lés...E, atingido o cume mais alto, a fraga mais escarpada, ficava horaas e horas estendido ao sol, de barriga para o ar, a olhar o azul puríssimo do céu.
Nunca tivera tempo para fitar demoradamente as coisas e os seres. E desforrava-me finalmente dessa fome profunda, a seguir maravilhado os passos cautos e soalheiros de uma lagartixa, os trâmites de uma flor a abrir, a caminhada espessa e morosa de uma nuvem. E, se não descobria o sentido último de cada fenómeno, de cada frémito, pelo menos guardava deles a emoção de os haver surpreendido. Atordoado na meninice e escravizado na adolescência, só agora podia renascer ao pé de cada rebento, correr a par de cada ribeiro, voar ao lado de cada ave.”

( II –p. 51)

Troti
 
 
“ - Gostava de ser advogado?
- Escritor, minha senhora...”
( II – p.40)

- Sempre é doutor em leis que queres ser? – perguntava... meu pai...
- Médico, talvez...- e arredava a conversa.

( II – p.51)

Troti
 
 
«Não estava arrependido. Mas também pouco ganhara com a troca. Em Lamego, ao menos, sempre aprendia coisas que me interessavam. Ali, nem de um segundo dispunha para outras preocupações que não fossem as do serviço quotidiano. Ninguém queria saber dos meus íntimos desejos e aspirações. Os potros, os leitões, os novilhos tinham diariamente quem zelasse por eles. Eu, não. Era uma simples máquina de trabalho.»

Não sei explicar o sentimento com que leio estas palavras. Recordo que são ditas por pouco mais que uma criança, e altero o efeito que elas têm em mim. Incomoda-me ouvi-las de adultos, ou senti-las ressoar dentro de mim. Pela passividade e autocomiseração que incluem. Não é o caso, aqui, bem sei. Mas não evito um arrepio de identificação.

leitora
 
  Mas tinha de me convencer de que nunca acertaria o passo com a imaginação
.
nastenka-d
 
sábado, fevereiro 19, 2005
 
“Os meses passados entre companheiros mais novos do que eu, com quem apenas podia falar de lições e de programas, tinham-me feito descobrir uma riqueza inédita: a solidão rodeada de livros.”
( II – p.41)


Troti
 
  Brasil IV
«Curioso de tudo e sensível à qualidade de cada coisa, fora dessas horas infelizes considerava aquele Brasil um deslumbramento. Era um tatu que à minha vista fez um buraco com as patas, e se enterrou no seio da terra num abrir e fechar de olhos; eram pacas bonitas e rápidas a atravessar as veredas como relâmpagos; eram tucanos de bicos assombrosos; eramformigueiros gigantescos, que pareciam talefes. Era uma terra nova nuns olhos novos. Quando a cancela do terreiro me batia atrás das costas, então é que a vida começava. Os macacos baloiçavam-se nos cipós, as preguiças dormitavam nas embaúbas, um abacaxi maduro enchia o ar de perfume... E aquele pedaço de Minas parecia um recanto do paraíso.»

Olhos novos e olhos renovados. Renovados pelo efeito que o Brasil tem, naturalmente. Mas os olhos não deixam de ser de uma criança ainda, apesar da vida que tem levado. Esta ingenuidade que o autor mantém nas descrições deste segundo dia, tão próximas da personagem, aumenta o lado encantatório da aventura. Mais tarde, com a personagem adulta, o tom descritivo muda completamente.

leitora
 
  Sondagem
Angústia marginal dos mares humanos...
É mais dentro e mais fundo que me dói.
Nem ondas, nem destroços
Dos meus ossos
Na mortalha passiva do areal.
O largo desespero inconformado,
Onde cada queixume enrodilhado
É um soluço abissal.

Progressiva adição do sofrimento,
É como se os ribeiros,
E as torrentes,
E os rios
E os lagos que há no mundo
Se juntassem num trágico oceano
Sem margens de sossego.
Oceano maldito e penitente,
Que o vento persistente
Da ilusão
Lavra e semeia
De versos e de acenos de sereia.


Miguel Torga, Orfeu Rebelde (1958)


riverrun
 
sexta-feira, fevereiro 18, 2005
 
“A bruma moral da meninice ia-se também dissipando. Descobria, surpreendido, que havia em mim uma ânsia de pureza de que até ali nem sequer suspeitara.”( II – p.32)

Troti
 
 
"- Que pau de virar tripas te puseste, rapaz!
Também eles hesitavam diante do meu crescimento tropical. O período adolescente da minha vida não lhes pertencia, e sentiam dificuldade em ligar inteiramente o menino que partira ao esgrouviado que regressava.
Arrefecia-nos ainda outro gelo: a pobreza. A ausência cobrira tudo de uma saudade doirada. E a realidade permanecia inalterável."

( II – p.22)

Troti
 
  Brasil III
«Tinha a impressão que íamos conquistar o Brasil.»


leitora
 
  Brasil II
«A avaliar pelo que via, o Brasil, o Brasil que me ia enriquecer como a toda a gente, era uma casa enorme suspensa numa lomba por meia dúzia de esteios de madeira, celeiros e cocheira ao lado, um terreiro enorme em frente, moinho, chiqueiro e vacaria em baixo, ao pé do ribeiro, laranjeiras carregadas no pomar, à direita, e arvoredo cerrado a toda a volta.
Mas a visão alargou-se, pouco depois. Havia ainda quilómetros e quilómetros de cafezais, encostas plantadas de cana do açúcar, várzeas cobertas de arrozais, extensões enormes de mata virgem (porque o que eu via eram simples capoeirões), montes e montes cobertos de capim, onde pastavam grandes manadas de gado, o engenho, a usina, o alambique, um rio do tamanho do Corgo - e pretos e pretas a torto e a direito.»

A confirmação do mito, e o paralelo desta riqueza natural das fazendas brasileiras com a agreste terra natal. Estranho que esta forma ingénua de olhar o Brasil é muito anterior a Torga, e de certa forma dura até hoje...

leitora
 
  Por vezes, falta-nos ter menos...
... basta partir nesta direcção, e pareço o cão do Pavlov: todo eu segrego baba emotiva. Agarez (S. Martinho de Anta) é a terra natal do escritor e o centro do seu mundo. Não obstante momentos menos bons (após a formatura entende que, caso se mantenha naquele lugar, nunca conseguirá preencher-se como médico e revelar-se como escritor), Miguel Torga não cessará de o invocar com ternura. Irá repetir várias vezes essa viagem de regresso à ruralidade, a primeira matriz de que é feito.

Todos os anos, passo uns dias numa aldeia perto de Ribeira de Pena, Vila Real. É uma vivência especial, muito diferente do meu dia-a-dia, e que me purifica a alma. Sou observada minuciosamente por vários olhos curiosos (quem é aquela menina??); tenho alguma dificuldade em explicar que não rezo e que não vou à missa, existindo muitos outros assuntos que não devo abordar, sob pena de ser olhada como um ovni; sou instada a ingerir quantidades industriais de comida (tem que comer porque lhe faz bem…isto não engorda nada!); a cada encontro, a ladainha do vai-se andando.. e os típicos jargões, muletas de um discurso que não muda de pessoa para pessoa,… mas sinto-me grata pela possibilidade de fruir do contacto simples e terno com pessoas e gestos autênticos, cumprimentar todos por quem passo, ajudar os vizinhos na faina, encontrar todas as portas abertas…

Aquela gente ainda mói as mãos e as costas com o trabalho do campo, mas os pais já começam a querer um outro futuro para os filhos, os adolescentes desejam partir, as crianças têm o que os progenitores nunca imaginariam ter; aquela gente passou fome a sério, e frio, uma penúria de fazer dó; iam para os campos dos vizinhos ricos roubar fruta para enganar o estômago e, de muito novos, empregavam-se como criados nas casas dos senhores; mesmo que quisessem, as mulheres não tinham hipóteses de vida melhor, todos os anos com um filho no bucho; e os homens emigravam ou iam para as obras; nunca tiveram brinquedos e o Natal era apenas um enorme vazio. No entanto, são pessoas de sorriso aberto, com felizes recordações da sua infância despida.

Talvez um dia venhamos a concluir que falta, Hoje, a muitas crianças e jovens, ter menos. Faz parte da natureza humana não valorizar aquilo que se tem e estou convencida que não ter, ou nos torna insuportavelmente azedos, ou nos dá uma estaleca bestial para enfrentar a vida. Excesso de tudo, amolece. E provoca a imensa angústia de não se saber o que se desejar e por que se lutar.

azuki
 
  Quem abrisse os olhos, via o que quisesse.
E essa naturalidade pegava-se. Excitava os sentidos que, no fim de cada dia de trabalho intenso, pareciam ainda mais alvoroçados.

nastenka-d
 
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
 
“ As palavras, os gestos e o próprio silêncio assumiam finalmente a crua função expressiva.”
( II – p.10/11)


E quanta expressão pode estar contida no silêncio, quantos gritos quedam inertes na impossibilidade, quantos sonhos se abafam na negação, quantas emoções se exaltam na obscuridade. A aprendizagem do silêncio é uma etapa essencial para a sobrevivência interior. Mas é um caminho muito difícil.

Troti
 
  Brasil
«Os nomes das terras que a seguir foram aparecendo, ia-os lendo da janela do comboio. Petrólopis, Entre Rios, Recreio, Cisneiros... Quanto à paisagem, acabara por desistir de a fixar. As serras, os rios e as florestas eram de tal maneira que não cabiam dentro dos olhos

Sublinhado meu, sentimento comum. Não dando habitualmente sossego ao disparador da máquina fotográfica, já tive momentos assim; o cenário é de tal maneira que nenhuma máquina o poderia captar com grandeza. Antes apenas a memória, do que a traição de um retrato incapaz. (Ou será um subterfígio meu para garantir um regresso? Também já me aconteceu...)

leitora
 
  Traulitânia
Li esta palavra n'O Primeiro Dia. Nunca tinha ouvido falar. Não, não é uma província italiana ou um país do Magrebe. É a chamada Monarquia do Norte, que alguns dizem ter sido a única mancha anti-democrática da cidade do Porto!!!

19 de Janeiro de 1919: A Monarquia é proclamada no Porto e em Lisboa. Organiza-se uma Junta Governativa do Reino, dirigida por Paiva Couceiro, que declara o Estado de Sítio. Este muito efémero movimento ficará conhecido por Monarquia do Norte ou Traulitânia. No entanto, a revolta é subjugada no Sul a 24/Jan, embora o Norte tenha resistido até 13/Fev, dia em que, após combates em todo o litoral centro, a guerra civil termina, com a entrada dos republicanos no Porto.

azuki
 
  Mosaico
Começaram por peças articuladas entre si por fios mais ou menos invisíveis – ou que assim nos parecem, longe que estamos de os perceber a todos – as recordações sucederam-se em saltos no tempo, como todas as memórias de infância. Agora a narrativa é mais linear – o primeiro dia é já apenas um amontoado confuso de ecos...
nastenka-d
 
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
  Letreiro
Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim — meu principal motivo
De insatisfação —,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Miguel Torga, Orfeu Rebelde (1958)


riverrun
 
 
“Tinha fome, sim, mas não era de pastéis e goiabada. Tinha fome de ser como aquele rio, que de novo corria ao lado, livre, forte e caudaloso, levando apenas à tona outros troféus: os dentes postiços da minha tia, que me mordiam, e o seu vestido de folhos, que me envergonhava.”
(I – p. 224)

Troti
 
  Porto
«Da ponte sobre o Doiro, no Porto, olhei a cidade onde vivera pela primeira vez longe do ninho. Lá estavam as torres da Sé, a que subira para ver os horizontes com mais largueza, a Ribeira, que percorrera a espreitar a miséria em cada porta, as Fontaínhas, que me tinham deixado nos sentidos um S. João sem nenhuma santidade. Até ali conhecia o mundo. E não era bom. Seria o resto melhor?»

leitora
 
terça-feira, fevereiro 15, 2005
  LIVRO de HORAS
Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.
Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.
Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

Miguel Torga
«O Outro Livro de Job». Coimbra, Ed. Autor, 1936

Troti
 
 


Retrato de Miguel Torga a óleo por Guilherme Filipe

Troti
 
  IDENTIDADE
Matei a lua e o luar difuso
Quero os versos de ferro e de cimento
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo coração que se debate aflito
e luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.


Miguel Torga
"Penas do Purgatório"

Troti
 
 
“Pouco ou nada me prendia mais àquela pequena cidade cheia de sol...Vivera nela o tempo possível da ilusão. O espaço que ia do desespero cego à esperança lúcida. A minha inquietação já não cabia ali.
(I– p.214)

A inquietação interior não cabe em sítio nenhum, nem em cidades, nem em paisagens, nem em montes, nem em vales.

Troti
 
  Praticar o mal em nome do bem, é a negação do bem
E se a gente acabasse com este desgraçado por uma vez? (pag 33) Esta impressionante descrição de como, por boas intenções, se consegue cometer uma barbaridade, parece apontar para uma ausência de raciocínio, para uma inexperiência do que é o sofrimento. O burro tinha o direito de ser respeitado na sua dor. Um animal velho ou doente merece ter uma morte digna. Por isso, a minha primeira reacção foi de repugnância.

Só por ignorância, por falta de vivências, se poderá encarar este como um acto de compaixão. Não, não existe qualquer tipo de compaixão neste acto. Se a intenção é evitar o sofrimento do animal, como se evita isso causando-lhe sofrimento maior?? Será que a própria inocência está imbuída de violência? Se estas crianças fizeram isso, acreditando que estavam a praticar o bem, talvez que a própria inocência não seja sinónimo do bem…

Não se tratou de um golpe de misericórdia, mas sim de uma daquelas atitudes que nem sempre conseguem encaixar na definição de acto humano, que nos causam perplexidade pela sua natureza paradoxal. E que mostram quão mais difícil é encarar um acto de profunda violência mascarado de generosidade. Pois, se quem pratica o mal pelo mal é destituído de moralidade, quem pratica o mal pelo bem tem uma moralidade perversa. Isto, num contexto de sistematização de comportamentos, o que não é o caso: alivia-me saber que este foi um acto isolado, uma vez que já cheguei ao fim do livro e não houve recidivas. Todos nós, em algum momento da vida, praticamos actos perversos. Faz parte da condição humana. Não devemos é procurar mascará-los.

azuki
 
  O Mar
Não correspondeu em nada à minha ideia. O grande lago que imaginara, era uma ilusão de água choca ao lado daquela imensa realidade viva, pulsátil, indomável, que espumava de raiva a bater contra as penedias. Enchia-me do som encantatório da sua voz, refrescava os pés nas ondas, passeava descalço no areal, apanhava conchas e pedaços de cortiça, e à noite, depois de cansar os olhos à janela do quarto do sótão a ver a luz do farol fender a escuridão misteriosa do lago, adormecia a pensar na felicidade de ser marinheiro num dos gigantescos navios que entravam e saíam diariamente pela barra de Leixões... Burro que eu fora! A ter medo de embarcar para o Brasil!


leitora
 
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
  AR LIVRE
Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido de inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe,
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!



Miguel Torga
"Antologia Poética"

Troti
 
 
“Ninguém queria saber dos meus desejos íntimos e aspirações.”
( II – p. 167)
...
Tinha, tinha, um sonho cá dentro: estudar. Mas realizá-lo?
( (I – p.170)

Troti
 
 
uma espécie de pena de mim

tantas formas de o definir: inveja, revolta, mágoa... mas não é nenhuma dessas. Autocomiseração. Mas gosto especialmente da frase: uma espécie de pena de mim. É daqueles sentimentos que nos assaltam uma vez por outra, e nos envergonham, nem que seja por não se coadunar com o ser forte, lutador e tendencialmente seguro que cada um de nós é.


leitora
 
domingo, fevereiro 13, 2005
  Ia ser despachado para o desconhecido, e nada podia fazer
.
nastenka-d
 
 
“A vida tinha a sua graça! Absurdos de toda a natureza, onde e quando menos se esperava."
( I – p. 151)

Troti
 
 
“Começava a ficar homem. No meio daquela pujança tropical, crescia tembém. Mas enquanto que o corpo se desenvolvia em tamanho...a alma apenas medrava em amargura. Amargura de me sentir injustamente odiado por minha tia, de ser como um estranho para meu tio, de viver aperreado no seio da liberdade.
...
sequioso de ternura, sem a receber, comido de desejos, sem os satiafazer, moído de trabalho, sem uma palavra de aplauso. E ainda havia pior...O espírito, mais reflectido, queria outras aventuras. Mas tinha de me convencer de que nunca acertaria o passo com a imaginação."

( I - p.145/146)


Mas é que a gente não se convence, não se convence...

Troti
 
 
“Curioso de tudo e sensível à qualidade de cada coisa, fora dessas horas infelizes considerava aquele Brasil um deslumbramento.Era um tatu...eram pacas bonitas...eram tocanos...eram formigueiros gigantescos...Era uma terra nova nuns olhos novos.”
( II – p.136)
...
Mas a grandeza de tudo amesquinhava-se nas lunetas da minha tia"
.
(I– p.138)

Troti
 
 
“E numa segunda-feira, cheia de sol, o Brasil apareceu. Eram ilhas, e morros, e casas, e barcos, e gente a acenar, e uma grande aflição dentro de mim.
...
A noite, cada vez mais negra, apagava na alma toda a esperança. E comecei a chorar, de angústia e de medo. Angústia de me ver sòzinho no mundo; e medo daquele Brasil assim nocturno, adafadiço, irreal, com pios medonhos, sem qualquer luz a acenar ao longe.”

(I - p.114 – p.117)

Troti
 
  A cavar é que não fica. Bem bastou eu.
Não era a primeira vez que fazia tal afirmação. Mas nunca pusera nela tanta firmeza. Como que lhe veio à boca, naquele momento, toda a amargura de uam longa e atribulada crónica familiar, de que fora comparsa, que não queria ver prolongada em mim.


Poucas saídas para um miúdo transmontanto, ou o seminário ou a emigração. Esta realidade sociológica tem efeitos tremendos até hoje. E curiosamente a questão continua actual, após tantos anos, uma revolução e tantos fundos europeus. Cada vez menos os seminários, é certo, mas o sentimento de encurralamento no interior parece inevitável. Haverá solução?

leitora
 
 
Havia agora em mim qualquer coisa que repelia a naturalidade,. A infância ia fugindo das minhas palavras e dos meus gestos, ou ninguém mais a queria neles.

nastenka-d
 
  Queda da Monarquia
"O movimento republicano no Porto, mau grado o desaire da revolta, não recrudesceu. Nas eleições de 1899, a cidade elege 3 deputados republicanos. A onda republicana conduz ao regicídio em Lisboa, em 1908. Dois anos mais tarde, a revolução republicana triunfará na capital, com escassa resistência das forças monárquicas, fugindo a família real para Inglaterra.

Mas foram muitos os problemas que afectaram a 1ª República, tais como a participação de Portugal na 1ª Guerra Mundial e a instabilidade política e económica. Estes problemas levaram ao levantamento de uma corrente oposicionista ao poder vigente. Após várias tentativas de golpe, há um que resulta: o de 28 de Maio de 1926. Este movimento foi comandado pelo General Gomes da Costa e José Mendes Cabeçadas, entre outros. Esta revolução pôs fim à 1ª República, dissolveu as instituições democráticas, extinguiu os partidos políticos e instaurou uma ditadura militar.

Na sequência do 26 de Maio de 1928, surgiu uma nova constituição em 1933, que dava origem ao Estado Novo, cuja figura principal era Oliveira Salazar."

azuki
 
sábado, fevereiro 12, 2005
 
"A minha natureza é terráquea e radiculada."

Miguel Torga, Diário XI
http://www.eb23-miguel-torga.rcts.pt/mtorga.htm

Troti
 
 


Miguel Torga pelo autor Manuel Sousa Pereira

Troti
 
 
“...sentia que no íntimo, no íntimo, não acreditava em nada daquilo. Nem já na própria missa conseguia ver a significação que sabia que ela tinha. Sem dar bem conta disso, perdera a fé.”
(I – p.101)

Identifiquei-me de imediato com esta última frase. Aconteceu-me o mesmo. Tinha 14 anos.

Troti
 
  animatógrafo
À medida que corria, o filme ia sendo explicado. Mas a evidência das imagens sobrepunha-se à significação das palavras. Eram os gestos, os açoites, o sangue a esguichar, a cruz a ser erguida, que hipnotizavam o público e o convenciam. A tal ponto que, nos momentos mais dramáticos ou revoltantes - na cena do beijo de Judas ou da crucificação -, rompiam insultos e protestos.
No fim da sessão toda a gente chorava.
Pela minha parte, sentia-me comovido e desconcertado. Quase que tinha vergonha das leituras que fazia na fiada. Histórias lidas, ao pé de histórias que se viam!
E fiquei a pensar naquilo.

Não muito longe dali, e talvez não com muito tempo de diferença, um miúdo de nome Manoel deve ter sentido o mesmo com este ou outro filme. Adolfo, que viria a ser conhecido por Miguel, continuou com as palavras escritas e lidas. Manoel, que viria a ser conhecido em todo o mundo, passou a amar a imagem acima de tudo.

leitora
 
  O Amor
“...o amor é um jogo em que se perde sempre. Todo o enigma está na maneira como cada qual reage à derrota.
( II –p.122)

Troti
 
  Mar
O grande lago que imaginara era uma ilusão de água choca ao lado daquela imensa realidade viva que espumava de raiva a bater contra as penedias.
Não me lembro de ter visto o mar pela primeira vez: o mar esteve sempre lá onde eu estava. Lembro-me de ir à praia com raparigas que nunca o tinham visto – talvez apenas as suas imagens – e de quase lhes invejar o assombro.
nastenka-d
 
  31 de Janeiro de 1891
"As novas ideias do republicanismo começam a proliferar no país. O Porto é uma cidade pujante, fortemente industrializada, nomeadamente nas áreas do vinho, metalomecânica, têxteis e calçado. São construídas as pontes D. Maria e D. Luíz I. É a cidade que elege o primeiro deputado republicano do país, Rodrigues de Freitas.

Em 1886, são organizadas greves a que aderem milhares de portuenses. O ultimato inglês acentua o descontentamento generalizado e o sentimento patriótico dos portugueses. Com este sentimento surge o desejo de mudar de sistema político. A crise de governo que se viveu no período, exaltou os ânimos dos militares da guarnição do Porto, que com o apoio das Forças Armadas, a 31 de Janeiro, promoveram a primeira revolução republicana. Mas, sem o apoio das forças políticas, nem da generalidade dos militares, os revoltosos tiveram que capitular perante a superioridade das forças fiéis à monarquia.

Os anos que se seguiram à revolta não foram favoráveis ao Porto. Os bancos perdem capacidade de emitir moeda e, em 1899, a cidade é invadida por uma peste bubónica."

azuki
 
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
  Sobre Torga IV
“A sua endógena e universalizadora fidelidade às origens ancestrais, a irredutível resistência libertária de franco-atirador que o opôs às ditaduras que se instalaram ou tentaram instalar-se no seu país, a transparência vernacular e empática da sua
linguagem — transformaram Miguel Torga, através do consenso dos seus contemporâneos, numa autêntica consciência nacional, indisfarçável protótipo do cidadão português de sempre”.

Fernão de Magalhães Gonçalves
http://www.esec-aurelia-sousa.rcts.pt/torg.htm

Troti
 
  AVE da ESPERANÇA
Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
Aquece as alegrias do futuro,
O tempo que há-de vir sem este muro
De silêncio e negrura
A cercá-lo de medo e de espessura
Maciça e tumular;
O tempo que há-de vir - esse desejo
Com asas, primavera e liberdade;
Tempo que ninguém há-de
Corromper
Com palavras de amor, que são a morte
Antes de se morrer.


Miguel Torga
"Penas do Purgatório"


Troti
 
 
“Gostava de observar as pessoas diante da muita ou da pouca sorte.”
( I –p.84)

E assim conhecer melhor os outros. Muitos revelam-se nestes instantes de desafio. Tortura ou êxtase têm um imenso poder e levam os homens a escorregar em direcção ao seu íntimo mais verdadeiro.

Troti
 
  Olhar o horror sempre pela primeira vez
Em jeito de remate do meu post Devia ter lido A Criação há 3 meses… e porque, felizmente, se tem falado muito deste tema, devo dizer que estar em Auschwitz-Birkenau foi das experiências mais intensas da minha existência. E, sempre que olho para as imagens deste campo, comovo-me como se fosse a primeira vez. É assim que espero que a vida me preserve: susceptível de me emocionar profundamente, quer com a beleza, quer com o terror do mundo.

azuki
 
  Cada criança um rei imaginário
Não me serviu de emenda. Continuei o mesmo lapantim atrevido e maluco, surdo a todas as razões, a ver em cada ferida e cada rasgão troféus das aventuras que imaginava.


leitora
 
 
e polia os metais da escadaria nobre com pomada Coração...

nastenka-d
 
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
  Sobre Torga III
Nova carta inédita de Vergílio Ferreira a Serafim Ferreira

Obrigado pelo Comércio4. Eu assino a "Página" e portanto devolvo-lhe a sua que já tinha lido. O artigo do E. Lourenço (que espero ver estas férias) é excelente. Coincide pelo menos totalmente com o que penso do Torga - um autor que hoje mais que nunca me é difícil suportar pelo tom de lobisomem sem grandeza para isso. Suporta-se esse tom, quando há lá dentro motivo para isso e sobretudo quando esse motivo excede essa dimensão pessoalista. Torga passa a vida a falar de si, sendo esse "si" construído com o pequeno truque da voz cavernosa, o olho dilatado, as mãos grossas a escorrer o húmus de Trás-os-Montes. Mas um papão só às crianças impressiona. Adamastores houve um só, e mesmo esse acabou a lacrimejar como qualquer mortal. Há uma fraqueza manifesta na pretensa força de Torga, que só é força para o pobre campónio da cultura. Torga é um bom artista, mas aflitivamente limitado. Simplesmente, ele julga que não, ele pensa que por falar à Miguel Ângelo em voz grossa, Miguel Ângelo o ouve logo. Torga é um Acácio a fazer peito5....


Notas de rodapé
...
4. Tratava-se de um artigo sobre Miguel Torga, publicado em O Comércio do Porto, que de algum modo contrariava então o que Eduardo Lourenço dissera antes no ensaio O Desespero Humanista na Obra de Miguel Torga, Coimbra, 1955.
5. Julgo que V. Ferreira corrigiu mais tarde estas opiniões acerca de Torga, talvez pelo entusiasmo causado pela leitura do artigo de Ed. Lourenço
...


Troti
 
  Desfeitear o destino por se querer mais, muito mais
A infância (difícil) de Torga terá sido decisiva para a formação do homem arredio e solitário, mas não o terá sido menos na construção de uma profunda sensibilidade moral. Ao contrário das crianças de Gente Feliz com Lágrimas, condenadas a herdar a vida miserável e mesquinha dos progenitores, paridas e criadas precisamente para constituírem força braçal, eles a puxar o arado, elas a arear panelas, os pais de Torga tiveram a visão de não desejar vida idêntica para o filho (não foi o caso da filha, infelizmente, mas tal não provoca nenhuma admiração). E isto é simplesmente extraordinário. Não há nada mais moderno do que a capacidade de romper a capa da nossa própria condição.

azuki
 
  Matemática
De tarde a coisa piorava, por causa das chamadas à pedra.
- Um tanque mede dez metros de comprimento, quatro e meio de largura, e de altura três vezes a décima parte do comprimento. Quero saver quantas pipas de água comporta, tendo a pipa vinte e dois almudes, e o almude vinte e cinco litros.
Era assunto para muita pancada. Pelo tamanho do enunciado, cada um de nós calculava as bolas que lhe cabiam. Metia então inveja a primeira classe, lá longe, no fundo da sala, junto ao relógio e ao contador:
Bê-á-bá; bê-é-bé...
E nós diante de um bico-de-obra daqueles!
- Adiante... adiante... Casca-lhe, Silvino!
Bê-á-bá; bê-é-bé...
O tanque ficava atestado de lágrimas. Os olhos de todos nós pareciam fontes a enchê-lo.


Quando foi comigo chamavam-se bolos, mas nunca me coube nenhum por causa dos problemas de matemática que, aliás, adorava. Já por mau comportamento... calharam-me dois solidários bolos quando já tinha idade para ter algum juizo...

leitora
 
 
“E fui ficando irremediàvelmente sòzinho no mundo.”
(I – p. 83)

Troti
 
 
Minha Mãe ouvia-o, calada. Olhava-me com os seus olhos quase verdes, fundos, ensombrados por espessas sobrancelhas negras.
Tantas diferenças em relação a Proust – tantas que já me cansei de contá-las – mas uma semelhança: o olhar triste da mãe...
nastenka-d
 
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
 
Uma parcela de arrogância, um certo distanciamento dos homens, timidez comum aos homens vindos dos meios humildes:

Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só.

O desejo de perfeição absoluta e de verdade:

Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução (...) e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.

Sou uma encruzilhadas de duas naturezas. De variadíssimas, dirá quem bem o conhece...
http://www.aac.uc.pt/~sfaac/migueltorga.php

Troti
 
 
"
- Não gostas de trabalhar?
- Gosto.
- Pois desde que vieste que toda a gente está convencida de que és calaceiro e fazes tudo de má vontade.
- Gosto de trabalhar, mas não gosto de ser criado dos outros!"
( I - p.66/67)

Troti
 
 
"Meu avô paterno, carreiro; meu avô materno, almocreve. Ambos honrados e trabalhadores, e ambos pobres toda a vida...E compreendia que ali apenas me esperava um destino igual. Mas o Brasil ficava longe, e o seminário era ser padre...
Pois tens de escolher!... – insistia meu pai, inflexível – Aqui não te quero. “
( I – p.57)

...

Apesar de rendido às razões que aconselhavam a minha saída de Agarez, era ali que verdadeiramente me apetecia ficar...
( -I p.61)

...

- Quem é pobre, filho, tem de se sujeitar...

...

- Eu cá não sou para sujeições! – declarei.
- Então, não fiques aqui.

...

quando dei conta estava criado no Porto...
Era porteiro. Mas regava também o jardim, ia aos recados, servia de burro aos meninos mais novos do que eu, limpava o pó, e pulia os metais da escadaria nobre com pomada Coração. Andava de casaco branco, dormia num cubículo, de campainha à cabeceira, e ganhava quinze tostões por mês.

( I – p.62)

...

sentia-me ali como um desterrado entre inimigos."
( I - p.64)

Troti
 
  Sobre Torga II
A definição de Jorge Amado é:

"esse feiticeiro da palavra escrita"

(em Jornal de Notícias, 17 de Janeiro de 2005)

Troti
 
  Devia ter lido A Criação há 3 meses…
Sendo evidente que as emoções da leitura dependem do momento em que nos encontramos, fico com a sensação de que a experiência d'O Primeiro Dia teria sido bem mais emocional, caso tivesse acontecido uns meses atrás. Sinto que, depois de Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo, algo se fechou em mim e me tornou menos susceptível de viver com intensidade os exemplos de infâncias pouco afortunadas.

Será de discutível gosto a comparação, pois o mau não deixa de o ser só porque existe o terrível, mas prometi a mim mesma uns posts sobre o que me vai na alma nos momentos da leitura; escritos com um maior grau de liberdade, sem os excessivos escrúpulos e defesas, típicos de quem anda nestas coisas dos blogues ainda com passo incerto. Por isso, tenho que dizer que estou com menor capacidade para me comover.

Gente Feliz com Lágrimas pinta-nos um retrato inacreditável de uma infância perdida nuns Açores pequeninos e analfabetos, de gente embrutecida e miserável. Mais do que a pobreza, o frio, a fome, a ignorância, são a falta de afecto e a total ausência de bons exemplos que constituem a realidade absolutamente demolidora deste livro de João de Melo. Foi uma leitura tão dolorosa que, agora, me sinto menos capaz de sofrer por uma criança pobre mas cujo processo de crescimento esteve imbuído da ternura e da correcção moral dos pais. Porque as boas recordações podem salvar-nos a vida.

azuki
 
  Génesis
Tomou pois o Senhor Deus ao homem,
e pô-lo no paraíso das delícias...

Assim é introduzido o primeiro dia, dos seis de que o livro é composto. Ao passar para o segundo dia, procurei a continuação da citação do Livro de Génesis, mas não estava lá. Pensando melhor, só a entrada do primeiro dia corresponde a alguma fé no paraíso das delícias. O resto fica para as reticências.

leitora
 
  Surrealista
“Ia na frente, de fato preto, montado na jumenta, a segurar o baú de roupa que levava adiante de mim. Meu Pai e minha Mãe vinham atrás, a pé, ele com os ferros da cama às costas, e ela de colchão e cobertores à cabeça. Assim percorremos as seis léguas que vão de Agarez a Lamego, pelo caminho velho...De alma negra, olhava a paisagem grandiosa que nos acompanhava, e via nela apenas a minha sombra. Papa-hóstias, como dissera o senhor Botelho...Era tudo o que eu podia vir a ser na vida.
( I – p.77)

Percorro esta visão do pai e da mãe com a cama às costas e imagino um quadro surrealista.

Troti
 
terça-feira, fevereiro 08, 2005
 
“...à hora da sesta, um sujeito de funil na boca percorreu a terra a anunciar que à noite havia animatógrafo...O óculo por onde, até ali, a troco dum vintém, mostrava o Vaticano e as suas trezentas e sessenta e cinco janelas e o papa a fumar a uma delas, fora suplantado. Agora, as figuras moviam-se, a água corria, o mar agitava-se, tudo se passava ao natural....Boquiaberta, a plateia assistia ao nascimento, baptizado, pregação, morte e ressurreição do Salvador, como se estivesse lá estado na ocasião....
No fim da sessão, toda a gente chorava.
Pela minha parte, sentia-me comovido e desconcertado.”

( I – p.54/55)


...
O grande problema do kinetoscópio de Edison, que apenas permitia o visionamento individual das fitas, seria então resolvido, graças ao génio de Auguste Lumière que adaptou a máquina, no sentido de possibilitar a projecção das imagens, registando a patente do seu invento em 15 de Fevereiro de 1895.

Após algumas projecções privadas, a 28 de Dezembro desse ano, os irmãos Lumière iniciaram, no salão Indiano, na cave do Grand Café, Boulevard des Capucines nº 14, em Paris, a apresentação pública do seu invento - sendo esta a data considerada como oficial para o nascimento do cinema.

A novidade foi acolhida com euforia pela população Parisiense, que se acumulava à porta do Grand Café, esperando longas horas para assistir aos espectáculos. O êxito alcançado, levou à rápida difusão das sessões cinematográficas, um pouco por todo o mundo.

Neste contexto, a 18 de Junho de 1896, o invento chegou a Portugal, sendo recebido - igualmente - de forma eufórica, pelo público lisboeta.

A 17 de Julho desse ano, o Porto assistiu, entusiasmado, à primeira sessão do animatógrafo. A 15 de Agosto de 1896 - 231 dias após o seu nascimento oficial.
http://figueira.net/cinema/eclosao.html

Troti
 
  Sobre Torga I
"...Orfeu rebelde, Torga é, no dizer de David Mourão-Ferreira, a "reencarnação de um poeta mítico por excelência - daquele que vive na intimidade das forças elementares (a terra, o sol, o vento, a água) para celebrá-las com o seu canto - e alto exemplo de constente rebeldia, numa atmosfera que pretende afixiá-lo".
http://www.bragancanet.pt/filustres/torga.html



Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou;
Canto como um possesso
que na casca do tempo, a canivete,
gravasse a fúria de cada momento
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento


Outros, felizes, sejam rouxinóis
Eu ergo a voz assim, num desafio,
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.


Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.



*


Gosto do mar desesperado
a bramir e a lutar
E gosto de um barco ainda mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar.




escreve David Mourão-Ferreira, “com a independência quase agressiva do seu temperamento, cedo se colocou à margem de todos os clãs literários. A sua posição nas nossas letras, continua a ser a de um grande isolado — que, no entanto (ou por isso mesmo), consubstancia e representa, da forma mais directa ou através de inevitáveis símbolos, quanto há de viril, vertical, insubornável, no homem português contemporâneo”.
http://www.esec-aurelia-sousa.rcts.pt/torg.htm

Troti
 
  A Criação do Mundo
"Publicada em cinco volumes, A Criação do Mundo é uma longa narrativa contada na 1ª pessoa do singular, espécie de romance autobiográfico – mas também "crónica", "memorial" ou "testemunho", segundo o Autor – que percorre a vida do protagonista desde a infância no contexto rural de Trás-os-Montes até ao 25 de Abril e às convulsões de 1974/75, passando pela adolescência vivida no Brasil.



Aí deparamos com a evolução de uma personalidade rara, cujo olhar sobre Portugal e o mundo acaba por traduzir numa prosa viva e dinâmica os temas e motivos inspiradores das restantes obras de Torga: a firme ligação à terra portuguesa, a fidelidade aos elementos naturais e aos eternos símbolos bíblicos ou, mais do que tudo isso, um desejo de integridade moral e de justiça universal que nunca o abandonou, embora recortado sobre um fundo por vezes algo pessimista, aliás justificado por circunstâncias históricas como a Guerra Civil de Espanha, cuja abordagem no "Quarto Dia" (vol. III) levou à sua apreensão pela PIDE e à prisão de Torga no Aljube."



azuki
 
  Do Prefáfio do Autor à Tradução Francesa:
Querido Leitor:
(...)
Todos criamos o mundo à nossa medida
(...)

Há tantos mundos quanto criaturas. Luminosos uns, brumosos outros, e todos singulares.
(...)


Vamos entrar no campo das memórias em forma de romance. Com ternura, alguma coragem de mostrar lados menos luminosos da existência, alguns meros reflexos sociais e históricos que talvez nem Torga imaginasse leituras possíveis nos dias de hoje.

Mas sempre ternura e lucidez. O homem rude, médico de raízes serranas, orgulhoso do seu passado, desfia uma vida como a criação do seu mundo.


leitora
 
  Ibéria
...a minha pátria cívica acaba em Barca de Alva, (...) a telúrica nos Pirinéus.

"Não reflecte uma posição pela união política. É feito das própria referências a um legado cultural e um destino comuns. Em A Vida (Poemas Ibéricos) ao referir os povos vasco, andaluz, galego, asturiano, catalão e português, esquece os castelhanos. Colocando os heróis lado a lado, chama desumano e brutal a Cortez, enquanto de Albuquerque parece apenas que chora o seu chorar:

(...) Por isso a Índia há-de acabar em fumo
Nesses doirados paços de Lisboa;
Por isso a pátria há-de perder o rumo
Das muralhas de Goa.


Publicado antes do livro, nos Poemas Ibéricos sobressairá o que dedica a Lorca. Antecedendo o prefácio da sua mulher à edição bilingue (português e castelhano em tradução de Eugénio de Andrade), Torga diz trazer torgas à rosa de Granada e que virá enquanto houver poesia, vida e povo na Ibéria."

(vidas lusofonas)

azuki
 
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
 



"...toda a obra de Torga anseia pela descoberta de caminhos novos para o reino das coisas belas e possíveis, incluindo o amor entre os homens..."
http://www.bragancanet.pt/filustres/torga.html

Troti
 
  Sobre a Regionalização
o mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la?

azuki
 
  Sobre a União Europeia
"Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espirito patriótico e o seu ideal de Pátria. É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa. Exulta com o não dos dinamarqueses ao primeiro referendo."

(vidas lusofonas)

azuki
 
  O 25 de Abril
"O 25 de Abril, a par do sentido de libertação traz-lhe algumas desilusões - as perseguições, a procura de lugares. A política é para eles (os políticos) uma promoção e, para mim, uma aflição. Com ironia e descrença relata conversas que os políticos têm com ele, independentemente da convergência ou divergência no plano partidário."

(vidas lusofonas)

azuki
 
  Sobre os Políticos e o Poder
"A respeito dos intelectuais nos palcos da política, dissera: nada há de menos sociológico de que a aplicação a uma comunidade viva do estrito espírito do sistema. E acusa Sartre de ter posto o preconceito acima do conceito com o fim de promover a sua imagem, sem se importar de ter eventualmente corrompido gerações inteiras.

A sua manifesta impaciência para com os políticos e o seu distanciamento do poder, concilia-se com afirmações de que tem uma raiz anarquista. Os seus sentimentos políticos lembram um socialismo proudhoniano, com fortes interacções de um anarquismo nobre, profundamente humano, não violento. Sempre em oposição com o poder constituído, pelo que o poder representa de afastamento do humano que lhe serve de suporte."

(vidas lusofonas)

azuki
 
 
“Eu era um ás a subir às pontas e a mandar pinhocas cá para baixo.
Por essas e por outras é que a minha Mãe, depois, pregava...Deixava os fundilhos das calças nos escorregadoiros da serra, punha a camisa em fiapos a varar silveiredos atrás dum lagarto, não havia joelheiras que resistissem às explorações que fazia nas minas secas, á procura dos texugos que se metiam dentro.
...
Continuei o mesmo laparim atrevido e maluco, surdo a todas as razões, a ver em cada ferida e cada rasgão troféus das aventuras que imaginava.”

(p.51/52)

Troti
 
  O Homem Socialista
"Não é fácil, com rigor, situar Torga politicamente. Antes do 25 de Abril, sem dúvida é um homem da oposição, do "contra". Várias prisões e algumas das suas obras apreendidas.

Em Paris, convive com exilados que virão a constituir o Partido Socialista. Sugerem-lhe que com eles fique. Recusa com o argumento de que não se ajustará à distância do Pais. Volta, é preso pela polícia política, e encerrado no Aljube. O passaporte é-lhe negado várias vezes.

Preside à primeira reunião do órgão regional do Centro do Partido Socialista. Esclarece que não é filiado, e que o faz na qualidade de homem socialista que sempre foi. É mais sensível a uma ética do que a uma ideologia, mais (...) fraterno que disciplinadamente correligionário.

Afirma que não será com sistemas e métodos alheios (...) que permaneceremos de bem com o nosso semblante constitutivo e lançados na senda progressiva da democracia, (...) só o conseguiremos mediante soluções originais. (...) O capitalismo não hesita mesmo diante de um leito de sofrimento; aponta a sua incorrigível voracidade e, em outro trecho, vê raízes judaico-cristãs no comunismo."

(vidas lusofonas)

azuki
 
domingo, fevereiro 06, 2005
 
“Passava uma rapariga no caminho, em frente das vinhas a rebentar, e os homens enterravam os enxadões na terra e relinchavam.”
( I – p.24)

Eu li esta frase e tornei a ler. Acho que é uma das frases sexualmente mais intensas
que eu já vi.

Troti
 
  Autocarro para Torga
Mais uma iniciativa para comemorar o escritor.

Troti
 
  Troca de opiniões
O Blogue de Esquerda tem uma troca de opiniões sobre Torga. Aqui fica o link se quiserem ir espreitar.

Troti
 
  SER DE TODOS
"...intentou poetizar em grupo (as revistas Sinal, em 1930 e, mais tarde, Manifesto), mas acabou por desistir quando concluiu que a autenticidade poética é demasiado sublime e exige o máximo de pureza e fidelidade pessoal. Daí por diante, no seu monasticismo conimbricense, intentará "ser de todos", em vez de "camarada de poucos".
http://www.bragancanet.pt/filustres/torga.html

Troti
 
  O Mundo
"Viajante incansável por todo o país e estrangeiro. Visita a China e a Índia já próximo dos oitenta anos. Pareço um doido a correr esta pátria e nem chego a saber por quê tanta peregrinação."

(vidas lusofonas)

azuki
 
  Pátria II
"O Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes, é um dos seus grandes amores. Sempre na sua alma viaja com ele, parece vê-lo em toda a parte. Surge a cada momento na sua prosa. Sempre enaltecida como terra de Deus e dos deuses. Não sendo apenas dele, sê-lo-á apenas dos que queiram merecê-lo. Assim o diz em Portugal, onde faz um quadro de outro dos seus amores: o país.

Esta adoração conduz a excessos. No vizinho Minho mostra-se enfastiado com a presença permanente do verde. Desanimado, à procura de um Minho com menos milho, menos erva, menos videiras de enforcado. Encontra-o onde a relva dá lugar à terra nua, parda, identificada com o panorama humano. Ou seja: com o seu Trás-os-Montes natal.

Nesse seu torrão vê o que os outros não conseguem ver. Um paraíso onde basta estender a mão e logo se desentranha em batatas, azeite, figos, nozes. Um sem número de outras riquezas e mimos que nenhuma imaginação descreve.

Mas anos antes falara do Marão, que não dá palha nem grão, as crianças famintas a pastar ervas. Reconhece que o estar bem jantado é condição para admirar a beleza da cor e do relevo dos cumes das serranias...

O exagero atinge níveis que só a simbiose da paixão com a poesia e os sem limites da genialidade explicam. As rixas entre os naturais que às vezes se agridem, (...) que parecem feras, resulta de uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes...

Évora e os seus monumentos atraem-no vivamente. Ela sintetiza a diversidade dos povo anteriores, latinos, mouros e os outros..

Os Jerónimos, a Batalha e Alcobaça têm sentido na Alma da nação. Mafra é uma estupidez que justifica uma punição aos reis doiros que fizeram construir o convento.

O seu amor pela Pátria, um íman, surge linha a linha. Vai a Espanha, Verin e delicia-se do alto de um castelo a olhar Portugal. Cada monumento, cada pedra, cada planície, o mar, a serra, desde que portugueses, são fervorosamente enaltecidos..."

(vidas lusofonas)

azuki
 
  Pátria I
Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.

Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.


azuki
 
  Cerejas, cerejas
Ficámos inimigos fidagais e, sempre que nos encontrávamos a jeito, jogávamos à pancada. Só fizémos as pazes no tempo das cerejas. Ele tinha uma cerdeira bical muito alta, e foi ela que nos reconciliou. Eu era um ás a subir às pontas e a mandar pinhocas cá para baixo.

nastenka-d
 
  Heterodoxia
"Não mostra receio de criticar quem quer que seja, mesmo os divinizados. De Camões fala de versos feitos a martelo. Considera o título d’Os Lusíadas a expressão da nossa tacanhez e os versos mais ilegíveis do que os da Divina Comédia. Exprime, apesar disso, enorme admiração pelo vate e pela sua obra.

Atribui aos nossos bem pensantes de serviço a ausência da mais pequena dúvida.

A sua desconfiança e menos paciência com os intelectuais é bastante viva: converso até onde me vejo obrigado, (...) largo-o logo que posso e regresso a um convívio menos tenso e mais fecundo, (...) sem esperança nos letrados, (...) junto dos analfabetos encontro ainda o riso, a indignação, o espanto..."

(vidas lusofonas)

azuki
 
sábado, fevereiro 05, 2005
 
“Noite nítida na memória, a da morte do meu avô.
...
A aflição não me deixava compreender.”

(I – p.18/19)

Troti
 
  Autógrafos, Dedicatórias, Prefácios
"Não dá autógrafos ou apõe dedicatórias nos seus livros, para que o leitor esteja inteiramente livre para julgar o texto.

Uma alta personalidade política queixa-se ao próprio escritor da recusa que teve. Compara-a com a melhor sorte de uma senhora por ambos conhecida. Responde que não tem que se admirar pois faltam-lhe os atributos de beleza e elegância da senhora... Sem qualquer malícia, pois não é dado a dizeres brejeiros.

Tampouco se presta a prefaciar obras de outros colegas de escrita, salvo eventuais excepções. A crónica coimbrã conta, talvez com os excessos habituais, que, solicitado por um novato, explica a recusa perguntando: pretende publicar a sua obra ou o meu prefácio?"

(vidas lusofonas)

azuki
 
  Visibilidade Literária
"Os seus escritos integram várias antologias ao lado dos grandes nomes. Traduções dos seus livros em várias línguas: espanhol, francês, inglês, alemão, chinês, japonês, croata, romeno, norueguês, sueco, holandês, búlgaro. Por vezes precedidas de prefácio seu.

Jorge Amado considerá-lo-á acima dos prémios, inclusive do Nobel, para que é proposto em 1960. Voltará a ser considerado uns anos mais tarde, novamente, não lhe tendo sido atribuído.

INTERNACIONAIS
1976 - "Prémio Internacional de Poesia" de Knokke-Heist
alguns anos mais tarde - "Prémio Montaigne", da Fundação Alemã F.V.S.

NACIONAIS
1954 - recusa o prémio "Almeida Garrett"
1969 - prémio literário "Diário de Notícias"
1980 - "Prémio Morgado de Mateus", ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade,
1989 - "Prémio Camões"
1991 - "Prémio Personalidade do Ano"
1992 - prémio "Vida Literária" da Associação Portuguesa de Escritores, na sua primeira atribuição

(vidas lusofonas)

azuki
 
  Da amena Combray ao duro Marão
Infância – a escola, o mestre, as dores; a morte; os risos. Foi-me impossível não evocar Combray ao iniciar a leitura deste livro; afinal, é também do Tempo – da passagem do Tempo – que se fala. E se Proust traz as memórias da Primavera (as flores e o sol), Torga, com as suas salas geladas, com os bancos duros de madeira, com a escuridão dos dias curtos, Torga convoca o Inverno.
nastenka-d
 
  Este, aquele e o outro...

O Marretas
O Boca Torta
O Codinhas
O Baetas
O Rei Grilo
O Ruivo
O Manuel da Tia
O Jaloto
O Chicanas
O Latoeiro
A Nacha

...

Nomes que nos falam de imediato, que nos situam numa realidade.


A Lalàzinha
O Gustavinho


...

Estes são outra realidade, fazem parte de um outro universo.

Troti


 
  A morte e a solidão
"A ideia da morte e da solidão acompanham-no permanentemente. Desde criança mantêm-se presentes no corpo e no espírito. Dos vinte e cinco poemas insertos no último volume do Diário, cerca de metade evocam-nas. Não se traduzem em medo, mas no sentido do limite. Criança ainda, uma noite, sozinho, (...) desamparado e perplexo, assiste à morte do avô. O que não será estranho à obsessão.

No enterro de Afonso Duarte, ao fazer o elogio fúnebre afirma que a morte purifica os sentimentos.

Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós."

(vidas lusofonas)

azuki
 
sexta-feira, fevereiro 04, 2005
  Criar
(no seguimento do post anterior da Troti)

A criação em Torga começa tão cedo – muito mais cedo do que em Proust, sempre entregue às suas fantasias – mesmo neste acto inaugural de plantar uma árvore há o sentido de responsabilidade a que vi sempre Marcel fugir...
nastenka-d
 
 
“Íamos ser em breve os obreiros do futuro, a esperança em marcha, os homens do amanhã. Tudo no simples acto de aconchegar uma raiz à terra...”
( I - p.18)

Troti
 
  Recursos
"Não dá nada a ninguém, diz-se. Imensas consultas gratuitas como médico, desmentem a atoarda. Não dispõe de recursos folgados, confidencia a alguns amigos. Compreende-se: por motivos políticos, a sua mulher, Profª. Andrée Crabbé Rocha, é proibida de leccionar e, ao longo dos anos iniciais, altos são os custos editoriais do que publica...

No exercício da profissão dá consultas médicas gratuitas. Perde-se em conversas com os doentes, sobretudo se de condição modesta ou da sua região."

(vidas lusofonas)

azuki
 
  A Verdade
Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução (...) e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.

azuki
 
  O Homem
"Sou uma encruzilhada de duas naturezas. De variadíssimas, dirá quem bem o conhece...

O relacionamento com as pessoas, ao nível artístico, literário ou qualquer outro, não é fácil. Mais difícil com personalidades ou pessoas com visibilidade pública, mais afável com os humildes.

Tem zangas com os amigos de tertúlia. Em regra não são ultrapassadas.

Uma parcela de arrogância, um certo distanciamento dos homens, timidez comum aos homens vindos dos meios humildes: Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só. "

(vidas lusofonas)

azuki
 
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
 


Troti
 
  Torga
"Decide adoptar o pseudónimo de Torga. Não escolhe o nome por acaso. Torga, ou urze, planta bravia, humilde, espontânea e com o seu habitat no chão agreste por todo o Portugal, mas particularmente nas serranias do norte, é o correspondente no reino vegetal dessa força que será o poeta e o prosador.

Mais que um prenúncio é todo um programa. Da insubmissão à própria natureza e, em todos os outros planos, humano, político, social, que constituirão a sua obra, plena de força, independência e intransigência. Contra todas as barreiras, vertentes aparentemente contraditórias mas que se complementam, expõe a sua verdade sem quaisquer restrições na apreciação de pessoas, acontecimentos e factos; não receia atacar o estabelecido ao mesmo tempo que não põe de lado conceitos conservadores em que acredita; altera as suas próprias posições desde que a "sua" verdade o exija. Não há uniformidade de critério possível perante a surpreendente e paradoxal diversidade da vida (Diário XII, p.133)."

(vidas lusofonas)

azuki
 
  O início da carreira literária
"Na década de 20, as suas primeiras publicações, ainda estudante, são assinados por Adolfo Correia da Rocha, o nome de baptismo.

Adere em 1929 ao grupo da Presença, fundada em 1927 por José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões. Sai em 1930, por considerar haver imposição de limites à liberdade criativa. Equipara à morte a (má) sorte das posições sem relevo (Altitude). O esforço de todos os momentos da vida e na produção literária...



Desta aventura ficam, todavia, marcas vivas no espírito do Autor: as leituras de Dostoievsky, Proust, Gide, Ibsen, Jorge Amado, José Lins do Rego, Cecília Meireles, Ribeiro Couto e Jorge de Lima, autores que a revista contribuiu para divulgar em Portugal; o fascínio pelo cinema, em especial pelo cinema mudo e pelos seus heróis: Charlie Chaplin e Buster Keaton.

Nesse mesmo ano, funda com Branquinho da Fonseca uma nova revista, Sinal, que tem um percurso bastante curto. Mais tarde, com Albano Nogueira, uma outra, Manifesto. Efémera também.



Surge o primeiro livro - Ansiedade (1928), a que se segue Rampa (1930), ambos poesia.



Adolfo Rocha envia um exemplar de Rampa a Fernando Pessoa, que lhe agradece, em carta datada de 6 de Junho de 1930. Adolfo Rocha responde a esta carta, em termos bastante acres, questionando o "conceito de Poesia" de Pessoa. Pessoa ainda replica, escrevendo uma segunda e extensa carta em que explicita as suas ideias estéticas.



Início do que será uma das mais vastas e profundas obras da literatura portuguesa de sempre. Seguem-se Tributo (1931) e Abismo (1932), ambos poesia, e Pão Ázimo (1931, primeiro livro em prosa). Em 1934, publicou A Terceira Voz, onde adoptou, pela primeira vez, o pseudónimo de Miguel Torga. "Torga" é a designação nortenha da urze, planta brava da montanha, de raiz dura e flor branca ou arroxeada. "Miguel" é o nome escolhido em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Miguel Torga será o seu nome, não só para a escrita, mas para o convívio com os amigos e para tudo o mais. Os títulos referenciados encontram-se esgotados ou foram apreendidos ou retirados do mercado.

Em 1932 inicia a escrita do extenso Diário, que se prolongaria até 1994.

Já licenciado em Medicina, regressou em 1933 a S. Martinho de Anta e trabalhou depois em Vila Nova de Miranda do Corvo como clínico geral.

A partir de 1936 volta à poesia com O Outro Livro de Job, reeditado em 1944 e que terá, até 1998, mais três reedições."

Fontes: instituto-camoes e vidas lusofonas

azuki
 
  Coimbra II
"Participa moderadamente na boémia coimbrã. Ainda estudante, publica os seus primeiros livros. Com ajuda financeira do tio, conclui a formatura em 1933.

Coimbra é uma das ligações de Torga à vida. Aí estuda e, depois de 1939, aí exerce medicina, aí vive, aí a sua actividade criadora se revela como vulcão em permanente actividade. Tem as suas tertúlias e os seus amigos e passa todos os dias umas horas de cavaqueira com o seu amigo João Fernandes, antes de chegar ao Central, à Brasileira ou ao Arcádia.

Coimbra suscita-lhe sentimentos opostos: paixão e timidez, a humildade e a desumildade, a (des)valorização do que está próximo. A Universidade, casarão para ensinar camponeses (...) defende-se de toda a originalidade ou pensamento subversivo (...). A mistificação da borla e capelo. Começa o capítulo que lhe dedica com uma citação do que Eça põe na boca do conselheiro Acácio, chamando-lhe odalisca reclinada nos seus aposentos...

As praxes e tradições do meio académico, sempre as combateu abertamente. À capa e batina, símbolos anacrónicos, chama farda. Crime de lesa praxe, efectua o seu acto de formatura com o seu fato banal. Não evita que as suas vestes, conforme o costume, sejam rasgadas e destruídas pelos colegas. A Queima das Fitas, em 1957, é um dos seus aniversários fúnebres...

Mas Coimbra é um dos seus amores. Aí vive, trabalha e passa o seu tempo. A mais bela cidade do País, (...) cenário para um perpétuo renascimento do espírito."

(vidas lusofonas)

azuki
 
  Coimbra I
"Em 1928, iniciou a frequência do curso de Medicina.


(o cartão de sócio da Associação Académica de Coimbra)

Morava na república "Estrela do Norte", na Ladeira do Seminário, em Coimbra:


O Diário inclui uma nota da sua passagem pela Universidade, Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela nem ela repara em mim., indício do desprezo por uma instituição elitista envelhecida e politicamente servil."


(o grupo da república "Estrela do Norte")

(instituto-camoes)

azuki
 
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
 


Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


"Sísifo"
Miguel Torga
Diário XIII

Troti
 
  Brasil

(o passaporte, aos treze anos)

"Em Outubro de 1920, aos treze anos, os pais mandam-no para o Brasil para trabalhar na fazenda de um tio paterno, a Fazenda de Santa Cruz, no Estado de Minas Gerais. Fazenda enorme: dentro do seu perímetro havia duas estações de caminho de ferro. Fez de tudo um pouco: foi responsável pelo terreiro, ia a cavalo buscar o correio longe da fazenda, capinador de café, tinha a seu cargo a escrita da fazenda e até o mandaram laçar cobras venenosas para fornecer ao Instituto Butantan, a troco de soro anti-ofídio.


(a casa da Fazenda de Santa Cruz, no Estado de Minas Gerais)

O tio era um homem duro e empreendedor, que subiu a pulso e fez fortuna como emigrante graças a uma estratégia arrojada: comprava por baixo preço uma fazenda arruinada pela abolição da escravatura, tornava-a próspera em poucos anos, e vendia-a para comprar de seguida outra fazenda maior.

O tom ríspido e sem admitir réplicas do tio e a má-vontade da mulher tornavam-lhe os dias um inferno. Aguentou aquilo durante quatro anos.

A 20 de Fevereiro de 1924, o tio, querendo ajudá-lo, matriculou-o no Ginásio Leopoldinense, em Leopoldina, Minas Gerais, para continuar a estudar.


(o Ginásio Leopoldinense)

Os anos da adolescência no Brasil são evocados n'"O Segundo Dia" d' A Criação do Mundo.

Como recompensa dos cinco anos de trabalho na fazenda, o tio deu-lhe a escolher entre duas possibilidades: ou montar-lhe uma loja no Rio de Janeiro, ou pagar-lhe os estudos. Adolfo Rocha regressou a Portugal, concluiu o liceu em três anos, e matriculou-se a seguir na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra."

(instituto-camoes)

azuki
 

O QUE ESTAMOS A LER

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PROXIMAS LEITURAS

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

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