Leitura Partilhada
terça-feira, maio 31, 2005
  Tu és a minha Dulcineia
Pouco me importa quem sejas.
Porque és a minha Dulcineia.
Uma das formas que encontrei para absorver e construir o mundo.
Estás lá, tal como eu te imagino. Só preciso que estejas lá, assim como eu te imagino.

O passar do tempo deu-te um estatuto respeitável.
Sinto-te e assumo-te de forma desassombrada.
És coisa minha.
Impermeável ao ritmo da vida. Ao rumo da vida.

Mas sei dos perigos de te alimentar.
Far-me-ás bem, enquanto eu não deixar que me possuas.
Porque não és parâmetro nem desejo. És um foco de luz.
Uma ternura que já faz parte de mim.

É bom ter-te, meu amor inventado.

azuki
 
  As ovelhas
Regresso a Portinari, apesar dos trabalhos dele dedicados ao Quixote nem serem o que mais aprecio na sua obra. Mas ele desenhou as ovelhas!


Candido Portinari
Dom Quixote Atacando um Rebanho de Ovelhas [1956]
Desenho a lápis de cor/cartão 33 x 35cm

Museus Castro Maya, Rio de Janeiro,RJ

(Ilustração para o livro “Dom Quixote”, de Cervantes; edição não realizada Série Dom Quixote)


Pensei bem nesta questão das ovelhas, e está decidido: para mim ovelha continuará a ser associada à Irlanda, em especial a uma certa ovelhita que demorou pacientemente a sua pose para a fotografia...

Entretanto, (Azuki!!!) dois sítios com muitas obras de Portinari, com ou sem desvarios quixotescos:

Centenário Portinari 1903-2003

Projecto Portinari


leitora
 
 
" E se quereis saber quem isto vos manda, para ficardes com mais veras obrigado a cumpril-o, sabei que sou o valoroso D. Quixote de la Mancha, o que desfaz aggravos e sem razões..."

Cap.IV

Assim se vê o herói:
o valoroso - Que tem valor; valioso; activo; forte; enérgico; esforçado;destemido.
( Dicionário Complementar - Augusto Moreno)

Troti
 
segunda-feira, maio 30, 2005
  o resumo que fixo Hemingway sobre O Quijote
El 20 de agosto del año 1921, el escritor Ernest Hemingway publicó en The Toronto Star Weekly un ?artículo titulado «Cómo condensar a los clásicos» que decía lo siguiente:

«Casi han acabado el trabajo de condensar a los clásicos. Se trata de un pequeño grupo de entusiastas condensadores, supuestamente subvencionados por Andrew Carnagie, que han trabajado durante los últimos cinco años para reducir la literatura mundial a bocados comestibles para consumición del agotado hombre de negocios. Los miserables ha sido reducido a diez páginas. Parece que Don Quijote ocupa una columna y media. Las obras teatrales de Shakespeare no pasan de ochocientas palabras cada una. La Iliada y La Odisea cabrán en el texto de un componedor y medio cada una.

Es algo magnífico poner a los clásicos al alcance del hombre de negocios cansado o retirado, aunque estigmatice el intento de colegios y universidades de poner al hombre de negocios al alcance de los clásicos. Pero aún hay un modo más rápido de presentar el asunto a quienes han de correr mientras leen: reducir toda la literatura a titulares de prensa, seguidos de una pequeña nota que resuma el argumento.

Por ejemplo, El Quijote :

'Caballero demente en una lucha espectral'

Madrid, España (Agencia de Noticias Clásicas) (Especial). Se atribuye a histerismo de guerra la extraña conducta de don Quijote, un caballero local que ayer por la mañana fue arrestado mientras «combatía» con un molino. Quijote no supo dar una explicación de sus actos»
.


Biosbardo
 
  Aqui se fala do cavaleiro da Eterna Figura, relacionando a sua doença com Voltaire e o Dom da sua perpetuidade
Quixote é um herói inocente vitima de si mesmo e do seu tempo. É intemporal, porque é o primeiro herói desvairado e falível da história da literatura. É o anti-herói, e por isso, torna-se símbolo das nossas fraquezas, e do nosso desejo pela justiça e bem social.
É um herói doente, marcado pela bipolaridade maníaca-depressiva; mas a loucura esteve sempre presente nos homens que transformaram o mundo, e por isso é bem humana (Existe um número elevadíssimo de escritores geniais, portadores comprovados desta doença, e que nas fases maníacas e/ou depressiva escreveram as suas obras mais destacadas).
Mas a loucura, pode ser a humanidade levada ao extremo e ser o carimbo de alguns “deuses” que habitaram entre nós; e tal como diz Nietzshe “Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre também alguma razão na loucura”.
Apesar desta evidencia não podemos, reduzir a obra a este estigma, senão estaríamos a amesquinhar este portentoso romance (novela?) e a esquecer razão da sua intemporalidade.
A angústia que sente perante o mal que reina no mundo e os romances de cavalaria, levam-no a insanidade.
O seu protesto e acção demagógica, são fruto desta demência imensamente humana; seria assim o percursor do século das luzes e de todas as teorias liberalizadoras, as que existem e que ainda poderão surgir . Foi gémeo, pai e oposto na acção de Cândido que perante o cataclismo de 1755 em Lisboa diz;
Um dia tudo vai correr bem, é esta a nossa esperança, hoje está tudo bem, eis a nossa ilusão”. (Voltaire, em Cândido).

Dom Quixote tem razão, e estas ilusões demenciais não racionalizadas, fá-lo cair em dislates absurdos e inconsequentes.
Ainda não era o seu tempo, a liberdade ainda tardaria, por isso vive-a num mundo fechado; e em que a ponte para o real é Sancho.

“Doença Bipolar (Psicose maníaco-depressiva)
Esta afecção caracteriza-se pela alternância de ciclos de depressão e euforia (mania). Em virtude de ela envolver emoções em extremos (pólos) opostos é denominada doença bipolar.
Quando em fase maníaca o doente está eufórico, hiperactivo, sem qualquer receio, irritável e mesmo paranóide, interessando-se por todo o tipo de actividades de risco. Fala muito rapidamente, saltando de um assunto para outro. Pode não descansar durante dias, gastar dinheiro que não tem, tornar-se promíscuo, comer e beber em demasia, ou simplesmente não comer etc.
Eventualmente, pode chegar a desenvolver ilusões megalómanas acerca das suas capacidades, chegando mesmo a pensar poder conquistar o mundo ou colmatar injustiças...
Mas após dias ou semanas, subitamente, o sentimento de ser todo poderoso desaparece e desenvolve-se uma depressão profunda, em que o paciente se sente derrotado e condenado. O mundo, que era brilhante e colorido, passa, de um dia para o outro, a ser enevoado e cinzento.
A doença bipolar pode afectar qualquer pessoa e pensa-se que alguns dos indivíduos mais criativos da história tinham esta afecção, tendo criado algumas das suas maiores obras de arte durante as fases maníacas.”
Retirado de: fonte

Escritores maníacos depressivos (comprovados por K.R. jamison): Hans Christian Anderson, Honore de Balzac, William Faulkner (H) F. Scott Fitzgerald (H), Nikolai Gogol, Maxim Gorky (St), Graham Greene, Ernest Hemingway(H. S), Hermann Hesse (H, St), Henrik Ibsen, Henry James, Malcolm Lowry (H, s), Mark Twain, Joseph Conrad (St) Charles Dickens, Ralph Waldo Emerson, Herman Melville, Eugene O'Neill (H, St) Mary Shelley, Robert Louis Stevenson, August Strindberg, Leo Tolstoy, Ivan Turgenev, Tennessee Willimans, Virginia Wolf (H, S), Emile Zola, Antonin Artaud (H) Charles Baudelaire (St) Lord Byron, Paul Celan (S), Emily Dickinson, Victor Hugo, John Keats Mikhail Lermontov Musset Boris Pasternak (H) Cesare Pavese (S) Sylvia Plath (H, S) Edgar Allan Poe (St) Ezra Pound (H) Alexander Pushkin , Lord tennyson Dylan Thomas , Florbela Espanca (HS), Mario de Sá Carneiro (HS) e Antero de Quental (S)
notas: S-Suícidio H- Hospitalizado St- Suicidio tentado
castela
 
  Reflexões I
Por vezes, Quixote age de forma absolutamente condenável, com a desfaçatez que lhe confere a sua inocência. Eu pergunto: estamos perante um livro cómico ou trágico? Talvez ele seja mesmo inocente ou, quiçá, veja muito mais do que julgamos.

azuki
 
 
"E sellando logo ao Rocinante, subiu para cima d´elle, e abraçando o hospedeiro disse-lhe coisas tão estranhas, agradecendo-lhe a mercê de o ter armado cavalleiro, que não é possível acertar em referil-as."

Cap.III


Depois de nos apresentar a figura de D. Quixote, Cervantes vai acentuando a sua peculiaridade.

Troti
 
  Audiolibro de El Quijote
riverrun
 
domingo, maio 29, 2005
  Impressões sobre a Primeira Parte
«Como é que um livro com quatrocentos anos pode ser tão moderno?», pergunto-me eu ao fim de umas centenas de páginas. As reviravoltas na prosa, as piscadelas de olho a quem lê, a tão óbvia subversão do pacto de leitura - de que só volto a ter notícias com Laurence Sterne - fazem desconfiar do suposto modernismo do nouvel roman e outros que tais. Será possível que em quatrocentos anos tão pouco tenha sido inventado?
(O que me faz estimar ainda mais o Ulisses - pelo menos a stream of consciusness é absolutamente sua.)
A questão que se segue é outra: como pode um livro tão obviamente irónico (mesmo que, de certa forma, moral) ter sido elevado à categoria de romance de uma nação? Sim, que o Dom Quixote não é uma epopeia qualquer; se comparações faltam, podemos pelo menos pensar nos nossos Lusíadas... E se o herói do nosso imaginário nacional não fosse um bravo navegador? Se fosse um vulgar homem onde se espelhassem os nossos devaneios, mais do que as nossas fantasias? Seríamos um povo diferente?
Vou reservando a resposta. Para já, acreditem, olho com outros olhos para Castela.
nastenka-d
 
  Hamlet e Dom Quixote II
Um deles viveu nas frias terras do norte, no tenebroso Castelo de Elsenor na Dinamarca, onde o mar aliado ao vento implacável chicoteava a costa. O outro vinha de uma região de sol inclemente e chão pedregoso, a velha Mancha de Castela; terras agrestes na sua diferença. O príncipe Hamlet da Dinamarca e o cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, foram os dois grandes ícones literários do homem ocidental nestes últimos quatro séculos. O primeiro por vingança, o segundo sem agravo pessoal algum, decidiram sair da sua vida quotidiana, para corrigir, na sua loucura, os agravos do mundo. Onde está Deus?

castela
 
  Hamlet e Dom Quixote I
Reparemos na analogia, que merecerá ser explorada.

“O mundo anda fora dos eixos!. Oh! Fatalidade maldita! Para que nasceria eu ? para endireitar o mundo? Vamos, partamos juntos. " Hamlet, I,V

Como contraponto ao que diz o cavaleiro da eterna Figura “quero que saiba Vossa Reverência, que eu sou um cavaleiro da Mancha chamado D. Quixote; e é meu ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos" - D.Quixote, XIX

Está presente um ideal de justiça, que trespassa estas duas obras imortais, complexas e audazes. No entanto são duas personagens complexas e controversas, das mais importantes da literatura, que estão emersas em descontrolo, em fraquezas e em contradições. No final a desilusão, o desepero, o vazio..., porque as vitórias serão sempre uma gota de água num oceano voraz. E então deixam-se morrer ou simplesmente são...crucificados. Mas não podemos desistir.

Os “Deuses” Cervantes e Shakespeare, morreriam no mesmo dia 23 de Abril de 1616, e a partir deles a humanidade não seria a mesma. Curiosamente as suas pátrias estavam num confronto fratricida.

Será talvez interessante estabelecer pontes entre os dois autores.

castela
 
  Portugal também teve os seus cavaleiros andantes
Álvaro Gonçalves Coutinho, cognominado "o Magriço", dono do Castelo de Penedono, é talvez o mais famoso cavaleiro andante de Portugal , foi imortalizado por Camões n’Os Lusíadas, através do episódio de "Os Doze de Inglaterra" no Canto V, (estrofes 42 a 69). "Aqui se enaltece ao ritmo épico dos decassílabos, o seu protagonismo exemplar de valentia e cavalheirismo, na façanha ímpar, cometido à frente dos Doze de Inglaterra em chãos estranhos e longínquos da velha Albion".

Segundo o Professor Hermano Saraiva, que reconhece uma importância impar à história deste novel Senhor, "foi o mais ilustre cavaleiro andante português do seu tempo (...) os Coutinhos foram sempre uns marialvas (…) os expoentes do espírito cavalheiresco, marialvista. O marialvismo é realmente machista, desafiador, corre perigos. Um dos últimos vestígios dos cavaleiros andantes são os marialvas (…)".

Os Lusíadas
"Mas dizem que, contudo, o grã Magriço,
Desejoso de ver as coisas grandes,
Lá se deixou ficar, onde um serviço
Notável à condessa fez de Frandes;
E como quem não era já noviço
Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,
Um Francês mata em campo, que o destino
Lá teve de Torcato e de Corvino.
(…)
"Outro também dos doze em Alemanha
Se lança, e teve um fero desafio
Com um Germano enganoso, que com manha
Não devida o quis pôr no extremo fio."
Contando assim Veloso, já a companha
Lhe pede que não f aça tal desvio
Do caso de Magriço, e vencimento,
Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.

Um outro que me lembra, é Brás Garcia de Mascarenhas; nasceu na belíssima Vila de Avô no vale do Alva em 1596. Foi estudar para Coimbra mas teve de fugir para Madrid perseguido pela justiça por ter cometido um crime. Viajou por vários países da Europa, sempre em múltiplas aventuras, e fixou-se algum tempo no Brasil, regressando a Portugal na altura em que D. João IV é aclamado rei. Participou activamente nas lutas pela independência contra os Espanhóis e, sendo acusado de alta traição, foi preso. Absolvido pelo rei devido à falsidade das acusações, termina os seus dias escrevendo a epopeia em vinte cantos e oitava rima o "Viriato Trágico". Além desta obra, escreveu ainda "Ausências Brasílicas" e "Labirinto do Sentimento na morte do Sereníssimo Príncipe D. Duarte", actualmente desaparecidas. Morreu em 1656, 40 anos depois de Cervantes. Infelizmente está tão esquecido, a sua vida e obra; e o seu lar, nas margens do Alva, em Avô ameaça ruir. Enfim é o País que somos.

castela
 
 
"Perguntou-lhe se trazia dinheiro; respondeu D.Quixote que não trazia nada, porque nunca tinha lido nas historias dos cavalleiros andantes que nenhum o houvesse trazido."

Cap.III

Como pode ser interpretado o detentor desta candura?

Troti
 
  Gothic Christ
Don Quixote, in a certain way, is the sad parody of a more divine and serene Christ: he is a Gothic Christ, torn by the modern anguish; a ridiculous Christ of our own neighborhood, created by a sorrowful imagination, which has lost its innocence and its will and is striving to replace them. [...]

Don Quixote stands at the intersection where two worlds meet, forming a beveled edge [...] on the one hand, of poetic aspiration and spiritual adventure, and, on the other, empirical reality, the anti-poetic per se.

in Meditations on Quixote, José Ortega y Gasset

riverrun
 
sábado, maio 28, 2005
 
Estou com algum frenesim, para explanar alguns dos meus pensamentos a cerca do bom Quixote. Como o fazer? Será que já vou tarde... Apesar de ir no capítulo 20. Estou na frenética batalha das ovelhas. O que faz a locura!

A paisagem da Mancha é um sonho, é cheia, nos seus montados, nos seus horizontes iluminados e ilimitados. Deste vazio, que é tudo para quem quer estar em paz, emergem pequenas serranias que albergam recantos maravilhosos. E depois o fantasma de D. Quixote abrange tudo e todos. A par disto, a capital da Mancha, é das cidades mais belas do mundo. Toledo um sonho que comove abraçada pelo Tejo, e há ainda Cuenca, os moinhos ..., as ovelhas..., os castelos e sempre... D. Quixote.



castela
 
 
Naturalismo avant la lettre


Chegou-se-lhe tão perto o Sancho, que lhe metia quase os olhos pela boca, e foi a tempo que já o bálsamo tinha produzido o seu efeito no estômago de D. Quixote. Nesse momento pois, desfechou sobre as barbas do compassivo escudeiro, que nem tiro de escopeta, tudo o que havia dentro.

- Nossa Senhora!- exclamou Sancho – que é isto? Sem dúvida este pecante está mortalmente ferido: vomita sangue.
Reparando porém um pouco mais, conheceu pela cor, sabor e cheiro, que tal sangue não era, mas sim o bálsamo da almotolia, que lhe vira engolir. Tamanho foi o seu nojo, que, revolvendo-se-lhe o interior, vomitou a tripas mesmo por cima do amo: ficaram ambos como umas pérolas
. Capítulo XVIII


Quem disse que D. Quixote é uma história de sonhos e fantasias? Está ali, preto no branco, uma cena do realismo. Como reagiriam os leitores daquele tempo a esta passagem? Á parte cheiros, cores e texturas, este é um momento hilariante e é caso para dizer ‘amor com amor se paga’, substituindo, naturalmente, a palavra amor por vómito.

laerce
 
 
"...e amanhã, como tenho dito, se cumprirá o que tanto desejo para poder, como se deve, ir correr as quatro partidas do mundo, procurando aventuras em prol dos constrangidos, como está a cargo da cavallaria e dos cavalleiros andantes, como sou eu, cujo desejo é inclinado a semelhantes façanhas."

Cap.III


"A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo"Gustave Flaubert


Como podemos avaliar a alma de Quixote? Infantil, sonhadora, desmesurada, louca?

Troti
 
  Adventures are impossible in this new order of things
Cervantes looks at the world from the height of the Renaissance. The Renaissance has tightened things. [...] With his physics Galileo lays down the stern laws that govern the universe. A new system has begun; everything is confined within stricter forms. Adventures are impossible in this new order of things. [...]

Another characteristic of the Renaissance is the predominance acquired by the psychological. [...] The Renaissance discovers the inner world in all its vast extension, the me ipsum, the consciousness, the subjective. The novel Don Quixote is the flower of this great new turn that culture takes. [...] The reality of the adventure is reduced to the psychological, perhaps even to a biological humor. It is real insofar as it is a vapor from a brain, so that its reality is that of its opposite, the material.

in Meditations on Quixote, José Ortega y Gasset

riverrun
 
sexta-feira, maio 27, 2005
 
"Tomadas estas prevenções não quiz demorar mais tempo para pôr em acção os seus pensamentos...taes eram os aggravos que pensava desfazer, erros que corrigir sem-razões que emendar, abusos que melhorar, dividas que satisfazer...
Assaltou-o porem um terrivel pensamento, apenas se viu no campo...não fora armado cavalleiro, e que, conforme a lei da cavallaria, não podia nem devia tomar armas contra nenhum cavalleiro...
Fizeram-no titubear em seus propositos semelhantes pensamentos; mas podendo mais a loucura que nenhuma razão, propoz-se a fazer-se armar cavalleiro pelo primeiro que topasse..."


Cap.II


"Quem vive sem loucura não é tão sensato como pensa"
"Máximas" La Rochefoucauld


Pois não!
E quem é que pode? Quem é que aguenta viver neste mundo cão sem uma pontinha de loucura? Eu confesso já a minha.


Troti
 
  A grande aventura II
Não é verdade que temos personagens inventados na cabeça, prontinhos a servir no corpo daquele que escolhemos? Não é verdade que, para os seus contemporâneos, todos os visionários são tidos como um pouquinho loucos? Não é aliciante filtrar o mundo, e ter pela frente uma realidade que não é crua, concreta, incontornável, de uma só face? O que será pior? A obstinação de Quixote ou os nossos braços caídos? Que falta nos faz, neste mundo tão falho de vontade, tão alienado, tão mole, tão automatizado, tão descrente.

Mas a capacidade para sonhar exige tempo, esforço, dedicação; é um processo longo que não dispensa todas as fases: preparação, degustação, maturação, renovação. No entanto, Hoje, (i) vive-se a correr, quem pára para pensar??; (ii) somos tão esmagados por informação, que acaba por ser mais seguro não sair do sítio; (iii) há cada vez menos espaço para a memória (a vida é medida em flashes; há quem já só consiga olhar para o mundo através de uma máquina fotográfica ou de uma câmara de vídeo); (iv) são menores os caminhos da imaginação (as crianças já dispõem de jogos feitos à medida, criados para desenvolver todas e cada uma das suas capacidades intelectuais, mas não têm espaço para correr, nem vontade de inventar o seu próprio lazer).

Dulcineia não era nada daquilo. Pois. E o que nos enfiam pelos olhos dentro (cinema, televisão, fotografia, imprensa, desporto…)? Será mesmo assim?

azuki
 
  Definição
Sancho define assim um cavaleiro de aventuras:

um cavaleiro de aventuras vem a ser um sujeito, que em duas palhetadas se vê desancado, e Imperador. Hoje está a mais desditada criatura do mundo, e a mais necessitada, e amanhã terá duas ou três coroas reais para as dar ao seu escudeiro. Capítulo XVI




laerce
 
quinta-feira, maio 26, 2005
  A grande aventura I
Porque a realidade não chega. Porque ele tinha que desarvorar de casa e viver tudo, tal como tinha lido nos seus livros, mesmo que, para isso, tivesse que perder dentes e até a própria vida. Dom Quixote é a grande aventura. Apesar de ter sido escrito no sec XVII, quase que descreve o que vemos à nossa volta, porque nele está contido tudo o que é humano, incluindo o sonho de um homem para quem a realidade é demasiado mesquinha, para quem a vida tem que ser muito mais do que miséria e banalidade.

Hoje, ousa-se cada vez menos. Vivemos numa sociedade que nos condiciona a todos os níveis, ensinando-nos o que vestir, o que comer, o que ler, o que dizer. Estamos a perder a piada, a espontaneidade, a singeleza. Mas é importante manter a capacidade de ter os pés no ar.

Ser cavaleiro andante é a liberdade, a procura de aventuras dignas de serem contadas, é não ter destino certo, e não se saber onde encontrar uma mesa e uma cama, é a pura camaradagem. Existir, Hoje, é ter a vida programada ao milímetro e meia dúzia de metros quadrados para viver, é possuir horários para todas as rotinas e ficar sem tempo para tudo o resto. Enfim, a vida é demasiado séria para ser levada a sério. E Cervantes deu-nos a melhor das ofertas: fala-nos do riso e do sonho, catalisadores da vida.

azuki
 
  El capitulo de Quijote de...
José Saramago

“Mi favorita –explica José Saramago– es la escena de los batanes, que está en el capítulo XX. Por el miedo de Sancho, por la simulada valentía de Quijote, por creer que la cosa es una y al final es otra; por la carcajada que di cuando la leí por primera vez. Y también por la noche, por la soledad de los dos pobres diablos de quienes la realidad se está riendo.”


Eu ainda não tenho capítulo preferido, apenas imagens, emoções gerais sobre Quixote, como o seu voluntarismo. Mas ainda só vou a meio do livro, ainda é cedo...

leitora
 
  Teoria
Hás-de saber, Sancho, que as feridas que afrontam não são as que se fazem com instrumentos que se acham à mão…Digo isto para que não cuides, que, se bem saímos desta pendência moídos, ficamos por isso afrontados; porque as armas que traziam aqueles homens, e com que nos machucaram, não eram outras senão os seus bordões; e nenhum deles ( se bem me lembra) continha estoque, espada, nem punhal. Capítulo XV





Por outras palavras, Sancho, as pauladas que vocês levaram não doeram nada posto que não foram usadas as armas adequadas para se lutar com um fidalgo. Ai Sancho, Sancho, não percebes nada.

laerce
 
quarta-feira, maio 25, 2005
  Amadis de Gaula
Cervantes pretendeu ironizar com o estilo literário da cavalaria, ao mesmo tempo que o salva da fogueira (também eu tenho ouvido dizer que é o melhor (Amadis de Gaula) de quantos livros neste género se tem composto; e por isso, por ser único em sua arte, se lhe deve perdoar) e se apropria dele, para o recriar de uma forma muito própria. Será quase como canibalizar aquilo que se pretende caricaturar…

Mantendo-me fiel ao entusiasmo, pelos temas abordados, que as leituras em mim convocam, resolvi começar a ler Amadis de Gaula, o primeiro de cavalarias que em Espanha se imprimiu, e dele procederam todos os demais, numa edição de 1935 que encontrei em casa. Assim se vê que ridicularizar é falar, e falar é dar importância, e aqui me encontro eu às voltas com o primeiro romance acabado de cavalaria. Porventura, Cervantes teria uma hierarquia dos bons e maus livros de cavalaria, que nos tentou transmitir através da passagem da fogueira (?).


(Fólio de Amadis de Gaula, edição de 1526, impressa em Sevilha por Jacobo Cromberger, alemão e João Cromberger)

Deste modo,
(i) fico a conhecer o verdadeiro arquétipo do cavaleiro andante, fiel à cavalaria e à sua dama (princesa Oriana);
(ii) passo a saber que, ao longo dos séculos, foram várias as recriações desta obra (o chamado “ciclo dos Amadises”, que tanto sucesso teve), percebendo agora um pouco melhor porque aparece outro Dom Quixote, sem nenhuma relação com Cervantes;
(iii) descubro que a sua autoria constitui uma das mais interessantes disputas literárias entre Portugal e Espanha: os espanhóis atribuem-na a Garcia Rodrigues de Montalvo (1508), enquanto que os portugueses defendem que esta será subsidiária da obra de um tal de Vasco de Lobeira (sec. XIV), a qual, no entanto, nunca terá sido publicada.

azuki
 
  El capitulo de Quijote de...
Mario Vargas Llosa

La escena predilecta de Vargas Llosa es la de los molinos de viento, a la que aludió en su discurso del premio Cervantes en 1995, asegurando que “los lectores se identifican con el Quijote que ha sucumbido a la tentación de lo imposible tratando de vivir la ficción”. Quizá porque, como repite el escritor peruano, de experiencias como la de los molinos de viento, don Quijote no saca “una lección de realismo” y acaba ganando la partida.

Quixote decide viver a ficção... Este é um dos aspectos que me prendem à leitura, tentar encontrar respostas, explicações para toda a aventura, que quero acreditar como não sendo louca. Na primeira parte encontrei algumas pistas neste sentido, e avanço na leitura com mais essa curiosidade, contando que o livro me dê respostas ou pelo menos justifique o arrastar das dúvidas.

leitora
 
terça-feira, maio 24, 2005
  Os tão costumeiros parasitas
No prefácio, Cervantes afirma que esta história terá sido originalmente contada por um mouro. Estranhamente, o autor irá debater-se com esta temática quando, nesse espaço de dez anos entre a publicação do primeiro e do segundo tomos, aparece uma sequela apócrifa que se aproveita do retumbante êxito do livro. Ao que parece, na altura, este tipo de coisas seria relativamente comum. Aliás, os parasitas estão cá desde o início da vida.

azuki
 
  El capitulo de Quijote de...
Antonio Muñoz Molina

“Hay muchas –relata Muñoz Molina– pero una de las que me impresionan es la de los galeotes, ese momento tremendo en que don Quijote dice: “No está bien que unos hombres se hagan verdugos de otros hombres, no yéndoles nada en ello”. Releí el capítulo XXII cuando se publicaron las fotos de las torturas de Iraq, y me saltó ante los ojos como si nunca hubiera visto esas palabras”.


Talvez seja esta mais uma demonstração da intemporalidade de Dom Quixote - conseguimos ver todos os tempos de que tomamos conhecimento nas suas palavras.

leitora
 
segunda-feira, maio 23, 2005
  Regra de Cavaleiros Andantes
«em tentando uma aventura e não se saindo bem dela, sinal é que não está para eles guardada, mas sim para outro, e não precisam de tentá-la segunda vez.» (Capítulo XLIII)

Precaução ou reconciliação com a sorte?

leitora
 
  De boas intenções está o inferno cheio
Vide o exemplo desafortunado do Andres. Quando quisermos começar a fazer o bem por alguém, devemos sempre acabá-lo. No meio de aventuras inocentes, Quixote consegue provocar grandes danos: mata ovelhas, rouba o instrumento de trabalho de um barbeiro, liberta um grupo de prisioneiros das galés, ataca pessoas de forma violenta. É preciso saber fazer o bem.

azuki
 
domingo, maio 22, 2005
  Cura
«Mas não acha extraordinária a facilidade com que este desventurado fidalgo acredita em tuda aquela mentira, só por se conformar no estilo e jeito com as tolices dos seus alfarrábios? (...) Não lhe falem em cavalarias, que ninguém o terá senão por homem de boa cabeça.» (Capítulo XXX)

Eu continuo com a minha suspeita inicial: o fidalgo está no seu juizo perfeito, e totalmente consciente do que está a fazer. Uma farsa, uma opção, um desejo infantil de brincar às cavalarias andantes, levada a cabo com convicção e sem se importar com o que dizem ou pensam os outros. Uma (primeira??) última aventura voluntária.

Presumo que o livro continuará a dar liberdade para todas as interpretações, que não dará resposta a esta dúvida sobre a lucidez do Fidalgo de La Mancha.

leitora
 
  Quijote
Soy de aquellos que sueñan con la libertad
capitán de un velero que no tiene mar
soy de aquellos que viven buscando un lugar
soy Quijote de un tiempo que no tiene edad.

Y me gustan las gentes que son de verdad
ser bohemio, poeta y ser golfo, me va
soy cantor de silencios que no vive en paz
que presume de ser español donde va.

Y mi Dulcinea, ¿dónde estarás?
que tu amor no es fácil de encontrar.
Quise ver tu cara en cada mujer
tantas veces yo soñé que soñaba tu querer.

Soy feliz con un vino y un trozo de pan
y también. ¡cómo no!, con caviar y champán
soy aquel vagabundo que no vive en paz
me conformo con nada, con todo, y con más.

Tengo miedo del tiempo que fácil se va
de las gentes que hablan, que opinan de más
y es que vengo de un mundo que está más allá
soy Quijote de un tiempo que no tiene edad.

Y mi Dulcinea, ¿dónde estarás?
que tu amor no es fácil de encontrar.
Quise ver tu cara en cada mujer
tantas veces yo soñé que soñaba tu querer,
tantas veces yo soñé que soñaba tu querer.

Julio Iglesias
© 1982 April Music/ Sunny Pop Songs
Album: Momentos (1982)

riverrun
 
sábado, maio 21, 2005
 
«Pois é possível que, andando comigo há tanto tempo, ainda não tenhas reconhecido, que todas as coisas dos cavaleiros andantes parecem quimeras, tolices e desatinos, e são ao contrário realidades?» (capítulo XXV)

leitora
 
  Cervantes asesino
En un lugar de la Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme, no hace mucho tiempo vivía in hidalgo... y ya ese lector está lleno de sospechas, porque el lector de novelas policiales es un lector que lee con incredulidad, con suspicacias, una suspicacia especial.

Por ejemplo, si lee: En un lugar de la Mancha..., desde luego supone que aquello no sucedió en la Mancha. Luego: ...de cuyo nombre no quiero acordarme..., ¿por qué no quiso acordarse Cervantes? Porque sin duda Cervantes era el asesino, el culpable. Luego... no hace mucho tiempo... possiblemente lo que suceda no será tan aterrador como el futuro.

(Borges oral: El cuento policial, Jorge Luis Borges)

riverrun
 
sexta-feira, maio 20, 2005
  Marcela
«os meus desejos têm por limites estas montanhas; e, se para fora se estendem, é para contemplarem a formusura do céu. São estes os passos contados, por onde a alma caminha para a sua morada primeira.» (capítulo XIV)

As palavras de Marcela, no seu elogio à serra, a mim transportaram-me para o Gerês.



É bom quando os livros nos transportam para os melhores lugares que temos em nós.

leitora
 
  Blame it on the nigromante
E sempre que a realidade não é, afinal, aquilo que eu desejo, a culpa é do nigromante (ou necromante: pessoa que evoca o espírito dos mortos).

azuki
 
  A Vida do Grande D. Quixote De António José da Silva (O Judeu) Pelo Teatro ao Largo
A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança, escrito em 1733 por António José da Silva, conhecido por O Judeu, é um clássico do teatro português. Misturando a sátira, o burlesco, canções de ópera cómicas, e voos de fantasia surrealista, é uma dramatização espirituosa da famosa história de Cervantes acerca do iludido velho cavaleiro e o seu ignóbil escudeiro, enquanto erravam pelas terras de Espanha à procura de proezas cavaleirescas para desempenhar. Como diz o nosso herói: “Vou a castigar insolentes, a endireitar tortos”. Intencionado para ser representado ao ar livre durante os meses de Verão de 2005, o espectáculo explorará por completo a riqueza imaginativa da peça original – os absurdos ‘feitos de cavalaria’, as ilusões fantásticas, os encontros com animais selvagens, deuses e vagabundos, e o comportamento bizarro do seu escudeiro, Sancho Pança. A nossa interpretação, mantendo-se fiel à original em texto e em espírito, incluirá música ao vivo, canções, danças e rotinas de comédia física.

17 e 18 de Junho
21h30
Culturgest
Anfiteatro de Ar Livre
Duração 1h15 (aprox.)
5 Euros

riverrun
 
quinta-feira, maio 19, 2005
  A culpa é do Frestão.
O que eu acho interessante também são as explicações que D. Quixote dá para aquilo com que se defronta ou acha que se defronta:

-Cala a boca, amigo Sancho – respondeu D. Quixote. – As coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças; o que eu mais creio, e deve ser verdade, é que aquele sábio Frestão, que me roubou os aposentos e os livros, transformou estes gigantes em moinhos de vento, para me falsear a glória de os vencer, tamanha é a inimizade que me tem… capítulo VIII


Pergunta: Quem é Frestão?

laerce
 
  Outro Leitor Compulsivo
- mas este já sem as óbvias maleitas - o narrador deste livro de aventuras:

«Como eu sou amigo de ler até os papeis esfarrapados das ruas»... (Capítulo IX)

O próprio narrador faz a aproximação ao valoroso Quixote e sua paixão por livros. A ironia está sempre presente, há uma forte consciência de quem vão ser os leitores, e a capacidade de desenhar leitores intemporais, de tocá-los ao fim de 400 ou outros tantos anos.

leitora
 
  Ver bem
A (nossa) realidade não deixa de ser um produto da (nossa) imaginação. Na monótona paisagem de La Mancha, Quixote tem visões incríveis, muito mais interessantes do que a planície seca e deserta. Por vezes, é importante olhar para uma estalagem e ver um castelo, vislumbrar uma delicada senhora numa rude camponesa, ter essa capacidade para detectar algo belo, qualquer que seja o sujeito/objecto do nosso olhar.

azuki
 
  o homem que só tem um livro
A essa hora, Jacinto, com o espírito acordado — ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade —, tomava com delícia o seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. [...] Quando eu correra a Tormes [...], ele findava o «D. Quixote», e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro.

(Eça de Queirós, A Cidade e as Serras)

riverrun
 
quarta-feira, maio 18, 2005
  Amadises e Palmeirins (Questões à volta de…)
"As cavalarias imaginárias entusiasmaram a tal ponto o público da Península, que, só no século XVI, produziram-se várias dezenas de romances cavaleirescos, a maior parte deles constituindo os dois ciclos concorrentes dos Amadises e dos Palmeirins.
(…)
A impressão em castelhano do Amadis de Gaula, em 1508…iniciara uma nova e grande vaga de produção de romances de cavalaria, que, graças à tipografia, podem agora atingir um público mais amplo que o da corte.
(…)
Palmeirim de Inglaterra, de Francisco de Morais, de que se conhece a 3ª edição impressa em Évora em 1564-1567…é a mais célebre e interessante novela de um ciclo lançado pelo castelhano Palmeirim de Oliva…Verifica-se… a estreita interdependência da novelística nas duas principais literaturas peninsulares, a tal ponto que chegou a agitar-se a hipótese da prioridade de uma autoria castelhana para este romance…"

História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva, Óscar Lopes

De facto esta relação entre Portugal e Espanha também nos aparece em Cervantes: estamos ainda diante da fogueira, escolhem-se os livros para a alimentar:

Abrindo outro livro, viu que era Palmeirim de Oliva, e ao pé dele estava outro, que se chamava Palmeirim de Inglaterra. Tanto que os viu, disse o Licenciado:
- De semelhante oliva, ou oliveira, façam-se logo achas, e se queimem que nem cinzas fiquem, e esse palma de Inglaterra se guarde e conserve como coisa única, e se faça para ela outro cofre, como o que achou Alexandre nos despojos de Dário…Este livro, senhor compadre, tem autoridade por duas coisas: primeiro porque é de si muito bom; segundo, por ter sido seu autor um discreto Rei de Portugal…que este e Amadis de Gaula fiquem salvos da queima.

Capítulo VI


Só por isto Cervantes aqui segue o anúncio recolhido na Pública de domingo, embora quanto à autoria de Palmeirim de Inglaterra, bem…

dom quixote2



laerce
 
 
«Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão moinhos de vento, o que só o poderia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros?» (Capítulo VIII)

Sancho, a voz da razão. Todos temos os nossos moinhos de vento. Todos nos empenhamos em embates que não têm importância, que nem sequer existem. E nem sempre temos por perto a voz avisadora de Sancho. Desperdiçamos energias e tempo.

Bem mais óbvios são os meus mionhos de vento que os de Dom Quixote, mas mesmo assim enganam-me vezes sem conta.

leitora
 
  Pança como nós
Um camponês chamado Pança passa a acompanhá-lo nas suas aventuras e depressa se apercebe que, no seu cavaleiro, há um parafuso a menos. Mas a promessa de uma ilha consegue tolher-lhe o raciocínio e torná-lo o mais crédulo dos homens. Como se quiséssemos tanto uma coisa que acabamos por deturpar a realidade a nosso bel-prazer, sem nos darmos conta. As únicas evidências que não lhe escapam são a fome e as pancadas. Sancho alterna momentos de lucidez com alturas de enorme incredulidade. Porventura, como todos nós…

azuki
 
  Comme on se sente petit!
Je retrouve toutes mes origines dans le livre que je savais par coeur avant de savoir lire, Don Quichotte.

Ce qu'il y a de prodigieux dans Don Quichotte, c'est l'absence d'art et cette perpétuelle fusion d'illusion et de realité qui en fait un livre si comique et si poétique. Quels nains que tous les autres à côté! Comme on se sent petit, mon Dieu! Comme on se sente petit!

(Gustave Flaubert, cartas a Louise Colet, 1852)

riverrun
 
terça-feira, maio 17, 2005
 
«tão contente e bizarro, e com tanto alvoroço por se ver armado cavaleiro, que a alegria lhe rebentava até pelas silhas do cavalo.» (capítulo IV)

Esta é uma das imagens mais fortes com que fico de Dom Quixote: a felicidade de conseguir atingir o seu sonho, e poder assim imiciar a missão para que está destinado. Dom Quixote não se deixará desanimar por dificuldades e insucessos, acredita sempre em si próprio e na importância do que tem para fazer, que está acima das dores, das nódoas negras, da falta de meios.

Como diz o próprio Dom Quixote mais à frente, "cada um é filho das suas obras".

leitora
 
  Século XVII na Pintura
Cervantes foi contemporâneo de Peter Paul Rubens (1577 - 1640) e Caravaggio (1573 - 1610).

A idade de Ouro da Pintura Espanhola foi marcada por Velázquez (1599 - 1660), que eu imagino ouvindo desde cedo as histórias de Quixote. Apesar de não ter registos alusivos às aventuras de Dom Quixote, tem personagens que podemos aproximar, por serem espanholas, e pertencentes à primeira ou segunda gerações de leitores das obras de Cervantes.


O vendedor de água de Sevilha


A Costureira


O Anão


O pequeno-almoço


A velha cozinheira

leitora
 
  Anacronismos
Ele é destemido, corajoso, generoso, apaixonado. Ele é uma espécie de anacronismo, numa época em que se vão esquecendo os valores do humanismo que caracterizou o Renascimento. A primeira saída de Dom Quixote acaba rapidamente. Qual a melhor forma de extirpar pensamentos pouco ortodoxos? Queimar parece uma boa ideia. Os livros são os culpados, os livros colocam ideias esquisitas nas cabeças das pessoas.

azuki
 
segunda-feira, maio 16, 2005
  Como preencher um espaço vazio.
Ora, se os livros se foram nas labaredas e o amo não vai dormir eternamente, como justificar aquele vazio. Vazio? Onde?

Um dos remédios que o barbeiro e o Cura por então idearam, foi que se condenasse e emparedasse a sala dos livros, para que ao levantar-se o amigo não pudesse dar com ela (tirada a causa, talvez cessasse o efeito). Dir-lhe-iam que um encantador os tinha levado com o aposento e tudo, e assim se executou com a maior presteza.

Capítulo VII

laerce
 
  a falta que estava já fazendo ao mundo a sua tardança
(capítulo II)

leitora
 
  Século XVII na Música
Cervantes foi contemporâneo de compositores do final do Renascimento e princípio do Barroco, numa época em que a música está dominada pela produção italiana:

Giovanni Palestrina - Itália (1525-1594)
Cláudio Monteverdi - Itália (1567-1643)
William Byrd - Inglaterra (1543-1623)

Parece-me que a comparação a fazer será entre Cervantes e Monteverdi, porque ambos reinventaram a Arte que praticavam, e fizeram a transição do Renascimento para o Barroco, e para o futuro.

A Monteverdi deve-se a criação da primeira ópera que chegou ao nosso tempo, como a Cervantes a invenção do romance moderno. (A primeira ópera não terá sido escrita por Monteverdi mas por Jacopo Peri, mas quis destino que o manuscrito de Dafne (composta em 1597) se perdesse, pelo que a mais antiga que chegou aos nossos tempos é Orpheu de Monteverdi, composta em 1607.)

Veja-se esta descrição de Adriano Brandão sobre as alterações na Música no início do Século XVII, que tão bem poderia ser adaptada para o curso da literatura que Cervantes e Shakespeare desenharam:

«O início do século XVII foi marcado por grandes evoluções técnicas, principalmente na construção e desenvolvimento de instrumentos musicais. As atenções dos compositores, então, voltaram-se à música instrumental. Os músicos seiscentistas são os criadores dos embriões da maior parte dos gêneros orquestrais conhecidos hoje: concerto, abertura, sinfonia etc.»


leitora
 
  Onde estão os cavaleiros andantes??
Alonso Quixana vive em La Mancha e leu demasiados livros de cavalaria.

Desde os tempos do Rei Artur, no sec XII, ser cavaleiro andante não é apenas uma forma de combate exercida pelos nobres, mas essencialmente um modo de vida, com um código de conduta bem definido. Os cavaleiros não defendiam apenas a sua Fé e a sua Pátria, mas zelavam pelo bem-estar da comunidade; os cavaleiros serviam, não só os seus semelhantes, mas também cidadãos em apuros; para além de guardiões da paz, estes homens possuíam virtudes como a lealdade, a generosidade, a integridade, a sabedoria e o sentido de justiça. Ora, que época não necessita de cavaleiros andantes?!

azuki
 
domingo, maio 15, 2005
  Solução para a maleita.
Para estes casos de livros que causam doenças esquisitas, a sabedoria popular tem um remédio: “pátio com eles “ e FOGO!


Riu-se da simplicidade da ama o Licenciado, e disse para o barbeiro, que lhe fosse dando os livros um a um, para ver do que tratavam, pois alguns poderia haver, que não merecessem o castigo do fogo.
-Nada, nada! – disse a sobrinha, não se deve perdoar nenhum;: todos concorreram para o mal.. O melhor será atirá-los todos juntos pelas janelas ao pátio, empilhá-los em meda, e pegar-lhes fogo.

Capítulo VI



Onde é que eu já vi isto?

laerce
 
  Maleitas do Leitor Compulsivo
«Tanto naquelas leituras se enfrascou, que as noites se lhe passavam a ler desde o sol-posto até à alvorada, e os dias, desde o amanhecer até ao fim da tarde. E assim, do pouco dormir e do muito ler se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juizo.» (capítulo I)

Nessa altura seria aconselhavel que os livros fossem postos à venda com uma etiqueta "leia com moderação. Leitura compulsiva pode secar-lhe o cérebro e fazer de si um cavaleiro andante"...

leitora
 
  Desocupado leitor
IV - O novo leitor

«Entre 1480 y 1680, la construcción de nueva figura del lector se remitió a una paradoja. Los lectores letrados y doctos, que acogieron las nuevas obras y las nuevas técnicas intelectuales, se quedaron fieles a los objetos manuscritos y las prácticas de la oralidad. Al revés, los lectores «populares», que no pertenecían al mondo de los humanistas y que participaban plenamente en una cultura tradicional oral, visual y gestual, fueron constituido como el público al quien se dirigieron las innovaciones editoriales. Este quiasmo fundamenta la ambigüedad de la «modernidad» de los lectores del siglo de Oro ya que es una «modernidad» que, en maneras diversas, siempre enlaza herencias y novedades.»

Fonte: Roger Cartier

O Quixote surge a meio desta época de ouro, em que a leitura já está mais difundida e o leitor corresponde menos ao intelectual ou burguês, incluindo também muitas jovens donzelas e muitos trabalhadores que sabem ler, e que vão ensinando a ler alguns colegas com pequenas publicações de acesso facilitado.

Neste livro, as referências a leitores são várias - estão familiarizados com hostórias de cavalaria os fidalgos, as donzelas, os estalajadeiros, os trabalhadores do campo. O livro de aventuras é um objecto de entertenimento, de ocupação de tempos livres/desocupados. O "desocupado leitor" deverá ser, também, esse leitor/ouvinte generalizado, que ocupa as suas pausas com aventuras e devaneios deste cavaleiro da triste figura. De que nós somos exemplo acabado.


leitora
 
sábado, maio 14, 2005
  Habilidade e preguiça
Dizer a verdade é um dos mais fortes elos que ligam os amigos. A verdade nua e crua, sem artifícios. O que seria de D. Quixote se este amigo não dissesse frontalmente as fraquezas de que o autor padecia? Bem, mas este amigo também tinha resposta para tudo. Grande amigo!


Como? Pois é possível que coisas, de tão insignificante importância e tão fáceis de remediar, possam ter força de confundir e suspender um engenho tão maduro como o vosso e tão afeito a romper e passar triunfantemente por cima de outras dificuldades maiores? À fé que isto não vem de falta de habilidade, mas sim de sobejo de preguiça e penúria de reflexão.
Prólogo


laerce
 
  Conselho ao amigo escritor
«No vosso livro o que muito convém é uma feliz imitação dos bons modelos, a qual, quanto mais perfeita for, tanto melhor será o que se escrever.» (prólogo)

São muitas as delícias deste prólogo, e eu tenho uma simpatia especial por este amigo do escritor, a quem devemos o fim do marasmo e a conclusão e publicação das Aventuras de Quixote. Mas o pobre mal podia imaginar o feliz inconveniente deste livro, o que se pode fazer seguindo de perto os livros de cavalaria...

leitora
 
  Desocupado leitor
III - A leitura em voz alta

«La lectura en voz alta desempeñaba otro papel: transmitir los textos a los analfabetos que son numerosos en la España del Siglo de Oro, aunque los niveles de alfabetización en la Península no sean tan débiles como se ha afirmado durante mucho tiempo (Viñao Frago). Cervantes ficcionalizó semejante transmisión de los textos en el capítulo XXXII de la Primera parte del Quijote, donde el ventero Juan Palomeque evoca la lectura en voz alta de dos novelas de caballería, Don Cirongilio de Tracia y Felixmarte de Hircania, y de una crónica, la Historia del Gran Capitán Gonzalo Hernández de Córdoba: «cuando es tiempo de la siega, se recogen aquí las fiestas muchos segadores, y siempre hay algunos que saben leer, el cual coge uno destos libros en las manos, y rodeámos dél más de treinta, y estámosle escuchando con tanto gusto, que nos quita mil canas» (Rico, 1998, 369).

Se aseguraba así a los textos de ficción, una circulación más allá de los «lectores», la lectura en voz alta era sin duda movilizada de una manera aún más importante para los sacerdotes y los predicadores. Con la presentación de imágenes y la teatralización de la palabra viva, la lectura y el comentario de pasajes, tanto de las Escrituras como de libros de devoción, eran una de las estrategias esenciales de la misión católica. Es muy claro entonces, que la forma «moderna» de la lectura en silencio y en soledad, no borró inclusive para los letrados, las prácticas más antiguas que ligaban el texto y la voz.»


Fonte: Roger Chartier

Momentos de desocupação também tinham os trabalhadores agrícolas; nas pausas depois do trabalho havia sempre um que sabia ler e que fazia a alegria dos outros, dando-lhes a conhecer, por exemplo, as aventuras de valorosos cavaleiros andantes.

Este ler sinónimo de "ler em voz alta" é muito curioso; esta noção posteriormente adquirida de se poder compreender um texto sem o recitar.

Hoje, ler em voz alta implica desconcentração, e menor compreensão dos textos.

leitora
 
sexta-feira, maio 13, 2005
  Recado direitinho para a Leitura Partilhada em 2005
«Podes dizer desta história tudo quanto te lembrar sem teres medo de que te caluniem pelo mal, nem te premeiem pelo bem que dela disseres.»

Assim faremos. Só pelo prazer da leitura e da conversa sobre livros.

leitora
 
 

Don Quixote and Sancho Panza
c. 1850
Black crayon and wash
16 x 22 cm
The Metropolitan Museum of Art. New York

Daumier, Honoré Victorin
(1808-1879)
French caricaturist, painter and sculptor
 
  Desocupado leitor
II A herança de Gutenberg

«con la imprenta se ampliaron a la vez el público de los lectores y la familiaridad con los libros. El librero condenado al infierno, en los Sueños de Quevedo, lo indica irónicamente: «yo y todos los libreros nos condenamos por las obras malas que hacen los otros, y por lo que hicimos barato de los libros en romance y traducidos del latín, sabiendo ya con ellos los tontos lo que encarecían en otros tiempos los sabios, que ya hasta el lacayo latiniza, y hallarán a Horacio en castellano en la caballeriza» (Arellano, 186). Facilitando la multiplicación de los ejemplares, las ediciones en pequeño formato, las traducciones en las lenguas vulgares, la imprenta aseguró la difusión de los textos clásicos y sabios más allá de los medios restringidos que solían leerlos en la cultura manuscrita. (...) Los aristócratas y los eruditos preferían la circulación manuscrita de las obras porque destinaba los textos sólo a los que podían apreciarlos o comprenderlos, y porque expresaba la ética de obligaciones recíprocas que caracterizaba tanto la urbanidad nobiliaria como las prácticas intelectuales eruditas.»

Fonte: Roger Chartier


Que eram os fidalgos, os aristocratas e os eruditos, senão pessoas com muito do seu tempo desocupado? Com Gutemberg o livro torna-se mais acessível, mais generalizado - contudo talvez não tão em conta do que certas cópias manuscritas feitas por mãos amigas. Há nas aventuras do Quixote uma deliciosa referência a um manuscrito esquecido numa estalagem (ou deveria dizer: num castelo)... mas não vamos desfolhar depressa demais as páginas deste livro... eu continuo com o prólogo!

leitora
 
  Desocupado leitor
I

Este livro foi escrito para pessoas desocupadas.

Leitora desocupada, eu?!

Quem são os leitores em 1605?



Este foi o ponto de partida para muitas interrogações e algumas pesquisas. Quem lia na Espanha do século XVII? Quem comprava os livros? Quem era louco por histórias de cavalaria?

Se cheguei a alguns dados históricos interessantes mas, como seria previsível, o próprio livro foi respondendo à minha pergunta.


leitora
 
quinta-feira, maio 12, 2005
  A culpa é dos desenhos animados
Se Quixote faz parte do nosso imaginário, para várias gerações mais e menos recentes esse facto é indissociável da série de desenhos animados que vimos na televisão. Querem material de culto? Oiçam a canção do genérico, qual máquina do tempo...

Los molinos son,
gigantes que hay que derrotar,
Rocinante es el mejor corcel,
y Sancho es arrogante,
fuerte y fiero ,
!Ay! Don Quijote lo que ves.


leitora
 
  400 anos depois...
"Procurae antes que á luz com palavras significaticas, honestas e bem colocadas, saia vossa oração e periodo sonoro e festivo, pintando em tudo que alcançardes e fôr possivel vossa intenção, dando a entender vossos conceitos sem intrincal-os e escurecel-os.
Procurae tambem que lendo a vossa historia, o melancholico se mova ao riso, o risonho o accrescente, o simples não se enfade, o discreto se admire da invenção, o grave não o deprecie, nem o prudente deixe de gabal-a."

PROLOGO

D. Quixote de La Mancha
Guimarães e Cª - Editores
Lisboa 1905


400 anos depois, melancólicos ou não, somos movidos ao riso, rimos com esse riso, os que se enfadam não sabem o que perdem, a admiração cresce, não há uma voz negativa e
o herói - anti-herói - é o mais gabado da literatura.


Troti
 
 

Elizabeth Toohey
 
  wikipedia IV
Herdeiros de Cervantes

Se, de uma forma geral, toda a literatura moderna se pode considerar herdeira de Cervantes, apesar de comummente se reconhecer essa herança quando se fala da literatura de língua espanhola, alguns livros há que têm mais marcada essa referência.

The novel's landmark status in literary history has afforded it a vast and nearly innumerable legacy of influence. To just enumerate a few examples:

A Confederacy of Dunces by John Kennedy Toole

Joseph Andrews by Henry Fielding notes in the preface that it is "written in Imitation of the Manner of Cervantes, Author of Don Quixote"

Madame Bovary by Gustave Flaubert is often attributed as a retelling of Don Quixote

The Odyssey: A Modern Sequel by Nikos Kazantzakis includes a character called Kapetan Enas whose alias is Don Quixote

Pierre Menard, Author of the Quixote by Jorge Luis Borges is a short story about a man who re-authors Don Quixote. It is also well known as a central metaphor in John Barth's famous essay "The Literature of Exhaustion"

Tristram Shandy by Laurence Sterne is rife with references, including Parson Yorick's horse, Rocinante

Monsignor Quixote by Graham Greene. Monsignor Quixote is said to be a descendant of Don Quixote.

Adventures of Huckleberry Finn by Mark Twain. Huckleberry Finn and Tom Sawyer take to the road in emulation of Quixote and Sancho.


Para mim a maior surpresa é a referência de Madame Bovary. Surpresa/estranheza. E tremenda ignorância.

leitora
 
quarta-feira, maio 11, 2005
  Drummond e Portinari
Leituras do Quixote


Candido Portinari


III / O esguio propósito

Caniço de pesca
fisgando o ar,
gafanhoto montado
em corcel magriz,
espectro de grilo
cingindo loriga,
fio de linha
à brisa torcido,
relâmpago
ingênuo
furor
de solitárias horas indormidas
quando o projeto a noite obscura.

Esporeia
o cavalo,
esporeia
o sem-fim.


Carlos Drummond de Andrade


leitora
 
 
Pequeno ensaio de Paul Auster sobre Dom Quixote:, incluído na Trilogia de Nova Iorque:

"Naquele momento andava ocupado com um ensaio sobre Dom Quixote.
- Um dos meus livros preferidos - Disse Quinn.
- E dos meus também. É uma obra incomparável.
Quinn fez-lhe perguntas sobre o ensaio.
- Acho que se pode dizer que é um ensaio especulativo, dado que não pretendo provar nada. Na verdade, trata-se de uma abordagem irónica. Uma leitura imaginativa, digamos assim.
- De que é que se trata ?
- Tem sobretudo a ver com a autoria do livro. Quem o escreveu e como foi escrito.
- Há dúvidas a esse respeito ?
- Claro que não. Refiro-me ao livro dentro do livro que Cervantes escreveu, o livro que ele imaginou que estava a escrever.
- Ah...
- É muito simples. Cervantes, como deve lembrar-se, tenta por todos os meios convencer o leitor de que não é ele o autor. O livro, diz ele, foi escrito em árabe por Cid Hamete Benegeli. Cervantes descreve como um dia descobriu o manuscrito por acaso num mercado de Toledo. Contrata alguém para lho traduzir para espanhol e depois apresenta-se apenas como o editor da tradução. Na verdade, ele nem sequer pode garantir que a própria tradução seja fiel ao original.
- E no entanto - acrescentou Quinn -, ele afirma que a versão de Cid Hamete Benengeli é a única versão verdadeira da história de Dom Quixote. Todas as outras versões são fraudes escritas por impostores. Insiste, aliás, que tudo o que o livro relata aconteceu na realidade.
- Exactamente. Porque, ao fim e ao cabo, o livro é um ataque contra os perigos do faz-de-conta. Ele não podia, evidentemente, oferecer um produto da imaginação para isso, não é verdade? Tinha que reivindicar que aquilo era real.
- Contudo, sempre suspeitei que Cervantes devorou todos aqueles velhos romances de cavalaria. Só se consegue odiar alguma coisa com tanta violência quando uma parte de nós próprios também a ama. Num certo sentido, Dom Quixote era simplesmente um duplo de ele próprio.
- Concordo. Haverá melhor retrato de um escritor do que mostrar um homem enfeitiçado por livros?
- Precisamente.
- De qualquer maneira, como o livro é supostamente real, é evidente que a história tem que ser escrita por uma testemunha dos acontecimentos que o livro relata. Mas Cid Hamete, o alegado autor, nunca aparece. Nem uma única vez reivindica estar presente no que acontece. Por conseguinte, a minha pergunta é: quem é Cid Hamete Benegeli?
- Sim, compreendo aonde quer chegar.
- No meu ensaio, apresento a teoria de que ele é na realidade uma combinação de quatro pessoas diferentes. Sancho Pança é, obviamente, a testemunha. Não há nenhum outro candidato. ele é o único que acompanha Dom Quixote em todas as suas aventuras. Mas Sancho Pança não sabe ler nem escrever. Logo, não pode ser ele o autor. Por outro lado, sabemos que Sancho Pança tem um grande dom de linguagem. Apesar dos seus inanes solecismos, consegue falar circularmente de todos os personagens do livro. Acho perfeitamente possível que ele tenha ditado a história ao barbeiro e ao cura, os grandes amigos de Dom Quixote. São eles que dão à história a necessária forma literária, em espanhol, e depois entregam o manuscrito a Sansão Carrasco, o bacharel de Salamanca, que traduziu o texto para árabe. Cervantes encontrou a tradução, tratou de a retroverterem para espanhol e em seguida publicou o livro: Dom Quixote de la Mancha.
- Mas porque razão Sancho Pança e os outros se dariam a tanto trabalho?
- Para curar a loucura de Dom Quixote. Querem salvar o seu amigo. Lembre-se de que no início lhe queimam todos os seus romances de cavalaria, mas sem qualquer efeito. O Cavaleiro da Triste Figura não desiste da sua obsessão. Depois, em várias ocasiões, todos eles se lhe apresentam em vários disfarces - uma mulher em perigo, o Cavaleiro dos Espelhos, o Cavaleiro da Branca Lua -, para tentarem atrair Dom Quixote de novo para casa. No fim, conseguem de facto sair vitoriosos. O livro era apenas um desses estratagemas. A ideia era pôr um espelho diante da loucura de Dom Quixote, registar todas as suas absurdas e ridículas fantasias, para que quando ele finalmente lesse o livro, visse como estava errado.
- Bem achado!
- Sim. Mas há uma última reviravolta. Na minha opinião, Dom Quixote não estava completamente louco. Fingia estar louco. Com efeito, foi ele próprio quem orquestrou tudo aquilo. Lembre-se: ao longo do livro, Dom Quixote está preocupado com a questão da posteridade. Interroga-se incessantemente sobre a fidelidade com que o cronista registará as suas aventuras. Isso implica um conhecimento da sua parte, ou seja, sabe antecipadamente que este cronista existe. E quem mais poderia ser senão Sancho Pança, o fiel escudeiro que Dom Quixote escolheu expressamente para esse propósito? Escolheu igualmente os outros três para desempenharem os papéis que lhes havia destinado. Foi Dom Quixote quem engedrou o quarteto Benengeli. Não só escolheu os autores como foi ele próprio que provavelmente verteu o manuscrito árabe de novo para espanhol. Há que ter em conta esta hipótese. Para alguém tão hábil na arte do disfarce, não lhe teria sido muito difícil escurecer o tom da pele e envergar as roupas de um mouro. Gosto de imaginar essa cena no mercado de Toledo: Cervantes a contratar Dom Quixote para decifrar a história do próprio Dom Quixote. Há uma grande beleza nisso.
- Mas ainda não explicou por que razão um homem como Dom Quixote romperia com a sua vida tranquila para se dedicar a um truque tão elaborado.
- Isso é a parte mais interessante de tudo. Na minha opinião, Dom Quixote estava a levar a cabo uma experiência. Queria pôr à prova a credulidade dos seus companheiros. Seria possível, pensou ele, alguém apresentar-se perante o mundo e, com o maior dos desplantes, atirar mentiras e disparates? Afirmar que os moinhos de vento são cavaleiros, que a bacia do barbeiro é um elmo, que os fantoches são pessoas reais? Seria possível persuadir os outros a concordarem consigo, mesmo não acreditando nele? Por outras palavras, até que ponto as pessoas tolerariam blasfémias se isso as divertisse? A resposta é óbvia, não acha? Até onde ele quisessse. E a prova é que hoje lemos o livro. Continuamos a achá-lo sublimemente divertido. E é isso o que todas as pessoas desejam de um livro: que as divirta."

Troti
 
  mentes cultas
(se me é permitida esta tradução) também em volta do Quixote, com mais ou menos sucesso. Duas vertentes complementares: a técnica e a confessional. Não é um livro fácil de ler, mas permite muitas leituras e formas de leitura diferentes. Ah, e o melhor de tudo continua a ser discutir as leituras, falar sobre o livro. Pelo menos para mim.

leitora
 
  400 moinhos de vento
São muitos os grupos que se dedicam à leitura do Quixote neste ano de Quarto Centenário. Gosto em particular deste, e lamento que a nossa língua (ou melhor, o seu desconhecimento) nos impeça uma ponte imediata. Sorte nossa que os podemos acompanhar. Poderemos, talvez, meter conversa. Leitores andates acenam aos 400 moinhos de vento, do outro lado do Antlântico!

leitora
 
  Biografia – Morte de Cervantes II

(Fachada del convento de las Trinitarias de Madrid donde fue enterrado Cervantes)

Ya cercana su muerte, Cervantes comenzará a alejarse del entorno de la Congregación del Santísimo Sacramento. El ambiente mundanal de ésta le hizo entregarse a la Orden Tercera de San Francisco, al igual que sus hermanas y su mujer. Los votos definitivos los pronunciará el dos de abril de 1616.

La hidropesía y la cirrosis de hígado que padece están consumiendo su existencia. El 18/abril le serán administrados los últimos sacramentos y dos días después dictará lo que sería el prólogo del Persiles.

El 22/abril de 1616 Miguel de Cervantes Saavedra fallece. Su esposa será nombrada ejecutora testamentaria y se encargarán 10 misas por el descanso de su alma. Será enterrado en el convento de los Trinitarios. Más adelante, morirán también su sobrina Constanza (1622), y su mujer, Catalina de Salazar (1626).

Su hija Isabel vivirá hasta 1652. Cervantes no dejó descendientes y su testamento se perdió. Sólo nos quedan sus obras puesto que, a finales del siglo XVII, sus restos fueron dispersados debido a la remodelación del convento que los albergaba.

Fonte: cervantes

azuki
 
  Biografia – Morte de Cervantes I

(Testamento de Don Quijote, de García Morales. Ministerio de Justicia, Madrid)

En esos años (1615), tenemos noticia de un Miguel entregado a las gestiones propias de un escritor ante la inminente publicación de su obra. Durante el tiempo restante, es frecuente su asistencia a los oficios de su Orden y la dedicación al cuidado de su ya delicada salud. Sin relaciones con su hija, sabemos de Isabel por las acciones judiciales ejercidas contra su antiguo amante, Juan de Urbina, el cual será arrestado hasta cancelar una deuda que mantenía con ella.

Nuestro viejo escritor sigue sufriendo apuros económicos que verán algún arreglo cuando vendió a Francisco de Robles el manuscrito del Quijote.

(…)emprenderá la creación de Los trabajos de Persiles y Sigismunda. Su producción será fulgurante, quizás pensando en un fin próximo y deseoso de saber la acogida de su obra entre el público erudito. En 8 meses terminará el manuscrito, justo antes de fallecer. Esta novela de maravillas verosímiles toma su inspiración de la novela griega del siglo III, donde la narración presenta acontecimientos fortuitos por los que los personajes cambian el rumbo de sus aventuras, pero no sus sentimientos. El Persiles tendrá cinco ediciones durante su primer año de vida. Rápidamente será traducido en toda Europa, aunque su éxito más notable será en Francia.

Fonte: cervantes

azuki
 
terça-feira, maio 10, 2005
  Drummond e Portinari
Leituras do Quixote


Candido Portinari


I / Soneto da loucura

A minha casa pobre é rica de quimera
e se vou sem destino a trovejar espantos,
meu nome há de romper as mais nevoentas eras
tal qual Pentapolim, o rei dos Garamantas.

Rola em minha cabeça o tropel de batalhas
jamais vistas no chão ou no mar ou no inferno.
Se da escura cozinha escapa o cheiro de alho,
o que nele recolho é o olor da glória eterna.

Donzelas a salvar, há milhares na Terra
e eu parto e meu rocim, corisco, espada, grito,
torto endireitando, herói de seda e ferro,

E não durmo, abrasado, e janto apenas nuvens,
na férvida obsessão de que enfim a bendita
Idade de Ouro e Sol baixe lá nas alturas.


Carlos Drummond de Andrade


A edição portuguesa está agendada para este ano. Finalmente.

leitora
 
 
"DOM QUIXOTE" CONSIDERADO O MELHOR LIVRO DO MUNDO
Escolha promovida pelo Instituto Nobel, na Noruega

"Don Quixote", a obra-prima de Miguel de Cervantes (1547-1616), foi votada anteontem como o melhor romance do mundo por um conjunto de 100 escritores de 54 países, numa iniciativa do Instituto Nobel, na Noruega.

A obra de Cervantes - um romance satírico publicado, em duas partes, em 1605 e 1615, e que conta a história de um velho e lunático cavaleiro que vagueia na companhia do seu escudeiro Sancho Pança pela região de La Mancha, no centro de Espanha, realizando estouvados actos de cavalheirismo destinados a provar o seu amor por Dulcineia, que ele nunca conheceu - encabeça a lista com uma vantagem confortável sobre "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, eclipsando tanto as peças de William Shakespeare como inúmeras outras obras-primas da Humanidade, de Homero a Tolstoi.

"Se há alguma peça que deva ser lida antes de morrer, essa é 'Don Quixote'", disse o escritor de origem nigeriana Ben Okri, vencedor do prémio Booker e autor do prefácio de uma nova edição norueguesa do livro de Cervantes. "Ela contém a história mais bela e elaborada, apesar da sua simplicidade", acrescentou Okri, anteontem, na sede do Instituto Nobel, em Oslo, na apresentação da lista dos 100 melhores livros do mundo.

Na lista final, "Don Quixote" recolheu mais 50 por cento dos votos que foram arrecadados por "Em Busca do Tempo Perdido", em resultado de um inquérito feito a escritores como Salman Rushdie, Milan Kundera, John Le Carré, John Irving, Nadine Gordimer, Carlos Fuentes, V.S. Naipul, Wole Soyinka e Norman Mailer, a quem foi pedido que respondessem à pergunta "Quais crê que sejam as obras melhores e mais importantes da literatura mundial?", mencionando dez títulos.

«Público» Quinta-feira, 9 de Maio de 2002

Troti
 
  Biografia – A Segunda Parte de D. Quixote III
Tras dos meses desde la finalización de la redacción, el autor consigue, en marzo de 1615, privilegio real en todo el territorio español. De nuevo Francisco de Robles confiará la labor de impresión a Juan de la Cuesta y ya, a finales de noviembre, está publicada la Segunda Parte del Ingenioso Cavallero Don Quixote de la Mancha por Miguel de Cervantes Saavedra, autor de su primera parte. Esta segunda parte tan esperada volvió a confirmar las expectativas de los lectores. La tercera y última salida del aventurero, que así reconoce Cervantes, no hace sino llevar a la perfección toda la obra y convertirla en pieza maestra de la literatura universal.

El caduco ideal heroico es vencido por lo burlesco y los contemporáneos de Miguel guardarán una acogida semejante a la que se sirvió a la primera parte de la historia. El secreto de Miguel para evitar el estancamiento de unos personajes archiconocidos no es otro que enfrentarlos con la imagen ya formada en los lectores. Todo se condense en la característica comicidad cervantina que hace cómplice al espectador. La muerte del protagonista llevará a la eternidad a este ingenioso hidalgo: don Quijote de la Mancha.

Fonte: cervantes

azuki
 
  Biografia – A Segunda Parte de D. Quixote II
Lamentablemente será en septiembre de 1614 cuando bajo la autoría del licenciado Alonso Fernández de Avellaneda, hasta ahora desconocido en los círculos literarios, salga editada la obra Segundo tomo del ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha.

Todas las incorrecciones de este volumen delataban al autor, del que, por otro lado, nunca se supo ni se ha podido asegurar si firmaba bajo seudónimo o si verdaderamente había existido. Desde luego, sí quedó clara su intención de vilipendiar a Miguel, que tuvo que sufrir insultos y ofensas personales "en su propia obra".

También los protagonistas deberán sufrir la ridiculización propia de un enemigo de las novelas de caballerías. Miguel, en la segunda parte de su Quijote, no reflejará enfado, aunque no desaprovechará la oportunidad para dignificar los motivos de los insultos dirigidos hacia él, su vejez y la inutilidad de su mano. También se servirá de su propia ficción para subrayar lo inverosímil de esa segunda parte apócrifa.

Fonte: cervantes

azuki
 
  Biografia – A Segunda Parte de D. Quixote I
Será de nuevo el librero Francisco de Robles, que ya había obtenido notables beneficios con la primera parte del Quijote, quién más instaría a Miguel para que se decidiera a continuar el proyecto. Después de haber devuelto a su aventurero protagonista a su hogar, y de plantear un posible abandono por si no se realizaba la segunda parte de la obra, Miguel emprenderá, una vez comprobado el éxito ya conseguido, la elaboración de las nuevas aventuras del ingenioso hidalgo.

Con una rapidez inusitada, teniendo en cuenta la creación y publicación de otras obras en ese mismo periodo, terminará de escribir los 72 capítulos en el breve plazo de 4 años.

Fonte: cervantes

azuki
 
 
El Toboso existe.



Para sempre ficou conhecida como a terra de Dulcineia.

La historia de El Toboso (Toledo) es la de un pueblo manchego, de remoto origen ibérico, importancia estratégica cuando las órdenes militares (perteneció a la de Santiago) y una carga inmensa de evocación quijotesca. Todo en El Toboso recuerda a Dulcinea y a Alonso Quijano, el hidalgo manchego que alumbra con su idealismo el mundo, desde la Mancha.


Quatrocentos anos depois, os pintores de nacionalidade espanhola foram convidados a retratar Dulcineia e os seus amores. Na mesma página do Ayuntamiento informação sobre as comemorações oficiais a decorrer na cidade que mais que nunca nos espera...

leitora
 
  Pesadelo de D. Quixote
Sancho: ouço uma voz etérea
Que nos chama...
Ibéria, dizes tu?!... Disseste Ibéria?!
Acorda Sancho, é ela a nossa dama!

Pois de quem hão-de ser estes gemidos?!
Pois de quem hão-de ser?!
Só dela, Sancho, que nos meus ouvidos
Anda o seu coração a padecer...

Ergue-te, Sancho! Quais moinhos?! Quais?!
Ai, pobre Sancho, que não sabes ver
Em moinhos iguais
Qual deles é só moinho de moer!...

in Alguns Poemas Ibéricos, Miguel Torga (1952)

riverrun
 
segunda-feira, maio 09, 2005
  ler ou não ler...
Contemporâneo de Shakespeare, é tão certo que o inglês tenha lido o seu D. Quixote como certo Cervantes não ter conhecido nenhum texto de Shakespeare.

(fonte: IPLB)


Vantagem de Shakespeare, claramente.

leitora
 
 
"Monsignor Quixote", de Graham Greene é o confronto da dimensão humana e comezinha da vida com as interrogações complexas do que está para além do imediato"


"Num dos seus últimos romances, que constitui uma revisitação bem humorada da obra prima de Miguel de Cervantes, Graham Greene põe em diálogo um sacerdote católico, Quixote, inesperadamente nomeado Monsenhor, e um "alcalde" comunista, Sancho, um ortodoxo que convive com a heterodoxia e não esconde uma evidente simpatia pelo Padre e um incómodo conservadorismo pelas audácias de Quixote.Aí temos um apego indisfarçavel ao paradoxo, tantas vezes para chegar a conclusões há muito adquiridas, mas nem sempre compreendidas. A certa altura o "alcalde" propõe que almocem no restaurante " Pôncio Pilatos". Quixote é peremptório. Não entra. E justifica essa resistência por considerar Pilatos o símbolo da neutralidade, o pecado dos nossos dias: "não podemos ficar neutros quando se trata de escolher entre o bem e o mal"...

...
Guilherme D´Oliveira Martins
Jornal de Letras - 9 Novembro 2004



Eu também acho que não podemos.

Troti
 
  wikipedia III
A terra cujo nome não é referido



In 2004, a scholarly team lead by Francisco Parra Luna announced that it had identified the "real" hometown of Don Quixote, which is never actually named in the novel (the very first line of the book begins, "In a village of La Mancha the name of which I have no desire to recall ..."). Based on clues in the novel, along with computations of the time it would have taken a man on horseback to reach the various locations referenced by the author, the team identified the place as Villanueva de los Infantes, a small town some 144 miles south of Madrid.

As reported in press accounts, Mariano Sabina, the mayor of Villanueva de los Infantes, said upon hearing the news: “I’m delighted that my town is the famous place in La Mancha. Now I hope the whole world will know us.”



Quem sabe... e que sorte!

leitora
 
  Biografia – Últimos Anos IV
Viaje del Parnaso (1614), odisea burlesca, surge en contraposición a las costumbres literarias de la época. Será reconocida por Miguel como imitación, en sus raíces, del Viaggio in Parnaso de Cesare Caporali. El poema está compuesto por 3.000 endecasílabos divididos en 8 cantos. Se configura como una historia personal fragmentada y diseminada en la que no se dejan de incluir menciones y alabanzas a numerosos colegas. También se dejará ver en el viejo Cervantes la pasión con la que antaño obtuvo cierto éxito.

Con sus convicciones teatrales ya obsoletas y tras decidir escribir las obras para ser leídas y no representadas, tendrá, en 1615, que vendérselas al librero Juan de Villarroel. En septiembre, sale publicada la obra Ocho comedias y ocho entremeses nunca representados. La novedad llevó a la indiferencia y la ruptura con el teatro habitual no encontró su sitio. Sólo los entremeses fueron algo mencionados, aunque no por la profundidad que Miguel imprimió a los personajes, sino como obras menores cuyo objeto era divertir.

Desde luego que el teatro cervantino sufrió la incomprensión de sus coetáneos y aún hoy está a la espera de que los recursos modernos faciliten su puesta en escena.

Fonte: cervantes

azuki
 
  Mil vezes Quixote
...está tudo no Quixote, o livro onde mais se aprende de cada vez que se lê, mil vezes que se tenha lido.

José Pacheco Pereira

riverrun
 
domingo, maio 08, 2005
  Madame Suggia
O “Don Quixote” não é um livro fácil. É um colossal monumento. Intimida, mais do que convida à leitura. Foi esta a minha experiência. Amei o livro muitos anos antes de o ler, com o sentimento que sempre me toma perante uma grande obra-prima: receio de a abordar por puro respeito e devoção. E, no entanto, desde a infância que o “Don Quixote” me fôra apresentado como uma das obras cimeiras da literatura universal.
Li o livro várias vezes, em espanhol; e foi como se tivesse lido metade da literatura mundial. Não sei se alguma vez quererei ler outro livro ou se não preferirei voltar sempre ao “Don Quixote”.
“Don Quixote” é habitualmente considerado um livro cómico; na verdade, embora a sua leitura, sobretudo a da segunda parte, nos possa fazer rir, e a da primeira parte nos suscite o sorriso e as lágrimas, trata-se de um livro profundamente filosófico e simbólico.



GUILHERMINA SUGGIA
(In John O’London’s Weekly, 23 de Fevereiro de 1924)


leitora
 
  Dicionário de Borges:
Grandes Livros

Todos os grandes livros criam uma imagem. Quando os lemos e a procuramos página por página, podemos não encontrá-la. Talvez (não tenhamos respeito-, porque não?) a nossa lembrança do Quixote, a nossa imagem do Quixote seja superior ao livro.

in: Antonio Carrizo, Borges el memorioso
(fonte: Borges Verbal, ed. Assírio & Alvim)

leitora
 
  Dicionário de Borges:
Quixote

Essa ideia de Unamuno de que Dom Quixote é uma personagem exemplar parece-me errónea, porque certamente não o é: é antes um senhor colérico e caprichoso. Mas como nós sabemos que ele é inofensivo...

in: Osvaldo Ferrari, En diálogo
(fonte: Borges Verbal, ed. Assírio & Alvim)

leitora
 
  D. Quixote lê o mundo para demonstrar os livros
Com as suas voltas e reviravoltas, as aventuras de D. Quixote traçam o limite onde acabam os jogos antigos da semelhança e dos signos; nela se estabelecem já novas relações. D. Quixote não é o homem da extravagência, mas antes o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas de similitude. [...] O seu longo e esgalgado grafismo, como o de uma letra, parece ter saltado direitinho de um bocejo dos livros. Todo o seu ser é linguagem, texto, folhas impressas, história já transcrita. [...] D. Quixote lê o mundo para demonstrar os livros. E as provas que ele obtém não são mais do que o reflexo das semelhanças. [...] D. Quixote é a primeira das obras modernas, pois nela se vê a razão cruel das identidades e das diferenças zombar incessantemente dos signos e das similitudes; pois a sua linguagem rompe a velha intimidade com as coisas, para entrar nessa soberania solitária de ser abrupto, donde só sairá convertida em literatura.

Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, (1966)

riverrun
 
sábado, maio 07, 2005
  Harold Bloom, de novo
But he is neither a fool nor a madman, and his vision always is at least double: he sees what we see, yet he sees something else also, a possible glory that he desires to appropriate or at least share. De Unamuno names this transcendence as literary fame, the immortality of Cervantes and Shakespeare. We need to hold in mind as we read Don Quixote that we cannot condescend to the knight and Sancho, since together they know more than we do, just as we never can catch up to the amazing speed of Hamlet's cognitions. Do we know exactly who we are? The more urgently we quest for our authentic selves, the more they tend to recede. The knight and Sancho, as the great work closes, know exactly who they are, not so much by their adventures as through their marvellous conversations, be they quarrels or exchanges of insights.


Ainda no primeiro quarto do livro, questiono-me constantemente àcerca deste Quixote. Não me parece louco, antes consciente das suas opções e iludido quanto aos seus limites. Um homem que decide seguir os exemplos dos livros que adora. Por alguma razão, com ou sem objectivos. De início pareceu-me que era apenas a despedida da vida que ele achou mais própria, induzida pela referência à sua idade, que para aqueles tempos era já avançada. Ficou a ser esta a minha aposta de compreensão do livro, que poderei manter, ou não, logo se verá.

leitora
 
  Dicionário de Borges:
Realidade fantástica

Produzir uma realidade fantástica é um pressuposto comum a toda a ficção. Repare-se nesta frase inicial de Cervantes: "Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo vivia um fidalgo dos de lança no seu lanceiro, adarga antiga, cavalo fraco e galgo de corridas"... Seja como for, com esta frase já Cervantes nos tirou do mundo quotidiano. Creio que deve começar-se com uma frase longa; hoje escreve-se sem cuidado.

in: Carlos Álvarez Insúa, revista Feeling n.º 2
(fonte: Borges Verbal, ed. Assírio & Alvim)

leitora
 
 


Don Quixote and Sancho Panza
c. 1866-68
Oil on canvas
40.2 x 33 cm
The Armand Hammer Museum of Art and Cultural Center, Los Angeles

Daumier, Honoré Victorin
(1808-1879)
French caricaturist, painter and sculptor
 
 
En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor.


Começo. Estou a ler uma tradução a que carinhosamente alguém se referiu como "a dos Viscondes", porque não arrisco agarrar apenas ou sequer prioritariamente na edição em castelhano que mora cá por casa (uma edição vinda de Bilbao, semeada de gravuras).

A "tradução dos Viscondes" irrita-me um pouco, tem imensas gralhas e português ora estranho ora espanholado. A edição que tenho deve ter sido obtida por scanner de um livro antigo, tem muitas letras trocadas: "an" ou "rn" em vez de "m" deve ser a mais vulgar. Mas nem isso me afastará de livro tão interessante, e tão estranhamente próximo. Quem diria que tem 400 anos?

leitora
 
  Destaque:
a leitura do Quixote

Beijinhos para Charlotte, sempre atenta.

leitora
 
sexta-feira, maio 06, 2005
  Dicionário de Borges:
Clássico

Podiam perder-se todos os exemplares do Quixote, em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se todos, mas a figura de Quixote faz parte da memória da humanidade. (...) Quando ele for lido no futuro, não se saberá muito bem em que época foi escrito.

in Osvaldo Ferrari, En diálogo
(Fonte: Borges Verbal, ed. Assírio & Alvim)

leitora
 
  Dicionário de Borges:
Cervantes

Não podemos duvidar que Cervantes conhecia bem D. Quixote e podia acreditar nele. A nossa crença na crença do romancista salva todas as negligências e falhas.

in Blas Matamoro, Diccionario privado de JLB
(fonte: Borges Verbal, ed. Assírio & Alvim)

É fundamental acreditar num Quixote para ler esta obra até ao fim. Um dos vários Quixotes possíveis. Ou inventá-lo e tentar confirmar no livro a nossa descoberta.

Eu digo que ele não é louco, nada disso; parece-me o mais lúcido de todos, apenas resolveu divertir-se.

leitora
 
  Biografia – Últimos Anos III

("Rinconete y Cortadillo": Novela de Miguel de Cervantes Saavedra, edición crítica por Francisco Rodríguez Marín. Sevilla, 1905 (Francisco de P. Díaz). Obra premiada por la Real Academia Española)

(1613) saldrán a la luz sus Novelas Ejemplares. Esta etapa se convertirá en la más fructífera de su carrera literaria. El creciente éxito universal que está adquiriendo su Don Quijote es ajeno al viejo escritor. Mientras la obra se extiende por Europa, Miguel participará en los cenáculos de la Academia del Parnaso, donde junto a los círculos literarios de la época, disfrutará de enfrentamientos burlescos y del contacto con otros escritores.

Las Novelas Ejemplares son un volumen que incluye doce novelas cortas. Después de numerosas gestiones, se obtiene el privilegio real para Castilla y Aragón, y en el mes de septiembre vende la obra al ya conocido librero Francisco de Robles. El éxito será arrollador y en sólo 10 meses se realizarán 4 ediciones, que a lo largo del siglo llegarán a 23.

Surgirá un Lope de Vega novelista que, pese a sus antiguos enfrentamientos, no dejará de reconocer el estilo y gracia de Miguel, que más adelante tendrá a Tirso de Molina como uno de sus discípulos más brillantes. Su buen resultado no tardará en hacer llegar la obra a Inglaterra, donde el autor ya cuenta con un gran prestigio por el Quijote, y a Francia, que convertirá la obra en fundamento de la literatura española. Estas Novelas Ejemplares serán pioneras en España de la ya conocida novela corta europea.

Esto no significa que sean imitaciones, sino que el sentido y la forma de las obras guardarán las características básicas del género. No podemos olvidar los años italianos de Miguel, donde pudo disfrutar de libros como el Decamerón de Bocaccio. Cervantes sabrá convertir este género en algo más que una mera exposición de los típicos temas de la época; sabrá presentarnos los personajes como personas, y nos hace partícipes de sus sentimientos y sus vivencias. Entonces surge en el lector la atracción que le lleva a descubrir su destino. El autor, con estas novelas, se propuso utilizar la ejemplaridad de la ficción. Son ejemplares porque son ejemplos de situaciones que nos hacen ver el buen obrar y las consecuencias de unos y otros casos. Desde luego que ésta no es una intención manifiesta, sino que el propio lector será el intérprete del desenlace.

El escritor hizo patente su temor ante cualquier perjuicio que sus novelas pudieran provocar; temor que se supone ante los previos criterios censores que, a su deseo, le fueron aplicados al volumen.

Fonte: cervantes

azuki
 
  Biografia – Últimos Anos II

(Cruz de la Orden de Santiago)

Su hija Isabel, enviudará (1608). No hará falta mucho tiempo para que vuelva a casarse, con Luis de Molina. Las condiciones del matrimonio, duramente negociadas, fueron establecidas entre dotes y no dotes que acentuaban una dudosa buena relación. No obstante Isabel llegará a condicionar la consumación del matrimonio a la entrega de, al menos, la mitad de la dote. Entretanto, se producirá una disputa económica entre Molina, el marido, y Urbina, el supuesto amante. (…) actitud resignada de Miguel, tanto por los deseos de que no quede afectada la imagen de su familia como por la pérdida de la ilusión por ejercer de padre.

Después de que su hermana Magdalena ingresara en la orden de San Francisco, su hermana Andrea y su mujer, Catalina, entrarán también en la Orden Tercera de San Francisco. Miguel, también preocupado por su incierto final, seguirá los pasos de numerosos personajes de las letras uniéndose a la Congregación de los Esclavos del Santísimo Sacramento. Al contrario que Lope de Vega, 20 años más joven, nuestro autor se distinguió por su rectitud para cumplir las reglas exigidas por la orden, aunque no pasa inadvertido, en relación a sus obras, que siempre se habían caracterizado por sus críticas a la iglesia y a su entorno, lo contradictorio de esta fe postrera. Críticas que no se pueden, de todos modos, considerar anticlericales sino signos de la época.

Fonte: cervantes

azuki
 
  Harold Bloom argues that only Shakespeare comes close to Cervantes' genius
Cervantes and Shakespeare, who died almost simultaneously, are the central western authors, at least since Dante, and no writer since has matched them, not Tolstoy or Goethe, Dickens, Proust, Joyce. Context cannot hold Cervantes and Shakespeare: the Spanish golden age and the Elizabethan-Jacobean era are secondary when we attempt a full appreciation of what we are given.
(...)
Don Quixote may not be scripture, but it so contains us that, as with Shakespeare, we cannot get out of it to achieve perspectivism. We are inside the vast book, privileged to hear the superb conversations between the knight and his squire, Sancho Panza. Sometimes we are fused with Cervantes, but more often we are invisible wanderers who accompany the sublime pair in their adventures and debacles.
(...)

(Leitores andantes, foi a legenda que propus para os nossos novos marcadores. Nada se inventa, de facto, as ideias e definições são recorrentes.)

leitora
 
  Biografia – Últimos Anos I

(Casa de Lope de Vega en Madrid)

El 27/Jun/1605 será herido frente al domicilio de la familia Cervantes un hombre llamado Gaspar de Ezpelete. Miguel acudirá en su ayuda, junto con otros vecinos.

Muchas circunstancias harán que los vecinos hayan tenido relación con la justicia y Miguel, que por aquel entonces era visto como un ocioso rodeado de mujeres y aficionado al juego, había hecho negocios con un portugués que se encontraba ahora en la cárcel por deudas. Todo esto, unido a la muerte de Ezpeleta, hará encarcelar a diez personas entre las que se incluye nuestro autor.

La injusticia cometida no tardará en ser reconcida. El caso queda cerrado, aunque Miguel ya habrá tenido suficiente para que su reputación quede peor parada de lo que estaba, pues, con una hija abandonada, su afición al juego, y sus cuestionados negocios ya estaba en boca de todos en Valladolid.

Su dedicación (Cervantes) plena a luchar contra los editores no autorizados de su obra, que aunque le habían otorgado gran fama a sus personajes, le hacían perder dinero a él y a su editor, Francisco de Robles. Este último tuvo que ceder a una edición pirata realizada en Valencia por el librero Juan Ferrer, con quién acabó repartiéndose el mercado. Mientras, Lope de Vega dirigirá un soneto malsonante y violento contra Cervantes en el que, además de criticar su obra, atacará directamente al autor.

Fonte: cervantes

azuki
 
  quixote, quixotesco, quixotismo
quixote
1 indivíduo ingénuo e generoso, que luta inutilmente contra as injustiças

quixotesco
1 que diz respeito a D. Quixote; próprio de D. Quixote
2 relativo a quixote ou quixotada
3 que é generosamente impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade
4 característico ou próprio de fanfarrão

quixotismo
1 modos e hábitos próprios de D. Quixote de la Mancha, personagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616)
2 atitude de quem se compraz em sustentar, mesmo em circunstâncias difíceis, a defesa de causas que são estranhas aos seus próprios interesses; abnegação cavalheiresca
3 excesso de cavalheirismo
4 pretensão de coragem ou grandes méritos e conquistas; atitude de quem é dado a bravatas; fanfarrice, jactância

in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

riverrun
 
quinta-feira, maio 05, 2005
  "O meu Quixote"
"Ele nunca existiu - mas, de cada vez que levitamos em grupo numa gargalhada ou inundamos a noite com as lágrimas de uma ausência, de cada vez que nos entregamos ao fascínio ou à fúria, é a sua centelha que nos ilumina. A narrativa das suas desvairadas aventuras, que cumpre agora quatrocentos anos, está-nos inscrita no código genético; nada que possamos experimentar, nenhum êxtase, frustação alguma, ultrapassam a sua vanguardista experiência da vertigem. Ele, que nunca existiu, tem uma estátua no largo da sua terra, El Toboso, em Espanha, uma terra recriada a partir da literatura. Mesmo os que nunca passaram pelo deslumbramento do seu livro, o livro de D. Quixote de la Mancha, trazem-no dentro da pele - ainda que nem sequer saibam quem ele é. Porque ele não é só nem principalmente o louco cavaleiro que tomava moinhos de vento por gigantes - embora todos sejamos, num momento ou noutro das nossas vidas, esse cavaleiro alucinado. Ele é, absolutamente, o ser humano total - valente e cobarde, apaixonado e insensível, mudo e palavroso, sonhador e pragmático.
...
Sancho e Quixote não são os dois lados do humano, porque o humano é pluridimensional e imprevisível - são, isso sim, os vértices da mais bela história da Amizade jamais escrita. O Quixote é também isso, uma história de diálogo, cumplicidades, involuntárias traições, inexplicáveis lealdades."

Inês Pedrosa
Revista UNICA/ 5 de Março 2005 Expresso


Troti
 
  Imaginación vs. Realidades del mundo
Cervantes era de esos hombres, hemos dicho, cuya imaginación deforma de tal modo las realidades del mundo, que en su mente llegan casi a confundirlas con el sueño; quando se acercan a ellas, infaliblemente, y en lo que tienen de hermoso, las ven desvanecerse.

in Cervantes, Sebastián Juan Arbó

riverrun
 
  Biografia – A Primeira Parte de D. Quixote III
En el mismo año de la publicación del Quijote (1605), la reina Margarita tendrá un hijo. El futuro heredero nace entre el júbilo de la Corte y de la ciudad, y, en este contexto, Miguel compondrá un romance que se incluirá en la novela La Gitanilla, donde su protagonista, llamada Preciosa, lo dedicará a la reina el día después del parto. Las ceremonias en honor del nacimiento del futuro Felipe IV traerán a España a numerosos representantes extranjeros.

Entre ellos, destaca Lord Howard, embajador inglés que, siendo almirante, había arrasado Cádiz hacía nueve años. Al margen de esto, Cervantes consiguió una mayor difusión de las aventuras de don Quijote y su escudero gracias a las representaciones en los festejos y a que, ya de vuelta Lord Howard, en Inglaterra se supo de la obra que poco después sería traducida.

Fonte: cervantes

azuki
 

O QUE ESTAMOS A LER

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PROXIMAS LEITURAS

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

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