Leitura Partilhada
quinta-feira, junho 30, 2005
  Amor
O amor de D. Quixote por Dulcineia é tão bonito. Mas ele ama um ideal. O amor que nós, humanos, vivemos todos os dias é uma garra que nos prende a uma realidade exaltante e dura, da qual não nos podemos libertar. Sonha-se o sonho mas ama-se o concreto e é esta matéria que encerra a definição do amor. Não são olhos de porcelana e cabelos de oiro, não são corpos esculpidos com pele de cetim que, de facto, amamos. São carecas e barrigas, acnes e miopias, cáries e pêlos, pés grandes e pernas pequenas. Com carinho mas também com muito sangue, suor e lágrimas. Este é o triunfo do amor: sermos capazes de amar para além da nossa idealização, de ultrapassar as fantasias, sublimar os defeitos e aceitar as diferenças. Todos os dias. Com vitórias e derrotas mas com aquele ímpeto indestrutível que brota de nós , nos subjuga e nos preenche. O amor é a seiva que nos alimenta a alma e nos projecta o espírito. Conseguir amar é o maior trunfo que podemos ter na vida.

Troti
 
  Um fim inevitável
Sobre a morte súbita do nosso herói, têm aparecido várias teorias. Uma delas, defende que esta seria a forma de evitar futuras fraudes (à semelhança do que tinha acontecido após a publicação do 1º tomo). Outros, defendem que Quixote foi destruído pela sua incapacidade de viver num mundo sem ideais. Com o fim do entusiasmo, à vida sem sonho, é preferível a morte.

Quixote é irresistível, Quixote é intemporal, Quixote é a personificação do desejo e, ao mesmo tempo, o reflexo de quão implacável pode ser o mundo para aqueles que sonham. Quixote é grandioso e patético. O impossível era a sua medida, pois só na utopia poderia ele encontrar a sua verdadeira dimensão. O fim era inevitável.

azuki
 
  Tu és a minha Dulcineia (vi)
Eu colonizei a tua imagem. Perdoar-me-ás...?

azuki
 
  Borges foi enfático...
Num de seus diálogos com Osvaldo Ferrari, Borges foi enfático: "Poderiam perder-se todos os exemplares do Quixote, em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se todos, mas a figura de Dom Quixote já é parte da memória da humanidade".



Troti
 
  Transforma-se o amador na cousa amada
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.

Luís de Camões

azuki
 
 
Imagem de Doré; retirada http://etext.library.adelaide.edu.au/c/cervantes/c41d/

Aqui se encerra a minha participação

Existe realmente um tipo humano quixotesco; ele é o reformador, o fanático, o místico, o santo, o filósofo, o louco, o político e até o artista, que pretende melhorar a sociedade, contra as condições dominantes. São estes alguns dos homens e mulheres que transformaram o mundo. Frequentemente são ridicularizados, espezinhados e destruídos sem que a história os retenha; outras vezes, são responsáveis por grandes feitos e mudanças positivas na História, e, alguns outros, utilizam meios para atingirem determinados fins, que podem ser causadores de enorme sofrimento... e os fins não passarem de “moinhos de vento” (Cervantes mostra D. Quixote como sendo responsável pelo aumento do sofrimento do desventurado André).

Procurando a “Bondade”, “Justiça” e a “Dignidade Humana”, os verdadeiros heróis quixotescos têm uma visão interior tão forte, que sentem o mundo real como uma ameaça aos seus sonhos. Pode parecer uma banalidade afirmar isto, mas penso que Moisés, Alexandre o Grande, Júlio César, Homero, Buda, Jesus Cristo, Maomé, Infante Dom Henrique, Dom João II, Lutero, Joana d`Arc, Antero de Quental, Marx, Gandhi, Luther King...Napoleão e Hitler, são paradigmas de loucos, que para o bem ou para mal, foram quixotescos.

Quanto ao Sancho...somos nós, gente vulgar, que na existência comezinha, procurámos o bem, sem descurar a nossas necessidades basilares; mas que através de vivências superiores (pessoas, livros, locais...) herdámos o testamento espiritual do cavaleiro da eterna figura, que nos permite apreender, aperfeiçoar e aplicar a nossa própria ética. Alguns, leitores mais ou menos atentos, com a sua pureza ideal e vontade própria, podem converter-se em cavaleiros andantes.
O ideal será em sermos, por vezes Sancho, outras vezes Quixote, ou outras ainda, os dois num.

Este é já um dos livros da minha vida. E ficou tanto por dizer...
Esta foi também uma extraordinária aventura, com o Leitura Partilhada. É divina a partilha, tal como demonstraram os nossos dois amigos.
Obrigado a todos e boas leituras. A aventura continuará no Outono.
Peço desculpa pela redundância e por alguns dislates.

Castela
 
 
Emídio Guerreiro

Singela homenagem a Emídio Guerreiro, e já agora também a Fernando Vale, dois quixotes, que percorreram a estrada da liberdade com coragem, idealismo e espírito revolucionário; e ainda com empenho cívico e apego a existência condigna dos outros.
Devemos sentir todos uma profunda gratidão.

“Vivemos momentos em que a conjuntura domina a estrutura e em que se releva o não importante e se esquece o importante” .
«A liberdade nasce com a aurora da Humanidade, é uma necessidade intrínseca do progresso e caminha a par da dignidade humana. Sem dignidade não há liberdade e por isso as ditaduras não se sustentam a não ser pela força».
«Um homem digno é um homem livre e só se é livre quando se é digno».
«O segredo é nunca perder a esperança».
Imagem retirada de http://sarmento.weblog.com.pt/

Castela
 
  Tu és a minha Dulcineia (v)
O amor, o amor, o amor, nem que seja inventado! Aliás, não é sempre?? Os nossos sujeitos/objectos de amor nunca serão impermeáveis à projecção que, de nós próprios, neles fazemos. Do mais negro e soturno que somos, mas também daquilo que temos de melhor.

azuki
 
  Elogio da Loucura (de Quixote) - VI
Sin duda, la muerte de Don Quijote sucede en paisaje apacible, recobradas en el último instante la razón y la verdad. De golpe, la locura del caballero ha adquirido conciencia de sí misma, y ante sus propios ojos se convierte en tontería. Pero esta brusca sabiduría de su locura, ¿no es una nueva locura que acaba de penetrarle en la cabeza? Equívoco indefinidamente reversible que no puede ser decidido definitivamente más que por la muerte. La locura disipada se tiene que confundir con la inminencia del fin; e inclusive una de las señales por las cuales conjeturaron que el enfermo se moría, era el que hubiese vuelto tan fácilmente de la locura a la razón. Pero ni siquiera la muerte trae la paz: la locura triunfará aún, verdad irrisoriamente eterna, por encima del fin de una vida, que sin embargo se había liberado de la locura, en este mismo fin. Irónicamente la vida insensata del caballero lo persigue, y lo inmortaliza su demencia; la locura es la vida imperecedera de la muerte:

Yace aquí el Hidalgo fuerte
que a tanto extremo llegó
de valiente, que se advierte
que la muerte no triunfó
de su vida con su muerte.


Michel Foucault, Historia de la locura en la época clásica

riverrun
 
quarta-feira, junho 29, 2005
  a boda
Não quero despedir-me desta obra sem partilhar convosco uma lauta refeição, que isto de estar sempre a ler não é lá muito bom para a cachimónia e temos de forrar o estômago para os livros que se seguem.


Casa de Cervantes en Valladolid.

A primeira coisa que Sancho viu foi uma vitela inteira, metida num espeto que era o tronco de uma árvore, e no fogo onde se havia de assar ardia um monte de lenha, e seis olhas que estavam à roda da fogueira…dentro delas havia carneiros inteiros…lebres esfoladas….galinhas depenadas….
Capítulo XX, 2ª parte

Ai que me enganei na imagem! Ou já vejo gigantes também?

Os pormenores da boda estão nas páginas 510/511 da já referida edição…

Boas leituras!
laerce
 
  Tu és a minha Dulcineia (iv)
Gostaria de me desnudar perante ti, que és um pedaço da minha alma (no imaginário, consigo-o). Acompanhas-me e proteges-me, guias-me os passos, indicas-me o caminho. Sinto que, de certa maneira, te pertenço.

Gostaria que soubesses dos meus abraços. Todos os abraços que te dei ao longo de todos estes anos. Gostaria que visses os meus sorrisos. Todos esses meus sorrisos.

Gostaria de não sentir arrepios, nem medo das palavras. Fica apenas a emoção, intocada. Intocada pelas palavras e pelos gestos, que não a conseguem abarcar.

Gostaria. Gostaria.

azuki
 
  D. Quixote foi-se embora
Acende mais um cigarro, irmão
inventa alguma paz interior
esconde essas sombras no teu olhar
tenta mexer-te com mais vigor
abre o teu saco de recordações
e guarda só o essencial
o mundo nunca deixou de mudar
mas lá no fundo é sempre igual

E agora, que a lua escureceu
e a guitarra se partiu
D. Quixote foi-se embora
com o amigo que a tudo assistiu
as cores do teu arco-íris
estão todas a desbotar
e o que te parecia uma bela sinfonia
é só mais uma banda a passar

A chuva encharcou-te os sapatos
e não sabes p'ra onde vais
tu desprezavas uma simples fatia
e o bolo inteiro era grande demais
agarras-te a mais uma cerveja
vazia como um fim de verão
perdeste a direcção de casa
com a tua sede de perfeição

Tens um peso enorme nos ombros
os braços que pareciam voar
tu continuas a falar de amor
mas qualquer coisa deixou de vibrar
os teus sonhos de infância já foram
velas brancas ao longo do rio
hoje não passam de farrapos
feitos de medo, solidão e frio

Jorge Palma

Troti
 
  Happy End
Ou eu assim o imaginava, Dom Quixote transformado em pastor, compondo elegias à sua Dulcineia. Mas zás!, Cervantes mata-o em duas páginas, fazendo-o ainda abjurar as suas loucuras. (Moralidade acima de tudo, senhores; além disso, há que impedir que venha a lume uma qualquer Terceira Parte que seja depois necessário desmentir...)
It missa est.
nastenka-d
 
  O anátema dos mouros
A história é contada por um mouro. Como se sabe, na época de Cervantes, os mouros não eram tidos em muito boa conta, sendo vistos como farsantes, desonestos, mentirosos. Ainda não se livraram deste anátema, verdade seja dita. Aliás, Filipe II ordenou, com a aprovação do povo espanhol, a expulsão dos mouros ou árabes cristianizados, motivado pelas suas putativas traições à coroa e inúmeras conspirações. Que pensaremos Hoje, das histórias contadas por mouros??

azuki
 
 
Gosto cada vez mais de Sancho

“... E vamos acompanhar Sancho, que, entre alegre e triste, vinha caminhando montado no ruço, a procurar seu amo, cuja companhia lhe agradava mais do que ser governador de todas as ilhas do mundo”.
“... E, como ele diz Cid Hamet, era muito caritativo tirou dos alforges o meio pão e o meio queijo que trouxera, e deu-lho, dizendo-lhe, por sinais, que não tinha mais nada para lhes dar.”

Sancho é na sua essência um ser autêntico, adaptado a si próprio e ao meio envolvente; o modo como abandona o cargo de governador comprovam-no. Com grande percepção, decide abandonar uma vida que não se coaduna à sua própria existência, e que o tornava desditoso. Para este seu bem-estar, contribui o apego a Dom Quixote; o que comprova que damos mais valor as pessoas queridas, quando elas se desviam do nosso caminho.
Sancho dá-nos uma lição importante; que é a de não devermos forçar o nosso mundo interior a um mundo exterior divergente; mas sim adaptar o mundo exterior ao nosso carácter; mas isto executado com uma enorme serenidade e grandeza de espírito. Assim se evitaria uma boa dose de sofrimento, com que todos os dias nos deparamos ao observar o nosso semelhante.
Sancho é notável no seu desempenho de governador; na sua argúcia e na sua imaculada justiça, é um exemplo para quem exerce ou pretende exercer cargos públicos.
Realço ainda a bondade que Sancho Pança manifesta, ao abdicar do pouco que tem (meio pão e meio queijo) para dar como esmola aos seis peregrinos...que afinal de contas estavam bem abonados. Isto não é uma simples “caridadezinha”, mas sim um acto de profundo humanismo e solidariedade.
Estas páginas de Sancho, como governador são a todos níveis notáveis, e para mim, são das mais edificantes da literatura.
Castela
 
terça-feira, junho 28, 2005
  À volta da loucura de Quixote
Com a sua paranóia dos livros de cavalaria, Alonso Quijano parece ter perdido um parafuso. Lembro-me da profusão de alcunhas que a sociedade inventa para quem lê: torre de marfim, rato de biblioteca,… Experimentem dizer a alguém que lêem algumas dezenas de livros por ano e aguardem a reacção… alguma admiração ou pura estranheza?

Não é só aos olhos dos simples como Sancho que Quixote parece louco. Há algo de preocupante na mensagem deste livro o qual, de alguma forma, parece transmitir-nos que apenas num mundo de fantasia poderão impor-se valores como a fraternidade e a justiça. Saramago, por exemplo, entende que Cervantes jogou o jogo: para fazer passar a mensagem, deu a loucura a Quixote; de outro modo, o conteúdo talvez não tivesse sido absorvido.

azuki
 
 
"Ninguém termina sua leitura e continua sendo o mesmo homem".

Luis Rosales

Troti
 
 
"Dom Quixote encarna a tragédia do homem superior que não consegue se realizar plenamente como sonhou"

Jorge Guillén( poeta espanhol)

Troti
 
  o tonto
A ligação do capítulo XXXI para o XXXII é um mimo na técnica de prender o leitor à narrativa. Diz o narrador no final do primeiramente citado:” Mas esta resposta merece um capítulo especial”.

Esse capítulo especial tem perto de dez páginas e é especial não só porque o autor assim o quis chamar, mas porque D. Quixote faz de si próprio e das regras da cavalaria, um retrato convincente e claro. Não só para aqueles que na circunstância o ouviam, mas para todos, os de ontem, os de hoje e os de amanhã.


…não pertenço ao número dos viciosos, mas sim ao dos platónicos e continentes. As minhas intenções sempre as dirijo para bons fins, que são fazer bem a todos e mal a ninguém. Se quem isto entende, se quem isto pratica, se quem disto trata, merece ser chamado bobo, digam-no vossa grandezas, duque e duquesa excelentes.

laerce
 
 
De um Quixote trágico, que enquanto estudante moldou misticamente os todos “Vencido da Vida”, para todos os cavaleiros andantes. Coincidentemente, Antero sofria da mesma doença que atingiu Quixote.

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura

!Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro com fragor…
Mas dentro encontro só,
cheio de dor,Silêncio e escuridão - e nada mais!

Sonetos - Antero de Quental
Castela

Em que se acaba de tratar de D. Quixote
“Logo nos capítulos iniciais da segunda parte, o bacharel Sansão Carrasco, figura que se torna decisiva, descreve ao engenhoso fidalgo tudo o que vem escrito no falso D. Quixote, publicado em Tarragona em 1614. D. Quixote começa por se envaidecer: «Uma das coisas que mais deve dar contentamento a um homem virtuoso e eminente é ver-se, em vivo, andar com bom nome pelas línguas das gentes, impresso e ilustrado. Digo com bom nome, porque, se o contrário fosse, nenhuma morte se lhe igualaria.»
É o contrário: o Cavaleiro vai ouvir, da boca do bacharel, o relato das difamações, calúnias e provocações que sobre ele e os seus próximos bolsa o falso D. Quixote . Pirueta genial de Cervantes: D. Quixote , que havia um mês repousava das suas desditas da primeira parte, é acometido de uma incontrolável fúria de acção, porque é mister dar seguimento à narrativa do bom D. Quixote , o de 1605.
E assim se decide a sair de novo em cata de aventuras, para alimentar, com as façanhas que consiga cometer, a veia criadora do seu inventor.
Toda a segunda parte assenta neste pressuposto de leitura, que certamente só ocorreu a Cervantes em fase tardia da escrita, espicaçado pelo falso D. Quixote. Mas o propósito (literário) de dar combate àquele cruza-se harmoniosamente com o renome do Cavaleiro: é que, nesta segunda parte, a fama precede o aparecimento de D. Quixote. Na realidade, todos os que com ele se cruzam o conhecem, não só por terem ouvido falar dele, como acontecia nos capítulos finais da primeira parte, mas também porque leram a crónica das suas aventuras. Com este artifício, junta Cervantes o seu próprio livro à biblioteca de romances de cavalaria que constituíam a fonte de inspiração da primeira parte da sua obra; e legitimando-a, inscreve-a no cânone que começara a erguer naquele longínquo Capítulo VI, o da queima dos livros.
Daí resulta que o livro que se vai ler é uma narrativa presente dos factos (vencendo assim nove anos de tempo histórico), uma espécie de diário de D. Quixote nesta sua terceira saída pelo mundo. As referências temporais (na véspera, dois dias depois, passada uma semana…) , intensificam-se, e a narrativa vai deslizando para o tempo real da sua composição, como demonstra a carta de Sancho Pança para sua mulher, no capítulo XXXVI, a meio da segunda parte, datada de 20 de Julho de 1614, possivelmente o dia em que Cervantes escreveu o capítulo. Inicia-se aqui, com a burla da ilha de Baratária , o martírio paralelo de D. Quixote e de Sancho, que se estende por quase todo o resto do livro: às mãos dos duques cruéis e enganadores, um e o outro vão viver a experiência do desengano.
O leitor pressente que, com esta dupla provação, a de Sancho (que desacredita) e a de D. Quixote (que começa a não acreditar), se inicia a preparação do fim do livro, porque deixar de sonhar é começar a morrer. Leia-se então o comovente Capítulo LXXIV, o último: decidira-se D. Quixote, cruelmente desenganado, a vestir as vestes de pastor e a procurar nas reminiscências da Arcádia feliz o que a épica cavaleiresca não fora capaz de lhe dar; mas pegam-se-lhe umas febres que o levam a afirmar-se com «o juízo já livre e claro, sem as sombras caliginosas da ignorância, que nela me lançaram a minha contínua e detestável leitura dos livros de cavalarias». E acaba a pedir desculpa ao «autor que dizem que escreveu uma história que por aí corre com o título de Segunda Parte das Façanhas de D. Quixote … pelo ensejo que lhe dei de escrever tantos e tão grandes disparates como nela escreve». Ironia de autor e última verrina dirigida ao impostor de Tarragona : porque a morte do Cavaleiro redime e exalta o verdadeiro autor da personagem, o tal CideHamete , que é Cervantes, e que D. Quixote expressamente indica como o seu «autorizado» criador. Subtil e engenhoso artifício, pelo qual Cervantes reconduz D. Quixote à literatura de onde o fez brotar.
O que acontece neste «misterioso livro» ( Madariaga ) é que, embora o intento expresso por Cervantes seja o de meter a ridículo os romances de cavalaria, a minuciosa e desvelada reencenação de passagens diversas de alguns deles o torna suspeito de cumplicidade, senão com o espírito, ao menos com a forma desses romances que diz aborrecer. Pode ter começado em registo de paródia; mas a paródia, como diz Giorgio Agamben , surge quando o mistério se nos afigura indecifrável. E tudo indica que Cervantes foi incapaz de decifrar, perante si mesmo, o mistério pelo qual, apesar de achar ridículas as histórias da cavalaria andante, não conseguia escapar ao fascínio que delas emanava.
Sublime hesitação, que é constante oscilação de sentido na escrita de Cervantes: O Engenhoso fidalgo D. Quixote de la Mancha acaba por ser uma «paródia séria» dos romances de cavalaria. Como escreveu Marthe Robert : «Depois de ter queimado simbolicamente a obra cavaleiresca da qual não consegue libertar-se, Cervantes recomeça-a e morre escrevendo o último romance de cavalaria”.

António Mega Ferreira- Crónica publicada na revista visão.
Castela
 
segunda-feira, junho 27, 2005
  para recordar
Palavras para quê? Espero que gostem...













Há mais aqui.


laerce
 
  Amizade
Ao longo da leitura de D. Quixote, acompanhamos a relação de amizade que se estabelece entre Sancho e o Cavaleiro da Triste Figura. Uma amizade que ultrapassa as fronteiras amo/servo, e que, vivendo com as contradições da alma humana, consegue atingir um ponto muito alto na esfera do carinho.
Ter um amigo é uma benesse, mas a vida corre muito depressa e não temos tempo para fazer especulações filosóficas sobre um dado já adquirido. Mas devemos. Devemos agradecer todos os dias a dádiva da partilha, as verdades expostas, os erros compreendidos, o choro acompanhado, o afecto seguro, a alegria prometida.
A amizade faz-se de pequenos detalhes, de gestos e palavras, cumplicidade e comunhão de espíritos. E, por isso, não tem preço.


Troti
 
  As duas faces da fantasia
O episódio do aparecimento das três camponesas, em que Sancho afirma ver Dulcineia, é muito interessante do ponto de vista simbólico, pois constitui uma inversão de papéis. Agora, é Dom Quixote quem não consegue vislumbrar a farsa de Sancho. Mais uma vez, o nigromante é culpado porque, afinal, Quixote não consegue discernir a ficção de Sancho, que ele toma por realidade. A diferença é que Sancho não acredita naquilo que diz, ao contrário de Quixote, para quem a realidade é a ficção que brota da sua cabeça.

azuki
 
 
A estrutura da obra atinge toda a originalidade e complexidade na segunda parte. Estamos perante personagens que já leram o primeiro volume e a partir deste, vão simular a realidade de modo a dominar o nosso herói, e assim a manipular a evolução da narração; a ilusão cria ficção, e... tudo é teatralidade.
Dom Quixote e as restantes personagens, nesta dissimulação, meditam, especulam, questionam-se e aprofundam-se; enfim a literatura está a criar algo novo; o “Romance”.
Na nossa vida conseguiremos discernir a realidade da fantasia? O mundo do devaneio, criado pela informação e entretenimento fútil, funciona de certo modo, como os ambientes artificiais criados por Sanção Carrasco e pelos Duques.
O universo humano, é assim uma amálgama intrincada e realidade e fantasia; e quase todos nós somos uma pálida imagem de nós mesmos.Enfim, meras marionetas caleidoscópicas, manipulados por “Cavaleiros dos Espelhos”.
Cervantes conseguiu, através de Dom Quixote e Sancho, deixar de ser um espectro vagueador e irrelevante.
É necessário passar com celeridade, da sociedade da informação e entretenimento, para a sociedade do conhecimento e da bondade, para que alguns de nós nos possamos libertar. A leitura do Dom Quixote, e o seu entendimento unipessoal e subjectivo, pode ser um pequeno passo para esta utopia.
Por mim já consegui atrair três leitores.
Castela
 
domingo, junho 26, 2005
  Barataria



…o mestre–sala chegou-lhe um prato de fruta; apenas Sancho comeu um bocado, o médico tocou com a chibatinha no prato, e logo lho tiraram com grandíssima celeridade, mas o mestre-sala chegou-lhe outro manjar. Ia Sancho prová-lo mas, antes de lhe tocar, tocou-lhe a chibatinha, e um pajem levou-o com tanta rapidez como o da fruta. Vendo isto, Sancho ficou suspenso, e, olhando para todos, perguntou se naquela ilha tinha de ver com os olhos e comer com a testa.

Cap.XLVII,2ªparte


Na ilha Barataria e depois das lições de D. Quixote, Sancho vai iniciar a sua carreira a solo. Nestes capítulos em que a dupla se separa, as directivas do narrador são mais descaradas: leitor anda comigo ali, agora espera, vamos espreitar acolá, um momento que já vimos, anda daí leitor… E, sem querer, lá estamos dentro da história a ver tudo e a torcer para que Sancho mostre o que vale a quem quer fazer chacota dele. E mostra, então não!


laerce
 
  Tu és a minha Dulcineia (iii)
Dulcineia é a imagem do amor
Dulcineia é, no fundo, a razão por que nos movemos
Porque não há vida sem amor
Ainda que ele seja construído
Quixote respira, move-se, vive somente por Dulcineia
Enquanto tivermos afectos que nos norteiem, estaremos salvos
E nenhum objectivo será aceitável se não for eticamente aceitável
É aqui que quero chegar: ética e afecto
Tudo o resto é secundário

azuki
 
  Sobre o encantamento de D. Quixote V
“Eu vi e tenho em mim que vou encantado e isto me basta para a segurança da minha consciência, que ficaria sobresaltada se eu pensasse que não estava encantado e me deixasse estar n´esta jaula preguiçoso e cobarde, defraudando o socorro que poderia dar a muitos necessitados...

...

quem está encantado como eu não tem liberdade para fazer da sua pessoa o que quizer..."

Cap. XLIX

Troti
 
  Sobre o encantamento de D. Quixote IV
"-Senhor, para descargo da minha consciencia lhe quero dizer o que se passa acerca do seu encantamento, e é que aquelles dois que veem aqui de rosto coberto são o cura do nosso logar e o barbeiro...Sendo, pois, isto verdade, segue-se que não vae encantado, mas sim embaido e enganado.

...

bem poderá ser que sejam elles mesmos; porém que o sejam realmente, isso não o creias de maneira nenhuma. O que has de crêr e entender é que se elles o parecem, como dizes, deve ser porque os que me encantaram tomararm essa aparencia e semelhança; porque é facil aos encantadores tomar a figura que querem, e terão tomado a dos nossos amigos para dar-te ocasião a que penses o que pensas....e tambem...para que eu vacile em meu entendimento e não possa atinar de onde me vem este damno; porque se d´um lado tu me diz que me acompanham o barbeiro e o cura da nossa povoação, e do outro eu me vejo engaiolado, e sei que forças humanas não sendo sobrenaturaes, me seriam bastante para engaiolar-me que queres que diga ou pense, senão que o modo do meu encantamento excede quantos li em todas as historias que tratam de cavalleiros andantes que hão sido encantados?"

Cap.XLVIII

Troti
 
  Sobre o encantamento de D. Quixote III
"E talvez poderá ser que, como sou novo cavalleiro no mundo e o primeiro que ha resuscitado no olvidado exercicio de cavallaria aventureira, tambem novamente se hajam inventado outros generos de encantamentos, e outros modos de levar os encantamentos.
...
se estas calamidades não me acontecessem não me teria eu por famoso cavalleiro andante; porque aos cavalleiros de pouco nome e fama nunca lhes sucedeu semelhantes casos, porque não há no mundo quem se recorde d´elles; aos valorosos sim, porque têm invejosos de sua virtude e valentia a muitos principios...
...
Cavalleiro andante sou, e não d´aquelles cujos nomes jámais a fama se recordou para eternisal-os em sua memoria, mas d´aquelles que, a despeito e pesar da mesma inveja...ha de pôr seu nome no templo da immortalidade, para que sirva de exemplo aos vindouros seculos..."

Cap. XLVII

Troti
 
  Sobre o encantamento de D. Quixote II
“Fizeram uma especie de paus cruzados, capaz de caber n´ella folgadamente D. Quixote.

...

Quando D. Quixote se viu d´aquella maneira engaiolado em cima do carro disse:
- Muitas e mui graves historias hei eu lido de cavalleiros andantes, mas jamáis hei lido, nem visto nem ouvido que aos cavalleiros encantados os levassem d´esta maneira e com a demora que promettem estes preguiçosos e tardios animaes; porque sempre os costumam levar pelos ares com estranha ligeireza, encerrados em alguma parda ou escura nuvem, ou em algum carro de fogo, ou sobre algum hipogrifo, ou outro animal semelhante.
Mas que me levem a mim agora n´um carro de bois, viva Deus que me põe em confusão! Mas talvez a cavallaria e os encantamentos d´estes nossos tempos devam seguir outro caminho que não seguiam os antigos.
"
Cap. XLVI

Troti
 
  Sobre o encantamento de D. Quixote I
“- Por Deus, senhores meus – disse D. Quixote, que são tantas e tão estranhas as cousas que n´este castelo, das duas vezes que n´elle hei alojado, me hão sucedido, que não me atravo a dizer affirmativamente cousa nenhuma do que se perguntar acerca do que n´elle se contem, porque imagino que quanto n´elle se trata é por via de encantamento.
...

Talvez por não serem armados cavalleiros como eu sou, não terão que ver com vossas mercês os encantamentos d´este logar, e terão os estendimentos livres, e poderão julgar as cousas d´este castello como ellas são real e verdadeiramente, e não como a mim me parecem.

Cap. XLVI

Troti
 
sábado, junho 25, 2005
 
“...o que busca o impossivel, é justo que o possivel se lhe negue...
Cap. XXIII

Troti
 
  D. Quixote - Soneto
Diálogo entre Babieca y Rocinante

B. ¿Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
R. Porque nunca se come, y se trabaja.
B. Pues, ¿qué es de la cebada y de la paja?
R. No me deja mi amo ni un bocado.

B. Andá, señor, que estáis muy mal criado,
pues vuestra lengua de asno al amo ultraja.
R. Asno se es de la cuna a la mortaja.
¿Queréislo ver? Miraldo enamorado.

B. ¿Es necedad amar? R. No es gran prudencia.
B. Metafísico estáis. R. Es que no como.
B. Quejaos del escudero. R. No es bastante.

¿Cómo me he de quejar en mi dolencia,
si el amo y escudero o mayordomo
son tan rocines como Rocinante?


Troti
 
  lições

Confesso que já tenho saudades de D. Quixote e, embora o livro fique sempre à mão para o folhear neste ou naquele episódio, confesso que estes dias em que ando com ele para todos os cantos da casa e para todos os cantos do cérebro, numa ânsia de terminar e de viver cada parágrafo, me vão ficar marcados como uma das leituras mais intensas que fiz, das muitas que já fiz e das muitas que conto fazer. Confesso que esta tradução não sendo a melhor, (até já me habituei às frequentes trocas de letras e outras coisas), será sempre como o primeiro amor, para além de me ter caído de graça, ou quase, envolvida num jornal. Confesso que esta leitura acompanhada, em tempo real, de outros leitores me deixou simplesmente fascinada.

Bem, mas ainda não acabou. Com licença, quero ir ouvir a reprimenda de Quixote a propósito dos rifões que profere Sancho por tudo e por nada.

- Maldito sejas, Sancho- Sessenta mil satanases te levem a ti e aos teus rifões; há uma hora que os estás enfiando uns aos outros, e cada um que proferes é uma punhalada que me dás. Eu te asseguro que esses rifões ainda te hão-de levar à forca; por eles te hão-de tirar o governo os teus vassalos. Dize-me aonde os vais buscar, ignorante? E como é que os aplicas mentecapto? Que eu, para achar um só e apçlicá-lo a propósito, suo e trabalho como se cavasse.

Cap.XLIII
laerce
 
 
“...já se sabe que a formosura de algumas mulheres tem dias e ocasiões, e requer accidentes para diminuir ou acrescentar-se; e é natural cousa que as paixões da alma a levantem ou abaixem, posta que as mais das vezes a destroem".”
Cap. XLI

Troti
 
 
“_ Acudi, senhores, presto e socorrei meu senhor, que anda envolto na mais renhida e travada batalha que meus olhos hão visto.
...
Nisto ouviram um grande ruido no aposento e que D. Quixote dizia:
- Espera, ladrão, malandrim, que aqui te tenho e não te há de valer a tua cimitarra.
E parecia que dava grandes cutiladas pelas paredes...dizendo palavras como se verdadeiramente estivesse pelejando com algum gigante.
...
E o bom é que não tinha os olhos abertos, porque estava dormindo e sonhando que estava em batalha com o gigante; que foi tão intensa a imaginação da aventura que ia acabar, que o fez sonhar que já havia chegado ao reino de Micomicon, e que já estava em peleja com seu inimigo; e havia dado tantas cutiladas nos odres, crendo que as dava no gigante, que todo o aposento estava cheio de vinho..."

Cap. XXXV


“Quem não havia de rir com os disparates dos dois, amo e moço?
Cap. XXXV


Troti
 
  Projectar os livros sobre o (nosso) mundo (iii)
Sem ter aberto de para em par as portas da imaginação, da curiosidade e da leitura ( não esquecer que quem diz leitura, também diz estudo) não se vai muito longe na compreensão do mundo e de si mesmo.José Saramago

Um livro que nos marcou define sempre um novo olhar sobre a realidade. Aliás, tudo o que nos marca é susceptível de nos modificar. A grande vantagem dos livros é a capacidade de nos garantirem, com grande dose de probabilidade, momentos únicos (não é todos os dias que vivemos situações desse teor, o que contrasta com a acessibilidade dos livros na nossa estante ou na livraria…). Outra qualidade importante é a circunstância de obrigarem a uma muito reduzida dose de esforço (viajar é melhor, ok, mas exige bastante mais tempo e dinheiro, por comparação ao nosso confortável sofá…). Um livro é uma companhia extraordinária. Eu atrever-me-ia a dizer que será bem mais fascinante do que a maior parte das pessoas que conheço (eu própria incluída).

azuki
 
  Na rota de Dom Quixote
"Bela coisa seria a televisão brasileira percorrer os caminhos que Dom Quixote trilhou nas regiões centrais da Espanha. Reconstruiria uma viagem imaginária agregando a ela ainda mais imaginação presente.
Penso nisto por causa de uma sugestiva reportagem feita em terras lusas por Maria Leonor Nunes para o invejável “Jornal de Letras”, chefiado por um dos mais queridos intelectuais portugueses — José Carlos Vasconcelos. É que a jornalista fez uma coisa simples e invejável: saiu estrada afora para refazer os descaminhos de Dom Quixote, assim como Azorin o fizera em 1905, quando do terceiro centenário do livro, na obra “La ruta de Don Quijote”.
E lá foi ela conferindo a lenda suscitada na obra literária com a lenda que foi ganhando vida nas estradas atuais, nas estalagens e hotéis de hoje, nos teatros e moinhos de vento. Mais que nunca as frases “a arte imita a vida, a vida imita a arte” se confundiram. Bandas de rock e conjuntos musicais barrocos, comerciantes e intelectuais, literatos e turistas entraram num processo de comunhão mítica celebrando Dom Quixote. Isto aconteceu também com algumas grandes obras e grandes autores de outras literaturas. Lembra-me uma crônica de Paulo Mendes Campos dizendo, no caso inglês, da grande indústria que se formou a partir do autor de “Hamlet”, uma espécie de Shakespeare Incorporation em torno da qual vivem milhares e milhares de pessoas em todo o mundo . Os grandes autores geram realidades. E até enriquecem pessoas, pela mente e pelos bolsos.
Por exemplo: no local daquela “venta” onde Quixote foi armado cavaleiro, existe hoje uma estalagem que desde os anos 60 tem armado inúmeros Quixotes que por ali passam. Aconteceu que há cerca de quarenta anos um hóspede vindo de Porto Rico se sentiu impelido a repetir o gesto do cavaleiro andante de Cervantes. Rogou ao senhor que o hospedava que o cingisse cavaleiro. Como recusar um tão augusto e delirante pedido?
A partir desse gesto “sério e divertido”, Dom Antônio já presenciou centenas de pessoas, de todas as profissões e nacionalidades, como o velho Quixote, serem sagradas cavaleiros no pátio da sua hospedaria.
Assim as pessoas saem da realidade e mergulham na fantasia. Que realidade? indagaria o cavaleiro da Mancha. Vai ver que apenas pulamos de uma fantasia para outra. De uma fantasia que chamamos realidade para outra realidade que chamamos fantasia.
Virou moda e até sinal de erudição ficar citando aquele conto do Borges, onde um certo Pierre Menard teria desejado tanto escrever o “Quixote” que imagina escrevê-lo palavra por palavra, como se ele fosse seu. Alguns leitores incautos de Borges, entendendo-lhe erradamente a ironia — pois ele não se “apropriou”, mas satirizou a “apropriação” — começaram então a reescrever obras de outros autores imitando-lhes o estilo, sem entender a sutileza do que Borges estava dizendo. Se Borges fosse tolo iria fazer pastiche de Cervantes. Isto seria fácil, como faz a estética da pós-modernidade. Mas como Borges é pré-moderno e pós-antigo, não se entregou a essa facilidade criativa, mas a ironizou e a superou. Jogou uma casca de banana onde os afoitos escorregaram.
Pois fora do texto de Borges aconteceu um fato que confirma Borges como profeta da escrita coletiva. A ficção fez-se realidade. Na Espanha pôs-se em movimento o desejo de escrever/reescrever o “Quixote” coletivamente. Mais de dois mil copistas trabalhando desde o início deste ano transcreveram, parágrafo por parágrafo, o primeiro volume da obra. Agora começam a escrita/reescrita do segundo volume e mais de cem novas grafias de assinantes já aparecem nas páginas.
Pierre Menard ganhou consistência, agora socialmente. Pela letra as pessoas estão se apoderando do texto cervantino, ou se quiserem, através de seus manuscritos estão devolvendo ao texto original a sua participação. O gestual de Cervantes, há quatrocentos anos, transforma-se no gestual de novos escribas, que em plena era da eletrônica e do computador, voltam à caligrafia. Meu Deus! Se Barthes fosse vivo, que carnaval de beletrismo crítico faria com esse fato!
As comemorações em torno de Cervantes estão contabilizando cerca de três mil eventos na Espanha. Quem quiser se espantar veja o site (www.donquijotedelamancha2005.com). Surgiram em todo o mundo edições do “Quixote”, umas para crianças, outras para adolescentes, outras para universitários, enfim, para todos os gostos. Fizeram uma edição de bolso que vendeu um milhão e meio de exemplares. E até o presidente da Venezuela, o irrequieto Hugo Chávez, entrou na roda de celebrações e mandou rodar um milhão de exemplares do “Quixote” para distribuição gratuita. E para dar mais charme e ampliar o leque ibérico da obra convidou José Saramago para prefaciá-la.
No Museu Cervantino, em Toboso, há uma exposição de exemplares do “Quixote” com autógrafos de personalidades como Mitterrand, Mussolini e Mandela. E isto me fez lembrar que em 1991, quando dirigia a Fundação Biblioteca Nacional, tive a felicidade de poder anexar ao acervo daquela instituição a fabulosa coleção cervantina do doutor Genival Londres.Trata-se de cerca de mil volumes que ele amorosamente a vida inteira colecionou, e que sua viúva gentil e graciosamente cedeu à BN. São exemplares da obra em inúmeras línguas e com autógrafos os mais diversos, a começar com o do ditador e presidente Getúlio Vargas.
“O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha” foi traduzido pela primeira vez para o português em 1793, por um anônimo. Num outro texto já tratei do “Tirant lo Blanc” (1460), traduzido por Claudio Giordano, livro que fez a cabeça de Cervantes. Mas agora chamo a atenção para outra obra, “O livro apócrifo de Dom Quixote de la Mancha (1614)”, de Alonso Avellaneda, editado pela Ed. Itatiaia. Como se sabe, aquele esperto Avellaneda tentou pastichar Cervantes, misturando o falso com o verdadeiro. Cervantes não teve piedade. Botou o pastichador como personagem no segundo volume do “Quixote”, triturando-o com a ironia, confirmando a tese antropofágica de Paul Valéry de que o leão é a soma dos cordeiros assimilados."

Affonso Romano de Sant'anna, poeta, cronista, professor.

Gabriel
 
sexta-feira, junho 24, 2005
  curso de cavalaria



- Parece-me que vossa mercê cursou as escolas. Que ciências estudou?
- A da cavalaria andante - respondeu D. Quixote -, que é tão boa como a da poesia, e ainda uns deditos mais.

Capítulo XVIII, 2º parte

A sequência deste diálogo entre D. Quixote e o Cavaleiro do Verde Gabão é outra pérola que dificilmente esqueceremos. Sem ser exaustiva, aqui ficam alguns pré-requisitos a quem se quiser candidatar à frequência do curso:

Conhecimentos de:

teologia;
jurisprudência;
medicina e ervanária;
astrologia;
matemática.

Para além destes conhecimentos, exige-se que o candidato saiba nadar; ferrar cavalos; que seja honesto e leal e outras coisas mais…
Duração: toda a vida.

Para mais pormenores consultar a página 499 da tradução dos condes.

Se calhar até pode ser que alguma escola superior ofereça este curso, quem sabe…no meio de tantos.

laerce
 
  Projectar os livros sobre o (nosso) mundo (ii)
Como leitores, teremos que distinguir entre aquilo que lemos e aquilo que somos/queremos ser. Mas também nos cabe completar os livros. Não é relativamente vulgar encontrarmo-nos a tentar descortinar qual a dose de realidade e qual a dose de ficção que existem num livro? Não há uma enorme mistura entre estas duas dimensões? Não acontece amiúde pormo-nos a pensar se aquele romance não teria um cariz autobiográfico, como se o autor fosse desprovido de suficiente imaginação, como se este não tivesse conseguido desligar-se da sua evidência? O problema existe quando o que lemos é plausível de se adaptar à realidade. Penso que esta será uma das características do romance moderno: a verosimilhança da sua ficção, que permite que a transformemos numa grelha de análise da própria vida.

azuki
 
quinta-feira, junho 23, 2005
  À Volta dos Livros com a Leitura Partilhada - Tertúlia no Porto (restaurante Casa de Três)
Filipe, Tó, Gabriel. Concha, Pedro, Carla, Calheiros, Carlos, Joana, Carla. Bem hajam e.... boas leituras!

LP
 
  Doçuras de além-mar
João Serenus será, também, um dos Quixotes à solta por este mundo, o tal que não está (não pode estar!) perdido.

E esta minha anotação não é apenas uma retribuição de afectos; todos temos os nossos Quixotes, os nossos Sanchos e as nossas Dulcineias, e a turma de Belo Horizonte conquistou desde cedo um lugar especial no meu imaginário.

leitora
 
  D. Quixote - Soneto
El caballero del Febo a don Quijote de la Mancha

A vuestra espada no igualó la mía,
Febo español, curioso cortesano,
ni a la alta gloria de valor mi mano,
que rayo fue do nace y muere el día.

Imperios desprecié; la monarquía
que me ofreció el Oriente rojo en vano
dejé, por ver el rostro soberano
de Claridiana, aurora hermosa mía.

Améla por milagro único y raro,
y, ausente en su desgracia, el propio infierno
temió mi brazo, que domó su rabia.

Mas vos, godo Quijote, ilustre y claro,
por Dulcinea sois al mundo eterno,
y ella, por vos, famosa, honesta y sabia.



Troti
 
  “Onde se conta o que nele se verá”
O capítulo IX da segunda parte oferece-nos este saboroso título e isto leva-me a reflectir sobre autor e narrador. Melhor, Autor, autor e narrador. De facto, Cervantes não quis ficar sozinho nesta empreitada de construir um monumento literário. Tendo em conta o poder da cultura árabe, arranjou um autor outro (Cid Hamete Benengeli, ou Beringela, na versão de Sancho) para narrar as façanhas de D. Quixote e um narrador muito escorreito a contar as ditas conforme mais lhe interessava, ora apressando, ora encurtando, ora escondendo, ora revelando, ora adiando, ora simplesmente cortando.
Ah, grande narrador! Grande Cervantes!




Mas adiante….o fim está prestes.

laerce
 
  O Duelo
Vencido mais uma Dom Quixote, mas convencido é que não: prefere abandonar a carreira de armas a trair a fama de Dulcineia. É como se na sua convicção da beleza da sua dama residisse a chave de toda a sua ilusão; renegá-la, diminui-la até, seria confrontar-se cruelmente com a sua própria realidade.
nastenka-d
 
 
“...o amor segundo hei ouvido dizer, umas vezes voa e outras anda. Com este corre e com aquelle vae de espaço; a uns enfraquece e a outros abrasa; a uns fere e a outros mata...”
Cap. XXIV

Troti
 
 
“E então foi instituido o divino sacaramento do matrimonio com taes laços que só a morte pode desatal-os.
E tem tanta força e virtude este milagroso sacramento, que faz com que duas pessoas differentes sejam uma mesma carne; e ainda faz mais nos bens-casados, que ainda que tenham duas almas não teem mais que uma vontade.”

Cap.XXIII

Troti
 
 
“...toda a honra das mulheres consiste na opinião BOA que d´ellas se tem”
Cap.XXIII

Troti
 
  Projectar os livros sobre o (nosso) mundo (i)
Como leitores, podemos optar por apenas ler os livros (se esperarmos que não nos modifiquem, estaremos a ser ingénuos), por falar/escrever sobre eles ou, no limite, decidir projectá-los (o desfecho mais ousado e mais perigoso de uma leitura). Foi isso que fez Alonso Quijano. Por mim, aprecio com um enorme fascínio o olhar novo que os livros me proporcionam. Mentiria se dissesse que a leitura de Quixote não me modificou. Não é que tenha descoberto algo de verdadeiramente novo, mas aumentou de forma significativa a nitidez de certas coisas. No fim de um livro que me marcou, não é clara a fronteira entre realidade e ficção, pois a forma como absorvo a existência passa também a ser filtrada pela fantasia que fui apreendendo ao longo da leitura. Para Quixote, a porta de entrada entre realidade e ficção chama-se Frestão. Quantos Frestões não terá cada um de nós?

azuki
 
quarta-feira, junho 22, 2005
  À Volta dos Livros com a Leitura Partilhada
Dia 22 de Junho de 2005, quarta-feira, pelas 22 horas, na Casa de Três, bem junto à Igreja de Cedofeita, no Porto. Uma tertúlia onde estarão presentes alguns dos membros habituais deste blogue. Conversa à volta dos livros e desta aventura que é partilhar emoções de leitura, diariamente.

Entrada livre. Estão todos convidados a aparecer e a participar - fariam a nossa alegria.

LP
 
  Apresente-se a Dulcineia!


Agora que o tempo escasseia e ainda há muitos capítulos a calcorrear, detenho-me deliciada com este solilóquio de Sancho quando se vê obrigado a encontrar Dulcineia.

-Saibamos agora, Sancho mano: aonde vai Vossa Mercê? Vai à busca de algum jumento que se lhe perdesse? Não, por certo. Então que vai procurar? Vou procurar uma princesa e com ela o sol da formosura, e todo o céu junto. E onde pensais encontrar o que dizeis, Sancho? Onde? Na grande cidade de Toboso. E da parte de quem ides? Da parte do famoso cavaleiro D. Quixote de la Mancha……E já algum dia a viste, porventura? Nem eu nem meu amo nunca lhe pusemos a vista em cima.
Capítulo X, 2ª parte.

Dulcineia não aparece, ou antes, aparece. É uma lavradora que deixa D. Quixote muito pensativo e cabisbaixo. Malandro do nigromante que está sempre a fazer encantamentos!

laerce
 
  Quixote vem mesmo a calhar
Estamos, de facto, numa fase especial. É impressionante ver o novo mundo que se cria em torno da leitura de Quixote. Só por isso está provado que este é um livro admirável.

Tenho acompanhado com especial deleite o que tem sido escrito, comentado, extrapolado neste blogue. Quase timidamente, encolhida num enorme sorriso.

Será que o Quixote tem sempre este efeito galvanizador nos leitores? A mim parece-me inevitável; são muitas as demonstrações.

E ainda bem que nos acontece ler as aventuras do fidalgo da Mancha e do seu escudeiro neste mês, em que se alarga o grupo, experimentam-se novas intervenções, comemora-se a nossa magnífica participação do Bloomsday... E em que se aproxima a conclusão de mais uma proeza, chamada tempo reencontrado, e que estamos prestes a comemorar o nosso segundo aniversário.

Sabem como nos sinto? Leitores Andantes.

leitora
 
  D. Quixote - Soneto
Orlando Furioso a don Quijote de la Mancha

Si no eres par, tampoco le has tenido:
que par pudieras ser entre mil pares;
ni puede haberle donde tú te hallares,
invicto vencedor, jamás vencido.

Orlando soy, Quijote, que, perdido
por Angélica, vi remotos mares,
ofreciendo a la Fama en sus altares
aquel valor que respetó el olvido.

No puedo ser tu igual; que este decoro
se debe a tus proezas y a tu fama,
puesto que, como yo, perdiste el seso.

Mas serlo has mío, si al soberbio moro
y cita fiero domas, que hoy nos llama,
iguales en amor con mal suceso.


Troti
 
  Leitura Partilhada, adoro-te (iv)
Permitam-me o auto-elogio mas, colocar leitores do mesmo livro em rede, é uma ideia original e louvável. Assim como escrever sobre livros, sem nada que nos habilite a fazê-lo é, no mínimo, ousado. Mas todos concordamos que falar sobre livros não pode ser somente apanágio dos conhecedores. Não deixaria de ser bem mais confortável se, quem nos vem visitar pela primeira vez, tivesse a noção de que a maior parte dos colaboradores do LP não possui quaisquer grelhas de leitura, conhecimentos sistematizados, anos de estudo, muita paratextualidade à mistura, etc. O que aqui transparece é, sobretudo, um olhar limpo de qualquer interferência. Como se o discurso sobre os livros saísse do circuito relativamente fechado dos entendidos na matéria e se abrisse ao mundo dos leigos. Enfim, tal como a leitura de qualquer obra, o LP precisa (e merece) ser inserido no seu devido contexto!

Bom dia!!

azuki
 
 
Continuam os sucessos de Dom Quixote; rumo a Barcelona, depois de iludir a apócrifa narrativa que transformava Teresa em Maria e dava o Cavaleiro como certo em Saragoça... Aventuras que com toda a certeza pouco agradavam a Cervantes (direitos de autor em Seiscentos, porque não?)
Em Barcelona o Cavaleiro é acolhido mas, como habitualmente, desfrutado. Estranhos anfitriões e amigos estes em que a fantasia se acolhe: una aproveitam-se dela, outros gozam-na... Estranhamente (ou talvez não), é mais recto nesses assuntos o chefe dos salteadores do que o vice-rei da cidade. Quem diria qu que Cervantes, depois de tantas laudas ao seu patrono, se revelasse um tão subversivo anarquista?
nastenka-d
 
 
“ ...não te há de aproveitar o pensares que não sabe ninguem a desgraça que te ha sucedido, porque bastará para affligir te e desfazer te que o saibas tu mesmo.
Cap. XXIII

Troti
 
 
- “ Isso não – respondeu o vendeiro – que não serei eu tão tolo que me faça cavalleiro andante, que bem vejo que agora não se usa o que se usava n´aquele tempo quando se diz que andavam pelo mundo esses famosos cavalleiros."
Cap. XXXII

Troti
 
 
Peregrinação aos locais do cavaleiro da Eterna Figura

Existem regiões do mundo que conseguem ser simultaneamente: purgatório, Inferno e Paraíso, de acordo com a estação do ano onde se encontram.
Cabem neste caso o Alentejo ou a agora “nossa” Castela-la Mancha, que na primavera se enchem de grande benignidade ambiental; com as suas infindáveis planícies, cobertas de solos com prados multicolores, que exalam fragrâncias mediterrâneas. As campinas são bordejadas por belas colinas ou cordilheiras montanhosas, de morfologia variável, coroadas por castelos, localidades monumentais, ou simplesmente por... moinhos de vento (no Alentejo em vez de moinhos místicos, temos cromeleques ou antas neolíticas).
Na primavera, em Castela-La Mancha, podemos fechar os olhos e fantasiar que a nossa existência pode ser muito generosa. Os sentidos são inebriados, a mente estimulada, o apetite saciado; e sentimo-nos esmagados pela história, beleza e paisagem daqueles lugares; e no meio da solidão e do silêncio, acompanhados pelo nosso guia turístico o “cavaleiro de benigna figura”, filósofo e santo, podemos discernir com clarividência a porta da sabedoria e antever a miragem do nosso nirvana.
Mas a partir de Junho, o que era um paraíso, transforma-se na antecâmara do Inferno, e os estranhos complexos vulcânicos da Mancha podem adquirir incandescência lávica. Os solos tornam-se pedregosos, secos, as rochas fendem com o calor e o ar brumoso retira-nos a paisagem; e a nossa alma definha...e ainda podemos ser atacados e aniquilados, por cavaleiros dementes de triste figura.
Nas próximas férias primaveris aproveitarei uma visita a Castilha la Mancha, indo na peugada dos nossos dois amigos. A sua rota é candidata a Património Mundial da Humanidade (Unesco). Muitas histórias tenho para contar a minha pequenita Inês.
Guia de visita

Toledo (Património Mundial da Humanidade). Uma das belas cidades do Mundo, rodeada pelo Tejo. A não perder: Catedral, Igreja de São Tomé, Casa Museu de El Greco...Praça Maior de Tembleque
Moinhos de Vento de Consuegra
Puerto Lápice (venda onde o nosso fidalgo se tornou cavaleiro)
Moinhos de vento de Campo de Criptana (local mítico da humanidade)
El Toboso (Dulcineia, Museu Cervantino e património histórico)
Parque Natural de Las Lagunas de Ruidera e Cueva de Montesinos (interesse geológico, biológico e ...sempre Quixote)
Vilanueva de Los Infantes (Cidade Monumental, casa de Dom Diego de Miranda e de Quevedo)
Castelo Mosteiro de Calatrava la Nueva
Valdepenas- A maior extensão de vinhas do mundo (visitar adegas e provar néctares)
Belmonte- (Cidade monumental)
Campo de Montiel (Onde será a aldeia do nosso herói?)
Argamasilla de Alba (Onde o nosso Cervantes iniciou o nosso Quixote)
Almargo (Conjunto Monumental)
Ciudad Encantada em Cuenca (estranhas formas cársicas)
Cuenca(Património Mundial da Humanidade). (catedral, casas suspensas e Museu de arte Abstracta)

Castela
 
  Um herói feito de livros
"Ao ler o "Quixote" no terraço ensolarado de minha casa na espanholíssima Quito dos anos 60, surpreendi-me com a extrema legibilidade do livro. Temia um desses clássicos que fazem sofrer e encontrei texto saboroso, mistura de cômico e amargo, preenchendo a primeira das condições exigidas por José Mindlin para qualquer leitura: que dê prazer.

Não é à toa que, em 2002, um júri de 50 grandes escritores escolheu o "Quixote" como "a maior obra de ficção de todos os tempos". Ele é o protótipo do romance moderno. Não só porque sua atenção ao cotidiano e o realismo cru da vida popular que o anima não deixam espaço para o prodigioso, que só existem na imaginação do herói desvairado. A modernidade deriva também do tema: um leitor que toma a fantasia literária por realidade, a leitura de ficção conduzindo à loucura.

"Ficaste louco, Paulo, as muitas letras te fazem delirar", a censura do governador Festus ao apóstolo é a mesma que dirige Cervantes aos livros de cavalaria. Para comprá-los e lê-los, o modesto fidalgo Alonso Quijano abandona tudo, vende terras, enlouquece e se reinventa como Dom Quixote, "homem feito de livros, de fábulas, de fantasmas", na definição do crítico italiano Berardinelli.

Na França do século 19, a idéia reaparece em "Madame Bovary", mas havia sido antecipada por Stendhal: "A ocupação das mulheres de província é ler romances... não podendo fazer romances de suas vidas, se consolam lendo-os". Só que Quijano não se contenta em ler romances, mas transforma a vida no maior deles.

O personagem no qual se converte suscitará centenas de interpretações, todas contidas nos três tipos essenciais já esboçados por Sancho Pança, quando diz ao amo quais eram as opiniões da aldeia a respeito dele: "Unos dicen: "Loco, pero gracioso'; otros: "Valiente, pero desgraciado'; otros: "Cortés, pero impertinente'".

A primeira prevaleceu no início e coincidia com a intenção declarada do autor no sentido de ridicularizar os romances de cavalaria. Os leitores riam do herói, como faziam os demais figurantes da trama. Veio depois o mito romântico do paladino do idealismo, vítima do desalmado materialismo do mundo. O leitor passava da mofa às lágrimas e se comovia com a sorte do Cavaleiro. A terceira é a dos que buscam, das vicissitudes do protagonista, extrair uma lição moral.

Das leituras recentes, a de Berardinelli acentua o irremediável desencontro do herói em relação a um mundo que não compreende e ao qual desafia. Essa incompatibilidade produz uma série interminável de mal-entendidos e confusões. A comicidade é estrutural e onipresente porque nasce da separação radical entre personagem extraordinário e ambiente social ordinário ao extremo. É a dissonância e a alteridade que permitem revelar a diferença entre a contundente e banal realidade do mundo presente e o mundo ideal da cavalaria, em certo sentido mais "verdadeiro" que o real.

Entre os dois, o autor não escolhe, enigmaticamente escondido atrás de sua superioridade irônica. Insinua, porém, que sua simpatia vai para o Cavaleiro da Triste Figura. Impermeável a dúvidas e vacilações, este não possui a rigor subjetividade, é todo exterioridade voltada à ação. Ninguém é mais diferente de seu contemporâneo Hamlet, roído por dúvidas existenciais, habitado por interioridade cética e interrogante.

A loucura de Hamlet tinha certo método, a do Quixote não tem nenhum. Aliás, é ele mesmo quem o diz, ao reagir à observação de Sancho de que Orlando e Amadis tinham tido, na traição de suas damas, motivos para fazer loucuras: "Pero vuestra merced, que causa tiene para volverse loco?". "Ahi está el punto y ésa es la fineza de mi negocio", responde o herói. Un cavaleiro andante ficar louco com causa não merece agradecimento... "el toque está desatinar sin ocasión y dar a entender a mi dama que, si en seco hago esto, qué hiciera en mojado?".

No fim, a loucura perde e a realidade se impõe. O fidalgo recupera a razão, arrepende-se de seus desatinos, mas, privado do sonho, morre de melancolia. Foi devido a essa derrota da fantasia e da nobreza de alma que Dostoiévski chamou a obra de Cervantes de "o mais triste dos livros", julgando, no entanto, que, por si só, ela era suficiente para justificar a humanidade aos olhos de Deus.

Muito antes dos surrealistas, Dom Quixote compreendeu que não basta mudar de vida: é preciso mudar a própria vida. Ao menos, é preciso tentar sempre, sob pena de que, sem a fantasia de transfigurar o mundo, a vida não mereça ser vivida e acabe por nos matar de tristeza ou de tédio."

Rubens Ricupero, economista, foi ministro da fazenda (no governo de Itamar Franco)

Gabriel
 
terça-feira, junho 21, 2005
  À Volta dos Livros com a Leitura Partilhada
Dia 22 de Junho de 2005, quarta-feira, pelas 22 horas, na Casa de Três, bem junto à Igreja de Cedofeita, no Porto. Uma tertúlia onde estarão presentes alguns dos membros habituais deste blogue. Conversa à volta dos livros e desta aventura que é partilhar emoções de leitura, diariamente.

Entrada livre. Estão todos convidados a aparecer e a participar - fariam a nossa alegria.

LP
 
  Leitura Partilhada, adoro-te (iii)
Ler para viver
Gustave Flaubert, 1857

Recordo-me da quantidade de horas da minha vida que roubei ao convívio com os outros, em prol dos livros. Os inúmeros momentos a dois, a três, a quatro, .. a dez,.. de que terei prescindido. Lembro-me de mim, no liceu, sentada nas escadas, ou até no chão dos corredores, com um livro nos braços, totalmente alheada ao movimento ruidoso dos colegas. Talvez tenha crescido depressa de mais. Os livros diziam-me o que as pessoas não podiam. Hoje, sou comunicativa quanto baste, mas continuo a não dispensar o conforto da companhia dos livros.

azuki
 
  O Rui tem toda a razão
em dar devido destaque: passem na Cadeia da Relação.



Obrigada pelo aviso, Rui. Não faltaremos.

Nota:

"Os Territórios de Quixote."
Exposição de fotografia de José Manuel Navia
Centro Português de Fotografia
até ao 21 de Agosto de 2005.


leitora
 
  Um herói da ironia e do niilismo
"Não existe uma resposta universal à chamada "pergunta da ilha deserta" ("se levasse apenas um livro, qual seria?"), mas a maioria dos leitores incessantes dotados de discernimento autêntico optaria entre três: a Bíblia na versão do rei James, a obra completa de Shakespeare e "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes.

Será mero acaso que os três foram publicados quase à mesma época? A edição da Bíblia do rei James saiu em 1611, seis anos após a publicação da primeira parte de "Dom Quixote", em 1605. Neste mesmo ano, Shakespeare se equiparou à grandeza da obra-prima de Cervantes, com "Rei Lear", e logo após prosseguiu com "Macbeth" e "Antônio e Cleópatra".

Quando a pergunta da ilha deserta lhe foi feita, James Joyce deu uma resposta gloriosa: "Eu gostaria de dizer Dante, mas sou obrigado a optar pelo inglês, porque ele é mais fecundo". Percebe-se em sua resposta um certo ressentimento irlandês contra Shakespeare e também uma inveja pessoal do público de Shakespeare no [teatro] Globe, algo expresso no ainda não lido (exceto por estudiosos e alguns poucos entusiastas) "Finnegan's Wake".

A Bíblia é lida, Shakespeare é lido e encenado, mas Cervantes parece estar menos presente nos países de língua inglesa do que já esteve. Houve muitas boas traduções de "Dom Quixote" para o inglês desde a versão de Thomas Shelton em 1612, que Shakespeare evidentemente conhecia, mas a versão extraordinária de Edith Grossman, de 2003, merece ser lida por aqueles entre nós que não conseguimos facilmente absorver o espanhol de Cervantes.

Miguel de Cervantes (1547-1616) morreu na mesma data que Shakespeare (1564-1616) e, sem dúvida, nunca ouviu falar do inglês. Shakespeare teve uma vida tão insossa e rotineira que nenhuma biografia dele pode ser muito interessante. Cervantes, porém, levou uma vida violenta e difícil.

Mesmo um mero resumo dos fatos principais já soa como um roteiro de Hollywood. Os estudiosos discordam quanto a se Cervantes vinha de uma linhagem "cristã antiga" ou de uma família de "cristãos novos" -judeus convertidos ao catolicismo em 1492 para evitar serem expulsos do país. Para entrar para as forças armadas imperiais espanholas o candidato precisava jurar que era de sangue "imaculado", e Cervantes e seu irmão o fizeram, mas vale perguntar por que um herói que teve sua mão esquerda permanentemente mutilada na batalha naval de Lepanto, em 1571, nunca recebeu qualquer tratamento preferencial por parte do rei Felipe 2º, profundamente católico. Até sua velhice, que foi mais confortável graças à ajuda tardia de um mecenas nobre, a história pessoal de Cervantes é uma sucessão de provações. Depois de recuperar-se parcialmente do ferimento, Cervantes combateu em várias outras batalhas navais, até 1575, quando foi capturado pelos turcos e feito escravo na Argélia, tendo Felipe 2º se negado a pagar seu resgate.

Sua família e um monge amigo finalmente conseguiram resgatá-lo em 1580. Sem conseguir que Felipe 2º o empregasse, Cervantes iniciou uma carreira literária precária. Em desespero, tornou-se cobrador de impostos, sendo encarcerado em 1597, acusado de malversação de fundos.

Na prisão, começou a escrever "Dom Quixote", que concluiu em 1604 e publicou no ano seguinte, através de um editor que o trapaceou. O grande livro foi sensação instantânea, mas esse sucesso teve pouca repercussão imediata na satisfação das necessidades de Cervantes e sua família.

Em 1614 saiu uma segunda parte falsificada de "Dom Quixote", seguida em 1615 pela segunda parte verdadeira escrita por Cervantes. Um ano depois, o maior autor de todos os tempos na língua espanhola morreu e foi enterrado num túmulo sem lápide.

Lendo "Dom Quixote", estou longe de convencido de que os estudiosos para os quais o livro e seu autor são devotos tenham razão, mesmo porque eles deixam passar despercebida sua ironia, que em muitos momentos é grande demais para ser vista. O fato é que muitos acadêmicos também nos dizem que Shakespeare era católico, e eu, mais uma vez, estou longe de convencido disso, já que suas alusões mais importantes são feitas à Bíblia de Genebra, uma versão muito protestante.

Como as obras da fase posterior de Shakespeare, "Dom Quixote" me parece mais niilista do que cristão, e ambos esses grandes escritores do imaginário ocidental deixam entender que a aniquilação é o destino final da alma.

O que faz de "Dom Quixote" o único rival de Shakespeare na disputa pela glória estética maior? Cervantes é maravilhosamente cômico, como é Shakespeare, mas "Dom Quixote" não pode ser caracterizado como comédia, não mais do que se pode dizer que "Hamlet" o é. Boa parte de "Dom Quixote", assim como de Shakespeare, deve ser lida nas entrelinhas. Quando o amável Sancho Pança grita que ele próprio é cristão velho e odeia judeus, será que o sutil Cervantes quer que leiamos isso sem ironia? O contexto de "Dom Quixote" é a pobreza e a sujeira, exceto pelas casas dos nobres, que são redutos de racismo e zombaria onde Dom Quixote é sujeito a brincadeiras cruéis.

O romance de Cervantes (que inaugurou o gênero) é memorável por dois seres humanos belíssimos, Quixote e Sancho, e pela comunhão terna, embora irascível, entre eles. Não existe nenhuma relação humana desse tipo em Shakespeare, onde Falstaff é terno e o príncipe Hal é irascível e onde Hamlet possui apenas uma pessoa que o idolatra: Horácio.

Observei certa vez que, enquanto Shakespeare nos ensina a falar com nós mesmos, Cervantes nos ensina a falar uns com os outros. Embora Cervantes e Shakespeare construam realidades suficientemente amplas para conter a todos, a individualidade de Hamlet, em última análise, é indiferente a si mesma e aos outros, enquanto a singularidade do cavaleiro leva em conta a ela própria, Sancho e os necessitados de ajuda.

Como mestres da representação, tanto Shakespeare quanto Cervantes são vitalistas, e é por isso que Falstaff e Sancho Pança contam com a bênção de mais vida. Mas estes dois maiores entre os escritores modernos também são céticos, de modo que Hamlet e Dom Quixote são ironistas, mesmo quando se comportam como loucos. O gosto pela vida, a exuberância primária, é o gênio comum tanto ao pai do romance castelhano quanto ao poeta e dramaturgo inglês, superando qualquer escritor anterior ou posterior a eles, em qualquer língua.

Para Quixote e para Sancho, a liberdade é função da ordem do jogo, que é desinteressada e precária. O jogo do mundo, para Quixote, é uma visão purificada da cavalaria, o jogo dos cavaleiros errantes, das donzelas virtuosamente belas e necessitadas de ajuda, dos poderosos e vis feiticeiros, e também de gigantes, ogros e buscas idealizadas.

Dom Quixote é corajosamente louco e obsessivamente corajoso, mas ele não se auto-ilude. Ele sabe quem é, mas também quem pode ser, se assim o quiser. Quando um padre moralizador acusa o Cavaleiro de ausentar-se da realidade e ordena que ele volte para casa e deixe de perambular, Quixote responde que, realisticamente, como cavaleiro errante, já corrigiu malfeitos, castigou a arrogância e esmagou monstros diversos.

Por que a invenção do romance precisou esperar por Cervantes? Hoje, no século 21, o romance parece estar passando por uma morte prolongada. Nossos mestres contemporâneos -Thomas Pynchon, Philip Roth, José Saramago e outros- parecem forçados a retroceder para o picaresco e para a forma do romance anterior a Cervantes.

Shakespeare e Cervantes criaram boa parte da personalidade humana tal como a conhecemos, ou, pelo menos, as maneiras pelas quais a personalidade podia ser representada; o Poldy de Joyce, seu Ulisses judeu-irlandês, é ao mesmo tempo quixotesco e shakespeareano, mas Joyce morreu em 1941, antes que o Holocausto de Hitler pudesse ser integralmente conhecido. Em nossa atual era da informação e do terror, o romance cervantino pode estar tão obsoleto quanto o drama shakespeareano. Falo dos gêneros, não de seus mestres supremos, que nunca serão superados.
"

Harold Bloom, crítico literário e professor de literatura em Yale

ps: Olá aos que não me conhecem. Inicio aqui minha participação na Leitura Partilhada, graças ao convite da querida leitora. Já vinha comentando e agora entro definitivamente, assim espero, para o grupo.

Gabriel

 
  A venda


Do capítulo XXXII ao capítulo XLVII, na primeira parte do nosso amado romance, o espaço assume um papel cimeiro dentro das categorias da narrativa. A venda é o núcleo para onde confluem muitas histórias (as vividas e as contadas), quase todas elas com final feliz e com muitas lágrimas à mistura, para gáudio dos leitores/ouvintes e consolo dos amantes.
A venda é o lugar do encantamento, tudo ali é explicado à luz da fantasia e não só pela boca do querido D. Quixote, do muito querido Sancho e por Cervantes lui-même. As outras personagens sentem que fazem parte dessa fantasia, dessa teatralidade.
É também neste espaço que D. Quixote tece considerações sobre a arte das letras e a das armas. Com já disse Castela em post anterior, nestes momentos da narrativa há uma mistura de tipologias textuais que mostram a grande arte de Cervantes para prender a atenção do leitor, no fundo o que qualquer escritor almeja. Estes capítulos têm um potencial cénico extraordinário, não sei se alguma vez já foram representados.
Mas Sancho, bem… ele tinha sentido na pele, no corpo e na cabeça toda essa fantasia da manteação.
....
laerce
 
  D. Quixote - Soneto
Gandalín, escudero de Amadís de Gaula, a Sancho Panza, escudero de don Quijote

Salve, varón famoso, a quien Fortuna,
Cuando en el trato escuderil te puso,
Tan blanda y cuerdamente lo dispuso,
Que lo pasaste sin desgracia alguna.

Ya la azada o la hoz poco repugna
Al andante ejercicio; ya está en uso
La llaneza escudera, con que acuso
Al soberbio que intenta hollar la luna.

Envidio a tu jumento y a tu nombre,
Y a tus alforjas igualmente envidio,
Que mostraron tu cuerda providencia.

Salve otra vez, ¡oh Sancho!, tan buen hombre,
Que a solo tú nuestro español Ovidio,
Con buzcorona te hace reverencia


Troti
 
  O Elmo de Mambrino
Isto, que a ti te parece bacia de barbeiro e é para mim o elmo de Mambrino, a um terceiro talvez pareça ainda outra coisa. Pois, agora é que ele disse tudo. Li, confesso que não sei onde, que a realidade é apenas o conjunto dos pontos de vista da nossa imaginação. É verdade. E ainda bem que assim é. Melhor do que ninguém, os poetas conseguem encontrar as palavras que sentimos e pensamos. Estão lá, na Impressão Digital, de António Gedeão, publicada ontem pelo Castela.

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.


azuki
 
 
O que também move Sancho

Aquilo que também move Sancho Pança, no final do 1º volume e início do segundo, é um desejo compulsivo; de liberdade, ousadia, conhecimento, envolvido numa nova existência e por isso abdica das suas obrigações quotidianas comezinhas, da sua Teresa e filhotes. Os seu território intímo já não lhe é suficiente.
Tomando-se o sabor, quase todos nós somos viajantes compulsivos e sonhamos em partir. Como gostávamos de ser vários, sendo os mesmos; mas habitando em lugares díspares no espaço e no tempo, experimentando novas andanças, profissões, companheiras, filhos... enfim uma outra diáspora; mas nunca abdicando daquilo que somos e do que temos.
Pede-se o impossível.
Este alvoroço embala-nos ao longo da vida. Manuel Bandeira aligeirou este frémito ao descobrir Pasárgada (veio-me agora à memória este poeta, desculpem-me); e eu, descobri a leitura de paisagens, monumentos, livros e almas humanas.
Sancho teve atrevimento e partiu com o seu desvairado cavaleiro andante.

Castela
 
segunda-feira, junho 20, 2005
  À Volta dos Livros com a Leitura Partilhada
Dia 22 de Junho de 2005, quarta-feira, pelas 22 horas, na Casa de Três, bem junto à Igreja de Cedofeita, no Porto. Uma tertúlia onde estarão presentes alguns dos membros habituais deste blogue. Conversa à volta dos livros e desta aventura que é partilhar emoções de leitura, diariamente.

Entrada livre. Estão todos convidados a aparecer e a participar - fariam a nossa alegria.

LP
 
  Leitura Partilhada, adoro-te (ii)
O primeiro romance moderno inicia-se com um leitor, Alonso Quijano. Ele vendeu terras para comprar livros e até se esqueceu de gerir o seu património. Ele é um solitário. Ler é, por natureza, um acto de isolamento. Atrevo-me a dizer que o que tentamos fazer no LP é, de algum modo, inovador (existirão, com certeza, outros LPs no mundo; mas, por muitos que existam, serão sempre insuficientes; e o nascimento de cada novo LP será sempre uma forma de transgressão). A leitura absorve-nos, transporta-nos, permite-nos um certo estado de transcendência. Um leitor far-se-á sempre acompanhar por um silêncio muito próprio. Contudo, sei que ficaremos mais ricos se a isso acrescentarmos a comunhão que o LP significa.

azuki
 
domingo, junho 19, 2005
  Sancho
Dom Quixote pode confundir-nos com a sua oscilação entre o bom senso e a rematada loucura (enfim, as cavalarias...); mas é Sancho quem mais desconcerta, pois a sua atitude é bem mais contraditória: se tem o amo como louco, não se coibindo de o enganar à medida das suas conveniências, porque razão o segue, confiado no governo da mítica ilha que irá receber em paga dos seus serviços?
E é Sancho quem responde: «Somos do mesmo lugar, comi-lhe o pão, quero-lhe bem; é agradecido, deu-me uns burricos e, sobretudo, sou fiel, e já agora é impossível que nos separe outro sucesso que não seja o de deitar umas pá de terra para cima de qualquer de nós.»

nastenka-d
 
 
Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inutil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!

António Gedeão em "Movimento Perpétuo", 1956

Uma pequena prenda de aniversário para Azuki

Castela
 
sábado, junho 18, 2005
  A força do amor
“Ella peleja e vence em mim, e eu vivo e respiro n´ella e tenho vida e ser”Cap.XXX

Troti
 
  Jacques Brel et l´Homme de la Mancha
C’est Miche, son épouse, qui d’un voyage à New York ramène à Jacques Brel, en 1966, le disque de «Man of la Mancha» du spectacle de Broadway. Jacques Brel est passionné et prend l'avion pour aller assister aux représentations. Il est sous le charme et imagine de présenter ce spectacle à un public francophone. Pour obtenir les droits de traduire et de monter la pièce, Brel doit interpréter lui-même le rôle de Don Quichotte. Les représentations bruxelloises, à la Monnaie, sont un triomphe. "Je n'avais jamais joué la comédie. Jamais, je n'avais chanté sans micro. Depuis le début des répétitions, au mois d'août 1968, j'ai perdu dix kilos. Je ne pèse plus que 68 kilos pour 1,81 m, avec les chaussures de Don Quichotte, 1,91 m. Quand je chantais seul, je mouillais la chemise. Maintenant, je la mouille deux fois."

France Brel se souvient avec précision et émotion du retour de son père après la première: "Le soir du 4 octobre 1968, au Théâtre Royal de la Monnaie, sous les étoiles inaccessibles de Bruxelles, un chevalier se damna pour l'or d'un mot d'amour. Trop peu de temps après la fin du spectacle, mon père arriva exténué et solitaire. En lui ouvrant la porte, je ne pus dissimuler ma surprise de le voir rentrer si tôt. Livide, muet, il courbait l'échine sous sa veste de cuir. Il avait tout donné. Il rentrait à la hâte dans ses habits d'homme et avait préféré fuir la foule, les questions, les critiques, les compliments. Avant d'entrer, il marqua un temps d'arrêt et l'instant s'imposa au temps. Je n'oublierai jamais le regard qu'il m'offrit. Ses yeux me parlaient d'un rêve, d'un rêve réalisé. Mais son regard était au-delà des mots, au-delà de son personnage et déjà au-delà de son rêve. Son âme portait le parfum de sa vérité, jardin fragile de la rencontre subtile de nos peurs et de nos victoires avec notre solitude."

Même malade, Jacques endossera le rôle de Don Quichotte jusqu’au 17 mai 1969.

http://www.caractacus.net/cl/mancha/brel.html

Troti
 
  D. Quixote e o cinema
Plusieurs films sont basés sur l’histoire de Don Quichotte, y compris:

Don Quichotte (1933), dirigé par Georg Wilhelm Pabst
Don Quichotte (1957), dirigé par Grigori Kozintsev
Don Quijote (1965), feuilleton télévisé dirigé par Louis Grospierre.
L’homme de La Mancha (1972), Dirigé par Arthur Hiller
« Quichotte de Miguel de Cervantes, El » (1991) (mini), Dirigé par Manuel Gutiérrez Aragón.
Don Quichotte, commencé par Orson Welles mais jamais fini; une version remise en forme par Jesus Franco fut présentée en (1992)
Don Quichotte (2000), dirigé par Peter Yates
Lost in La Mancha (2002) reportage sur la difficulté de tourner un film, d'après la tentative avortée de Terry Gilliam.



Troti
 
  D. Quixote e a dança
- O livro inspirou um balé, com música de Ludwig Minkus e coreografia de Marius Petipa e Alexander Gorsky, que estreou no Teatro Bolshoi de Moscou, em 1869, ficou famoso nas performances de Rudolf Nureyev e Mikhail Barishnikov, e hoje faz parte do repertório das principais companhias de dança do mundo. http://www.topbooks.com.br/frMateria_DomQuixote.asp

- Outra obra - Ballet Don Quixote de Roberto Gerhard (1896-1970. Estreia em
20-02-1950 na Royal Opera House, Covent Garden, London

Troti
 
  Leitura Partilhada, adoro-te (i)
Mas quem há-de ser o mestre? O escritor ou o leitor?
Denis Diderot, 1796

Este projecto nunca poderá deixar de ter uma natureza muito restrita. Aliás, como poderia ser de outra forma?! Não estamos capacitados para cumprir níveis mínimos de qualidade que motivem uma grande afluência, pois é óbvio que não podemos fazer crítica literária. Longe de nós, sequer pensá-lo. Simplesmente, porque não possuímos qualquer preparação (com mui honrosas excepções, vimos, maioritariamente, de áreas tão remotas como a arquitectura, a economia, a engenharia, a matemática…).

Não é fácil aventurarmo-nos por caminhos que não são os nossos. Sou licenciada em economia e tenho a noção de que corro o risco de proferir muitas banalidades e até distintíssimas patacoadas, mas nem isso perturba a minha vontade de participar. Para mim, os livros significam emoção profunda. Foi a sua importância na minha vida que me conferiu a audácia para levar avante este projecto. De uma forma despretensiosa, claro; com um olhar limpo (eu diria mesmo ingénuo) que, muito naturalmente, será desinteressante para os experts, sem dúvida. Mas considero que, desde que inserido no seu devido contexto, este blogue é uma bonita aventura. Porque não se pretende que seja um foco de ensinamentos, mas sim uma maneira saudável de um grupo de pessoas partilhar a consolação que a leitura lhes proporciona.

azuki
 
  “ Leitura Partilhada (i) “ Comentário
Escrevo este comentário ainda envolvida no ambiente da venda, no capítulo XXXVIII.
D. Quixote fala da pretensão em “ sustentar que as letras levam vantagem às armas”. Num discurso lúcido, “limpo” e bem encadeado, o nosso herói prova que “ as armas requerem tanta força de espírito como as letras”.
Salvaguardadas as devidas proporções, posso aplicar o mesmo argumento para rebater o raciocínio, desenvolvido no post citado, da falta de preparação para abordar um romance seja ele qual for. A mim parece-me, como a D. Quixote lhe parecem as armas, que as profissões referidas, e outras que se possam referir, exigem “muita inteligência em quem as executa” aliada à “ necessidade de trabalhar o espírito”. Estas são, sem dúvida, as condições necessárias e suficientes para entrar no âmago de um texto literário e explorá-lo em todos os significados possíveis. Afinal, o que é a literatura? É, por acaso, o que se diz dela? São, porventura os instrumentos que a dissecam?

Carl Spitzweg

Saudações
laerce
 
  Guermantes
Não, não me enganei no livro; é que os duques que acolhem Dom Quixote e Sancho só me lembram os Guermantes, entediados e sequiosos de distracção. Só assim se compreende a crueldade das comédias com que enganam os seus hóspedes, para seu próprio divertimento.
nastenka-d
 
sexta-feira, junho 17, 2005
  EU VALHO POR CEM
Não te preocupes, Sancho amigo, que eu valho por cem. Assim dizia e pensava Quixote. Efectivamente, se não acreditarmos em nós, quem o fará? Mesmo que tenhamos a incomensurável ventura de estarmos rodeados de quem tem presente a preocupação de nos valorizar, mimando-nos, elogiando-nos, credibilizando-nos, protegendo-nos,...; ainda que exista a remota possibilidade de partilhar (verdadeiramente) com outrém as nossas penas, os nossos medos e algum abandono… A verdade é que, sem um bocadinho de amor-próprio e até de presunção, não convenceremos ninguém a apreciar-nos. Nem para nós mesmos seremos persuasivos.

Bom dia!!

azuki
 
 
“Mas não é cousa extranha vêr com quanta facilidade crê este desventurado fidalgo todas estas invenções e mentiras, só porque levam o estylo e modo das necessidades dos seus livros!
-Assim e´-disse Gardenio – e tão rarar e nunca vista, que eu não sei se querendo invental-a e fabrical-a mentirosamente, houvera tão agudo engenho que podesse dar com ella.
-Pois outra cousa tem elle – disse o cura – que fóra das simplicidades que este bom fidalgo diz tocantes á sua loucura, se lhe tratam d´outras cousas, discorre com boas razões e mostra ter entendimento claro; de maneira que se não lhe tocam as suas cavallarias não havera ninguem que o julgue senão por de mui bom entendimento.”

Cap.XXX

Troti
 
 
"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade."

Erasmo – Elogio da Loucura

Troti
 
 
“D´esta mesma sorte Amadis foi o norte, o luzeiro, o sol dos valentes e dos enamorados cavalleiros, a quem devemos imitar todos aquelles que debaixo da bandeira do amor e da cavallaria militamos.
...Sendo pois....que o cavalleiro andante que mais o imitar, estará mais cerca de alcançar a perfeição na cavallaria; e uma das coisas em que este cavalleiro mais mostrou a sua prudencia, valor, valentia e soffrimento, firmeza e amor, foi quando se retirou, desdenhado pela senhora Oriana, a fazer penitencia ...
Assim é-me mais facil imital-o nisto, do que fender gigantes, descabeçar serpentes, matar dragões, desbaratar exercitos, fracassar armadas e desfazer encantamentos...
- Mas enfim – disse Sancho – que é que vossa mercê quer fazer n´este tão remoto lugar?
- Não te disse já – respondeu D. Quixote – que quero imitar Amadis,...
...
que sem fazer loucuras de damno, senão de choros e sentimentos, alcançou tanta fama...
...Mas vossa mercê, que causa tem para volver-se louco? Qu que signaes ha achado que lhe deem a entender que a senhora Dulcineia del Toboso há feito alguma creancice com mouro ou christão?
_ ahi está o ponto – respondeu D. Quixote – e esse é a finura do meu caso; que volver-se louco um cavalleiro com causa não é para admirar nem agradecer; o merecimento está em desatinar sem occasião...
Louco sou, louco hei-de ser até que volvas com a resposta de uma carta que comtigo penso enviar á minha senhora Dulcineia; e se for tal qual á minha fé se deve, acabar-se-há minha sandice e minha penitencia, e se for ao contrario, serei louco deveras e sendo-o não sentirei nada."

Cap. XXV

Troti
 
  A tentação

Leonardo da Vinci

Estou a ler os capítulos relativos à história do Curioso Impertinente. Detenho-me no argumento de Lotário sobre a fragilidade e a pureza da mulher, neste caso, Camila, a esposa de Anselmo:


Com a mulher honesta há-de-se ter o melindre que se tem com as relíquias, adorá-las sem lhes tocar; há-de-se guardar e estimar a mulher boa como se guarda e estima um formoso jardim, que está cheio de rosas e outras flores; o dono não consente que ninguém por ali passeie nem colha; basta que de longe, e por entre as gradarias, lhe gozem a fragância e lindeza.

(capítulo XXXIII)

Tudo muito bonito, o ideal petrarquista no seu esplendor, mas a tentação... Lotário.

Eu acho que os "famosos dois amigos" deviam trocar os nomes, e devia cair o L de Lotário. Que tal?

É caso para ouvir a terceira faixa do álbum de Diana Krall, The Girl In The Other Room: Temptation

….I can't resist…

laerce
 
 
A Transmutação de Sancho

No primeiro volume Sancho Pança aparece-nos como um camponês analfabeto, enfim representa o Homem vulgar que na sua passagem efémera pela vida, apenas deixaria um ínfimo rasto e cuja história, depressa desapareceria na voragem do tempo.
Na evolução do romance, o contacto que tem com D. Quixote, faz com que adquira maior argúcia e sofisticação intelectual. Sancho, não é apenas mimético em relação a Alonso, por vezes sente-se que ultrapassa o amo em ponderação, racionalidade e devaneios imaginosos (e neste volume II quase se tratam como iguais, numa amizade que é a mais célebre da literatura Universal) e noutras parece mesmo que se fundem, funcionando numa mesma entidade.
A causa, deste aperfeiçoamento, para além da experiência de se ter libertado do seu recanto limitado, e das inúmeras e desvairadas aventuras que teve com Alonso Quijano, está muito relacionado com o contacto com o seu cavaleiro que, para mim se é indiscutivelmente um louco, é também um santo individualista e um filósofo erudito; saber este alcançado com muitas leituras intensas e que faz aperfeiçoa-a quem o rodeia. Enfim é o toque de Midas do nigromante Quixote. É o “quixotismo”.
Esta transformação de Sancho é uma lição para todos nós, porque devemo-nos fazer rodear, sempre que nos for possível de; beleza, sabedoria, desprendimento material, empreendimento, afecto e altruísmo, e os artefactos para atingir este desiderato, poderão ser muito simples; um simples sorriso, a leitura de um poema, de um romance ou de uma paisagem natural ou humana, um simples afago... e principalmente o contacto com pessoas interessantes, em ética e sabedoria.
O “quixotismo”, não poderá ser assim uma doutrina filosófica, ética, moral ou mesmo religiosa, que transforma os comezinhos Sanchos em pessoas extraordinárias?
Fico amparado serenamente nesta dúvida.

Castela
 
  Elogio da Loucura (de Quixote) - V
...y que desta manera le sacarían de allí y le llevarían a su lugar, donde procurarían ver si tenía algún remedio su estraña locura. (Cap. XXVI)

O cura veio ver a minha mãe e disse-lhe que eu estava doido.
A minha mãe atou-me a uma cadeira. Com um bisturi o cura fez-me um buraco na nuca e extraiu-me a pedra da loucura.
Depois levaram-me, de pés e pulsos atados, até à barca dos loucos.

[...]

O cura veio ver a minha mãe e disse-lhe que eu andava «obcecado».
A minha mãe atou-me aos varais da cama. Com um bisturi, o cura cortou-me os testículos e substituiu por duas pedras.
Depois levaram-me, de pés e pulsos ligados, para a igreja dos devotos.

in La Pierre de la Folie, Fernando Arrabal (1963)

riverrun
 
quinta-feira, junho 16, 2005
  Sabedoria popular II


Acerca das donzelas e dos sacrifícios por que passam os cavaleiros. Diz a filha do vendeiro: -Valha-me Deus! Não sei que gente é aquela tão desalmada e falta de consciência que, por não atenderem a um homem honrado, o deixam morrer ou dar em doido; não sei para que são tantos melindres; se o fazem por honradas, casem-se com eles, que eles não desejam outra coisa. (cap. XXXII)

Pois não, não sabes, nem sabes de Dulcineia o que nós, leitores, sabemos. Mas sabes muito.

laerce
 
 
“- E´s naturalmente covarde, Sancho - ...mas para que não digas que sou contumaz e que nunca faço o que me aconselhas, por esta vez quero tomar o teu conselho e apartar-me da furia que tanto temes; mas há-de ser com uma condição, que jamais em vida minha, nem depois da minha morte, has de dizer a ninguem que eu me retirei e apartei d´este perigo por mêdo, mas para comprazer a teus rogos; que se outra coisa disseres, mentirás...
- Senhor – respondeu Sancho – que o retirar-se não é fugir, nem o esperar é cordura, quando o perigo sobrepuja a esperança, e de sabios guardar hoje para amanhã, e não aventurar-se tudo n´um dia, e saiba que ainda rustico e villão, todavia se me alcança algo d´isto a que chamam bom governo.”

Cap.XXIII

Troti
 
 
“...tem muitos olhos o mêdo, e vê as coisas debaixo da terra...”
Cap. XX

Troti
 
  Os poemas da minha vida
Tenho acompanhado, com olhar comovido, a 2ª edição de "Os Poemas da Minha Vida". Porque hoje completo 33 anos, permitam-me que me desvie um pouco do nosso Quixote e que vos deixe dois dos poemas que, por seu turno, marcaram a minha.

Mas eu, em cuja alma se reflectem
as forças todas do universo
em cuja reflexão emotiva e sacudida
minuto a minuto, emoção a emoção,
coisas antagónicas e absurdas se sucedem –
- eu o foco inútil de todas as realidades,
eu o fantasma nascido de todas as sensações
eu o abstracto, eu o projectado no écran,
eu a mulher legítima e triste do Conjunto,
eu sofro ser eu através disto tudo como ter
sede sem ser de água.

Álvaro de Campos

Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.

Sophia de Mello Breyner Andresen

azuki
 
 


Troti
 
 
“...quem há no mundo que se possa gabar de que há penetrado e sabido o confuso pensamento e condição mudavel d´uma mulher?”
Cap.XXVII

Troti
 
 
“- Essa é natural condição das mulheres – disse D. Quixote – desdenhar a quem as quer, e amar a quem as aborrece.”
Cap. XX


Quem quer comentar?

Troti
 
 
"- Sancho amigo, has de saber que eu nasci, por querer do ceo, n´esta nossa edade do ferro, para n´ella ressuscitar a de oiro...eu sou aquelle para quem estão guardados os perigos, as grandes façanhas e os valorosos feitos; sou, digo outra vez, quem ha-de resuscitar os da Tavola Redonda, os doze de França e os nove da Fama, e o que ha de pôr em olvido os Platires, os Tablantes, Olivantes, e Tirantes, os Phebos e Belianises, com toda a caterva dos famosos cavalleiros andantes do passado tempo, fazendo n´este em que me acho taes grandezas, estranhezas e feitos d´armas, que escureçam as mais claras que elles fizeram."
Cap. XX

Troti
 
 
"...mas eu darei emenda, que na cavallaria ha modos de composição para tudo."
Cap. XIX

Troti
 
 
“- Sabe, Sancho, que não é um homem mais do que outro senão faz mais do que outro: todas estas borrascas que nos succedem são signaes de que presto ha de serenar o tempo, e hão-de suceder-nos bem as cousas, porque não é possivel que o mal nem o bem sejam duraveis, e d´aqui se segue que, havendo durado muito o mal, o bem já está perto...”
Cap.XVIII

Troti
 

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PROXIMAS LEITURAS

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

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