Leitura Partilhada
quarta-feira, Agosto 31, 2005
  MÉMÓRIA
Gostava de ter falado de mais livros, “Madame Bovary”, “Memórias de Adriano”. “Os Thibault”, “O Admirável Mundo Novo”, “O Principezinho”, a “Odisseia”, "O Esplendor de Portugal" têm todos algo a dizer, mas o mês de Agosto está no fim, fica para outra vez. Pelo menos saliento as obras que mais me marcaram desde que comecei a Leitura Partilhada. Aqui fica a memória de cada uma:


“ULISSES”

é um livro diferente. Esta foi a primeira palavra que me surgiu na mente. É diferente de todos os outros livros que já li e duvido que seja possível, nesta nova sociedade do imediato, surgir outra obra que se lhe compare. James Joyce embrenhou-se numa escrita sem paralelo, descarnou conceitos e criou uma nova forma de subjugar as palavras. Deu muito do seu tempo de vida a este projecto e exige em troca muito tempo de vida aos seus leitores. Porque quem resolver ler o “Ulisses” tem de saber que vai ter de lhe dar um dos seus bens mais preciosos que é o tempo. É inevitável. Vai ter de parar e procurar uma referência, decifrar um enigma, seguir um pensamento, explorar uma via. E eu acho que esta é uma das razões porque o “Ulisses” é considerado, por muitos, um livro difícil. A linguagem utilizada é rebuscada e não ajuda a fluidez da leitura, mas consegue ser extremamente viva e cativante. Dos meandros da sua mente labiríntica Joyce libertou ideias e pensamentos que cristalizaram na génese de uma obra única, sem precedentes nem sucessores. Há quem admira, quem rejeita, quem critica, quem ama, há quem seja seduzido, há quem se veja traído. Admito todas estas sensações, porque de facto, eu também as experimentei. E é essa a riqueza do “Ulisses”. Com ele sentimos os ventos, apanhamos as migalhas, navegamos nas ondas, esprememos os sucos. E, mais do que tudo, vivemos.
Só por isso, por me ter permitido viver, no que esta palavra tem de mais abrangente, considero o “Ulisses” um portento.



"O SOM E A FÚRIA"

“Os gritos martelavam cada vez mais longe como se no silêncio não houvesse lugar para eles.”

William Faulkner escreveu um livro sublime. A história da familia Compson é, afinal, uma história que nos diz tudo sobre o ser humano e que, no fim, se destrói no desmoronar de uma entidade colectiva que já nada pode significar. Faulkner oferece-nos nas personagens uma paleta da essência humana, da sua possível riqueza e da sua absoluta perdição. A toada de desespero é uma espiral de intensidade sensitiva, que mói a nossa realidade e nos dá a ouvir o som da verdadeira natureza do homem e a fúria da sua devastação.

"Nós ouvíamos as nossas vozes, e ouvíamos a escuridão."



“A CIDADE E AS SERRAS”

é um livro encantador. A sua linguagem recheada de ironia e a sua mensagem de pobreza da cidade e riqueza da serra, podem, numa primeira impressão, sugerir uma crítica à civilização, uma especulação sobre a riqueza, um fresco sobre a amizade, uma comédia de costumes, uma apologia da ruralidade, uma exposição da crueldade citadina. Inúmeros estudiosos de Eça de Queirós se debruçaram sobre todos estes aspectos e o livro tem, de facto, todos estes contornos. Muito se escreveu, muito se especulou, muito se deduziu desta obra, sendo ainda por cima a última, e os mais diversos sentidos foram encontrados na subtil riqueza de linguagem que temos perante nós.
Eça faz-nos assistir ao percurso de um homem bom, enredado nas tramas de uma civilização oca e asfixiante que, numa permanente busca de si, percorre todas as doutrinas filosóficas sem, em nenhuma, encontrar um lenitivo ou uma explicação para o simples acto de viver. Jacinto procura-se desesperadamente, primeiro na vivência de outros, depois no pensamento de outros, para chegar sempre a um beco sem saída – a uma permanente sensação de inutilidade, a uma ociosidade mental que lhe paralisa o pensamento e lhe bloqueia as emoções.
E é este o aspecto que, para mim, ressalta desta mensagem que Eça nos legou já no fim de uma vida cheia, imbuído de uma sapiência que lhe permite desvendar-nos a verdadeira substância do que é fulcral para uma perfeita realização humana: a absoluta necessidade de exprimir e efectivar os sentimentos.

“Eu vejo a essência da emoção como a colecção de mudanças no estado do corpo que são induzidas numa infinidade de órgãos através das terminações das células nervosas sob o controlo de um sistema cerebral dedicado, o qual responde ao conteúdo dos pensamentos relativos a uma determinada entidade ou acontecimento.”
( Em “O Erro de Descartes” de António R. Damásio)


Na minha opinião, “A Cidade e as Serras” é um fabuloso tratado sobre as emoções.



"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO"

Ler Proust é fazer uma viagem inesquecível dentro do labirinto da nossa mente. Acompanhar o seu raciocínio é desvendar o nosso próprio processo de pensamento, é descobrir os meandros, é encontrar as possibilidades e as negações. É incrível como ele consegue mostrar-nos o nascimento de uma sensação, a maturação de um sentimento, a evolução de uma ideia, o valor de uma impressão. Nós não estamos atentos a estes fenómenos, não temos tempo para colocar perguntas, fazer especulações e aprofundar sentidos; pura e simplesmente temos outras coisas para fazer. E passamos adiante, a vida é um tropel e não podemos demorar meia hora em lucubrações que não nos dão respostas favoráveis. É melhor pensar a direito, dá menos trabalho; além disso, a cogitação no século XXI não rende. Quem quer aprofundar o pensamento, seu ou dos outros, e encontrar o que não gosta? E ser confrontado? Não é nada útil na cultura do hedenismo desenfreado em que vivemos. Ao mostrar-nos a sua profundidade, Proust obriga-nos a ver, a reconhecer, a questionar tudo, num paralelismo consigo, e leva-nos a mostrar a nós próprios a nossa essência, presente em tudo o que foi a nossa vida, seja ela boa ou má. É um processo duro mas frutuoso, porque passamos a conhecer o nosso amâgo de uma forma nunca antes alcançada e acabamos por conseguir ler o muito que tínhamos deixado ao longo do tempo. Ao conseguir fazer-nos relembrar cada momento do nosso passado, Proust dá-nos uma matéria viva que nos enriquece e nos motiva. E esta conquista será nossa para sempre. Com ele aprendemos que aquele minúsculo fragmento do tempo que julgávamos perdido, está, afinal, bem vivo dentro de nós. Basta semicerrar os olhos.



"AS ONDAS"

Foi o livro que me arrebatou.

A transparência da aurora em que a substância é uma promessa, dá lugar a uma alvura incandescente sobre a qual se distingue um esboço de identidade. Sentimos um brilho a inundar o espaço e adivinhamos uma aura humana definida e límpida, que se impõe aos nossos olhos na crescente intensidade de um halo. Foco de luz no apogeu de um clarão, assistimos à sua verdade como um ser inteiro e único. Visionamos o núcleo e conhecemos o fulgor da perfeição criativa. Num ritmo fosco e imemorial, Aquele que existe avança, perante nós, na névoa do crepúsculo e dilui-se na penumbra de um teatro de sombras. O núcleo é então uma silhueta nublada, marioneta obscura à deriva na noite, nula, imersa na densidade de imagens fugidias, invisíveis nas trevas.



Ondas siderais de olhos cristalinos,
de amantes sinceros na aurora da vida,
ondas de abraços, de beijos infernais,
ondas violentas de espaços perdidos,
de sinais esquecidos na poeira do olhar,
ondas desorientadas, despidas, estéreis,
ondas de exaltação e de prodígio,
ondas desesperadas de intenção,
ondas, ondas, ondas,
de infâncias vividas num prado de incertezas,
ondas impulsivas de gestos intensos,
ondas furtivas de desejos famintos,
ondas pantanosas, desertas de sentido,
divididas, emotivas, sinuosas,
ondas desmembradas, desprotegidas,
ondas de magma que traem os passos,
ondas sinistras de jogos perversos,
de alcance desmedido e cárcere secreto,
ondas estranhas, enormes, caprichosas,
ondas de silêncio, de soluços ingratos,
ondas arrebatadas, destrutivas, finais,
gigantes em pranto no extremo do que é ser.



Troti
 
  Ruy Belo
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado

--

Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão


azuki
 
  “Os Poemas da Minha Vida” (2ª série), editados pelo Público

Foram uma companhia constante, ao longo das últimas semanas. Cada sete dias, outros poemas de uma outra vida.

“Outros” será uma forma de expressão pois, com este formato e um enfoque na poesia portuguesa, seria impossível evitar repetições. Creio que o grande aglutinador de consensos terá sido [Senhora, partem tam tristes], de João Roiz de Castel-Branco. Objecto de especial predilecção, foram também Portugal (A. O’Neill), Quase (Mário de Sá-Carneiro), [Floriram por engano as rosas bravas] (Camilo Pessanha), vários de Pessoa (O guardador de rebanhos - excertos,…), diversos de Camões ([Aquela triste e leda madrugada]; [Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades]),….

Do meu (muito pessoal) ponto de vista, o principal mérito desta colecção não consiste na possibilidade de partilharmos, com cada um daqueles homens e mulheres, os poemas que marcaram as suas vidas e que, de certo modo, concorrem para os revelar. De facto, a não ser que se trate de alguém que me inspire um especial fascínio, confesso que não me atrai particularmente conhecer os poemas da vida do senhor x ou da senhora y. Há, evidentemente, um factor emocional importante e que não posso deixar de realçar: certos textos introdutórios são muito interessantes e sei que não deixarei, no futuro, de fazer associações curiosas; admito que me recordarei de Freitas do Amaral, sempre que ler o Se (Kipling); que talvez já não consiga dissociar Miguel Cadilhe de Natália Correia; que passe a imaginar Miguel Veiga com o seu poema no bolso… Sobretudo, sinto que, com eles, desenvolvi as minhas aptidões de selecção e de interpretação (gostei muito do modelo de Maria Alzira Seixo, que fica connosco após a leitura, oferecendo-nos a sua visão pessoal).

Para mim, esta colecção vale sobretudo pela sua capacidade de nos aproximar da poesia, juntando duas coisas que costumam andar desavindas: poemas e quotidiano. Quantos de nós não têm as prateleiras recheadas de livros de poesia? Desses, quais já lemos? Com que frequência? Há sempre coisas mais prementes do que abrir um livro de poesia…

Certos prazeres carecem de disciplina para serem interiorizados. Porque ler poesia, para a maior parte das pessoas, não é apenas aproximar-se da prateleira, escolher a lombada, estender o braço (ok, agora é mais simples, há a net..), mas sim um empenhado processo de mentalização. “Os Poemas da Minha Vida” ajudam-nos a desmistificar a complexidade de tal comportamento, sem o intuito de o banalizar, mas sim de criar um bom hábito. Arrancamos os poemas de lá das alturas, roubamo-los a esses momentos singulares de melancolia, e puxamo-los para nós, abrindo-lhes o nosso dia-a-dia. E comprar e ler poesia passa a ser um acto quase tão natural quanto comprar e ler o jornal.

Um poema por dia enriquece.
Aguardo, ansiosamente, a próxima fornada.

Bom dia!!
azuki
 
terça-feira, Agosto 30, 2005
  A. Loiseleur, "L'harmonie selon Lamartine"


Velhinho Lamartine, és uma delícia.

azuki
 
  Ensaio sobre uma desilusão
Finalmente tive a oportunidade de assistir à encenação do "Ensaio Sobre a Cegueira" pela companhia "O Bando". Nos primeiros instantes da peça deu logo para perceber que João Brites procurou transformar o "Ensaio Sobre a Cegueira" numa peça de teatro absurdo, só que as palavras de Saramago não têm a força nem o sentido das palavras de Beckett ou Ionesco. Cerca de oito anos depois da primeira e única leitura (que me impressionou na altura, mas a passagem do tempo não aconselhou a releitura), o texto em palco soou a oco, demasiadamente preso ao seu estilo parabólico e paternalista. No fim, nem as boas intenções, utópicas ou anti-utópicas, de Saramago, nem a máquina elevatória de Brites chegaram para me fazer ver mais alto e mais longe, que é isso que procuro quando leio um livro ou vou ao teatro.

riverrun
 
  Vivam os cavaleiros andantes!

(Fólio de Amadis de Gaula, edição de 1526, impressa em Sevilha, por Jacobo e João Cromberger)

Li "Amadis de Gaula", numa edição de 1935 que encontrei em casa, e nele descobri o arquétipo do cavaleiro andante, fiel à cavalaria e à sua dama (princesa Oriana). Ao longo dos séculos, foram várias as recriações desta obra, o chamado “ciclo dos Amadises”, e que tanto sucesso teve. Contudo, segundo pude verificar, a sua autoria constitui uma das mais interessantes disputas literárias entre Portugal e Espanha: os espanhóis atribuem-na a Garcia Rodrigues de Montalvo (1508), enquanto que os portugueses defendem que esta será subsidiária da obra de um tal de Vasco de Lobeira (sec. XIV), a qual, no entanto, nunca terá sido publicada.

Desde os tempos do Rei Artur que ser cavaleiro andante não é apenas uma forma de combate exercida pelos nobres, mas essencialmente um modo de vida, com um código de conduta bem definido. Os cavaleiros não defendiam apenas a sua Fé e a sua Pátria, mas zelavam pelo bem-estar da comunidade, e serviam, não só os seus semelhantes, mas também cidadãos em apuros. Para além de guardiães da paz, estes homens possuíam virtudes como a lealdade, a generosidade, a integridade, a sabedoria e o sentido de justiça. Ora, que época não necessita de cavaleiros andantes?! Quem não os procura?! Vivam os cavaleiros andantes!

Bom dia!!
azuki
 
segunda-feira, Agosto 29, 2005
  Le Poison
Le vin sait revêtir le plus sordide bouge
D'un luxe miraculeux,
Et fait surgir plus d'un portique fabuleux
Dans l'or de sa vapeur rouge,
Comme un soleil couchant dans un ciel nébuleux.

L'opium agrandit ce qui n'a pas de bornes,
Projette l'illimité,
Approfondit le temps, creuse la volupté,
Et de plaisirs noirs et mornes
Remplit l'âme au-delà de sa capacité.

Tout cela ne vaut pas le poison qui découle
De tes yeux, de tes yeux verts,
Lacs où mon âme tremble et se voit à l'envers ;
— Mes songes viennent en foule
Pour se désaltérer à ces gouffres amers.

Tout cela ne vaut pas le terrible prodige
De ta salive qui mord,
Qui plonge dans l'oubli mon âme sans remord,
Et, charriant le vertige,
La roule défaillante aux rives de la mort!


Charles Baudelaire

azuki
 
  Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

Gabriel
 
  Interrogação
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha

azuki
 
  "Amor em Tempo de Cólera"
Um dos livros que mais prazer me deu ler. Vamos acompanhando a vida de um homem que eleva o amor a uma dimensão mítica. Uma prosa saborosa, sensível, profunda e cheia de carinho. Inesquecível Gabriel Garcia Marques.

Troti
 
  "Stupeur et Tremblements"
de Amélie Nothomb é um livro surpreendente. Um pequeno volume, uma história autobiográfica aparentemente simples, uma vida inverosímil numa realidade completamente diferente da nossa. Revelador.

Deste livro retirei uma das minhas frases favoritas:

"Même si j´habitais la terre, j´étais sur les nuages"

Troti
 
  "Em busca do Unicórnio "
Peripécias saborosas desfilam no enredo imaginativo de Juan Eslava Gálan. Um livro muito bem escrito, muito bem documentado e muito divertido. Só é pena que não esteja disponível no mercado. Já tentei comprar mas não tornou a ser editado.

Troti
 
  Balanço
- terceira tentativa

Estas palavras são escritas ainda a iniciativa "leitura livre" vai a meio. Duas conclusões antecipadas, sendo a primeira que este exercício me parece muito interessante para intervalar muitos meses de leitura sistemática; dá para conhecer melhor os gostos de quem vai partilhando esta página, tentar antever leituras futuras, abrir portas a outras participações, facilitada pela falta de contingente temático. Talvez se estreitem relações, também, talvez se tenham criado laços a desenvolver em futuras leituras. Talvez esta casa tenha crescido - espero bem que sim, é sempre com alegria que recebemos novos membros, tímidos ou extrovertidos.

A segunda, mais pessoal: tenho um caderninho imaginário que na capa tem escrito "lista de compras", iguais aos blocos de compras de supermercado que me recuso a ter, para desespero próprio quando empurro carrinho por entre prateleiras intermináveis. A minha lista de compras aumentou por estes dias, e a consciência aguda dos livros importantes por ler reforçou contornos. Apeteceu-me ler com urgência alguns dos livros que foram sendo invocados pelos outros participantes, li muito mais por estes dias, ávida.

Gostei muito de fazer parte. Obrigada.

leitora
 
  Ruben A. – “Caranguejo”

Fala-se pouco de Ruben A.. É pena. Ruben A. tem um sentido de humor raro e uma prosa diferente.

De avenidas e parques de ruas e vielas de becos e travessas como de irmãos e irmãs de primos e primas de amigos e amigas de conhecidos e desconhecidos se foi alargando o conhecimento das relações, uns melhores outros piores uns mais altos outros mais baixos uns mais ricos outros mais pobres uns mais sentidos outros mais pensados uns mais artríticos outros mais hipocondríacos até que um dia numa avenida de tal de tal cidade em tal continente neste mundo havia grande burburinho em determinada casa, andava tudo para baixo e para cima em recados e em ordens em chamadas telefónicas e em alvoroço tinha-se chamado a ancestralidade para vir assistir a qualquer coisa, no entanto em todos os outros que passavam na rua a indiferença era imensa, nem se apercebendo da extraordinariedade daquele anseio. No entanto "Ela" ia nascer.

Por entre trechos algo densos, este livro tem passagens absolutamente hilariantes, com particular destaque para a descrição da boda. Não me esquecerei nunca dessa leitura, na aldeia, um dos meus espaços amados; era uma tarde luminosa e calma, provavelmente de Agosto, e eu ri-me, ri-me, ri-me; li e reli aquelas palavras, engasgando-me em lágrimas, com um gozo tremendo (gosto muito desta palavra; será, porventura, das palavras com as quais a nossa sociedade mantém uma relação mais complexa; de medo, de culpabilidade, como se apenas proferi-la fosse já um pecado; é uma palavra magnífica: gozo, gozo, gozo).

Nesta segunda leitura, apenas um ténue sorriso. Nada mais. É o problema das segundas leituras. Por vezes, a coisa não corre nada bem. Não chego ao ponto de sentir um travo amargo, mas debato-me com a perplexidade. O que se passa comigo?!

Bom dia!!
azuki
 
domingo, Agosto 28, 2005
  Numa cela do Convento de Alpendurada


convento de alpendurada (o site está a ser objecto de um upgrade por um simpático jovem que satisfez todos os meus pedidos de acesso à internet; as suas imagens são bastante elucidativas, embora falte uma de todo o convento, de preferência captada de um helicóptero!)

O local é extraordinário. Um imponente convento, numa enorme quinta nas encostas do Douro. Uma capela. Uma igreja. Um restaurante com vista para o rio. Uma viagem no tempo; claustros, lagar, cavalariça, salas e salinhas, corredores na penumbra; mobília antiga, robusta, pesada, tectos de madeira maciça, azulejos, armaduras, grossas paredes de pedra. O ar fresco que sabe tão bem com tanto sol lá fora. Algum Portugal feio, do outro lado do rio, mas vastas zonas verdes ainda preservadas do mau gosto, do fogo e da sanha da construção. Muito silêncio. Nenhum vento. Um grande senão: um serviço que deixa muito a desejar. Várias casas (para hóspedes) espalhadas ao longo do imenso terreno. E 40 quartos. Não resisti, escolhi uma cela, na ala mais antiga.



Em que se pensa numa cela de convento? Pensei no céu e no sino. Pensei naquele céu de província, onde a lua e as estrelas têm um fulgor que não vislumbro na cidade. Pensei no prazer que me dava ouvir o som do sino, na igreja ali ao lado, de x em x minutos.

Tive a consciência nítida da ligação directa dos livros ao meu coração, porque sempre me acompanham, mesmo que me esforce por deixá-los para trás (até a rotina das leituras é preciso quebrar). E, por momentos, lá regressei às “Cartas Portuguesas” (seria belo poder lê-las apenas na perspectiva da paixão avassaladora e da entrega incondicional, mas elas também são os delírios de uma jovem mulher afectuosa e enclausurada; o tal do senhor De Chamilly era o menos relevante ali, porque as “Cartas” são desespero e solidão, são o destino ingrato destas mulheres e o reflexo da dificuldade em gerir a compulsão de se dar amor sem se ter como).

Pensei no poder dos salvação dos livros, porque nos transportam mais além (nos quais, porventura, Mariana Alcoforado teria conseguido encontrar algum apaziguamento). Mas pensei, sobretudo, que os livros não bastam. Eu não quero que eles me bastem. Mais importante do que tudo, eu diria que nós merecemos que os livros não nos bastem.

azuki
 
  "Tarass Bulba"
Uma epopeia em todos os sentidos é o que Gogol nos faz viver nesta assombrosa narrativa, em que os sentimentos vivem num turbilhão. A figura de Tarass na sua convicção e autenticidade é inesquecível.

Troti
 
  …ninguém, sendo mortal, pode considerar-se feliz, antes de ter chegado, isento de desgraça, ao último dia de vida. ("Rei Édipo", Sófocles)
Na tragédia dos gregos, tudo estava preparado ao pormenor (o local era escolhido, o desenrolar do drama estava perfeitamente delineado, havia um calendário próprio para as representações,…). Na acepção moderna de tragédia, quase sempre existe a dimensão do inesperado. Mas, talvez que o mais complicado de tudo, sejam aqueles momentos em que, sabendo que se está a caminhar ao seu encontro, não se consegue parar. Há certos laivos de demência em tal percurso. Arrepia.

Estar em Atenas, a olhar para o teatro de Dionísio, ou em Epidauro, são experiências indescritíveis. Se gostam de tragédia grega, voem até lá e vão sentar-se nos seus degraus. Ouçam o vosso eco através do silêncio e do espaço. E do tempo.

azuki
 
  Balanço
- segunda tentativa

Era para ter sido um mês de paragem na LP. Ainda bem que alguém teve esta ideia. De início puseram-me a pensar, "e agora, o que vou escrever, sobre quê, sobre quem?". A ideia das letras surgiu casualmente, pena necessidade de organizar, de qualquer forma, mesmo que injusta e ilógica. Qualquer coisa que não me obrigasse a ordenar de forma emocional. Um critério que me ilibasse das presenças e em especial das ausências. O resultado é meramente uma das múltiplas hipóteses de fazer a minha leitura livre. Aquela que aconteceu.

leitora
 
  A fortuna faz balançar sempre a felicidade e a infelicidade. ("Antígona", Sófocles)
Talvez que a nossa maravilha e a nossa tragédia sejam a capacidade para escolher e... para infringir. É difícil conjugar forças antagónicas; é difícil não balançar para um lado ou para o outro; é difícil não ceder, não tropeçar, não hesitar. Felizes os que a desgraça não experimentou.

O erro oferece uma possibilidade de reformatação, a quem achar que vale a pena (com um pouco de sorte, talvez não seja necessário vazar os olhos, como Édipo, ou dilacerar o corpo e fazer longos jejuns, como certos sapientíssimos doutores da Igreja).

Há infortúnios que, ou nos desligam, ou nos endoidecem; e há aqueles que nos fortalecem e fazem de nós melhores, de alguma forma. A questão é: que tipo de fio nos resgata do labirinto?

Bom dia!!
azuki
 
sábado, Agosto 27, 2005
 
Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando,
nu'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar u'hora.

Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.


Luís de Camões

azuki
 
  "O Processo"
Nunca antes de ter lido esta obra , eu tinha verdadeiramente entendido o termo “kafkiano”, quando usado em qualquer circunstância adversa ou estranha. É preciso sentir esta vivência ao longo das páginas, é preciso ver a angústia, a incompreensão, a negação, a incomunicabilidade, a decisão, o absurdo, a impotência, todos estes ingredientes juntos num coktail explosivo que não nos sossega ;sentimos que, página a página, Kafka nos vai mergulhando num funil. Não sabemos que este funil está selado.

Troti
 
  "Crime e Castigo"
É inesquecível e não podia deixar de o mencionar aqui, já que estamos a conversar sobre leituras que nos marcam de uma forma ou de outra. A análise psicológica
do desenrolar do raciocínio e da acção é uma das mais fabulosas interpretações sobre o comportamento humano que conheço. A força do livro é tanta que ,ao mesmo tempo que lemos a acção “vivemos” a personagem, e sentimos que Raskolnikov podia ser qualquer um de nós. É por isso que Dostoievski é um escritor extraodinário.

Troti
 
  "VIagem ao Fim da Noite"
de Céline foi um dos livros mais tremendos que li, na linguagem, no comportamento, na tensão. E esta leitura de desencanto, escura e desesperada provoca um uma paralisação da corrente mental positiva. Deste livro retirei para mim a fantástica frase do título e a sua visualização imaginária ; sempre que estou triste, vejo-me a caminhar pesadamente num caminho interminável dominado pelas trevas.

Troti
 
  A prudência é, em muito, a base da felicidade. (Antígona, Sófocles)
Efectivamente, é maior a probabilidade de se acabar mal, quando se trilha o caminho do excesso.

Mas falar de prudência a…… naturezas ariscas, rebeldes, inconformadas, vivas, apaixonadas?!

azuki
 
  Balanço
- primeira tentativa

Apesar de não parecer, em especial nestas páginas, tenho pudor em falar sobre livros de que gosto muito, ou até mesmo em recomendá-los - eu, a pessoa que vem dando voz à "leitora". Falo com entusiasmo dos livros que me impressionaram, tenho nomear os pequenos pormenores que para mim foram determinantes. E são sempre pequenos, pequeníssimos pormenores. O tal entusiasmo é pouco verbalizável; valho-me de variações emotivas expressas pela voz e pela comunicação corporal. Fico com a ideia que nunca consigo explicar porquê - que me emocionou, que acho bom, que valerá a pena ler. Só a emotividade me dá credibilidade, nunca a verbalização falhada.

leitora
 
  Sófocles – “Antígona”

Em "Antígona", encontramos múltiplas dimensões: religiosa, política, ética. Individual vs colectivo; direito vs justiça; leis divinas/costumes vs direito positivo; democracia vs tirania,… (neste rol, não incluo uma nota feminista, pois acho que os gregos se estavam a borrifar para as mulheres).

Antígona presta aos mortos o respeito que lhes considera devido (para um grego, um corpo insepulto representava uma desgraça terrível: o cadáver seria mutilado; o indivíduo seria apagado da memória familiar e da cidade e, sobretudo, não entraria na região dos mortos; acrescia o grave risco da insalubridade); "A religião grega não repousa na palavra, mas na tradição ritual" (W. Burckert); Não nasci para odiar, mas para amar, diz Antígona.

Creonte, tirano impiedoso, representa o Poder estabelecido; não pretende dar a um traidor o mesmo tratamento de um cidadão comum; não pode deixar de exercer a lei sobre a sua sobrinha, porque ela é igual para todos.

Hemon contrapõe o despotismo do pai ao interesse da colectividade: o poder não deve ser exercido em desacordo com aqueles que governa.

Há uma inter-penetração entre as esferas de acção, quer do Estado, quer do indivíduo/ família/ costume/ religião, cuja articulação é essencial à preservação da comunidade, mas muito difícil de gerir (recordo-me da lei do véu francesa). A acção do indivíduo tem que estar inserida num ideal de conduta; contrariamente, "em política, não há nada mais perigoso do que um idealista com uma metralhadora"…

Ao invadir os domínios dos deuses com tal radicalismo, Creonte não dá mostras de grande inteligência (há certas fracturas que exigem maturidade social; não se pode destituir uma colectividade das suas grelhas de interpretação do mundo de um momento para o outro). Antígona, por seu turno, tem uma resposta demasiado emocional e peca por excesso de ousadia e falta de sensatez. A intermediação dos conflitos parece não ser possível quando as duas partes em confronto enfermam de obstinação, acabando por se aniquilar uma à outra. Bem vês que, nas torrentes invernais, quando as árvores cedem, os ramos se salvam: quem oferece resistência, perde-se com as próprias raízes.

Bom dia!!
azuki
 
sexta-feira, Agosto 26, 2005
  Bilhetinho
Aconchega-te, Amor, em minha vida.
Entra na minha vida e fica lá,
sem ocupar lugar.
Que eu te não veja com os olhos, querida,
que não sinta sequer que tu ficaste,
mas adivinhe que sem ti ali
à minha vida, quarto aonde entraste,
nem ao menos podia chamar vida.

Sebastião da Gama

azuki
 
  Arte Poética com Melancolia
Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro palavras de dentro do que penso e do que faço, como se elas pudessem viver aí, peixes verbais no aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem da terra, nem trazem consigo o peso da matéria; quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem o mesmo sangue com que se faz viver as emoções, e servem de alimento a outros que as lêem como se, nelas, estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo, de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das palavras que te descrevem, hesita numa das entradas do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens inúteis que me separaram de ti.
Nuno Júdice

azuki
 
  Amyr Klink: o homem que foi lá e fez
Para quem não sabe, ou esqueceu, Amyr Klink é um dos mais renomados aventureiros de plantão do nosso mundo. Capaz das maiores proezas motivadas pelo simples desejo de realizar um sonho. E a cada vez um sonho mais alto. Mesmo que seja um simples "punhado de pedrinhas numa sacola azul".
"Paratii: entre dois pólos" conta a história de sua invernada na Antártica e de suas maluquices - calculadas minuciosamente - pelo pólo Sul e pólo Norte. Foram 22 meses navegando sozinho, enfrentando a maior tempestade do século e problemas casuais como perder, e encontrar na hora exata, um simples parafuso - o qual salvou sua vida. E ainda tem o dom de escrever simples:

"Não importa. Estava nervoso e tenso. Eu nunca comandara sozinho um barco deste tamanho. Vinte e cinco toneladas, vinte e um metros de mastro, três anos e meio de autonomia completa a bordo. Uma nave vermelha avançando, dia e noite, sem parar, para o sul.
Continuei no posto de 'caranca' na proa admirando o avanço automático daquela estranha máquina de navegar, que seria a minha residência por alguns bons verões e invernos. Não tinha certeza se a faria percorrer todas as linhas pontilhadas que cruzavam o meu atlas. Mas sabia que agora era perfeitamente capaz disso.
O terreal transformou-se num tímido vento. O Paratii inclinou-se um pouco e ficou mais confortável. Desci atrás de um barulho estranho que vinha do banheiro da proa. A portinha da farmácia abriu-se e batia loucamente contra a parede. Fechei-a e quando saí - surpresa - não havia mais nenhum sinal de terra. Nada, apenas mar. Nem mesmo uns golfinhos de 'boa viagem'. Trezentos e sessenta graus de horizonte até que surgisse à frente uma ilha, continente ou, enfim, um iceberg. Horizonte imenso, mas temporário. Havia estimado em vinte e nove dias a travessia direta até a Antártica e, faltando apenas mar para chegar lá, interromper meu horizonte seria apenas uma questão de tempo. E trabalho.
Misteriosamente sumiu o nervosismo. Como se fosse uma costa ameaçadora que desaparece. O fato de sentar na 'praça' com as costas no mastro, uma xícara nas mãos, mastigando um pedaço de chocolate, era o mais tranquilizador acontecimento do mundo. Única testemunha do meu horizonte, comemorei sentado, quieto, com a boca cheia, a minha maior conquista: partir. Ainda que minha viagem durasse apenas um único e mísero dia. Parti para minha mais lonha travessia, e, mesmo que ela só durasse esse único dia, eu havia escapado do maior perigo de uma viagem, da forma mais terrível de naufrágio: não partir.
Não estava partindo para uma viagem sem fim, vagando como um navio errante, um Mary Celeste abandonado e sem rumo ao sabor de ventos e oceanos. Tinha um lugar preciso para alcançar e um tempo certo para lá ficar, mas sabia que só quando retornasse, exatamente para o mesmo pedaço de areia que acabava de deixar, terminaria a viagem. Gozado, estava a menos de um dia de distância do meu objetivo e a mais de um ano e meio de viagem dele. Que brutal saudade!
O sol tocou no horizonte às 6:15, hora do Brasil. Dei uma rápida olhada nas velas, regulei o despertador e instalei-me na cama para mais quarenta e cinco minutos de sono. Adormeci pensando num lugar duas vezes mais longe do que a Antártica - Jurumirim (refúgio de Amyr Klink aqui no Brasil) -, feliz da vida. Porque, no fundo, eu parti para voltar."

É o que sempre digo: Quero ser Amyr Klink!!!

Gabriel
 
  David Mourão-Ferreira

(Georgia O'Keeffe, Evening Star VI, 1917, "My first memory is of the brightness of light...")

INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.


BLOCOS

É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo


LEGENDA

Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas


azuki
 
  "A Erva canta"
Só li esta obra de Doris Lessing, mas tenho interesse em conhecer melhor a sua prosa. É a história de uma mulher que atinge o auge da sua frustração depois de uma existência estilhaçada no vazio dos dias. É um livro de desencanto e perdição.

Troti
 
  Z de zzzZzzZzzz
Dormir com os livros tem muito que se lhe diga. Quase todos me fazem adormecer, mesmo os mais empolgantes, mesmo os que me cativam de forma extrema. Por defeito. Por causa da insistência de ler uns minutos que seja, mesmo que esteja a cair de sono.

Há meses em que não consigo ler mais do que três ou quatro páginas todas as noites, adormecendo algumas vezes, e acabando por desistir, fechar o livro, escorregar na cama e apagar a luz. Sistematicamente, no dia seguinte retomo o livro. Como nada aproveitei da leitura da noite anterior, volto ao ponto de partida. E assim consigo ler três ou quatro páginas todos os dias, durante uma ou mais semanas, e não avançar uma linha que seja. Para mais, as reincidências das frases embalam-me, instantaneamente fecho os olhos, e recito mentalmente o que me lembro das leituras anteriores, acrescentando muitos elementos do meu inconsciente. Só percebo que estou a dormir e a fingir que leio, quando o enredo toma proporções estranhas, abro os olhos e rendo-me às evidências: mais vale retomar na noite seguinte...

leitora
 
  Eugénio de Andrade
Fui buscá-las no dia 13 de Junho e, desde aí, continuam lá, na mesa-de-cabeceira. As suas palavras. Regresso às suas palavras, acabo sempre por regressar às suas palavras. Deixou-nos mais de 20 livros de poemas, 4 de prosa poética, 2 infantis, diversas antologias, inúmeras traduções.

Amo a simplicidade das palavras de Eugénio de Andrade. Límpidas, elementares, musicais. Há imagens e sentires que se querem assim, crus, despidos, e que, sendo burilados, dispensam retóricas embrulhadas. Eugénio de Andrade tinha a obsessão pelas palavras certas; ele, que nunca seria capaz de escrever um poema onde se lesse “televisor”. Há um imenso lavor por trás daqueles seus originais imaculados: Sou capaz de passar oito horas à roda de um poema e no dia seguinte deitá-lo ao lixo. Sou capaz de não dormir por causa de um verso. Tudo muito apurado, muito rigoroso, muito exigente. Porque a simplicidade é sempre o mais difícil de atingir.

Aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas as coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento. Os elementos primordiais, fogo, ar, água e terra; a força dos sentidos e das imagens; o louvor do corpo, do amor, da sensualidade; o momento; a infância e a imagem materna; animais, flores, árvores, luz, estações, estrelas, sol, mar. Mas, também, o chamamento sombrio de thanatos; doença, fragilidade, precariedade, sombra, morte, melancolia. Por vezes, só se consegue dizer que as palavras estão gastas.

Apetecia / entrar nele, tirar a roupa, ficar / nu dentro daquele sorriso. / Correr, navegar, morrer naquele sorriso. Como é possível ficarmos indiferentes? Como é possível continuarmos a ser os mesmos?

Quando, tal como ele, me sinto de vidro diante do mundo, sempre me encontro à procura de alguma doçura. Serenidade, apaziguamento, enternecimento e algum deslumbramento. As suas palavras dão-me tudo isso. Gostaria de inundar o Leitura Partilhada de Eugénio de Andrade, mas irei conter-me. Acho que já perceberam o quanto gosto deste poeta.

“A poesia fez o prodígio de Eugénio de Andrade, Eugénio de Andrade fez o prodígio da sua poesia: deixou-nos poemas e versos que não ressuscitam os mortos mas são vigor, ardor, fulgor e amor; amor que envolve pessoas, coisas, palavras; palavras que nos ajudarão a viver melhor e contribuirão para que a terra, esta terra onde já não o veremos mas onde sempre o leremos, seja cada vez mais habitável.” (Arnaldo Saraiva)

azuki
 
quinta-feira, Agosto 25, 2005
  O Existencialista
Não queria ir de férias sem deixar um último post sobre um autor ou um livro que me tenha marcado em alguma fase da vida e que ainda não tivesse sido referido. Lá fui arrancar a ferros à minha memória um nome.

Vergílio Ferreira. Conheci-o através do programa de Português quando estava no liceu com o seu magnífico “Aparição”. Todos os colegas que estudaram comigo a obra, e os posteriores que fui conhecendo em que o assunto “Aparição” tenha vindo à baila, adoraram o romance. Sem dúvida alguma que, pela corrente existencialista e filosófica, este livro é marcante para o jovem que se está a tornar adulto. Faz-nos pensar na vida e na existência do nosso EU neste mundo, nesta sociedade; faz-nos pensar nas decisões que devemos tomar, nesta fase em que um certo grau de independência em relação aos pais se começa a ganhar; e de que, quem somos nós para terminar essa existência com as nossas próprias mãos?

Évora é uma cidade que ainda não conheço, mas pela qual nutro um certo encanto derivado à leitura de “Aparição”. As descrições do escritor, as deambulações do professor Alberto Soares, naquela altura, fizeram-me viajar até à cidade alentejana e descobrir com eles Évora. Hoje a relembrar esses devaneios de jovem de 18 anos, lamento não ter feito a viagem verdadeira com o livro debaixo do braço. Mas hei-de ir, não sei é quando!

Passado um tempo, tive oportunidade de chorar com “Cartas a Sandra” e se até então não ligava muito à Morte, com este livro a minha revolta pelo fim da nossa existência ganhou contornos odiosos que até hoje não consigo deixar. Saber que um ente querido nos deixa, alguém a quem reconhecemos como companheiro/a de vida nos abandona é doloroso, chegámos à Solidão, a um abismo social de que muito dificilmente conseguimos sair. Ou como ele diz “Portanto eu tenho um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte. E nunca mais ate hoje eu soube inventar outro”.

Tenho que voltar a encontrar Vergílio, a perder-me, a viajar ou a chorar por uma “Manhã Submersa”, por uma “Estrela polar”, “Para Sempre” ou pelos premiados “Até ao fim”, “Em nome da terra” e “Na tua face”.


Dora
 
  Toada
Fui sempre um homem alegre.
Mas depois que tu partiste,
Perdi de todo a alegria:
Fiquei triste, triste, triste.
Nunca dantes me sentira
Tão desinfeliz assim:
É que ando dentro da vida
Sem vida dentro de mim.

Manuel Bandeira

azuki
 
  O Florir
O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos...

O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da estrangeira rápida ...

O olhar de interesse da criança trazida pela mão
Da mãe distraída...

As palavras de episódio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem ...

Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...
Caminho sem fim...


Álvaro de Campos

azuki
 
  "Germinal"
Aguentar, aguentar, até que ponto o homem consegue aguentar? Émile Zola leva-nos até ao extremo da sobrevivência, expõe-nos a degradação dos modos de vida, mostra-nos a terrível prisão do condicionamento. E desvenda-nos a tragédia que pode ser a existência. Um livro duríssimo.

Troti
 
  Ydo YES de Molly Bloom
Parte da herança que recebemos dos livros é a impregnação da nossa memória simbólica. Há personagens, frases, mesmo palavras que nos marcam, que passam a ter um colorido adicional como património.

A mais estranha, no meu caso, é o YES. Sim, SIM!, o grito silenciado e louco de Molly, na cama, dormitando, ainda sobre efeito da paixão, e recuperando momentos felizes e distantes da outra Molly que ela foi e que acreditava no SIM, na aceitação da aventura, na passagem para a vivência seguinte, que se crê fantástica e merecedora de todo o impulso.

Sempre que oiço YES, que leio YES, sinto um fluxo luminoso na memória. É estranho e perturbador, mas assentou arraiais, nada a fazer. Mesmo as palavras mais banais podem ter património literário.

leitora
 
  Mariana Alcoforado – “Cartas Portuguesas”

Pois. Há quem diga que as "Cartas Portuguesas" foram escritas por Soror Mariana. E há quem discorde vivamente!
As "Cartas Portuguesas" são mesmo muito bonitas. Se tiverem sido escritas por um homem, achá-las-ei ainda mais belas (sim, por vezes, sou possidónia).
Mas não quero falar de cartas de amor. Há coisas que merecem ser absorvidas apenas no seu contexto singular. Tentando falar com precisão: ou se sentem, ou não se sentem. Ponto.
Apetece-me brincar. A azuki tem andado demasiado séria, nos últimos dias. Aqui fica uma pequena ousadia da desatinada que há em mim, digo, na azuki.

Naquela tarde soalheira de brisas douradas pelo sol poente afogaram-se os meus olhos nos teus olhos e o meu coração esborrachou-se como um diospiro maduro projectado contra a parede… spláshh….. então corri a buscar o apanhador…..com surpresa verifiquei que ainda tinha o ventrículo esquerdo intacto tomaste a minha mão que tremia e levaste me pelo caminho bordejado de madressilvas até ao caramanchão seguraste o meu rosto gentilmente e com os teus lábios acariciando o meu tímpano murmuraste: vai uma aposta? quem salta daqui primeiro?? (Soror Ferglori Timpanoforado - “Epístola”, Convento do Linhó, 32 de Fevereiro de 1927)

Bom dia!!
azuki
 
quarta-feira, Agosto 24, 2005
  Mon amour pour avoir figuré mes désirs
Mon amour pour avoir figuré mes désirs
Mis tes lèvres au ciel de tes mots comme un astre
Tes baisers dans la nuit vivante
Et le sillage de tes bras autour de moi
Comme une flamme en signe de conquête
Mes rêves sont au monde
Clairs et perpétuels.

Et quand tu n'es pas là
Je rêve que je dors je rêve que je rêve.


Paul Eluard



Paul Eluard tem poemas lindíssimos e eu só tenho pena que o meu francês seja tão pouco digno. Esfera, celeste; alimento, fragrância; amor, ventura; cabelos, olhos; céu, água, sol,... Quem disse que o mundo não é azul como uma laranja??

azuki
 
  Depois da Odisseia e da Ilíada...
... urge encontrar uma boa tradução da ENEIDA!!


Art attique: "Peintre d'Altamura", cratère en calice à figures rouges (Enée et Anchise)
vers 470 - 460 avant J.C.
Boston, Museum of Fine Arts

azuki
 
  "A Família de Pascual Duarte"
Camilo José Cela mostra-nos o homem na crueza da sua autenticidade, faz-nos ver o íntimo do ser humano na sua vertente mais realista e primária. Um livro que rasga a couraça da nossa paz.

Troti
 
  "A Lã e a Neve"
O mundo nu e cru aqui tão perto, a descoberta de uma realidade insuspeitada e triste que invade a alma. Ferreira de Castro toca fundo no nosso âmago.

Troti
 
  “A Escolha de Sofia”
William Styron escreveu uma obra que marca. Livro de intensa pressão psicológica, provoca uma enorme devastação de sentimentos. Uma tragédia pessoal que abala e assusta.

Troti
 
  X de X, a primeira incógnita
A primeira dúvida que me assalta quando sou confrontada com o livro é se essa visão algo revela sobre a sua verdade. O imediatismo do título, da capa e, claro, da primeira linha. Vou contar toda a minha verdade: gosto que esse resultado seja verdadeiro, mas que, sem mentir, se torne surpreendente. O que é muito complicado. Ou talvez não.

leitora
 
  Homero, traduzido por Frederico Lourenço – “Ilíada”
Príamo, rei de Tróia, pai de Páris, que se apaixonou por Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta, que pede ajuda a Agamémnon, rei de Micenas, a Ulisses, rei de Ítaca, a Aquiles. As cidades-Estado gregas do mar Egeu contra Tróia. Helena, apenas um isco, uma razão politicamente correcta. Agamémnon sacrifica a filha Ifigénia pelas próprias mãos, para que os deuses lhes concedam bons ventos. Começam 10 anos de guerra. A oferta do cavalo a Tróia. Aquiles mata Heitor, irmão de Páris, que mata Aquiles e é morto por Agamémnon (que será depois assassinado por Clitemenestra, sua mulher, a qual irá morrer às mãos do filho, Orestes),….. Tróia destruída. A morte dos homens de Tróia e o terrível destino das suas mulheres.

(“The burning of Troy”, Jan Brueghel, the Elder)

A "Ilíada" é melhor e mais difícil de assimilar que a "Odisseia". Uma história de machos. Muita testosterona. Um poema de guerra, da afirmação da masculinidade. Tróia, cidade em chamas. Tróia saqueada. Seus homens mortos e suas mulheres violadas e escravizadas. Ambição, depredação, ganância, traição, violência, desumanidade. O horror, o horror, o horror. Mas, também, homens como Heitor; e amor, fraternidade, glória, lealdade, coragem, hombridade. "Ilíada", uma dura reflexão sobre a condição humana.

("The burning of Troy", Adam Elsheimer)

Ano após ano, após ano, o nosso País arde. Da minha janela, vejo a lua encolher-se, à visão da terra queimada. O País está a arder. Bom dia.

azuki
 
terça-feira, Agosto 23, 2005
  William Blake, (some) Proverbs of Hell

The road of excess leads to the palace of wisdom.

Prudence is a rich, ugly old maid courted by Incapacity.

He who desires but acts not, breeds pestilence.

A fool sees not the same tree that a wise man sees.

He whose face gives no light, shall never become a star.

The busy bee has no time for sorrow.

The hours of folly are measur'd by the clock; but of wisdom, no clock can measure.

No bird soars too high, if he soars with his own wings.

If the fool would persist in his folly he would become wise.

The fox condemns the trap, not himself.

Joys impregnate. Sorrows bring forth.

Let man wear the fell of the lion, woman the fleece of the sheep.

One thought fills immensity.

The tygers of wrath are wiser than the horses of instruction.

Expect poison from the standing water.

You never know what is enough unless you know what is more than enough.

If others had not been foolish, we should be so.

To create a little flower is the labour of ages.

The best wine is the oldest, the best water the newest.

Enough! or too much.


azuki
 
 
Ensaio sobre a Cegueirade José Saramago
"Neste romance temos tudo o que caracteriza a sociedade actual (mas sempre foi assim...): o sectarismo (isolamento dos cegos num manicómio), a violência gratuita (os disparos dos soldados sobre os cegos), o cinismo dos políticos (medidas tomadas para tentar debelar a epidemia de cegueira), o egoísmo (cada cego por si), os grupos armados que não são mais do que a caricatura dos bandos criminosos, a porcaria que inundava a cidade, etc., etc.
Podem identificar-se algumas referências mais ou menos históricas, mais ou menos literárias: os campos de concentração nazis, A Peste de Albert Camus, a cidade moderna perante uma catástrofe, as estranhas figuras de Bosh e de Dürer, a visão bíblica dos cegos que conduzem outros cegos. Mas algo que me parece essencial: a cidade de Tróia sendo destruída pelos exércitos gregos. Eneias, diante de todo o desastre, carrega às costas seu pai cego. A mulher do médico não será porventura um Eneias, único guerreiro que, perante a catástrofe, não perdeu o sangue frio? E temos o velho da venda preta. Não é concerteza Anquises. Mas não haverá porventura nele algo de Homero? Quem é que conta aos cegos do manicómio aquilo que se passou lá fora depois de terem sido internados? Quem é que lhes relata, ouvidas as notícias na rádio, o que se vai passando?
Este cego da venda preta tem algo de narrador e algo de épico. Ele próprio aparece como cronista em potência das venturas e desventuras do manicómio (cfr. págs. 159-161). E depois, claro, facilmente se poderá identificar com o alterego do autor. A rapariga dos óculos é a ele que elege (cfr. págs. 170 e p. 291), «ficando por esta via demonstrado, mais uma vez, que as aparências são enganadoras, e que não é pelo aspecto da cara e pela presteza do corpo que se conhece a força do coração».
É interessante o escritor cego que aparece em casa do primeiro cego e mais interessante ainda a técnica que ele inventou para poder escrever. Disto se tira a lição: não há desculpa para ficar calado. E a propósito me vem a história de Brás Garcia Mascarenhas, soldado e poeta do tempo da Restauração que, sendo acusado de traição contra o rei, foi preso. Tiraram-lhe tudo, excepto uma bíblia. Rasgando as letras uma a uma, compôs um poema que colou com farinha e água numa das páginas rasgadas. O poema conseguiu, por linhas travessas, chegar ao rei, que, vendo a injustiça, ordenou a sua libertação.
A mulher do médico encarna muitas heroínas: a Blimunda do Memorial do Convento, como facilmente se depreende de frases como esta: «levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas» (pág. 135); a Maria Madalena do Evangelho a guiar Jesus pelo túnel criado por Deus e que era a sua vida; a Joana d'Arc, que, comandando um exército cego (porque não a reconhecia), o levou à vitória sobre os inimigos.
O livro marca de tal forma o leitor que difícil será para este livrar-se da visão e do cheiro de tanta miséria e de tanta merda que no fundo caracterizam este mundo. Mundo que, para não a ver e para não a cheirar, constrói tapumes de cartão e espalha perfumes à volta.
Não seria aquela cegueira toda afinal um momentâneo vislumbre de visão?"
Leon de Machado
Nunca livro cheirou tão mal. Mas afinal o pessimista Saramago, ainda tem alguma esperança!
O que representa a mulher do médico? Porque nunca cegou ?
Castela
 
  W de Walser, Robert
Exemplo acabado de contágio. Não sei quem é, não sei o que escreve, sei apenas que preciso ler, que vou agarrar livros seus e abri-los de olhos arregalados. A blogosfera também tem destas viroses, e mesmo quem não é muito influenciável não resiste aos comentários certeiros, às armadilhas sedutoras. Vou ler, não sei quando vou conseguir tempo, mas vou ler. E vou pensar: a culpa é dela.

leitora
 
  Homero, traduzido por Frederico Lourenço – “Odisseia”

Chego à minha pátria no vigésimo ano depois que parti. Um dos grandes acontecimentos editoriais de 2003 (Livros Cotovia). E uma surpresa absoluta para mim; a leitura vai correndo fluida, como se fosse uma canção; é quase impossível não gostar deste livro. Nunca será demais elogiar a qualidade admirável do trabalho de Frederico Lourenço que, at last, colocou à nossa disposição os textos homéricos, directamente vertidos da língua original e em verso. Sem ruídos de permeio. Trata-se, somente, de um dos livros que sempre marcou o nosso imaginário (a propósito, a Quasi editou agora a compilação de quase todas as conferências realizadas na Biblioteca Municipal de Oeiras, sobre “10 livros que mudaram o mundo”; a "Odisseia" é um deles; o Livro Primeiro).

Apesar da enorme distância em termos culturais, de se tratar de um texto de transmissão oral (não concebido para a leitura) e das tão diferentes tonalidades no significado e na própria estrutura dos vocábulos, Frederico Lourenço conseguiu (dizem os especialistas, e eu até sou capaz de o intuir) conferir sentido, forma, beleza, musicalidade, modernidade a esta "Odisseia", incutindo até características poéticas a palavras que, geralmente, as não têm.

Frederico Lourenço. Tradutor, escritor, professor. Um nome que repito, sempre que posso. Atena, a deusa de olhos garços, conseguiu iluminá-lo. O meu bem-haja. Por nos ter devolvido o prazer do texto homérico.

Acima da cinza, uma lua minga. O sol, ao lado, aguarda pôr-se rubro. Ele sabe. Por estes dias, o poder do fogo anda indomável. Bom dia!!

azuki
 
segunda-feira, Agosto 22, 2005
  José Luís Peixoto
quantas vezes apostaste a tua vida?
apostei a minha vida mil vezes.
perdeste tudo?
sim, perdi sempre tudo

no papel, as palavras escondidas, as nuvens.
dizes não posso ser o mundo hoje, esqueces que
tu és o mundo. dizes não posso, e eu gostava que
soubesses sempre que um lamento dentro de mim
te repete. abro o papel dobrado e abro a noite
no céu. as árvores são distantes, as palavras
e talvez a música, a terra é distante no
papel dobrado que me entregas escondido
na mão.

ninguém pode saber que este poema é teu.
ninguém pode saber. ninguém pode saber
que este poema. ninguém. este poema é teu.
sou uma coisa da qual se tem vergonha


azuki
 
  V de Virginia Woolf
Estranhamente, este post já foi por várias vezes alinhavado, mas sem conseguir satisfazer-me. Comecei pelo paralelo com Joyce, seu rival e contemporâneo, mas com quem partilhou criações importantes para a literatura; o monólogo interior. destacadamente. Mas não me pareceu o caminho. Depois divaguei pela imponência das suas referências biográficas, o grupo de Bloomsbury, as suas fragilidades físicas e psicológicas - mas isso são os traços que menos me interessam, o que importa é a obra que fica. Aliás, tenho vindo a ler o "The Writer´s Diary", e o que me tem fascinado mais é a selecção das entradas feitas por Leonard, seu marido: o importante é a obra e a literatura, pelo que a maioria dos registos se referem ao acto criativo, às suas leituras, à receptividade (ou falta dela) dedicada a cada um dos seus livros e dos seus textos publicados em jornais.

Gosto muitíssimo de Virginia Woolf, queria que este destaque o demonstrasse. Apetece-me pegar nos jogos de luz e de sombra e de reflexos de "As Ondas", mas não me atrevo. Este é, portanto, um post sobre o que eu gostaria que ele fosse, e nenhuma concretização.

leitora
 
  Bret Easton Ellis – “Psicopata Americano”

Falando de taras, atingi um importante limite ao ler “Psicopata Americano”. Se recomendo a leitura? Só se quiserem tomar conhecimento de mais uma das inimagináveis fronteiras da anormalidade humana. Mas, já agora: a ratazana de Bret Easton Ellis não chega aos calcanhares do telejornal…

Passei a manhã em Coimbra. Devastação impiedosa. Um cenário aterrador.

azuki
 
  Eça
Peço desculpa por repetir Eça de Queirós no tema deste mês mas a leitura d' "A Relíquia" insurge para que eu deixe aqui o meu testemunho enquanto leitora amadora de obras de Eça.

Com Eça recuo até à sociedade portuguesa do século XIX, ao Portugal rural e ao Portugal urbano, às mentalidades tradicionais e às que proclamavam a modernidade, à crítica entre o que se fazia de bom e de mau em Portugal, às comparações com os que viajavam até ao estrangeiro e pergunto... Portugal do século XIX e do século XXI, que semelhanças? que diferenças?

O sarcasmo às pirosices beatas das gentes que se chegam à religião para ter uma vida santa e imaculada e a adoração à noite e ao amor ganho nas serenatas da terra dos estudantes divertem o leitor queirosiano! É o cumprimento exagerado das obrigações eucarísticas de Teodorico... rua acima, rua abaixo por entre essa Lisboa! É o incesto, os esconderijos, o amor de Carlos e Maria Eduarda da Maia! O romance proibido e condenado da Amelinha com o Padre Amaro! Depois são as personagens que se vão juntando às histórias principais, os amigos do coração, amigos do alheio e os inimigos... e, por fim, as viagens por Portugal, por Paris, por Brasil,... Enredos complexos, rebuscados, cruzados e apaixonados. Revejo nas personagens masculinas o jovem e o velho Eça, as suas paixões, a sua crítica e o seu medo, as suas próprias viagens ao estrangeiro, enquanto diplomata. O seu galicismo e anglicismo na linguagem portuguesa tão próprio e único! As suas descrições tão refinadas que nos fazem visualizar com perfeição os cenários, os corpos, as músicas que entram nos seus livros.

Mas o que mais me sobressaíu foi mesmo o final crítico, mordaz (diria eu!), ao poder que a Igreja, a religião, tem sobre a sociedade... Pior que isso, a forma como a instituição religiosa mostra os seus mais macabros defeitos, ligações, condenações, cobiças. Deixando a dúvida, será possível conciliar o temor a Deus com o temor à Vida, à Felicidade?

Dora
 
  A crueza da realidade através... dos livros


A tragédia grega convida-nos a observar. O horror. O absurdo.
Permite-nos visualizar o pior da humanidade, saber que ele existe. Sem que nos desintegremos.
A tragédia grega enche-nos de temor e permite-nos enfrentar…o insuportável e…aguentar.
Encaramos sem encarar; experimentamos sem experimentar. As máscaras utilizadas, de olhos arregalados e boca aberta, são o esgar que faríamos em tal contexto. E nem é como se aquilo não fosse nada connosco; porque nós estamos lá; oh sim, nós estamos lá; pequenos, frágeis, confusos, perdidos, cercados. Mas nunca atingimos certos limites preocupantes. No fim, estamos mais enriquecidos e continuamos inteiros.

Assim se lamenta o Coro, à vista de Édipo com os olhos vazados: Ó filho de Laio! Oxalá! Oxalá nunca te houvera conhecido, pois de minha boca saem, agora, gritos de desolação! Digo-te a verdade: que, por ti, recobrei alento, um dia; mas hoje, por ti, meus olhos buscam o sonho. (Rei Édipo, Sófocles)

Com os livros (e filmes), posso ser espectadora das coisas mais hediondas, aprender, aperfeiçoar-me como ser humano e permanecer una. Talvez seja covardia ou, simplesmente, a percepção da inelasticidade dos meus limites de absorção do mundo. Porque há certas realidades que eu só conseguiria enfrentar num contexto de deserto emocional. Não, com os livros, eu não me poupo ao choque. Assim, fico um pouquinho mais preparada para os embates da vida, evitando que essa mesma vida me seque por dentro.

Nova semana. Uma lua, já não tão cheia, num magnífico céu azul. Bom dia!!

azuki
 
 
Ensaio sobre a Cegueira

“Se podes olhar, vê. Se poder ver, repara”.
Livro dos Conselhos

Esta frase constrói uma obra literária. Tenho que confessar que a cito constantemente nas minhas aulas expositivas. Insisto para com os meus alunos para que saibamos ver e reparar com agudeza o que nos rodeia, e que, ao mesmo tempo que sejamos selectivos no objecto de análise; mas confesso que por vezes desanimo perante a cegueira do Homem comum. A poluição mental e ambiental é constante, o ruído cruel, a imagem corrosiva, o sabor incongruente, o tacto plastificado, o aroma a putrefacção e o frenesim no vazio; nesta sociedade a desmoronar-se sem o Saber, e a noção de Beleza e Bondade onde iremos parar?
Um exemplo: não será mera cegueira o que fizemos nas nossas florestas? Como foi possível através da avidez e da ignorância, e porque não maldade, terem plantado o nosso País com florestas alpinas e australianas, no nosso clima cada vez mais mediterrânico?
Somos cegos, estúpidos ou simplesmente indiferentes (a pior forma de crueldade)?
Sigamos a “mulher do médico”; que a par de Blimunda e Maria Madalena, são as mais notáveis personagens de Saramago.
A literatura ajuda-nos a ver e a reparar melhor.
Castela

Ensaio sobre a Cegueira- nota 4 (o a 5)
 
domingo, Agosto 21, 2005
  O mistério da casa
PRESTE ATENÇÃO À SUA CASA. Ela tem alma, é praticamente uma pessoa. Só falta batizá-la, dar-lhe nome cristão. Afinal ela fala, arfa, reclama. Faz quase todos os ruídos do seu dono. Quer ter, à força, a sua cara. Sua linguagem simbólica está a serviço de quem lhe percorre os corredores. A casa tem personalidade própria. Basta olhá-la para dizer com quem se parece. Nelida Piñon

azuki
 
  João de Melo – “Gente Feliz com Lágrimas”

Sinto que, depois de "Gente Feliz com Lágrimas", de João de Melo, algo se fechou em mim e me tornou menos susceptível de viver com intensidade os exemplos de infâncias pouco afortunadas. Será de discutível gosto a comparação, pois o mau não deixa de o ser só porque existe o terrível, mas acho mesmo que estou com menor capacidade para me comover. “Gente Feliz com Lágrimas” pinta-nos um retrato inacreditável de uma infância perdida nuns Açores pequeninos e analfabetos, de gente embrutecida e miserável. Mais do que a pobreza, o frio, a fome, a ignorância, são a falta de afecto e a total ausência de bons exemplos que constituem a realidade absolutamente demolidora deste livro de João de Melo. Foi uma leitura tão dolorosa que, agora, me sinto menos capaz de sofrer por uma criança pobre, mas cujo processo de crescimento esteve imbuído da ternura e da correcção moral dos pais. Porque as boas recordações podem salvar-nos a vida.

azuki
 
  "O Grande Gatsby"
Os anos de estudo na universidade foram dominados por uma grande leitura: “O Grande Gatsby” de Scott Fitzgerald. Nós dissecamos literalmente este livro, frase a frase, sentido a sentido, na mais simples palavra podíamos encontrar o mais obscuro significado, e assim, líamos e relíamos aquelas vidas cruzadas e vivíamos envoltas num crescendo de tensão. O livro é muitíssimo interessante na abordagem das facetas de cada personalidade e na identificação de diferentes formas de pensamento perante uma decisão.

Troti
 
  U de Ubiquidade
Será, talvez, um dos grandes potenciais da literatura, e um dos seus principais atractivos, a ubiquidade.

leitora
 
 

(François Boucher, Visita de Vénus a Vulcano)

A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.


Eugénio de Andrade

azuki
 
sábado, Agosto 20, 2005
  "Bonjour Tristesse"
Era ainda muito jovem quando li “Bonjour Tristesse” de Françoise Sagan e fui surpreendida por um tipo de vida que não tinha nada a ver com o meu. A identificação era feita com outra jovem e, por isso, podia ficcionar toda e qualquer situação com muito mais facilidade. Creio que hoje em dia a escrita de Françoise Sagan está totalmente esquecida, só ouvi falar no seu nome quando da sua morte, o ano passado. O facto é que a literatura francesa perdeu a influência que detinha na sociedade portuguesa há 30 anos atrás.

Troti
 
  "Papillon"
Não podem imaginar o que provocou em mim a leitura de “Papillon”. O mais variado leque de sensações abanou a minha jovem mente. Conheci a realidade da prisão jamais sonhada, o peso da dureza da sobrevivência e o valor da força de espírito. Quando apareceu o filme, corri para o cinema e sonhei dias e dias com o Steve McQueen e aquele fabuloso salto para a liberdade.

Troti
 
  Tragédia Grega

Pode ser que existam forças demoníacas dentro e fora de nós, preparadas para nos destruírem; pode ser que acabemos na escuridão, no desespero e no suicídio. E faz parte da dignidade de um homem e de uma mulher olhar de frente esta possibilidade: saber, pelo menos, que tal pode acontecer. As maiores tragédias gregas ensinam-nos constantemente essa possibilidade de pesadelo. George Steiner

Assustador, mas pedagógico. A tragédia grega confronta-nos, confunde-nos, abala-nos; causa-nos desconforto e põe-nos a pensar:
. que faria eu naquela situação?
. como julgar o que aconteceu?
. qual a melhor forma de proceder?
Não é nada fácil encontrar as respostas (eu já tive mais certezas, confesso…). Porque a vida não é a preto e branco, apenas vários tons de cinzento.

azuki
 
  Na Luz a Prumo
Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua, e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos, e as minhas,
pudesse entrar no azul, qualquer
azul: o do mar,
o do céu, o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave, as mãos, a voz.)
E fossem chama. Quase.

Eugénio de Andrade

azuki
 
  "O Diário de Ann Franck"
Um dos meus grandes choques foi a descoberta da guerra. “O Diário de Ann Franck” deixou-me num desespero de impotência e fez nascer um ímpeto de solidariedade. Fartava-me de chorar sempre que pensava nela, escondida, e pensava que podia ser eu e, se fosse,imaginava o que é eu faria na mesma situação, era um arrepio.

Troti
 
  T de Torga, Miguel
e de traumatizada, também.

Seguindo os trâmites escolares, o meu encontro com Torga deu-se com "Os Bichos" e "Novos Contos da Montanha". Foi um erro. Era demasiado jovem para perceber o sofrimento de um touro zonzo e esfaqueado pelo aplaudido toureiro. Se já me desagradavam as lides tauromáquicas, arrumei definitivamente com o assunto. Transferi o desgosto para os contos e para o seu autor, incapaz que era ainda de separar, de valorizar a capacidade de mexer com os meus sentimentos, ainda que de forma que me era desagradável.

Devia reler. Não sei se consigo, ainda. Há umas semanas ouvi da boca de um galego rasgados elogios ao primeiro destes livros. Impulso: reler. Mas não ainda. Parte de mim, nesta memória, continua a ter doze ou treze anos.

leitora
 
  Bernard Schlink - "O Leitor"

Não é por acaso que as idades do casal são díspares: relação conflituosa, tensa, estranha, forte, que é o paralelo da relação entre as duas gerações na Alemanha. Um país que viveu meio século a tentar reconciliar-se consigo próprio, a lutar contra a vergonha, o espanto, a incredulidade, a culpa. Uma geração atormentada pela memória, que cresceu a tropeçar no passado.

Este livro fala-nos sobre a ética do amor, de gerações desorientadas nos seus afectos, da vontade de compreender e da dificuldade em perdoar. Fala-nos também de uma sociedade ressentida, sob o peso de uma herança terrível. Jamais se poderá repor aquilo que um regime sem escrúpulos destruiu. Mas tem que ser possível enfrentar o passado, pô-lo à mostra, aprender com os erros, construir o futuro sobre outras bases. Por vezes, basta um pequeno movimento contra a inércia. E mil belas palavras alheias, por mais assertivas que sejam, nunca valerão o murmúrio sentido de uma das nossas.

A NÃO ESQUECER
Harmonizar; conciliar; regenerar; emendar; reabilitar; pacificar; aquietar; aplacar; apaziguar.

azuki
 
sexta-feira, Agosto 19, 2005
 
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto

azuki
 
  Ficções e realidades
Um dos meus grandes entretenimentos foi a leitura de Agatha Christie porque adorava as suas tramas e tentava chegar à conclusão dos enigmas, pondo todos os neurónios a funcionar; sem sucesso, claro. Às vezes tenho saudades destas ficções despreocupadas, a maturidade traz-nos outros desejos e abandonamos um pouco a fruição pura e simples. Mas também nem todas as leituras eram bombons. A experiência de Erico Veríssimo com “Olhai os Lírios do Campo” ficou para sempre gravada na minha memória com cenas imaginadas de uma dureza a que eu não estava acostumada. E que nunca me abandonaram. Ao mesmo tempo vivia com o riso na boca com Jorge Amado e a “D. Flor e seus dois Maridos”, cujo Vadinho é inesquecível. Eu era jovem, o tempo era de descobertas, de contrastes, de ilusões e desilusões, e os livros mostravam realidades com as quais nunca sonhara.

Troti
 
  S só para Sophia
Arrepia a arte com que revela as palavras. A sua assinatura colmata do mais belo da nossa língua. Esta é uma das nossas heroínas. Grande, grande, grande. Veja-se a sua "Obra Poética". Ou leia-se os seus livros infantis a todas as crianças que estejam por perto.

(ah, e a perda, essa, pedra.)

leitora
 
  Philip Roth – “A Mancha Humana”
Coleman tinha atingido uma estabilidade e uma reputação invejáveis, até ser, por causa de um pormenor de linguagem, acusado de racismo. Por um pormenor ridículo que, enfim, acabou por não ser tão ridículo quanto isso. Se as alunas não são fantasmas, há quem tenha esqueletos no armário… Coleman, um homem convencional tão pouco convencional… Um homem com uma história de vida de mentira; ao mesmo tempo, tão grande e profunda, essa história de vida. Um homem que, não obstante todas as suas conquistas e sucessos, devia ter muita dificuldade em olhar-se ao espelho. E que caiu de uma forma ridícula e humilhante.

Este livro tocante sublinha o facto de ser bem mais fácil termos uma postura ética quando não há oportunidades para não o sermos. Porque resistir à tentação é que define verdadeiramente a força moral de alguém! Nas tragédias gregas (a que o narrador alude por diversas vezes), que tão magnificamente nos colocam perante questões éticas fundamentais, as personagens são sempre confrontadas com situações-limite. E, porventura, os nossos juízos de valor carecerão de alguma legitimidade, se nunca tivemos sido acossados por certos desejos veementes.

"Não lhe interessa julgar; já viu muito para perder tempo com todas essas merdas." Ele foi fraco. Não conseguiu resistir. Haverá assim tantos que o conseguissem? Seremos capazes de controlar o lado negro que há em nós? De conhecer alguém assim tão bem? De nos conhecermos assim tão bem? Sim, ele foi muito fraco. Um homem manchado que teve o seu percurso de expiação. Há erros graves que se pagam caro, especialmente se a nossa consciência não nos deixar indiferentes à censura e à culpa. Mas, olhando para a intolerância das escandalizadas almas que o rodeiam, todos aqueles que estão sempre prontos a atacar quem pise o risco (aqueles que, por sinal, também o pisam, mas sabem esconder tão bem), não parece haver muito por onde escolher… A hipocrisia da sociedade americana em toda a sua pujança.

azuki
 
quinta-feira, Agosto 18, 2005
  Livros à hora de almoço
Já há alguns dias que não vos falava da minha hora de almoço….eh eh eh… Hoje, como o ginásio encerrou para férias (aghhh), resolvi ir à comumente designada Rotunda da Boavista, fazer umas compras. Com a Bertrand do C. C. Brasília mesmo ali ao lado, não resisti! Gosto muito desta livraria, pelo tratamento caloroso e pelas conversas agradáveis sobre livros, com pessoas que percebem do assunto e que, efectivamente, se dão ao trabalho de os ler.

Sou, de facto, sensível a este contacto. Tenho pena de não frequentar outras livrarias, as mais antigas, da Baixa, mas faço parte da geração Fnac. Mas, na Fnac, tão interessante em tantos aspectos, não existe um colaborador simpático como o de hoje, que me reconhece e me fala sobre os livros que tem na mesinha de cabeceira; este jovem é um herói: Guerra e Paz (Tolstoi) – grande livro e grande estucha (andei à sua volta durante 6 meses) -, que pretende fazer seguir pelo Don Quixote (Cervantes) e pelo Ulisses (Joyce). Booooom, recomendei-lhe algo leve para pôr de permeio (se acham esta expressão horrível, que tal "entremeter"?? não é verdadeiramente pavorosa??….).

Conclusão: entrei com o único intuito de encomendar um livro há muito prometido ao meu pai e acabei por ser (bem) convencida a adquirir Palomar (Calvino) – obrigada, nastenka-d! – Nove Contos (Salinger) – para aconchegar a leitura de Outubro - e Como e Por que Ler (H. Bloom) – é sempre útil perceber como e porque fazer as coisas importantes da vida, não é?

Sendo uma pessoa sumamente quinestésica, também é física a minha relação com os livros: que bom que é tirar-lhes as medidas, folheá-los, cheirá-los, afagá-los... E como saboreio estes rituais de sair da livraria com alguns deles debaixo do braço e de os colocar na prateleira, antecipando os bons momentos que me reservam... Enfim, coisas de quem gosta de livros!!

azuki
 
  O mundo vibrante das aventuras
Depois da maravilhosa época das fadas, entrei no mundo vibrante das aventuras. Comecei com a Enid Blyton e o seu grupo dos “Cinco” que me fez querer ter um cão, comer “scones”, ser uma maria-rapaz chamada “Zé” e viver todas aqueles riscos e imprevistos. Mas a melhor leitura foi sem dúvida “A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson” de Selma Lagerlof . Em paralelo lia o “TinTin” com a sua famosa poupa e o seu Milú, o “Zorro” e o seu “Silver”, o travesso "Tom Sawyer". A vibração maior chegou com Júlio Verne e as suas extraordinárias e inconcebíveis criações com as quais a minha imaginação chegava ao rubro. Depois aparecerem leituras ao acaso que me mostraram outras aventuras. A descrição das peripécias da “Caroline Chérie” de Cécil Saint-Laurent deixou-me de boca aberta e a “Moll Flanders” do Defoe mostrou-me que as mulheres são grandes protagonistas. E o meu mundo cresceu. E a sede desse mundo também cresceu.

Troti
 
  (poema inédito)
Que fiz da vida?
Que fez ela de mim?
Quanta coisa feliz ignorada ou perdida!
Quanto princípio que não teve fim!

Que sinto ante estas águas e este céu?
Ai de mim! Só o coração que é meu...

E no súbito azul em que reparo
Do mar, do antigo mar,
Pois despertei do sonho em que caíra,
Há uma carícia vaga, há um sorriso raro
Que parece falar
De qualquer paz além de gozo e dor,
De qualquer novo amor
Que transcende a verdade e a mentira.
E, desperto todo, eu que dormia
O sono natural da sensação
E que por isso não ouvia,
Oiço o som das ondas, claro, fresco, e uma
Brisa me passa pelo coração,
E estendo ao mar a mão
E o mar me estende sua mão, a espuma.


Fernando Pessoa
(in "Mealibra", nº16)

azuki
 
  R para Rulfo, Juan
Este escritor mexicano tem apenas dois livros, um romance, "Pedro Páramo", e o outro de contos. Ambos concentrados em poucas páginas (menos de duzentas). É considerado o fundador do realismo mágico, e admirado por grandes escritores de todos os quadrantes. Eu cheguei a ele por uma referência de Lobo Antunes, numa entrevista algures na imprensa. Vamos ter a oportunidade em Setembro de ler o conto de abertura de "Planície em Chamas", que me fascinou. Há uma ligação à terra, mesmo que feita apenas de pó, uma ligação às origens, ainda que devastadas, de uma beleza tremenda. De nos provocar desejo de conhecer, de pisar aquela terra, ainda que nos expliquem que é inóspita. Mas é mágica, tem encanto, cola-se ao nosso desejo.

leitora
 
  Philip Roth – “"O Teatro de Sabbath” (iii)
Ao ler certas passagens do livro, em que a fragilidade de Sabbath é exposta de uma forma tão nítida e pungente, quase me convenço de que tudo se trata, com efeito, de uma tentativa de redenção. Mas, depois, paro um pouco e sinto que Sabbath nunca deixará, nem quererá, contrariar a sua retorcida natureza; um leão velho que perdeu as garras e os dentes e que tenta convencer as antigas presas de que está arrependido, para que o deixem partilhar algum resto de comida... Um sempre decadente Sabbath, tentando desesperadamente manter a sua moribunda erecção matinal.

azuki
 
  Um desconhecido Portugal
A propósito da literatura portuguesa na revista Veja desta semana:

As editoras brasileiras acordaram para a qualidade da literatura portuguesa contemporânea. Mas o leitor deve se aproximar da obra dos portugueses consciente de que vai ler sobre uma outra realidade, de um país estranho — um país que, depois de décadas de desconforto em relação ao próprio continente, está afinal se descobrindo europeu.

(Veja, 17 de agosto de 2005)

riverrun
 
quarta-feira, Agosto 17, 2005
  LP, eu e nós
Com o post da ams fiquei sentida, parecia uma despedida que prometia não o ser... Fiquei, no entanto, com a sensação de que o LP começa a fazer-nos sentir assim... dependentes de uma comunidade à qual devemos responder diariamente "Presente". Pois se não o fizermos, corremos o risco de vermos desaparecer esta força que nos impele a ler, a procurar aquele autor, aquele livro ou aquela passagem, a descobrir esses tesouros escritos, a sentirmo-nos na obrigação de passar para palavras os sentimentos que preenchem o nosso cérebro depois da leitura... a buscar os livros escondidos e abandonados na prateleira... a sacudir o pó que se foi acumulando e a iniciar uma leitura para depois a partilharmos...

Agora na minha hora de almoço entrei numa livraria, não queria comprar nada porque tenho que poupar dinheiro para as férias, mas não resisti. A sensação de pegar no livro e a tal química que existe entre o nosso tacto e o nosso cérebro leva-nos a actos assim... de não pensar, só agir! Quando reparei, tinha 5 livros na mão, desprendi-me de um (que seria para oferecer à minha irmã... mas paciência, depois digo-lhe o autor e ela vai procurar na Biblioteca... Sou mesmo muito egoísta!)

Um dos livros foi "A Relíquia" (pois quem me manda a mim ler os posts e os comentários)... fiquei com o bichinho e quando comecei a ler a introdução apareceu-me isto

"Decidi compor, nos vagares deste Verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida - que neste século, tão consumido pelas incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte"

o suficiente para o comprar!

Dora
 
  Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.


Carlos Drummond de Andrade

azuki
 
  tempo de paragem
São tantas vezes errantes os sentidos das palavras que escrevemos, que talvez as devêssemos fazer sempre acompanhar de um manual de instruções. De preferência um diagrama, para maior segurança. Vem isto a propósito da minha participação até aqui no Leitura Partilhada, tanto a participação mais passiva (li praticamente tudo o que aqui se escreveu) como a mais activa, que foi também a menos comprometida e a mais descuidada. Por motivos pessoais da minha relação com as pessoas, com a leitura e com a escrita, interessou-me muito esta experiência. Primeiro porque tratando-se de leituras, a sua partilha é uma forma particular de escrita, com regras implícitas que os leitores que aqui escrevem naturalmente criam e às quais se ajustam sem necessidade de as formalizar. E a mim interessa-me particularmente o fenómeno da escrita, aquilo que a motiva e aquilo que a limita. A certo momento dei por mim a tentar subverter as regras acima referidas (no processo de relação grupal que elas pressupõem), introduzindo registos de pensamento divergente, com muito mais funções fática e poética do que função informativa. As leituras que fui comentando apoiaram-se também muito mais em registos da memória dessas mesmas leituras do que em leituras actuais. Isso foi aliás fácil para mim e uma vantagem tanto da idade, como dos hábitos profissionais de leitura, como do muito tempo livre de que disponho. Poucos livros foram assim referidos que não tivesse lido. Alguns, porém, pela sua própria natureza, caso do Ulisses ou do Finnagans Wake (penso que não se falou deste nem dos ensaios já antigos de tradução de estudiosos brasileiros) era aventureiro comentá-los de memória sem os respectivos textos à frente. E, sinceramente, entre os vários milhares de livros que tenho em casa, já só quase consigo encontrar os que me saltam aos olhos. Surpreendeu-me também, a certa altura, o aceleradíssimo ritmo de leitura de alguns ou de algumas leitoras e a capacidade de manter ajustado o comentário a tais ritmos.

Vai longuíssimo este post, mas como tenho de suspender por várias semanas a minha participação aqui, atrevo-me a prosseguir, com mais uma ou duas coisas. A primeira para me felicitar por vos ter encontrado e à vossa geral simpatia, o que me levou a fingir uma escrita bem mais jovem que esta maçadora que aqui vai e que é de facto a minha; a segunda para vos agradecer a lidar com blogues (agradecimento especial à leitora), e também a esta o ter-me dado a descobrir uma das mais interessantes escritas poéticas que ultimamente tenho lido. Sobre isso, guardo a pequena satisfação de ter de algum modo estimulado os dois últimos textos dessa escrita, a partir de uns tolos comentários que fiz. Em último lugar para dizer que vou voltar daqui a uns tempos, e com rdobrado prazer, ao pograma do leitura partilhada.

ams
 
  Philip Roth – “"O Teatro de Sabbath” (ii)
Normalidade Sabbathiana: Ele não resiste a prostitutas, e acha normal. Ele despe pessoas na via pública, e acha normal. Ele masturba-se com a lingerie da filha do amigo, no quarto desta, e acha normal. Ele coscuvilha por entre as coisas da filha do amigo, no quarto desta, e acha normal. Ele é apanhado pelo amigo, na casa-de-banho, com a fotografia da filha deste na mão, e acha normal. Ele atira-se à mulher do amigo, na casa onde eles lhe deram guarida, e acha normal. Ele é apanhado, pelo casal que o acolheu, com as cuecas da filha destes no bolso das calças, e acha normal. Eu, não acho nada, mas mesmo nada, normal.

azuki
 
  Q para Queiroz, Eça
No outro dia, ao ler o livro de contos, compreendi finalmente o que me agrada menos no Eça: é o seu universo novecentista de meninos ricos e um pouco ocos nos seios das suas fortunas de família. Apesar desta nota, cresce o meu gosto por Eça, pela sua extraordinária capacidade de escrita, de recriação das palavras, de fazer romance de uma forma aparentemente fácil, ao natural.

Ainda não li "Os Maias", e quero ler. Por várias vezes foi proposto para uma futura actividade da Leitura Partilhada, muito apoiada por todos. Por isso, vou esperar; será a melhor das formas de apreender a obra maior do escritor de Tormes.

leitora
 
  entrando mais na alma
...o vinho de Tormes, caindo do alto, da bojuda infusa verde — um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.

(A Cidade e as Serras, Eça de Queirós)




Cítrico, ananás verde, caroço de fruto, limpo e elegante. Muito macio na boca, alguma neutralidade dada por uma acidez completamente redonda, bom fruto e desenho geral elegante, termina mediano.

(Anuário de Vinhos 2005, João Afonso)


riverrun
 
  Uma Visita em Portugal em 1866 (H. C. Andersen) - IV
Na parte alta e mais frequentada da cidade será erguido um monumento a Camões. A praça tem já árvores e flores e a base do monumento foi deixada sem a estátua que suportava e que foi apeada, pois está sendo esculpida uma nova.
Perguntei: — O escravo de Camões terá também aí lugar? — Imaginei-o sentado na base, com a mão estendida, como quando Camões vivia, se sentava nas ruas a mendigar para o senhor pobre e abandonado, quase a morrer de fome.
— Essa imagem — responderam-me — constituiria uma reprovação contínua à nação, que não cuidou, enquanto vivo, do seu grande poeta.
Não sei como virá a ser o monumento a Camões, contudo a sua obra será sempre o seu melhor monumento, pelo qual o nome de Portugal mais do que pelas batalhas e conquistas sanguinárias, é recordado e exaltado pelas gerações de todo o Mundo.

(Uma Visita em Portugal em 1866, Hans Christian Andersen)

riverrun
 
  Philip Roth – “"O Teatro de Sabbath” (i)
Drenka. 52 anos. Objecto de desejo sexual intenso. 52 anos. Incomparável, incontornável, imparável Drenka. Não são 20, nem 30, nem 40 anos. São 52. E a libido continua lá. E o poder de atracção. E a capacidade de permanecer na memória de um homem como mulher inteira. 52 anos. Muito bem, Sr. Roth.

azuki
 
terça-feira, Agosto 16, 2005
  Azul-turquesa... será esta a cor do amor?
Viva,

por obra e graça do espírito santo um certo draft foi publicado... ;D

No entanto, é sobre o autor do livro em que retirei aquela passagem que eu vou falar neste post. Descobri-o por entre as dezenas de livros escondidos, desorganizados e cavalitados uns nos outros nos armários lá de casa. Jacinto Lucas Pires é o escritor de que vos falo... Azul-Turquesa é o livro...

Apesar de ser um romance, que diga-se de passagem um romance muito invulgar, as histórias paralelas e cruzadas de José e de Maria levam-nos a percorrer diálogos populares, conversas que todos nós já ouvimos ou intervimos e a conhecer gentes, ao mesmo tempo bizarras e pensadoras, que nos dão expressões fantásticas... Para entender meçhor a minha opinião, descobri esta frase do escritor sobre o livro: "Para mim, mais importante do que contar esta história, foi saber como contá-la como falar de um homem de agora e de uma mulher de agora, um pouco como falar de mim através da ficção. [...] O narrador é um mero espectador, não conhece o interior das personagens. Aqui há uma Lisboa muito especial, feita de cenários muito meus, e a história é um pouco estruturada como um filme, às vezes até por planos."

Garanto que li neste livro a melhor definição, ou direi antes as melhores definições?, para a palavra AMOR...

Jacinto Lucas Pires faz parte da nova geração de escritores nacionais mas, paralelamente, associa-se a outras áreas culturais. Escreveu a peça "Arranha-Céus" que esteve em cena no Teatro Nacional de S. João no Porto e realizou a curta-metragem Cinemaamor.

Dora
 
  Se Não Falas
Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.


Rabindranath Tagore

azuki
 
  P fica com Pessoa, Fernando
Acredito que gosto sem entender nem uma pequena parte do alcance dos seus escritos. Fiquei fascinada com uma história de uma verdadeira aula sobre Pessoa, a que a Troti assistiu, em que se referia o sentido implícito de cada palavra de um poema da Mensagem. De facto, leio demasiado depressa!

Gostava de ler "O Livro do Desassossego" de fio a pavio, calmamente, quem sabe aproveitando uns poucos minutos diários antes da luz se apagar. Ainda não defini esse plano, mas agrava-se a sua urgência.

leitora
 
  Philip Roth – “O Complexo de Portnoy”

Há livros que vivem para sempre. Lamentavelmente, não creio que seja o caso de Portnoy's Complaint. Do meu ponto de vista, o único facto interessante desta tese sobre masturbação masculina foi a sua publicação nos anos sessenta, altura em que deve ter causado grande brado e celeuma. Portnoy's Complaint deve ter acrescentado muito nessa altura, não tenho dúvidas. Mas, Hoje, no sec. XXI, bahhhh…. Tiro certeiro da minha reacção ao livro, este recorte de revista encontrado no meio da leitura: In art, shock value doesn´t have a very long shelf life. One generation’s cultural outrage is a kitsch artifact to the next. (in Opera News)

azuki
 
segunda-feira, Agosto 15, 2005
  Um homem de palavra
Há coisas que um leitor não perdoa nem ao melhor escritor deste mundo. É o meu caso no que respeita ao Paulinho Assunção, que a leitora aqui do sítio me recomendou como homem de palavra. Mas é justamente essa sua qualidade que me confunde e que me faz duvidar não dele mas de algumas das suas palavras. Não concordam? Vejam aqui e confirmem: "A bebida era verde. A mesa era oblonga. A taberna era anfitriã e hospitaleira. E então, quando a tarde se fez moça, ali nos sentamos, todos muito pândegos, Rimbaud e Baudelaire, Rubem Focs e Franz Kafka, Murilo Rubião e Robert Walser. Ninfas caminhavam em fios incendiados; passaredos nos observavam de uns hibiscos próximos. O Brasil ia ao longe, ao largo, rebocado por uma barca. Choveu um aguaceiro invisível. Frutas iluminavam o fim da tarde. Era boa a vida, a vida menor, a vida em ciscos e migalhas." (Paulinho Assunção, "A vida em ciscos", in Pessoas de Romance).
Viram? Ora eu sei, sou aliás o único que sei, que Rimbaud não podia estar ali, a essa hora. Com a modéstia que me é própria, já fiz saber e demonstrei, isso mesmo, ao próprio Paulinho. A essa hora Rimbaud, distraindo-se como é seu hábito a fazer rolar entre as mãos as suas cinco pedrinhas, bebia um tinto comigo e entretinha o tempo com palavras soltas sobre desertos e camelos, enquanto uns pássaros miúdos lhe trepavam pelas botas cambadas para recolher nos bicos uns restos de miolo que ele esfarelava distraído. Não o compreendi muito bem, mas creio ter percebido que foram os camelos que lhe ensinaram a passar para o lado de cá da poesia pelo buraco da agulha. Paulinho Assunção devia ter mais cuidado, é o que concluo. É homem de palavra, não duvido. Algumas das suas palavras é que são impostoras.
ams
 
  O para O'Neill, Alexandre
Poeta, surrealista, rebelde. Brinca com as palavras, redefine-as. O seu universo ainda não me é familiar, mas está-me prometido, por afinidades. Este é, portanto, um destaque-promessa. Não vou escolher livros, não vou falar do que ainda não sei. Rigorosamente, ainda não sou leitora, mas sei, acredito, que vou ser.

leitora
 
  William Faulkner – “O Som e a Fúria”

Benjy era surdo-mudo
Benjy nunca ouviu a palavra
Benjy nunca proferiu a palavra
e, sem a palavra, não há lugar para o raciocínio
e a relação com o mundo faz-se através dos sentidos e do coração
e o melhor do mundo é aquela irmã
que o trata com carinho
e que cheira como as árvores

Este livro fala-nos da nossa fragilidade, da nossa absoluta necessidade de referências afectivas. Nesta família, eu vejo a incapacidade para contornar factos menos felizes e a facilidade com que caminhamos para a destruição, quando nos fechamos em nós próprios, quando nos falta a tolerância, quando apenas sabemos lidar com os dramas da nossa vida como se estivesse escrito que ela não pode deixar de ser trágica.

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O QUE ESTAMOS A LER

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

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