Leitura Partilhada
sexta-feira, setembro 30, 2005
 
Este mês dedicado às histórias de curta extensão, fez-me alterar um pouco a percepção da ideia de conto. Não é que não continue a sentir no final da leitura uma ligeira sensação de insatisfação, mas fez-me ver que…

O conto é feito com pinceladas. É um quadro sem moldura, o início inacabado de uma história que nunca termina. O conto não segue vidas inteiras. É uma iluminação súbita sobre essas vidas. Um instante, um relâmpago. O mais importante não é o que revela mas o que sugere, fazendo nascer a curiosidade cúmplice de quem lê. No conto o que é importante não é tanto o enredo mas o surpreender em flagrante a alma humana. No conto (como em qualquer género literário) o mais importante não é o seu conteúdo literário mas a forma como ele nos comove e nos ensina a entender não através do raciocínio mas do sentimento (será que existem estas categorias, assim separadas?)

Oh… Mia Couto tirou-me as palavras da boca!



Dora
 
  Contem-me mais um conto
Fatima Rosado deixou este comentario num dos posts anteriores:
Aconselho, também, a leitura do livro de contos do Joel Neto "O Citroen que Escrevia Novelas Mexicanas".
Em jeito de despedida deste mes cheio de historias, gostava de pedir a todos os participantes e passantes que deixassem aqui a sugestao de mais um conto que valha mesmo a pena ser lido.
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Joana
 
 
balanço l


Leon Jean Perrault, An Interesting Story


Penso que este mês de contos enriqueceu o Leitura Partilhada e proporcionou óptimos momentos de leitura e de descoberta.
Com certeza que muitos contos interessantes ficaram de fora e muitos autores poderiam ter sido lidos, mas é isso que torna a nossa presença aqui mais estimulante: tudo o que ainda se pode fazer.
A todos os que entraram nesta corrente de leituras e acrescentaram um ponto a cada conto, o meu sincero obrigada.
...
laerce
 
  Pelo beicinho
Diz-nos Virginia Woolf, no seu How Should One Read a Book, que existe em nós um demónio, que adora e que odeia, e que não podemos silenciar. Sim, quando lemos temos que estar inteiros, na plena posse das nossas capacidades para adorar e para odiar (“odiar” será uma palavra demasiado forte, prefiro “não gostar” ou “não apreciar”). Ainda bem que sou dos que têm tendência para adorar (só preciso de ser bem convencida). Adorei, foi um mês pleno de descobertas, muitas delas brilhantes, uma ou outra menos boa. Pois é. Pelo beicinho. Totalmente apanhada.

azuki
 
  Hoje, é dia de balanço
Os 27 contos lidos em Setembro no LP:

Eça de Queirós - Um poeta lírico
Agustina Bessa-Luís - O Rato
Maria Ondina Braga - Natal Chinês
Herberto Helder - Teorema
Ant. Lobo Antunes - A véspera de morrer estrangulada
Manuel Jorge Marmelo - O Homem das Gaivotas
Hans Christian Andersen - A pastora e o Limpa-chaminés
D.A.F. Sade - A Beata Falsa
Guy de Maupassant - O Medo
Isaac Babel - História do meu pombal
Tchekhov - A Brincadeira
Kafka - Um médico de Aldeia
James Joyce - Eveline
Hermann Hesse - As Mutações de Piktor
Gao Xingjian - O Acidente
Edgar Alan Poe - O Gato Preto (Vítor)
Javier Marías - Na Viagem de Núpcias
Jack London - A Lei da Vida
Paul Auster - A história de Natal de Auggie Wren
Jorge Luis Borges - Biblioteca de Babel
Gabriel Garcia Marquez - O avião da Bela Adormecida
Juan Rulfo - Deram-nos terra
Clarice Lispector - A Galinha
Otto Lara Resende - Gato gato gato
Rachel de Queiroz - Tangerine-girl
Luiz Ruffato - A Demolição
Mia Couto - O novo padre

Bom dia!!
 
quinta-feira, setembro 29, 2005
  em África tudo é outra coisa
Se no conto de Maria Ondina Braga, Natal Chinês, que lemos no princípio do mês, Oriente e Ocidente se encontravam, ou se desencontravam, neste conto de Mia Couto o encontro/desencontro é entre Europa e África, entre cultura branca e cultura negra. O choque inevitável traduz-se em colonialismo e racismo. Mas como em África tudo é outra coisa, o engenhoso engenheiro branco acaba abençoado pelo demónio no confessionário do novo padre negro.

riverrun
 
  Hoje, estamos a ler O novo padre, de Mia Couto


Está uma linda manhã portuense: um sol amarelo num céu azul! Bom dia!!
 
quarta-feira, setembro 28, 2005
  Hoje, estamos a ler A Demolição, de Luiz Ruffato


Nasci em Cataguases (MG), em fevereiro de 1961, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira. Sou formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Já fui, nesta ordem, pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista, profissão que exerço atualmente em São Paulo, onde moro há dez anos. Publiquei dois livros de contos, "Histórias de Remorsos e Rancores" (1998) e "(os sobreviventes)" (2000), ambos pela Boitempo Editorial, de São Paulo. Tenho um livro de poemas inédito, "As Máscaras Singulares". (Luiz Ruffato)

Bom dia!!
 
  Cataguases
Ruffato é a minha descoberta literária de 2005. Não está editado em Portugal (ainda?). Nos últimos meses li vários livros dele, um romance e muitos contos.

Livro após livro, continuo a ficar fascinada com aquelas personagens, que vão reaparecendo nos diferentes livros de contos, seres repletos de experiência e sentimento, vivos nas suas existências mínimas, de sobrevivência, onde todos os recursos estão em vias de se esgotar. Vidas no limite.

Cataguases pode ser uma terras moribunda, esvaziada, e o Beco do Zé Pinto um local acabado, miserável. Mas o mais forte nos seres é o que vem da infância, as verdadeiras raízes da memória. De uma forma ou de outra, todos parecem ter a necessidade de voltar, se não ao local pobre, aos sonhos da infância.


Uma nota complementar: ler este conto na sequência de livros anteriores de Ruffato é avassalador. Todos os nomes que são referidos são seres retratados noutros contos, e uma simples referência ao Marquinho e ao António Português contem ecos, imagens, gritos, lágrimas e silêncios. Disto tudo se faz a escrita de Ruffato.

leitora
 
 
É fácil dizer – nunca mais – quando apenas de nós depende a revogação da sentença. É fácil ser definitivo, intransigente, duro, quando se sabe para onde ir, enquanto a demolição não é anunciada. Então é necessário partir, regressar, recolher os restos que sobram para reconstruir na memória o que não existe mais. Parece-se um pouco com Proust, não? É que a partir de certa altura, a nossa infância e o que ela representa de lar não existe em mais lado nenhum se não em nós mesmos.
nastenka-d
 
terça-feira, setembro 27, 2005
  Nunca mais a viram no laranjal
Escolhi este conto porque se fala pouco de Rachel de Queiroz. Porque gosto muito de laranjas. Porque também olho para o céu. Porque me fascina o que é prateado. Porque esta é uma história aparentemente simples, que aborda os delírios do coração e os equívocos da comunicação e, sobretudo, a importância de que se pode revestir cada um dos nossos actos, mesmo o mais singelo, sempre que há um outro envolvido.

E assim se desfez o primeiro grande amor de uma vida. Tudo começou pela curiosidade sobre o que nos escapa, pelo deslumbramento por aquilo que é belo e inacessível. Aquela aeronave, a que se chamava “Blimp” fascinava-a como prodígio mecânico que era, e principalmente, ela o achava lindo, todo feito de prata. (…) Não pensara nunca em entrar nele; não pensara sequer que pudesse andar alguém dentro dele. (…) Lá de cima um tripulante avistou aquele pano branco tremulando entre as árvores espalhadas e a areia, e o seu coração solitário comoveu-se. (…) Foi assim que se estabeleceu aquele rito matinal. (…) sentia-se tremendamente assustada e tímida ante aquela primeira aproximação com o seu aeronauta. (…) Tudo se ia passando como num sonho (…)

Ela foi responsável por querer acreditar em algo que era perfeitamente insuficiente. Não racionalizou, nem procurou fazê-lo. Criou uma fantasia, pôs os seus ícones a funcionar e deixou-se embalar. No fundo, as pessoas acreditam no que querem acreditar, porque não é saudável o exercício da incredulidade levado ao extremo, porque o lado mágico da vida ajuda a comportar a realidade. Contudo, quem constrói castelos no ar, mais depressa vê tudo a cair por terra... Não existia o seu marinheiro apaixonado – nunca fora ele mais do que um mito do seu coração. (...) Que vergonha, meu Deus! Dera adeus a tanta gente. (….) Nunca mais a viram no laranjal; embora insistissem em atirar presentes, viam que eles ficavam no chão, esquecidos – ou às vezes eram apanhados pelos moleques do sítio.

Os aviadores foram bastante inábeis, ao não percepcionar as consequências funestas de um gesto que era lúdico, quase infantil, sem intencionalidade. Mas os actos aparentemente generosos podem ser muito cruéis. E aquele gesto reiterado, transformado em ritual diário, teve repercussões devastadoras na cabeça de uma jovem ingénua. A ele(s), dir-se-ia: “Os nossos gestos não podem ser inconsequentes.” A ela, haveria que fazer notar que: “Nem tudo o que parece, é. Geralmente, não é.” Uma história pueril que nos deixa a pensar.

azuki
 
 
Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.”

Oh travesseiro amigo! Meu eterno companheiro das horas de sofrimento e de angústia, a quem me agarro quando o resto parece desaparecer ou afastar… Na minha solidão, a tua brandura e delicadeza acalmam-me. Abafas-me a voz quando ela impõe um grito, secas-me as lágrimas quando elas teimam em cair e afagas-me num doce regaço, embalando-me para a inocência de um sono…


Dora
 
  Dorothy Lamour


In addition to being Miss New Orleans in 1931, Dorothy Lamour worked as a Chicago elevator operator, band vocalist (for her first husband, bandleader Herbie Kaye) and radio performer. In 1936 she donned her soon-to-be-famous sarong for her debut at Paramount, The JunglePrincess (1936), and continued to play a female Tarzan-Crusoe Gauguin-girl-with make-up through the war years and beyond. The most famous of these was in the Bob Hope/Bing Crosby"Road to ..." movies - a strange combination of adventure, slapstick, ad-libs and Hollywood inside jokes that became very popular. Of these she said, "I was the happiest and highest-paid straight woman in the business." As she aged, however, the quality of her films dropped. After making three films in 1949, her career began to trail off as she would only make ten films between 1951 and 1987. That last one was CREEPSHOW 2 where she played a housewife who gets murdered, a long way from the sarong and movies such as JOHNNY APOLLO and A MEDAL FOR BENNY. Dorothy was 81 when she died of an undisclosed ailment on September 22, 1996 in Los Angeles, California.
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Fonte: Internet Moovie Data Base

Joana
 
  O amor ama o amor
"...o amor nao tem fim, ou se o tem é em si mesmo, porque o amor ama o amor."

Afonso Lopes Vieira, O Romance de Amadis

Joana
 
  Hoje, estamos a ler Tangerine-girl, de Rachel de Queiroz

Bom dia!!
 
 
Primeiro as ilusões; depois a fantasia quebrada no chão. (os sonhos são outras formas de voar.) Sabem o que era bonito? Ela continuar a apanhar as lembranças, mesmo sabendo que não eram mais do que fantasias que ela resgatava do chão.
nastenka-d
 
  A menina do laranjal

O inicio do "Tangerine-Girl" faz-me lembrar uns versos da Nau Catrineta .
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Também vejo três meninas,
debaixo de um laranjal.
Uma sentada a coser,
outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas,
está no meio a chorar

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Sei que o mais provavel e nao existir ligacao nenhuma entre estas duas historias excepto a imagem de um marinheiro e uma inalcancavel menina num laranjal, uma imagem que possivelmente e bem mais antiga que a propria Nau Catrineta.
Acho que foi Jorge Luis Borges quem um dia sugeriu que o numero de metaforas em poesia e finito, e que as mesmas metaforas se vao manifestando ao longo dos seculos em diferentes poemas. Talvez o mesmo seja tambem verdade para as imagens e esta nao seja a ultima aparicao da Tangerine-Girl.
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Joana
 
 
Amor ingénuo. Pode ser tanta a vontade de ser amado, ou tão só a vontade de amar (como era mais o caso do narrador do conto de Garcia Marquez), que nada mais se vê, mesmo que seja óbvio. Este pode ser o "brincadeira" de Tchekhov revisitado:

O que conta é o encantamento - pelo menos enquanto dura.

leitora
 
segunda-feira, setembro 26, 2005
  A propósito de gatos e meninos...
Aqui, onde hoje houve gato e menino, já se disse quase tudo sobre o primeiro. Sobre o segundo, porém, houve menos comentários ao contributo de Otto Lara Resende para uma literatura negra da infância, ou, se se quiser, para o lado negro da sua inocência.
Também me afastarei desse tema incómodo e direi apenas algo do tareco. Que ele é, seja macho ou fêmea, tanto faz, o animal mais feminino que conheço. Que, embora não vindo a propósito, foi em tempos excomungado por um Papa qualquer, e que, por essa razão, foi alvo de grandes perseguições, dada a sua conhecida relação com o demónio e dadas também outras pouca-vergonhas que também muito bem o caracterizam. Por razões porém de mais medo à peste que ao gato, e certamente de menos respeito à ignorância que a alguma sabedoria dos seus habitantes, acabou o bichano elevado a salvador da cidade de Veneza. Parece que esta cidade não acatou a decisão papal e resultou daí, para fim da historieta, que veio a dedicar ao gato, com todas as pompas, um histórico memorial de agradecimento à capacidade que este demonstrou para exterminar bichos mais danosos. É caso para dizer que o bicho fez ali o seu trabalho.
Regressando aos meus próprios encómios, direi do animal que é cantor e fugidio, mulherengo, às vezes ladrão, dado a bebedeiras, a serenatas românticas, a rixas e a outros desmandos nocturnos - lá razões de peso tinha afinal o Papa! -, mas também dengoso e caseiro, pois o gato é da casa como o cão é do dono, diz-se ! E diz-se e eu comprovo que é também do mais materno-extremoso que bicho pode ser quando fêmea.
Parecido com os meninos no que respeita a gostar de pássaros. Melhor que um suporífero quando os nossos olhos estão cansados e eles, os gatos - os outros também, claro! - vêm pedir colo de rabo alçado e com a falsidade conhecida. Correcção para falsidade conhecida no que respeita aos outros, mas não para rabo alçado, que é aplicável.
Tenho dois, um de cada género ou será mais adequado dizer que eles me têm? Continuo a falar de gatos, embora dos outros também tenha dois e a questão se mantenha. Quanto aos tarecos, é no Inverno que o nosso convívio se estreita e os meus objetos e o meu espaço privado são por eles mais apetecidos. Inúmeras, mas goradas, as tentativas que fazem para partilhar o meu prato ou a minha cama. Frequente, e consentido, o uso que fazem do meu computador, umas vezes como aquecedor, outras como máquina escrevente de fffffffffvvvgggs e gggvvvfffffffff - ou de outras frases igualmente invulgares - que me dão imenso trabalho a decifrar. No que respeita ao computador e às frases dos meninos, a coisa é mais acompanhada por falas, coisa menos comum, mas não rara, em relação aos precedentes. Ah! E não devo esquecer isto, que é muito importante. Aqui, na casa, são eles, os gatos, que mandam nos cães. Em outras hierarquias, são os meninos que mandam nos gatos e nos cães. E os gatos, apesar do rude tratamento que é dado às suas caudas e orelhas, raramente se queixam. Nisso não ficam atrás dos outros. Pelo menos quando eu estou a ver.
ams
 
  "O gato sem o que nele é gato"
Este conto é magnífico e terrível. Feito com palavras cheias de sentido que constroem frases belíssimas. Surpreendem pela revelação.

"O gato que parou indeciso, o rabo na pachorra de uma quase interrogação."

"O menino pactuando com a mudez de tudo em torno - árvores, bicho, coisas. Captando o inarticulado segredo das coisas. Inventando um ser sozinho, na tontura de imaginações espontâneas como um gás que se desprende."

"No se olharem, o menino suspendeu a respiração."

"O translúcido manto de calma sobre o claustro dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva."

"Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal."

"O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. Por existirem e, não sendo um, se esquivarem. Quatro olhos luminosos - e todas as coisas opacas por testemunha."

" Impossível qualquer intercâmbio: gato e menino não cabem num só quintal."

"De cima do muro, o menino devassa o quintal vizinho. A obsedante presença de um gato ausente."


"Gato, gato, gato: lento bicho sonolento, a decifrar ou a acordar?
A matar."

"O gato fora do gato, somente o corpo do gato. A imobilidade sem a viva presença imóvel do sono. O gato sem o que nele é gato. A morte, que é ausência de gato no gato."


Troti
 
  Comportamento felino
Ao contrário dos cães, e exceptuando o facto de serem exímios caçadores de ratos, os gatos não têm utilidade prática para o homem. Nada lhes é exigido. Contudo, é adorável partilhar um espaço com um gato. Não só é adorável, como é calmante, quase libertador.

Gatos: a voluptuosidade do seu sono, a satisfação do seu ronronar, a sua graciosidade e elegância.

1. A maior demonstração de amizade e confiança que um gato nos pode dar: receber-nos, preguiçoso e sonolento (os gatos dormem 16 horas por dia; que bom ser gato…), deitado de costas, espreguiçando os membros ao limite, estimulando as unhas, bocejando, oferecendo-nos a sua barriga. 2. A amigável troca de cheiros que estabelece connosco, ao roçar em nós cabeça e corpo, marcando-nos com o imperceptível odor das suas glândulas e, depois, provando-nos com a língua, ao lamber o pêlo. 3. O sapatear do gato no nosso colo, reminiscência do comportamento infantil, quando massajava o ventre da mãe com as patinhas, para estimular o leite. 4. Um gato a lavar-se, lambendo uma pata para depois a esfregar na cabeça. 5. Nada mais delicioso do que um gatinho a brincar, avançando para nós aos trotes de cavalinho, pêlo eriçado, tronco arqueado. 6. Perante a visão de um pássaro: o cauteloso rastejar, o movimento desenfreado da cauda e o frenético bater dos dentes, como se já o tivesse capturado! 7. A gata a rolar pelo chão, multiplicando-se em sons, contorcendo-se à espera que o macho a tome por trás. 8. A língua sobre os beiços, semelhante ao nosso coçar de cabeça, quando começa a ficar intrigado.

Os gatos são animais verdadeiramente extraordinários.

azuki
 
 
Neste odioso mundo, cujos gestos como este são indecifráveis, por que vemos tudo à nossa volta como inimigo? Precisaremos de muros intransponíveis para termos uma sociedade salvaguardada de todas as inimizades, de todos os intercâmbios impossíveis?

Dora
 
  Amantes de gatos
(posso massacrar-vos com a minha paixão por gatos?!)

É um animal intrigante, o indomável, o imprevisível gato. Capaz de uma estreita relação connosco, enquanto dengoso gatinho dentro de casa, bem como de uma total independência, enquanto gato adulto fora dela. Por muito que os observemos, não os conseguiremos entender, o que não deixa de ser cativante…

O vínculo que existe com o gato é totalmente diferente daquele que existe com o cão. A partir do momento em que lhe abrem a porta (os gatos odeiam portas), o gato já não olha para trás (ao contrário do cão). Os cães vivem em sociedade, sendo que a sociedade canina é estratificada, pelo que as noções de camaradagem e de disciplina não lhes são estranhas. Contrariamente, os gatos não agem em grupo (aliás, são tão capazes de viver em grupo, quanto de tolerar a solidão; caso se tratasse de humanos, esta sua flexibilidade levaria a classificá-los como oportunistas: aproveitam-se da vida social, sendo que a podem abandonar a qualquer momento).

Diz-se que os artistas gostam de gatos e os militares de cães. Terão os indivíduos menos gregários mais tendência para os gatos? A verdade é que há muitos solitários com o seu cão. E há muitas pessoas que gostam igualmente de cães e gatos. Acredito mais na tendência de géneros: os amadores de gatos são, geralmente, mulheres (mais uma vez: terá a ver com o facto de a mentalidade de grupo ser marcadamente masculina?; será porque o cão é um animal mais activo?; será porque o gato se adequa mais ao sossego de uma casa?...). Mas há também quem odeie gatos (o que é muito difícil de acontecer no caso dos cães), ainda não percebi bem porquê. O que é facto é que, em nós, há traços/momentos que nos tornam tão susceptíveis de adorar a auto-suficiência e o individualismo dos gatos, quanto a lealdade e a obediência caninas.

azuki
 
  Hoje, estamos a ler Gato gato gato, de Otto Lara Resende
 
 
Primeiro pensei que fosse um conto para os amantes de gatos - que os há por aqui, não tão poucos, nem tão escondidos como isso. Mas depois percebi que ia muito mais para além disso: “Gato gato gato” é sobre a (im)possibilidade de nomear o que nos rodeia de forma a que o nome contenha o nomeado. (Quem já não se deteve a reflectir sobre a essência – e sobre a arbitrariedade – dos nomes que damos às coisas?) Impossibilitados de nomear, de conhecer – de conter, que é isso que o nome faz – tudo em nosso redor se torna estranho, icognoscível; a destruição passa a ser não fruto do ódio, mas da necessidade de voltar a controlar o mundo. Não muito diferente portanto da impossibilidade de, em simultãneo, ter consciência da existência do eu e do Outro;e n’”A Convidada” de Beauvoir também essa simultaneadade resultou em assassínio...
nastenka-d
 
  Soneto do Gato Morto
UM GATO VIVO é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de electricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto


Vinicius de Moraes

azuki
 
  Amar os animais
Deste conto gosto do título, gosto das duas primeiras páginas. Ode ao gato, esse ser misterioso, solene, elegante. Gosto de gatos.

Apesar de gostar de contos com reviravoltas, com surpresas no final... não suporto maldades. Miúdo, acredito na justiça, ainda hás-de pagá-las, e com juros. Hás-de ser uma pessoa infeliz, tanta maldade tens nos pensamentos e nas mãos.

leitora
 
domingo, setembro 25, 2005
  Hoje, estamos a ler A Galinha, de Clarice Lispector
 
 
O que dizer de Lispector que não tenha sido dito há um ano atrás? apenas isto: nunca amamos nem possuimos senão quando integramos o outro – transformando-o e transformando-nos anós mesmo no processo.
nastenka-d
 
  O que faz da galinha um ser?
A distância da faca e do tacho com água a ferver.

leitora
 
  Cidade de Deus

A historia desta Galinha lembrou-me a magnifica abertura do "Cidade de Deus", mas a galinha da favela teve melhor sorte e escapou ao triste fim de acabar os seus dias numa panela.

Joana
 
  Zé Luís ama Clarice
Amo-a. Poderia tentar palavras, substantivos, adjectivos, que tornassem mais compreensível aquilo que sinto por ela, mas não acredito que conseguisse encontrar nenhuma palavra mais próxima desta leve nebulosa que me cobre os gestos, o olhar e todas as palavras que consigo dizer para falar dela, ou para me lembrar dela, ou para fazê-la existir um pouco mais ao meu lado. É um amor claro e bom. Pensar nela é sentir um dia que nasce dentro de mim e que me anima de toda a claridade possível. Pensar nela é um sorriso. A palavra “inalcançável” não me magoa. Basta-me saber que existe. Sinto uma felicidade imensa por saber que, em mim, existe uma invenção bonita da pessoa concreta que existia e que se chamava Clarice. É claro e bom e verdadeiro o amor que sinto por Clarice Lispector.

Adoro a suavidade, a simplicidade, a doçura de José Luís Peixoto.


É assim que olho Clarice nos olhos e lhe digo, e digo a mim próprio, que uma parte de mim nasceu na Ucrânia em 1920. E seguro nos seus livros como se segurasse a sua mão. O toque elegante dos seus dedos.

O texto é lindíssimo, vale mesmo a pena saboreá-lo por inteiro. Esta é (mais) uma das razões que justifica fazer parte do conjunto de resistentes que, a cada duas semanas, sai da tabacaria com o JL na mão...

Amo-a. Talvez por isso, em certos dias, quando consigo ficar sozinho, sentado num banco de jardim, passeamos juntos. Temos muito para dizer um ao outro, mas escolhemos caminhar em silêncio. E paramos. Fechamos os olhos e ficamos, lado a lado, apenas sentindo a presença um do outro, apenas escutando a respiração do outro em todos os sons da natureza e da cidade. É quase sempre fim de tarde. E, mais do que uma vez, desejei ver em muros, entre as palavras com que os alunos dos liceus escrevem a caligrafia da sua inocência, os nossos nomes juntos: “Zé Luís ama Clarice”. Como uma promessa de eternidade para aquilo que todos sabem perdido, excepto nós. Como uma imagem concreta daquilo que todos sabem impossível, excepto nós. Como uma prova em que ninguém acredita, excepto nós.

(José Luís Peixoto, Jornal de Letras, 17-30 Ago/05)

O que dizer sobre Clarice, depois disto? Como a própria diria, simplesmente não há palavras. As tuas, Zé Luís, tocaram-me muito.

azuki
 
sábado, setembro 24, 2005
  Fe e Esperanca

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As duas primeiras virtudes teologais sao a fe e a esperanca, as mesmas virtudes que impelem o miseravel grupo de camponeses atravez do deserto. Serao a fe e a esperanca virtudes quando alienam os homens e os conduzem a resignacao? Enquanto esperam e sonham com a terra prometida, os deserdados nao se revoltam e nao exigem a terra fertil a que tem direito e os poderes instituidos nao sao ameacados.
A estes homens e mulheres tao cheios de fe e esperanca nunca foi concedida a graca de uma virtude menor, a da justica.
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Joana
 
  Hoje, estamos a ler Deram-nos terra, de Juan Rulfo


Quando aquilo que nos dão são migalhas, quando aquilo que nos dão é pouco mais do que nada. Quando nos dão o que nos dão e nós ficamos parados, estupefactos, tentando retirar algum sentido daquilo que não tem sentido. Àqueles homens, não lhes foi dada terra: eles tiveram direito a secura e a espaço inútil. Eles, que tinham sonhos e vontade e estavam preparados para moer o corpo e partir a coluna a arar um pouco de terra, a sua terra, tiveram um punhado de não-terra.

Este conto é brutal. A forma mansa como aqueles homens reagem à humilhação, porque estão habituados a nada ter e a nada receber... quão dramático é ver-se um homem levado a escolher entre o nada e o quase nada! A verdade é que, à força de ser retratada nos outros como um ninguém, dificilmente uma pessoa conseguirá sentir-se alguém.

Houve muitos desistentes pelo caminho. Mas alguns deles, porque o desejo era tão grande e tinha sido acalentado durante a vida inteira, (ainda) não estavam dispostos a sucumbir. Afinal, nunca estiveram tão perto… aquelas migalhas podiam ser o começo de algo. Sim, podia ser. Um ponto de partida. O quase nada significa muito para quem não tem nada. Só quem está faminto de terra consegue perceber o sabor do pó. Basta um grão no vazio para que ele deixe de o ser. Talvez seja um começo, esse grão. Talvez o espírito de sacrifício e a perseverança dêem frutos. Ou talvez não…

O acto de dar tão pouco é um acto de indignidade. E o homem a quem é roubada a dignidade tem menos capacidade de luta. Ao mesmo tempo, deparamos com o que a condição humana encerra de grandioso, por estar disposta a transformar o quase nada em algo. É o princípio da conquista. Gradualmente, com empenho, o homem vai tentando desbravar o pouco que existe.

Na natureza humana, há sempre um lampejo de esperança. O não agarrar o quase nada pode significar uma espécie de morte interior. Aqueles homens vão arriscar, para vir, porventura, a descobrir que tudo foi em vão. Eles saberão quando parar, no momento em que a esperança se for.

azuki
 
  Llano en llamas
Pode-se amar a terra que se pisa, mesmo que seja inóspita. Porque é nossa, porque faz parte do nosso cenário interior, dos nossos olhos, da nossa pele. Porque não seríamos os mesmos sem ela. E o Llano faz parte destas almas. Reinterpreta o conceito de "terra prometida", com amargura, com um realismo atroz. Caracteriza, melhor do que todas as conversas, a esperança desacreditada na prosperidade. Temos terra, só falta a chuva; quem sabe se torne fértil.

Mas o vento não traz promessa de água, antes ecos distantes dos cães, anúncio de vida e de fertilidade alheia. Um dia, quem sabe...

leitora
 
  Rulfo Fotografo

"Como si Rulfo se asomase fuera de las tumbas de Comala para descubrir la luminosidad de las sombras".
Carlos Fuentes

Rulfo Fotografo

Joana
 
sexta-feira, setembro 23, 2005
  O real impregnado de magia


Uuups, não li o conto... mas juro que, neste mês, foi a primeira vez que prevariquei!

Já lá vão muitos anos desde o meu último contacto com Gabriel Garcia Marquez (Amor em Tempos de Cólera (o favorito), Cem Anos de Solidão, O Outono do Patriarca, O General no seu Labirinto), representante maior do (não pacificamente) denominado "realismo mágico".

A literatura latino-americana é muito dura, muito sofrida, mas, ao mesmo tempo, muito bela. Há um colorido e uma leveza especiais na forma como estes escritores falam da crueza da realidade: a América Latina que nos aturde os sentidos com os seus sons, imagens, sabores e cheiros; a antiguidade, as tradições, as crenças, os sonhos e os rituais, entrelaçados com a vida moderna; o racional e o irracional, o sofisticado e o primitivo, o ocidental e o nativo, o urbano e o rural. Há um jogo interessante de fronteiras em que, claramente, certas evidências naquela parte do mundo, aos nossos olhos só podem pertencer ao domínio do fantástico. O real impregnado de magia, the way my grandmother used to tell stories (GGM).

No Porto, já se sente o fim do verão. Há ruas a cheirar a castanha assada, os ombros pedem um casaco, vento frio pela noite. As meias permanecem guardadas, a roupa de algodão mantém-se a uso, ainda se nada ao ar livre, mas está a acabar. Mal habituado, o corpo rejeita a descida da temperatura, ainda que o frio não seja o mais difícil de suportar. Vêm aí a chuva e o trânsito, brrrrrrrrr…. Para este Outono, eu quereria …. o real impregnado de magia. Um sol amarelo num céu cinzento.

azuki
 
 
Naquela noite, velando o sono da bela, não apenas entendi aquele refinamento senil como o vivi na plenitude.





Quem será este narrador que vive tão intensamente uma experiência ‘virtual’? Como está a sua saúde mental? Excessivamente lúcido ou ligeiramente demente? Atingiu o auge do seu próprio conhecimento ou limitou-se a seguir lugares-comuns da sociedade.
E a bela? Teria percebido, apesar do narrador mostrar a sua grande indiferença a tudo? Será que todas as belas do mundo não passam um scanner nos terrenos que pisam e, através de raios ultravioletas ou infravermelhos ou outros, sei lá… não vislumbram potenciais presas?
Só sei que o narrador confere atributos, digamos, felinos à bela. E todos sabemos que os felinos não dormem em serviço, verdade verdadinha.
...
laerce
 
  Hoje, estamos a ler O avião da Bela Adormecida, de Gabriel Garcia Marquez

Bom dia!!
 
 
perguntei se ela acreditava nos amores à primeira vista. "Claro que sim", respondeu. "Os impossíveis são os outros"

Gabriel Garcia Marquez
O avião da bela adormecida

leitora
 
 
No livro de Kawabata, “A Casa das Belas Adormecidas”, também as jovens não têm qualquer consciência das presenças nocturnas ao seu lado. O prazer da contemplação não é um prazer partilhado, nem tão pouco uma dádiva de quem é olhado. Quem contempla mergulha no mais fundo de si mesmo, e é assim responsável pela sua felicidade – ou pela angústia que tal meditação causa.
nastenka-d
 
quinta-feira, setembro 22, 2005
  HEXAGONOS
SIX
the number of perfect equilibrium
divine order through harmony and beauty
represented by the six pointed star associated with the Sun
.

Nao consigo deixar de pensar nas salas hexagonais.
Qualquer pessoa que como eu trabalhe numa area relacionada com dinamica de fluidos reconhece imediatamente a mencao "triangulo-quadrado-hexagono": a estes poligonos correspondem as tres unicas formas possiveis de preencher totalmente um plano infinito e uniforme.
Mas porque salas hexagonais? Porque nao salas triangulares ou quadradas? Se responder como matematica, tenho que escolher a resposta mais simples e dizer que em vez de quatro ou cinco salas comunicantes temos sete, maximizando assim o numero de possiveis caminhos dentro da biblioteca.
Mas Borges e um leitor de Enciclopedias e sabe provavelmente que seis e um numero pitagorico perfeito e que Deus criou o mundo em seis dias...
Joana

. Numeros Perfeitos

 
  Missão do Bibliotecário, José Ortega y Gasset (ii)
1) Há demasiados livros. (...) a quantidade de livros que necessita ingerir é tão grande que transpassa os limites de seu tempo e de sua capacidade de assimilação. (…) Se cada geração continuar a acumular papel impresso na proporção das últimas, o problema que traça o excesso de livros será pavoroso. A cultura que havia libertado o homem da selva originária joga-o novamente em uma selva de livros não menos confusa e sufocante.

…bibliotecário … aliviando de esforços inúteis os homens cuja triste missão é e tem de ser ler muitos livros, os mais possíveis. (…) Há, pois, de criar uma técnica bibliográfica de um automatismo rigoroso. Nela conquistará sua última potência o que o seu ofício iniciou há séculos sob a figura de catalogação.

2) Mas não só há demasiados livros, como também, constantemente, se produz em abundância torrencial. Muitos deles são inúteis ou estúpidos (…)

É demasiado utópico imaginar que em um futuro nada distante será sua profissão encarregada pela sociedade de regular a produção do livro a fim de evitar que se publiquem os desnecessários, que, em troca, não faltem os que o sistema de problemas vivos em cada época reclama? (…) Não venha com a tolice de que tal organização seria atentatória à liberdade.

3) Por outro lado, terá o bibliotecário do futuro de dirigir o leitor não especializado pela selva rude dos livros (…) Hoje se lê demais: a comodidade de poder receber com pouco ou nenhum esforço inumeráveis idéias armazenadas nos livros e periódicos vão acostumando o homem, tem acostumado o homem médio a não pensar por sua conta e a não repensar o que lê (…) as pessoas médias estão cheias de idéias fracamente recebidas, entendidas pela metade, desvirtualizadas – cheias, pois, de pseudoidéias.

….imagino o futuro bibliotecário como um filtro que se interpõe entre a torrente de livros e o homem.

Em suma, a meu ver, a missão do bibliotecário haverá de ser não como até aqui, a simples administração da coisa livro, mas o ajuste, a mise au point da função vital que é o livro.


(“Missão do Bibliotecário”, de José Ortega y Gasset; traduzido por Gustavo Henn)

Quantos milhares de livros se publicam, por ano, em Portugal? Perguntei, recentemente, a um professor de literatura, qual o método para orientarmos as nossas escolhas. Ele deu-me uma resposta lógica, mas complexa: feeling, cara azuki, feeling… Quanto mais livros há, mais eu me agarro aos incontornáveis, àqueles que passaram pelo crivo do tempo e que permaneceram.

azuki
 
  Missão do Bibliotecário, José Ortega y Gasset (i)
Absolutamente indispensável, discreto e algo solitário, o ofício do bibliotecário tem variado em função do significado social dos livros. Diz Ortega y Gasset que A sociedade democrática é filha do livro, é o triunfo do livro escrito pelo homem sobre o livro revelado por Deus e sobre o livro das leis ditadas pela autocracia. As ideias são transmitidas através dos livros, que permitem acumular o passado. Quanto mais se acumule o passado, maior é o progresso. Porém, segundo o mesmo autor, fruto da sua desmesurada multiplicação, o livro começa a adquirir características negativas…

As ciências, ao engrossar fabulosamente e multiplicar-se e especializar-se, transbordam a capacidade de aquisição que o homem possui e o angustiam e oprimem como pragas da natureza. (…) O homem se perde em sua própria riqueza: sua própria cultura, vegetando em sua volta, acabou por sufocá-lo. (…) O homem não pode ser demasiadamente rico: se um excesso de aptidões, de possibilidades se oferece à sua escolha, naufraga nelas, e a força dos possíveis perde o sentido do necessário.

Pode dizer-se que uma necessidade humana deixa de ser puramente positiva e começa a carregar-se de negatividade no momento em que começa a parecer imprescindível. (…) O simples caráter de imprescindível faz que nos sintamos escravizados por ele. (…) …o pleno caráter negativo brota quando o instrumento criado como facilidade suscita espontaneamente uma dificuldade imprevista e pratica agressão contra o homem. Isso é o que hoje começa a acontecer com o livro.

(“Missão do Bibliotecário”, de José Ortega y Gasset; traduzido por Gustavo Henn)

A missão do bibliotecário irá transcender as técnicas complexas da colecção, ordenação e catalogação dos livros. Do livro como conflito, terá que surgir um novo bibliotecário.

azuki
 
 
Até a maior e melhor das bibliotecas é inútil se os seus livros não são lidos e, mais do que isso, apreendidos. Um livro só vive nos olhos de um leitor. Um livro só vive no futuro do seu leitor, nunca em nenhum dos seus passados possíveis.

leitora
 
 
«Tu que me lês, tens a certeza de que compreendes a minha linguagem?»
Já tinha vagueado por Borges, como se percorre a sua ”ilimitada e periódica” biblioteca, onde existe o livro que contém todos os outros. Sempre o desejei, a este livro; vejo-me por isso constrangida a inspeccionar lentamente os hexágonos que me calharam em sorte. Em alguns, por coincidência, encontram-se volumes que são também vossos.
nastenka-d
 
  A biblioteca e ilimitada e periodica

La biblioteca es ilimitada y periódica. Si un eterno viajero la atravesara en cualquier dirección, comprobaría al cabo de los siglos que los mismos volúmenes se repiten en el mismo desorden (que, repetido, sería un orden: el Orden).

A ideia da biblioteca ser ilimitada e periodica e para mim aterradora. Uma permuta infinita, em que tudo o que fazemos, pensamos e somos e repetido por toda a eternidade ate perder o sentido e nao passar de um jogo de acasos.
A biblioteca cria um mundo em que nao ha livre arbitrio,porque independentemente das escolhas que facamos todas as hipoteses rejeitadas vao-se concretizar mais cedo ou mais tarde, algures na infinidade da biblioteca.

Joana
 
  Meta-texto
A propria biblioteca e os leitores que a percorrem estao escritos algures nos livros. Quando um leitor percorre um caminho, limita-se a ser uma personagem numa historia. Talvez um dia leia a sua propria historia, ou historia de um leitor que le a sua propria historia, ou a historia de um leitor que le a historia de um leitor que le a sua propria historia...
Joana
 
  Hoje, estamos a ler A Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges
Disse Italo Calvino que os contos de Borges são a invenção de um novo estilo literário. Borges, o contestador. Borges, o pensador rigoroso que desafia os limites da razão. Borges, o escritor dos labirintos, da memória, das citações e referências, das imposturas ficcionais, da lógica do absurdo, do infinito, das séries temáticas, da multiplicidade, dos espelhos, da busca da identidade… a taxinomia borgeana... códigos, autorias, ordenações, catalogações (ele, que foi bibliotecário e director da Biblioteca Pública Nacional da Argentina sabia bem do que falava…), hierarquizações, sistematizações (ele, sôfrego leitor de enciclopédias, que dizia ser a IX edição da Encyclopaedia Britannica a sua predilecta!!….estaria a falar a sério?!). Como nos situamos no mundo? Identificar, qualificar, arrumar.

O relativismo de Borges é absoluto. (...) Borges, visionário céptico, encanta-nos até quando aceitamos a sua advertência: a realidade cede demasiado facilmente. (Harold Bloom)

Ler Borges é sempre um exercício complexo. Ele brinca connosco, confunde-nos. Borges põe a nu a perplexidade humana e coloca em questão as nossas formas de organização. Trata-se de um escritor lúcido com uma lógica desconcertante, que desafia os nossos protocolos de leitura e de raciocínio. Como o verdadeiro intelectual, Borges é difícil, Borges é bestial.

Boa noite!!
azuki
 
quarta-feira, setembro 21, 2005
  Ahhhhh, quarta-feira é dia de..... ler A história de Natal de Auggie Wren, de Paul Auster!

Bom dia!!
 
 
Após muitos livros e alguns filmes, Brooklin é indissociável de Paul Auster. Ele ficou a magia dos prédios feios, das ruas escuras e provavelmente pouco limpas, das pequenas lojas de comércio, das pessoas de todos os dias, banais, mas necessariamente especiais: basta que se lhes preste atenção, basta olhar. Brooklin quase bucólico, uma aldeia de prédios altos.

Este conto é um episódio de um dos filmes que Auster escreveu, fiquei fascinada com a disciplina do trabalho artístico de Auggie e com este personagem aparentemente apagado, banal.

Parte do meu fascínio por Paul Auster é cimentado pelos seus argumentos para cinema. Este exemplo é soberbo. E, apesar de ter gostado de encontrar este conto, continuo a gostar muito mais das cenas do filme...

leitora
 
 
Lembro-me de tudo: de Harvey Keitel a montar o tripé da máquina todos os dias na mesma esquina, à espera das sete horas; da tabacaria cheia de cumplicidades; da história de Natal. Lembro-me também da parada de estrelas de “Blue in the face”, filme memória de um espaço à beira da destruição: por exemplo, Madonna vinha entregar um telegrama cantado… Lembrei-me de tudo e tive vontade de rever esses filmes, “Smoke” e “Blue in the face”; só não sabia que tinham nascido desta meia dúzia de páginas de uma história de Natal.
nastenka-d
 
terça-feira, setembro 20, 2005
  A lei, a lei, a lei!
Estou em crer que London, tal como Melville, devem a sua enorme popularidade como escritores de culto àquela grande plasticidade cerebral que ainda tínhamos, nós os seus pequenos leitores, quando lemos os seus textos pela primeira vez. No meu caso, e no que respeita a Jack London, essa plasticidade foi favorecida pela febre e pela luz avermelhada do meu quarto, onde os cuidados da minha avó tinham forrado a janela com papel de seda para (vá-se lá saber porquê) encontrar terapia para o meu sarampo. Que aventuras, novas personagens, novas intrigas misturei eu com as que o velho Jack me contava nessa minha atmosfera de sonhos carmesim? Nem é bom falar! Dizem alguns retóricos que a imaginação de quem lê cobre como matéria de expressão os vazios da forma. Porque os vazios são estruturais, digam lá o que disserem. Com efeito, que seria dos conteúdos, se não houvesse vazios a separar as palavras nesse código primeiro das palavras? Esse lego de sons e traços a que se junta o código segundo da expressão literária, com os seus vazios de conteúdos, para que haja conteúdo? Que seria da literatura sem o grau zero da escrita, onde o leitor se lê com aquilo que sabe e que obteve com a sua colecção de sonhos aprendidos?
Mas isto não vem ao caso, porque, estando é certo cada vez mais próximo do meu próprio molho de gravetos (no meu caso são palavras), compreendo que são os London que em tempos lemos os que melhor nos fazem hoje reler Darwin. Dizem-nos eles: "isso é a cultura estúpidos!", tão contraditória que tanto a mata como a reinventa, à vida (e ao amor?).
ams
 
  Do valor da vida (ii)
Nem sempre consigo olhar para a indiferença glacial dos astros.

azuki
 
  Do valor da vida (i)
Sou apaixonada pela Ásia. Como diz a Troti, minha eterna companheira de viagens, teremos a noção da diversidade humana quando formos à Ásia. A Ásia é… multidão. Pessoas, pessoas, pessoas, numa roda-viva alucinante; um enorme turbilhão, onde nos sentimos minúsculos. Nada, nada, no meio daquelas ruas atoladas de gente, e de veículos, e de animais, nos faz recordar de que valemos alguma coisa. Nada, naquela parte do mundo, vela por nós. Se formos tragados, ninguém se importa, ninguém nota. É quase aterrador. Quando chego a casa, não consigo evitar respirar de alívio e pensar que escapei, ilesa, mais uma vez… Efectivamente, a sensação de maior desconforto e, ao mesmo tempo, mais intensa que sempre trago da Ásia, é a consciência do valor zero da vida. É saudável que sejamos confrontados com a nossa pequenez, embora nunca estejamos preparados para saber que o mundo nos desdenha…

azuki
 
  Hoje, estamos a ler A Lei da Vida, de Jack London


Não é suposto chocarmo-nos. Não se trata de qualquer espécie de crueldade. Pelo contrário, era um sinal de respeito. Não honrar o ritual, que integrava aquele povo no mundo e lhe dava a sensação de o compreender, é que seria grave. É, também, uma forma de abrirmos a nossa mente para outros comportamentos, tão distantes dos nossos padrões éticos. São só as diferentes linguagens dos homens, e as suas formas díspares de interpretação da vida, que nem sempre se cruzam. Relativismo. Por vezes, não é fácil desconstruir certezas.

Bom dia!!
azuki
 
 
A frase que não vou esquecer:

"Por fim, a medida da sua vida era um punhado de gravetos."

Qual será a minha?

Troti
 
  "Porque se apegaria ele à vida?"
"Era fácil.Todo o homem tem de morrer.
Não se queixava. Era o modo de ser da vida e estava certo. Nascera pero da terra, perto da terra vivera e aquela lei não era para ele nunhuma novidade. A lei da carne. A natureza não é bondosa para com a carne. Não tinha a menor consideração por aquela coisa concreta chamada o indivíduo.
...

A natureza preparava o homem para um determinado fim. Cumprindo-o ou não, morreria do mesmo jeito.
...
Também ele era um episódio e logo se teria acabado. A natureza não se importava. Estabelecia uma tarefa para a vida e impunha-lhe uma lei. A tarefa era a perpetuação da espécie, a lei a morte.

...

Porque se apegaria ele à vida??"


Este conto é tremendo porque nos faz ver a realidade que preferimos, mil vezes, não conhecer. Achamos, racionalmente, que aceitamos a lei da vida mas a verdade é que, emocionalmente, não o conseguimos fazer.

Troti
 
  A lei da vida
"E, cansado, apoiou Koskoosh a cabeça nos joelhos. Que importava, no fim de contas? Não era esta a lei da vida? "

Rihian
 
 
Outro conto sobre a ”natureza episódica” de qualquer homem. Ao contrário do conto de Gao Xingjiang, não é do acaso que se trata, mas do ciclo natural. Comecei por me chocar com o abandono cruel de Koskoosh, mas depois reflecti: não é por não deixarmos os nossos avós no meio da neve que não os abandonamos. Não é por os choramos que não os abandonamos; não é por fazermos luto por eles. Afinal, não é esta a lei da vida?
nastenka-d
 
segunda-feira, setembro 19, 2005
 
E escrever é uma forma especial de mentir ou de dizer a verdade?
- Mentir é uma palavra que muitos escritores utilizam para se referirem à ficção. Parece-me uma palavra totalmente inadequada. Porque não se mente, inventa-se. E inventar, como gosto muitas vezes de recordar, vem etimologicamnete do latim invenire. Em latim, invenire quer dizer descobrir, encontrar, averiguar. Ou seja, em certo sentido, inventar é a mesma coisa que averiguar uma história. Para se mentir tem de haver qualquer coisa a respeito da qual se minta.

Uma verdade prévia?
- Uma verdade. E este é um terreno onde não há verdade anterior. A verdade é a verdade da invenção. Inventa-se.

Para que serve um romance?
- Provavelmente, não serve para explicar nada, não serve para explicar nenhum mistério, mas apenas para mostrar quanto de mistério há na vida. Mostrá-lo, nada mais.

Entrevista de Carlos Vaz Marques a Javier Marías
DNA- 2 de Setembro 2005


Troti
 
  Que fazer com a minha meia laranja?
Um romance, um conto? Ocorre-me uma analogia, um pouco bizarra: - uma laranja cortada ao meio, metade do autor e metade do leitor. A metade deste último multiplica-se, como uma célula que infinitamente se divide enquanto está viva, quero dizer: - enquanto é lida. Ou melhor: - enquanto também o leitor se divide em múltiplos leitores.
Com a meia laranja de Javier Marías que me cabe ocorre-me comparar a personagem feminina (não as personagens) a uma moeda com duas faces, outra analogia bizarra. E, se o autor opta por fazer aquele “eu” abrir a porta para manter ainda nítidas as duas faces, tenho eu a opção de atirar a moeda ao ar. Ele escolhe o mistério. Eu escolho o acaso. E talvez estejamos a escolher a mesma coisa.
E a hipótese Nastenka com a fórmula Borges? Eu diria que se o leitor decidir escrever e anular assim a dualidade, haverá então n caras para cada coroa, n coroas para cada cara. Borges perder-se-á na multidão e Cervantes também. Para Javier Marías acho que ainda é cedo...

ams
 
  Hoje, estamos a ler Na Viagem de Núpcias, de Javier Marías
 
 
«”Na Viagem de Núpcias” surgiu na revista Bálcon. esta narrativa coincide na sua situação principal e em muitos parágrafos com algumas páginas do meu romance “Coração Tão Branco”. A cena em questão prossegue no referido romance e aqui, em contrapartida, é interrompida, dando lugar a uma resolução diferente que é o que converte esse texto naquilo que é, um conto. É um exemplo de como as mesmas páginas podem não ser as mesmas, como ensinou Borges melhor do que ninguém no seu texto “Pierre Menard, autor de ‘El Quijote’”.»
(Javier Marías, Nota Prévia a “Quando fui Mortal”, colectânea de contos)
Fui fazer o trabalho de casa. “Coração Tão Branco” já o havia lido; lembro-me que a pessoa que dele me falou destacou em concreto a cena que o conto retrata (para além do início do livro, claro; mas os inícios de Marías são sempre magistrais e desconcertantes).
Trouxe Borges para a mesa, abri “O jardim dos caminhos que se bifurcam” no prólogo, tentando não me perder no labirinto que as “Obras Completas” armam, li:
«Em “Pierre Menard”, é irreal o destino que o protagonista se impõe a si próprio. A lista dos escritos que lhe atribuo não é muito diversificada, mas não é arbitrária; é um diagrama da sua história mental...»
Estranhamente, encontrei um marcador na página onde se inicia o texto. Começa por enumerar a “obra visível” de Pierre Menard, numa lista cujas alíneas vão de a) a s). Depois passa à lista “subterrânea, a interminavelmente heróica, a ímpar” que ”consta dos capítulos nono e trigésimo oitavo da primeira parte do Dom Quijote e de um fragmento do capítulo vinte e dois”. E daí parte para Novalis, e ainda para um tal ”livro parasitário que situa Cristo num boulevard, Hamlet na Cannebière ou Dom Quijjote em Wall Street”. Suficientemente confusos? Continuemos então.
«Não queria compor outro Quijote – o que é fácil – mas “o” Quijote.Não vale a pena acrescentar que nunca encarou a possibilidade de uma transcrição mecãnica do original; não se propunha ciopiá-lo. A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes.» Chega inclusivamente a cotejar o Dom Quijote de Menard com o de Cervantes: a coincidência da frase realça ainda mais as diferenças nas condições da sua produção. Trezentos anos de diferenças, de História, de pensamento, de literatura.
»Menard (porventura sem o querer) enriqueceu por meio de uma técnica nova a arte estagnada e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições erróneas. esta técnica de aplicação infinita insta-nos a percorrer a Odisseia como se fosse posterior à Eneida e o livro “Le Jardin du centaure” de Madame Henri Bachelier como se fosse de Madame Henri Bachelier. Esta técnica povoa de aventura os livros mais calmosos. Atribuir a Louis Ferdinand Céline ou a James Joyce “A Imitação de Cristo”, não é uma suficiente renovação desses ténues avisos espirituais?»
Acho que escolhi “Na Viagem de Núpcias” apenas para percorrer este caminho.
nastenka-d
 
 
Apetece ou não continuar a ler? Se pensarmos bem, o que lemos foi apenas a introdução, ficamos a saber como se proporcionou a verdadeira história, a que fica por contar. E agora? Imagino a história que gostava que fosse, a história mais verosímil, ou a história que me parece mais própria para Marías?

Alguém tem o endereço de e-mail de Javier Marías, para que o possa contactar e pedir-lhe a história que foi amputada do seu texto?

leitora
 
domingo, setembro 18, 2005
 
(Eu não digo há por aqui um amante de gatos?)
O mais pertubador – a presença constante do felino, a sua interpretação quase metafísica. mas tudo é mais angustiante antes do desfecho – é que nessa altura todas as hipóteses estão em aberto, todas as fantasias são ainda possíveis, e projectamo-las na órbita vazia do gato preto.
nastenka-d
 
  O Gato
Decididamente não era um gato qualquer...embora o fim já fosse previsível.

Rihian
 
  Artes de sedução
Não vou falar do gato, nem o de Poe nem outro qualquer. Não vou divagar em torno de felinos - os verdadeiros artistas da sedução. Bom, talvez não tivesse planeado falar de gatos...

A arte de sedução literária é algo que aprecio em particular, e se for arte felina, tanto melhor. Volto, então, ao assunto dos títulos e das primeiras frases:

«Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar.»

Será que não espera, ou que com esta abordagem garante maior tolerância por parte de leitores eventualmente impacientes com inverosimilhanças?

«No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar.»

Bom, talvez sejam verosimilhanças, afinal. Uma história espantosa... e se leste até aqui, vais continuar, já mordeste o isco.

Sedução literária. Gato. Sedução felina. Gato.

leitora
 
sábado, setembro 17, 2005
  Hoje, estamos a ler O Acidente, de Gao Xingjian


A arbitrariedade... O que nos escapa, que não se domina, não pode deixar de atemorizar. Mas essa incerteza será, também, um indutor de preservação, levando-nos a encarar a vida como um bem precioso. Aquilo que é perdível, é apetecível... E, sobretudo, que tenhamos a sorte de não ter um grande azar!

Os mirones de acidentes e os seus diversos tipos de olhares… Uns, carecem das emoções de outrem para se emocionarem. Outros, estão desejosos de entrar numa discussão: toma-se partidos, gera-se a desordem, surgem versões multifacetadas. Há aqueles que se comprazem a olhar o drama: pessoas que são atraídas pelo drama e que se alimentam do drama. Também existe quem nem lhe pareça verdade ter ocasião de soltar uns impropérios!! Contra a polícia, contra os automobilistas, contra o governo, contra o clima, contra a mulher e os filhos e a sogra e o patrão..! Existem os opiniosos e os especialistas que querem impor as suas regras e nem a polícia os demove de construir a sua ficção (com a vantagem de ficarem com assunto de conversa para o resto da semana)! Há, também, pessoas dispostas a ajudar, a quererem ser úteis de alguma forma e que não estão a olhar com distanciamento; são os prestáveis, os bem-intencionados que, na maior parte das vezes, só ajudam a aumentar a confusão. Contudo, observar um acidente, é uma manifestação da curiosidade humana e do facto de vivermos em sociedade: não nos podemos abster de observar aquilo que é insólito; é difícil desviar o olhar de algo dramático que esteja a acontecer ao nosso lado.

As falhas da comunicação... Há um jogo que as consegue ilustrar bem: uma roda de pessoas, onde é sussurrada uma mensagem que se vai transmitindo e que, no fim, vem alterada. Porque cada elemento lhe imprimiu um certo cunho pessoal, propositado ou não, o que comprova que haverá sempre subjectividade, intencionalidade e/ou ruído na forma como os factos são narrados.

A lua está linda, linda, linda.

Boa noite!!
azuki
 
  O factor 'mirones'
Julgava que só havia 'mirones' em Portugal. Acidente, desgraça, grito ou mera suspeita, e junta-se um grupo casual a olhar, a julgar e a inventar a história. Decidem-se origens, graus de parentesco, situação familiar, emocional e socio-económica. E, essencialmente, não se faz nada, imobiliza-se e mira. Eventualmente deixa-se morrer, também.

O que mais gostei neste conto foi a caracterização do grupo anónimo de 'mirones', na sua criatividade e prontidão em inventar a história que não lhes é acessível. Afinal, não é característica portuguesa. Ou será por isso que outros mantêm olhos em bico?

leitora
 
  Os acidentes
Quando há um acidente há sempre muita confusão, muita curiosidade e inúmeros acidentes ocorrem. Não apenas aquele que deu origem a um registo na polícia e no hospital mas principalmente a diversos registos orais (quando não são passados para a imprensa, já é uma sorte).

Há alguns anos o meu tio teve um acidente, encontrava-me eu de férias e por isso uma alma caridosa sabendo disso veio contar-me que tinha sido levado para o hospital.
Era já noite, mas mesmo assim peguei no carro para ir para o hospital, a minha avó não me deixou ir sozinha porque eu estava muito nervosa.
No dia seguinte, na padaria (como eu gosto de uma padaria de aldeia) já havia vários relatos:
- eu tinha ido de propósito " de Lisboa" para ver o meu tio;
- eu estava no local do acidente;
e a mais fantástica:
- eu tinha ido com o meu marido (solteirinha da Silva) ao hospital

A minha avó que é um bocadito irónica acrescentou: e o marido é bonito não é?
Alguem teve o desplante de dizer que sim...
"Quem diria que com 80 anos eu ainda dava um bonito marido para a minha neta..."

Leitora..penso que o fenómeno é mesmo universal.


Rihian
Adorei a forma como as várias versões do mesmo acidente surgiram, ao ler o texto temos a ideia de que se está a passar mesmo aquilo à nossa frente, a cadência das palavras leva-nos a isso.
Mas tudo é muito rápido, no dia seguinte já não existe, há-de haver sempre alguma outra história(s) que passe a ser a novidade do dia.
 
 
Não é filosofia, é um acidente apenas, como milhares de outros que acontecem todos os dias. É apenas um acidente; horas depois nada resta. (O Tempo, sempre o Tempo a engolir tudo.) É quase assustador percebermos a diminuta importância que temos no mundo – qualquer acaso nos derruba. Umas exéquias podem então durar três dias ou não existirem sequer; mas assim que terminam pertencem já ao passado. Rei morto, rei posto.
nastenka-d
 
sexta-feira, setembro 16, 2005
 
"Naquele tempo, quando toda transformação lhe era possível, a vida ardera dentro dele como nunca!"



"Few people perceive their destiny. Few people live their lives. Learn to live your lives! Learn to perceive your destiny. You must learn to be yourselves...."
Hermann Hesse


Troti
 
 
"Ele se transformara. E porque dessa vez alcançara a transformação certa e eterna, porque, de um meio, ele se tornara um todo, daquela hora em diante podia continuar se transformando, quanto quisesse.

A encantadora torrente de transformação corria contínua pelo seu sangue, ele eternamente tomava parte na criação de todas as horas. Foi rena, foi peixe, foi gente e serpente, nuvem e pássaro. Em cada forma, porém, era um todo, era um par, tinha lua e sol, tinha macho e fêmea em si, corria pelas terras como rios gêmeos, brilhava como dupla estrela do céu!"


Este conto é feito de encanto, de sonho e de magia. E é um extrordinário hino ao amor, à identificação, à união e à vida.

Troti
 
 
"Viu que em volta dele, no paraíso, a maioria dos seres se transformava com muita frequência, que tudo flutuava numa torrente encantada de eternas transformações
...
Ele próprio, porém, a árvore Piktor, continuava sempre a mesma: ele não podia mais se transformar. Assim que reconheceu isto, sua felicidade se desvaneceu
...
Também nos cavalos, nos pássaros, nos homens e todos os seres pode-se ver isso diariamente: quando não possuem o dom da transformação, com o tempo caem na tristeza e se atrofiam..."


Troti
 
 
Hermann Hesse (1877-1962), German poet and novelist,... has depicted in his works the duality of spirit and nature, body versus mind and the individual's spiritual search outside the restrictions of the society.

http://www.kirjasto.sci.fi/hhesse.htm

Troti
 
 

Piktors Verwandlungen" Wandteppich 150x240 cm Hesse-Museum Montagnola/Tessin
Bildweberei - Paramente - Annette Boysen


Troti
 
 


Hermann Hesse: Piktors Verwandlungen, 1922






Hermann Hesse dedicou-se também à pintura, principalmente à aguarela e deixou inúmeras obras ilustradas. É o caso de "Piktors Verwandlung".

Troti
 
  Hoje, estamos a ler As Mutações de Piktor, de Hermann Hesse


Bom dia!!
 
 
A primeira impressão que tive, ainda no início do conto, foi a de estar a ler uma história “new age”; mantive-me atenta procurando o fio que me levasse a reconhecer Hermann Hesse. Encontrei-o apenas no final, na reflexão sobre a condição natural do (ím)par. Quem diria que a busca do paraíso continha uma história de amor?
nastenka-d
 
 
a felicidade, amigo, está em toda parte, na montanha e no vale, na flor e no cristal.

Quando era muito pequena gostava que me lessem contos. Acreditava na magia, nas mutações. Sabia que o mundo se ia aguentando com a ajuda das fadas e dos duendes. Dava muita atenção ao moral da história; fui treinada com pequenos contos que, depois do inevitável "e viveram muito felizes para todo o sempre", concluiam com um muito prático resumo "moral da história...".

Os livros abrem portas e janelas em número interminável. Este conto de Hesse não me emociona, mas a projecção na infância que me sugeriu, essa, sim.

leitora
 
  Mas que felicidade?
Oh, pássaro, onde é que reside a felicidade?

Mas que felicidade, pergunto eu? Talvez a resposta esteja numa entrevista em que alguém dizia que a felicidade é para crianças e yuppies.

Uma coisa é certa: a felicidade não reside nos happy endings hollywoodescos. A felicidade reside na mudança e na mutação. A felicidade reside no aqui e agora. A felicidade reside no paraíso e no inferno. A felicidade reside na infelicidade.

Permanentemente, a torrente mágica da transmutação fluiu pelo seu sangue; eternamente, ele participava na criação que a todo o momento se concretiza.

riverrun
 
  Transformações para a felicidade
Quando vi de quem era o conto fiquei com a sensação de que ia gostar, o autor diz-nos à partida muito.
Uma linguagem acessível, uma mensagem mais ou menos subtil e um final que nos deixa a pensar:

" A encantadora torrente da transformação corria continua pelo seu sangue, ele eternamente tomava parte na criação de todas as horas. Foi rena, foi peixe, foi gente e serpente, nuvem e pássaro. Em cada forma, porém, era um todo, era um par, tinha lua e sol, tinha macho e fêmea em si, corria pelas terras como rios gémeos, brilhava como dupla estrela no céu ! "


Decididamente gosto de contos que me deixam a pensar.

Rihian
 
quinta-feira, setembro 15, 2005
  Dubliners

Carta de James Joyce a Grant Richards: My intention was to write a chapter of the moral history of my country and I chose Dublin for the scene because that city seemed to me the centre of paralysis. I tried to present it to the indifferent public under four of its aspects: childhood, adolescence, maturity and public life. The stories are arranged in this order. (5 May 1906; Selected Letters 83)

azuki
 
 
Fugir! Ela tinha que fugir!




Eveline não parte porque não sabe existir fora do seu mundo.


...
laerce
 
  Hoje, estamos a ler Eveline, de James Joyce
 
 
Pensei em duas formas de ler este conto, dois sentimentos ou características que o marcam, que marcam Eveline e também a Irlanda que Joyce quis retratar. a primeira é sob o signo do imobilismo, da incapacidade de mudar, de sacudir o jugo, a pobreza, a melancolia; sobre a incapacidade de ser feliz, se entendermos a felicidade como coisa nossa e não como fruto do acaso.
Depois há outra, talvez mais bela, com certeza mais ternurenta. E se eveline não partir por amor ao que fica?
Não sei qual será a verdadeira razão. Desconfio, porém, que haverá na sua decisão um pouco de ambas.
nastenka-d
 
 
De volta ao ambiente enevoado de Dublin e de Joyce. Ao ler este conto não me consigo desligar da memória de todas as leituras de Joyce e relacionadas. Eveline é um pouco de Norah/Molly, um pouco de James/Stephen. Agrega os dilemas familiares, o desejo de fuga da cidade, a necessidade de amor - ou apenas a necessidade de não ser infeliz (estamos muito próximos do ambiente emocional do conto que lemos há alguns dias de Lobo Antunes, e de certa forma também do de Tchekhov).

E depois há a vertigem de enfrentar o futuro, chegar o momento de dar o salto e simplesmente ficar agarrada aos ferros em terra, não ser capaz de dar o salto, arriscar, esquecer a ordem da progenitora ao morrer. De novo Stephen, mas um remake da história. Eveline é, nesse momento, o outro lado de James/Stephen, a vida que não viveram - e, claramente, a justificação cabal das suas opções.

leitora
 
quarta-feira, setembro 14, 2005
 
Tudo parece bater certo, não é? sim, está bem, há uns elementos pertubadores a espaços – mas não são tão facilmente esquecidos nos trabalhos do quotidiano? Quando me dou conta do universo onde me encontro é já tarde demais; impotente para deter a marcha dos acontecimentos, submeto-me e preparo-me para ser trucidada pela sua inexorável lógica.
nastenka-d
 
  Um conto relido
Kafka para mim foi uma surpresa, nem boa nem má apenas uma surpresa.
Comecei por ler a metamorfose e outros contos, depois passei para o Processo, depois para o Castelo, onde acabei por me perder e desisti.
Kafka é desconcertante, de onde terá ele tirado aquelas ideias, aquelas imagens?

Este ano estive na praça onde ele trabalhou em Praga, vi o local, vi as gentes, não vi o Kafka histórico, mas assisti de perto ao que poderia ser o Kafka actual.
Kafka era eu, e eu era Kafka.
Nessa mesma praça fui assaltada, tive de apresentar queixa do roubo...e eis que começou "o meu processo": fui da polícia móvel para a esquadra da polícia, da esquadra para a móvel, da móvel para a esquadra onde fiquei num cubículo à espera de um polícia intérprete para eu apresentar "o meu processo". A dada altura eu era a criminosa: porque estava ali (na esquadra); porque estava ali (em Praga); porque dizia que me tinham sido roubadas todas aquelas coisas; porque andava em com tanta coisa comigo???

Ao reler este conto senti-me mais próxima de Kafka, as coisas têm um outro sentido. Julgo que pode haver alguma esperança em compreendê-lo, talvez volte ao "Castelo".

Rihian
 
  eterno kafkiano:
Por este andar, nunca chegarei a casa.

leitora
 
terça-feira, setembro 13, 2005
  Amo-te
“Amo-te, Nádia!” (...) Logo Nádenka se acostuma a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. O que é que não conseguiremos superar enquanto esse alguém nos diz “amo-te”?! Nada é mais forte, nada nos preenche tanto. Até a própria fantasia do “amo-te” nos faz felizes; é tão bom sonhar, ser um pouco louco, deixar-se levar por uma certa embriaguez! Por essas palavras, ou pela ilusão delas, Nádenka avança contra o seu medo. É um facto que, num momento difícil, uma palavra de apreço e de estímulo, pode fazer brotar, em nós, forças desconhecidas.

Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava… Há pessoas que se interessam pelo amor, há aqueles que não se interessam e há quem já não se interesse. O que se poderá passar em nós para que deixemos de nos interessar? Cansaço, descrença, secura? Inibição, incapacidades, insegurança? Falta de prática (o que acontece a um músculo que não se tonifica, a uma planta que não se rega, a um idioma que não se fala? encolhe, mirra, enferruja…)? Estratégia de preservação? Rotinas de que já não se prescinde? Diferentes gradações do bem-estar: outras prioridades, outras expectativas, outros sentires?

Há pessoas que, de certa forma, em alguma fase da vida, desaprenderam uma parte importante da linguagem dos afectos. Porque perderam o hábito, porque convivem de perto com quem repele ou não valoriza essa vertente, porque estão magoadas ou indiferentes… Mas há também aquelas que conseguiram recuperá-la, porque algo ou alguém lhes aconteceu. Por vezes, reaprendem-se gestos tão simples quanto abraçar… E que diferentes são os abraços: frios, tímidos, convencionais, ternos, intensos!!

azuki
 
 
Eu te amo, Nádia.


Tchekhov

Ia jurar que o narrador nunca pronuncia de facto aquelas quatro palavras. Pobre Nádia que não chega a confirmar se ouviu ou se foi só impressão. Cruel narrador que tem tudo tão controlado e que domina tão bem os seus desejos a ponto de ir lá ver a experiência de Nádia sozinha a deslizar no gelo na tentativa de confirmar a voz.


Do que fiquei certa foi que eles deslizaram juntos, muito juntos, dentro de um trenó forrado de vermelho, não uma, mas muitas vezes E que aqueles momentos corresponderam a um encantamento que se foi com o degelo. Se ficou alguma coisa, ninguém sabe ou cada um sabe de si.
...
laerce
 
 
Mas afinal por que temos nós tanto medo das reacções das outras pessoas? Por que ocultámos ou dizemos a meia voz aquilo que deveria ser dito cara a cara e com firmeza?

Por outro lado... "não importa o vaso que se bebe, importa ficar embriagada".

Tchekhov é cá dos meus... viver é mesmo complexo.

Dora
 
 
Nabokov, num prefácio aos “Contos” de Tchékhov, disse que este “escrevia histórias tristes para pessoas alegres”. Não sei se é preciso ser uma pessoa alegre para ler- e amar – Tchékhov. Talvez seja. Talvez as pessoas alegres, por não viverem em redor de si mesmas, tenham mais consciência da tristeza dos outros. Ou então talvez conheçam melhor do que ninguém a natureza transitória da felicidade. Não sei.
”A Brincadeira” tem todos os ingredientes dos seus contos, mesmo sem a infelicidade profunda, sem o desespero de outras histórias. Não precisa. A melancolia está lá, desde o início, desde os momentos de felicidade. A melancolia, o tempo, a sensação de perda. Todos nós tivémos um dia um sonho, e por isso em cada um há sempre Nádenka.
nastenka-d
 
  A brincar a brincar...
A brincar foram ditas coisas sérias, a brincadeira tornou-se repetitiva mas nunca passou disso uma brincadeira, a descida, o trenó, o vento a sussurar coisas ao ouvido ou a voz do apaixonado a dizer que a amava, ela ficaria com a dúvida.
E ele ter-se-á arrependido de tudo o que ficou por dizer? Quero acreditar que sim, e que tenha compreendido que nem sempre o silêncio é de ouro.


Rihian
 
 
Descer, a alta velocidade, em direcção ao abismo, branco e cintilante. Repetir a vertigem por ilusão de ser amada, ou porque se quer acreditar?

Talvez o abismo só exista para que se possa acreditar no amor.

leitora
 
  A adrenalina do amor
Deixemo-nos de romantismos: o amor não reside no coração. O amor vive de um conjunto de reacções bioquímicas entre células do nosso corpo, de proteínas a brincarem com minerais, da libertação de enzimas e endorfinas, que acabam invariavelmente traduzidas pelas palavras do costume: Amo-te. Tchekhov sintetiza tudo isto com uma brincadeira, porque o amor é uma brincadeira, ainda que uma brincadeira de alto risco. E é nas situações de perigo e de medo, como por exemplo, as descidas de trenó, que o nosso corpo segrega a adrenalina, que nos transmite uma sensação de euforia e bem-estar. No entanto, é uma droga de efeito temporário, que logo dá lugar à eterna e doce melancolia.

riverrun
 
segunda-feira, setembro 12, 2005
 
"senti uma sensação de aturdimento, uma sensação de proximidade do fim e do abismo, um abismo seco, enxuto de exaltação e desespero."

...

"No mundo ninguém sente as coisas novas com a mesma força com que as sente a criança"

...

"Caminhei por uma rua estranha, cheia de caixas brancas, caminhei enfeitado com penas sangrentas, sozinho pelo meio dos passeios desertos...e chorei com tanta amargura, plenitude e felicidade como nunca mais voltei a fazê-lo."


Eu lembro-me de ser criança, lembro-me de viver a intensidade da procura e a excitação da conquista. Mas também recordo o desânimo da impotência que é uma das maiores angústias de quem é pequenino.

Troti
 
 
Babel mostra-nos neste conto duas fases da Angústia: a que sofremos antes de um exame ou avaliação e a que sentimos quando a nossa vida ou a dos nossos está em perigo. São diferentes formas de viver um mesmo sentimento… e é por isso que viver é complexo!
Excelente sugestão de leitura!
Dora
 
 
Bábel ( o escritor)


Isaak Babel as a cadet at the Artillery Academy.

Na minha experiência de leitora considero a descoberta de Bábel um achado precioso para a minha gaveta de autores absolutos, como tanto gosta de dizer Pacheco Pereira. Devo-o ao livro de Rubem Fonseca e ao Leitura Partilhada, pois se não fosse o mês que lhe dedicaram nunca olharia para a estante à procura de algum livro sobre o autor brasileiro que pudesse comentar.

Uma leitura atenta de História do meu Pombal pode dar-nos a dimensão do artista da palavra escrita por excelência. Tudo centrado em três vocábulos: precisão, simplicidade, beleza.

O conto revela-nos a concretização/ destruição de um sonho de criança. O ambiente de tensão dramática é assinalado logo no princípio do conto, diz o narrador: nunca conheci desejo mais forte. A partir deste momento, avançamos num tortuoso caminho de sacrifícios e ultrajes, com a tenacidade de alguém que quer mesmo realizar um sonho ( alguém muito além narrador, como é fácil de perceber no tal lado secreto do conto).

Se atentarmos na maneira como Bábel descreve o movimento do professor que o protege dos colegas que lhe queriam dar beliscões: o casaco formou uma ondulação complicada e lenta nas suas costas…; se atentarmos na forma como é descrito o supremo momento de humilhação do rapaz: O traseiro fofo de Katiusha revolveu-se nas minhas pupilas e caí ao chão com o meu sobretudo novo, entre muitos outros, podemos confirmar que estamos perante um diamante lapidado por um raro artífice.

...
laerce
 
 
Bábel ( o desconhecido)


O meu primeiro contacto com Bábel foi a partir de Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, de Rubem Fonseca. Bábel é uma personagem no livro de Rubem, ausente é verdade, mas fundamental para o tecido da história. A maneira como ele é falado, de que transcrevo um breve excerto, é bem elucidativo do seu valor na literatura universal. Pena que não seja mais lido e traduzido. Pelo que percebi nem sei se há traduções dos seus contos em português de Portugal. Mais informação sobre Bábel aqui
...
laerce
 
 
Bábel (a personagem)


Isaak Babel with is daugther


“Bábel é maior do que Tchekhov?”

“Para responder a isso tenho que tomar outro gole desse néctar aí”, disse Gurian, astutamente com um sorriso matreiro.” A nastroenie, a atmosfera, de Bábel não permite comparação com a de Tchekhov…. Bábel buscava padrões de excelência impossíveis de serem alcançados por qualquer artista. Por isso escreveu tão pouco, com exactidão, uma concisão esplendente. Neste aspecto ele é maior do que Tchekhov, esse outro demónio do perfeccionismo”

Rubem Fonseca, Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos.
...
laerce
 
 
Os sonhos são simples: duas pombas, meia dúzia de tábuas pelas quais valem a pena trabalhos e sacrifícios. Os sonhos são simples – mas são por vezes atropelados pelos acontecimentos exteriores, incontroláveis; de repente não são apenas os sonhos que se estilhaçam, é a vida toda tal como se a conhece. O que podem os sonhos contra isso?
nastenka-d
 
  O desejado
Durante semanas falou-se muito de Bábel nesta página. Tornou-se, de certa forma, o desejado: autor retratado/ficcionado por outro autor, que desperta em nós um desejo enorme de conhecer, de certa forma de procurar um reencontro - um primeiro encontro pode ser um reencontro, tão próximo e ilusoriamente familiar nos é esse elemento.

Este é apenas um dos contos, e a minha curiosidade maior é saber como a Laerce o leu, que emoções lhe despertou - tão entusiasticamente o investigou e procurou durante e após a leitura de "Vastas Emoções" do Rubem Fonseca. Calo-me, então. Aguardo.

leitora
 
  A história que nunca existiu
HISTÓRIA DO MEU POMBAL (que nunca existiu)

Quando comecei a ler pensei: uma história de uma criança contada por um adulto, memórias de uma infância que ficou para trás.
Acabo de ler e fico com a certeza de que li a história de vida de um adulto, que de criança teve pouco e que deve ter carregado o fardo da infância por muitos e longos anos.


Rihian
 
domingo, setembro 11, 2005
 
"Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem"
Jean-Paul Sartre

Troti
 
  O MEDO
"depois não se ouviu mais nada durante dois minutos que nos fizeram enlouquecer..."

Eu conheço bem o medo. Ele está no que não vemos, no que não sabemos, no que não sentimos, no que não ouvimos. Ele existe na dúvida que corrói a mente, destrói a confiança e mata o impulso. É sinuoso, insidioso, traiçoeiro. O medo é uma flecha que nos penetra bem fundo, que nos abala e nos paralisa. E é a sensação mais cruel que eu já vivi.

Troti
 
 
São dois os contos de Maupassant intitulados “O Medo”; no entanto, poderia ser apenas um único, ou então imensos. Em ambos o Medo é construído a partir de dentro, com uma lucidez que explica o sucesso de tantos escritores do “género”; em ambos o medo sente-se apenas pelo que não se compreende, pelo que é vago, pelo que se fantasia... Se é indefinido, pode ser qualquer coisa... e em Poe regressaremos ao tema.
nastenka-d
 
 
Angústia, medo, terror.

Regra geral, consideram-se sinónimos as palavras angústia, medo, terror. Isto é errado, pois nada é mais fácil do que distingui-las, quando as consideramos nas suas relações com o perigo. A angústia é um estado que podemos classificar como de expectativa de um perigo, de preparação para um perigo, conhecido ou desconhecido; o medo supõe um determinado objecto em presença do qual experimentamos esse sentimento; quanto ao terror, representa um estado que é provocado por um perigo actual, para o qual não estávamos preparados: a sua principal característica é a surpresa.

Freud, Ensaios
...
laerce
 
  Já alguma vez teve medo?
Vejamos, antes, do que Maupassant está a falar, exactamente:

- Permita que me explique! O medo (e os homens mais intrépidos podem sentir medo) é algo assustador, uma sensação atroz, uma espécie de dilaceração da alma, um espasmo horroroso do raciocínio e do coração, cuja simples lembrança provoca calafrios angustiantes. Mas isso não acontece, quando se é corajoso, nem diante de um ataque, nem diante da morte inevitável, nem diante de qualquer das formas conhecidas de perigo; acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e perante riscos vagos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora. Um homem que acredita em almas penadas e que imagina estar a ver um espectro à noite deve sentir o medo em todo o seu insuportável horror.

leitora
 
 
sons e sombras



Maupassant

Maupassant é, juntamente com Babel e Tchekhov, um dos maiores contistas da história da literatura mundial. A arte da palavra e a técnica narrativa que legaram a quem os lê é excepcional.
De acordo com Maupassant, a finalidade do romancista (do contista) não é contar uma história e distrair o leitor mas sim forçá-lo a pensar
Sem pretender discorrer sobre os meandros da literatura no que diz respeito à arte de contar escrevendo, limito-me a ocupar um lugarzinho escondido entre os seis ou oito passageiros do navio e, debaixo daquele luar calmo mas intimidativo, ouvir com o meu corpo todo, as histórias
“do homem de rosto tisnado e de aspecto grave”.
...
laerce
 
  O que é o medo?
O que é o medo?
Algo irracional que nos paralisa e não nos deixa agir normalmente? ou a soma de uma série de elementos racionais que nos leva a ter uma reacção racional?
Estas parecem-me ser as questões que ficam quando se termina o conto.
Afinal do que é que eles tiveram medo? Alguém sabe?


Rihian
 
  O Medo
Pelo medo, alimento a atitude saudável que sempre devemos sentir por aquilo que é maior do que nós: respeito. Sentir medo é importante, é quase imprescindível, desde que não se transforme em sofrimento (o ideal será conseguirmos enquadrá-lo, tentando, na medida do possível, temer em ambientes controlados, para que o saibamos domar no momento do embate!!). O medo ensina-nos a tolerar o desconforto. O medo obriga-nos a decidir entre enfrentar ou fugir.

O medo é um grande aliado na busca do bem-estar. Se digo isto, é porque tenho tido a ventura de (ainda) não ter sido confrontada com aquilo de que, genericamente, se tem medo: a morte, a doença, a solidão, a incapacidade, a perda de rumo,... Enquanto tal não acontecer, continuarei a virar o medo do avesso, aproveitando-o com a maior sabedoria de que sou capaz: tendo medo de perder. De perder tudo o que faz de mim a pessoa afortunada que sou: os afectos, a qualidade de vida, o equilíbrio, o tempo, a tranquilidade, a alegria. Tudo isso que eu procuro não me esquecer de acarinhar, com dedicação, consciente da sua imensa fragilidade.

Temo muito perder aquilo que tenho. Acho que é por isso que sou feliz.

azuki
 
  Variações sobre O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO de Alexandre O'Neill
Os ratos invadiram a cidade
povoaram as casas os ratos roeram
o coração das gentes.
Cada homem traz um rato na alma.
Na rua os ratos roeram a vida.
É proibido não ser rato.

Canto na toca. E sou um homem.
Os ratos não tiveram tempo de roer-me
os ratos não podem roer um homem
que grita não aos ratos.
Encho a toca de sol.
(Cá fora os ratos roeram o sol).
Encho a toca de luar.
(Cá fora os ratos roeram a lua).
Encho a toca de amor.
(Cá fora os ratos roeram o amor).

Na toca que já foi dos ratos cantam
os homens que não chiam. E cantando
a toca enche-se de sol.
(O pouco sol que os ratos não roeram).


Manuel Alegre

Encho a toca de sol, encho a toca de luar, encho a toca de amor...

azuki
 
  O poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos


Alexandre O'Neill

azuki
 
sábado, setembro 10, 2005
  SADE – “A Beata Falsa”
(Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade)

Nisto de virtudes, pelos vistos, será mais importante parecê-lo do que sê-lo… Há mulheres que passam pela vida frustradíssimas, a morrerem de tédio, por trás de toda a sua moralidade aparente. Se o senhor Não Sei Quantos fosse um pouco menos beato, eu diria que eles acabaram por se encontrar em igualdade de circunstâncias. Sim, sim, atrever-me-ia a afirmar que, se calhar, ele tinha encontrado uma mulher à sua altura …

azuki
 
  Sade
Quando começamos a ler um conto que tem este título "A beata falsa" sabemos de antemão o seu desfecho.
Foi o que aconteceu, alguém vai ter uma desilusão e voilá...
A forma como o conto nos é apresentado com os pormenores "sórdidos" é o verdadeiro estilo do escritor.

Rihian
 
 
sade...mas pouco


Entrée du château de Lacoste

Este Sade não precisa de ficar escondido nas prateleiras de cima das estantes.
Não conheço o título original mas este em português, não haja dúvida, diz tudo, ou quase. Resta-nos partir à descoberta do espaço, do tempo e das peripécias.
Com tão superlativos atributos, a senhora de Sernenval não passa de uma caricatura de mulher do século das Luzes.
Um conto leve que encerra uma moralidade, um ensinamento que ainda não foi aprendido a julgar pelo fim da história.

No domínio da intertextualidade, vejo aqui alguns contos de Decameron e D. Quixote, lá com o Anselmo e o Lotário, lembram-se? Grandes amigos que eram...
...
laerce
 
  Deusa hipocrisia
A Beata Falsa deste conto é sobretudo a hipocrisia, a da Igreja e a da mentalidade das hordas de homens e mulheres que seguem o seu Deus. A ideia de Deus é o único erro que não posso perdoar à humanidade, escreveu Sade. Ao longo dos séculos, tem sido no controlo que a Igreja tenta exercer sobre o corpo que essa hipocrisia mais se tem exposto. E é através do próprio corpo e da sua linguagem que Sade procura a liberdade. Duzentos anos passados, a hipocrisia parece persistir numa Igreja que condena o aborto e a homossexualidade mas permite a pederastia no seu seio.




Man Ray, La Prière (1930)


riverrun
 
  Homenagem a Sade



Man Ray, Portrait Imaginaire de D. A. F. de Sade (1938)


O Sade a quem exaltamos
é o que foi trinta anos emparedado,
prisioneiro de estado, cativo arbitrário
sob três regimes que lhe roubam a liberdade.
É o revolucionário, é o primeiro que grita ao povo que tome a Bastilha;
é o ateu
que insulta Robespierre mai-lo seu Ser Supremo,
no meio da Secção de Piques,
na própria barra da Convenção;
é o velho impenitente,
atirado para um asilo de loucos
e cuja razão fria preocupa e enfurece
ministros e prefeitos do epiléptico Imperador.

E é o moribundo, fiel ao seu Diálogo
dando ao padre um empurrão.
Mas mais do que o poeta e mesmo que o filósofo
o que nele nós amamos e nele mais admiramos
é o domador da natureza,
é o agressor dos deuses,
o que desdenha das leis,
o libertador do sexo,
o rebelde,
Sade.

Maurice Heine


riverrun
 

O QUE ESTAMOS A LER

(este blogue está temporariamente inactivo)

PROXIMAS LEITURAS

(este blogue está temporariamente inactivo)

LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

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