Leitura Partilhada
sábado, setembro 30, 2006
 
última interpretação

Aquele desejo imenso de Campos se transfigurar em máquinas ou barcos ou verbos nas suas formidáveis Odes surge-nos em Caeiro circunscrita à Natureza, à vida frugal dos campos, como o provam os dois excertos dos posts anteriores da Ana e da azuki. O Guardador de Rebanhos sofre por não ser tão perfeito como a flor ou o carro de bois, sofre porque pensa e, por extensão, faz-nos sofrer a nós. Sugiro Reis com a sua Lídia, à beira do rio: Sossegadamente fitemos Caeiro e aprendamos/que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas/(Enlacemos…).
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laerce
 
 
horóscopo



Não podia deixar passar Setembro, o mês de Caeiro, sem colocar aqui o horóscopo deste poeta tão simples e tão. Na verdade, o que eu gosto mesmo é de Pessoa, ponha ele a máscara que quiser.
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laerce
 
  Quem me dera

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.


(O Guardador de Rebanhos - XVI)

azuki
 
sexta-feira, setembro 29, 2006
  Contributo breve
Parto do post da azuki (aqui). Caeiro, de facto, é uma pose anti-idealista. Um pouco irritante, sim - e é a circularidade, quase "umbilicalismo" dos seus versos, a inevitabilidade de contraponto a esse anti-idealismo, que por vezes afasta leitores em busca de uma sofisticação maior; também será o que faz aproximarem-se os leitores que apenas procuram ver em palavras as formas directas de ligar sensações às "coisas da natureza". Mas Caeiro não poderia ser de outra maneira, não é de outra maneira. Thoreau, por exemplo, pôde articular uma alternativa à expressão da simplicidade da existência quando escrevia "My life hath been the poem I would have writ,/But I could not both live and live to utter it." A vida de Caeiro é o(s) poema(s) que escreve - e não pode, por mais que isso seja limitativo e redundante dizê-lo, ser outra coisa além disso. Os versos de Caeiro parecem rasos, demasiado chãos, de clareza e claridade ofuscantes. Porque não têm uma vida que permitisse a sua anulação, a expansão para lá de si mesmos, algum mistério que escondessem ou deixassem desvelar.

Nestes versos explica-se a sua lhaneza verbal e formula-se uma ausência enganadora. Não falta em Caeiro "a simplicidade ... de ser todo só ... exterior"; aliás, é essa "simplicidade" que o constitui.

Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
(De: "Não me Importo com as Rimas")

Ana Soares
 
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Foi preciso andar a saltitar entre estantes para me aperceber que está operacional.

(eu sei, eu sei, já só deve ser novidade para mim!...)

azuki
 
  A Natureza é partes sem um todo
Não há que procurar um sentido para as coisas, escreve Caeiro, as coisas não têm sentido, têm apenas existência. O movimento interior do poeta, embora tranquilo, não o conduz à unidade, mas à diversidade e fragmentação. A natureza é para ele um amontoado de formas que se manifestam sem estar ligadas a um todo.

Alguns dos seus poemas como que nos remetem para uma espécie de unidade harmónica. Contudo, para Caeiro, a Natureza é partes sem um todo, apenas uma aglomeração de coisas e de seres isolados, que existem num universo em constante regeneração. Não há Natureza (com letra maiúscula, como agora se usa), mas Naturezas. E, como refere Georges Güntert, o seu presente consiste em meros “agoras” que se anulam uns aos outros: se Caeiro deixa de ter algo no seu campo de visão, é como se esse algo deixasse de existir. É mais difícil imaginar um estado de comunhão, não com um todo, mas com um conjunto de coisas dispersas. Não será o monoteísmo revelador de alguma maturidade social? O que buscam o cientista ou o filósofo? Não é o uno aquilo que tendemos a perseguir?

(...)
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.

A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
(...)
azuki
 
quinta-feira, setembro 28, 2006
  Criança desconhecida e suja brincando à minha porta
Quando se equipara a uma criança, é quase como se estivesse a iludir a verdade, porque Caeiro sabe que, ao contrário da criança, ele tem consciência de que olha para o céu e de que se esforça por apenas sentir que está a olhar para o céu. Mais do que a sensação, Caeiro tem a consciência da sensação; mais do que a consciência da sensação, Caeiro tem a consciência da consciência da sensação. A sua ingenuidade não o é.

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
(...)
Brinca na poeira, brinca!
(...)
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.

azuki
 
quarta-feira, setembro 27, 2006
  Uma aprendizagem de desaprender
Estamos perante uma “máscara” que funciona como uma tentativa de superação duma subjectividade angustiada que, à primeira vista, nos parece ter sido anulada (objectivismo, sensações, negação do pensamento), mas que prevalece e se vislumbra a cada passo.
Avelino Soares Cabral

A visão pagã da existência de Caeiro está ligada a uma relação simbiótica com a natureza e à rejeição de toda a carga cultural. Tudo é natural, o que é natural é justo, o que é justo aceita-se. O seu olhar será simples, porque não distorcido pelos vários séculos de aculturação: procuro despir-me do que aprendi. Mas não é facilmente que um homem se despe de si: O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado / Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.


(...)
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

(...)

azuki

 
terça-feira, setembro 26, 2006
  A utilização da sensibilidade pela inteligência - Fernando Pessoa

A utilização da sensibilidade pela inteligência faz-se de três maneiras distintas:

O processo clássico, que consiste em eliminar da sensação ou da emoção tudo que nela é deveras individual, extraindo e expondo tão somente o que é universal.

O processo romântico, que consiste em dar a sensação individual tão nítida ou vividamente, que ela seja aceite, não como cousa inteligível, mas como coisa sensível, pelo leitor, visor ou auditor.

Um terceiro processo, que consiste em dar a cada emoção ou sensação um prolongamento metafísico ou racional, de sorte que o que nela, tal qual é dada, seja ininteligível ganhe inteligibilidade pelo prolongamento explicativo.

Suponhamos que tenho uma aversão íntima pela cor verde e que quero transformar esta aversão, que é uma sensação, em expressão artística. Pelo processo clássico, procederei da seguinte maneira: (1) Lembrar-me-ei que a aversão pela cor verde é puramente individual, que, portanto, a não posso transmitir a outrem, tal qual é; (2) deduzirei que, assim como tenho aversão pela cor verde, outros terão aversão por outras cores; (3) traduzirei a minha aversão pelo verde em aversão por “certa cor”, e cada um que leia verá na aversão assim traduzida a cor particular com que ele tem aversão. Pelo processo romântico, buscarei por tal horror nas frases com que exprimo o meu horror pelo verde que o leitor fique presa da expressão do horror, esquecendo precisamente em que se fundamenta. Vê-se, pois, que o processo romântico consiste num tratamento intensivo dos elementos expressivos em desproveito dos elementos fundamentais, da sensação. Pelo terceiro processo, porei nitidamente a minha aversão pelo verde; e acrescentarei, por exemplo, “é a cor das coisas nitidamente vivas que hão-de tão depressa morrer”. O leitor, embora não colabore comigo na minha aversão pelo verde, compreenderá que se odeie o verde por aquela razão.

Pelo processo clássico, sacrifica-se o mais nosso da sensação ou da emoção em proveito de torná-la compreensível. Porém o que tornamos compreensível é um resultado intelectual dela. De aí o ser a poesia clássica inteligível em qualquer época, porém em todas fria e longínqua.

No meu fantasma Alberto Caeiro, sirvo-me instintivamente do terceiro processo aqui indicado. Embora pareça espontânea, cada sensação é explicada, embora, para fingir uma personalidade humana, a explicação seja velada na maioria dos casos.


Gabriel

 
 
No fim de contas, esta atitude é apenas pose. Caeiro revela-se um poseur ao emaranhar-se no seu anti-idealismo. Não consegue nunca libertar-se completamente das ideias, pelo contrário, discute-as continuamente.

azuki
 
segunda-feira, setembro 25, 2006
  Caeiro por Álvaro de Campos

O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. O Ricardo Reis é um pagão, o Antônio Mora é um pagão, eu sou um pagão; o próprio Fernando Pessoa seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro. Mas o Ricardo Reis é um pagão por caráter, o Antônio Mora é um pagão por inteligência, eu sou um pagão por revolta, isto é, por temperamento. Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação.

Vou definir isto da maneira em que se definem as coisas indefiníveis – pela covardia do exemplo. Uma das coisas que mais nitidamente nos sacodem na comparação de nós com os gregos é a ausência do conceito de infinito, a repugnância de infinito, entre os gregos. Ora o meu mestre Caeiro tinha lá mesmo esse mesmo conceito. Vou contar, creio que com grande exatidão, a conversa assombrosa que mo revelou.

Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que diz num dos poemas de O Guardador de Rebanhos, que não sei quem lhe tinha chamado em tempos “poeta materialista”. Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse, contudo, que não era absurda de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:

“Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma.”

Fiquei atônito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.

“Mas isso a que V. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?”

E eu, desnorteado. “Mas V. não concebe o espaço como infinito? Você não pode conceber o espaço como infinito?”

“Homem”, disse eu, “suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais...Não acaba...”

“Por quê?” disse o meu mestre Caeiro.

Fiquei num terremoto mental. “Suponha que acaba”, gritei. “O que há depois?”

“Se acaba, depois não há nada”, respondeu.

Este gênero de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irrespondível, atou-me o cérebro durante uns momentos.

“Mas V. concebe isso?” deixei cair por fim.

“Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?”

Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo.

“Olhe, Caeiro...Considere os números...Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número – 34, por exemplo. Para além dele temos 35, 36, 36, 38, e assim sem poder parar. Não há número grande que não haja um número maior...”

“Mas isso são só números”, protestou o meu mestre Caeiro.

E depois acrescentou, olhando-me com formidável infância:

“O que é o 34 na realidade?”



Gabriel
 
sexta-feira, setembro 22, 2006
 
monólogo



foto daqui


Pouco me importa.
Pouco me importa o que?
Não sei: pouco me importa.
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Poemas Inconjuntos
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Pois.
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laerce
 
quarta-feira, setembro 20, 2006
  Pensamentos

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro em o Guardador de Rebanhos
O pensar corrompe o homem. Destrói sua inocência. Torna-o ainda mais pecador do que poderia ser se não pensasse. A necessidade de saber é uma desculpa inventada pela humanidade para que possa pensar sem a culpa por perder a inocência. Não é o pensar que torna grande um escritor ou um livro, mas o sentir. O que nos move e faz de nós brilhantes seres humanos não é capacidade de raciciocinar e sim a capacidade de perceber.
Pensar transgride a beleza do amor, faz dos homens meros egoistas que buscam sempre uma razão para amar: "Amo-te por teu sorriso, amo-te pois me completas..."
Muitos pensam conhecer o amor e o limitam a sua mediocridade, há os que escolhem não amar por não saber o que ele é, por medo de desprender-se da racionalidade tão enraizada em seus seres.
Entretanto, o mesmo pensar que corrompe e destrói também liberta. Liberta da opressão de opiniões alheias, da escravidão da alienação.
A inocência que se perde quando se raciocina o mundo ao invés de senti-lo não é vã. É preciso que se perca parte dela, o erro está em perde-la toda e por isso concordo com Fernando Pessoa.
Amar sempre será a eterna inocência, e são os que se esquecem desta verdade que são de fato corrompidos pelo pensar, por isso raciocinar é tão perigoso, torna os homens cegos para ver a eterna novidade do mundo, faz com que não se tenha tempo para nascer a todo momento; e perder o nascer constante de um mundo em movimento onde cada segundo é único é simplesmente morrer aos poucos por pensar demais.
Agnes Alencar
 
 
o filme





Conversa Acabada

Realizador - João Botelho
Ano de Produção - 1981



No início deste século, em profunda crise política e moral da sociedade portuguesa (uma confusa I República, com restos de monarquia podre), um encontro e um momento de catástrofe: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro reiventam a língua, o modo de dizer, pagando os riscos da sua aventura. Um rebenta a solidão no fogo dos heterónimos, que lhe permitem prolongar a existência; o outro despedaça o corpo e a própria vida, na vertigem dispersa de poemas e novelas. A história desse encontro - os textos, a amizade e a morte...

fonte


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laerce
 
terça-feira, setembro 19, 2006
  PUB (intervalo publicitário)
Pensei eu: quem será o amigo apto a servir-me de empenho para um esmalte respeitável? Lembrei-me que deveria ser o Bastos, lavadeira de automóveis, com uma Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis e deve, portanto, saber o que vale a pena esfregar.

Procurei-o e disse-lhe: Bastos, amigo, quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com que esmalte é que hei-de pintar?

Com Berry/Loyd, respondeu o Bastos, e só uma criatura muito ignorante é que tem a necessidade de me vir maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo modo o primeiro chauffer que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinhas.


Excerto de um texto escrito por Fernando Pessoa para as tintas Berry/Loyd.


riverrun
 
segunda-feira, setembro 18, 2006
  Da Minha Aldeia (Global)


riverrun
 
domingo, setembro 17, 2006
 
uma questão de rios


Rio Tejo

Pelo Tejo vai-se para o Mundo
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

Do poema XX, O Guardador de Rebanhos


O poema joga com as oposições: pequeno/grande; desconhecido/conhecido; meu/ de todos, para concluir que o pequeno é grande, o desconhecido é conhecido ( dele o poeta, a Voz do homem) e, por extensão dessa mesma voz, o meu rio é o rio de todos.

Qualquer rio pode ter este ‘estatuto’: Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Até o Tejo.

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laerce



 
sexta-feira, setembro 15, 2006
  valter hugo mãe, na Index

Comunidade de Leitores Index
Terça, 26 de Setembro, 21h00 (Porto)
valter hugo mãe sugere: Marcas de Água, de Eduardo Pitta

azuki
 
  Até já




azuki
 
 
Num meio-dia de fim da Primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Do poema VIII, O Guardador de Rebanhos.

Começa assim um dos poemas que mais gosto de ler de O Guardador. Na simplicidade da linguagem infantil, Caeiro desmistifica os dogmas da igreja católica sem ser blasfemo, uma vez que a essência de Cristo permanece inalterada na Eterna Criança que vive com o poeta no meio do outeiro. O mesmo Cristo que para Reis será um deus ao lado de outros deuses.
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laerce
 
  Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir
Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são.
(F. Pessoa)

Aquilo que ele procura todos os dias, com os olhos e a mente (supostamente) limpa de abstracções, é “a espantosa realidade das cousas”. O caótico relacionamento entre o sujeito e o objecto que existia em Fernando Pessoa vai desaparecer: a sua relação com o mundo não é de tensão, nem de rejeição, mas sim de harmonia. Pensar incomoda como andar à chuva. Demasiado simples para uma personagem tão pouco simples. O poeta faz comparações que vão além do visível e a tentativa de demonstrar que tudo tem o mesmo valor soa um pouco forçada (E a borboleta é apenas borboleta e a flor é apenas flor). Caeiro pensa muito para conseguir não pensar. Não é fácil olhar para a sua tão intelectualizada simplicidade sem alguma dose de cinismo.

azuki
 
quinta-feira, setembro 14, 2006
 
do lado de Caeiro



Túmulo de Fernando Pessoa, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa


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laerce
 
 
Saúdo-vos e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa

(…)

azuki
 
  O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa
(B. Barbosa)

Caeiro insiste que pensar é pernicioso, porque atrás das ideias está o abstracto e não a vida, mas a verdade é que ele fala insistentemente no pensamento, na metafísica, nas ideias, na filosofia. Tal como é referido pelos estudiosos, a sua forma de estar na vida contra a filosofia implica ter uma filosofia contra a filosofia, ou seja, uma anti-filosofia… e uma anti-filosofia é algo tão exigente quanto uma filosofia. Parece-me que ele nunca se refere à realidade, mas à forma como vê a realidade, num esforço de auto-convencimento que sempre o enreda no raciocínio. J. A. Seabra diz que, tal como os restantes heterónimos, Caeiro é um poeta metáfora: ele vê-se como um pastor, de cajado na mão, e as ovelhas são uma representação das ideias. Como é que este rebanho se coaduna com o anti-pensar?

azuki
 
quarta-feira, setembro 13, 2006
  Com filosofia não há árvores, há ideias

Ricardo Reis (dos três, o seu principal estudioso) dizia que a poesia de Caeiro tendia para o “objectivismo absoluto”. Uma visão do mundo meramente sensorial, despida de sentimento, de convenções e de valores. Caeiro pretende não estar obcecado por si próprio e não vê a realidade em função de si, mas tal como ela é. Para ele, não há essência, há apenas aparência, e o pensamento deturpa o significado das coisas. É preciso fazer um grande esforço intelectual, como que de despojamento interior, para que nos afastemos do que estamos a pensar e a sentir (sentir com o sentimento e não com a sensação, que está a montante). Como é que nos conseguimos terraplanar interiormente?

azuki
 
terça-feira, setembro 12, 2006
 
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.

Eu também não.

azuki
 
  Caeiro não tem ética a não ser a simplicidade (F. Pessoa)
Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.


A sua ética é a sua aceitação: Mas a minha tristeza é sossego/ Porque é natural e justa. Caeiro compreende o mundo e gosta dele tal qual é, sem valores ou hierarquias. Ele parece nada querer ou saber para além do que lhe é dado observar e sentir naquele momento, sendo que tudo tem o seu papel e o mesmo grau de interesse: os seres nascem, crescem e morrem, nada há para lamentar, é o ciclo natural da existência. Por isso mesmo, é impassível a sua aceitação da miséria e da fortuna, da escuridão e da claridade, da vida e da morte. Louvado seja Deus que não sou bom, / E tenho o egoísmo natural das flores. Tal como uma flor não lamenta o sofrimento alheio, Caeiro não se importa. É nestes momentos que a sua anti-filosofia se afigura chocante.

azuki
 
segunda-feira, setembro 11, 2006
  A relação de Alberto Caeiro com o seu tempo
A crítica de Alberto Caeiro vai para os filósofos, os místicos, os activistas, todos os que pensam, ou que agem. Porque filosofia, religião e todo o pensamento ou acção que almeje modificar/explicar o mundo, o indivíduo ou a sociedade é anti natural; portanto, mau e criticável. A via que propõe para a paz e a felicidade é a aceitação pacífica da realidade (que é sensorialmente). Os seus poemas são a apologia dessa via. Como se sabe, de uma forma sangrenta, não era bem essa a opinião dos seus contemporâneos.
Caeiro está afastado da sociedade do seu tempo. Recusa o que lhe ensinaram, aprende sozinho pelos sentidos, olha para todos os lados menos para a frente. Os homens das cidades falam com ele (GR XXXII, PI “Ontem o pregador de verdades”), levando-lhe as questões da sua época. Mas Caeiro fecha-se e assume o “egoísmo natural das flores” e que “Haver injustiça é como haver morte.”. Certo, Caeiro não é um homem de acção; e está convencido da naturalidade da injustiça e da tirania e nunca daria um passo para as alterar. Não olha para o futuro, não lhe interessam as crises do presente. Se o mundo arder é apenas natural. Ele é um homem sem dúvidas, por isso é o Mestre.

Que diferença para um Brecht: “Dentro de mim se enfrentam/A exaltação da macieira em flor/E a náusea dos discursos do pintor./Mas só a náusea/Me faz escrever”; ou: “A injustiça avança hoje a passo firme./Os tiranos fazem planos para dez mil anos./O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são./Nenhuma voz além da dos que mandam./E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.”. Brecht é um homem, combatente e comprometido. Caeiro é um arquétipo.
paulo
 
  o sossego da rua dos douradores
o meu sossego é feito de resignação

o sossego do vulgar


Livro do Desassossego (retirados dos pontos 4 e 5)
Bernardo Soares


Percorro as páginas deste livro à procura de significados complementares para a palavra (desas)sossego. Não gosto de resignação, apesar de a compreender, de chegar até a aceitá-la como opção válida. Acho curiosa a escolha da palavra "vulgar", muito mais dura do que algumas das alternativas possíveis; acredito que FP/BS não a escolheu ao acaso, tantas as palavras que para ele trabalhavam noites a fio.

Resignar-se pode ser apenas deixar de sonhar - até porque "não fui feito para o sonho". Resignar-se é mais do que aceitar a realidade como ela se nos dá, é abdicar de todas as outras realidades quase possíveis / sonhadas. Vulgar não é o comum, o frequente, o popular - porque é tendencialmente mediocre, insuficiente. Ou estarei eu a tentar vestir cada palavra em demasia, trajes de gala no que se pretendia transparência nocturna?


leitora
 
 
Máscaras, máscaras, sempre máscaras. Máscaras ou caminhos? Máscaras ou realidades de um ser tão raro e complexo que nunca poderia cingir-se ao caminho único, limitado, singelo de uma pessoa?

azuki
 
  A morte e o amor para Alberto Caeiro
Para Caeiro, a morte aparece como um “… rio aonde ir ter quando acabemos!...” (GR VI). E diz: “Sinto uma alegria enorme/Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.”. Ainda no poema GR XLVII, onde o conceito de eternidade de Caeiro está bem expresso, se diz “Passo e fico, como o Universo.”. Também neste ponto está de acordo com Epicuro. Isto é, a frequência dos prazeres elevados (contemplação, sabedoria, auto-controlo, saúde) anulam o medo da morte, a qual não passa de permanência sob outra forma (moléculas, átomos, etc.).
Em Caeiro não há paixão nem prazer carnal. O corpo resume-se a um dispositivo para apreender o real. Há, no entanto, o amor, ou, melhor dizendo, o amar. O amar é celebrado em paz, conjugado com a Natureza (“Quando eu não te tinha…”, PI); ou então como algo que afasta da realidade, faz ver menos (“O amor é uma companhia.”, PI); ou que é falso (“O pastor amoroso perdeu o cajado.”, PI); ou ainda, que faz pensar (“Passei toda a noite, sem dormir, …”, PI). Portanto, amar não é, propriamente, uma coisa boa. É algo natural, que pode acontecer (“Uma vez amei..:”, PI), mas que falsifica a apreensão da realidade e desarruma o eu (“Todos os dias agora acordo com alegria e pena”, PI). É um prazer inferior.

Um homem destes, com paixões tão plácidas, que não sabe se existe, não pode realmente ser o preferido de ninguém. Mas reflectir na sua perspectiva, viver um dia nela, contrapondo-a a uma sociedade de imagem, agressiva e artificial como a nossa, é capaz de enriquecer a maneira como interpretamos o nosso próprio tempo.
paulo
 
domingo, setembro 10, 2006
 
"Eu não tenho filosofia: tenho sentido...
Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."

II

Troti
 
 
"Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

II

Troti
 
 
"Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos pra ele e estarmos de acordo..."

II

Troti
 
  da rua dos douradores, V
2.
Tenho de escolher o que detesto - ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensiblidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com a outra.



Bernardo Soares
Livro do Desassossego


Este é um dos exemplos acabados porque gosto de espírito de síntese da poesia: deixa uma larga margem em branco, a toda a volta, à espera de enormes pedaços de nós. Apetece-me sublinhar cada palavra e cada silêncio em volta de cada palavra. Fica uma breve nota, o ensinamento: ninguém nasceu para o sonho. Ninguém.

(sempre desejei ter nascido para a acção, apesar de a minha inteligência se alimentar de algumas doses de sonho, também... no final da história talvez se descubra se assim o é agora, ou não)


leitora
 
sábado, setembro 09, 2006
  Mil palavras
Esta foto, pedi-a de empréstimo ao Ricardo (que a pediu de empréstimo a alguém, que com certeza a terá pedido...and so on). É a mais interessante imagem de Pessoa que encontrei até agora.

azuki
 
 
"Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho."

I

Troti
 
  para a Cristina_pt
e quem não gostaria de ser reconhecido na rua dos douradores, nem que fosse só pela poeira de ouro no final de uma tarde qualquer?


leitora
(que ficou seriamente a pensar: mas Eduardo Lourenço disse mesmo aquilo, ou é uma tradução livre da cris_pt?)
 
  da rua dos douradores, IV
A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar.


Fernando Pessoa sobre Bernardo Soares
Prefácio ao Livro do Desassossego de Bernando Soares

Desistente? Resignado? Desiludido? Realista?

leitora
 
  da rua dos douradores, III
Ele mobilara - é impossível que não fosse à custa de algumas coisas essenciais - com um certo e aproximado luxo os seus dois quartos. Cuidara especialmente das cadeiras - de braços, fundas, moles -, dos reposteiros e dos tapetes. Dizia ele que assim se criara um interior «para manter a dignidade do tédio».


Fernando Pessoa
Prefácio ao Livro do Desassossego de Bernando Soares



Quero sublinhar: dignidade do tédio. E quero continuar a pensar nesse conceito, assimilá-lo lentamente, muito mais lato que conforto, muito distante de vaidade. Cuidar do espaço que habitamos é normalmente associado à nossa imagem, seja a que temos de nós mesmos, seja a que pretendemos passar aos outros, conscientemente ou não. E surge-me, pela indirecta voz de Bernardo Soares, outra razão, talvez a mais acutilante.


leitora
 
sexta-feira, setembro 08, 2006
 
"...além de Caeiro, Reis, Campos, Soares, ou dos já citados Alexander Search, A.A.Crosse, Charles Robert Anon e H.M.F.Lecher, sem esquecer o Chevalier de Pas, muitos outros semi-heterónimos menores ou pseudónimos utilizou Pessoa em escritos diversos, num total que se estima em 27, como por exemplo António Mora, Vicente Guedes, o Barão de Teive, Jean Seul, que, com o seu demiurgo, foram autores de cerca de 27.000 textos!"

António Quadros

Troti
 
  Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol
Caeiro celebra o mundo conforme (aparentemente) o vê: com vocabulário simples, raros adjectivos, escassos recursos estilísticos, ausência de rima, comparações pouco complexas e até pueris. O ritmo é calmo, os versos não têm arestas nem se enrolam, encadeando-se de forma harmoniosa. Generoso nos contrastes, o poeta neutraliza as cargas negativas e positivas das palavras, quase como que reconciliando opostos, colocando tudo ao mesmo nível. Porque tudo tem o mesmo valor e Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. / Ambos existem; cada um como é.

azuki
 
  O conhecimento em Alberto Caeiro

Para Epicuro, os sentidos são fontes seguras de informação. As coisas emitem imagens. A percepção ocorre quando as imagens, através dos sentidos, atingem a alma. As imagens que chegam à alma nunca são falsas. Correspondem sempre exactamente à sua fonte. Se nos enganamos quanto à realidade, é porque usamos as imagens genuínas como base para falsos juízos.
Para Alberto Caeiro,
- As aparências são verdade: “... as coisas não têm nome nem personalidade:/Existem” (GR XXVII); ou também “o único sentido oculto das coisas/É elas não terem sentido oculto nenhum” (GR XXXIX);
- O conhecimento apreende-se pelos sentidos: “Creio no Mundo como num malmequer,/Porque o vejo. Mas não penso nele/Porque pensar é não compreender.” (GR II); e mais à frente, no mesmo poema: “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…”;
- E são juízos errados aqueles que distorcem a verdade das aparências: “É preciso não saber o que são flores e pedras e rios/Para falar dos sentimentos deles.” (GR XXVII), ou o poema X de GR.


O Alberto Caeiro, de olhar nítido como um girassol, que anda pelas estradas vendo o que nunca viu, tendo o pasmo essencial (GR II) para apreender o mundo de uma forma inocente (virgem de pré conceitos: "Procuro despir-me do que aprendi" (GR XLVI)), é um epicurista. Talvez seja mesmo um discípulo de Epicuro.

paulo

 
quinta-feira, setembro 07, 2006
  E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, / E quanto isso me basta.
Caeiro está nos antípodas da negatividade de Pessoa, embora seja tão convicto quanto este e não tenha nascido nas campinas do Ribatejo debaixo de um sol claro, mas de um universo interior feito de neblina, imagens descoladas, traços indefinidos. Quando comecei a ler ambos, cheguei a pensar que Caeiro seria aquele que Pessoa gostaria de ter sido mas, agora, vejo-o como uma das formas possíveis de apreender a realidade e de criar poesia numa abordagem estilística diferente. Ao contrário de Pessoa, cujas ideias se embrulham e parecem não se dirigir a lado nenhum, Caeiro move-se num espaço sem quebras ou arestas: na sua existência harmoniosa não existem tédios, obsessões ou encruzilhadas. Caeiro não se deixa aniquilar pela angústia existencial de Pessoa, pois não procura ver mais do que lhe é dado ver, acreditando que basta existir para se ser completo. Em tudo diferentes, menos na intelectualização das sensações.

azuki
 
 
"...Pessoa, sempre lúcido, deu também, ele próprio, uma explicação psicológica para a heteronímia, que não anda longe das conclusões de Janet, Morton-Prince e Jung, entre outros: A origem dos heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim(...), residindo na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos - felizmente para mim e para os outros - mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com os outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo.
Note o leitor que o mais extraordinário, nesta invenção dos heterónimos e na dinâmica criadora da sua poesia, não é tanto o factor de simulação e despersonalização, quanto a mundivivência própria e o correlativo carácter estético de cada um, o quanto cada um encerra e projecta de profundamente humano, de revelador de uma constituição psíquica invulgarmente complexa, de coerente entre a forma exterior prosódica e musical, do verso, e o seu conteúdo intelectual e emotivo. O que poderia ser apenas um ardil racionalista e dialéctico, invulgar decerto, mas artificial e alegórico, torna-se, assim, uma obra de génio."

António Quadros


Troti
 
  O desconhecido de si mesmo
Octavio Paz tem um ensaio chamado "O desconhecido de si mesmo: Fernando Pessoa". Recolho alguns trechos sobre a questão dos heterônimos:

"O erro é duplamente grosseiro: nem Pessoa é um mentiroso nem a sua obra é um embuste. Há algo de terrivelmente soez na mente moderna; as pessoas, que toleram toda espécie de mentiras indignas na vida real e toda espécie de realidades indignas, não suportam a existência da fábula. E isso é a obra de Pessoa: uma fábula, uma ficção. Esquecer que Caeiro, Reis e Campos são criações poéticas é esquecer demasiado. Como toda criação, esses poetas nasceram de um jogo. A arte é um jogo - e outras coisas. Mas sem jogo não há arte.
A autenticidade dos heterônimos depende de sua coerência poética, de sua verosimilhança. Foram criações necessárias, pois de outro modo Pessoa não teria consagrado sua vida a vivê-los e a criá-los; o que conta agora não é que tenham sido necessários para o seu autor e sim que o são também para nós. Pessoa, seu primeiro leitor, não duvidou de sua realidade. Reis e Campos disseram o que talvez ele nunca diria. Ao contradizê-lo, expressaram-no; ao expressá-lo, obrigaram-no a inventar-se. Escrevemos para ser o que somos ou para ser aquilo que não somos. Em um ou em outro caso, nos buscamos a nós mesmos. E se temos a sorte de encontrar-nos - sinal de criação - descobriremos que somos um desconhecido. Sempre o outro, sempre ele, inseparável, alheio com teu rosto e o meu, tu sempre comigo e sempre só.
(...) 'Sou um poeta dramático', confia em carta a João Gaspar Simões. E com tudo isso a relação entre Pessoa e seus heterônimos não é idêntica a do dramaturgo ou do romancista com as suas personagens. Não é um inventor de personagens-poetas e sim um criador de obras-de-poetas. A diferença é capital. Como diz Casais Monteiro: 'Inventou as biografias para as obras e não as obras para as biografias'. Essas obras - e os poemas de Pessoa (ele-mesmo), escritos frente, por e contra elas - são sua obra poética. Ele mesmo se converte em uma das obras de sua obra. E nem sequer tem o privilégio de ser o crítico dessa coterie: Reis e Campos o tratam com certa condescendência; o barão de Teive nem sempre o cumprimenta; Vicente Guedes, o arquivista, parece-se tanto com ele que quando o encontra, em alguma taberna de bairro, sente um pouco de piedade por si mesmo. É o encantador enfeitiçado, tão totalmente possuído por suas fantasmagorias que se sente espiado poe elas, talvez desprezado, talvez compadecido. Nossas criações nos julgam."

Paz segue discorrendo sobre os heterônimos, e ao cabo esclarece sua perspectiva sobre eles:

"São uma invenção literária e uma necessidade psicológica, mas são algo mais. De certo modo são o que Pessoa teria podido ou desejado ser; de outro, mais profundo, o que não quis ser: uma personalidade. No primeiro movimento, fazem tabula rasa do idealismo e das convicções intelectuais de seu atuor; no segundo, mostram que a sagesse inocente, a praça pública e a ermida filosófica são ilusões. O instante é inabitável como o futuro e o estoicismo é um remédio que mata. E no entanto, a destruição do eu, pois isso é o que são os heterônimos, provoca uma fertilidade secreta. O verdadeiro deserto é o eu e não só porque nos encerra em nós mesmos, e assim nos condena a viver com um fantasma, mas porque murcha tudo em que toca. A experiência de Pessoa, talvez sem que ele mesmo se tenha proposto, insere-se na tradição dos grandes poetas da era moderna, desde Nerval e os românticos alemães. O eu é um obstáculo, é o obstáculo. Por isso é insuficiente qualquer juízo meramente estético sobre a sua obra. Se é verdade que nem tudo o que escreveu tem a mesma qualidade, tudo, ou quase tudo, está marcado pelos rastos de sua busca. Sua obra é um passo para o desconhecido. Uma paixão. "


Gabriel
 
quarta-feira, setembro 06, 2006
 
I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.

Fernando Pessoa



Elsita
 
 
"Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se, ele só, em uma literatura? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito?"

Páginas Íntimas

Troti
 
  da rua dos douradores, II
Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu.

Bernardo Soares
Livro do Desassossego, 3


Acho deliciosa esta passagem inicial, desiludida/realista, da faceta profissional de BS. A rua de nome cintilante onde trabalha e mora, o patrão, os colegas, o quarto remediado, a pensão. Um homem sóbrio, quase invisível à luz do dia (ofuscado pelo nome da rua), nulo. Um anónimo que ninguém olha, que ninguém nota. Aproveita ele para observar tudo e todos, desencantadamente. E à noite, incógnito no seu quarto, escreve. Incendeia-se.


leitora
 
terça-feira, setembro 05, 2006
  da rua dos douradores, I
O coração, se pudesse pensar, pararia.

Bernardo Soares
Livro do Desassossego, 1


Viver do lado de fora da vida, observando-a; todos temos momentos em que tentamos ensaiar (sem sucesso) esta abstracção. Bernardo Soares assume-se como o actor de uma história sem factos, sem vida. O não-eu de Pessoa? O Não-Eu, apenas?

Eu, que aprecio a simplicidade, não acredito nesta simplificação - talvez BS/FP também não acreditasse, e por isso mesmo a escrevesse. Escrever pode bem ser o princípio de acreditar - por ser o princípio de se ouvir.


leitora
 
 
a cómoda *




* Casa Fernando Pessoa, Lisboa


...
laerce
 
 
"A ÚNICA REALIDADE DA VIDA É A SENSAÇÃO."

Páginas Íntimas

Troti
 
  Não tenho ambições nem desejos

(…) lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.
(Carta a Adolfo Casais Monteiro; Lisboa, 13/Jan/1935)

Os tempos verbais de eleição remetem para o natural fluir da vida: o gerúndio, pela tranquila passagem do tempo na planície ribatejana e porque tudo vai acontecendo (simultaneidade); o presente, uma vez que o passado já foi e o futuro não passa de uma mera abstracção. Caeiro é um poeta do momento, não tem recordações, arrependimentos ou frustrações. Nem sonhos ou antecipações. Ele caminha sem rumo e sente o sol a bater-lhe na cara. Aqui e agora bastam-lhe.

azuki

 
segunda-feira, setembro 04, 2006
  um poeta bucólico de espécie complicada
Escreve os poemas de “O Guardador de Rebanhos” de um só sopro. É um homem franzino, pálido, discreto, de olhos claros. Pese embora uma vasta cultura e um vivo raciocínio, possui menos capacidades literárias do que os seus três “discípulos” (tal como convém a alguém com a instrução primária e que passou a sua curta vida numa espécie de retiro campestre). Nunca foi senão uma criança que brincava. Não conheceu Fernando Pessoa. Morreu prematuramente.

azuki
 
 
o mestre



Falar da alma das pedras, das flores e dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.

Do poema XXVIII

Gosto de ler a poesia de Caeiro como se estivesse dentro de um comboio a ver a paisagem sobre a cadência das rodas nos trilhos. Por que motivo deveria ver mais do que isso nos poemas de Caeiro? Se quisesse ver para além do que a janela me revela, rapidamente cegaria sob o peso dos meus pensamentos.

...
laerce
 
 
Tenho pensamentos que, se os pudesse concretizar e fazer viver, acrescentariam uma nova claridade às estrelas, uma nova beleza ao mundo e um amor maior ao coração dos homens.

Páginas Íntimas

Troti
 
domingo, setembro 03, 2006
  A quem interessar possa

Senão todos, grande parte dos poemas de Alberto Caeiro pode ser encontrada aqui:

http://www.secrel.com.br/jpoesia/caeiro.html



Gabriel
 
sábado, setembro 02, 2006
  Em que Fernando Pessoa se apresenta:
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Nota biográfica escrita por Fernando Pessoa em 30 de Março de 1935 e publicada, em parte, como introdução ao poema editado pela Editorial Império em 1940 e intitulado: "À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais"


Gabriel

 
sexta-feira, setembro 01, 2006
  Fernando Pessoa: o paradoxo sou eu
Fernando Pessoa irá monopolizar a atenção da Leitura Partilhada em Setembro, principalmente com o heterônimo que é considerado pelo próprio Pessoa como "Mestre": Alberto Caeiro. Deste não se pode dizer muita coisa - mais importante é o que não se diz.
De mãos dadas com Caeiro, leremos alguns fragmentos escritos por Bernardo Soares, semi-heterônimo, autor (?, talvez assunto para próximos posts) do Livro do Desassossego.
Mergulhemos, de cabeça, no paradoxo.

Gabriel
 
  Porque são muitos, o Leitura Partilhada vai dedicar-lhes três meses











Sê plural como o universo!
azuki
 

O QUE ESTAMOS A LER

(este blogue está temporariamente inactivo)

PROXIMAS LEITURAS

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

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