Leitura Partilhada
domingo, agosto 31, 2008
  A memória do mundo - Italo Calvino
Este livro reune um conjunto de contos escritos ao longo da vida de Calvino, que só tinham sido publicados em jornais, tendo o livro sido editado já depois da morte do autor.
O livro tem uma primeira parte onde se encontram contos do principio da vida de Calvino , sendo contos de maior intervenção social e politica. Na primeira parte do livro - Apólogos e Contos 1943-1958 , destaco os pequeninos contos (Apólogos) "Lampejo" , "Quem se contenta" , "Consciência" , "Solidariedade" , "A ovelha ranhosa". O conto que mais curiosidade me despertou foi "Um general na biblioteca". Este é sem dúvida o conto que mais marca este livro, e que só pelo titulo me deixou com muita vontade de o ler. Neste conto Calvino descreve como numa nação chamada Pandúria é decidido que o general Fezinha e o seu pelotão irão ocupar a maior biblioteca do país, com o objectivo de examinar todos os livros, procurando os que têm opiniões contrárias ao prestigio dos militares.
Um Link para o conto "Um general na biblioteca"
A segunda parte do livro - Contos e Diálogos 1968 - 1984, tem um conjunto de contos com temas variados. Aborda assuntos como a escassez de petróleo e de água , nos contos "A bomba de gasolina" e em "O apelo da água". Em outros contos vai seguir caminhos de maior fantasia como em "O espelho, o alvo" ou "O último canal". Nesta segunda parte do livro gostei bastante do conto "O incêndio da casa abominável", onde faz uma tentativa para resolver um crime através de um raciocinio de máquina , seguindo os passos de como um computador pode tentar resolver um crime. Também gostei muito dos contos "Antes que digas «Está?»" , "Glaciação" e as "As memórias de Casanova" onde Calvino escreve sobre as relações entre os homens e as mulheres.

Como é natural para quem já leu outros livros de Italo Calvino, o que se pode esperar de todos estes contos é uma enorme variedade de perguntas e interrogações sobre como funcionam as coisas , como se relacionam os individuos com o mundo exterior, tudo isto misturado com grandes quantidades de imaginação e fantasia.


Luis Neves

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sábado, agosto 30, 2008
 


"Observe o ponto uma vez mais. É aqui. É a nossa casa. Somos nós.
Nele vivem ou viveram todas as pessoas que ama, todas as pessoas que conhece, todas as pessoas de que ouviu falar, todos os seres humanos que alguma vez existiram.A conjunção da nossa alegria e do nosso sofrimento, milhares de religiões confiantes, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e recolectores, todos os heróis e cobardes, todos os criadores e destruidores da civilização, todos os reis e camponeses, todos os jovens casais apaixonados, todas as mães e pais, crianças esperançadas, inventores e exploradores, todos os professores de moral, todos os políticos corruptos, todas as «superestrelas», todos os «líderes supremos», todos os santos e pecadores da história da nossa espécie viveram lá – numa partícula de poeira suspensa num raio solar.

A Terra é um palco muito diminuto na vasta arena cósmica. Pensemos nos rios de sangue vertidos por todos aqueles generais e imperadores para que, em glória e triunfo, pudessem ser momentaneamente os senhores de uma fracção de um ponto. Pensemos nas crueldades intermináveis infligidas aos habitantes de um dos cantos do pixel pelos dificilmente discerníveis habitantes de outro canto, na frequência dos seus desentendimentos, na ânsia de se matarem uns aos outros, no fervor dos seus ódios.

A nossa posição, a nossa auto-importância imaginada, a ilusão de que ocupamos um lugar priveligiado no universo são desafiadas por este pequeno ponto de luz clara. O nosso planteta é uma partícula solitária numa imensa escuridão cósmica envolvente. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há nenhum indício que venha a surgir alguma ajuda do exterior para nos salvar de nós próprios."


Carl Sagan, O Ponto Azul-Claro
Uma leitura recomendada em qualquer planeta e em qualquer tempo.

E ainda, o texto lido pelo autor...desafio-te a não te emocionares.





cristina

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sexta-feira, agosto 29, 2008
  Observação de pássaros, as Leituras e os Blogues
A invasão dos estorninhos
...
As observações dos pássaros sucedem-se e multiplicam-se a um ritmo tal que para as reordenar na sua memória o senhor Palomar sente a necessidade de as comunicar aos amigos. Também os amigos têm qualquer coisa a dizer sobre o assunto, porque a todos eles já aconteceu interessarem-se pelo fenómeno, ou porque o seu interesse lhes foi despertado por ele. É um assunto que nunca se pode considerar esgotado e, quando um dos amigos pensa ter visto alguma coisa de novo ou ter de rectificar uma impressão precedente, sente-se na obrigação de telefonar imediatamente aos outros. É deste modo que um vaivém de mensagens escorre através da rede telefónica, enquanto o céu é sulcado por exércitos de voláteis.

- Viste como conseguem sempre evitar-se uns aos outros, mesmo quando voam mais cerrados, mesmo quando os seus percursos se cruzam? Parece que têm radar!
- Não é verdade. Encontrei na calçada pássaros feridos, agonizantes ou mortos. São as vítimas dos choques em voo, inevitáveis quando a densidade é demasiado grande.
- Já percebi porque é que no fim da tarde continuam a sobrevoar todos juntos esta zona da cidade. São como os aviões que andam às voltas sobre os aeroportos à espera de receberem o sinal de «pista livre» para aterrarem. É por isso que os vemos a voar em círculos durante tanto tempo; estão à espera do seu rumo, para poisarem sobre as árvores onde vão passar a noite.
- Eu vi como fazem quando descem a pique sobre as árvores. Andam às voltas no céu, em espiral, e depois, um a um, precipitam-se velozmente para a árvore que escolheram, travam bruscamente r poisam sobre o ramo.
livro "Palomar" , Italo Calvino


E o prazer de ler um livro é parecido, é semelhante , é quase igual ....

imagem retirada do blog enTrópico


à observação de estorninhos.


Palomar é um livro muito divertido. As observações minuciosas do Sr.Palomar sobre as diferentes situações criam e geram um conjunto de descrições com um grande sentido de humor.

Obrigado Belém e Azuki, pela vossa sugestão de leitura. Um livro bem refrescante para este verão.


Luis Neves

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outro desafio quase livre, ou a pré-leitura como estratégia de empatia







De que poema gostas mais na Mensagem de Fernando Pessoa? Só um!

imagem: algures na net

Clarinda

 
quinta-feira, agosto 28, 2008
  Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes

O meu cheiro não é bom mas tornou-se o único lugar habitável.
Baía dos Tigres
, Pedro Rosa Mendes, Publicações Dom Quixote

Teria preferido maior equilíbrio em termos geográficos (Angola é o epicentro da narrativa, dos restantes pouco se fala – Zâmbia, Moçambique, Congo, Namíbia -, e o longínquo Cambodja aparece por via da guerra e das minas) e alguma linearidade no percurso (tanto estamos no arruinado Huambo, como regressamos a Benguela, para de imediato nos vermos transportados à desolação da Jamba). Mas isso pouco interessa, pois a manta de retalhos, propositada, obriga a uma pedagógica consulta do mapa. Pedro Rosa Mendes escreve de forma primorosa e tem uma sensibilidade e uma coragem extraordinárias. Baía dos Tigres foi dos raros livros que, na vida, me causaram arrepios.

azuki
 
quarta-feira, agosto 27, 2008
  Luz em Agosto
Neste Verão decidi (re) ler Faulkner.
Comecei por um livro que nunca li “Luz em Agosto”. Neste, ao contrário da luz encantatória de Cacela Velha (Algarve) de onde escrevo este post; assisto a um atmosfera de violência em redor da religião, da sexualidade, do racismo (e aqui faz-me pensar na importância de Obama) e da responsabilidade. As personagens agarram-nos na carne. É a luz da fúria naquele horror; haverá esperança para Christmas?
Lembra Cormack Mcarthy no seu Meridiano de Sangue; apesar da violência ser de outro jaez (mais no recôndito da alma). Talvez não seja a melhor leitura para férias…
Estes livros nunca acabam.
O próximo a ler é o Santuário de Faulkner, que li na minha adolescência e de que gostei muito.
Boa luz
Castela
 
terça-feira, agosto 26, 2008
 
Drummond em Copacabana (foto minha)

que bom
que bom que é
que bom que é ler um livro
que bom que é ler um livro em Copacabana
que bom que é fazer o que quer que seja em Copacabana

azuki
 
segunda-feira, agosto 25, 2008
  Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio

Creio que o isolamento de cada ilha açoriana dá lugar à constante presença de um fantástico individual, que percorre de um modo exemplar o romance de Nemésio, desde a personagem mais singela até à de maior complexidade. Fantástico individual que está em luta aberta contra um maravilhoso colectivo. Assistimos a um descer dentro de cada um, como se dentro de si pisassem os degraus da escada em curva - perfeita sucessão de serpentes cegas - que levam, na geografia insular, ao lago subterrâneo da ilha Graciosa; a única das cinco ilhas centrais que as páginas de Mau Tempo no Canal não contemplam.
Do prefácio de João Miguel Fernandes Jorge

Maria dos Anjos Guerra

Estive fora grande parte de Junho, pelo que não pude acompanhar a leitura de Mau Tempo no Canal, mas não quis deixar de ler a obra-prima do grande comunicador e intelectual, de quem eu nada conhecia (com excepção da sua biografia, um pequeno livro escrito por David Mourão-Ferreira para a INCM). Resolvi, por isso, fazer-me acompanhar pelo belo tijolo laranja da Relógio D´Água durante a primeira quinzena do mês seguinte (que prazer ter um exemplar desses nas mãos: capa bonita, papel macio, agradável fragrância, cor quente, elegante tipo de letra, interessante prefácio de João Miguel Fernandes Jorge, tudo sem gralhas, sem falhas, maravilhosa Relógio D´Água). Foi assim que me vi embrenhada nas ilhas, na tranquilidade e na opressão das ilhas, no seu aroma salgado, nos costumes das suas gentes, no modo como nos fazem sentir seguros e ao mesmo tempo aprisionados os seus mil caminhos para o mar, nas palavras antigas de uma prosa que já não é. E na luta da jovem Margarida Dulmo Clark contra a asfixia dos Açores no princípio do século XX, mera necessidade de respirar tida como rebeldia. Poucos dias passados, uma amiga regressada dos Açores envia-me esta foto fabulosa da ilha do Pico, vista do Faial (obrigada, Nina). Uma coincidência extraordinária, que me fez viajar de imediato até ao universo de Nemésio e recordar essa paisagem onde nunca estive e que tantas vezes imaginei nesses meus dias de Julho. Mau Tempo no Canal não me marcou, nem encantou, mas deixou em mim uma imensa vontade de ir.

azuki
 
domingo, agosto 24, 2008
  Desafio Leitura Livre
Decidi aderir à moda dos desafios nos blogs:

DECLAREM O QUE ESTÃO A LER, NESTE MOMENTO!
Agosto a terminar, já se vê o rosto de Portugal, lá longe...

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  Poetas Andaluces



Vi no Blog do LudoRex - Momentos & Documentos , e apeteceu-me copiar aqui para o LP
Eu tinha este disco de vinil cá em casa e adorava esta música , e a do lado B também mas já não sei qual era.
Como a Belém pôs um texto em castelhano , eu tabém quis pôr um e escolhi um bocadinho do fim desta canção.

Poetas Andaluces


Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.

Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.

Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.

encerrado. su canto asciende a más profundo

cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

de Rafael Alberti

no blog A cantiga foi uma arma

Luis Neves

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sábado, agosto 23, 2008
  a biblioteca da Quinta da Regaleira


imagens da Quinta da Regaleira (fotos minhas)

Um dos sítios fascinantes em Portugal (já a Clarinda aqui o tinha escrito, motivo pelo qual lá fui) é a Quinta da Regaleira, em Sintra. Dela, retenho: (i) a aura enigmática e excêntrica, ligada ao esoterismo e à Maçonaria, com toda aquela simbologia e códigos difíceis de destrinçar, e cujo ponto alto é o Poço Iniciático; (ii) a bela arquitectura rendilhada, que também nos faz viajar até ao Buçaco (basta um primeiro olhar, para perceber que o arquitecto é o mesmo); (iii) os recantos dos seus jardins luxuriantes, os caminhos por entre as árvores, os lagos e as grutas; (iv) um exemplar de bolso dos Lusíadas, encontrado no palácio; (v) a subida à torre e a paisagem que nos envolve, ao fundo o castelo e o palácio da Pena. O único pormenor que falha é a biblioteca, cujo estilo moderno e incaracterístico não combina mesmo nada com a atmosfera daquele lugar - de facto, em tão incomum local, a linear brancura das prateleiras da sua biblioteca acaba por ser o traço mais bizarro da Quinta.

azuki
 
  Um casamento
Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados.

Memorial do Convento
José Saramago

Cristina

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sexta-feira, agosto 22, 2008
  Blow-up: [nuvens brancas]
e fica, afinal, tudo (ou quase tudo!) por dizer... e o mundo segue lá fora, sob nuvens (ou na sua ausência), para lá da nossa janela...



Ahora pasa una gran nube blanca, como todos estos días, todo este tiempo incontable. Lo que queda por decir es siempre una nube, dos nubes, o largas horas de cielo perfectamente limpio, rectángulo purísimo clavado con alfileres en la pared de mi cuarto.



Julio Cortázar, Las babas del diablo



belém

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  Blow-up: Julio Cortázar
Confesso-me enamorada por Cortázar. desconfio que será um namoro prolongado, mas com algumas cisões (O Bestinário, faz-lo adivinhar).

Uma das contingência do LP é ter de nele tentar resumir num post aquilo que nos maravilhou, chocou ou outros verbos que se possam lembrar de futuro. E tentamos fazê-lo, copiando uma frase e dando-lhe (ou não) a nossa voz, a nossa percepção (porque às vezes as palavras bastam-se e é quase um sacrilégio pretender traduzi-las para a nossa voz).

Cortazár é assim. Há a tentação de copiar o conto inteiro... e sussurrar para os restantes blogueiros: leste, leste isto?! É fecha-se o círculo. Já estamos no LP, que é precisamente isso, querer partilhar os livros e todos os outros verbos de que se lembrem de futuro.

cristina

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  pode-se acabar este conto de várias maneiras diferentes
A história de Blow-up desenvolve-se em dois momentos, nos quais o escritor e fotógrafo Roberto Michel procura uma explicação de um encontro entre uma mulher e um rapaz, que presenciou numa pequena praça de uma ilha de Paris.

No primeiro momento Michel pretende contar a história do encontro de uma mulher que está a seduzir um jovem. O fotógrafo pretende tirar uma foto que fixe e mostre esse momento da sedução da mulher. Mas ao tirar a fotografia , o par apercebe-se que foi fotografado, e a mulher vai entrar em conflito com o fotógrafo. A partir daqui os acontecimentos alteram-se, o jovem vai fugir. A sua fotografia provoca uma interferência e uma alteração aos acontecimentos que previa.

" aquela fotografia havia sido uma boa acção "

Num segundo momento do conto, passado algum tempo depois de tirar as fotografias, a acção é só entre o fotógrafo Michel e a fotografia do encontro do casal que foi muito ampliada e que ele tem pendurada em frente da sua mesa de trabalho. Há uma obsessão do fotógrafo pela fotografia e com aquela história. Ao olhar em pormenor os detalhes da foto ampliada, e da direcção do olhar do rapaz, o fotógrafo percebe que a história era diferente da que ele imaginara.

" O rapaz estava mais receoso que irritado, uma ou duas vezes espreitou pelo ombro da mulher e ela continuava a falar, a explicar qualquer coisa que o levava a olhar a cada instante para a zona onde Michel sabia muito bem que estava o carro com o homem do chapéu cinzento, cuidadosamente desviado da fotografia mas refletindo-se nos olhos do rapaz "

Era mais perversa que a primeira que ele tinha imaginado. Ele vai reconstruir a história e deduz que a mulher está a tentar seduzir o rapaz para ter um encontro com o homem que está dentro do carro. Pelo olhar e a expressão do rapaz, o fotógrafo percebe que o rapaz vai entrar nesse "jogo".

" o de se decidir perante a minha impotência, o de que o rapaz olhara outra vez para o palhaço enfarinhado e eu compreendera que ele ia aceitar, que a proposta continha dinheiro ou engano "


A partir daqui o conto entra numa forma mais irreal e imaginária, que está mais ligado à liberdade de Cortásar poder "saltar" ou recuar no tempo, e recomeçar de novo a mesma cena. Há como um retorno à cena anterior, ou como no cinema um voltar atrás na pelicula até ao momento da fotografia.
Ou então, e porque fiquei muito influenciado pela leitura que fez a Belém , o fotógrafo quando está a analisar a ampliação, vai sofrer uma "Metamorfose" ou é "transferido para a imagem" que o faz entrar dentro da própria fotografia, mas uma fotografia em movimento, tal como a entrar por um filme dentro.
Também pode ser a máquina fotográfica que passa a comandar as operações ( novamente Metamorfose em máquina), e interfere no que está a acontecer na praça. Parece que é uma máquina fotográfica que faz focagens e aproximações de imagem, e que vai fazer alterar o que se está a passar, no encontro entre o homem , a mulher e o rapaz.
E a sua entrada novamente na mesma cena, vai alterar novamente aquele encontro entre o homem e o rapaz. E vai dar mais uma vez a possibilidade de o rapaz fugir, e recusar aquele encontro.

Luis Neves

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  Blow-up: ou a Baba do Diabo
ou, melhor ainda, o título incompreendido. vejamos, Julio Cortázar é alheio a "blow-up"; o que ele realmente escreveu foi "a baba do diabo". e fico dividida... por um lado não é bonito termos renegado o título original do conto, e aderido ao alternativo, mais comercial, proposto pela adaptação a filme. por outro, condescendo: talvez por infelicidade da tradução, ou por ser uma expressão impassível de tradução, "baba do diabo" a mim não me soa a nada de nada. o mais próximo que consigo ir é a "injúria ou malevolência do diabo (da mulher!)", espuma, secreção irritada. não, não melhora. fiquemos pelo golpe... ainda que com travo insatisfatório...


belém

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  Blow-up: fim de jogo
Não havia necessidade de avançar mais, o jogo estava jogado.
Blow-up, Julio Cortázar
cristina

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azuki
 
quinta-feira, agosto 21, 2008
  Blow-up: arte

«fiquei à espreita, certo de que apanharia por fim o gesto revelador, a expressão que tudo resume, a vida que o movimento pautua mas que a imagem rígida destrói ao seccionar o tempo, se não escolhermos a imperceptível fracção essencial.»



e a arte estará, então, contida nessa fracção imperceptível e essencial - assim como a essência da vida. e aí voltamos à natureza de memória e de verdade da boa fotografia - capaz de resumir tudo o que é essencial, guardar a diferença, o significado íntimo. a solução para a nossa memória imperfeita, a nossa memória inventiva e deturpadora. felizmente (felizmente!) são poucas as fotografias perfeitas - continua o reino da interpretação e da reinvenção.


belém

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  Blow-up: matérias-puras
«o vento, a luz do Sol,
essas matérias sempre novas para a pele e para os olhos»



os elementos capazes de nos emocionar, de nos surpreender, são compostos de instantes únicos e irrepetíveis - quando temos sorte, quando somos capazes de nos deixarmos apaixonar. assim, nunca repetimos o olhar, nunca repetimos a música que ouvimos - se olharmos, se ouvirmos...


belém

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  Sugestão, Para quem gosta de fotografia
A propósito do conto Blow-up tem-se escrito muito sobre fotografia aqui no LP. E porque não ir ver uma exposição de fotografia? venho divulgar uma exposição de um grande amigo da minha mãe. A exposição chama-se "Os ciganos do Sul", de Renato Monteiro , e está a decorrer no Padrão dos Descobrimentos em Belém. Um conjunto muito bonito de fotografias a preto e branco da comunidade cigana do sul de Portugal. A exposição acaba no meio de Setembro, ainda têm um tempinho para ir lá ver.

foto do blog fotografares


Se quiserem ver algumas fotografias deixo aqui o Link do seu blog fotografares

E também porque o Renato escreve uns poemas muito bonitos, deixo-vos aqui dois pequenos poemas de uma edição de autor "O Sol no tecto" dos anos oitenta.

Transcurso

Recuso a viagem do rigor
Da mão sobre o volante

Sou um insecto
Asa e voo pelo ar

Tino
sem destino

Intercepto a recta
Invento o segmento
Que sinto

Risco a direcção
Em busca do novo
Sobre o novo
Sentido

Uma Mulher

Por sobre o véu
O teu olhar concebe o meu

És a casa móvel
E a janela aberta

Eu o largo estrangeiro
Para os teus pés

Tu a raiz presa
A nenhuma terra

O impulso da sede
Em busca da água

em "O sol no tecto", Renato Monteiro

O último poema Uma Mulher é para a Azuki,
porque também te lembras de mim, e isso é bom,
e mais um sorriso também.

Luis Neves
 
  Sem criatividade e cultura não é possível termos uma economia moderna
Há que explicar que a cultura é uma actividade central da actividade política, para além da economia, das relações internacionais… [...] É uma espécie de cimento do comportamento social. Sem criatividade e cultura não é possível termos uma economia moderna. Uma economia baseada em equipamentos e depois numa mão-de-obra relativamente pouco qualificada que faz trabalhos mecânicos está completamente ultrapassada. [...] Hoje as economias são baseadas no conhecimento e na criatividade, na capacidade de inovar. E não se pode inovar sem que haja uma mobilização do conhecimento para transformar o saber num saber activo.
José António Pinto Ribeiro, Diário Económico, 18 de Agosto

azuki
 
  Blow-up: A impotência
"De súbito a ordem invertia-se, eles estavam vivos, movendo-se, decidiam e eram decididos, caminhavam para o seu futuro…"
Voltar à primeira página:
"eu, que estou morto..."
cristina

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quarta-feira, agosto 20, 2008
  Blow-up: congelar a verdadeira realidade

«É curioso que a cena (o nada, quase: dois que ali estão, desigualmente jovens) tivesse como que uma aura inquietante. Pensei que isso era dado por mim e que a fotografia, se a chegasse a tirar, restituiria as coisas à sua estúpida verdade.»


fotografia lente. fotografia intérprete. fotografia frieza e rigor. fotografia, muito para lá da arte ou da memória...



belém
 
  Blow-up: A mulher vítima
"…pareceu-me que a mulher, de costas para o parapeito, passeava as mãos pela pedra, com o clássico e absurdo gesto do perseguido que procura saída."
cristina

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  Blow-up: Adolescência

«a cidade misteriosa dos anos, com sinais nas portas, gatos arrepiados, pacotes de batatas fritas a trinta francos, a revista pornográfica dobrada em quatro, a solidão como um vazio nos bolsos, os encontros felizes, o fervor por tanta coisa incompreendida mas iluminada por uma amor total, pela disponibilidade semelhante ao vento nas ruas.»




poderia mentir de duas formas: ou fazer que já não me lembro do drama da adolescência, ou florear, reler o passado, embelezá-lo pelo tempo irremediavelmente perdido. corrigi-lo e torná-lo belo, a roçar o perfeito.


não o farei. ser adolescente é horrível, é um género de castração: imaginar, poder tudo na nossa cabeça e tropeçar em proibições e autorizações por "assinar". ser adolescente é aprender a odiar o não, e procurar formas de transgredir discretamente.

adolescência só é boa e bela e perfeita vista a muita distância.

(sejamos realistas!!!)


belém

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  tirei a foto
Michel é culpado de literatura , de maquinações irreais.
Nada lhe agrada mais que imaginar excepções, indíviduos fora de série, monstros nem sempre repugnantes. Mas essa mulher convidava à invenção, dando talvez as chaves suficientes para acertar com a verdade.
... Abri todo o visor e tirei a foto.
... , mas ela irritada , manifestamente hostis o seu corpo o seu rosto que se sabiam roubados, ignominiosamente presos numa pequena imagem química.

Blow-up, Julio Cortázar

Neste conto Blow-up, Cortázar faz uma tentativa de desvendar um encontro entre uma mulher e um jovem, que o fotógrafo Roberto Michel presencia numa pequena praça de Paris.
Será possivel através de uma observação de uma cena à distancia ou de uma imagem que ele obtém da sua máquina fotográfica, que se possa reconstruir uma história ou reescrever essa história. Este é o exercicio que o autor faz neste conto.
O fotógrafo vai tentar captar a imagem que pretende ser a perfeita, para mostrar que a mulher seduz o jovem, pois é essa a história que imagina ser a verdadeira (será ou não será?).
Mas a sua intromissão na cena é descoberta, e não é bem aceite pela mulher.
Uma velha questão se coloca; se temos o direito ou não de fotografar as pessoas sem a sua autorização. A nossa imagem pertence-nos? Se nos tiram uma fotografia ou se nos filmam em público estão a "roubar" a nossa imagem?
Esta é uma questão que deve existir desde que se começou a tirar as primeiras fotografias.

Luis Neves

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azuki
 
  Blow-up: A mulher diabo
"A mulher avançava na sua tarefa de manietar suavemente o rapaz, de o despojar fibra a fibra dos últimos restos da sua liberdade, numa lentíssima tortura deliciosa."
cristina

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terça-feira, agosto 19, 2008
  Blow-up: acto de narrar

«Não descrevo nada, tento sobretudo entender.»




desde o início que o narrador se nega a si próprio, hesita, não assume completamente as suas razões nem o seu móbil. o narrador fotógrafo, em transe com as núvens e os pássaros (voltaremos às núvens), não garantidamente vivo, que se diverte enquanto adia a narrativa, divaga, justifica cada movimento. afinal, poderá não nos querer contar nada - nós, leitores adivinhados, sem nenhuma importância, apenas como ponto de fuga. o narrador que não sabe, que se sabe enganado (pelo olhar), que pretende tão somente entender - não o que viu, mas o que aconteceu de facto, e como foi iludido. (?)



belém

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  Blow-up: Michel


Constatamos que Cortázar não conseguiu decidir-se (ou decidiu?) quando ao sujeito e como tal temos o Roberto Michel, ora na terceira pessoa, ora na primeira.


É para se apresentar e para se repreender que sai de si. A culpa é da "literatura"…


cristina

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  Blow-up: Olhar

«Julgo que sei olhar, se é que sei alguma coisa, e que todo o olhar resume falsidade, porque é o que nos lança mais para fora de nós próprios, sem a mínima garantia»





agora:

1) substitua olhar por ler e por leitura (Julgo que sei ler, se é que sei alguma coisa, e que toda a leitura resume falsidade, porque é o que nos lança mais para fora de nós próprios, sem a mínima garantia)


2) e, porque não, substitua olhar por amar e por amor (Julgo que sei amar, se é que sei alguma coisa, e que todo o amor resume falsidade, porque é o que nos lança mais para fora de nós próprios, sem a mínima garantia)


e decida de qual das variações se aproxima mais.

é quase um crime fazer este exercício, eu sei. arrisco-o porque para o narrador a fotografia estará como está a leitura para si, leitor, e porque é um acto de paixão injustificada, apesar das tremendas compensações pontuais. tente, então, pesar a frase...

belém

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azuki
 
  Blow-up: Fotografia III

"Custa-me insistir, mas acabam de passar duas grandes nuvens esfarrapadas, …"


E assim, Cortázar vai criando a imagem de fundo da sua fotografia/conto.


cristina

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segunda-feira, agosto 18, 2008
  Blow-up: [tempo] correndo imóvel

podia ficar sentado no muro sobre o rio, vendo passar as barcaças negras e vermelhas, sem que me ocorresse pensar fotograficamente as cenas, deixando-me simplesmente ir no deixar-se ir das coisas, correndo imóvel com o tempo.



o intervalo entre a frase que transcrevi anteriormente e esta é falso, artificial. no conto as duas frases são contíguas - e este é mais um encanto de Blow-up, se tivermos a capacidade de ler devagar, quase sem ler, sorvendo cada palavra, cada frase
belém

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  Blow-up: Fotografia II

"quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder esse brusco e delicioso reflexo de um raio de sol numa velha pedra"

cristina

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  Blow-up: [tempo] agora
(que palavra, agora, que estúpida mentira!)



assim, entre parêntesis, entre vírgulas, e com um ponto de exclamação, Cortázar comunica-nos: afinal, AGORA não existe, não passa de uma ilusão - pior!, de uma mentira.

que possuimos, afinal, do tempo? apenas a memória do passado?

belém

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  A Erva Canta, Doris Lessing

Quando os velhos imigrantes dizem: “É preciso uma pessoa compreender o país”, pretendem dizer: “Você precisa habituar-se às nossas ideias a respeito dos nativos”. Na realidade, estão a dizer: “Aprende as nossas ideias ou põe-te a mexer; não te queremos cá!”.
Muitos desses jovens haviam sido educados com vagas ideias a respeito da igualdade. Nas primeiras duas ou três semanas ficavam chocados com o modo como os nativos eram tratados. Cem vezes ao dia, sentiam-se revoltados pelo modo como as pessoas os tratavam, como se fossem animais. Vinham preparados para tratá-los como seres humanos. Mas não podiam erguer-se contra a sociedade a que tinham vindo juntar-se. Não levavam muito tempo a mudar. Era difícil, claro, tornarem-se igualmente maus. Mas não continuavam muito tempo a considerar esse comportamento como “mau”. E, afinal, que valor tinham essas ideias? Não passavam de ideias abstractas a respeito da decência e boa-vontade: ideias meramente abstractas. Na vida a sério, a pessoa nunca tinha qualquer contacto com os nativos fora da relação patrão-servo. Nunca eram conhecidos no contexto da sua vida particular como seres humanos. Em poucos meses, esses jovens decentes e sensíveis ressequiam de modo a se adaptarem à terra dura, árida e impregnada de sol para onde tinham vindo; tinham criado novos modos mais a condizer com a pele mais espessa e queimada pelo sol e com os corpos mais rijos.
(
A Erva Canta, Doris Lessing, Publicações Europa-América)

azuki

 
  Blow-up: Fotografia I
Fonte

"Entre as muitas maneiras de combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, actividade que deveria ensinar-se muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, golpe de vista e dedos seguros."

cristina

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domingo, agosto 17, 2008
  Blow-up: Cortázar e a Subjectividade do Tempo
um pouco na sequência da gestão do tempo, a proposta de vídeo para esta noite: Subjetividad del Tiempo - Voz de Julio Cortazar.




(curiosamente, uma das imagens mais fortes que guardo de Buenos Aires é a dos cartazes colados nas paredes. nem de propósito...)

belém

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  Blow-up: Cortázar e as artes
para lá da literatura, a obra de Cortázar namora sempre de perto outras artes, com destaque para a música constante no Rayuela, e neste conto para a fotografia. assemelha-se a um amor transversal às artes em geral, com constante admiração pela beleza crianda e ainda mais pela dedicação do artista. mais do que uma marca da tribo a que indubitavelmente pertenciam quer Cortázar quer as suas personagens, antevê-se o idealismo de crer na capacidade da arte (e da disciplina de a amar) nos tornar melhores.





belém

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  Blow-up: para o leitor

"melhor é contar, talvez contar seja como uma resposta, ao menos para aquele que ler"

Curiosa esta apresentação que de certo modo resume a obra de Cortázar: cabe ao leitor ler e com essa tarefa, "reescrever".

Mas caro/a leitor/a, uma advertência: Cortázar frequentemente nos deixa sem respostas.

cristina

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  Blow-up: e um tratado de literatura
o mais fantástico ao iniciar a leitura deste livro, e apesar de ser um conto, e apesar de ter poucas páginas, e apesar de todas as expectativas que o autor arriscou, porque não começar por um breve esboço de um tratado de literatura, versão Cortázar?

primeiro parágrafo: escolha do narrador, importância e implicações

segundo parágrafo: como/quem escreve; o autor, a máquina de escrever, toc toc toc, a folha de papel branco e o confronto

segundo parágrafo, ainda: porque escreve um autor, porque conta, o que conta, porquês com sentido e sem sentido nenhum

segundo parágrafo, a fechar: e por onde se começa a história, qual das pontas, o princípio, a ponta de trás, porque não...

terceiro parágrafo: regresso ao autor, porque escreve, porque tem de contar - afinal, narrador, porque tem de partilhar a história, o narrador....

quarto parágrafo: encontrar a forma de contar, independentemente da ponta pela qual se escolhe começar

quinto parágrafo: a escolha do ritmo, as dúvidas da forma, as hipóteses, as alternativas

quinto parágrafo, o fim do princípio: "melhor é contar, talvez contar seja como uma resposta, ao menos para aquele que ler."



vejamos... cinco parágrafos, os primeiros, um conto, texto curto. nada da história, nada. e já um mundo inteiro de literatura que se abre sobre nós, leitores.

sinto que poderia escrever um longo texto analítico apenas com base neste cinco parágrafos. não o farei. penso no motivo, no adiamento, no jogo. penso que gosto especialmente do jogo. reconheço que mesmo sem saber o que se segue (e que poderá ser uma tremenda desilusão, uma falsa partida), o conto e Cortázar já ganharam. e eu, bem, eu ganho com eles.

a literatura baseia-se na forma de contar e na gestão do tempo, e os autores distinguem-se no modo como trabalham estas duas matérias primas, história e tempo. autores há especialistas em história, outros craques em tempo. e depois há os melhores, os autores completos. contudo, a arrumação em cada uma das categorias é totalmente subjectiva. cada um que arrume Cortázar (e todos os demais) como entenderem, que os mudem de gaveta, que eu, por cá, farei constantemente o mesmo.
belém

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  Blow-up: A reconciliação

Mas de parvo tenho apenas o destino, e sei que, se sair esta Remington ficará petrificada sobre a mesa com esse ar duplamente quieto que têm as coisas móveis quando não se movem.”

Julio Cortázar
Blow-up, in Blow-up e outras histórias

E com esta simples frase começa a minha reconciliação com Cortázar, depois da leitura do Bestiário.

cristina

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sábado, agosto 16, 2008
  Blow-up: "um conto é como andar de bicicleta"
Julio Cortázar será talvez tão conhecido pelo seu livro maior, Rayuela, como pelos seus diversos livros de contos - estes últimos muito mais conhecidos e lidos.


Tendo sido inquirido sobre a a natureza de conto dos seus textos curtos, Cortázar responde:


Cada escritor tiene su propia idea del cuento. En mi caso, el cuento es un relato en el que lo que interesa es una cierta tensión, una cierta capacidad de atrapar al lector y llevarlo de una manera que podemos calificar casi de fatal hacia una desembocadura, hacia un final. Aunque parezca broma, un cuento es como andar en bicicleta, mientras se mantiene la velocidad el equilibrio es muy fácil, pero si se empieza a perder velocidad ahí te caes y un cuento que pierde velocidad al final, pues es un golpe para el autor y para el lector.


é então este o desafio que nos propõe a leitura de um dos seus contos: criar tensão e capturar-nos para um final, em velocidade vertiginosa, por forma a não podermos, de todo escapar.

são exactamente estas as minhas expectativas, e é sempre bom quando o escritor está consciente das melhores expectativas do leitor. señor, se assim é, abro o livro de imediato. (logo lhe direi se sim, ou se fico zangada.)


belém

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  Blow-up: As palavras de Julio Cortázar

Nova coincidência? Lembram-se da entrevista de ALA com Mário Crespo?

cristina

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  Blow-up: Julio Cortázar (2)
antes de mais, há que saber alguma coisa sobre o autor e a sua obra - para se fazer escolhas. a mim ensinaram-me este caminho encantado, o que para mim continua a ser o melhor site de/sobre Cortázar. recomendaram-mo vivamente, por ter muitos excertos de textos do autor: "assim verás porque tens de ler imediatamente".



nesta página ouvi vezes sem conta o amor, na voz de Cortázar, declamada de um dos capítulos de Rayuela "Toco tu boca". e nela procuro novas aproximações aos textos e ao autor - nos excertos, nas entrevistas, nas entrelinhas dos dados biográficos e bibliográficos.


e, para quem quiser ler o conto "blow-up" na versão original, poderá fazê-lo a partir desta página.


belém

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  Blow-up: Julio Cortázar
Há coisas que se começam pelo início. E na minha leitura partilhada/livre do Julio Cortázar também comecei por uma breve pesquisa sobre o autor.

Cortázar na wikipédia

Assim, descobri que apesar de nascer belga, é a Argentina que o marca profundamente, mesmo quando parte para Paris, renunciando ao seu país em consequência da sua posição ante-peronista.

Depois de ler o Bestiário, um conjunto de contos (género literário em que foi considerando um mestre), não me surpreendeu descobrir que havia traduzido vários textos de Edgar Alan Poe. Isto porque, é evidente que a opção pelo realismo fantástico.
Já com Blow-up, uma outra edição de contos, a ênfase parece voltar-se para a condição humana…


cristina_pt

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sexta-feira, agosto 15, 2008
  Blow-up: Convite
leitura livre.

leitura livre??

e que tal um desafio?!






BLOW-UP WEEK.
semana BLOW-UP.



uma semana de loucura, Cortázar, blow-up.

alinhas neste golpe?
arranca amanhã. ler a partir de... [PUM!] agora.

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  Salinger por Eduardo
Salinger domina o seu leitor, tem o poder de articular as passagens tão bem a ponto de manipular as idéias do solitário leitor.
Afirmo ser solitário, os personagens são extremamente tocantes , e por coincidencia também solitários. não que eles desejam ser, nem mesmo que eles se esforçam para ser, ou são chatos a ponto de se tornarem excluídos. Os personagens de Salinger são expelidos da sociedade (assita "os excentricos Tenembaums"), apenas têm contato com personagens íntimos do autor e com o próprio. a intimidade com as pessoas que o rodeiam no cotidiano é superficial, sempre fica explícito uma dose cavalar de ironia e sarcasmo.
Holden Caulfield conversa com as pessoas com certa dignidade e respeito, principalmente com as pessoas mais velhas, mas ao mesmo tempo ele pensa nos defeitos simples que destroem sua admiração pela pessoa, impedindo sua aproximação. Holden sabe identificar perfeitamente cafajestes audaciosos , egoístas intelectuais, velhos fedorentos de bom coração, velhos fedorentos empáticos, crianças puras, crianças prodígias, mães com segundas intenções, namoradas quentes com um amendoin no lugar do cérebro, pais com terceiras intenções.
A propósito penso que o maior medo de Holden é se tornar mais um adulto no mundo, no livro percebe-se que ele tem um grande apego pela inocência das crianças (essa é a grande poética da história). Ele identifica e julga, dando seu melhor argumento pra explicar seu ponto de vista a respeito da falha genética-social.
A leitura é admirável e prazerosa por se tratar de linguagem e conteúdo simples (perdoe-me pelo uso dessa palavra incompleta, Salinger) com profundo alcance sentimental. Você sente as aflições do personagem, sente que ele pede ajuda e precisa ser acudido, e ao mesmo tempo sente que você se situa no mesmo poço dele, exatamente ao seu lado. alguns consideram Holden um adolescente mirrado, outros o consideram um poeta, e absolutamente todos (que já leram o livro do centeio) afirmam "ter" um bocado de Holden (tá vendo? esse "bocado" é dele.) Holden para mim, é um pedacinho do Salinger, mais precisamente a parte superior do hemisfério direito de seu encéfalo. Responsável pela autopreservação e agressão. A família Glass caberia à função de manutenção do equilíbrio e postura.

É engraçado como esse gênio afirma repugnar qualquer forma de embromação, e consegue da forma mais direta possível, tornar seus textos extremamente reflexivos. não quero dizer que simplicidade e complexidade são antonimos.um dia eu aprendo com ele a usar as palavras certas e as idéias certas para chegar no ponto certo. percebo que meu texto já deu voltas e voltas e nem mesmo consegui enxergar, nem de longe, a linha de chegada, ou a meta, se preferir. Sobre Nove estórias ão tenho mt que falar, me amarro por ser algo cru e verdadeiro, nada fantasioso. O impacto de cada conto é indescritível, digno de um mestre criador.

Ultimamente estou mergulhado no livro "Carpinteiros levantem bem alto a cumeeira e Seymour - uma apresentação". Advetência: CUIDADO leitor, é uma leitura delirante e sinuosa, pode ser perigosa ("mas afinal, quem procura poesia por motivos de segurança?"). Leio de pouco em pouco para ter mais um pouquinho no próximo dia e para pensar no bombardeio de coisas que ele tenciona em me passar, coisas que borbulham na minha cabeça, as vezes vira algo positivo (por exemplo essa iniciativa de escrever), as vezes se transforma num impulso assassino (desses que carrega um exemplar debaixo do braço e dá um tiro na testa de um ídolo mundial). Realmente se trata de um homem misterioso e intelectual, gostaria muito de ter um monólogo com ele, num boteco copo sujo, desses que ninguém repara qual bebida você está tomando ou quanto vai dar de gorjeta ao garçon, de preferencia sem garçons.Gostaria que fosse um monólogo, mas acredito que não deve ser fácil retirar palavras do homem. Eu iria usar apenas poucas palavras, pedindo pra ele me contar como é morar longe de tudo, e não depender dos outros e tudo mais. Voltando ao livro que estou lendo, venho falar que ele tem me servido de guia, estou aprendendo a enxergar minhas fraquezas e a enxergar a influencia da mídia e do sistem em padronizar pessoas. Pessoas que decoram frases e utilizam nas suas conversar para demonstrar falsa superioridade, damas de honra que vivem reclamando de barriga cheia, madames ou senhores que condenam pessoas por determinados atos sem pensar no que pode se passar na vida do sujeito condenado, que anos depois opta pelo suicidio pelo insólito motivo de existirem pessoas que não enxergam que são apenas madames ou senhores.
notei que seus livros tem uma grande ligação, bem discreta e sutil.

Aguardo ansiosamente por Franny & Zooey.
Eduardo P. Brandão
(recebido por email)

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  voltar a lêr a Bíblia
Algumas Bloguers aqui do LP estão a tentar completar a leitura da Bíblia . Como ontem li este conto sobre um nobre escocês que está prestes a entrar em combate, e me parece uma boa provocação sobre o tema.
Deixo-vos a parte final do conto Monólogo nocturno de um nobre escocês

Será a guerra de religião? Mas não há ninguém, nem sequer os episcopais mais beatos, que acredite que bater-se por aqueles come-bifes dos Mac Dickinson, capazes de beber pintos de cerveja até ao domingo, equivale a bater-se pela fé. O que resolvem, então? Se calhar pensam que isto entra nos designios de Deus, como o cativeiro no Egipto.
... Nós Mac Ferguson, se a guerra de religião houver, aceitá-la-emos como uma prova para reforçar a nossa fé. Mas sabemos que nesta coisa os fiéis da justa Igreja da Escócia são uma eleita minoria, e poderiam ser por Deus - que Ele não o queira! - escolhidos para o martírio.

Voltei a pegar na Bíblia, que nestes meses de frequentes correrias inimigas tinha um pouco descurado, e vou-a folheando à luz da vela, embora sem perder de vista a charneca lá ao fundo por onde agora passa o sopro do vento, como sempre pouco antes da aurora. Não, não me capacito; se Deus se meter nas nossas questões familiares escocesas - e no caso de uma guerra de religião terá de se ocupar disso - sabe-se lá o que irá acontecer; cada um de nós tem os seus interesses e os seus pecados. Os Mac Dickinson mais que todos, e a Bíblia ali está a explicar-nos que Deus tem sempre outra finalidade a alcançar diferente da que os homens esperam.
Talvez hajamos pecado precisamente nisto, porque sempre nos recusámos a considerar as nossas guerras como guerras de religião, iludindo-nos que assim poderíamos arranjar-nos melhor a fazer compromissos quando nos convinha. Há demasiado espírito de acomodação nesta parte da Escócia, não há clã que não se bata sem segundas intenções. Que o nosso culto se administre atravéz da hierarquia desta ou daquela igreja, ou na comunidade dos fiéis, ou no fundo das nossas consciências, nunca nos importou muito.


Pronto , vejo lá em baixo , no limite da charnea, um adensar-se de archotes. Também as nossas sentinelas os viram: oiço a trompa soar as notas do alarme, do alto da torre. Como correrá a batalha? Talvez estejamos todos prestes a expiar o nosso pecado: não tivemos coragem bastante para sermos nós mesmos. A verdade é que , de todos nós presbiterianos episcopais e metodistas, não há ninguém nesta parte da Escócia que acredite em Deus: nenhum, digo, nobres ou clero ou rendeiros ou servos, que acredite realmente nesse Deus de quem tem sempre o nome nos lábios. Pronto , as nuvens empalidecem a oriente. Oplá, vós, acordai! Depressa , selai-me o cavalo!

do livro "A memória do mundo" de Italo Calvino ,
imagens retiradas no site www.atelierheraldico.com.br

Luis Neves

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  ARRE, que tanto é muito pouco!
ARRE, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.


Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!

Álvaro de Campos

Li num blogue muito bom WebClub, http://wind9.blogspot.com/

Para antecipar a leitura do próximo mês de Setembro "Mensagem", roubei e copiei este "Poema"/"Manifesto" de Fernando Pessoa.
Acho bem actual este manifesto. O Presidente da República devia interromper as férias para o ler na TV.
Deixo este poema como um incentivo para quem visita aqui o LP , um convite para que venham partilhar a leitura do livro "Mensagem".

Estou a ler um livro de contos "A memória do mundo" de Italo Calvino e também gostava de ler "O Barão trepador" do mesmo autor para conhecer um pouco mais do escritor.

Luis Neves

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quinta-feira, agosto 14, 2008
  George Orwell
Aqui está um blog que merece ser visitado(1).

Os diários do autor de 1984, George Orwell, estão a ser publicados no dia exacto em que foram escritos, mas com um laspo de 70 anos.

Há ideias assim...

E há revistas assim: a VISÃO, onde li sobre a existência deste blog.

cristina_pt

(1) Especialmente indicado para os trabalhadores de Agosto, sem nada que fazer no escritório.

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Depois de Alan Paton, Nadine Gordimer, Doris Lessing, Coetzee e Kapuscinski, continuo a percorrer terras africanas, com Pedro Rosa Mendes e a sua Baía dos Tigres e a Viagem por África, de Paul Theroux (Cristina, o meu próximo destino é inspiração TUA). A seguir: Nada, de Carmen Laforet, e Tristano Morre, de Tabucchi.

Parece que não será para agora a conclusão da leitura da Bíblia, que permanecerá disposta sobre a mesa-de-cabeceira de uma incrédula.

azuki
 
quarta-feira, agosto 13, 2008
  Assim Falava Zaratustra, Nietzsche

“Homens superiores – assim diz a populaça – não há homens superiores: todos somos iguais; perante Deus um homem não é mais do que outro: todos somos iguais”!
Perante Deus! Mas agora esse Deus morreu: e perante a populaça nós não queremos ser iguais. Homens superiores, fugi da praça pública!
*

Ao contrário de Cristo, que se dirigia maioritariamente aos fracos e oprimidos, o Zaratustra de Nietszche (bem diferente do profeta persa com o mesmo nome, fundador do Zoroastrismo) prega o evangelho dos vencedores e não lhes fala de mansidão, mas das características do "homem superior", louvando pulsões que a moral judaico-cristã tentava reprimir (a volúpia da carnalidade e do poder, a altivez, a força..). “Deus está morto” e a Zaratustra não interessa uma assistência feita de homens comuns; ele quer ser ouvido e seguido por aqueles que fazem o mundo girar: não devemos ceder ao sofrimento e à derrota (muito menos à auto-comiseração), nem alicerçar a vida na esperança por um outro mundo. A vida é aqui e agora, o meu mundo é este, eu dependo de mim e só eu devo construir o meu futuro.

Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.* A primeira fase da vida espiritual do Homem é o camelo, símbolo de resignação, um animal cordato que aceita a carga e a culpa dos males do mundo e que segue o caminho que as convenções lhe ditam. Aparece depois o leão, orgulhoso e subversivo, aquele que quer ter as rédeas de si próprio e que não tem medo de afirmar “eu quero!”. O leão é livre e já não se deixa amestrar como o camelo, se bem que ainda não tenha algumas capacidades fundamentais e esteja órfão da orientação de uma entidade divina. Nova e última metamorfose acontece quando o leão se torna criança: a criança significa corte com o passado e criatividade, o embrião do super-homem. Deste modo, o ser humano é um mero estado de transição: o homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigo tremer e parar.* Assim falava Zaratustra.

*Assim Falava Zaratustra, F. Nietzsche, Guimarães Editores

azuki

 
terça-feira, agosto 12, 2008
  Há livros que foram escritos especialmente para nós
não é umbiguismo, não é vaidade, é mesmo uma coisa que nos acontece. tenho a sorte de me ter acontecido algumas vezes ao longo da minha vida, de forma cada vez mais rara - porque o deslumbramento fácil se extingue irremediavelmente.


estou apaixonadamente a ler RAYUELA de Cortázar. nem consigo partilhar, não por enquanto. mas com tantas referências cruzadas da Cris, não consigo mais guardar 0 segredo. senhores, Cortázar é qualquer coisa de fabuloso. em tempos deixei por aqui ou por ali leituras dele, pequenas prosas, gravações. já contava com o melhor. mas é muito mais do que isso.

contudo, aviso, antes que tentem apropriar-se de tal obra: a realidade é que este livro - o exemplar que detenho - foi escrito para mim.

e, enfim, recomendo: se querem ter um também, quem sabe, escrito para vocês, corram a comprar o vosso exemplar, e devorem cada frase...


belém
 
  Lista de intenções (actualizado: 19:15)

Júlio Cortázar - Blow-up ( agora sim, já encontro a razão de ser do reconhecimento do autor; Blow-up é um conto com uma linguagem perfeitamente poética; fico com remiscências de ALA; será imaginação?)

Franz Kafka - O Processo
Franz Kafka - Carta ao pai


E no âmbito do LP - Verão em recuperação:

José Saramago - Ensaio sobre a cegueira
José Saramago - Ensaio sobre a lucidez

Com extras (multa de atraso):
José Saramago - Memorial do Convento
José Saramago - Intermitência da morte

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segunda-feira, agosto 11, 2008
  Julio Cortázar e as mancúspias

Como prelúdio para Rayuela (vivamente recomendado), havia decidido ler dois livros de contos de Julio Cortázar: Bestiário e Blow-up.

Comecei pelo Bestiário, pretendendo uma ordem cronológica (dentro dos dois, já que Rayuela antecede Blow-up).

É inegável que Cortázar joga com as palavras com mestria e a qualidade da narrativa é inegável. Porém confesso que não fiquei a gostar particularmente da ficção fantástica (da qual é mestre), da pluralidade de sentidos do texto (não neste nível) e das histórias abertas.

E não gostei....acima de tudo...de passar meia hora à procura, em tudo que é dicionário e motor de busca de internet, de MANCÚSPIAS.

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sábado, agosto 09, 2008
  José Eduardo Agualusa

O meu primeiro contacto com o escritor, surge na forma de um livro de bolso, o seu livro de contos e crónicas, O HOMEM QUE PARECIA UM DOMINGO.
Nas primeiras leituras fiquei imediatamente surpreendida pela fluidez e expressividade da sua narrativa. Agualusa é um brilhante contador de histórias.
Entre as histórias, destaco o Preto da Mouraria, um conto de singular beleza sobre o o racismo e sobre a necessidade de integração.
"Sim, mas o teu pai, o marinheiro, era de onde? Cabinda? Então és angolano."
Isto irrita o meu amigo:
"Porra! Como posso ser angolano se nunca fui a Angola, e além disso a minha mãe era de Cabo Verde?"
Os outros ignoram a questão:
"Então és africano, pronto, pá, não te chateies."
cristina_pt


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sexta-feira, agosto 08, 2008
  Ruy Belo (27.02.1933-08.08.1978)

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]
Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)

Fonte

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quinta-feira, agosto 07, 2008
 

"Quando a gente faz uma coisa, é por ousadia interior ou é porque não pôde resistir às circunstâncias? É a qualidade ou é o defeito que nos impele para a vida?"


Diálogos com Agostinho da Silva, Antónia de Sousa

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quarta-feira, agosto 06, 2008
 
azuki
 
terça-feira, agosto 05, 2008
  Kafka e África
Não se podia dar ao luxo de comprar muitos livros. (…) Escolheu literatura comparada e descobriu Kafka para acrescentar à sua fonte shakespeariana de transcendência. Uma forma de fugir às salas de aula velhas, aos apertos da gente dos sábados, à promiscuidade das casas com paredes finas e ao mesmo tempo uma forma de voltar para tudo isso outra vez com uma compreensão mais profunda do que a vida podia significar. Kafka nomeava aquilo para que ele não tinha nomes. A cidade cujos muros eram percorridos pela multidão aos sábados era o Castelo; a biblioteca diante de cujas portas ele parava eram os portões da lei junto dos quais K. se sentava, ano após ano, sempre para lhe dizerem que tinha que esperar para poder entrar. O pecado pelo qual os da raça do professor eram banidos para uma zona prescrita, proscritos em tudo o que faziam, procriar, nascer, morrer, no trabalho ou no lazer, era o pecado por que Joseph K. era chamado a responder perante um poder imanente, sem saber qual era a acusação, sabendo apenas que se esse poder dissesse que ele era culpado de qualquer coisa, então assim seria decretado.
(…) E embora Kafka explicasse o contexto da vida do professor melhor do que Shakespeare, Sonny não chegava ao ponto de acreditar, como Kafka, que o poder que mantém as pessoas impotentes existe apenas na sua própria submissão.
“A História de Meu Filho”, Nadine Gordimer, Público, Colecção Mil Folhas


Continuo por terras africanas, desta vez com Nadine Gordimer. Sonny é um activista negro e esta é a sua história e a do seu filho, contada pelo último. Destaco um trecho sobre Kafka, por sugestão do post da cristina_pt. Curiosamente, a leitura d’O Processo e d’O Castelo suscitou-me a interpretação contrária: o sistema é tão incapacitante que não necessita do contributo da nossa submissão. Impor-se-á uma releitura?

azuki
 
segunda-feira, agosto 04, 2008
  Fragmentos (3)
"Pensando que isso dava prazer ao gafanhoto, Deniska e Iegoruchka acariciaram com o dedo o abdómen grande e verde e mexerem-lhe nas antenas. Depois, Deniska apanhou uma mosca muito gorda, empanturrada de sangue, e ofereceu-a ao gafanhoto. Este mostrou a maior indiferença, como se conhecesse Deniska desde sempre. Mexeu a enorme mandíbula semelhante a uma viseira e abocanhou a mosca pela barriga. Deixaram-no ir embora; o interior rosado das suas asas cintilou e, uma vez pousado na erva, retomou imediatamente o seu canto agudo. Soltaram também a mosca; esta abriu as asas e, sem barriga, voou para junto dos cavalos (...)" (Anton Tchekhov,  A Estepe)

ams
 
domingo, agosto 03, 2008
  Fragmentos (2)

"Sabe-se que Flaubert manifestou um dia a vontade de escrever uma obra sem assunto. Uma obra que, desligada do real, fosse a confirmação da suprema independência da arte relativamente à vida. Para alguns, esta auto-suficiência da arte não significaria a legitimação do nonsense mas, pelo contrário, uma afirmação inequívoca da possibilidade do sentido. De um sentido que, «neste mundo abandonado pelos deuses», como disse Lukács, apenas teria revelação no interior da obra de arte. Numa madrugada televisiva, meses atrás, George Steiner contribuiu para esclarecer esta ideia. Lembrou uma frase de Flaubert, enquanto esperava que um cancro no estômago lhe retirasse os últimos nacos de vida: «Eu aqui a morrer como um cão e a puta da Madame Bovary a ter vida eterna». Ofuscado pela dor, o romancista voltou a exprimir a primazia do escrito em relação ao vivido. Ou, o que é ainda mais patético, a triste incapacidade dos austeros em pensar o sentido na sua relação com a finitude." (Miguel Cardina in Os Livros Ardem Mal)



ams
 
  Leitura Livre: METAMORFOSE DE FRANZ KAFKA

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Paula Rego, Metamorphosis After Kafka, 2002

METAMORFOSE DE FRANZ KAFKA

Kafka, publicado contra a sua vontade surge como um extraordinário perscruto da natureza humana. Em Metamorfose, seguimos Gregor, um jovem trabalhador, preocupado com o bem-estar da sua família, que sustenta com o seu trabalho.

Gregor acorda para descobrir-se metamorfoseado num insecto-monstro. Num primeiro momento o choque com a transformação, a que segue a negação suportada no sonho.

A racionalização inicial do seu estado, que acompanha a análise dos seus familiares, é estranha e quase que nos perguntamos porque não sofre. E é assim que Kafka nos vai envolvendo, nas nossas emoções que nada mais são que medos viscerais de igual metamorfose. Talvez não num insecto-monstro, mas numa outra forma incapacitante, que nos deixe à mercê de cuidados terceiros.

A tentativa de adaptar, por parte de Gregor, é quase imediata. Mas mais tarde, iremos vê-lo debater-se entre adaptar-se à sua humanidade limitada ou evoluir para a nova realidade. Aí, destaco como particularmente pungente o momento em que defende a sua humanidade, na forma de um quadro pendurado na parede.

E como noutras formas, a resignação e o abandono trazem o final.

cristina_pt

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sábado, agosto 02, 2008
  Deixem-me Sonhar Portugal !
Padre António Vieira no fim da sua vida , quando recebeu a noticia da morte do Infante D. João, que P.Vieira pensava poder concretizar o "V Império", diz:

Deixem-me Sonhar Portugal !

É assim que termina a peça de teatro "Vieira - O Céu na Terra" que fui ver ontem à noite nas ruínas do Convento do Carmo, um dos monumentos mais bonitos de Lisboa.

A peça que retrata a vida de Padre António Vieira, é uma produção do Teatro Nacional D. Maria, e está em cena até 16 de Agosto. (3ªfeira a sábado ás 22h.)

Podem ver Jornal do Teatro Junho 08 - "Vieira O Céu na Terra"

Para quem passe por Lisboa rumo a férias , vale muito a pena vir conhecer a vida e obra de um grande português de todos os tempos.


Gostei muito das interpretações de P.António Vieira [José Henrique Neto],

de Nestor (escravo negro convertido) [Félix Fontoura] muito engraçado ,
e do Inquisidor [João Lagarto].


AZUKI a peça começa com um pouco do sermão das Armas contra os Holandeses , e tem um pouco do Sermão aos Peixes , e outros que não identifiquei.

Para quem leu aqui no LP, em Maio, os Sermões de Vieira, é um grande espetaculo para revisitar e perceber melhor as obras e as razões de Vieira.


Luis Neves

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  Leitura Livre: METAMORFOSE DE FRANZ KAFKA
Para quem anda com os olhos cansados...
uma excelente leitura da obra Metamorfose de Franz Kafka, em inglês.
Link: LibriVox
Cristina_pt

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sexta-feira, agosto 01, 2008
  Spam lusitano
(…) A estupidez contamina a audiência e forja o preconceito violento e iletrado que enche as caixas de comentários e certa blogosfera azeda. Carr não fala de jornalismo, descreve dificuldades pessoais para ler um livro e inscreve a história e efeitos da inteligência artificial, explicando como estamos a ser privados de "um reportório de densa herança cultural" (a cultura ocidental) e a ser transformados em "pessoas-panquecas", segundo a teoria de Richard Foreman. Pessoas-panquecas, fininhas e achatadas enquanto se ligam à rede de informação pela mero toque de um botão. Pessoas panquecas que deixarão de ler romances russos, livros de Kant e Hegel, Aristóteles e Platão. Pessoas-panquecas que deixarão de ler, simplesmente. E que terão opinião sobre tudo. Clara Ferreira Alves (Expresso, 26/Jul/08)

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  Fragmentos (1)
"A aceleração que caracteriza a nossa época contribui de igual modo para que se desvalorize a reflexão, entendida como um processo que precisa de tempo e, por isso, tende a ser substituído pela publicidade ou por esse verdadeiro ethos da contemporaneidade que é a divulgação. As obras são meramente divulgadas ou publicitadas, no interior de um vasto magma em que tudo se assemelha e uniformiza, onde quase nada tem direito a uma efectiva recepção crítica, capaz de questionar os seus processos constitutivos e de, expondo sentidos possíveis, interpelar efectivamente um potencial receptor. Com cada vez menos tempo para dedicar a cada objecto (tempo inútil, sem espessura, sem capacidade para resistir na memória), a nossa época assiste a uma sucessão permanente de novidades, cada uma apagando a anterior, como se apenas aquilo a que insistimos em chamar presente tivesse uma efectiva condição ontológica. Não admira, portanto, que haja evidentes sinais de cansaço e de saturação no que, obedecendo à lógica catalogadora da modernidade, poderíamos designar como o mundo da arte." (João Paulo Sousa in Da Literatura)

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O QUE ESTAMOS A LER

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PROXIMAS LEITURAS

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

Os nossos marcadores

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