Leitura Partilhada
terça-feira, setembro 30, 2008
  Padre António Vieira, O Imperador da língua portuguesa
António Vieira

O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.


No imenso espaço seu meditar,
Constelando de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.


Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.


Uma justíssima a homenagem de Fernando Pessoa ao Padre António Vieira.

Para além da famosa frase "Imperador da língua portuguesa", Pessoa considera que o pensamento de Vieira é um "céu" é o "imenso espaço, constelado de forma e visão".
Porque li recentemente alguns sermões de Vieira (aqui no LP), fiquei com uma pequena ideia da grande dimensão da obra de Padre Vieira e da sua importância na cultura e no pensamento português. E concordo plenamente com Pessoa.


Como estamos a chegar ao fim do mês e a acabar de ler a Mensagem de Fernando Pessoa, como gostei muito de ler o livro, faço uma pequena homenagem ao poeta e sua obra, deixando um poema de outro poeta que também nos fala dos seus sonhos.
Sendo que esse sonho desejado pelo poeta Pessoa é talvez a principal linha de ligação de todos os poemas do livro Mensagem.

O Sonho
Pelo Sonho é que vamos
comovidos e mudos
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

no livro, Pelo Sonho é que vamos , Sebastião da Gama

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segunda-feira, setembro 29, 2008
  não gosto do mito sebástico (ii)
Cristóvão de Morais, “O Rei D. Sebastião”, 1571, Museu Nacional de Arte Antiga

Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação – a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo o que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.

Fernando Pessoa, 1919


1- Como é que fomos recomeçar uma história que D. João III já tinha abandonado?! Conquistar e manter as praças africanas teve algum sentido em 1415 mas, numa altura em que já nada passava pelo norte de África, tal aventura significava apenas isolamento, ataques constantes e um sorvedouro de dinheiro sem retorno (com o mediterrâneo bloqueado pelos turcos, as especiarias e os escravos rodeavam o continente africano por mar ou faziam rotas via Quénia-Sudão-Mali-Golfo da Guiné).

2 - Depois do curto reinado de D. Henrique, vieram os Filipes (em guerra religiosa com os holandeses, que deixaram de poder abastecer-se de mercadorias em Lisboa). Com um porto de Lisboa encerrado, os holandeses fizeram pela vida, anularam o intermediário e lançaram-se no negócio, através da criação da Companhia Holandesa das Índias, em 1602. Enfim, deixaram de precisar de nós. Depois, como se sabe, ninguém mais os parou.

azuki

 
domingo, setembro 28, 2008
 
com fixos olhos rasos de ânsia


Mas Deus não dá licença que partamos.

imagem: net

Clarinda

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  Mar Português
" Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena. "


Mar Português é o poema da Mensagem que é mais conhecido. Este poema é um símbolo e um retrato onde reconhecemos o povo português. É um poema muito bonito, que nos relata a força, a coragem e o sacrifício que os Portugueses passaram na aventura dos Descobrimentos.

Os dois versos que escolhi são quase intemporais , fazem parte daquelas pequenas frases que se guardam na nossa tábua de mandamentos pessoais que cada um vai escolhendo, são frases que guardamos sempre como verdades e que nos orientam no nosso percurso.
Antes de saber o que era Poesia, quem foi Fernando Pessoa, e antes de saber ler, já me tinham repetido esta frase. Posso dizer que faz parte do meu vocabulário. Ou do meu ADN linguístico.


Luis Neves

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sábado, setembro 27, 2008
 
os avisos

Junto Bandarra com António Vieira. Um sonha, outro fala. De um sonho.
Bandarra nem é santo nem herói, Vieira imperador da língua.

Bandarra plebeu, Vieira tem fama e glória.
Ambos têm um sinal, não são portugueses, são Portugal.
Na página ao lado alguém escreve um livro à beira-mágoa.



Clarinda

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sexta-feira, setembro 26, 2008
 
ilhas afortunadas

Nem sei dizer o que há neste poema que tanto me atrai. Talvez uma recordação de infância, um embalo. Alguém me embala com este poema, deixo-me adormecer… o paraíso chega até mim numa canção. Ah! este sonho eu quero sonhar….as palavras permanecem na memória…que voz vem no som das ondas


Que voz vem no som das ondas

Que não é a voz do mar?

É a voz de alguém que nos fala,

Mas que, se escutamos, cala,

Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,

Sem saber de ouvir ouvimos

Que ela nos diz a esperança

A que, como uma criança

Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas

São terras sem ter lugar,

Onde o Rei mora esperando.

Mas, se vamos despertando

Cala a voz, e há só o mar.


Clarinda

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quinta-feira, setembro 25, 2008
  Casa Fernando Pessoa, actividades culturais em Setembro e Outubro
A casa Fernando Pessoa em Lisboa - Campo de Ourique, tem neste mês e no próximo planeadas várias actividades bem interessantes, que acho que vale a pena divulgar.
Vou deixar aqui as Ligações aos "eventos" anunciados no Blog Mundo_Pessoa

foto: Casa Fernando Pessoa , do site do Expresso

Já amanhã, 26 Setembro, há uma sessão de leitura de Poesia de Pessoa e seus heterónimos.
"Pessoa, Singular sempre Plural"
Maratona de leitura - Centenário Machado de Assis
Apresentação do nº 22 da revista de poesia...
Em Outubro (para quem gosta de Cortázar)
Mês da Cultura Argentina

 
  Weltliteratur - Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!
Será que podemos expor a literatura? Como fazemos com uma escultura ou pintura? Esta pergunta foi o ponto de partida desta exposição que em 11 salas autónomas tem como protagonista principal Fernando Pessoa e os escritores da sua geração. Até 4 de Janeiro de 2009 na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

"Weltliteratur" é o termo usado por Goethe para falar das características cosmopolitas e transnacionais da literatura. Esta exposição pega nessa palavra mas em subtítulo, acrescenta um verso de Cesário Verde - "Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!". Vamos poder ver textos seleccionados mas não só - pinturas, fotografias, esculturas e alguns documentos inéditos de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Teixeira de Pascoaes, Camilo Pessanha, Vitorino Nemésio, entre outros. O espaço, dividido em 11 salas, foi especialmente concebido para esta exposição pelos arquitectos Manuel e Francisco Aires Mateus.


LOCAL: Fundação e Museu Calouste Gulbenkian - Av. Berna, 45A
HORARIOS: De 30-09-2008 a 04-01-2009 / Terça a domingo das 10h00 às 18h00
Inaugura 30/9 às 22h

in PÚBLICO
 
quarta-feira, setembro 24, 2008
  Mensagem com sabor tropical

O poema Padrão , cantado por Caetano Veloso

Anita Silva

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  Mensagem , o olhar divertido de Saramago
"Olhe que nós, por cá, também não vamos nada mal em pontos de confusão entre o divino e o humano, parece até que voltámos aos deuses da antiguidade, ..., Explique melhor essa tal divina e humana confusão, É que, segundo a declaração solene de um arcebispo, o de Mitilene, Portugal é Cristo e Cristo é Portugal, Está aí escrito, Com todas as letras, Que Portugal é Cristo e Cristo é Portuugal, Exactamente.

Fernando Pessoa pensou alguns instantes, depois largou a rir, um riso seco, tossicado, nada bom de ouvir,

Ai esta terra, ai esta gente, e não pôde continuar, havia agora lágrimas verdadeiras nos seus olhos, Ai esta terra, repetiu, e não parava de rir, Eu a julgar que tinha ido longe de mais no atrevimento quando na Mensagem chamei santo a Portugal, lá está, São Portugal, e vem um príncipe da Igreja, com a sua arquiepiscopal autoridade, e proclama que Portugal é Cristo, E Cristo é Portugal, não esqueça, Sendo assim, precisamos de saber, urgentemente, que virgem nos pariu, que diabo nos tentou, que judas nos traiu, que pregos nos crucificaram, que túmulo nos esconde, que ressurreição nos espera, Esqueceu-se dos milagres, Quer você milagre maior que este simples facto de existirmos, de continuarmos a existir, não falo por mim, claro, Pelo andar que levamos, não sei até quando e onde existiremos, Em todo o caso, você tem que reconhecer que estamos muito à frente da Alemanha, aqui é a própria palavra da Igreja a estabelecer, mais do que parentescos, identificações, nem sequer precisávamos de receber Salazar de presente, somos nós próprios Cristo, Você não devia ter morrido tão novo, meu caro Fernando, foi uma pena, agora é que Portugal vai comprir-se, Assim acreditemos nós e o mundo no arcebispo"

"Tivesse Ricardo Reis saído nessa noite e encontraria Fernando Pessoa na Praça Luís de Camões, sentado num daqueles bancos como quem vem apanhar a brisa, o mesmo desafogo procuraram familias e outros solitários, e a luz é tanta como se fosse dia, as caras parecem elas tocadas pelo extâse, percebe-se que seja esta a Festa da Raça. Quis Fernando Pessoa, na ocasião, recitar mentalmente aquele poema da Mensagem que está dedicado a Camões, e levou tempo a perceber que não há na Mensagem nenhum poema dedicado a Camões, parece impossível, só indo ver se acredita, de Ulisses a Sebastião não lhe escapou um, nem dos profetas se esqueceu, Bandarra e Vieira, e não teve uma palavrinha, uma só, para o Zarolho, e esta falta, omissão, ausência fazem tremer as mãos de Fernando Pessoa, a consciência perguntou-lhe, Porquê, o inconsciênte não sabe que resposta dar, então Luís de Camões sorri, a sua boca de bronze tem o sorriso inteligente de quem morreu há mais tempo, e diz, Foi inveja, meu querido Pessoa, mas deixe, não se atormente tanto, cá onde ambos estamos nada tem importância"
foto no blog http://olhareslisboa.blogspot.com

excertos de "O ano da morte de Ricardo Reis", José Saramago


Luis Neves

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terça-feira, setembro 23, 2008
  Prece
Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

O último poema da segunda parte do livro Mensagem, Mar Português, é a Prece. Neste poema Pessoa descreve um país que está mergulhado na "noite" num "silêncio hostil" e em que só nos resta Hoje o "Mar universal" e a "Saudade".
A mim parece-me que hoje, no século XXI, pouco mais se pode acrescentar, para além de termos construído um regime democrático com o respeito pelas liberdades indíviduais.
Apesar de Fernando Pessoa já ter escrito esta "prece" há tantos anos , este poema continua a ser actual e muitos continuam a pensar que seria necessário uma nova "aragem" um "sopro" fresco que permita que o país não navegue sem rumo.
Parece que os novos ventos que sopram têm levado a nossa nau portuguesa para a cauda da europa. Para muito longe de sermos "o rosto" da europa, como Pessoa almeja no primeiro poema "Dos Castelos".
É mesmo preciso buscarmos e tentarmos conquistar a "Distância - Do mar ou outra".

Porque é que ainda nenhuma Bloguer aqui do Leitura Partilhada escreveu sobre um poema fantástico da Mensagem, Mar Português? Eu não acredito que não vos inspire, De que estão à espera?
Luis Neves

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segunda-feira, setembro 22, 2008
 
ser descontente é ser homem

O poema O Quinto Império compõe-se de cinco estrofes. As duas primeiras explicam o cadáver adiado, algures 'cantado' noutro poema; as duas seguintes falam dos tempos áureos passados; a última deixa-nos diante da certeza nua da morte de Sebastião. Portanto, essa dura realidade é a base do quinto império o qual passa pela aceitação do mundo que temos e pela sua transformação consoante a capacidade de cada um. Nada de misticismos, pois claro!

Mas a definição 'oficial' de Quinto Império é outra:


Vio Nabucodonosor aquella prodigiosa estatua, que representaua os quatro Imperios dos Assírios, dos Persas, dos Gregos e dos Romanos; o corpo estaua descuidado, com os sentidos presos, & a alma andaua cuidadosa, levantando, derrubando estatuas, fãtasiando Reynos, Monarquias. Mais fazia Nabucodonosor dormindo, que acordado: porque acordado cuidaua no gouerno de hũ Reyno, dormindo imaginaua na sucessão de quatro. Pois se Nabuco era Rey dos Assírios, quem o metia com o Imperio dos Persas, com o dos Gregos, com o dos Romanos? Quem? A obrigação do officio que tinha. Era Rey, quem quer conseruar o Reyno proprio hade sonhar com os estranhos.

Antonio Vieira, in Serman do Esposo da May De Deos S. Joseph.

Clarinda

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domingo, setembro 21, 2008
 
azuki
 
sábado, setembro 20, 2008
  Ocidente
Ocidente

Com duas mãos - o Acto e o Destino -
Desvendámos. No mesmo gesto , ao céu
Uma ergue o facho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

Este poema da Mensagem não é dos mais conhecidos mas é um daqueles que merece ser destacado e lido por ser muito bom.
O poema refere o descobrimento do Brasil por Vaso da Gama , que abriu os trilhos nos mares e descobriu um novo Ocidente.
"Com duas mãos Desvendámos" , uma representa o Acto a outra o Destino ; uma que Conduz iluminando com um facho, outra mão que desvenda que Rasga o véu da ignorância.
Quem iluminou o mundo na descoberta desse novo Ocidente, foram os Portugueses em corpo, mas foi com Alma ou seja pela "vontade" de Deus. Considera Pessoa que há uma predestinação divina dos Portugueses, que fomos os "eleitos", os escolhidos por Deus para o fazer.
Mas tendo Vasco da Gama iniciado a Viagem com o intuito de ir até às Indias Orientais, então a dúvida permanece no primeiro verso da última parte;
Teria sido um Acaso?
ou foi por Vontade, com intenção de ludibriar o Rei de Castela?
ou terá sido consequência de um Temporal que desviou as naus da sua rota?

Luis Neves

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sexta-feira, setembro 19, 2008
  Horizonte , Padrão
A segunda parte do livro Mar Português, é uma homenagem ao periodo histórico dos "Descobrimentos". Pessoa revisita aqui os nossos grandes navegadores Diogo Cão, Bartolumeu Dias, Fernão de Magalhães, Vasco da Gama , no momento em que os portugueses construiram um império além mar. Revela o orgulho pela capacidade e coragem com que os nossos marinheiros enfrentaram os mares desconhecidos, e faz o louvor da epopeia dos portugueses que desvendaram os "mares nunca antes navegados".
Os poemas Horizonte e Padrão ilustram a aventura dos portugueses na procura de novos horizontes, novas terras e novos mundos.

Luís Neves

Horizonte

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.Padrão
E ao imenso e possível oceano
Ensinaram estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

Uma representação da colocação do padrão de Portugal por Diogo Cão depois da descoberta do Rio Congo no século XV

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  não gosto do mito sebástico (i)
Porque a Clarinda me desafiou, irei expor, em posts futuros, o que penso de D. Sebastião e da sua aura: parece-me um mito inexplicável, baseado num homem limitado e péssimo estratega, enfim, um mito que roga a salvação a alguém que foi a nossa perdição. Portugal morreu em 1578, nas areias de Alcácer Quibir, não por algo que valesse a pena, mas de uma forma inglória.

Antes de mais, uma dúvida: é, ou não, verdade que Camões alude à existência de “torpes vícios” na corte de D. Sebastião (aliás, desconfio que Os Lusíadas só passam pelo crivo da Inquisição porque esta era liderada pelo cardeal D. Henrique, que deve ter secretamente apreciado a crueza com que o nosso bardo descrevia os maus hábitos dos círculos da realeza de então)?

azuki
 
quarta-feira, setembro 17, 2008
 
De quem são as velas onde me roço?

Quem não sabe de cor, pelo menos uma estrofe, dois versos, um verso? Opto por não deixar nem o poema, nem qualquer imagem. Como me atreveria a representar o MOSTRENGO que habita a imaginação de cada um?


Clarinda

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a heráldica não é só para alguns




E chegamos à trindade, que as há sem serem santíssimas. No caso da Mensagem, o símbolo da trindade é o grifo. D. Henrique, D. João ll, Afonso de Albuquerque. Grandeza, nobreza e coragem.
Não me venham dizer que estes não são valores para uma sociedade tão descartável como a nossa, afinal quem dispensa um brasão?


A CABEÇA DO GRIFO / O INFANTE D. HENRIOUE

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

imagem: net (grifo)

Clarinda

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  Mensagem: mente agita matéria - IV
O poema "Mar Portuguez" não canta somente o povo português, canta a humanidade inteira desde o seu começo. A humanidade nasce do mar criado no útero da Mulher-Mãe-Terra, e ao cruzá-lo sujeita-se à perda e à morte pelo desenrolar do ser humano como organismo universal. Apenas quando o mar for nosso, e ser nosso é sermo-lo, quando Terra e Homem forem Um, se viverá o céu na terra, a felicidade plena, a eternidade.


O povo português, em conjunto com o povo lusófono, simboliza a síntese do Homem, Portugal é o centro do coração da Terra, onde os quatro continentes principais se unem.

"Estranho só o raro, e raros são os mortos, que um morto fale, aos medíocres soará impossível, mas eu caminhei sobre as águas do Império, vi Portugal de longe, primeiro num sonho, uma memória de criança magoada, uma saudade que revelava o meu nome. Eu caminhei sobre as águas e voltei, a uma Lisboa na barriga da névoa, cada vez mais próxima, em declínio, inerme no tempo, em nada assemelhada à talha onírica, esquecida de si, cheia de sonâmbulos, de fala-sós, de intelectuais de pacotilha e poetas preocupados com sentimentos. As ruas, um lixo, a universidade, um tédio, as mulheres, uma anedota, os amigos, inconsequentes.
Vivo na fronteira dos dias sem Portugueses, seremos um féretro, os homens do Império, sem o «fardo do homem branco» que tanto abate os Ingleses, o nosso fardo é o fantasma de tudo incendiado na alma, o fardo do que poderia ter sido e não pôde ser.
Na minha vida agiganta-se o último lamento do que o Império foi, e o pórtico do que o Império será, não este, podre já nos livros de História, mas aquele que alucina a alma no dentro tormentoso do Oceano, com as vagas altas em redor, num país de pinhais sem chão na palavra. É das águas, foi das águas, é das águas e será, porque este Leviatã informe que me assombra é o porvir, para onde a ruína do que pôde ser, o que ergueu do pó o negro e o índio, o mouro e o godo, mudará a uma pele de prata além da alquimia, azul que não há no céu, uma vasta terra indescoberta.
Não terá um sinal nos mapas, uma rota, da luneta no convés não se verá, e é, é como o que agita a espuma nas praias com um gemido cavo do abismo do mar, debaixo de todos os luares, as serras invencidas e as minhas mãos trémulas que sabem já o que nem sonho e serei, fundamente serei, porque eu vim sobre as águas e vi o continente último, feito da carne do vento e do espírito, com um coração de escravo aberto em poços inesgotáveis de esperança.
Portugal não é o país que sou, é o Império que fui. O que serei não mancha ainda as páginas dos atlas, sei que terá palmas e dança, a mirra e o vinho, a cânfora e o vinagre, a Índia, a África, o Brasil, o norte, o sul, o leste e o oeste onde a minha alma de africano encontrará descanso um dia."

Fernando Pessoa



Anita Silva

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terça-feira, setembro 16, 2008
  Livros de que toda a gente fala e ninguém lê
Exposição na Fundação Gulbenkian
"Weltliteratur. Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!", a partir de 1 Outubro em Lisboa.
Há um texto final em que Pascoaes fala dos poucos encontros que teve directamente com Pessoa.
Ia num eléctrico em Lisboa, Pessoa entrou e perguntou‑lhe, abrupto:
“Eu vinha a pensar, Pascoaes, você acha que são mais importantes os livros de que toda a gente fala e ninguém lê ou os livros que toda a gente lê e de que ninguém fala?”
Ao que Pascoaes respondeu:
“Eu acho que são muito mais importantes os livros de que toda a gente fala, mas
ninguém lê.”

E Pessoa responde: “É exactamente o que eu penso.”

texto na Entrevista com o Comissário da exposição em Newsletter FCG Setembro 2008

Luis Neves

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para quem se obstina em áfrica




África também povoa a Mensagem. O rosto que fita o mar, percebe também a linha da costa africana, vê os galeões engalanados descerem até Arzila, as tropas caminharem rumo a Larache e entrarem terra dentro, comandados por Sebastião, à procura do exército de Mulei Moluco (aqui diziam Maluco).
Sebastião levava com ele a espada de Afonso Henriques e uma ânsia de vitória do tamanho do mundo. A espada, não a chegou a usar, a ânsia evaporou-se com a frase que dizem ter proferido: morrer sim mas devagar.


imagem: net (campo da batalha de Alcácer Quibir)

Clarinda

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  Mensagem: mente agita matéria - III
O despertar da mente ocorre pela passagem do sono para o sonho, o do corpo ocorre do sonho interior para o exterior.

Assumindo que é a mente que move o corpo, como separar o seu despertar do despertar do corpo? Como pode despertar o corpo sem que a mente continue desperta: sonhando?
Como se pode valorizar mais o despertar do corpo do que o da mente?

Quando a mente se engana a si mesma, não se apercebendo que está desperta pelo sonho, em que estado se encontra ela? Está desperta ou adormecida pelo próprio sonho?
Quando não se entende que se sonha - durante toda a vida, adormece-se (e sonha-se dentro do próprio sonho), é como regressar ao sono, visto não se saber estar a sonhar, assim como não se sabe estar a dormir - apenas após esse estado. Quando se entende que se sonha, desperta-se, ou melhor, acorda-se*, sabendo-se estar a viver um sonho.

ACORDAR* NÃO É DESPERTAR O CORPO, É ACORDAR O CORPO COM O DESPERTAR DA MENTE: O SONHO.


*lembrar, estar ou pôr de acordo.


"A última -mensagem-, a que nos abrirá plenamente as portas da glória que serão ao mesmo tempo para o mundo e para fora dele, que serão simultaneamente de tempo e de eternidade, de individual e de colectivo, de santidade estendendo-se na horizontalidade de todo o planeta e na total verticalidade de cada homem, e acabando assim com todas as falsas antinomias que, pela sua duração na História, se tinham quase visto como inerentes à própria natureza da Humanidade e do mundo; a última revelação, essa virá de nós para nós mesmos, e ninguém dará por ela a não sermos nós."

"(...) o que ele -Jesus- dizia era bem simples: não que procurássemos fazer das crianças adultos à nossa imagem e semelhança, mas que nos procurássemos, nós adultos, modelar à imagem e semelhança das crianças."
Agostinho da Silva

A minha Pátria é (o) A-mar

Defender a Pátria é uma invenção, porque é defender uma ideia de Pátria, mas que Pátria é a nossa, seres (?*) vivos da Terra?
Abraçar o Amor -total- é imitar a nossa criação, recriando-nos vivos, é contribuir para o nascimento da Vera, porque plena, Luz da Nova Terra, a Nossa muito desejada Lusitânia.

*estares...

"Só então Portugal, por já não ser, será."
Agostinho da Silva




Anita Silva

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segunda-feira, setembro 15, 2008
  Mensagem: mente agita matéria - II
Na "Mensagem", Fernando Pessoa procura simbolizar a essência do ideal de ser português vocacionado para o MAR e para o SONHO:

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
(...)
O Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
(...)
O mar sem fim é português
(...)
'Sperai! Cai no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
(...)
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
(...)
O Desejado
Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!(...)
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?
Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
(...)
Chamar Aquele que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar."

O português, como nenhum outro, cumpre os desígnos divinos: sonhar.
O sonho é esse "mar sem fim", todo o mundo vive a partir dele e é ele que levará a união à humanidade.


Anita Silva

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Louco, sim, louco...




O sebastianismo já existia antes de Sebastião. E quantas batalhas de Alcácer Quibir não fomos perdendo desde aquele fatídico 4 de Agosto de 1578? E quantas outras não foram travadas porque se deu preferência ao senhor cadáver adiado que até já nem procria tanto?
Mas, a partir daqui, deste infante fora do baralho da Ínclita Geração, podemos olhar o mar e sonhar com o V Império.


D. Sebastião, Rei de Portugal


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.


Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


imagem: net (Elmo de D. Sebastião )


Clarinda

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domingo, setembro 14, 2008
 
João é nome de ninguém

Lendo a parte referente às Quinas surpreendo-me por duas inesperadas alterações neste conjunto de cinco poemas. Uma é a troca de D. Henrique, o mais importante dos Altos Infantes, pelo louco D. Sebastião; outra é a inclusão do poema ao Infante D. João, de quem a história pouco fala.
O poeta assume a primeira pessoa em cada um deles, é como se Pessoa fosse D. Duarte, Firme em minha tristeza, tal vivi; D. Fernando, Sagrou-me seu em honra e desgraça; D. Pedro, Não me podia a Sorte dar guarida/ Por não ser eu dos seus; D. João, Não fui alguém, minha alma estava estreita…; D. Sebastião, minha loucura outros que me a tomem

D. João representa quem? A si mesmo, ofuscado pelo brilho dos irmãos, ou a todos aqueles que, mais ou menos anónimos, carregam e pagam o sonho? Sou pela última hipótese e não me venham dizer que dentro da Mensagem não há outros insuspeitos heterónimos.


D. João, Infante de Portugal


Não fui alguém. Minha alma estava estreita
entre tão grandes almas minhas pares,
inutilmente eleita,
virgemmente parada;

porque é do português, pai de amplos mares,
querer, poder só isto:
o inteiro mar, ou a orla vã desfeita-
o todo, ou o seu nada.



Clarinda

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  Mensagem: mente agita matéria - I
O que Pessoa nos quer dizer é que mente e matéria são uma só, viver guiando-nos pela mente isolada não é viver, é imaginar somente - sonhar. A própria mente agita a matéria, mas não é pensando-a, porque isso é separar-se dela como sujeito independente, a própria mente É já a matéria: de Real há só o sentimento, pois é ele que as une - a mensagem escapa-nos de tão evidente que é...

O Povo Luso é cantado na "Mensagem", mas o nosso Rei vive adormecido nos poemas de Alberto Caeiro, na nossa Eterna Criança, é Ela que conhece desde sempre o Real sentido do nosso Ser, Português. O que o Rei nos pede é que vivamos a Realidade do Corpo da Alma, da Matéria do Sonho, sem divisões: fundamo-nos no Mar da União de Tudo, só nEle nos reconheceremos, só Ele é infinito, como o Amor, que somos. A saudade da Alma Lusa é a de estar unida à sua Origem: ao Corpo, pois só assim se sente, é, vive:

"Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar, tenho a Terra e o Céu."

Alberto Caeiro


Anita Silva

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sábado, setembro 13, 2008
  D. Filipa de Lencastre (1359-1415)

E já que estamos no feminino, não posso deixar de dar o devido destaque à mãe da "Ínclita Geração".


Humano ventre do Império


"Conta o cronista Gomes Eanes de Zurara que a rainha, sentindo-se a morrer, chamou os filhos e mandou vir três espadas para entregar aos mais velhos. A Duarte, destinado a ser rei, pediu que governasse com justiça e piedade; a Pedro, o infante das Sete Partidas, pediu que cuidasse da honra das mulheres; a Henrique, cognominado o Navegador, que cuidasse dos homens; e a Isabel que olhasse pelos dois irmãos mais novos."


Anabela Natário

Portuguesas com História - séculos XIV e XV

Círculo de Leitores

p. 83

cristina_pt

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ao passarmos pelo mosteiro*...






Penso que a chave interpretativa da Mensagem, pelo menos a que serve à minha curiosidade por enquanto, é o poema D. Tareja. Se repararmos bem, ali está a origem do sonho (ou se quisermos, da realidade) que alimenta a obra e a sua renovação constante: o ciclo da vida e da morte.

Foi Afonso Henriques, enquanto seu filho, quem deu à princesa galega aquele estatuto. Sem este guerreiro, nem ela seria - sem heresias - equiparada a Nossa Senhora, nem, como diz A. Herculano, provavelmente existiria o nome Portugal. Mas atenção, Portugal aqui não é Portugal, é a imagem de qualquer país porque: As nações todas são mistérios./ Cada uma é todo o mundo a sós.


*...de Santa Cruz de Coimbra, vamos saudar as cinzas daquele homem sem o qual porventura não existiria sequer o nome de Portugal. Alexandre Herculano


D. Tareja

As naçôes todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!

Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!

Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.

Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!


imagem: net

Clarinda

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sexta-feira, setembro 12, 2008
  Feminine
[…] não sou um estudioso. Sou uma pessoa comum que passa por este génio. […] A dança tem algo muito interessante, que é a grande capacidade de apreender e ser um bocadinho vampira das outras artes todas. Saber ir buscar. A nossa disciplina, esta forma de arte, é muito imaterial, no sentido de que a sua vocação não é contar histórias. Precisa de pescar muitas coisas das outras formas de arte. Por isso foi gratificante sentir essa liberdade, poder agarrar no Pessoa conforme me apetecesse.
[…] tenho a impressão de não viver se não morrer para voltar a viver. […] Preciso desta verdade, do esgotamento dos intérpretes para depois poderem ser eles próprios. Esta luta interior que eles são obrigados a travar para conseguir dançar é algo que eu penso que contagia o público. Não podemos ser passivos em relação à vida, ao que nos rodeia. Temos uma responsabilidade. Somos responsáveis por tudo: pelos outros, por nós próprios. Temos de agir constantemente. A minha dança é assim porque quero chegar às pessoas, quero que as pessoas saiam da sala diferentes.

Paulo Ribeiro

Inspirador, ambíguo, enérgico, bem-humorado, expressivo. Fernando Pessoa no feminino, algo difícil de imaginar. E de saltos altos (sem nada, nada a ver com a enfadonha Ofelinha). Um espectáculo onde cinco mulheres divagam sobre a existência, em inquietação e tumulto corporal, com coreografia de Paulo Ribeiro, figurinos e desenho de luz muito anos 70, música genial de Nuno Rebelo (inspirada em Zappa, Marley e Morrison), voz de Richard Zenith (especialista no poeta, também responsável pela selecção de textos e tradução) e…claro, palavras de Pessoa e seus amigos.

Esta junção feliz de quatro bailarinas (que solo fantástico, o de Leonor Keil) e de uma actriz (tão bem escolhida) transforma o desassossego do guarda-livros naquele alegre alvoroço de que só um grupo de mulheres é capaz, ao mesmo tempo ruidoso e pueril, mas sempre sensual e envolvido. Só faltou outra intensidade à Ode Marítima, porque um Álvaro de Campos a desejar ser a “mulher-todas-as-mulheres” tem que ser dito com inexprimível fulgor.

Na sequência de Masculine, Paulo Ribeiro completa agora o duplo tributo a este que é uma das suas referências (mantém há anos o livro de Bernardo Soares sobre a mesa-de-cabeceira) e consegue tornar interessante a nada interessante perspectiva Pessoana sobre a mulher, recorrendo à desconstrução dos seus textos. Não estamos perante “uma obra sobre…”, mas “uma obra a partir de…”, porque a prosa e a poesia são mesmo assim, organismos vivos que se prestam às partidas da sensibilidade e da imaginação de quem as lê.

Acredito que o poeta, que era estranho e cerebral, mas também irónico e divertido, não se importaria de se ver deste modo reinventado. Coloca-se o pouco que escreveu sobre as mulheres noutro contexto, acrescenta-se plasticidade e beleza, envolve-se tudo numa atmosfera pop e percebe-se como, afinal, Pessoa fica bem no feminino. Sexy.

azuki
 
 



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  Falaremos depois do Fernando e da sua Mensagem, mas agora, senhoras e senhores, atenção ...

Sei que o assunto deveria ser este mês a Mensagem do Fernando, e que não é lá muito educado vir falar doutra coisa. Mas encontrei um site que requer urgente divulgação. Proponho por isso aos leitores (leitoras) do LP que desviem brevemente os olhos da Mensagem e os fixem por momentos neste «6 milliards d'Autres», projecto do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, o mesmo de «La terre vue du ciel». Para quem faça sobrolho ao francês, há a opção pelo inglês ou pelo italiano. Depois da breve ou mais longa mirada, o meu atrevimento chega ao ponto de pedir que façam uma qualquer ligação directa ao motor da Mensagem, regressando assim ao Fernando. Eu, pela minha parte, procurarei participar mais tarde, mas apenas com algumas dicas sobre o livro de fotografia que o Jorge, meu amigo, fez sobre a Mensagem.

ams  

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quinta-feira, setembro 11, 2008
  D.Dinis - O Rei Poeta
Os Castelos - D.Dinis

" O Plantador de naus a haver "

"E a fala dos pinhais , murolho obscuro
É a voz da terra ansiando pelo mar"
Mensagem, Fernando Pessoa

D. Dinis (9 de Outubro 1261 — 7 de Janeiro 1325) foi o sexto rei de Portugal. Foi aclamado em Lisboa em 1279.
Foi cognominado O Lavrador ou O Rei-Agricultor, pelo impulso que deu no reino àquela actividade, e ainda O Rei-Poeta ou O Rei-Trovador, pelas Cantigas de Amigo e de Amor que compôs, e pelo desenvolvimento da poesia trovadoresca a que se assistiu no seu reinado. Foi o primeiro rei português a assinar os seus documentos com o nome completo. Presume-se que tenha sido o primeiro rei português não analfabeto.
D. Dinis foi essencialmente um rei administrador e não guerreiro. A sua prioridade governativa foi essencialmente a organização do reino: continuando a vertente legisladora de seu pai D. Afonso III. A profusa acção legislativa está contida, hoje, no Livro da Leis e Posturas e nas Ordenações Afonsinas.
A cultura foi um dos seus interesses pessoais. D. Dinis não só apreciava literatura, como foi ele próprio um poeta notabilíssimo e um dos maiores e mais fecundos trovadores do seu tempo.
As maiores realizações e obras que marcaram o reinado de D. Dinis foram:
Texto e imagem Wikipédia, ver mais em D.Diniz , Wikipédia

Cantiga de Amigo "Ai, flores, ai, flores do verde pino" e imagem do Pergaminho Sharrer, com músicas de D.Dinis, descoberto em 1990 pelo Prof. Harvey L. Sharrer, Ver no fórum netcafeamonarquia.moderna
D. Dinis morreu em Santarém a 7 de Janeiro de 1325, e foi sepultado no Mosteiro de São Dinis, em Odivelas.

Túmulo de D: Dinis no Mosteiro São Dinis, foto no site da C.M.Odivelas

Penso que o reinado de D. Dinis marca o princípio da construção de uma nação, superando uma fase anterior em que a nossa "missão" era a conquista de territórios aos "Mouros". Foi um período em que o País se organizou , em que se estruturou e se desenvolveu, principalmente nas actividades agrárias. Sendo o Rei que procurou a paz e o entendimento com os nossos vizinhos e rivais de Castela, proporcionou ao povo português um longo tempo de paz, que nos permitiu definir caminhos próprios e ter projectos nacionais. D.Dinis teve o grande mérito e dá um contributo enorme para se poder desenvolver uma identidade nacional, ao apostar na cultura e na criação do ensino universitário.

Luis Neves

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  OS CASTELOS - Viriato
"A morte de Viriato" - José de Madrazo


Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a magrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.

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quarta-feira, setembro 10, 2008
  OS CASTELOS - Ulisses

A superfície depois da raíz. E esta superfície está pejada de edificações e edificadores. O primeiro é Ulisses, o fundador mítico de Lisboa. Reza a lenda que terá aportado a Lisboa e encontrado uma deusa local, deusa da terra das serpentes, que por ele se perdeu de amores. Mas Ulisses volta para a sua amada Penélope. Inconformada, a deusa persegue o amado, com o seu corpo de serpente, criando assim as sete colinas.
cristina_pt

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  OS CAMPOS - O dos castelos

Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Pessoa evoca os campos (Europa) em que nasce Portugal.
Confesso que são os "olhos gregos", uma referência à nossa cultura de raiz helénica, que mais me surpreendeu, porque sempre me havia passado despercebida. A reiteração da prova que há livros que devem ser lidos de tempos a tempos, para que cresçam como nós.

cristina_pt

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barões assinalados

Na verdade, uma pesquisa rápida na net revela imensa informação sobre esta pequena obra. Uma das vertentes que podemos encontrar é a aproximação a Os Lusíadas. Não só porque o poeta previa a chegada de um novo Camões (que é costume associar ao próprio Pessoa), ou pelo assunto tratado, a história de Portugal, ou pelo tom épico e grandioso - apesar do sabor amargo a desejo sem realização que se entranha em alguns versos -, mas porque representa o homem na sua vontade indómita de superação da morte e do esquecimento. Neste sentido a Mensagem é, como Os Lusíadas, universalista e intemporal, mas não só. Como no poema de Camões, não é o ser humano em si (qualquer ser humano) que é cantado, mas sim e só aquele que é digno de louvor, aquele ou aqueles barões assinalados que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando, embora as obras não sejam aquelas cantadas na epopeia camoniana.
Um pergunta e um desafio antes das obras. Vejamos que barões são esses da Mensagem, que reis, que fidalgos, que clero? Há gente do povo, que gente?

Clarinda


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terça-feira, setembro 09, 2008
  Epigrafe à 1ª parte - Brasão, "Bellum sine Bello"
"Cada uma das partes do Poema inclui uma divisa ou epígrafe em latim e que em "Brasão" é: BELLUM SINE BELLO (literalmente "Guerra sem a guerra") que eu, não sendo latinista, traduziria por "Guerra sem combate". Este parece ser, pois, o mote que Fernando Pessoa associaria a Portugal através da lição da sua história.

BELLUM SINE BELLO é um ideal português de paz a que hoje se convencionou chamar "brandos costumes". "Guerra sem combate" é o poder associado à recusa consciente da violência, recusa essa que enobrece o poder. A divisa poderia igualmente ser "A Paz dos fortes" embora, claro, lhe faltasse então a subtileza da epígrafe escolhida por Fernando Pessoa!
Uma outra explicação da epígrafe (que imaginei não porque me pareça provável mas apenas para exemplificar as dúvidas que se deparam a quem tenta interpretar alegorias alheias) poder-se-ia basear na tradução alternativa "Guerra sem armas". Neste caso a divisa representaria um ideal de conquista espiritual e humana (pela difusão da cultura portuguesa e não apenas da religião) que foi no passado um importante vector da expansão portuguesa e seria no futuro, presumivelmente, a via para o Quinto Império. A cultura é, afinal, o único remanescente da colonização que não é efémero..."

João Manuel Mimoso, Introdução ao Brasão , 1ª parte do livro Mensagem
no site http://www.historia.com.pt/Mensagem/Index.htm

Porque eu não saberia interpretar a frase (epigrafe) que abre a Mensagem de uma forma tão clara e com uma visão tão geral, resolvi colocar aqui este excerto de João M. Mimoso.

Para quem estiver interessado numa leitura mais aprofundada, encontrei um texto que auxilia a leitura, o ensaio " As Mensagens da "Mensagem" " de Nuno Hipólito, no site Portal Pessoa

E o interessante Blog da casa Fernando Pessoa, Mundo Pessoa , sempre com noticias e novidades sobre literatura , poesia e arte.

Luis Neves

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segunda-feira, setembro 08, 2008
  Comunidade de Leitores da Fundação de Serralves
O SENTIDO DO ÉPICO NAS RAÍZES DA CULTURA EUROPEIA
30 Set - 04 Nov 2008 - das 21:30 às 23:30 - Terças - BIBLIOTECA

A epopeia é muito mais do que um género literário, é caminho primeiro no rasgar da nossa história, primordial desenho de quem somos e de como nos entendemos, recortado horizonte da profundidade e da vastidão da vida. Não raramente, povos e tradições reconheceram, ou inventaram em indesmentível verdade da alma, a primaveril força de uma heróica palavra fundadora, arquitectura de um tempo original no seio do qual nasceram e cresceram. Para a cultura ocidental, essa palavra fundadora tem um nome – Homero. É na poesia desse mítico bardo, cego para o imediatamente empírico, mas visionário para o que de nobre, grande e ígneo a vida encerra, que nós começámos propriamente a ver, a amar, a viajar para portos distantes, a sentir a dor inconsolável da nossa finitude e a alegria imensa de a procurar desmentir em consciência e em gesto humano.
Razões culturais levaram a que o nome de Vergílio fosse inscrito, com idêntico fulgor e porventura maior influência, na matricial herança heróica que nos esculpiu.
A Ilíada, a Odisseia e a Eneida são sangue primordial, voz antiga que ainda sopra e nos anima, sem a qual definha e empobrece o humano passo que nos move.
Permitir que a brisa épica nos envolva e, no que aí se revelar, sentir e pensar a nossa condição e a nossa sorte, é o objectivo desta Comunidade de Leitores.

Concepção e orientação: José Pedro Serra e Maria João Seixas
 
sábado, setembro 06, 2008
  Pode alguém ser quem não é ?
Nacionalismo #*# Místico

"É duvidoso que a Mensagem seja literariamente superior a Os Lusíadas, mas é, num certo sentido, mais vasta. Se a segunda parte conta a época dos Descobrimentos, a primeira remonta aos primórdios da história portuguesa e a terceira olha para o futuro, atenta aos símbolos e avisos vaticinadores de que Portugal poderá cumprir-se. Entramos, na última parte, num tempo que inclui todos os tempos e é, portanto , a transcendência do tempo. Em substituição da história épica de um povo, Pessoa realiza a síntese lírica da aventura humana, consubstanciada na experiência portuguesa. É uma versão etérea da história, que visa transpor a glória nacional do passado e a glória sonhada do futuro para um plano mais-do-que-português. Por isso insere no drama nacional um mito europeizante - o do Rei Artur e a demanda do Graal (ou «Gral», como Pessoa preferia) - , convertendo Nuno Álvares Pereira num cavaleiro da Távola Redonda e D. Sebastião em Galaad (ou «Galaaz») , o cavaleiro mais recto e puro. No plano propriamente nacionalista, que é o mais evidente e imediato, o mais urgente,

a Mensagem anseia por um Portugal que seja completa e puramente ele próprio, não por ser ou dever ser superior a Espanha ou a França, mas porque não pode ser senão aquilo que é.

O nacionalismo de Pessoa constituía, em parte, um correctivo, para contrariar a mania de medir o país por padrões e valores estrangeiros. Incorporava, aportuguesando-a , a lenda dos cavaleiros da Távola Redonda, mas promovia e exaltava o mito sebastianista, porque era verdadeiramente português.

(...)

Não obstante a sua desilusão [com o Estado novo e Salazar]], Pessoa, na referida nota, ainda se assumia como «partidário de um nacionalismo místico» e esperançoso de «um sebastianismo novo». Em boa verdade, não tinha motivos para se arrepender de ter privilegiado estes conceitos na sua Mensagem, onde funcionaram mais como verdades poéticas do que como propostas políticas. De facto, o livro não era nem uma profecia nem um programa político, e muito menos pretendia ser uma obra saudosista. O que propõe , se propuser alguma coisa , é uma transformação de atitudes e visões, dizendo em verso o que o seu autor já afirmara em prosa mais de vinte anos antes, na conclusão do artigo «A Nova Poesia Portuguesa no seu Aspecto Psicológico»:

« E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas "daquilo de que os sonhos são feitos". E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente. »

Isto é nacionalismo místico, mas importa recordar que Portugal também era e é um sinal, um símbolo, podendo representar qualquer nação, seja esta uma pátria ou um simples ser humano (que nunca é simples nem uno).

(...)
«Tudo pela humanidade» escreveu Pessoa em 1935, mas já deixara claro em Mensagem que Portugal era um exemplo , um caso, uma metáfora para algo mais vasto. «As nações todas são mistérios», principia o sexto poema do livro, e prossegue, «Cada uma é todo o mundo a sós» Seria possível ser mais explícito? O Nacionalismo de Pessoa foi «místico» também por isso - por ter ultrapassado de longe os confins geográficos e históricos do país onde nasceu e morreu. Não terá sido esta a verdadeira razão (consciente ou não) que o levou a alterar o titulo de «Portugal» para «Mensagem» já o livro estava na tipografia? Para evitar, ou minimizar, confusões?"


Prefácio do livro Mensagem, de Richard Zenith


Os excertos do prefácio que coloquei aqui, são uma boa introdução para começar a leitura, e para entender um pouco os diferentes conceitos e mitologias que surgem no livro.

ilustrações do livro Mensagem , de Pedro Sousa Pereira, no Blog obvious

Luis Neves

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Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.




Um texto poético exige do seu virtual leitor três coisinhas básicas. Que conheça o assunto tratado, ainda que superficialmente, que se sinta pertença afectiva das palavras que lê e que se emocione.
Sem isso, Deus não quer, o leitor não sonha e a obra não renasce.



imagem daqui

Clarinda

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sexta-feira, setembro 05, 2008
  o fim do Dias com Árvores

Ao Paulo, à Maria e à Manuela:

por estes quatro anos,

bem hajam.
 
  Quinto Império e Sebastianismo (Richard Zenith)
Quinto Império
Embora não o nomeie, o opúsculo alude ao brilhante estado futuro de Portugal - o do Quinto Império - que Pessoa previa e teorizava noutros escritos. O poema homónimo de Mensagem sintetiza, nas suas duas últimas estrofes, a origem desta doutrina e a versão pessoana da mesma. O «ser que sonhou», na penúltima estrofe, corresponde a Nabucodonosor, rei da Babilónia. A interpretação que o profeta Daniel deu ao seu sonho - em que aparece uma gigantesca figura humana composta de diversos materiais - fora tradicionalmente entendida como a história dos grandes impérios militares do mundo ocidental: o babilónico, o persa, o grego e o romano, sendo o quinto império por vezes entendido como o império britânico. Pessoa, como se depreende da última estrofe do poema, entendia que os cinco impérios eram o da Grécia, o de Roma, o da Cristandade, o da Europa pós-renascentista e - prestes a despontar - o império de Portugal. Neste esquema, os impérios eram grandes (ou seria grande , no caso do futuro quinto império) não pelo seu poder militar mas sim pela sua força cultural, «espiritual».


Sebastianismo
O Sebastianismo era o instrumento que faria nascer o Quinto Império. Os dois conceitos andavam de mãos dadas já nos primeirissimos artigos publicados por Pessoa, em 1912, sobre «A Nova Poesia Portuguesa». Neles se previa o advento próximo de um «Grande Poeta», um «Super-Camões», que encabeçaria uma «nova Renascença (...) que de Portugal se derramará para a Europa, como da Itália para a Europa se derramou a outra Renascença». Era o Sebastianismo na sua vertente literária. No entanto, os mesmos artigos falam do «nosso Cromwell futuro», de um «homem de força» capaz de impor uma nova teoria política no plano da prática, «eliminando os obstáculos , que são essa gente de agora,monárquicos e republicanos». O sebastianismo inicial de Pessoa consistia, portanto, em dois aspectos complementares mas distintos. Proclamava, por um lado, a vinda do Encoberto literário , o Super-Camões, que afinal era o próprio Pessoa, com o seu séquito de heterónimos prontos para revolucionar as letras portuguesas, e , por outro lado, o advento de um «homem forte» que faria o país superar uma política medíocre e sair , de uma vez por todas, do marasmo socioeconómico que o empatava.


Pessoa apelidava o seu sebastianismo de «racional» porque não acreditava na lenda subjacente à doutrina. Na sua resposta a um inquérito feito em 1926 reconheceu que o mito sebastianista era uma «mentira», útil para «levantar o moral» da nação graças às suas «raízes profundas no passado e na alma portuguesa». Ou como diz em «Ulisses» , o terceiro poema de Mensagem: «O mito é o nada que é tudo» , «Foi por não ser existindo» , «Assim a lenda se escorre / A entrar na realidade».
O Autor de «Autopsicografia» é um fingidor não por contar mentiras mas sim por criar verdades onde antes não havia nada, sendo este mesmo principio que animava o sebastianismo pessoano.


Qual era então a mensagem da Mensagem ? Qual o intuito do seu simbolismo, do seu insistente nacionalismo místico (ou misticismo nacionalista ?), da presença tão marcante da figura de D. Sebastião, explicitamente referido em dez dos seus 44 poemas?


Prefácio do livro Mensagem, Richard Zenith


Link para Mensagem (anotados por João Manuel Mimoso e em audio)
Luis Neves

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quinta-feira, setembro 04, 2008
  Prenda (especial) de Aniversário
O ano passado a minha mãe fez 70 anos, e fizemos uma festa surpresa.
Os colegas e amigos da escola ofereceram-lhe o Livro "Mensagem" .

Mensagem - Fernando Pessoa
Ilustrações de Pedro Sousa Pereira
Prefácio Richard Zenith
Edição: Oficina do Livro

Esta edição é muito bonita, as ilustrações tornam o livro muito atraente. O leitor pode fazer uma leitura dos poemas e ver a história ilustrada, no género BD.

Cada um dos amigos escolheu um dos poemas da Mensagem que preferia, e escreveu uma dedicatória.
Este exemplar é por isso um dos livros mais acarinhados cá em casa.
Deixo aqui uma das mensagens deixadas por um amigo da minha mãe.
Uma grande, grande amiga (que eu não trato por tu, é verdade) porque associo a ela a nobreza dos seres únicos.
Continuamos , querida amiga , esta marcha espantosa da Vida!
Luis Farinha

Luis Neves

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  A Casa Fernando Pessoa já funciona aos sábados
 
quarta-feira, setembro 03, 2008
 
escreva mensagem por extenso e vá para fora...lá dentro

A palavra portuguesa Mensagem é, como diz J. A. Seabra, "derivada anagramaticamente" da fórmula de Anquises, quando explica a Eneias, descido aos infernos, o sistema do Universo: "Mens ag (itat mol) em': "o espírito move a massa". É uma maneira de o poeta afirmar logo à partida o seu idealismo absoluto."
Robert Bréchon

texto daqui

Clarinda

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terça-feira, setembro 02, 2008
  Fernado Pessoa
Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússula e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo

Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes
Ca´riátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas

Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética, II

Cristina_pt

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biografia não autorizada



São Fernando Pessoa de Lisboa nasceu em Lisboa e morreu em Lisboa. Lis-bo-a. Não viajou pelo mundo, à excepção daquela Durban na África do Sul, para onde imagino ter ido em lágrimas agarrado às saias da mãe, como se fosse ver o Adamastor, mas depressa se naturalizou na língua, fazendo brilhar a dor e o fingidor na esfera armilar de sua majestade the queen, com a dureza e o brilho dos diamantes.
Em Lisboa viveu, portanto, um drama repartido. Deu um bocadinho a Campos, outro a Reis, outro a Caeiro (o Soares não o chamo que me deita abaixo o castelo de areia do fim do verão) e ficou com outra para ele. Diz-se que quem parte e reparte e não fica com a melhor parte …
Nós, leitores que temos também as fases Pessoa, não sabemos bem qual é a melhor parte. Ora somos arrebatados pelas interjeições futuristas de Campos no cais de onde nunca parte, ora pela heresia de Caeiro a contar o dia-a dia da Nossa Senhora no céu, enquanto a pomba se entretém a borrar as costas da cadeira com excremento, ora aceitamos a contra-gosto a Lídia de Reis que, por mais sabedoria que tenha dos clássicos, nos deixa um não sei quê que vem sabemos bem de onde, porque achamos que, pronto, um homem e uma mulher à beira-rio a enlaçar e desenlaçar as mãos é um pouco triste por mais estóico que se seja em nome da sacrossanta literatura. Mas dele mesmo, o Pessoa uno que andava pelas ruas de Lisboa à chuva oblíqua e pensava na pobre ceifeira ou antevia no plaino abandonado o menino de sua mãe que nunca deixou de ser, gostamos verdadeiramente do comboio de corda.
O comboio de corda leva-nos à infância e é com olhos de criança que me aproximo da Mensagem para ouvir a voz das ondas, tremer diante do Mostrengo e sonhar com a Utopia.
São Fernando Pessoa de Lisboa dá licença que partamos!


imagem: Pessoa e eléctrico, de José João Brito, 1985

Clarinda

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segunda-feira, setembro 01, 2008
 
bem-vindo!

«O meu livro "Mensagem" chamava-se primitivamente "Portugal". Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar - a observação era por igual patriótica e publicitária - que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. "Quer V. pôr o titulo do seu livro em analogia com "portugalize os seus pés"? "Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.
Pus-lhe instintivamente esse título abstracto. Substituí-o por um título concreto por uma razão…
E o curioso é que o título Mensagem está mais certo - à parte a razão que me levou a pô-lo - de que o título primitivo.»


Fernando Pessoa



texto retirado daqui

Clarinda

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

Primeira Viagem Temática BLOOMSDAY 2004

Primeira Saí­da de Campo TORMES 2004

Primeira Tertúlia Casa de 3 2005

Segundo Aniversário LP

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