quinta-feira, julho 08, 2010

Coisa alguma me explica

(o imperador Adriano)

Nunca apreciou fazer parte de um sistema e era diferente, mais diferente do que seria suposto. Ao longo da vida, deixou-se maravilhar, preferindo as alegrias simples aos adornos excessivos. Gostaria de ter sido um centauro: Borístenes é a antítese das ciladas dos homens, talvez a criatura que melhor o compreendeu. Fatigado pelo excesso de solicitude e pelas adulações de que era alvo, ia à cidade o menos possível. Uma parte importante de si foi dedicada ao amor e às artes. O seu percurso não foi uniforme, porque quase sempre se caracterizou pela assumpção de posições extremas, que foi substituindo por outras igualmente excessivas. Toda a verdade provoca escândalo e, contudo, assumiu os sonhos, os caprichos, os delírios, as lacunas, os erros. Estava ciente das limitações dos métodos de avaliação da existência humana de que dispunha, porque os livros mentem, quase tudo o que sabemos de outrem é em segunda mão e um convívio intenso de sessenta anos de um homem consigo mesmo comporta uma enorme margem de erro. Ao reflectir sobre a sua vida, Adriano sabe que três quartos da mesma se mantêm sob uma indefinível névoa.

Sílvia