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sexta-feira, setembro 05, 2008
  Quinto Império e Sebastianismo (Richard Zenith)
Quinto Império
Embora não o nomeie, o opúsculo alude ao brilhante estado futuro de Portugal - o do Quinto Império - que Pessoa previa e teorizava noutros escritos. O poema homónimo de Mensagem sintetiza, nas suas duas últimas estrofes, a origem desta doutrina e a versão pessoana da mesma. O «ser que sonhou», na penúltima estrofe, corresponde a Nabucodonosor, rei da Babilónia. A interpretação que o profeta Daniel deu ao seu sonho - em que aparece uma gigantesca figura humana composta de diversos materiais - fora tradicionalmente entendida como a história dos grandes impérios militares do mundo ocidental: o babilónico, o persa, o grego e o romano, sendo o quinto império por vezes entendido como o império britânico. Pessoa, como se depreende da última estrofe do poema, entendia que os cinco impérios eram o da Grécia, o de Roma, o da Cristandade, o da Europa pós-renascentista e - prestes a despontar - o império de Portugal. Neste esquema, os impérios eram grandes (ou seria grande , no caso do futuro quinto império) não pelo seu poder militar mas sim pela sua força cultural, «espiritual».


Sebastianismo
O Sebastianismo era o instrumento que faria nascer o Quinto Império. Os dois conceitos andavam de mãos dadas já nos primeirissimos artigos publicados por Pessoa, em 1912, sobre «A Nova Poesia Portuguesa». Neles se previa o advento próximo de um «Grande Poeta», um «Super-Camões», que encabeçaria uma «nova Renascença (...) que de Portugal se derramará para a Europa, como da Itália para a Europa se derramou a outra Renascença». Era o Sebastianismo na sua vertente literária. No entanto, os mesmos artigos falam do «nosso Cromwell futuro», de um «homem de força» capaz de impor uma nova teoria política no plano da prática, «eliminando os obstáculos , que são essa gente de agora,monárquicos e republicanos». O sebastianismo inicial de Pessoa consistia, portanto, em dois aspectos complementares mas distintos. Proclamava, por um lado, a vinda do Encoberto literário , o Super-Camões, que afinal era o próprio Pessoa, com o seu séquito de heterónimos prontos para revolucionar as letras portuguesas, e , por outro lado, o advento de um «homem forte» que faria o país superar uma política medíocre e sair , de uma vez por todas, do marasmo socioeconómico que o empatava.


Pessoa apelidava o seu sebastianismo de «racional» porque não acreditava na lenda subjacente à doutrina. Na sua resposta a um inquérito feito em 1926 reconheceu que o mito sebastianista era uma «mentira», útil para «levantar o moral» da nação graças às suas «raízes profundas no passado e na alma portuguesa». Ou como diz em «Ulisses» , o terceiro poema de Mensagem: «O mito é o nada que é tudo» , «Foi por não ser existindo» , «Assim a lenda se escorre / A entrar na realidade».
O Autor de «Autopsicografia» é um fingidor não por contar mentiras mas sim por criar verdades onde antes não havia nada, sendo este mesmo principio que animava o sebastianismo pessoano.


Qual era então a mensagem da Mensagem ? Qual o intuito do seu simbolismo, do seu insistente nacionalismo místico (ou misticismo nacionalista ?), da presença tão marcante da figura de D. Sebastião, explicitamente referido em dez dos seus 44 poemas?


Prefácio do livro Mensagem, Richard Zenith


Link para Mensagem (anotados por João Manuel Mimoso e em audio)
Luis Neves

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