Não me revi no prefácio de Paul Auster, por não conseguir vislumbrar, na personagem, impertinência intelectual ou uma diletante vontade de experimentar os efeitos alucinogéneos de um estado de subnutrição profundo. Tão-pouco a achei incapaz de convocar a minha simpatia.
Sim, o nosso herói consegue ser um pouco arrogante e megalómano, mas parece-me mais um homem desajeitado, por vezes patético, com pouca apetência para a gestão dos seus escassíssimos recursos (nem sempre conseguimos ser racionais, muito menos em situações limite). Terá, porventura, traços de bipolaridade, sofrendo de estados de euforia seguidos por períodos de depressão, acabando por entrar num círculo vicioso que não é capaz de contrariar: tinha que escrever para não passar fome, mas a fome impedia-o de escrever e, não escrevendo, passava fome. Acima de tudo, em condições tão penosas, tão extremas, quase impossíveis de imaginar, tentou manter-se uno, conservando, desesperadamente, dignidade e princípios. Qualquer outro teria soçobrado a meio do caminho.
Recordo, com simpatia, os seus momentos de boa disposição e uma ainda preservada capacidade de encantamento:
A fome fez-se sentir de novo, começou a roer-me o peito, a dar-me puxões, a torturar-me com pequenas guinadas agudas. (….) Busquei na memória um homem que tivesse dez cêntimos, mas não encontrei nenhum. Pelo menos, estava um dia bonito, havia sol e luz à minha volta, o céu flutuava como um mar esplêndido.
Não o senti a comprazer-se com o sofrimento e são raros os momentos de auto-comiseração. É certo que uma galopante mania da perseguição o leva a praguejar contra Deus e a sorte, como se o mundo inteiro conjurasse para o prejudicar, mas fazia-o sem amargura ou inveja, o que é notável:
O meu pé estava muito dorido, mas, de resto, não me faltava nada.
Mais do que uma insuportável sobranceria, pareceu-me que a sua cabeça erguida decorria da impossibilidade de processamento mental de uma tão triste condição: de certa forma, e lá está a soberba, sentia-se diferente; ele não pertencia àquela pobreza sem solução, pois era apenas temporariamente pobre e não aceitava que o confundissem com um mendigo. Considerando que nem tudo era válido para sobreviver, fazia questão de se sentir honorável e era ainda susceptível de sentir vergonha (talvez tivesse preferido morrer à fome, a mendigar ou a roubar de forma sistemática):
Que doce sabor tinha o ser de novo uma pessoa honesta! As minhas algibeiras vazias já não me pesavam, senti prazer em ser novamente pelintra. Ao reflectir bem nisso, aquele dinheiro tinha-me causado muita angústia secreta, tinha pensado nele realmente com arrepios, uma vez e outra. Eu não era uma alma insensível. A minha natureza honesta tinha-se revoltado contra o meu comportamento baixo. Graças a Deus, eu havia subido na minha própria consideração.
Pensei que iria encontrar uma criatura insensível e eis que um homem depauperado mental e fisicamente, com frio, fome e dores, tem a capacidade de se preocupar com um entrevado, de sofrer pela rapariguinha com as mãos azuis de frio, de guardar um dos bolos para um rapazinho que tinha visto a ser humilhado:
E os olhos marejaram-se-me de lágrimas com a ideia de que o pequeno iria encontrar o bolo.
Toca-me essa sua incrível inteireza e, ao contrário do que imaginava quando comecei o livro, nada nele me causa antipatia ou repugnância. Ele até podia andar perdido, sem saber quem era, mas conservou a sua humanidade até ao fim. Acho que este homem é “gostável” (escreveu um dia Inês Pedrosa: Gosto das pessoas que nem no desespero perdem a delicadeza).
II. Agora, terminado o livro, pergunto-me se será possível encarar a fome com tal delicadeza e penso que ele mentiu mentiu mentiu.
Sílvia
* todas as passagens foram retiradas de Knut Hamsun, “Fome”, Cavalo de Ferro, 2008