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quarta-feira, maio 20, 2009
  Para Sempre
Porque eu estou tão saudoso de ti. Ou não de ti, talvez, mas de um tempo em que tudo em ti se centralizava. Ou não do tempo mas de quanto foi a minha vida e eu procuro numa palavra que viesse desde então até mim e não encontro. Uma vida inteira, assisto ao seu remate, que palavra me sobrou? Que é que eu tenho comigo para enfrentar a morte? Que é que a morte vem matar? Tanta coisa sublime eu ouvi da vida humana, que é que ma resume? Jogo a morte num prato da balança com a vida que ela vai suprimir. Que é que a equilibra no outro prato em valores que conquistei? Não posso apresentar-me assim de mãos vazias perante a morte, a morte tem de matar alguma coisa, não tenho quase nada para matar. Oh, que se coza a morte, estou tão bem assim a pensar. A recuperar na memória o tempo em que transbordava de vida, que colheita então a morte faria, és tão ingrato. Viveste até agora, que importa se a morte te levar só os restos, a carcaça onde tudo aconteceu? é feio o pecado da ingratidão. Relembra, que é que tens a relembrar? Tanta coisa – Sandra. E é o que no fim de contas me lembra só. Como se toda a vida se reunisse nela, passasse nela e nela se iluminasse e tivesse sentido.
“Para Sempre”, de Vergílio Ferreira, Quetzal Editores (16ª edição)



Surge em 1983, vinte e quatro anos após "Aparição", e conquistou-me. Estou presa às palavras aflitas de um homem que se sente velho, só, cansado, um homem que se questiona (como sempre fez, aliás), mas desta feita sem a vitalidade de um futuro ainda por escrever. Este homem pouco mais será, e quer entender quem foi, o que resta de quem foi, o que deixará de si para os que ficam. E deseja partir com dignidade e asseio. Sê inteiro e digno.

Ao longo dessas páginas vibrantes, em que o narrador tenta justificar a vida e preparar-se para a morte (poder respeitar-me nos restos do que sou), sofremos a ideia de insuficiência que o corrói, a sua noção de pequenez perante a fria imobilidade das estrelas, o desespero da proximidade do fim, o isolamento em que se encontra, porque o mundo lá fora continua a rodar e o coração dos outros (empanturrados de futuro) palpita ainda com tanta energia e tanto por fazer e ele está vazio, nada mais tem para oferecer, pouco mais lhe sobra do que recordar (e o que das suas recordações será verdade…?) e absorver com reverência os instantes do resto da sua vida. E de súbito lembro-me: bebe devagar, concentra-te no prazer de beberes, sê o teu corpo que bebe. A vida está tão cheia de milagre. Mas convulsos rápidos distraídos, tanta coisa que se perde. Estás no fim da vida, vive-a milimetricamente.

Este livro é, também, uma longa carta de amor a Sandra, plena de ternura, com passagens que comovem e embalam. E o violino, claro, impossível esquecer aquele violino.

“Para Sempre”, obra de introspecção e balanço, está magnificamente escrito (interessante perceber como Vergílio Ferreira aprimorou a prosa, desde os primeiros anos, conseguindo adaptá-la à modernidade), com um estilo que é actual, elegante, sofisticado. Um livro povoado de destroços, despojos, desespero. De solidão, cansaço, saudade. De emoção e de afecto. De pavor e de derrota, de descobertas e de vitórias. Lindo, maravilhoso, envolvente, tocante. Tão poético, tão belo, tão triste. Um livro verdadeiramente encantador.

Quem sou? Tem piada, não me lembro de jamais mo perguntar – quem sou? E desde quando comecei a sê-lo? Deve ser útil sabê-lo, que é que está dentro de mim? para ao menos saber o que vou entregar à morte.

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