quarta-feira, abril 14, 2010

Antígona, no TNSJ

Em "Antígona", encontramos múltiplas dimensões: religiosa, política, ética. Individual vs colectivo; direito vs justiça; leis divinas/costumes vs direito positivo; democracia vs tirania,… (neste rol, não incluo a questão do género, porque a entendo deslocada do pensamento de Sófocles).

Antígona presta aos mortos o respeito que lhes considera devido (para um grego, um corpo insepulto representava uma desgraça terrível: o cadáver seria mutilado; o indivíduo seria apagado da memória familiar e da cidade e, sobretudo, não entraria na região dos mortos; acrescia o grave risco da insalubridade); "A religião grega não repousa na palavra, mas na tradição ritual" (W. Burckert); Não nasci para odiar, mas para amar, diz Antígona.

Creonte representa o Poder estabelecido; não pretende dar a um traidor o mesmo tratamento de um cidadão comum; não pode deixar de exercer a lei sobre a sua sobrinha, porque ela é igual para todos.

Hemon contrapõe o despotismo do pai ao interesse da colectividade: o poder não deve ser exercido em desacordo com aqueles que governa.

Há uma inter-penetração entre as esferas de acção, quer do Estado, quer do indivíduo/ família/ costume/ religião, cuja articulação é essencial à preservação da comunidade, mas muito difícil de gerir (recordo-me da lei do véu francesa). A acção do indivíduo tem que estar inserida num ideal de conduta; contrariamente, "em política, não há nada mais perigoso do que um idealista com uma metralhadora"…

Ao invadir os domínios dos deuses com tal radicalismo, Creonte não dá mostras de grande inteligência (há certas fracturas que exigem maturidade social; não se pode destituir uma colectividade das suas grelhas de interpretação do mundo de um momento para o outro). Antígona, por seu turno, tem uma resposta demasiado emocional e peca por excesso de ousadia e falta de sensatez. A intermediação dos conflitos parece não ser possível quando as duas partes em confronto enfermam de obstinação, acabando por se aniquilar uma à outra. Bem vês que, nas torrentes invernais, quando as árvores cedem, os ramos se salvam: quem oferece resistência, perde-se com as próprias raízes.

Sílvia