sexta-feira, maio 25, 2012

"As Flores do Mal"

Baudelaire, para quem as situações extremas constituíam uma experiência artística e o modelo de vida burguês era um enorme tédio, foi escritor contra a vontade da mãe e do padrasto, conseguiu destruir a avultada herança paterna com uma existência boémia de patuscadas, alfaiates e amantes (apaixonei-me unicamente pelos prazeres, por uma excitação permanente), vivia com uma mulher que o exasperava e dominava, abusava dos estupefacientes e dos excitantes. Morreu jovem, com uma paralisia hereditária e potenciada pela sífilis, interdito judicialmente (com o acesso impedido ao pouco do que restou da fortuna do pai), obcecado pela penúria e perseguido pelos credores, rejeitado pela família e atraiçoado pela amante. No final da sua relativamente curta mas desregrada vida, talvez o cansaço: O Mort, vieux capitaine, il est temps!
 
Foi o primeiro "Maldito”, venerado pelas gerações subsequentes e fonte de inspiração para homens como Rimbaud, Verlaine e Mallarmé. Original e extravagante, protagonizou uma nova época na poesia francesa (segundo muitos, a mais importante revolução poética do sec XIX), virando a página do romantismo, para inaugurar a poesia moderna. Um insurrecto que afrontou a autoridade (da família, da escola, da religião) e os ideais burgueses, um boémio libertino que desprezava a trivialidade (o dandismo é o último rasgo de heroísmo na decadência), um apreciador do torpor da consciência causado pelo haxixe, o ópio ou o álcool, muito embora à subjectividade bacoca tenha contraposto o raciocínio, a curiosidade e a inquietude. Para Paul Valéry, com Baudelaire, a poesia francesa ultrapassou finalmente as fronteiras das nações.

Isolado e incompreendido, sem pretender convencer ninguém (pelo menos, assim o afirmava), Baudelaire quis extrair a beleza que existe no mal, rebelando-se contra uma sociedade anestesiada e bronca (A França atravessa um período de vulgaridade. Paris é o centro da irradiação da estupidez universal). Em guerra com a monotonia da rima e a postura supostamente acrítica do então glorificado romantismo, Baudelaire ousou "afrontar o sol da estupidez", através da criação desta planta espinhosa, onde, à bonomia prefere a incredulidade e, face à ventura, privilegia a angústia. Ao Diabo, “todos o servem”, mas poucos o reconhecem…

Sílvia