O Atticus Finch não vai ganhar, ele não pode ganhar, mas ele é o único homem das redondezas que pode fazer o júri demorar a tomar uma decisão, num caso como este. E pensei para comigo, é um passo...um passo de bébé, mas é um passo em frente.
Era tão triste como os mestiços: os brancos não queriam nada com ela porque vivia no meio de porcos; os negros não queriam nada com ela porque era branca. (...) Com uma mão Maycomb dava-lhes cabazes de Natal e dinheiro da segurança social, enquanto que com a outra os enxotava.
" Acreditar em algo e não o viver é desonesto." Gandhi
Ele tinha de o fazer, era por isso que o fazia e, de repente, aquele novo facto significava menos problemas e menos discussões. Mas será que explicava a atitude de toda a cidade? O tribunal tinha nomeado Atticus para o defender. E o Atticus queria defendê-lo. Era isso que não lhes agradava era tudo muito confuso.
(pg. 235)
Parece adequado falar um pouco sobre a advocacia. Atticus era advogado e um advogado que está do lado da justiça. Por vezes não é fácil sê-lo. Aliás, é importante esclarecer que estar do lado da justiça, poderá nem significar estar no lado do justo, mas estar lá; porque mesmo o injusto não pode ser injustiçado. Que seria de nós se não pudessemos confiar nos mais elementares princípios de garantia no direito?
Frequentemente poderão questionar-se como a/o advogada/o poderá defender aquele "monstro". Mas a verdade é que o faz porque tem de o fazer. E tem de o fazer não por obrigação de um ofício, mas porque o valor máximo - a justiça - assim o obriga.
Nunca me reconheci tal coragem.
Atticus é o advogado justiceiro. É o garante da igualdade e da protecção dos direitos civis. E é assim que os advogados devem ser. São frequentes as referências da obra e da sua personagem no meio jurídico. É o exemplo a seguir, é aquilo que todos gostariamos de ter coragem de ser e por isso, vamos tentando sê-lo.
Não resisto a citar Miguel Esteves Cardoso, no Público de ontem: "Gosto de médicos e gosto de advogados. São pessoas que aceitam, à partida, uma situação que era má e que, mesmo assim, querem pô-la boa."
Acima de tudo, um bando é constituído por pessoas. E todos os bandos de todas as nossas cidadezinhas do sul são constituídos por pessoas que nós conhecemos...e isso não quer dizer nada acerca delas, pois não?
...
Foi preciso aparecer uma criança de oito anos para os fazer cair na realidade, não foi? - disse Atticus - Isso só prova que...que uma matilha de animais selvagens pode ser detida, simplesmente porque continuam a ser humanos.
Umm, se calhar talvez seja necessária uma força policial composta de crianças.
(pg. 227)
Atticus acredita intrinsecamente na bondade humana. E nessa crença, aliada à sua integridade moral, sustenta a sua vida. E fá-lo, na maneira dos heróis, mesmo que tal o possa colocar em perigo. Atticus é um herói, como poucos existem.
Depois levantou-se e quebrou o que restava do nosso código de infância.
(pg.202)
O percurso dos Finch é também o crescimento das suas crianças. Com grande beleza, Lee vai descrevendo pequenos momentos que reflectem o amadurecimento do jovem Jem, que vemos atingir o estatuto de Mister. Lee deixa-nos o conforto que este irá crescer bem, cada vez mais parecido com Atticus, no seu altruísmo e na sua grandeza moral.
Nunca compreendi muito bem a sua preocupação com a hereditariedade. Não sei como, mas tinha ficado com a impressão de que as Pessoas de Bem eram aquelas que faziam o melhor que podiam com a sua consciência, mas a tia Alexandra era da opinião, expressa aliás com alguma obliquidade, que quanto mais tempo uma família habitava um pedaço de terra, mais fina era.
(pg. 187)
A tia é muito tia. A altivez com que se coloca acima dos seus pares e estratifica os cidadãos da pequena cidade, tornam-na merecedora de alguma desaprovação por parte da nossa pequena/grande Scout. Acreditemos que os seus esforços de educar a Scout de acordo com a sua visão redutora do que deve ser uma mulher, sejam infrutíferos.
Eu disse que adorava, o que era a mais pura mentira, mas às vezes, sob certas circunstâncias, é mesmo preciso mentir, sempre que a situação escapa ao nosso controlo.
Os contrabandistas de álcool tinham causado muitos sarilhos nos bairros dos negros, mas as mulheres eram muito pior. Mais uma vez, como já tinha acontecido tantas vezes na minha igreja, fui confrontada com a doutrina da Impureza da Mulher, que parecia afligir todos clérigos.(pg. 176)
Sim, pobre Scout, como irás descobrir, em relação a tal doutrina, todas as religiões são unânimes na sua concordância.
Só espero que o Jem e a Scout saibam procurar as respostas em mim e não no que se diz pela cidade. Espero que confiem suficientemente em mim... (pg. 131)
- Desta vez é diferente - disse ele. - Desta vez não estamos a lutar contra os ianques, estamos a lutar contra os nossos amigos. Mas lembra-te de uma coisa, por mais complicadas que as coisas se tornem, eles continuam a ser nossos amigos e esta continua a ser a nossa casa. (pg. 115)
Atticus explica à sua filha porque é necessário lutar por algumas causas, mesmo quando sabemos que vamos perder. Porque há batalhas que têm de ser travadas e porque há pessoas que merecem a nossa companhia, especialmente na derrota.
Mas o mais difícil é quando não é possível distinguir os amigos do inimigos. E nessa ambiguidade, ajuda a sensatez de Atticus que confesso não ter.
perguntas difíceis- Defendes pretos, Atticus? - perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.- Claro que sim. Não digas preto, Scout. É feio. - Mas`é o qu`toda a gente diz na escola. - Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa... - Mas então, se não queres que cresça a falar desta maneira, por que é que me mandas p`ra escola? (pg. 113)
Mas eis que ele aparece, vindo na minha direcção. A sua camisa branca baloiçava sobre a cerca das traseiras e ia lentamente ficando maior. Subiu os degraus traseiros, trancou a porta atrás de si e sentou-se no seu beliche. Mudo e quedo, mostrou-me as suas calças. Deitou-se e, durante algum tempo, ouvi o seu beliche a tremer. Pouco depois parou. E não o ouvi tremer de novo. (pg. 88)
A escrita de Harper Lee tem duas características, em particular, que me chamaram desde logo à atenção; em primeiro lugar o seu fantástico sentido de humor e de seguida, a sua capacidade de reportar (REPORTAR) os contornos da sua história (sim, história e não estória). Esta capacidade de descrever sem que os leitores se percam na descrição não é tarefa para amadores. Lee domina-a com mestria.
"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)
"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)
"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)
"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)
"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)
"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)
"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)
"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)
"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)
"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)
"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)
"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)
"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)
"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)
"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)
"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)
"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)
"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)
...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)
UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)
"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)
"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)
Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)
"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)
"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)
"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)
"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)
"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)
"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)