Leitura Partilhada
Ilíada, de Homero
- Sim, Troti. Haveria, porventura, leituras mais apropriadas para o verão e a Ilíada deveria ter sido uma escolha invernal, para essas domésticas tardes de domingo escuras, frias e chuvosas, debaixo das mantas. Mas eu vibrei tanto com o Livro Primeiro que nada me parece mais certo do que aquilo que foi este nosso Julho de 2006.
Um livro escrito há quase três mil anos. O Homem está na pré-história da filosofia mas já percebeu de que matéria é feito e tenta, com uma simplicidade afectuosa, atribuir um significado ao mundo e descobrir os seus mecanismos.
O mar, a aurora, o trovão, o voo de uma águia, o percurso humano, estão impregnados de sagrado e tudo é a sua representação antropomórfica, em que os deuses são criados à semelhança dos Homens e recebem, não só as suas características, como as suas ambições (força, sabedoria, omnipresença, imortalidade); eles são mesquinhos, caprichosos e cruéis, mas também susceptíveis de ser aplacados, desde que percebam merecimento e respeito (
…é bom oferecermos aos imortais os dons devidos); por vezes, têm atitudes inexplicáveis, mas até essas têm uma explicação: serão uma atitude inexplicável de um deus mal-humorado ou, mais simplesmente, o destino que cada Homem tem que encarar.
Narrativas sobrenaturais que permitem ordenar a desordem, explicar o inexplicável, aceitar o ilógico, os mitos apaziguam o medo da morte e a angústia da incerteza, conferindo um sentido à realidade e oferecendo ao Homem a ilusão de a dominar. A correcta realização dos rituais garante uma hierarquia e a participação no sagrado, levando os crentes a presumir que obterão os resultados desejados: um corpo insepulto é uma terrível desgraça.
A cada Homem, destinam os deuses jarras de dons, uma com os males, outra com as bênçãos. A proporção dependerá da discricionariedade dos deuses, mas também do livre arbítrio humano, essa estreita margem de manobra que se deverá gerir com sensatez, inteligência e alguma humildade.
A
Ilíada começa com uma
rixa de taberna (nas palavras de Roth) e retrata-nos inteiros, desde o orgulho e a cólera, ao espírito combativo e à insatisfação que nos fazem progredir, à coragem e à dignidade, até à súplica e à compaixão. Os mitos ofereciam arquétipos para os comportamentos humanos, garantindo a coesão social. Hoje, também temos os nossos mitos e os nossos arquétipos, e a vida continua a ser uma sucessão de rixas de taberna. A
Ilíada bem pode servir-nos de espelho. Afinal, não mudamos nada em três mil anos.
azuki
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A Frederico Lourenço, tradutor da Ilíada:
Bem haja.
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(...) as figuras troianas que mais ficarão na mente do leitor da Ilíada são as femininas: Hécuba, com o seu sofrimento esmagador; Andrómaca, de cuja boca Homero faz sempre fluir poesia da mais arrebatada genialidade; e Helena, que não sendo troiana, está fisicamente em Tróia durante a guerra: afinal, é por causa de todas as mortes por ela provocadas que a Ilíada constitui o canto mais "trágico" (mesmo antes de existir tragédia... (...)) alguma vez composto sobre a condição humana.
Frederico Lourenço, Introdução à
Ilíada
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"Sabem como começou a literatura europeia?", perguntava, após ter feito a chamada na primeira aula. "Com uma discussão. Toda a literatura europeia nasce de uma briga.” Depois pegava no seu exemplar da Ilíada e lia aos estudantes os versos da introdução. “”Divina Musa, cantai da desastrosa ira de Aquiles… Começai onde eles primeiro discutiram, Agamémnon, o rei dos homens, e o grande Aquiles.” E acerca de que discutem essas duas violentas e poderosas criaturas? De uma coisa tão primitiva como uma rixa de taberna. Discutem por causa de uma mulher. Uma rapariga, na verdade. Uma rapariga roubada ao seu pai. Uma rapariga raptada numa guerra. (…) Quando Aquiles exige que Agamémnon devolva a rapariga ao pai a fim de apaziguar Apolo, o deus que está furiosamente zangado devido às circunstâncias que rodearam o rapto, Agamémnon recusa: só anuirá se Aquiles lhe der a rapariga dele em troca. Voltando assim a inflamar Aquiles. O adrenalínico Aquiles, o mais altamente inflamável dos explosivos homens violentos que escritor algum jamais teve o prazer de retratar, sobretudo quando estão em causa o seu prestígio e o seu apetite; a máquina de matar mais hipersensível da história da guerra. O famoso Aquiles: afastado e antagonizado por uma afronta à sua honra. Grande e heróico Aquiles que, pela força da sua cólera perante um insulto - o insulto de não conseguir a rapariga -, se isola e coloca desafiadoramente à margem da própria sociedade da qual é o glorioso protector e que tão enormemente precisa dele. Uma desavença, portanto, uma desavença brutal por causa de uma jovem e do seu jovem corpo, das delícias da rapacidade sexual: é aí, para o bem ou para o mal, é nessa afronta ao direito fálico, à dignidade fálica de um possante príncipe guerreiro, que começa a grande literatura imaginativa da Europa, e é por isso que, quase três mil anos depois, é por aí que hoje vamos começar…”.
Philip Roth,
A Mancha Humanaazuki
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Nude Study of Hector, 1778
Jacques-Louis DavidMusée Fabre, Montpellier

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Pallas AtheneGustav Klimt, 1890 - 91

The Obsequies of PatroclusJacques-Louis David, 1779
National Gallery of Ireland, Dublin

Achilles grasps at the shade of PatroclusHenry Fuseli, 1803
Kunsthaus, Zurich

Andromache mourns Hector
Jacques-Louis David, 1783
Louvre, Paris

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“vemos , ouvimos e lemos, não podemos…”
M. Burgess,Temple of Olympian Zeus, GreeceOs gregos e os troianos aplacavam a ira dos deuses e solicitavam o seu auxílio oferecendo-lhes sacrifícios, animais e humanos, denominados também hecatombes, nesta obra que temos vindo a ler. Nas batalhas de hoje, as hecatombes sucedem-se sob a cobardia e o jogo de interesses dos deuses de pés de barro do século XXI.
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laerce
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Troféus de guerra
(The Battle over the body of Patroclus; attic black figure kylix; 530BC; attributed to Exekias; Antikensammlungen, Munich)
Indignamo-nos a imaginar a raiva de Aquiles, arrastando o cadáver mutilado de Heitor e negando à família uma última homenagem ao morto. Já não é tão confortável pensar que o homem que esse cadáver era, teve exactamente os mesmos instintos.
Ora Heitor despira de Pátroclo as armas gloriosas e arrastava-o
para dos ombros lhe cortar a cabeça com bronze afiado
e dar depois o cadáver aos cães de Tróia para comerem.
(Canto XVII)
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Em prol da Paz

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Guerra

A guerra é uma espécie de alienação. Praticam-se actos inexplicáveis de ambos os lados, ficam à solta os comportamentos mais primários e o melhor dos bons também é capaz do pior. Matar para se defender vem, muitas vezes, acompanhado de uma enorme raiva, e a defesa extravasa no sentido da agressão. A guerra também é um álibi para os selvagens cometerem as piores atrocidades, mas o facto é que o ser humano se transfigura e não parece haver meio-termo entre a fúria e a indiferença. A ostentação da derrota e do sofrimento do inimigo sempre fizeram parte dos troféus de guerra e foram necessários muitos séculos para que a Humanidade criasse
códigos de conduta na guerra e assimilasse essas regras como fundamentais.
Some of the central principles underlying laws of war are:
• That wars should be limited to achieving the political goals that started the war (e.g., territorial control) and should not include unnecessary destruction;
• That wars should be brought to an end as quickly as possible;
• That people and property that do not contribute to the war effort be protected against unnecessary destruction and hardship.
To this end, laws of war are intended to mitigate the evils of war by:
• Protecting both combatants and noncombatants from unnecessary suffering;
• Safeguarding certain fundamental human rights of persons who fall into the hands of the enemy, particularly prisoners of war, the wounded and sick, and civilians; and
• Facilitating the restoration of peace.
(in Wikipedia)
Reflecte-se desde sempre sobre o comportamento militar (vide Sun Tzu, no sec VI a.C.) mas foi apenas nos últimos 150 anos que, efectivamente, começaram a estabelecer-se e a impor-se limites. Em 1864, é assinada a primeira Convenção de Genebra.
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Quem é o agressor?
(Julián Totino Tedesco, Duelo – esboço)
A guerra é algo tão hediondo que só a conseguimos encarar se nela encontrarmos alguma legitimidade, o que nos ajuda a tomar um partido e, de certa forma, nos acalma. Essa legitimidade é, geralmente, de quem se defende, a si ou aos seus princípios. Tróia foi invadida e tudo fez para se defender. Mas, afinal, quem foi atacado primeiro?
Só poderemos tentar compreender/julgar comportamentos se os inserirmos na sua época (convencendo-nos de que foi por Helena que centenas de naus se deslocaram até Tróia e o cerco a esta se perpetuou por dez anos…). Muitos séculos mais tarde, os homens batiam-se em duelo; até há bem pouco tempo, no mundo dito civilizado, era usual marido matar a mulher; e na Idade do Bronze? Haveria outra forma de um homem limpar a sua honra?
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Grupo de Laocoonte
(Grupo de Laocoonte, sec. I a.C.,
autoria atribuída a Hagesander, Athenodorus e Polydorus)
Laocoonte alertou para a ameaça que o cavalo de Tróia significava e acabou estrangulado pelas serpentes marinhas de Poseidon. Da próxima vez que eu for ao Vaticano, verei com outros olhos esta escultura impressionante.
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o sangue dos deuses
Canto V
Os deuses estão em ‘carne e osso’ no meio de um combate. Do lado dos troianos está “Atena de olhos garços”, do lado dos Argivos está Ares - “ Dos deuses do Olimpo o mais odioso”. Ares está a tirar as armas de uma das suas vítimas e é surpreendido pelo ataque de Atena:
Em seguida arremeteu Diomedes, excelente em auxílio,
com a lança de bronze; e apressou-a Palas Atena
até ao baixo ventre , onde o cingia uma mitra protectora.
Foi aí que o atingiu e feriu, rasgando a linda pele;
de novo retirou a lança. Urrou então o brônzeo Ares,
como urram nove mil ou dez mil homens
na guerra, que se juntam no conflito de Ares.
E um tremor dominou os Aqueus e os Troianos aterrados,
de tal forma urrou Ares que da guerra não se sacia.
(versos 855- 863)
Marte seguirá para junto de Zeus pai que o repreenderá, mas será curado com “fármacos anuladores de sofrimento”.
Os deuses não saíram do Olimpo para ajudarem nas guerras dos nossos dias, limitaram-se de lá de cima a dar ordem de partida. Ansiamos para que dêem o apito final. É que ali só corre sangue humano.
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laerce
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Era uma vez

... um senhor muito valente que era um pouco fraco dos pés; e um outro senhor, também muito valente, que era uma pessoa muito boa mas que não foi capaz de se manter à tona; e Páris, um adolescente irresponsável que desencaminhou uma mulher casada, aquela cabeça no ar da Helena que conseguiu arranjar um grande imbróglio; e Príamo, tão desgostoso pelas situações que o filho lhe criava, até porque o marido de Helena era irmão de Agamémnon, homem muito poderoso que mandava nos ventos, pese embora não fosse grande chefe de família; descartou-se da filha lá para os deuses e a mulher dele, Dona Cli, viu-se obrigada a tomar uma atitude radical; o filho Orestes, que era um sujeito um bocado revoltado, não gostou nada daquela cena e, já que a família estava em pantanas, arrumou com a mãe.
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[...] Longínqua e fragmentária, a Ilíada tornou-se para mim uma espécie de continente mítico, inalcançável, onde voltava sempre e em torno do qual giravam todos os outros livros. Porque talvez a Ilíada não seja um livro, mas a própria ideia de literatura. E talvez todos os livros que se escreveram depois reescrevam incessantemente alguma estrofe ou algum verso da Ilíada.Ao longo dos anos, à medida que eu próprio ia mudando, a Ilíada mudava. No múltiplo e desvairado aleph que a Ilíada é, eu comovia-me ora com a despedida de Heitor de Andrómaca e do filho, ora com a dor avassaladora de Aquiles ao saber da morte de Pátrocolo, ora ainda com a coragem ou a infâmia de algum dos breves personagens que a todo o momento emergem e logo de novo se perdem na turba semovente dos combatentes.Mas todos somos, de um modo ou de outro, troianos. E o meu imutável herói foi sempre o destemido, o nobre Heitor. Desde a primeira juvenil leitura detestei a brutalidade de Agamémnon, a arrogância de Aquiles, as manhas e as habilidades retóricas de Ulisses e, em geral, o carácter e os processos dos gregos. Viria, aliás, a descobrir que Agamémnon não hesitara, antes, em assassinar a própria filha para conseguir os seus fins, e que tanto Ulisses como Aquiles tentaram, com expedientes ridículos (Ulisses fazendo-se de louco, Aquiles disfarçado de mulher), desenfiar-se da expedição... E, durante muito tempo, cheguei a alimentar o desmesurado projecto de escrever um longo poema com os acontecimentos ocorridos, que fui descobrindo avulsamente aqui e ali, em Vergílio, em Eurípides, em Sófocles, entre o final da Ilíada e o começo da Odisseia...A tradução de Frederico Lourenço da Ilíada, agora enfim publicada, é decerto um acontecimento histórico para a cultura portuguesa, finalmente aproximando da nossa língua aquele que, como Frederico Lourenço diz, é o livro primeiro e, sob muitos aspectos, o livro maior da literatura europeia. Para mim, como certamente para muitos outros leitores, é, porém, mais do que isso, é o encontro emocionado e feliz com uma parte que me faltava da minha própria vida.
Manuel António Pina, "Visão" - 21/04/05
Artigo colado por Castela
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Helena, Penélope e a outra
Ao contrário das figuras masculinas, as personagens humanas femininas dos dois poemas heróicos, Ilíada e Odisseia, não parecem ser modelos para ninguém. Considerando os valores da sociedade actual no que diz respeito ao discurso amoroso, será que Helena merece mesmo ser a personagem de uma história de amor irresistível e absolutamente necessária? Valerá Helena o extraordinário poema que há uns dias atrás foi colocado aqui nesta páginas?
Quando a vemos na Odisseia (cronologicamente posterior) a partilhar de novo a convivência e o leito de Menelau, há qualquer coisa de estranho que não se adequa a uma personagem heróica e íntegra, diríamos fiel, em comparação com Penélope, a famosa e astuta mulher de Ulisses. Bem, mas esta também não deixa de perturbar ao alimentar esperanças na catrefada de pretendentes que a disputam alegremente comendo e bebendo às custas do desgraçado a quem o deus Poseidon faz passar tantas desgraças. Pior mesmo só a outra, a Clitemnestra. Não esteve pelos ajustes, arranjou um amante, Egisto, enquanto o rei Agamémnon seu marido se digladiava por mais umas tantas vitórias e depois foi o que se sabe.
E Andrómaca? Irão com certeza contrapor. Ela nunca podia fazer parte deste grupo.
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laerce
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Eu sou troiano. É mais confortável para a minha mente humanista.
“Pois não é vergonha nenhuma morrer pela pátria. Pois a salvo ficam a mulher e os filhos e a sua casa e propriedades incólumes, se os Argivos partirem nas naus para a amada terra pátria”.
Heitor
Mas sou principalmente heitoriano.
Cansa-me o egoísmo e futilidade de Páris e Helena, que causam a disputa por apenas um mero desejo não controlado ou por um caprichoso amor, e a soberba de todos aqueles “valentes” (Aquiles, Agamémnon, Menelau, Ulisses...)
Andrómaca e Heitor e o bebé Astíanax, protagonizam no canto VI, um diálogo e(terno) que jamais esquecerei. Ela suplica a Heitor que não combata mais, porque sabe que Aquiles o acabará por liquidar, tal como o fez com seu pai e irmãos.
Heitor confessa que ama Andrómaca e Astíanax, mas tem de cumprir o seu dever e ser responsável defendendo o seu povo. Afirma saber no seu íntimo que Tróia caiará um dia (apelando assim para o sentido efémero da existência) e conclui que não pode alterar a vontade dos Deuses. É talvez o primeiro grande momento da literatura universal.
Ao ler os vários confrontos indetermináveis hiper-realistas, estou sempre à espera, que este meu único livro, tenha um final distinto de todos as outras Ilíadas que a humanidade tem lido (inclusive os leitores do “Leitura Partilhada”) e que o filho de Príamo, regresse com o seu elmo faiscante, apuado de sangue negro do orgulhoso Aquiles, aos braços de Andrómaca e Astíanax. Tenho esperança que Frederico Lourenço se tenha enganado e me vá dar este final, ou então que Zeus se distraia no Olimpo com Hera, ou seja com quem for “ele que a Heitor, só entre muitos homens, outorgou a honra e a glória. É que exígua seria a duração da sua vida, pois já naquele momento lhe apressava o dia fatal... “
Se este não for o destino da minha Íliada pessoal, e eu que tenho alma de cientista descarnado, ficarei muito comovido e verterei lágrimas com a morte do meu herói e passarei a ser um novo elo ”de transmissão da cultura ocidental”.
Eu sou heitoriano e amo os seus ideais.
Castela Etiquetas: ILÍADA de Homero
INTIMAMENTE ESTAMOS TODOS DO LADO DOS TROIANOS
Homero é inquestionavelmente um grande poeta, isso não se pode negar. Mas, devo cair aqui em uma heresia: para mim, a Odisséia é muito superior à Ilíada. A Ilíada tem algo de ignóbil, o tema de cantar a ira de um homem. Podemos salvar Homero supondo que se preferimos Heitor é porque ele também preferia Heitor. Creio que visto assim… por que todo mundo sente simpatia por Tróia e por Heitor e ninguém sente simpatia pelos gregos? É porque são melhor mostrados os troianos. Podemos supor que Homero, mesmo sendo grego, estava intimamente de lado dos troianos. Se todo mundo leu a Ilíada do ponto de vista de Tróia é porque o autor também a escreveu do ponto de vista de Tróia. Não creio que se equivocasse. Todos queriam descender dos troianos e ninguém quis descender de Aquiles. Posso lhe dar um dado bastante curioso: estava lendo a História dos reis da Noruega, de Snorri Sturluson, e há uma referência a Thor, o deus do trovão, e este homem escreve no século XIII, na Islândia, e diz que Thor era, sem dúvida alguma, proveniente de Héc-Thor. Todos queriam ser troianos, mesmo esse homem, ali no distante norte, queria que seus deuses fossem troianos. E depois, sempre que se fala de Odin se diz que veio de Tróia. Todos sentiam atração por Tróia. Não lhes ocorria dizer que eram parentes de Aquiles ou de Agamenon.
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Jorge Luis Borges
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Joana
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“palavras apetrechadas de asas”
Zeus (detail)
Sem dúvida que o artifício mitológico é um excelente contributo para o desenrolar da história da guerra de Tróia. Os deuses possibilitam o entendimento de cada batalha à luz de um destino que ultrapassa o poder deles próprios. Nem Zeus esboça algum gesto para mudar o destino dos povos. Tudo já está determinado, faz-se apenas a gestão dos diferentes momentos, agora ganham os gregos, depois os troianos, e por aí. Mas o que me fascina é mesmo a capacidade imensa que os deuses têm de transporem o Olimpo e misturarem-se com os guerreiros, protegendo-os dos golpes das lanças e das espadas, cobrindo-os com o nevoeiro, a poeira ou simplesmente retirando-os dos lugares onde certamente padeceriam à mão do inimigo. Assim como os deuses, a própria linguagem me fascina também na sua simplicidade. E uma expressão que nunca esquecerei é esta: “palavras apetrechadas de asas”, palavras que nos fazem a nós, mais leitores que ouvintes, parte integrante da Ilíada enquanto herdeiros da cultura grega.
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laerce
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Gostei muito de participar neste maravilhoso site. Lastimo ter andado desterrado, por este Portugal ignorado da Beira interior, e só muito esporadicamente pude colocar uma entrada no vosso blog, mas nestas duas semanas serei bastante assíduo (estou quase de férias), pois a Ilíada tudo merece.
Confesso que (re)li quase todos os livros que foram propostos pela “Leitura Partilhada”.
Gostei de ver a vossa reacção ao defenderem os “Lusíadas”, onde eu me incluo. Amo profundamente a minha pátria, sem qualquer ponta de chauvinismo, e fico muito entristecido por verificar que os portugueses, não amam a "Lusitânia Notável", porque não conhecem os seus locais de eleição, as suas gentes, os seus méritos, nem tão pouco os seus “deuses”.
Um dos “deuses” de Portugal é obviamente Luís de Camões, cantor feérico dos "meus" campos do Mondego. Gostava que relêssemos os Lusíadas em 2007 o livro de uma das nossas “Odisseias”, que li obrigado e com fastio no nono ano de escolaridade e que retomei naquelas férias grandes longínquas, tornando-se num dos livros da minha vida (tenho mais de vinte). E já agora vamos ler a Odisseia também?
Amanhã, comento o comovente canto VI e o papel de Andrómaca (uma das minhas personagem favorita). Estou no canto XVI.
Castela
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(este blogue está temporariamente inactivo)
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"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)
"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)
"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)
"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)
"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)
"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)
"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)
"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)
"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)
"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)
"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)
"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)
"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)
"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)
"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)
"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)
"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)
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"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)
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UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)
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"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)
Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)
"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)
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"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)
"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)
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"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)
"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)
"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)
"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)
"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)
...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)
POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)
"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)
"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)
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