terça-feira, setembro 28, 2010

Ler, em Teerão

Durante um breve período, os nossos debates sobre Gatsby pareceram-nos tão electrizantes e importantes como os conflitos ideológicos que alastravam pelo país. De facto, à medida que o tempo passava, outras versões deste debate acabaram por dominar a cena ideológica e política. Incendiaram-se editoras e livrarias, por divulgarem obras de ficção imorais. Uma romancista foi posta na prisão por causa dos seus escritos, sendo acusada de divulgar a prostituição. Vários repórteres foram parar à cadeia, encerraram-se revistas e jornais, e alguns dos nossos melhores poetas clássicos, como Rumi e Omar Khayyan, foram censurados ou proibidos.
Como todos os outros ideólogos antes deles, os revolucionários islâmicos pareciam acreditar que os escritores eram os guardiães da moralidade. Esta imagem distorcida dos escritores, ironicamente, conferia-lhes um lugar sagrado, e ao mesmo tempo paralisava-os. O preço que tinham de pagar pela sua nova proeminência era uma espécie de impotência estética.


(“Ler Lolita em Teerão”, de Azar Nafisi, Editora Gótica, Pags 197)