Não parava de perguntar a mim própria: “Quando é que perdemos esta qualidade, esta capacidade de levar a vida com ligeireza através da poesia? Em que preciso momento é que isto se perdeu?” Aquilo que tínhamos agora, esta retórica delico-doce, estas hipérboles pútridas e enganadoras, tresandavam a água-de-colónia barata.
Lembrei-me de uma história que ouvira várias vezes sobre a conquista da Pérsia pelos Árabes, uma conquista que trouxe o Islão para o Irão. Segundo esse relato, quando os Árabes atacaram o Irão, ganharam porque os próprios Persas, talvez fartos da tirania, atraiçoaram o seu rei e abriram as portas aos inimigos. Mas depois da invasão, quando lhes queimaram os livros, lhes destruíram os seus lugares de oração e os proibiram de falar a sua língua, os Persas vingaram-se, recuperando a sua história queimada e pilhada através dos mitos e da linguagem. O nosso grande poeta épico, Ferdowsi, tinha reescrito os mitos confiscados de reis e heróis persas numa linguagem pura e sagrada. O meu pai, que ao longo de toda a minha infância me lia Ferdowsi e Rumi, costumava dizer por vezes que o nosso verdadeiro lar, a nossa verdadeira história, estava na nossa poesia. A história voltou-me ao espírito nessa altura porque, num certo sentido, tínhamos voltado a fazer o mesmo. Desta vez tínhamos aberto as portas, não a invasores estrangeiros, mas a invasores domésticos, àqueles que tinham vindo ter connosco em nome do nosso próprio passado mas agora distorciam cada centímetro dele, e nos roubavam Ferdowsi e Rumi.
(“Ler Lolita em Teerão”, de Azar Nafisi, Editora Gótica, Pags 245-246)
Lembrei-me de uma história que ouvira várias vezes sobre a conquista da Pérsia pelos Árabes, uma conquista que trouxe o Islão para o Irão. Segundo esse relato, quando os Árabes atacaram o Irão, ganharam porque os próprios Persas, talvez fartos da tirania, atraiçoaram o seu rei e abriram as portas aos inimigos. Mas depois da invasão, quando lhes queimaram os livros, lhes destruíram os seus lugares de oração e os proibiram de falar a sua língua, os Persas vingaram-se, recuperando a sua história queimada e pilhada através dos mitos e da linguagem. O nosso grande poeta épico, Ferdowsi, tinha reescrito os mitos confiscados de reis e heróis persas numa linguagem pura e sagrada. O meu pai, que ao longo de toda a minha infância me lia Ferdowsi e Rumi, costumava dizer por vezes que o nosso verdadeiro lar, a nossa verdadeira história, estava na nossa poesia. A história voltou-me ao espírito nessa altura porque, num certo sentido, tínhamos voltado a fazer o mesmo. Desta vez tínhamos aberto as portas, não a invasores estrangeiros, mas a invasores domésticos, àqueles que tinham vindo ter connosco em nome do nosso próprio passado mas agora distorciam cada centímetro dele, e nos roubavam Ferdowsi e Rumi.
(“Ler Lolita em Teerão”, de Azar Nafisi, Editora Gótica, Pags 245-246)