quinta-feira, setembro 23, 2010

“Morte na Pérsia” – de Annemarie Schwarzenbach

Tentei tudo ao meu alcance para viver na Pérsia. Falhei. […]
Durante os primeiros meses, viajei com novos amigos e conheci tudo: Persépolis, Ispaão, os jardins de Xiraz, as ermidas dos dervixes nos rochedos descarnados, as grandes portas das mesquitas, as estradas sem fim, as planícies sem fim. Atravessei desfiladeiros e segui de mula pelos caminhos no sopé dos montes Elburz. Vi a margem do mar Cáspio, selva a arrozais, zebus no areal fustigado pela tempestade, telhados de colmo debaixo de fortes chuvadas, lenhadores e pastores turcomanos, e as grandes praças vazias das capitais de província, Recht e Babul. Vi a rica cidade de Mazandaran, quinta-essência da melancolia. […]
E depois comecei a apreender a grandeza mortífera desta terra, que todas as manhãs nos abismava com a sua beleza e as suas alvoradas etéreas.

(“Morte na Pérsia” – de Annemarie Schwarzenbach, Tinta da China)

Este é o relato da segunda viagem que Annemarie Schwarzenbach faz até à Pérsia, a qual consiste numa dupla fuga: da Europa nazi e da sua própria alma atormentada. Aqui, encontramos belíssimas descrições dessa terra árida e grandiosa, a par das reflexões de uma mulher culta, corajosa, curiosa, fisicamente resistente, mas profundamente triste e em constante conflito interior. Acabaria por falecer de forma trágica aos 34 anos, na sequência de um acidente de bicicleta. É uma das minhas heroínas.

Sílvia