sexta-feira, setembro 24, 2010

“Ler Lolita em Teerão”, de Azar Nafisi

Imagino uma terra calcinada, mas onde as árvores e as flores crescem viçosas, por entre nuvens de poeira. Imagino uma cidade poluída e sobrelotada, rodeada de montanhas que quase tocam o céu. Imagino um povo gentil e afectuoso, de olhar encurralado e movimentos contidos. Não consigo imaginar o que foram aqueles oito anos de guerra com o Iraque. Imagino o negrume monótono da indumentária das jovens iranianas e as suas expressões furtivas. Não consigo imaginar o que é ser-se mulher na República Islâmica do Irão. Tento imaginar os demónios ódios maldade ignorância que vivem no interior dos elementos das brigadas da moralidade. Não consigo imaginar o que se passa nas mentes dos homens de turbante e de tamancos. Imagino a expressão "Em nome de Deus" no início de todos os documentos oficiais e palestras. Imagino um lugar povoado de vultos com a cara encostada ao chão, que se defendem atrás do silêncio. Imagino que, ali, a alegria só exista no movimento incessante das ruas e nesses jardins dos meus sonhos, talvez a mais bela herança da tradição persa. Imagino que as rotinas diárias permitam criar uma estranha noção de estabilidade a um povo aprisionado. Imagino uma espécie de estado geral de resignação e que, apesar de tudo, a vida continua. Imagino uma professora e seus alunos, a ler secretamente “Lolita”, numa casa anónima de Teerão.

Sílvia