segunda-feira, setembro 27, 2010

Ler “O Grande Gatsby” em Teerão

“Portanto, agora, vamos rever todos os pontos que discutimos. Sim, o romance trata de relações vivas e concretas, do amor de um homem por uma mulher, e da traição dessa mulher a esse amor. Mas também fala de riqueza, da sua grande atracção bem como do seu poder destrutivo, da falta de senso que a acompanha, e, sim, sem dúvida que fala do sonho americano, um sonho de poder e riqueza, da luz enganadora da casa de Daisy e do porto de entrada para a América. Também fala da perda, da forma como morrem os sonhos depois de serem transformados na dura realidade. É a nostalgia, a sua imaterialidade, que torna o sonho puro.
Aquilo que nós no Irão tínhamos em comum com Fitzgerald era este sonho que se tornara a nossa obsessão e que se apoderara da nossa realidade, esse sonho lindo e terrível, impossível na sua realização, pelo qual qualquer tipo de violência podia ser justificado e perdoado. Era isto que nós tínhamos em comum, embora na altura não tivéssemos consciência disso. Os sonhos, Sr. Nyazi, são ideais perfeitos, completos em si próprios. Como podemos impô-los numa realidade incompleta, imperfeita, constantemente a mudar? Tornar-nos-íamos num Humbert
[o personagem masculino de “Lolita”], destruindo o objecto dos nossos sonhos; ou num Gatsby, destruindo-se a si próprio.”
Quando saí da aula nesse dia, não lhes disse aquilo que eu própria começava a descobrir: até que ponto o nosso destino se estava a tornar semelhante ao de Gatsby. Ele queria preencher o seu sonho, recriando o passado, e no fim descobriu que o passado estava morto, que o presente era uma fraude, e que não havia futuro. Isto não fazia lembrar a nossa revolução, que viera em nome de um passado colectivo e estragara as nossas vidas em nome de um sonho?


(“Ler Lolita em Teerão”, de Azar Nafisi, Editora Gótica, Pags 207-208)