Leitura Partilhada
segunda-feira, setembro 29, 2003
  Saudades de Stephen
sexto capítulo
É um capítulo negro, este do funeral; mas é também aquele onde até agora as transições entre a acção e o pensamento se fazem mais harmoniosamente.
Negro, portanto. A espaços, uma ou outra anedota na conversa dos que seguem o funeral, para aliviar a tensão; ou para vincar ainda mais a ideia que atravessa todo o capítulo.
Capítulo triste, dominado pelas imagens de uma Dublin como “cidade dos mortos” – a viagem até ao cemitério, a fábrica de gás, o lado morto da rua, a casa do assassino – pelas constantes evocações do filho morto de Bloom, da morte do pai. «A tarde do inquérito. A garrafa de rótulo vermelho sobre a mesa. O quarto de hotel com gravuras de caça.. Estava abafadiço. A luz do sol através das tabuinhas das persianas. As orelhas do magistrado, grandes e cabeludas. O engraxador a prestar declarações. Pensou primeiro que ele estava a dormir. Depois viu-lhe traços amarelos no rosto. Tinha escorregado para os pés da cama. Veredicto: dose excessiva. Morte acidental. A carta. Para o meu filho Leopold.»
Leopold confronta-se, através da recordação do pai, do filho, com a sua própria mortalidade. «O teu coração talvez, mas que interessa ao tipo metido entre seis pés por dois com os dedos nas margaridas? A esse não toca. Sítio das afeições. Coração destroçado. Afinal é uma bomba, a bombar milhares de galões de sangue por dia. Um belo dia, entope-se e aí temos.»
E, mais uma vez, é um Bloom isolado que se nos apresenta. É constantemente interrompido pelos companheiros, vê o seu rival a ser elogiado por todos, enfrenta um terrível silêncio quando fala da morte do amigo, Dignam, como sendo a melhor das morte – uma síncope repentina, sem sofrimento, sem possibilidade de remissão.
Stephen reaparece, por instantes. Vislumbramo-lo enquanto a carruagem se dirige ao cemitério – e é Bloom quem primeiro o avista, dizendo dele a Simon Dedalus: «o seu filho e herdeiro», e fazendo-o evocar com nostalgia o seu prório filho. Pela primeira vez assiste-se à ligação entre as vidas de Stephen e Bloom: e é como se este desejasse ser pai do primeiro.
nastenka-d
 
  «Quem sabe? Eunuco. Uma saída.»
No 5º capítulo faz-se o paralelo para a ODISSEIA de Homero com o episódio dos Comedores de Lotus. Esta é evocada por Bloom quando este pensa nos eunucos.

Bloom inquieta-se com a ideia de a esplêndida música sagrada tenha sido escrita para eunucos. Como gostei muito da frase, transcrevo-a:

«No entanto, essa de ter eunucos no coro era um tanto demais. Que espécie de voz é essa? Deve ser curioso ouvir depois dos seus próprios baixos fortes. Entendedores. Soponho que depois não sentiam nada. Uma espécie de placidez. Sem aborrecimentos. Pendem para a carne, não é? Glutões, altos, pernas compridas. Quem sabe? Eunuco. Uma saída.»



Gostei muito deste capítulo. Fluido, sensorial, activo. Muito diferente dos preconceitos contra James Joyce e este ULISSES. Agradável. Atraente. Entretanto tenho dado espreitadelas à versão original (como já ficou demonstrado no post anterior!). Fico tentada a continuar a leitura na tradução portuguesa, e depois reler a versão original, confesso. Boa parte da obra não será difícil de ler em inglês, para quem estiver habituado a ler alguns livros nessa língua (para lá dos eternos livros técnicos, claro!). Vejam a mesma citação anterior como a escreveu Joyce:

«Still, having eunuchs in their choir that was coming it a bit thick. What kind of voice is it? Must be curious to hear after their own strong basses. Connoisseurs. Suppose they wouldn't feel anything after. Kind of a placid. No worry. Fall into flesh, don't they? Gluttons, tall, long legs. Who knows? Eunuch. One way out of it.»


Claro que... outras partes do livro serão dificílimas de ler no original. Como têm demonstrado tradutores e outros especialistas. Para mim, portuguesa, algumas frases são incompreensíveis até em português! Mas o livro tem valido isso tudo, e muito mais!

Corram para este 5º capítulo. Serão recompensados pelo prazer da leitura!

;)
Leitora
 
domingo, setembro 28, 2003
  «Please tell me what you think of poor me.»
Assim mesmo, "To keep it up, To keep it up.", li o 5º capítulo de ULISSES.

Stephen estará nesta altura a dar a sua aula. Bloom, aka Henry Flower, passa pelos correios onde uma carta amorosa o espera. Sim, Bloom tem um romance por correspondência com Martha, e apesar de ter dado a conhecer a sua situação matrimonial não revela a sua verdadeira identidade. Um escape da sua triste relação com Molly? Um devaneio amoroso para compensar a desilusão com o seu casamento? Ou uma evetual vingança da traição de Molly?

Como sempre, Bloom é acompanhado pelos sons de Dublin, por memórias que acorrem ao seu pensamento "Flat Dublin voices bawled in his head.", e nós, espiões, acompanhamos tudo. Continua a ser mais fácil acompanhar Bloom do que foi acompanhar o passeio de Stephen, pois Bloom tem um pensamento mais acessível e ordenado. Vai pensando no seu dia-a-dia, nas pessoas que vê. O Stephen que acompanhamos pela praia rebuscava a sua indecisão, as suas dúvidas. Pensava em religião e metafísica, enquanto Bloom é muito sensorial, e pensa em comida, mulheres...

Mas não só. Bloom tem observações profundas, e que são escritas por Joyce de forma muito bonita:

«Heavenly weather really. If life was always like that. Cricket weather. (...) Heatwave. Won't last. Always passing, the stream of life, which in the stream of life we trace is dearer thaaan them all.»

Aquilo que na corrente da vida procuramos é-nos mais querido que tuuudo o mais? O que procuram Bloom, Stephen, Molly na corrente da vida? O que procuram neste dia normal?

Sigo para o sexto capítulo, após a delícia do banho quente, oleado, aromático...

Leitora

 
sexta-feira, setembro 26, 2003
  A mulheres de Joyce
para lançar mais achas para a fogueira: afinal como é que Joyce vê as mulheres?
«As mulheres são todas pela casta até que se lhes mexe no sítio. O comportamento de uma pessoa vale mais do que o seu bom aspecto. Reservada até se render. A honrada senhora e Brutus é um homem honrado. Possuí-la uma vez tira-lhe a goma.»
Esta frase é do quinto capítulo, e é inspirada a Bloom pela mulher que espera, no lado oposto da rua, pelo cabriolé. E, mais à frente, é assim que Bloom pensa na mulher:
«Ainda por levantar. A rainha estava no quarto de cama a comer pão com. Sem livro. Cartas de jogar enegrecidas estendidas pelas coxas dela de sete em sete. Dama escura e homem louro. Carta. Gata felpuda bola negra. Pedaço de sobrescrito rasgado.»
nastenka-d
 
quarta-feira, setembro 24, 2003
  O mês de Outubro
A partir do próximo mês, Joyce passará a gozar curtos períodos de férias neste blogue.

Dias um, dois e três uma primeira pausa nos posts sobre o ULISSES, para dar lugar a OS PAPEIS DE K. de Manuel António Pina. Primeira incursão do reconhecido poeta em terrenos da ficção, recebido com grande expectativa. Na próxima semana partilharemos opiniões, discutiremos visões...

O ULISSES continuará a merecer a nossa leitura, e os posts sobre essa obra regressarão no dia 4 até dia 12. Porque a 13 chegará Virginia Woolf, com as suas ONDAS, e por cá se manterá durante alguns dias - à partida tem uma semana de blogue em exclusivo para ela.

Assim mudaremos os ares e as cores da Leitura Partilhada durante alguns dias, permitindo inclusive que leitores mais atrasados recuperem no seu percurso.

Vai ser um mês animado, não acham? (Mas o Novembro proustiano não o será menos...)

;)
Leitora
 
terça-feira, setembro 23, 2003
  Do Joyce a Ulisses
Escrevi no BC, há semanas que "a leitura dos grandes livros, ou dos grandes autores, não tem como destinatários exclusivamente os letrados, os intelectuais, mas todos os que, de alguma forma, têm um vínculo permanente ou intermitente, com o acto de ler."
Indubitavelmente que ser "seduzido" a ler e partilhar o "Ulisses" (e logo o Ulisses!!!... que pelo volume parece mais uma tese de doutoramento), desmotiva qualquer potencial leitor, permanente ou intermitente....
Mas consequentemente as leituras, como os percursos, não se fazem de uma assentada, como uma simples viagem de autoestrada ou TGV...
Serão sempre viagens feitas de paragens, em "topos" polissémicos e polifónicos...
Aderi há poucos dias, daí­ que vá apenas partilhar alguns apontamentos de leitura do primeiro capí­tulo, com as inerentes impontualidides, já que terei entrado no comboio em andamento.

"Sou outro agora e, no entanto, ainda o mesmo".
"O pensamento é o pensamento do pensamento."

Este capí­tulo, para lá das reflexões a vários ní­veis (pessoas, lugares, religiosidades), apresenta-nos ainda, contemplações, descrições e pequenos diálogos.
Por outro lado os aforismos "tenciono coleccionar os seus ditos, se mo permitir", com um tratamento linguageiro de muitas expressões e intertextualidades,.
A ambiência do capítulo, é percepcionável vários aromas (bebidas, materiais, entre o interior da torre e o exterior. Mas as reflexões, os conceitos, as análises vão perpassando e marcando...

MM
 
  DJ Joyce apresenta: Ulysses, the Odissey Remixed
A Dublin de Joyce podia ser uma qualquer cidade do mundo e Bloom qualquer um dos seus habitantes. Bloom tanto é Ulisses como é Jesus, como é uma grávida, como é um miúdo, como é Moisés, como volta a ser novamente Bloom. Stephen, um filho à procura de um pai e Bloom, um pai à procura de um filho, deambulam como Ícaro e Dédalo pelo labirinto das ruas de Dublin, a prisão simbólica da existência.

As personagens são mutantes assim como a linguagem, daí a justaposição de estilos usada por Joyce, que tal como um DJ mistura calão com Shakespeare, reencarnação com aliviar os intestinos ou masturbação com ópera. É um encontro de cultura popular com uma tendência vanguardista e experimental. Ulysses é nisso muito cinemático e musical, diria mesmo, uma autêntica experiência multimediática. Ulysses é um livro não só para ler, mas também para ver e ouvir. Ou não tivesse sido Joyce aspirante a cantor de ópera e também quem instalou o primeiro cinema em Dublin.

Joyce disse numa entrevista que se Dublin desaparecesse do mapa e só Ulysses sobrevivesse, o objectivo seria que a cidade fosse reconstruída a partir do livro. Isto mostra bem a universalidade de Joyce, que vai do infinitamente pequeno (microcosmos) ao infinitamente grande (macrocosmos). Como se pode ter uma visão da floresta sem ver em pormenor as folhas de cada uma das árvores? A importância e a vulgaridade são relativas, tal como o tempo e o espaço. Apenas um dia na vida de um homem vulgar pode parecer insignificante, mas para esse homem cada dia é infinitamente importante. Daí a importância que Joyce deu ao dia 16 de Junho de 1904, ao ponto de lhe dedicar 7 anos da sua vida.

Joyce foi ao fundo da consciência humana como provavelmente nenhum outro escritor. A isso não terão sido alheias as ideias, ainda frescas na altura, de Jung e Freud, mas parece também que sentia uma grande empatia pelas pessoas, pelas pessoas comuns. Os monólogos das personagens são como passagens para o seu inconsciente mais profundo. Joyce apenas libertou as correntes da consciência, mostrando ao mundo aquilo que já todos conheciam, mas que todos temiam revelar: a irracionalidade da natureza humana. E depois, claro, é considerado pornográfico.


riverrun
 
  A casa de Bloom e Molly
 
segunda-feira, setembro 22, 2003
  «-Miau! - Oh, estás aí»...
No quarto capí­tulo surge-nos o esperado Bloom. E o livro muda com a entrada dele.

É-nos apresentado como um homem delicado, que anda "suavemente pela cozinha preparando as coisas do pequeno-almoço". Vai levar uma bandeja a Molly daqui a nada, mas não sem antes dar leite ao felino doméstico. Está esfomeado, guloso, e bem disposto. "Bela manhã."

Gosto muito da visita guiada em que nos leva por Dublin "Bom puzzle seria atravessar Dublin sem passar por uma taberna." Em busca de rins de carneiro para a primeira refeição do dia, vamos vendo através dos seus olhos as lojas da cidade, as pessoas... Bloom a salivar, por enquanto apenas por comida saborosa.

Englobado neste charme inicial, temos também uma nova perspectiva da mulher: a filha. Bloom inquieta-se com a hipótese de um primeiro envolvimento amoroso de Milly: "Um espasmo brando de mágoa desceu-lhe pela espinha, a aumentar. Vai acontecer, sim. Impedir. Inútil: não me posso mexer."


Mas Joyce não nos poderia deixar esta imagem quase cândida de Bloom. Não nos podemos esquecer nunca que este é um homem vulgar. Nada como um suave desprender de intestinos, seguido por uma passagem pela retrete.

Este é o nosso Ulisses/Bloom.

«-Há pessoas que acreditam - disse ele - que nós continuamos a viver num outro corpo depois da morte e que já vivemos antes. Chamam-lhe reencarnação. Que todos nós vivemos antes, na terra, há milhares de anos ou num outro planeta qualquer. Dizem que nos esquecemos disso. Alguns dizem que se recordam das vidas passadas.»

Bloom não se recorda de quando era Ulisses, e foi preso por Calipso... apesar de sombras desse passado hipotético continuarem a cruzar o seu dia banal...


Leitora
 
  O papel do Vulgar no Ulisses
Julgo que o papel do vulgar (pessoas comuns na Dublin do início do século XX), mas que uma iniovação, é uma necessidade para o James Joyce. Ele vái variando de estilo de capítulo para capítulo. Numa trama de "alto" nível (como é normal em Shakespeare e em Frank Herbert (Dune, etc) onde estão envolvidas quase só pessoas importantes que se influenciam entre si muito directamente, existe outra necessidade de consistência no estilo praticado. Nessas histórias de "alto" nível, a flutuação nos estilos iria desagregá-las.

Ivo Dias de Sousa
 
  Ervas. Pomadas, Desinfectantes
notas ao quinto capítulo
Num capítulo cheio de aromas, começam as aventuras de Bloom. Chá, aveia, ginger ale; o já famoso sabonete de limão.
Aqui Bloom começa-se a apresentar sob outro ângulo, o da simulação; escrupulosamente procura o cartão com que se dirige aos correios no forro do chapéu, para o devolver ao seu esconderijo depois de receber a carta. Ou abre furtivamente o sobrescrito dentro do bolso, que depois rasga debaixo da ponte de caminho de ferro.
É também um Bloom mais angustiado que agora aparece. Sente prazer em espreitar a mulher que se prepara para subir no cabriolé, e escreve a Martha, cúmplice de uma aventura amorosa platónica; mas logo se recorda do pai, da morte do pai, e acaba por observar os cavalos castrados, que têm de comer e têm albergue - «pode ser que sejam felizes à mesma». E, mais à frente: «Quem sabe? Eunuco. Uma saída.»
A ideia da mulher como origem do mal. Ou Bloom que deseja castigar-se a si mesmo?
Pecado, confissão, arrependimento. Bloom entra numa igreja, episódio central do capítulo. Assiste a uma missa – mais uma vez, não participa, observa apenas, sente-se excluído, reduzido à sua condição de judeu errante. Disseca os rituais, as palavras, os gestos. E inveja-os: «Olha para elas. Aposto que as faz sentir felizes. Caramelo. E faz. Sim, pão dos anjos, é como lhe chamam. Há uma bela ideia atrás disso, sente-se uma espécie de reino de Deus dentro da gente.»
Á falta de melhor narcótico, dirige-se ao banho. E agora, mais um dos parágrafos com que Joyce nos recompensa todo o esforço de leitura:
«Antevia o seu corpo pálido reclinado em cheio, ali, nu, num ventre de calor, oleado por aromático sabão a derreter-se, suavemente banhado. Via o tronco e os membros ondulantes e sustidos, boiando levemente, amarelo-limão: o umbigo, botão de carne; e via os escuros, emaranhados caracóis do seu púbis a boiar, pêlo flutuante da corrente em torno do flácido pai de milhares, lânguida flor flutuante.»
nastenka-d
 
  O culto do vulgar
No 4º capítulo apresenta-se Leopold Bloom na exuberância da sua vulgaridade. Ao longo da leitura adivinhamos a sua aparência, captamos as suas tendências venais, sentimos os seus instintos básicos, vemos a sua inércia. O Sr. Bloom é um homem físico, preso ao desejo carnal que lhe suscita Molly ( “Boa para agarrar, fresco fruto encerado, agarrar na mão, levá-lo ao nariz e cheirar-lhe o perfume.” – “ Estar junto da sua ampla a acamada carne.”), e que o impele a ser condescendente com o seu desleixo, com o seu escárnio e com a inevitabilidade do adultério.

A corrente de pensamento em Bloom tem menos espessura e menos profundidade do que em Stephen, e faz-nos pensar na sua futura relação.

Curiosa a abordagem, mesmo que ao de leve, da reencarnação.

No fim do capítulo, Bloom “…puxou as calças para cima, pôs os suspensórios e abotoou-se. Fechou a desengonçada e perra porta da retrete e saiu da sombra para o ar livre.” Neste momento podemos dizer que também ele é um homem livre. Porque aceitou.

Troti
 
domingo, setembro 21, 2003
 
TARDE E A MÁS HORAS

Chego tarde e a más horas, como se costuma dizer, e mesmo assim ainda não vou falar directamente do Ulisses. Quero apenas dizer que estou aqui, e quero reler o Ulisses em conjunto, mas as minhas prioridades têm sido outras e inultrapassáveis. O que tinha pensado fazer desde o momento em que me inscrevi, era começar por partilhar com vocês algumas considerações do Milan Kundera sobre o Joyce que me parecem interessantes e podem ajudar a perspectivar a leitura.

Aqui estão:

Joyce analisa algo de ainda mais inapreensível que o "tempo perdido" de Proust: o momento presente. Não há, aparentemente, nada de mais evidente, de mais tangível e palpável do que o momento presente. E contudo, ele escapa-nos completamente. Toda a tristeza da vida está aí. Durante um únco segundo, a nossa vista, o nosso ouvido, o nosso olfacto, registam (com ou sem consciência disso) uma massa de acontecimentos e, pela nossa cabeça, passa um cortejo de sensações e de ideias. Cada instante representa um pequeno universo irremediavelmente perdido no instante seguinte. Ora, o grande microcosmos de Joyce sabe deter, apreender esse instante e levar-nos a vê-lo. Mas a busca do eu acaba, mais uma vez, num paradoxo: quanto maior é a óptica de um microscópio que observa o eu mais o eu e a sua unicidade nos escapam: sob a grande lente joyciana que decompõe a alma em átomos, somos todos semelhantes. Mas se o eu e o seu carácter único não são apreensíveis na vida interior do homem, onde e quando poderemos nós apreendê-los?

(...)

Na cabeça de Bloom, Joyce pôs um microfone. Graças a esta fantástica espionagem que é o monólogo interior, nós aprendemos imensamente sobre aquilo que somos.

A arte do romance, Milan Kundera - D. Quixote



Luis Ene
 
sexta-feira, setembro 19, 2003
 
Estou em dívida para com todos aqueles que ja avançaram bastante mais do que eu na leitura de todo este mundo complexo e intrincado que é o "Ulisses".
Voltei ao início, e estou no capítulo 4. No entanto, como concertei a leitura da versão original com a versão portuguesa, e ainda com o texto d'"A Odisseia", tenho-me demorado bastante.
Não que o tempo seja medida possível de aplicar nesta leitura, mas porque vejo já muitos muito avançados na leitura.
Os meus comentários, já sabem, ficam pendentes, entre a análise destas três obras, mas não esquecidos!!

De facto, o enriquecimento que a leitura concertada me tem proporcionado é bastante maior do que o que eu tinha imaginado. E não me canso de voltar atrás, e para a frente e de escolher novas abordagens... tem sido trabalhoso, mas recompensador, no entanto peço-vos a paciência de não se impacientarem comigo e com a minha lentidão.

Leitora compulsiva e de volta ao blog

MCLaraM
 
quinta-feira, setembro 18, 2003
  Odisseia reescrita por Joyce
Esta semana assisti a parte de um encontro entre leitores da ODISSEIA de Homero. Claro que tudo o que ouvi estava sempre em ligação com o ULISSES de Joyce - a razão porque lá apareci, aliás.

Ouvi algumas coisas muito interessantes. Por exemplo: ODISSEIA é a grande obra, que mantém a actualidade ao longo dos séculos. Assim sendo, ULISSES poderá ter sido uma revisão da obra, actualizando para cenários e contextos sociais do século XX. O herói passa a ser um homem banal, sem aventuras extraoridinárias para contar. Os anos de viagem convertem-se num dia apenas. A mulher deixa de ser quem espera (apesar de esperar ardilosamente), para ser a vivaça, que trai o marido que lhe leva o pequeno almoço à cama. E o texto, que era baseado na oralidade, com todas as suas qualidades e defeitos, converte-se num elaborado exercício de estilo, que tenta resumir tudo a uma obra só.


Os séculos dirão se este ULISSES consegue superar as expectativas do seu autor...



Leitora
 
  Serão todos os escritores assim?



Leitora
 
  The womanly man
A ambiguidade que marca todas as personagens é ainda mais evidente em Bloom na dualidade masculino/feminino (animus/anima). Desde a fantasia com Stephen até à fantasia da sua própria gravidez em "Circe", a homossexualidade e a androginia pairam sobre a personalidade de Bloom ao longo do livro. Por isso, Bloom ficará conhecido como o "womanly man". E mesmo apesar de levar o pequeno almoço a Molly na cama, acaba por tomar o seu sozinho na cozinha, o que mostra até que ponto duas pessoas podem partilhar a mesma casa e viverem tão distantes uma da outra.

Bloom é um "outsider", um exilado à procura de si próprio na sua solidão. Para além de a sua condição de judeu fazer dele um eterno exilado, perseguido pelo estigma do anti-semitismo, Bloom é também um exilado na sua própria casa, o nº 7 de Eccles Street, e no seu próprio país, tal como Ulisses quando regressa a Ítaca. Joyce também se tornou um eterno exilado, já que nunca mais regressou à Irlanda. É curioso que apesar de ter Dublin como cenário nem uma linha de Ulysses foi escrita na Irlanda.

Parece que tanto Stephen como Bloom têm um pouco de Joyce na ambiguidade das suas facetas.

riverrun
 
quarta-feira, setembro 17, 2003
  O homem que gostava de vísceras
notas ao quarto capítulo
Depois da apresentação de Stephen, é quase um choque conhecer Bloom. Joyce é, a esse respeito, quase brutal: «O senhor Leopold Bloom comia com deleite os órgãos internos de mamíferos e animais.» (É certo que, nas deambulações de Telémaco, vários têm sido os festins – mas é a brutalidade da frase que sublinho, como se se estabelecesse um corte com o ambiente que rodeia Stephen. Como se Joyce nos dissesse: atenção!, a vida começa aqui; e é isto.)
Assim se nos apresenta Bloom: um homem que «mastiga com discernimento a carne mole», que espreita as ancas abundantes do criada do vizinho. Que prepara o pequeno almoço da mulher e lhe arranja livros; que pensa em rins e na hortelã que cresce contra a parede.
O que distingue então Bloom?
«Um espasmo brando de mágoa desce-lhe pela espinha, a aumentar. Vai acontecer, sim. Impedir. Inútil: não me posso mexer. Lábios leves e doces de rapariga. Acontecerá também. Sentiu o espasmo fluido espalhar-se por todo ele. Inútil mexer-se agora. Lábios beijados, beijando, beijados. Cheios pegajosos lábios de mulher.«
Gasta-se-lhe a «doçura de estar vivo,
Chorando pelo retorno», como a Ulisses?
(Mas a este é finalmente permitido partir através do mar numa jangada, enfrentando a ira de Posídon.)
Passivo e fatalista, com uma patética batata no bolso. Como poderá Bloom servir de modelo a Stephen?
nastenka-d
 
segunda-feira, setembro 15, 2003
  Miau!
Ainda as Mulheres
«Chamam-lhes estúpidos. Compreendem melhor o que dizemos do que nós os compreendemos a eles. Ela compreende tudo o que quer. E também é vingativa. Cruel. É da sua natureza. Os ratos curiosos nunca chiam. Se calhar até gostam. Imagino o que é que lhe pareço. Da altura de uma torre? Não, pode saltar por cima de mim.»
Curiosidade benevolente do senhor Bloom em relação à gata que passeia na cozinha enquanto ele prepara o pequeno almoço. Um exercício – vamos imaginar que o escreve em relação às mulheres?
Por favor, dêem um livro de instruções ao Joyce...
nastenka-d

 
  "Yes, things will change if you want to.”
A Charlotte já leu o último capítulo do Ulisses. Curiosos? Também eu. Principalmente para saber se Joyce chegou a compreender fosse o que fosse acerca das mulheres.
nastenka-d
 
  "His writing is not about something. It is the thing itself." (Samuel Beckett)
Agradecendo o convite da Leitora para integrar este grupo de leitura, aproveito para começar por chamar a atenção para alguns pressupostos que acho essenciais na leitura de Ulysses:

1) Ulysses é um objecto estranho (senão mesmo alienígena) e um fenómeno único na literatura mundial. Isto quer dizer que não há nada sequer semelhante, até ver. Mesmo o misterioso Thomas Pynchon não chegou nem lá perto.

2) O que mais interessa em Ulysses é a linguagem e a sua música. Joyce levou sete anos a escrever o livro, num paciente trabalho com as palavras que se pode assemelhar ao de um artesão. Ulysses desestruturou o tempo, o espaço e a linguagem do romance como a física quântica desestruturou as partículas da matéria. Ulysses é um labirinto feito de linguagem, tão tortuoso quanto a dérive diária de Bloom pelas ruas de Dublin.

3) Partindo do pressuposto anterior é um engano ler apenas a tradução em português (para começar talvez seja o melhor), correndo-se o risco de perder grande parte do interesse do livro. Ulysses é um livro para se ler mais do que uma vez. A primeira leitura apenas nos dá uma imagem da superfície. Nenhum leitor (com a excepção do próprio Joyce) está à altura deste livro numa primeira leitura, por isso é natural que pareça intragável e incompreensível. É preciso vontade para mais, tal como Ulisses precisou para regressar a Ítaca.

Why read Ulysses?

"A Marilyn já leu Ulysses. E você, do que está à espera?"
.

riverrun
 
  Homem nu! Homem Nu!
(sim, que isto ou há moralidade ou comem todos, ou post para repor a paridade)

«Assim falando, saiu dos arvoredos o divino Ulisses.
Com mão possante quebrou um ramo cheio de folhas
Para segurar junto ao corpo e assim tapar os membros genitais.
Saiu como um leão criado na montanha, confiante na sua pujança,
Cujos olhos fulminam apesar da chuva e do vento, e que se mete
Entre vacas ou ovelhas ou corças selvagens, pois assim a fome
Lhe manda, a ponto de chegar ao redil e atacar os rebanhos –
Assim se preparava Ulisses para irromper no meio das donzelas
De lindos cabelos, apesar de estar nu. Sobreviera a necessidade.»

Sempre quero ver se o Leopold Bloom é senhor para fazer uma destas.


Nastenka-d
 
 
O terceiro capítulo é uma maré de ideias e pensamentos que conduz Stephen numa viagem interior de diálogo consigo mesmo. Está numa encruzilhada existencial e vive e revive a transição de um para outro eu.

“ A caminhar com orgulho.Com quem tentavas tu parecer-te a caminhar?…..
Ias fazer maravilhas, hein?”

Ao longo da costa, com o horizonte do mar sempre presente como uma promessa de mudança “ a minha alma caminha comigo, forma das formas… A maré persegue-me………… A obscuridade está nas nossas almas, não achas?................. As nossa almas, feridas de vergonha pelos nossos pecados, unem-se a nós ainda mais………”


“Sou o maldito gigante que rola os malditos pedregulhos, ossos para as minhas passadas de pedra.”.
Esta é a realidade de Stephen . É uma clara alusão ao mito de Sísifo e socorro-me das palavras de Albert Camus para aprofundar a ideia:


O MITO DE SÍSIFO
Albert Camus

Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
A acreditar em Homero, Sísifo era o mais ajuizado e mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outra tradição, tinha tendências para a profissão de bandido. Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser trabalhador inútil dos infernos. Censura-se-lhe, de início, certa leviandade para com os deuses. Revelou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai espantou-se com esse desaparecimento e queixou-se dele a Sísifo. Este, que estava ao corrente do rapto, propôs a Asopo contar-lhe o que sabia, com a condição de ele dar água à cidadela de Corinto. Aos raios celestes, preferiu a bênção da água. Por tal foi castigado nos infernos. Homero conta-nos também que Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde suportar o espectáculo do seu império deserto e silencioso. Enviou os deuses da guerra, que soltou a Morte das mãos do seu vencedor.
Diz-se ainda que, estando Sísifo quase a morrer, quis, imprudentemente, pôr à prova o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepultura, para o meio da praça pública. Sísifo encontrou-se nos infernos. E aí, irritado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando viu de novo o rosto deste mundo, sentiu inebriadamente a água e o sol, as pedras quentes e o mar, não quis regressar à sombra infernal. Os chamamentos, as cóleras e os avisos de nada serviram. Ainda viveu muitos anos diante da curva do golfo, do mar resplandecente e dos sorrisos da terra. Mercúrio veio pegar no audacioso pela gola e, roubando-o às alegrias, levou-o à força para os infernos, onde o seu rochedo já estava pronto.
Já todos compreenderam que Sísifo é o herói absurdo. É-o tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Não nos dizem nada sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos. E desce outra vez à planície.
É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele próprio, pedra! Vejo esse homem descer outra vez, com um andar pesado mais igual, para o tormento cujo fim nunca conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa hora é a da consciência. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo.
Se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida. A clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitória. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.
Se a descida se faz assim, em certos dias, na dor, pode também fazer-se na alegria. Esta palavra não é de mais. Ainda imagino Sísifo voltando para o seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se apegam de mais à lembrança, quando o chamamento da felicidade se torna demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O imenso infortúnio é pesado de mais para se poder carregar. São as nossas noites de Gethsemani. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas. Assim, Édipo obedece de início ao destino, sem o saber. A partir do momento em que sabe, a sua tragédia começa. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, ele reconhece que o único elo que o prende ao mundo é a mão fresca de uma jovem. Uma frase desmedida ressoa então: "Apesar de tantas provações, a minha idade avançada e a grandeza da minha alma fazem-me achar que tudo está bem." O Édipo de Sófocles, como o Kirilov de Dostoievsky, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga identifica-se com o heroísmo moderno.
Não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer da felicidade. "O quê, por caminhos tão estreitos?..." Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.



“ Sombriamente, ali estão atrás desta luz, escuridão que resplandece no brilho, delta de Cassiopeia, mundos”.

“Maré alta na barra de Dublin.”

“Vem. Tenho sede.”

“ O poente a si próprio se encontra.”

“Sim, o poente encontrar-se-á em mim, sem mim.”


Troti.
 
sábado, setembro 13, 2003
  Leituras: ULISSES, ONDAS e RECHERCHE
Tendo terminado a primeira parte do ULISSES, que deverá ainda ser revisitada com os próximos comentários dos outros participantes que aguardamos, avanço ao encontro de Bloom. Estou curiosa para conhecer o "pai", para assistir ao tal funeral e confrontar-me com o sabonete no bolso...

Entretanto, AS ONDAS pedem também atenção. Daqui a um mês, exactamente, os leitores do ULISSES têm uma ou duas semanas de recolhimento, e imperará a Senhora Virgínia Woolf e as personagens do seu romance "AS ONDAS".

A equipa das ONDAS e da BUSCA DO TEMPO PERDIDO já está formada, mas continua a aceitar reforços, se assim o pretenderem. A leitura de Proust arrancará em Novembro. E estão agendados os 10 primeiros capítulos do ULISSES até dia 12 de Outubro, antes da entrada da Senhora que não simpatizava nada com Joyce - nem podia, tendo em conta como ele vai tratando as mulheres no ULISSES, não acham?


Leitora
 
sexta-feira, setembro 12, 2003
  o simbolismo do "sabonete"...
E já agora como é que interpretam aquela obsessão da personagem pelo sabonete (e a posição que ele ocupa) no seu bolso? Será "simbólica" de uma necessidade de "higiene interior" ou "psicológica" da personagem às voltas consigo próprio e com o mundo?

Bli
 
  «Achas as minhas palavras obscuras. A obscuridade está nas nossas almas, não achas?»
Tal como referiu a Nastenka-d, também eu entendo o 3.º capítulo como sendo a primeira prova de fogo do ULISSES. A violência de algo impenetrável...

Desta vez não vou entrar pelos temas que ocupam o pensamento de Stephen, mas antes pensar sobre a forma. É um monólogo interior; será assim que nós pensamos??

Apesar de dificílimo, gostei muito deste capítulo. Uma torrente de imagens, de sentimentos, de memórias. Sem ordenação, por vezes sem qualquer sentido... os pensamentos ocorrem-nos, de facto. Como se projectados em múltiplas direcções. Avassaladores!

Não me preocupei muito em entender todas as histórias na base desses pensamentos, apesar de nos darem informação sobre a sua família, o seu percurso em Paris... Senti que o monólogo interior poderá ter mais a capacidade de nos transmitir a pulsação da personagem, o caleidoscópio de cores que se vai produzindo na sua mente, e muito menos factos do seu passado. Vemos, assim, um Stephen que não está tranquilo, que tem muitas decisões a tomar, e um trauma para resolver. Mas que se maravilha com o mundo (de olhos abertos) e a existência (de olhos fechados).


E é extremamente poético... É muito bonito. Mas não deixa de ser incompreensível. Eu diria pior: não é para compreender; é para ler, apenas.




«Basta! Verei se posso ver.
Vê agora. Esteve ali todo o tempo sem ti: e existirá sempre, mundo sem fim.»




Leitora
 
quinta-feira, setembro 11, 2003
  «Mulheres nuas! Mulheres nuas! E que tal, hein?»
Acreditem os acompanhantes, ISTO está mesmo escrito no capítulo terceiro do ULISSES. E continua:

«Que tal o quê? E para que mais foram elas inventadas?»

Não dá tréguas, nunca! Cada tema é revisitado, revisto de capítulo em capítulo. E um muito particular é a mulher. Muito mal tratada! Como ainda vou no terceiro capítulo, tenho esperança numa reviravolta, mas por enquanto vi as mulheres muito mal tratadas pelo Joyce.

Concordo com a Bli, e espero mais dicas do nosso acompanhante que nos indicou um livro exactamente sobre este assunto. Mas a Nastenka-d relembrou bem; o dia retratado no ULISSES é exactamente aquele em que Joyce se rendeu a uma mulher! Fico, então, a imaginar a tremenda luta interior que foi para este homem render-se à sua amada...


:)
Leitora


 
  ainda as personagens femininas...
Por lapso, não assinei a mensagem sobre as mulheres e aproveito para reclamar a sua autoria, até para saberem em quem devem "bater".

BLI
 
  sobre as personagens femininas...
Daquilo que li até agora (vou no capítulo 9), pareceu-me que existe no "Ulisses" uma atitude curiosa em relação às mulheres que não sei qualificar muito bem... Será um pouco "preconceituosa"? Será que ainda é muito cedo para falar disto?
Bem sei que estamos a falar de uma obra escrita num momento em que as mulheres ainda funcionavam muito como "décor", mas resumir a sua presença às prostitutas, à mlher adúltera ou à figura materna parece-me questionável...
Estarei enganada? Talvez, mas gostaria de ouvir outras opiniões...
 
  O segundo capítulo
Stephen é um homem que tem de se sujeitar a viver a história da sua vida num registo de banalidade e desencanto. Está consciente das suas fraquezas e da sua incapacidade de gerar interesse. Ele próprio não consegue encontrar interesse para se motivar.
Na “Odisseia”, Nestor é um chefe, que conta a Telémaco a história vivida e lhe oferece os cavalos mais fortes para, assim, poder seguir o seu caminho. Paralelamente, poderíamos idealizar Stephen como o chefe que dá o poder aos seus pupilos pois lhes dá a instrução, permitindo o caminho do futuro. Mas não são estes os factos e Stephen sente que falhou. No entanto, mantém a sua superioridade no diálogo com Mr. Deasy, que lhe reconhece o brilho intelectual, embora o rebaixe no plano económico e pessoal.
Continua evidente a sua falta em relação à mãe – que, no fundo , é quem conhecia as suas fraquezas e o lidera pelo remorso e também paralelamente pelo amor - e a constante penitência que lhe impõe esta dor.
No final do capítulo, Stephen reencontra-se graças às suas faculdades mentais e sentimos a sua esperança. Ele está agora preparado para aprender e receber a vida.

"O pensamento é o pensamento do pensamento. Luminosidade tranquila. A alma, de certa maneira, é tudo o que é: a alma é a forma das formas. Súbita tranquilidade, vasta, incandescente: forma das formas."

Troti
 
quarta-feira, setembro 10, 2003
  «Para aprender é preciso ser-se humilde. Mas a vida é a grande mestra.»
No segundo capítulo reencontrei Stephen. Agora, sim, um rapaz dócil, simpático, atento. Admiro a sua atenção e disponibilidade para com os miúdos, de que a passagem com Cyril é exemplar; Stephen ajuda-o com a compreensão das contas após terminada a sua aula.

Este Cyril é descrito por Stephen como sendo «Feio e fútil (...). Não obstante, alguém o tinha amado, levara-o nos braços e no coração. (...) Amor matris: genitivo subjectivo e objectivo.» É, então, uma segunda versão da imagem da mãe, bem diferente daquela que nos foi dada a entender no capítulo inaugural. Ou será a corrosão dos remorços a falarem, também? Amor de mãe, «E isso então era real? A única coisa verdadeira na vida?» É um tema que está longe de ser resolvido para Stephen, e que se agudizará no seu monólogo interior do terceiro capítulo.

Este aspecto foi para mim o mais forte no capítulo, apesar de muitas perspectivas serem possíveis: a ponte com a guerra de Troia, que é o tema da aula dada por Stephen; a comparação do jogo no recreio com as movimentações na guerra; a mulher como origem do mal; o dilema entre respeito/educação e desprezo/interesse de Stephen para com Deasy; a Irlanda; as religiões. Temas que estão sempre presentes, suponho.

Mas para mim, este segundo capítulo é a verdadeira aparição de Stephen, depois do seu mau humor matinal e da decisão (ou apenas desejo?) de não voltar à Torre Martello.

O capítulo termina com a lição do dia: "não teremos de perseguir aqueles que não deixarmos entrar" (sic), com que o Deasy/Nestor tenta impressionar Stephen, mas este não lhe reconhece a capacidade de lhe ensinar algo. E com o mote para a continuação da aventura: moedas bailam, está ultrapassada a dificuldade orçamental...


Leitora
 
  Inelutável Modalidade do Visível
notas ao terceiro capítulo

«Atirámo-nos então a ele com um grito e segurámo-lo
com as mãos; mas o Velho não se esqueceu das artimanhas:
transformou-se primeiro num leão barbudo;
depois numa serpente, num leopardo e num enorme javali;
depois em água molhada e numa árvore de altas folhas.
Nós segurámo-lo com persistência, de espírito persistente.»

Parece-me que é o próprio texto que se assemelha a Proteu, assumindo várias formas com o intuito de nos escapar...

E entretanto, na Odisseia, começamos já a ter novas de Ulisses:

«É o filho de Laertes, que tem sua morada em Ítaca.
Vi-o numa ilha a verter lágrimas copiosas,
No palácio na ninfa Calipso, que à força lá o retinha.»
Em Dublin, Ulisses ainda ausente.
E Stephen? Onde está Stephen? Na praia, esmagando conchas sob as botas? Junto ao leito de morte do tio? Em Paris, a missionar na Europa? Ou apenas perdido nos seus pensamentos, de tal forma que nem ele mesmo sabe onde se encontra?

Já li aqui que era agora que Ulisses começava a mostrar as suas garras. Confesso que me senti perdida, como se me tivessem repentinamente retirado todas as referências... «E se eu ficasse subitamente nu, aqui onde estou sentado?» Mesmo a companhia da Odisseia não me serviu de ajuda. Durante as quinze páginas deste capítulo senti que o texto me lançava ideias, objectos, lâminas afiadas, trapos sujos, ensanguentados, e pequenas bolas de fogo – que explodiam antes de me atingirem. Creio que a palavra que melhor define o que senti é: acossada. E, no meio desta torrente, momentos profunda, tocantemente humanos:

«Toca-me. Suaves olhos. Suave, suave, suave mão. Sinto-me tão só, aqui. Oh, toca-me depressa, agora. Que palavra é essa que todos os homens conhecem? Eu aqui estou sozinho, quieto. E triste, também. Toca-me, toca-me.»

Que referências guardar? As que me fizerem sentido?
«Fecha os olhos e vê.»
nastenka-d
 
terça-feira, setembro 09, 2003
  o hermetismo dos textos
Recebi um e-mail que não resisto a partilhar, e a deixar para a reflexão sobre o que estamos aqui a fazer:
Do que li do teu post deu para perceber que dificilmente poderia acompanhar a leitura do vosso blog
sem ter lido o livro. O texto é hermético para quem não está dentro do
livro, isto porque não me parece haver contextualização e/ou o "estabelecer
de pontes de ligação" para quem se encontra de fora.


A minha primeira reacção teria sido dizer: mas é claro, como disse a Troti há tempos, a diferença entre nós e quem escreve um blog é que nós não escrevemos um blog. Não estamos a escrever sobre o Ulisses, mas sobre as nossas leituras do Ulisses.
A questão que levantei acabou por ser outra: serão as nossas leituras herméticas pelo facto de o próprio livro o ser?

E não resisto a mais uma transcrição:
Gostaria imenso que o fizessem com Proust! Seria uma delícia poder ler posts
sobre o que estou a ler!

nastenka-d
 
segunda-feira, setembro 08, 2003
  comentários sobre a leitura dos capítulos 2 a 8
capítulo 02 a 08
Aproveitei as "férias" e a distância do computador e da net para continuar a minha leitura. Sinceramente, talvez também porque as expectativas eram muito grandes, estou a sentir-me um pouco desiludida. Para já, só num ou noutro momento da narrativa me senti verdadeiramente "agarrada" pelo livro, por exemplo, no capítulo do funeral. Até agora, o que tenho feito é ler como quem toma um xarope (o que tem que ser tem muita força!!!) e engulo o o mais rapidamente que posso, tipo "óleo de fígado de bacalhau" que a minha mãe ainda chegou a tentar impingir-me. Depois, o blog e as prometidas trocas de opiniões também não têm corrido como eu esperava. Em vez de avançarmos com as nossas opiniões pessoais (com todas as lacunas e deficiências que possam ter), há sempre aquela preocupação de procurar a opinião de "especialistas" e reproduzir as leituras deles. No meu entender, compreendo, de facto, que na sua época este romance possa ter revolucionado a produção literária do seu tempo, mas também me parece (e ao contrário do que eu esperava) que é uma obra muito conotada com o seu tempo e com o seu espaço, sem a dimensão universal que muitos lhe apontam. Já li melhor, mesmo o romance experimental francês, por exemplo, habitualmente designado por "nouveau roman". Mesmo em Portugal (ou em português) temos romances que não ficam atrás deste pela experimentação linguística e narrativa que promovem - ainda que me digam que alguns deles só foram escritos porque existia o "Ulisses" a abrir as brechas necessárias.
Se vou continuar a leitura? Com certeza, até porque não desisto facilmente e é bom não deixar a medicação a meio, não é? Vou é engolindo as colheradas do "Ulisses" misturadas com o açúcar de obras que para mim são mais saborosas, como é o caso da biografia de Gabriel García Marquez, que neste momento também estou a ler.
Perdoem lá o desabafo. Possivelmente, deve-se aos amargos de boca desta leitura com sabor a xarope de infância!!!!

Bli
 
  As Ondas
Leitura partilhada é uma experiência nova para mim, mas muito interessante e que me entusiasma - quantas vezes, ao lermos algo que nos encanta e fascina, tentamos partilhar com alguém próximo, lemos frases em voz alta, comentamos, mas, esporadicamente apenas.

Muitos livros que li mereciam, na minha opinião, uma leitura partilhada e, desde já, entro nas "Ondas" - depois deste "Ulisses" que me "perseguia" há anos, mas, tudo tem um tempo e, por vezes, não somos nós quem escolhe os livros, são eles que nos escolhem - não sei se partilham esta minha opinião, mas, eu tenho um exemplo, de entre vários, da minha experiência, que foi flagrante:

Em 91, um amigo ofereceu-me "O Pêndulo de Foucault", dizendo que era um livro que tinha muito a ver comigo, pedindo que, posteriormente, lhe confirmasse. A minha vida profissional era extremamente absorvente, a família, as responsabilidades do dia-a-dia e o livro ficou na estante, em destaque, na zona "a ler asap". A vida proporcionou um espaço de leitura mais regular - de facto, consegui ler bastante, e o Pêndulo foi retirado e lido, 5 anos depois - e entendi que aquele era o tempo de o ler, antes não o teria sentido do msmo modo.

E deixo uma sugestão - sempre a pensar pós-Ulisses -:independentemente das "Ondas", poderia, cada um, propôr um livro, apresentá-lo, e ponderar uma leitura partilhada.

de alguns (poucos) que mais me fascinaram, por um motivo ou outro, fiz um resumo (tosco) que releio quando sinto volntade de a eles regressar e que colocarei à disposição, obviamente.

boas leituras
Iracema
 
  Avassalador
Joyce considerava "Ulisses" como um romance-monstro.... intimida, de início, envolve-nos e fascina-nos, logo de seguida.
Acabado o segundo capítulo, percorri apenas o terceiro, o mar, a leitura do visível, mas garanto-vos que vou voltar ao início, por isso apenas umas breves notas agora...

A primeira sensação que tive, ao iniciar a leitura, foi: não vai ser fácil, - o que é bom ou verdadeiro raramente o é - mas prometia ser fascinante e é. Totalmente avassalador. As palavras desfilam e, no meu caso, senti um desfilar de emoções, de informação - busquei, nas palavras, as imagens e o que lhes estava subjacente - fiquei intrigada, mas, prossegui... devorei, mesmo o que não entendi porque sabia que regressaria

Stephen o "não-herói" que (para além da descrição que a Leitora, abaixo, faz) tenta também "olhar-se" de fora, que, mais que professor ("a história é um pesadelo de que me quero libertar" (sic), quer aprender e a carga de humildade que isso (lhe) exige; a mal resolvida questão com a morte da mãe..... e "De mim arrojo esta sombra finita, inelutável forma humana, chamo-a de novo. Infindável, seria minha, forma da minha forma?"

Mulligan, personagem de abertura, "pomposo" - uma alegria - como abaixo se escreveu - mas, por trás dessa alegria, a crítica, alguma amargura e cinismo?

Iracema
 
  O pensamento é o pensamento do pensamento - Capítulo 2
Quem é Stephen? Ele mesmo, ou Cyril, «feio e fútil»? «Não obstante, alguém o tinha amado, levara-o nos braços e no coração.» Amor matris.«Com o seu sangue fraco...» Também Antínoo acusa Penélope, mãe de Telémaco, de iludir com promessas os pretendentes (a célebre teia, o desfazer de noite o que se teceu durante o dia).
Quem é Stephen? Atena provoca Telémaco, antes que este se decida a partir para inquirir sobre o pai:

«Telémaco, de futuro nem cobarde nem vil serás,
se na verdade a coragem de teu pai se insuflou em ti,
pois ele era homem para cumprir acto e palavra:
a tua viagem não será inútil nem infrutífera.
Mas se não fores filho dele e de Penélope,
Não espero que alcances aquilo que tanto desejas.
Poucos são os filhos semelhantes aos pais:
A maior parte são piores: só raros são melhores.»

«Dentro de momentos, rir-se-ão ainda mais de mim, conscientes da minha falta de autoridade e das mensalidades que os pais pagam.» Stephen pensa-o, olha os rostos vazios que o encaram, mas nada faz para se aproximar deles, para os aproximar de si. Passivo-agressivo. Só e desintegrado. E consciente de tal.

Telémaco, na sua busca do pai, invoca Nestor:
«Mas agora quero perguntar outra coisa a Nestor,
visto que para lá de qualquer outro sabe o que é justo e sensato.
Três vezes, diz-se regeu gerações de homens.
A mim parece-me semelhante a um deus imortal.»

Assemelha-se Deasy a Nestor? Concerteza viu três gerações desde o tempo de O’Connell. Fá-lo a idade mais justo e sábio? Nada do que diz serve a Stephen de modelo. »Não obstante, ajudá-lo-ei na sua luta. Mulligan dar-me-á um novo nome: o bardo benfeitor de bois.»

nastenka-d
 
domingo, setembro 07, 2003
  "Não é justo arreliá-lo desta maneira, Kinch, não é verdade?"
Voltei ao primeiro capí­tulo. Deste regresso, surpreendi-me com o nosso conhecido Dedalus.

Reparei num Stephen que nos quer tirar todas as ilusões logo de iní­cio: «Mas eu não sou um herói.» E Joyce quase lhe faz a vontade, mostra-o aborrecido, sonolento, mal humorado, seco com os amigos, sujo e desleixado. Deprimido, também, curvado pelas suas memórias más da morte da sua mãe.

Ao seu lado temos um Mulligan que nos conquista com a sua fanfarronice, a sua alegria, apesar de todos os seus defeitos. Mulligan é o usurpador. Mas Joyce deixa que gostemos dele, porque nos diverte. Dá-lhe honras de abertura da obra, pomposo no alto da escada. Aliás, é também através de Mulligan que Joyce faz a sua vénia a HOMERO: «ah, Dedalus, os gregos! Tenho de ensiná-lo. Você deve lê-los no original.»

Mais duas personagens apenas neste capí­tulo: Haines, «Oh Deus, esses estuporados ingleses!», que tenciona coleccionar os ditos de Stephen; e a velha Grogan, a leiteira, que tem em comum com Stephen o facto de ser usurpada, «pobre velha errante, humilde forma de um ser imortal, servindo o que a conquistou e o que alegremente a traiu, comcubina de ambos, mensageira da manhã secreta.»


É, a meu ver, um primeiro capí­tulo cativante. Cheio de energia, e capaz de nos introduzir muito rapidamente num complexo universo a ser desenvolvido ao longo do romance.

Li algures que, numa carta, Joyce escreveu que este capí­tulo teria o estilo que os leitores quereriam para todo o romance. Mas não era esse o objectivo, e que a partir das páginas seguintes tudo se iria alterar. Assim é. Foi, portanto, intencional escrever um primeiro capí­tulo sedutor, que agarre os leitores pela mão. Segura a minha, ainda...


Leitora
 
  Relendo a primeira parte do ULISSES de James Joyce
Deixei passar algumas semanas e reiniciei a leitura do ULISSES. Já cá tinha deixado algumas impressões sobre o primeiro capítulo, e tenho vindo a dizer que gostei muito da leitura. Porquê reler? Para compensar o nervosismo inicial, a avidez de apreender tudo, detectar todos os sinais da tabela, da história, dos outros livros do autor. Para encontrar uma nova versão que toda a releitura nos dá. E para tirar desde já proveito das outras opiniões que têm vindo a ser publicadas pelos meus companheiros de leitura. E têm sido uma grande ajuda para a leitura! ;)


A releitura mudou a minha percepção do texto. Alargou-a, mostrou-me mais referências, mais características das personagens. E consegui ler mais liberta da tabela e de todo o estudo anterior, toda a pesquisa. Li sem querer encontrar o que me foi adiantado nas análises, porque esse trabalho já estava feito e devidamente assinalado a lápis.

Pude demorar-me em frases que me todaram, encontrar poesia por entre a rigidez da escrita. Vejam, por exemplo, esta frase:


Quem jamais, seja onde for, lerá estas palavras escritas?




Vou agora seguir para a segunda parte do ULISSES, com a aguardada entrada de Bloom. Não sem antes partilhar algumas das notas que ficaram dos três primeiros capítulos, tal como combinado.

Leitora
 
sexta-feira, setembro 05, 2003
  O livro que nunca ninguém leu
Do outro lado do Atlântico chega-nos esta deliciosa provocação:

«Depois da morte de Antonio Houaiss e de Haroldo de Campos, a mais famosa obra de James Joyce só tem hoje um leitor vivo em língua portuguesa, o não menos famoso Picareta.»

Pois é verdade, fui eu quem convidou o Adriano, assim como quem chama para ir ao cinema! Mas sempre por uma boa causa!!

Se esta nossa aventura correr pelo melhor, dentro de algumas semanas teremos várias meias dúzias de seis leitores do ULISSES...

;)

Leitora
 
  O Grito.
E quando alguém grita Finalmente.... terminei "Ulisses"!!!... Pois! Ainda não sei qual é o sentimento, mas espero sabê-lo daqui a umas semanas! O grito de vitória está no Joseph Kern's Diary.

Entre outras coisas, penso que ve a propósito esta citação:

«Ulisses não é para mim uma tarefa acadêmica, ainda assim, o li com a curiosidade de quem cresceu lendo prosa (conto e romance, principalmente), de quem pouco leu fora do mundo da prosa. Se Ulisses significa tanto para a história do romance como gênero literário, então eu estava curioso para entender por quê.

Acho que entendi.

Não é um livro fácil. Em muitos momentos aborreci-me, em muitos momentos virei páginas sem entender nada, em muitos momentos tive vontade de bater à porta do velho James e dizer, ok, ok, você me convenceu que sabe escrever bem, agora pode por favor explicar o que está dizendo? Mas também não é um livro incompreensível. Em muitos momentos, não entendia muito bem mas adorava o que estava lendo, muitas vezes virei páginas e páginas com um sorriso bobo estampado na cara, surpreso com o que o autor conseguia fazer. Em geral, numa primeira leitura pouco cuidadosa, entremeada por centenas de outras preocupações, dá para entender o livro, perdendo muitos detalhes, ficando com a vontade de reler para "pegar" melhor... É um livro difícil, mas não é impossível, e é interessante, muito interessante...»



Alguns destes aspectos da leitura já foram por mim vividos também... E partilho inteiramente esta ideia de persistência e de interesse.

Por exemplo, o terceiro capítulo é uma prova de fogo, a primeira, porvavelmente bastante suave... sem querer levantar o véu (ainda estou em dívida de posts sobre os capítulos 1 e 2) garanto-vos que provoca mesmo esse sorriso bobo de quem não entende bem o que está a ler, mas não deixa de... adorar!


Leitora
 
quinta-feira, setembro 04, 2003
  Ainda o primeiro capítulo
O branco virginal de promessa e claridade encontra-se na névoa matinal com o suave dourado do sol nascente, esplendor de um brilho terreno.
O branco leitoso do alimento original é a fonte de vida que permite o herdeiro, único e determinante ouro num incerto futuro.
O branco, símbolo da paz interior que Stephen Dedalus procura, caminha a par do ouro, símbolo do fogo intelectual que ele ambiciona.
Stephen Dedalus enfrenta o dilema do patriotismo e a encruzilhada da fé, a assunção do divino como base da criação do indivíduo, sua afirmação e continuidade, ou a renegação deste princípio. Theos – encontro ou abandono.
Enclausurado na torre da sua consciência, vive a dureza da absoluta necessidade de apaziguamento do remorso e, simultaneamente, a procura desesperada de redenção pessoal.

Troti
 
terça-feira, setembro 02, 2003
  A Minha Chegada e a Minha Alegria
Olá, meus novos amigos. Estou contente por estar aqui, agora mais próximo de vocês... eu, como muitos, tive uma experiência frustrada em relação à leitura de Ulisses, de Joyce, creio que tenha lido uns 20% do livro.

Mas agora é hora de desancorar e seguir viagem pelos mares joyceanos.

Por ora é isso... depois nos falamos mais!!! (Também é hora do trabalho...)

Alessandro de Paula (São Paulo, Brasil)
 
  Comunidade de Leitores
Uma iniciativa já não muito recente da Biblioteca Almeida Garrett, a Comunidade de Leitores, parece ter adivinhado as nossas "lutas" com os grandes livros. A próxima sessão, que acontecerá no dia 16 de Setembro, terá como tema exactamente a "Odisseia". Para quem acompanha a leitura do "Ulisses" com esta obra, será certamente uma sessão a não perder!
 
  Convite
;)

Quem quer mergulhar nas ONDAS de Virginia Woolf??





Por favor deixe mensagem ou envie um mail...


Para a "RECHERCHE" também está a valer...




 
segunda-feira, setembro 01, 2003
  Outra vez o Capítulo 1
Ora aqui vão as minhas impressões acerca do primeiro capítulo do Ulisses... Bem sei que tardias...
O que mais me tocou no primeiro capítulo, com a apresentação de Stephen, foi a forma como o texto passa da terceira à primeira pessoa, deslocando o ponto de observação da acção para o pensamento. É aqui que acontece realmente algo, como se as acções exteriores não passassem de incidentes menores cujo único propósito é estimular as reflexões de Stephen.

Também não posso deixar de referir a correspondência com o Canto I da Odisseia. Primeiro, na surda animosidade de Stephen contra os seus companheiros:

«A estes deleitam coisas como a lira e o canto
levianamente, pois devoram, de graça, o sustento de outrem,
de um homem cujos brancos ossos apodrecem à chuva
ou então jazem no mar, onde as ondas os revolvem.»

E ainda a questão que Stephen a si mesmo se coloca, olhando-se no espelho:

«Declara a minha mãe que sou filho de Ulisses,
embora por mim não o saiba ao certo:
ninguém de sua filiação pôde nunca saber.
Quem me dera ser filho de um homem feliz,
A quem a velhice viesses encontrar no meio das suas posses!»

Stephen não tem uma Atena que lhe confirme a linhagem. E é aquela que diz a Telémaco:

«Não há dúvida de que tendes necessidade de ausente Ulisses.»

Nastenka-d
 

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"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

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UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

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Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

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"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

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"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

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"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

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"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

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"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

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"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

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