Leitura Partilhada
sábado, julho 31, 2004
 
«nem sequer lia nada de uma maneira séria e aprofundada.» (p. 569)

Bem a propósito do nosso próximo mês, questionar o leitor que somos...
Mas, afinal, o que é ler de maneira séria e aprofundada, alguém me diz? Esperam-se desenvolvimentos a partir de dia 16 de Agosto...

Leitora
 
 
"Perdoam-se os crimes individuais, mas não a participação num crime colectivo".


Troti
 
 
"Ah, se ao menos eu conseguisse começar a escrever! Mas, fossem quais fossem as condições em que abordava este projecto (aliás, infelizmente, tal como os de deixar de beber álcool, de me deitar cedo, de dormir, de estar bem de saúde), quer fosse com entusiasmo, com método, com prazer, privando-me de um passeio, adiando-o e reservando-o como recompensa, aproveitando uma hora de boa saúde, ou utilizando a inacção forçada de um dia de doença, o que sempre acabava por resultar dos meus esforços era uma página branca, virgem de qualquer escrita, inelutável como aquela carta obrigatória que acabamos fatalmente por tirar em certos lances, seja qual for o modo como antes se baralhou."


Troti
 
 
"...há momentos em que precisamos de sair de nós mesmos, de aceitar a hospitalidade da alma dos outros..."


Troti
 
  O lado de Guermantes
Este é para mim o livro do final da infância: por tudo o que tem de destruição das ilusões que nos acompanham, que nos formam a imaginação e também o carácter. Aqueles que Marcel mais fantasiava desgostam-nos, a cada página, pelo sua natureza afinal tão humana - que é também humano ser cruel como Oriane se mostra.
A morte ronda aqui também, e é a sua consciência que arranca o que de criança lhe resta. É um livro pesado, portanto, e não frívolo como pode parecer, olhando apenas (e superficialmente) para as páginas onde se empilham as conversas fúteis – temperadas a espírito Guermantes - com que se entretém a duquesa. As fantasias de Marcel pouco mais valem, afinal, do que as sombras coloridas da sua lanterna mágica.
nastenka-d
 
 
"...já estava a ver o sol da manhã a brilhar na colina de Fiesole, aquecia-me aos seus raios cuja força me obrigava, sorrindo, a abrir e semicerrar as pálpebras que, como lamparinas de alabastro, eram inundadas por uma claridade rosada. Não eram apenas os sinos que voltavam de Itália, era a Itália que vinha com eles. Não faltariam flores às minhas mãos fiéis para honrar o aniversário da viagem que em tempos devia ter feito, porque desde que em Paris o tempo tornara a esfriar, ...no ar líquido e glacial que banhava os castanheiros, os plátanos dos bulevares, a árvore do pa´tio da nossa casa, já, como numa taça de água pura, os narcisos, os junquilhos e as anémonas da Ponte Vecchio entreabriam as folhas."



Troti
 
 
«Falar para dizer qualquer coisa que não seja exactamente nada.» (p. 561)

Leitora
 
 
«A necessidade de falar não só impede de ouvir, mas de ver, e, naquele caso, a ausência de qualquer descrição do meu exterior é já uma descrição do estado interior.» (p. 554)

Marcel, quantas inquietações te causam as fofocas sociais da tua primeira soiré! Mas, de castigo, terás de guardar tudo para ti, pelo menos por enquanto...

Leitora
 
 
Somos atraídos por toda a vida que represente para nós algo de desconhecido, por uma última ilusão a destruir.

nastenka-d
 
 
"Nós respondemos com facilidade pelos outros quando, compondo no nosso pensamento as pequenas imagens que os representam, manobramos estas à nossa vontade."


Troti
 
sexta-feira, julho 30, 2004
 
"...o hábito é, de todas as plantas humanas, aquela que menos necessidade tem para viver de um solo rico de alimentos, e a primeira a aparecer aparentemente mais desolado nos rochedos..."
 
 
Troti
 
 
«Os grandes senhores são quase as únicas pessoas com quem se aprende tanto como com os camponeses; a sua conversa orna-se de tudo o que diz respeito à terra, às mansões tais como outrora eram habitadas, aos antigos usos, a tudo que o mundo do dinheiro profundamente ignora.» (p. 552)
 
Será que alguém do salão se sentiria agradado com esta comparação?
 
Leitora
 
 
O seu afecto não sobrevive à exaltação que a dita.

nastenka-d
 
  A fugacidade dos afectos vãos
… acontecia-lhe retirar uma flor do corpete, ou um medalhão, e dá-los a alguém com quem desejasse prolongar o serão, sentindo ao mesmo tempo com melancolia que tal prolongamento não poderia levar senão a vãs tagarelices em que nada passaria do prazer nervoso, da emoção passageira, semelhantes aos primeiros calores de Primavera pela impressão que deixam de cansaço e de tristeza… (p.548)

nastenka-d
 
 
"O que mecanicamente naquele momento se formou nos meus olhos quando vi a minha avó foi de facto uma fotografia. Nunca vemos os entes queridos a não ser no sistema animado, no movimento perpétuo da nossa incessante ternura, a qual, antes de deixar que cheguem até nós as imagens que o seu rosto nos apresenta, as agarra no seu turbilhão, as remete para a ideia que deles fazíamos desde sempre, as faz aderir a ela e coincidir com ela.
 
...
 
eu, para quem a minha avó era ainda eu próprio, eu que nunca a tinha visto senão na minha alma, sempre no mesmo lugar do passado, através da transparência das recordações contínuas e sobrepostas, de repente, no nosso salão que fazia parte de um mundo novo, o do tempo, aquele onde vivem os estranhos de quem se diz que "envelhecem bem", pela primeira vez e apenas por um instante, porque ela desapareceu muito depressa, vi ali no sofá, à luz do candeeiro, vermelha, pesada e trivial, doente, meditando, passeando os olhos um pouco enlouquecidos por sobre um livro, uma velha arruinada que eu não conhecia."
 

 
Troti
 
 
"Já se disse que o silêncio era uma força; num sentido completamente diferente, ele é uma força, e terrível, à disposição daqueles que são amados. Uma força que aumenta a ansiedade de quem espera. Nada convida tanto alguém a aproximar-se de um ser como o que dele o separa, e que barreira existe mais intransponível que o silêncio? Já se disse também que o silêncio era um suplício, e capaz de enlouquecer aquele que nas prisões a ele estava obrigado. Mas que suplício - maior que o de guardar silêncio - é o de sofrer o silêncio de quem se ama!...De resto, mais cruel que o das prisões, tal silêncio é ele mesmo uma prisão. Uma clausura imaterial, sem dúvida, mas impenetrável, aquela fatia interposta de atmosfera vazia, mas que os raios visuais do abandonado não podem atravessar."
 
 
Troti
 
quinta-feira, julho 29, 2004
 
«Podemos à nossa vontade entregar-nos a uma ou outra de duas forças, uma das quais sobe de nós mesmos, emana das nossas impressões profundas, e a outra nos vem do exterior. A primeira traz naturalmente consigo uma alegria, a que liberta a vida dos criadores. A outra corrente, a que tenta introduzir em nós o movimento que agita pessoas exteriores, não é acompanhada de prazer; mas podemos acrescentar-lhe um, por força de um retrocesso, numa embriaguez tão artificial que depressa se transforma em tédio, em tristeza; daí o rosto taciturno de tantos mundanos e, neles, tantos estados nervosos que podem levar ao suicídio.» (p. 549)
 
O melhor terá, então, de vir de dentro...
 
Leitora
 
 
"Cada um é o homem da sua ideia; há muito menos ideias que homens, e assim todos os homens da mesma ideia são semelhantes. Como uma ideia nada tem de material, os homens que só materialmente rodeiam o homem de uma ideia em nada a modificam." 

...

"- A verdadeira influência  é a do meio intelectual! Cada um é o homem da sua ideia!"
 

Troti
 
 
"_Robert, espanta-me que você, tão inteligente, não compreenda que não se deve discutir o que dá prazer aos amigos, mas fazê-lo. Eu, se você me pedisse fosse o que fosse, e até gostaria muito que me pedisse alguma coisa, garanto-lhe que não lhe pediria explicações."
 
Nesta temática estou completamente de acordo com Marcel.

 
Troti
 
 
"_ Você sabe que de um modo geral não estou nada interessado em que ande a apregoar os bons sentimentos que nutre a meu respeito, porque não tenho amor-próprio...Mas no que toca à senhora de Guermantes, se pudesse dar-lhe a conhecer, até com um pouco de exagero, o que pensa de mim, dava-me um grande prazer."

Marcel é, de facto, uma personagem desconcertante.

 
Troti
 
  Desilusão 2
Seria na verdade por causa de jantares como aquele que todas as pessoas faziam toilette e se recusavam a deixar entrar burguesas nos seus salões tão fechados? Por jantares como aquele? Iguais àquele se eu estivesse ausente? (p.546)

nastenka-d
 
  Desilusão 1
E esses preconceitos de outros tempos restituíram de repente aos amigos do senhor de Guermantes a sua poesia perdida. (p.535)

nastenka-d
 
quarta-feira, julho 28, 2004
 
"Era tal a corrente de vida que afluía aos meus nervos que nenhum dos meus movimentos a podia esgotar; cada um dos meus passos, depois de aflorar uma pedra da calçada da praça, ressaltava, parecia que tinha nos calcanhares as asas de mercúrio."  (pág.94)

 
Troti
 
  A nossa memória e o nosso coração não são suficientemente grandes para poderem ser fiéis.
Não possuímos espaços bastante no nosso pensamento actual para lá guardar os mortos ao lado dos vivos. (p.534)

nastenka-d
 
 
«A história, mesmo simplesmente genealógica, devolve a vida às velhas pedras.» (p. 543)

Leitora
 
 
Eu mal ouvia estas histórias, do género das que o senhor de Norpois contava ao meu pai; elas em nada alimentavam as fantasias de que eu gostava; e, aliás, ainda que possuíssem esse alimento de que eram desprovidas, teria de ser de uma qualidade bem excitante para que a minha vida interior pudesse despertar durante aquelas horas mundanas em que eu morava na minha epiderme, no cabelo bem penteado, no peitilho bem engomado da camisa, isto é, em que de modo algum podia sentir o que para mim era na vida o prazer. (p.529)

nastenka-d
 
terça-feira, julho 27, 2004
 
"Os poetas pretendem que reencontramos momentaneamente o que fomos noutros tempos ao entrar em determinda casa, ou em certo jardim onde vivemos na juventude. Essas são peregrinações muito arriscadas que nos conduzem a tantas decepções como êxitos. Os lugares fixos, contemporâneos de anos diferentes, mais vale procurá-los dentro de nós mesmos. Para isso é que, em certa medida, nos pode servir uma grande fadiga seguida  de uma boa noite. Essas, pelo menos, para nos fazerem descer às galerias mais subterrâneas do sono, onde nenhum reflexo de vigília, nenhum clarão de memória iluminam já o monólogo interior, se é que também ele não cessa, revolvem tão bem o solo e o subsolo do nosso corpo que nos fazem reencontrar, onde os nossos músculos mergulham e torcem as suas ramificações, e aspiram a vida nova, o jardim onde fomos crianças. Não é preciso viajar para tornar a vê-lo, é preciso descer para tornar a encontrá-lo. O que cobriu a terra já não está sobre ela, mas sob ela; não basta a excursão para visitar  a cidade morta, são necessárias escavações." (pág.91) 

 
Troti

 
 
«A aristocracia, na sua construção pesada, atravessada por raras janelas, deixando entrar pouca luz, mostrando a mesma falta de inspiração, mas também o mesmo poder maciço e cego da arquitectura românica, circunda toda a história, e mantém emparedada e de má catadura.» (p. 359)
 
Leitora
 
 
Ah, Alteza, a vida é uma coisa horrorosa, passamos o nosso tempo a fazer coisas que nos aborrecem, equando, por acaso, conhecemos alguém com quem poderíamos ir ver algumas coisas interessantes, logo há-de ir fazer um casamento como o de Swann. (p.519)

nastenka-d
 
segunda-feira, julho 26, 2004
 
A frase do Bloch pouco interesse tinha, mas eu lembrava-me dela como prova de que por vezes na vida, sob o efeito de uma emoção excepcional, dizemos o que pensamos.

nastenka-d
 
  O Segredo do Sucesso
«Em poucos jantares assimilei o conhecimento de todos os amigos dos meus anfitriões, amigos a que me apresentavam com uma ponta de benevolência tão acentuada (como sendo alguém que toda a vida tivessem paternalmente preferido) que todos julgariam pecar contra o duque e a duquesa se dessem um baile sem me fazer figurar na lista.» (p. 514)
 
Assim se fez o sucesso de Marcel, a nova coqueluche dos salões do Faubourg Saint Germain.
Esta subida à ribalta foi de tal forma súbita e inesperada para mim, que fiquei sem saber como é que Marcel conseguiu cair em tais graças dos Guermantes – os mesmos que o ignoraram para seu grande desgosto. Que méritos do rapaz lhe valeram tais honras?
Leitora
 
 
"E talvez a ressurreição da alma depois da morte seja concebível como um fenómeno de memória."

 
Troti
 
  Etiqueta, conveniência, cortesia, proximidade
E os espectadores bem podiam acreditar que não havia melhor marido que ele, nem pessoa mais invejável que a duquesa – aquela mulher para além da qual residiam para o duque todos os interesses da vida, aquela mulher que ele não amava, que nunca cessara de enganar; quando a duquesa se sentia fatigada, viam o senhor de Guermantes levantar-se, vestir-lhe pessoalmente a capa, compondo-lhe os colares para que não se prendessem no forro, e abrir-lhe caminho até à saída com cuidados diligentes e respeitosos, que ela recebia com a frieza da mulher da sociedade que não vê nisso mais do que uma simples prática do mundo, e às vezes até com a amargura um pouco irónica da esposa desenganada que já não tem qualquer ilusão para perder. (p.483)

Nem sempre tudo correrá na perfeição entre a mulher de espírito e o seu empresário; por muito contratual que seja a relação num casamento, há sempre afectos em jogo, há sempre ilusões e fantasias. A perspectiva de uma esposa sem ilusões a perder, de um marido que cumpre na perfeição o seu papel – mas não mais do que o papel – de cavalheiro, é terrível e assustadora. As conveniências poderão esconder muita coisa, mas não a solidão que se desprende da descrição deste casamento sem proximidade.
nastenka-d
 
domingo, julho 25, 2004
  O estado das coisas
As primeiras palavras do ministro: «Não preciso de dizer à Câmara que tenho um tão elevado sentido dos deveres do governo que não podia receber essa delegação, da qual a autoridade do meu cargo não tinha de tomar conhecimento.», são um golpe de teatro, porque era a única hipótese que o bom senso dos deputados não levantara. Mas justamente porque é um golpe de teatro, é recebido com tais aplausos que só ao fim de alguns minutos é que o ministro se pode fazer ouvir, ministro que, ao regressar ao seu lugar, irá receber as felicitações dos seus colegas. Fica-se tão emocionado como no dia em que ele se esqueceu de convidar para uma grande festa oficial o presidente do Conselho Municipal que lhe fazia oposição, e declara-se que tanto numa circunstância como na outra actuou como um verdadeiro homem de Estado. (p.477)

nastenka-d
 
 
«Somos por vezes demasiado inclinados a julgar que as condições actuais de um estado de coisas são as únicas possíveis.» (p. 457)
 
Por acomodação? Por preguiça? Por falta de ânimo ou de coragem?
 
Leitora

 
 
"Passa-se com o sono o que se passa com a percepção do  mundo exterior. Basta uma modificação nos nossos hábitos para o tornar poético..."

 

Troti

 
sábado, julho 24, 2004
 
«É inútil mostrar que és mais bem-nascida que qualquer outro e que os teus investimentos são de primeira ordem, uma vez que toda a gente o sabe.»
 
A modéstia é das virtudes mais difíceis de incutir e de manifestar. Se no contexto do livro esta citação é um pouco cínica, o argumento é válido. Vangloriar-se é necessariamente um sinal de insegurança e de auto-estima insuficiente.
 
Leitora

 
 
As pessoas da sociedade ficaram estupefactas e, sem procurar imitar a duquesa, sentiram contudo com a sua atitude a espécie de alívio que se tem em Kant quando, após a demonstração mais rigorosa do determinismo, se descobre que acima do mundo da necessidade há o mundo da liberdade. (p.479)

nastenka-d
 
 
Como que deterioradas pela nulidade da vida mundana, a inteligência e a sensibilidade da senhora de Guermantes estavam tão oscilantes que, nela, a repulsa não podia deixar de suceder bem rapidamente ao entusiasmos (mas prestes a sentir-se de novo atraída para o género de espírito que ora procurara ora desprezara) e o encanto que encontrara num homem de coração não podia deixar de alterar-se, se ele convivesse muito com ela, se nela demasiadamente procurasse direcções que era incapaz de lhe fornecer, numa irritação que julgava produzida pelo seu admirador e apenas o era pela impotência em que estamos de achar prazer quando nos limitamos a procurá-lo. (p. 473)

nastenka-d
 
 
"Mas, no segundo dia, tive de ir dormir ao hotel. E sabia adiantadamente que era fatal ir encontrar lá a tristeza. Esta era como um aroma irrespirável que, para mim, desde que nascera, qualquer quarto novo exalava, quero dizer, qualquer quarto: naquele onde habitualmente morava não estava presente, pois o meu pensamento permanecia noutro sítio e em seu lugar mandava apenas o hábito....num lugar novo,...aonde chegava sozinho, ... tinha de pôr em contacto com as coisas aquele "Eu" que só reencontrava com anos de intervalo, mas sempre o mesmo, que não crescera desde Combray, desde a minha primeira chegada a Balbec, chorando, sem consolo possível, junto de uma mala desfeita." (pág.81)

 

Troti

 
 
Mas a senhora de Guermantes, pelo contrário, retirava de incidentes assim pretextos para histórias que faziam os Guermantes rir até às lágrimas, de modo que eram obrigados a invejá-la por ter falta de cadeiras, por ter cometido um erro ou deixado que um criado o cometesse, por ter tido em sua casa alguém que ninguém conhecia, tal como se é obrigado a dar graças pelo facto de os grandes escritores serem mantidos à distância pelos homens e traídos pelas mulheres quando as suas humilhações e os seus sofrimentos foram, se não o aguilhão do seu génio, ao menos a matéria das suas obras. (p. 470)

nastenka-d
 
 
"Embebendo a forma da colina, associada ao gosto do chocolate e a toda a teia dos meus pensamentos de então, aquela neblina, sem eu pensar minimamente nela, veio humedecer todos os meus pensamentos desse tempo, tal como um determinado ouro inalterável e maciço ficara aliado às minhas impressões de Balbec, ou como a presença próxima da escadaria exterior de grés enegrecido, conferia um certo tom grisalho às minhas impressões de Combray." (pág.81)

 
Troti

 

                        

 
sexta-feira, julho 23, 2004
 
«Mas ninguém tira proveito de qualquer lição, porque ninguém sabe descer ao geral e todos imaginam sempre estar em presença de uma experiência sem precedentes no passado.»
 
Toda a Recherche é uma exaltação à memória, que não serve apenas para contar história, para reviver, para repensar o passado, mas também para avaliar o presente e o futuro.
Mas será a generalização o instrumento principal para aplicar à memória?
 
Leitora
 
 
" De repente descobri o relógio em cima da mesa. Ouvi então o tiquetaque num lugar fixo donde não tornou a mexer-se. Julgava ouvi-lo naquele local; mas não o ouvia ali, via-o, os sons não têm lugar."
 
 
Troti
 
 
"...quando estamos apaixonados, gostaríamos de poder dar a conhecer à mulher amada todos os pequenos privilégios desconhecidos que possuímos, como fazem na vida os deserdados e os importunos. Sofremos por ela os ignorar, procuramos consolar-nos pensando que, justamente por eles não serem nunca visíveis, talvez ela junte à ideia que faz de nós essa possibilidade de vantagens que não se conhecem."
 
Troti
 
  A mulher de espírito e o seu empresário
Há relações de todos os tipos, baseadas nas coisas mais diversas; e que um casamento é um contrato todos sabem. Entre Oriane e Basin há, para todos os efeitos, este entendimento que os liga e promove. Talvez seja influência do Génio dos Guermantes, que cimenta a sua relação apesar do afastamento, das amantes; talvez seja a sociedade, esse misterioso mundo cheio de códigos e onde no entanto singram os que se atrevem – apenas até um certo ponto – a transgressões.
nastenka-d
 
quinta-feira, julho 22, 2004
 
«Não aproveitamos muito a nossa vida, deixamos inacabadas nos crepúsculos de Verão ou nas noites precoces de Inverno as  horas que julgámos conterem um pouco de paz ou de prazer. Mas essas horas não estão totalmente perdidas. Quando cantam por sua vez novos momentos de prazer, que passariam do mesmo modo, igualmente franzinos e lineares, elas vêm dar-lhes a base, a consistência de uma rica orquestração. Atingem assim uma dessas felicidades típicas como só de vez em quando deparamos, mas que continuam a existir.» (p. 400)
 
Mas não deixa de ser uma arte esta de ficar impregnado do bom que se vai vivendo. Não seja só a dificuldade que nos torne melhores e mais fortes...
 
Leitora
 
  Sociedade e Cortesia 4
E, enfim, não seria uma sociedade secretamente hierarquizada à medida que fosse de facto mais democrática?

nastenka-d
 
  Sociedade e Cortesia 3
No fim de contas, a cortesia numa sociedade igualitária não seria maior milagre do que o êxito dos caminhos de ferro e a utilização militar do aeroplano. Além disso, mesmo que a cortesia desaparecesse, nada prova que isso fosse de facto uma desgraça.

nastenka-d
 
  Sociedade e Cortesia 2
Mas esse desaparecimento da cortesia numa sociedade nova não é certo, e somos por vezes demasiado inclinados a julgar que as condições actuais de um estado de coisas são as únicas possíveis.

nastenka-d
 
  Sociedade e Cortesia
Devo confessar que me espantei ao ler as considerações de Marcel sobre o futuro da cortesia numa sociedade igualitária. Creio que nunca imaginei que ele reflectisse sobre este assunto - não do ponto de vista da cortesia, mas do ponto de vista da sociedade. Lá está: mais uma vez tento catalogá-lo, e ele mais uma vez ele me escapa, deixando-me perplexa.
nastenka-d
 
quarta-feira, julho 21, 2004
  O ser amado
«É o terrível engano do amor, o de começar por nos fazer lidar, não com uma mulher do mundo exterior, mas com uma boneca dentro do nosso cérebro, aliás a única que temos sempre à nossa disposição, a única que possuiremos, aquela que a arbitrariedade da memória, quase tão absoluta como a da imaginação, terá feito tão diferente da mulher real como da Balbec verdadeira fora para mim a Balbec sonhada; criação artificial à qual a pouco e pouco, para nosso sofrimento, obrigaremos a mulher real a assemelhar-se.» (p. 375)




Leitora
 
  O Génio dos Guermantes
Aparece nas alturas cruciais, distingue-os dos simples homens de espírito; dá-lhes o saber intuitivo das posições a ocupar no cortejo mundano, das coreografias das apresentações, dos gestos correctos a adoptar em cada momento; torna-os mais graciosos do que os parentes sem espírito, mas também lhes confere uma qualidade mundana preciosa: a de saber escolher (como escolha natural e não ditada pelas regras da sociedade) o que os manterá como a nata dessa mesma sociedade. Assim Oriane escolhe o duque, mantendo-se a décima oitava Oriane de Guermantes sem um casamento desigual, sem abdicar do seu espírito.
Esta dualidade torna-os mais complexos, quase inclassificáveis. Também não consigo decidir se gosto realmente deles ou não; mas que exercem sobre mim algum fascínio, sem dúvida que exercem. Talvez por não perceber até que ponto a superficialidade - e, por consequência, a profundidade - são neles fundamentais ou acessórias.
nastenka-d
 
terça-feira, julho 20, 2004
  A propósito de Renoir
«O mundo não foi criado uma vez, mas tantas vezes quantas um artista original apareceu.» (p. 331)






«É assim um universo novo e perecível que acaba de ser criado. Durará até à próxima catástrofe geológica que será desencadeada por um novo pintor ou um novo escritor originais.» (p. 331)


Ao falar de arte, Proust fala sempre sobre si próprio - sobre aquele que pretende ser.



Leitora
 
segunda-feira, julho 19, 2004
 
«É na doença que verificamos que não vivemos sozinhos, mas acorrentados a um ser de um reino diferente, cujos abismos nos separam, que não nos conhece, e pelo qual é impossível fazermo-nos compreender: o nosso corpo.» (p. 299)


Leitora
 
domingo, julho 18, 2004
  A morte do autor (Barthes II)
Proust himself, despite the apparently psychological character of what are called his analyses, was visibly concerned with the task of inexorably blurring, by an extreme subtilization, the relation between the writer and his characters; by making of the narrator not he who has seen and felt nor even he who is writing, but he who is going to write (the young man in the novel — but, in fact, how old is he and who is he? — wants to write but cannot; the novel ends when writing at last becomes possible), Proust gave modern writing its epic. By a radical reversal, instead of putting his life into his novel, as is so often maintained, he made of his very life a work for which his own book was the model;

in The Death of the Author, Roland Barthes


riverrun
 
  A escrita e a fala de Proust (Barthes I)
Talvez tenha sido preciso esperar por Proust para que o escritor confundisse totalmente certos homens com a sua linguagem, e só apresentasse as suas criaturas como espécies puras, sob o volume denso e colorido da sua fala. Enquanto as criaturas balzaquianas, por exemplo, se reduzem facilmente às relações de força da sociedade onde formam como que as ligações algébricas, uma personagem proustiana, pelo contrário, condensa-se na opacidade de uma linguagem particular, e é a esse nível que toda a sua situação histórica se integra e se ordena realmente: a sua profissão, a sua classe, a sua fortuna, a sua hereditariedade, a sua biologia. Assim, a Literatura começa a conhecer a sociedade como uma Natureza cujos fenómenos talvez possa reproduzir. Durante os momentos em que o escritor segue as linguagens realmente faladas, não já a título pitoresco, mas como objectos essenciais que esgotam todo o conteúdo de uma sociedade, a escrita toma como local dos seus reflexos a fala real dos homens; a Literatura começa a tornar-se um acto lúcido de informação, como se primeiro tivesse de aprender o pormenor da disparidade social reproduzindo-o; propõe-se fazer um relato imediato, prévio a qualquer outra mensagem, sobre a situação dos homens fechados na língua da sua classe, da sua região, da sua profissão, da sua hereditariedade ou da sua história.

in O Grau Zero da Escrita, Roland Barthes


riverrun
 
  «Nunca pensámos na maneira de exprimir aquilo que sentimos, visto que estamos sempre decididos a escondê-lo.»
(p. 204)

Poderei neste momento assumir-me como rebelde? Serão loucos os que tentam contrariar este princípio?



Leitora
 
  As virtudes caridosas
Fornece a todos aqueles que a bondade celeste te fez a graça de situar abaixo de ti o que lhes podes dar sem decaíres da tua posição, isto é, auxílios em dinheiro, e até cuidados de enfermeira, mas, bem entendido, nunca convites para os teus serões, o que não lhe traria qualquer benefício, antes, diminuindo o teu prestígio, retiraria eficácia à tua acção beneficiente.
Sim, há uma lógica em tudo isto, mesmo que seja uma lógica snob, mesmo que me pareça infectada de um distanciamento atroz. Creio que poderá existir nesta regra (aplicável apenas às senhoras do mais alto nascimento) alguma bondade (ou será antes caridade?, desejo de ser admirada?) mas o que não há, indubitavelmente, é proximidade, empatia. Sem isso creio que todas as virtudes são vazias de sentido e conteúdo; são formais e incutidas como as regras de etiqueta.
nastenka-d
 
sábado, julho 17, 2004
 
Entre a última festa do Verão e o exílio do Inverno, percorremos ansiosamente esse reino romanesco dos encontros incertos e das melancolias amorosas...

nastenka-d
 
 
Filhas de uma certa atitude, há mulheres que apenas se adequam à grande cama onde encontramos a paz a seu lado, e outras que, para serem acariciadas com uma intenção mais secreta, exigem as folhas ao vento, as águas pela noite, que são ligeiras e fugidias como umas e outras.

nastenka-d
 
 
«Trabalhamos a todo o momento para dar à nossa vida a sua forma, mas copiando sem querer, como um desenho, os traços da pessoa que somos, e não os da que nos seria agradável ser.» (p. 188)


Sendo o lado social tão importante na RECHERCHE, pelo menos nesta fase de leitura em que nos encontramos, tenho sentido alguma falta de uma análise do Marcel vinda de fora. Marcel vive fechado no seu mundo interior, nos seus desejos e observações, indiferente ao que os outros pensam sobre ele, ao que os outros vêem nele. Este buraco negro cria-me alguma tensão de leitura; não consigo simpatizar com um Marcel protegido pelas suas fragilidades físicas, de olhar crivado no seu umbigo.

Mas por isso mesmo considero que Proust, mais do que egocentrismo e vaidade, possuía uma tremenda coragem, ao expor-se assim, nos seus maiores defeitos e fraquezas.


Leitora
 
sexta-feira, julho 16, 2004
 
"...compreendi que não é apenas o mundo físico que difere do aspecto com que o vemos, que toda a realidade é também por certo dissemelhante da que julgamos apreender directamente e que formamos valendo-nos de ideias que não se mostram mas que são actuantes...
...
uma pessoa não é, como eu pensava, evidente e imóvel diante de nós, com as suas qualidades, os seus defeitos, os seus projectos, as suas intenções a nosso respeito...mas é, sim, uma sombra onde nunca podemos penetrar, para a qual não existe um conhecimento directo, a cujo respeito fabricamos crenças numerosas valendo-nos de palavras e mesmo de acções, as quais, umas e outras, nos não dão mais que informações insuficientes e de resto contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com igual verosimilhança, que brilham o ódio e o amor."



Troti
 
 
"...nessa época eu imaginava ainda que é por palavras que dizemos aos outros a verdade.
...
a verdade não precisa de ser dita para ser manifestada."



Troti
 
  O comodismo do amor
Compreendia que ela estava, junto do seu corpo, mais comodamente do que estaria noutro sítio, que se encontrava a seu lado – ainda que num hotel – como se estivesse num quarto conhecido há muito tempo e em que tivesse os seus hábitos, onde dormia melhor. (p.354)

nastenka-d
 
 
«A necessidade de sonho, o desejo de ser feliz graças àquela com quem se sonhou fazem com que não seja necessário muito tempo para se confiarem todas as hipóteses de felicidade àquela que alguns dias antes não passava de uma aparição fortuita, desconhecida, indiferente, sobre as tábuas do palco.» (p. 176)


Marcel é um rapaz carente, ingénuo, conduzido pelas suas fantasias. O mundo existe todo dentro da sua imaginação. O amor também. A realidade não passa de um cenário, apesar da capacidade que tem de ir abalando os sonhos e desejos com as suas contrariedades.


Leitora

 
quinta-feira, julho 15, 2004
 
E depois que os gerânios, intensificando a claridade das suas cores, lutaram inutilmente contra o crepúsculo ensombrecido, chega uma bruma que envolve a ilha que adormece.
JulhoQuinze
 
 
Esses encantos de uma tristeza íntima era o que ela tentava imitar, recriar, e até à respectiva essência, que consiste, porém em serem incomunicáveis e parecerem frívolos a quem quer que não seja aquele que os experimenta, até ela fora captada, tornada visível, pela pequena frase.
JulhoQuinze
 
 
Sentia que em Florença, em Parma ou em Veneza a imaginação, para ver, não poderia substituir-se aos olhos.» (p. 143)
JulhoQuinze
 
 
«Quando sonhos muito diferentes a impregnam da espumante humidade das torrentes (p.11)
JulhoQuinze
 
 
«Que barreira existe mais intransponível que o silêncio (p.122)
JulhoQuinze
 
 
«Admirar é justamente isso (p. 50)
JulhoQuinze
 
 
«Como uma pervinca inatingível e reflorida, os seus olhos ensolarados por um sorriso azul (p. 12)
JulhoQuinze
 
 
«Há momentos em que precisamos de sair de nós mesmos, de aceitar a hospitalidade da alma dos outros (p. 144)
JulhoQuinze
 
 
«O que num homem é importante só pode acontecer sem intervenção da sua vontade, por acção de alguma grande lei natural
JulhoQuinze
 
 
«Não seriam antes anjos aquelas grandes criaturas brancas maravilhosamente debruçadas sobre a sombra propícia à sesta, à pesca, à leitura?» (p. 161)
JulhoQuinze
 
 
«A verdade é que não pertenço muito a esta terra em que me sinto tão exilado; só toda a força da lei de gravitação me agarra a ela e não me deixa evadir-me para outra esfera. Eu pertenço a outro planeta.» (p. 154)
JulhoQuinze
 
 
As criaturas que desempenharam um papel importante na nossa vida, raro é que dela saiam de repente e de forma definitiva. Voltam a perpassar momentaneamente por ela (ao ponto de haver quem acredite num recomeço de amor) antes de a deixar para sempre.
JulhoQuinze
 
quarta-feira, julho 14, 2004
  «O mundo não passa de um teatro maior.»
(p. 174)


Leitora
 
 
A vida, ao retirar-se, acabava de levar as desilusões da vida. Parecia haver um sorriso poisado nos lábios da minha avó. Naquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a com a aparência de uma menina.
nastenka-d
 
  Não tinha morrido ainda. Mas eu já estava só.
Há algo de profundamente doloroso nesta frase (como, aliás, em todo este primeiro capítulo de O lado de Guermantes II). É uma frase simples e despojada; talvez por isso, no meio do discurso tão trabalhado de Proust, ela nos pareça tão límpida e, por isso mesmo, tão cruel. Mais do que as reflexões de Marcel, mais do que as descrições dos seus estados de alma que se seguem, é aqui que encontramos a solidão tão humana que emerge finalmente face à morte, a sensação de abandono que ocupa o lugar de todas as outras. Todas as pessoas estão de facto sozinhas. E aqui acaba, irremediavelmente, a infância.
nastenka-d
 
  O companheiro secreto
Então a minha avó sentiu em si a presença de uma criatura que conhecia melhor do que ela o corpo humano, a presença de uma contemporânea das raças desaparecidas, a presença do primeiro ocupante – muito anterior à criação do homem que pensa; sentiu aquele aliado milenar que a tacteava, até com alguma dureza, na cabeça, no coração, no cotovelo; ele reconhecia o terreno, organizava tudo para o combate pré-histórico que teve lugar logo a seguir. (p.301)
nastenka-d
 
terça-feira, julho 13, 2004
  O mundanismo (ou a arte de ser delicadamente cruel)
A conversa que se desenrola no salão da marquesa de Villeparisis dá-nos uma ideia da dificuldade que seria sobreviver na sociedade; do que implicava de resistência e sangue-frio para suportar – e contra-atacar – as frases assassinas cheias de espírito com que as damas, caídas em desgraça, se brindam. Brrrrrr!
nastenka-d
 
  O mundanismo (ou a arte de viver e agradar)
«O amor? Faço-o muitas vezes mas nunca falo dele.» Quando tinha em casa dessas celebridades da literatura e da política, limitava-se, como a duquesa de Guermantes, a pô-los a jogar póquer. Muitas vezes, eles gostavam mais disso do que das grandes conversas de ideias gerais a que os obrigava a senhora de Villeparisis. (p.195)
nastenka-d
 
  O ovo e a galinha
E entre certas qualidades literárias e o inêxito mundano existe uma tão necessária conexão... (p.186)
Dá que fazer, esta frase; não pelo que contém de óbvio (e que verificamos ainda hoje, admirando a obra dos que vivem retirados e comprazendo-nos com a presença dos medianos); poderá ter Proust escrito isto para justificar a sua retirada da vida mundana ou, pelo contrário, abandonou aquela vida para poder escrever desta forma?
nastenka-d
 
segunda-feira, julho 12, 2004
  Cada rosto que amamos é espelho do passado
«Nunca vemos os entes queridos a não ser no sistema animado, no movimento perpétuo da nossa incessante ternura, a qual, antes de deixar que cheguem até nós as imagens que o seu rosto nos apresenta, as agarra no seu turbilhão, as remete para a ideia que deles fazíamos desde sempre, as faz aderir a ela e coincidir com ela.»


E até poderá ser verdade que nenhum dos seres que amamos exista na realidade - todos estão cativos no nosso núcleo de ternura, que não se compadece de sinais, mudanças, deslizes... pelo menos enquanto ama.


Leitora
 
  Como um mau filme (francês)
Pensava isto por achar que assim atribuía um carácter estético àquelas horas de tédio, e assim as justificava. Talvez devesse pensar que até a necessidade que sentia de uma razão que me consolasse do meu tédio bastava para provar que nada sentia de estético. (p.171)

nastenka-d
 
  Rachel quando do Senhor
Olhando-a ambos, Robert e eu, não a víamos do mesmo lado do mistério. (p.160)
E pergunta-se Marcel, inquieta-se: afinal, qual é a Rachel real? A que vê Robert, a que lhe escapa à compreensão, a que ele tanto aspira e deseja? Ou a pega que qual quer um pode ter por vinte francos?
Sim, afinal, poderá alguma vez saber-se a verdade acerca de uma pessoa? (Era o que se perguntava em A Mancha Humana, e é o que se pergunta agora aqui.) Poderá esta encontrar-se para além da sobreposição de todas as projecções que se fazem nela, poderá ser a soma de tudo o que se pensa acerca de uma pessoa; e mais outra coisa, irredutível a palavras e ao conhecimento.
nastenka-d
 
  Embriaguez
E de tal modo me sentia sob o domínio efémero e poderoso do minuto em que as sensações são tão fortes, que já não sei se a minha única tristeza não terá consistido em pensar que o eu horrível que acabava de avistar estava porventura no seu último dia, e que nunca mais encontraria aquele estranho no decurso da minha vida.

nastenka-d
 
domingo, julho 11, 2004
  Elstir
tem uma exposição virtual na página da BNF.

Com Elstir, Proust aproveita não só as suas capacidades de crítico de arte, como questiona a evolução da arte em geral e da pintura em particular. Elstir será inspirado em vários pintores contemporâneos de Proust, tais como Gustave Moreau, James MacNeil Whistler, Paul Helleu, Claude Monet. Whistler, amigo de Proust, é o mais referenciado, até pela proximidade fonética do seu nome com o da personagem da RECHERCHE.

Sinónimo deste domingo, passo o dia a imaginar espinheiros retratados por Claude Monet...


Leitora
 
  Elstir e os espinheiros
Marcel revela-nos o desejo de ver os admiráveis espinheiros retratados pelo seu pintor de eleição, Elstir;

«não para que ele me guardasse a sua beleza, mas para que ma descobrisse» (p. 125)






Leitora
 
 
«Depois de ter entrevisto um oásis imaginário de ternura, tornava a dar consigo patinhando no deserto real do silêncio sem fim.» (p. 122)



Leitora
 
  Must be a way I can dress to please him
Eu estava menos triste do que habitualmente porque a melancolia da sua expressão, a espécie de clausura que a violência da cor introduzia entre ela e o resto do mundo, lhe davam a ela qualquer coisa de infeliz e de solitário que me tranquilizava. Aquele vestido parecia-me ser a materialização à sua volta dos raios escarlates de um coração que eu não lhe conhecia e que porventura poderia consolar...

nastenka-d
 
  Da (i)mortalidade
...eu, para quem a minha avó era ainda eu próprio, eu que nunca a tinha visto senão na minha alma, sempre no mesmo lugar do passado, através da transparência das recordações contíguas e sobrepostas, de repente, no nosso salão que fazia parte de uma mundo novo, o do tempo, aquele onde vivem os estranhos de quem se diz que «envelhecem bem», pela primeira vez e apenas por um instante, porque ela desapareceu muito depressa, vi ali no sofá, à luz do candeeiro, vermelha, pesada e trivial, doente, meditando, passeando uns olhos um pouco enlouquecidos por sobre um livro, uma velha arruinada que eu não conhecia. (p.141)

nastenka-d
 
sábado, julho 10, 2004
 
"Sentimos num mundo e pensamos e qualificamos noutro; podemos estabelecer uma concordância entre os dois, mas não preencher o intervalo."


Troti
 
 
"E mesmo nos meus desejos mais carnais, sempre orientados para um certo lado, sempre concentrados em torno de um mesmo sonho, teria podido reconhecer como primeiro motor uma ideia, uma ideia a que seria capaz de sacrificar a minha vida, e em cujo ponto mais central, como nas minhas fantasias durante as tardes de leitura no jardim em Combray, estava a ideia da perfeição."(pág.46)



Troti
 
 
"Sentia...um desânimo tanto mais profundo quanto, se o objecto do meu desejo obstinado e activo deixasse de existir, em contrapartida persistiam as mesmas disposições para uma fantasia fixa, que mudava de ano para ano, mas me levava a uma impulsão brusca, despreocupada com o perigo."(pág.45)


Troti
 
 
"Saturado por estas fantasias acerca da perfeição na arte dramática, das quais se poderia extrair uma dose importante, se nesses tempos se tivesse analisado o meu espírito a todos os minutos do dia, e talvez da noite, eu era como uma pilha que produz a sua electricidade."

Troti
 
 
"É que, apesar das particularidades individuais, havia ainda nessa época uma diferença muito acentuada entre um homem aperaltado e rico daquela parte da aristocracia e um homem aperaltado e rico do mundo da finança ou da alta indústria. Enquanto um destes últimos julgaria afirmar a sua elegancia através dum tom cortante, altivo, para com um inferior, o grande senhor, afável, sorridente, iria comportar-se como se considerasse e exercesse a afectação da humildade e da paciência..."(pág.37)


E que difícil que continua a ser o exercício da humildade!


Troti
 
  O sucesso da imprensa cor-de-rosa
"Não há dúvida de que o culto da nobreza, misturado e harmonizado com um certo espírito de revolta contra ela, deve ser muito forte no povo, hereditariamente bebido nas glebas da França. Porque a Françoise, a quem se podia falar do génio de Napoleão ou da telegrafia sem fios sem se conseguir captar a sua atenção..., bastava vir a saber destas particularidades, e que o filho mais novo do duque de Guermantes se chamava geralmente príncipe de Oléron, para exclamar:"Que lindo"; e ficava deslumbrada como diante de um vitral."(pág.35)


Troti
 
 
"Só a imaginação e a crença podem diferenciar dos outros certos objectos, certos seres, e criar uma atmosfera."


Troti
 
 
"Mas a filosofia de Combray impedia a Françoise de esperar que as greves do Canadá tivessem alguma repercussão no uso de torradas:"Enquanto o mundo for mundo, percebem", dizia ela, "há-de haver patrões para nos fazer andar a correr e criados para lhes satisfazerem os caprichos."


Troti
 
  É verdade!
"A Françoise ainda não compreendera que os nossos mais cruéis adversários não são os que nos contradizem e tentam convencer-nos, mas os que exageram ou inventam as notícias que nos podem contristar, evitando cuidadosamenter conferir-lhes uma aparência de justificação."(pág.22)


Já repararam na verdade desta afirmação de Proust?


Troti
 
  Variações sobre um tema (Odette, Gilberte, Oriane) 2
Já se disse que o silêncio era uma força; num sentido completamente diferente, ele é uma força, e terrível, à disposição daqueles que são amados. Uma força que aumenta a ansiedade de quem espera. Nada convida tanto alguém a aproximar-se de um ser como o que dele o separa, e que barreira existe mais intransponível que o silêncio? Já se disse também que o silêncio era um suplício, e capaz de enlouquecer aquele que nas prisões a ele estava obrigado. Mas que suplício – maior que o de guardar silêncio – é o de sofrer o silêncio de quem se ama! (p.122)

nastenka-d
 
  Variações sobre um tema (Odette, Gilberte, Oriane) 1
...não mudamos, introduzimos no sentimento que referimos a uma pessoa muitos elementos adormecidos que ele desperta mas que lhe são alheios. (p.120)

nastenka-d
 
  O Homem como fruto do meio?
«A influência que se atribui ao meio é sobretudo verdadeira no meio intelectual. Cada um é o homem da sua ideia; há muito menos ideias que homens, e assim todos os homens da mesma ideia são semelhantes. Como uma ideia nada tem de material, os homens que só materialmente rodeiam o homem de uma ideia em nada a modificam.»


Leitora
 
sexta-feira, julho 09, 2004
  Busca Interior
«Os poetas prentendem que reencontramos momentaneamente o que fomos noutros tempos ao entrar em determinada casa, ou em certo jardim onde vivemos a juventude. Essas são peregrinações muito arriscadas que nos conduzem a tantas decepções como êxitos. Os lugares fixos, contemporâneos de anos diferentes, mais vale procurá-los dentro de nós mesmos.» (pp. 91)



Leitora
 
  Saudade (2)
Não existirá uma determinada dor física difusa, que se estende por irradiação a regiões exteriores à parte doente, mas que abandona essas regiões para se dissipar inteiramente se um facultativo toca no ponto exacto donde provém? E, no entanto, antes disso, a sua extensão conferia-lhe aos olhos um tal carácter vago e fatal que, impotentes para a explicar, e até para a localizar, julgávamos impossível curá-la. (p.120)

nastenka-d
 
  Saudade (1)
E por mais que os pontos de sutura tenham sido bem feitos, é com bastante incomodidade que vivemos quando a saudade de uma pessoa é substituída pelas vísceras, ela parece ocupar mais espaço do que estas, sentimo-lo constantemente e, além disso, que ambiguidade existe em sermos obrigados a pensar uma parte do nosso corpo! (p.119)

nastenka-d
 
  Trabalhar
«E o trabalho, já se atirou a ele? Que engraçado você é! Se eu tivesse as suas predisposições, acho que me punha a escrever de manhã à noite. Você diverte-se mais a não fazer nada. Que desgraça serem os medíocres como eu que estão sempre prontos para trabalhar e os que podiam não o quererem!»

Saint-Loup, em discurso brilhante.


Leitora
 
quinta-feira, julho 08, 2004
 
«Há vidas que são tão anormais que têm de gerar fatalmente certas taras.» (pp. 64)


Para algum sossego de quem ainda não chegou a esta passagem, refira-se que Marcel fala de Françoise, e da sua alteração de carácter. Surpreendente, sim.


Leitora
 
  Males menores
Apesar de toda a neurastenia, de toda a fragilidade (que, confesso, começa a irritar-me – e de que maneira), Marcel tem a capacidade de se arrancar, pelos seus próprios meios, da proximidade das mulheres que ama. Foi assim com Gilberte, recusando-se a vê-la; é assim com a duquesa de Guermantes, abandonando Paris. Bem sei que o faz esperando com isso obter algo que o compense pela renúncia; talvez fazê-lo seja mesmo reconhecer a impotência em agir por qualquer outro meio.
nastenka-d
 
  Marcel Proust par lui-même
The Infamous Proust Questionnaire

Les questionnaires de Marcel Proust

"Questionário Proust" é vendido por US$ 120,5 mil

As respostas dadas pelo garoto Proust no questionário oferecem uma visão antecipada dos temas básicos de "Em Busca do Tempo Perdido",...

Contrariamente à crença popular, Proust não inventou o questionário ele próprio, mas as respostas precoces e literatas que deu a suas perguntas, publicadas postumamente em 1924, foram consideradas tão extraordinárias que são associadas a seu nome desde então.

As respostas de Proust aparecem num pequeno álbum vermelho intitulado: "Confissões: Um Álbum para Registrar Pensamentos, Sentimentos, etc..." O álbum pertencia a sua amiga Antoinette Faure, cujo pai, Felix Faure, iria tornar-se presidente da França mais tarde.



Nota: Santana Lopes também já respondeu ao questionário de Proust.


riverrun
 
quarta-feira, julho 07, 2004
  O que podemos aprender com Marcel Proust
Corria o ano de 1922, quando um jornal parisiense, l’Intransigeant, publicava um questionário, no mínimo aliciante, perguntando ao leitor qual seria a última coisa que faria se soubesse que dentro de poucas horas um cataclismo acabaria com a vida na terra. Várias foram as respostas e de toda a ordem. Contudo, Proust respondeu que nenhum de nós precisava ter conhecimento de um possível cataclismo para provar o seu amor à vida, bastaria, para isso, pensar mais vezes que somos humanos e que a todo o momento pode surgir um cataclismo que aniquile todos os seres. De tal modo que devemos procurar dar sentido à vida para que a morte também tenha sentido. Este é pois o primeiro ensinamento que nos lega a extensa obra de Proust, Em busca do tempo perdido. Mas, dar sentido à vida, na acepção proustiana, é consubstanciar todas as nossas sensações com a Natureza a fim de extrair dela todo o tipo de emoções. Porque, infelizmente, gastamos o pouco tempo que temos em frivolidades. Precisamos, com urgência, de inflectir sobre as razões inconsoláveis da nossa vida que mais nos preocupa: a fragilidade do nosso corpo, a exploração do amor, a falta de sinceridade até ao efeito anestesiante do hábito que nos torna autómatos e irracionais.
Sobre o amor, Proust afirma aquilo que nunca ousamos dizer: os que amam e os que têm prazer não são os mesmos. Procuramos confundir amor com prazer, com paixão, com luxúria, todavia, o amor estende-se obrigatoriamente à experiência dolorosa. O amor é jogo do espírito e do prazer da inteligência. Ele não se baseia na felicidade, nem na beleza, mas na insatisfação, no encontro desmarcado, na espera em vão e no ciúme que é o motor do amor. O verdadeiro amor não é possuir mas sim desejar possuir, tal como já o definiam os trovadores medievais no conceito de amor cortês. O que fazemos, a maior parte das vezes, é acasalarmo-nos para atender a alguns prazeres fortuitos e efémeros aos quais se dá o nome de paixão, mas que de amor nada têm. A obra de Proust mostra-nos que os desejos carnais nunca se concretizam e que os verdadeiros desejos pertencem ao inefável, ao transcendente, ao sonho. A verdadeira paixão, diz ele, é aquela figura com que estivemos durante o sonho nocturno e que, depois, desaparece sem deixar rastos, apenas um ardor no peito, assim como a Passante de Baudelaire: “Un éclair… puis la nuit! – Fugitive beauté”, (uma faísca fugitiva seguida da escuridão).
Descobrimos, ainda, com a obra de Proust, que, a pobreza, mais generosa que a opulência, permite conhecer a grandeza do desejo. Os que têm tudo ao seu alcance são infelizes porque não têm a possibilidade de gozar o intervalo entre o desejo e a satisfação que permite apreciar os bens que gostaríamos de adquirir. Por outro lado, o luxo mundano e estéril conduz ao vício decadente e frágil e, por isso, efémero. O luxo é uma sedução venenosa que conduz à corrupção dos costumes e é também gerador de “appeal”. Cada vez mais, luxo e luxúria se confundem e, juntos, prostituem a palavra amor.
Aprendemos ainda, com Proust, a distinguir a verdadeira vida, aquela que todos nós sonhámos na infância e que, depois, perdemos, angustiados que estamos pela obsessão em não querer perder tempo. De facto, a vida actual, materialista e materializada, absorve-nos cada vez mais ao ponto de não sabermos avaliar a verdadeira beleza das coisas, escondida pela aparência imediata que damos às formas encantatórias dessas coisas. Numa sociedade onde tanto se fala e nada se diz, o verbo Ter veio substituir o verbo Ser. O indivíduo é reconhecido pelo que Tem e não pelo que É! ‘Todo-Mundo quer Ter, e Ninguém quer Ser’, diria mestre Gil Vicente. E Proust alerta-nos para essa vida gesticulada, instintivamente, nos hábitos dos outros e que acaba, como diz Fernando Pessoa, “por nos meter num caixão”.
Finalmente, a grande lição que tiramos da obra de Proust passa pela descoberta da memória involuntária como meio para reencontrar o tempo perdido, o tempo fútil do passado, porque ela é factor de coesão e de unidade no itinerário vivencial e espiritual de todos nós. Esta memória afectiva, que liga uma sensação a um laivo do passado, restitui-os um fragmento da nossa vida. A inteligência não nos dá uma visão profunda da realidade, porque não vai à essência das coisas. Só a lembrança involuntária, causada pelas sensações, permite re-viver o passado.
Em síntese, Proust propõe-nos um mundo onde as sensações e as emoções se sobrepõem às atitudes dominadas pelo pensamento e pelas quais cada um de nós é convidado a procurar os paraísos perdidos que só pode encontrar por e em si -mesmo.
Para sair do seu quarto doentio e escuro, Proust, só, no silêncio das suas páginas, escreveu a sua obra, que veio a ser a sua nova vida, no tempo reencontrado pelo acto vital e catártico da escrita porque o poder da arte é libertador. Ao lermos Proust, sentimos a sensação anódina, tal como ele, de termos reencontrado o paraíso perdido.

António Oliveira
 
  Os benefícios/malefícios do desejo
«estava menos triste por ser doente, por nunca ter tido a coragem para me meter ao trabalho, para começar um livro, a terra parecia-me mais agradável de habitar, a vida mais interessante de percorrer, desde que via que as ruas de Paris, tal como as estradas de Balbec, estavam floridas por aquelas belezas desconhecidas que tantas vezes procurara fazer brotar das matas de Méséglise, e cada uma das quais me causava um desejo voluptuoso que só ela parecia ser capaz de saciar.» (pp. 59)
leitora
 
  Despertar
... como uma crisálida em vias de metamorfose, eu era uma criatura dupla a cujas diversas partes não se adequava o mesmo meio... (p.88)

nastenka-d
 
  Sono
O sono é aqui tratado não tanto como uma abandono da realidade, mas antes como uma outra forma de a viver; não por acaso se descrevem como flores desconhecidas num jardim reservado os diferentes sonos induzidos por drogas diversas, que lhe alteram assim o carácter; porque passa-se com o sono o que se passa com a percepção da realidade.
nastenka-d
 
terça-feira, julho 06, 2004
 
«A fealdade possui qualquer coisa de aristocrático, (e), quando é distinto, é indiferente que um rosto de uma grande dama seja belo.» (pp. 42)


Bastará o nome. Terá Marcel oportunidade de se apaixonar por minerais? Decerto que sim. A Busca ainda vai no começo...


Leitora
 
  Beleza divina
da Princesa de Guermantes

«A beleza que a situava muito acima das outras fabulosas filhas da penumbra não se encontrava por inteiro material e inclusivamente inscrita na sua nuca, nos seus ombros, nos seus braços, na sua citura. Mas a linha deliciosa e inacabada desta era o exacto ponto de partida, o inevitável ponto de atracção de linhas invisíveis em que o olhar não podia deixar de as prolongar, maravilhosas, engendradas em torno da mulher como o espectro de uma figura ideal projectada nas trevas.» (pp. 41)

Toda a aura se situa no olhar que a vê.

Contudo, o próprio Marcel sabe que, se a senhora não se chamasse Guermantes, não conseguiria ser bela a seus olhos. Esse é o poder do nome. E suspeito que Françoise não a consideraria sequer bonita, não fora o invólucro da riqueza.



Leitora
 
  O som e o silêncio
A reflexão que Marcel faz em torno do som e do silêncio leva-nos a perceber como dependemos dos nossos sentidos para nos apropriarmos do mundo; e como essa apropriação é relativa: por isso dizemos que nos relacionamos com o mundo, embora raramente reflictamos sobre o significado desta relação – e sobre a fragilidade dos meios com que a construímos. O exercício para hoje é não ouvir: entrar numa Terra quase edénica onde o som ainda não foi criado.
nastenka-d
 
  En réalité, Proust est un snob vraiment révolutionaire
...peu à peu mon rêve, forcé par la réalité d'abandonner une position intenable, se retranchait à nouveau un peu en deçà jusqu'à ce qu'il fût obligé de reculer encore.

Ce n'est pas que fût moins passionné qu'alors mon désir de pouvoir contempler de près les parcelles précieuses de réalité qu'entrevoyait mon imagination.

...que toute réalité est peut-être aussi dissemblable de celle que nous croyons percevoir directement et que nous composons à l'aide d'idées qui ne se montrent pas mais sont agissantes, de même que les arbres, le soleil et le ciel ne seraient pas tels que nous les voyons, s'ils étaient connus par des êtres ayant des yeux autrement constitués que les nôtres, ou bien possédant pour cette besogne des organes autres que des yeux et qui donneraient des arbres, du ciel et du soleil des équivalents mais non visuels.



in Le Côté de Guermantes


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...a indústria cultural subtraiu a verdade ao romance, portanto suscitou a resposta da revolta contra a linguagem discursiva. Começou com Joyce, com Proust, com o movimento modernista dos finais do século XIX e do início do século XX, com Kafka, com Musil, com o último Mann, uma literatura que recusava o papel confirmativo e a serialização, que se negava a ser um objecto da nova sociedade aplainada. «Se o romance quer permanecer fiel à sua herança realista e dizer como realmente são as coisas, então tem de renunciar a um realismo que, na medida em que reproduz a fachada, só serve para a ajudar na sua tarefa de enganar»(1), ou seja, é o objecto do romance que implica a sua dimensão metafísica — «na transcendência estética reflecte-se o desencantamento do mundo».


(1) Theodor Adorno, «A Posição do Narrador no Romance Contemporâneo», in Textos Escolhidos, São Paulo, 1983, p. 270.


Francisco Louçã, A Maldição de Midas, Lisboa, Cotovia, 1994.


riverrun
 
segunda-feira, julho 05, 2004
  Snobismo!
«(...) aquelas parte da realidade exterior às quais, sabendo que não possuem uma alma análoga à nossa, por muito rudimentar que seja, nos acharíamos insensatos se lhes dirigíssemos um sorriso ou um olhar: os minerais e as pessoas com quem não estamos relacionados.» (pp. 40)


Sim, é possível que este tremendo disparate faça parte da educação dos melhores, e ainda perdure nas sociedades que nos rodeiam. Marcel, a minha alma não é, de facto, análoga à vossa. Eu sou um mineral animado, criativo e tendencialmente sorridente.


Leitora
 
  A verdade (3)
E assim foi ela a primeira que me deu a ideia de que uma pessoa não é, como eu pensava, evidente e imóvel diante de nós, com as suas qualidades, os seus defeitos, os seus projectos, as suas intenções a nosso respeito (como um jardim que contemplamos, com todos os seus canteiros, através de um gradeamento), mas é, sim, uma sombra onde nunca podemos penetrar, para a qual não existe um conhecimento directo, a cujo respeito fabricamos crenças numerosas valendo-nos de palavras e mesmo de acções, as quais, umas e outras, nos não dão mais que informações insuficientes e de resto contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com igual verosimilhança, que brilham o ódio e o amor.

nastenka-d
 
  A verdade (2)
... a verdade não precisa de ser directa para ser manifestada, e que talvez possamos recolhê-la com maior segurança, sem esperar pelas palavras e sem sequer as levar na mínima conta, em mil e um sinais exteriores, mesmo em certos sinais invisíveis, análogos no mundo dos caracteres ao que na natureza física são as mudanças atmosféricas.

nastenka-d
 
  A verdade (1)
...porque nessa época eu acreditava que as palavras que dizemos aos outros são a verdade.
Serão a verdade, mas também a mistificação, a ficção (o que é a poesia senão uma ilusão muito bela?); a verdade estará nas palavras mas também para além delas, nos sorrisos, nos esgares, nos olhos, no tom de voz. É claro que, assim sendo, podemos perguntar-nos o que fazemos aqui, onde as palavras são o meio privilegiado , onde não há muito mais do que palavras; podemos perguntar-nos porque lemos. Talvez não procuremos a verdade. Talvez procuremos descobrir a cor certa da nossa colina azul.
nastenka-d
 
domingo, julho 04, 2004
 
«A nossa imaginação é como um realejo avariado que toca sempre coisa diferente da ária indicada.» (pp. 42)



Leitora
 
  Françoise:
Riqueza e Virtude

«(...) não era porque a riqueza em mais, a riqueza sem virtude, fosse aos olhos de Françoise o bem supremo, mas a virtude sem a riqueza também não era o seu ideal. A riqueza era para ela como que uma condição necessária, sem a qual a virtude não teria mérito nem encanto.» (pp. 21)


Então... ser virtuoso não seria por si só suficiente?! Ou seria apenas a consciência de que alguma riqueza é uma condição para aceder à virtude? Lembrei-me de "Um quarto que seja seu" da Virginia Woolf, a necessidade de se ter uma renda mensal ainda que modesta, e um espaço seu para se poder ser escritor. Mas Françoise é muito mais crua, quase cínica...


Leitora
 
  Uma colina feita de azul
Uma colina feita de azul
Só a imaginação e a crença podem diferenciar dos outros certos objectos, certos seres, e criar uma atmosfera.
Sim, sim, já o sabíamos – não o deveria saber já Marcel, que se deleita a passear de trompe-l’oieul em trompe-l’oieul? Mas não, é sempre mais fácil estar de fora a avaliar as emoções que conduzem os outros – quando em nós mal as reconhecemos, crentes que estamos na força inelutável que se exerce sobre nós e nos move; crentes que estamos na capacidade das coisas, das pessoas, em nos emocionar, independentemente de nós mesmos e das cores com que as pintamos; e que se revelam, afinal, feitas da mesma matéria que as coisas vulgares.
nastenka-d
 
sábado, julho 03, 2004
  O mundo de Calipso
Mas nas outras frisas, quase por toda a parte, as brancas deidades que habitavam aquelas sombrias moradas haviam-se refugiado contra as paredes obscuras e permaneciam invisíveis. No entanto, à medida que o espectáculo avançava, as suas formas vagamente humanas soltavam-se com lentidão, uma após a outra, das profundezas da noite que revestiam, erguendo-se para a luz, deixavam emergir os seus corpos seminus e vinham deter-se no limite vertical e à superfície claro-escura em que os seus rostos brilhantes surgiam por trás da irrupção risonha, espumosa e leve dos seus leques de plumas, debaixo das cabeleiras de púrpura entremeadas de pérolas que a ondulação do fluxo parecia ter curvado; depois começavam as cadeiras da plateia, a morada dos mortais para sempre separada do sombrio e transparente reino a que serviam de fronteira, aqui e além, na sua superfície líquida e plana, os olhos límpidos e reflectores das deusas das águas.

nastenka-d
 
  simbiose
«Françoise vivia connosco em simbiose; nós é que, com as nossas virtudes, a nossa fortuna, o nosso modo de vida, a nossa situação, devíamos encarregar-nos de elaborar as pequenas satisfações de amor-próprio que constituíam (...) o quinhão de contentamento indispensável à sua vida.» (pp. 19)


Chama-se a isto dedicação, simplicidade, ou falta de ambição?


Leitora
 
sexta-feira, julho 02, 2004
  Beleza
«os seus olhos ensolarados por um sorriso azul.» (pp. 12)


Leitora
 
  As cidades
– Pelo menos sabe-se o que se faz e em que estação se vive. Não é como aqui, que nem um mísero ranúnculo haverá, tanto na santa Páscoa como no Natal, e nem sequer oiço umas ave-mariazinhas quando levanto a carcaça da cama. Lá ouvem-se todas as horas, é apenas um pobre sino, mas a gente pensa; «Aí vem o meu irmão do campo», vemos que a luz do dia diminui, tocam pelos bens da terra, tens tempo de voltar antes de acender a candeia. Aqui, é dia, é noite, vamos para a cama e é como os animais, nem sequer podemos dizer o que fizémos. (p.25)

Esta desconfiança em relação à vida urbana – mecanizada, afastada do ritmo natural do campo – tem sido uma constante na história das cidades. Com certeza que na altura em que Proust se situa, as condições de vida urbana eram bem piores; e mesmo que Françoise viva no mundo privilegiado do faubourg Saint-Germain, longe portanto das condições degradantes da maioria da população operária (e que acabaram por dar origem a utopias de cidades que marcaram a sua história). Mesmo que as cidades sejam, tenham sempre sido, um milieu de inovação, um cadinho efervescente de cultura, conhecimento e dinamismo, há sempre quem sinta (talvez todos, numa ou noutra fase da vida, o sintam) o apelo da vida simples do campo – mesmo hoje, em que essa vida simples (e esse campo )já não existam a não ser em fantasia.
nastenka-d
 
  Educação Sentimental em Proust


"Philippe Willemart é hoje um dos mais respeitados estudiosos da literatura proustiana no Brasil. Já brindou o leitor com Proust, Poeta e Psicanalista, em que problematiza trechos das obras O Caminho de Swann e Tempo Redescoberto, que seguem o mesmo caminho da presente obra: o processo de criação literária (o poeta) e de crescimento do homem (o psicanalista).

Educação Sentimental em Proust analisa categoricamente O Caminho de Guermantes através de uma linha psicanalítica e genérica. Da obra seleciona onze trechos, deles decifrando o rico entrelaçar psicanalítico de Marcel Proust e fazendo transparecer o trabalho do inconsciente no texto. O processo se dá em grande parte no tratamento dos mitos individuais e na harmonização de elementos contraditórios: objetos até banais revelam-se elementos de um campo intermediário entre o imaginário e o real."

(fonte)

Ora aqui está um livro que eu não vou ler mas que, concerteza, me faria ir muito mais longe neste meu caminho de Guermantes…

J.M.
 
 
«Numa cidade partimos à procura de uma alma que ela não pode conter mas que já não temos o poder de expulsar do seu nome.» (pp. 10)


Que imagens assaltam instantaneamente a tua memória quando eu digo Porto?

E Paris?

Todos os nomes estão gravados na nossa memória numa rede de interligações, de imagens, de sensações. Porto tem para mim associações imediatas de tacto, de cor e de luz. Granito, massa de pão, aroma de biscoitos, folhas das árvores, papel de livros, de cadernos, de jornais. E pessoas que não vou nomear. Paris é o ruído do metro, a água do rio que já vi em margens invadidas, o preto e branco de fotografias. E os pardais, tão gordos e descarados.


Memória-catalogação.


Leitora

 
quinta-feira, julho 01, 2004
  Guermantes: le nom et les places
Et le nom de Guermantes d'alors est aussi comme un de ces petits ballons dans lesquels on a enfermé de l'oxygène ou un autre gaz: quand j'arrive à le crever, à en faire sortir ce qu'il contient, je respire l'air de Combray de cette année-là, de ce jour-là,...


Château de Guermantes

Alors au fond de ce nom s'était effacé le château reflété dans son lac, et ce qui m'était apparu autour de Mme De Guermantes comme sa demeure, ç'avait été son hôtel de Paris, l'hôtel de Guermantes, limpide comme son nom, car aucun élément matériel et opaque n'en venait interrompre et aveugler la transparence.


Hôtel de Guermantes, Paris

...l'hôtel de Guermantes était devenu - comme avait pu être autrefois quelque Louvre - une sorte de château entouré, au milieu de Paris même, de ses terres possédées héréditairement, en vertu d'un droit antique bizarrement survivant, et sur lesquelles elle exerçait encore des privilèges féodaux.


Ah! Si c'était à moi le château de Guermantes, on ne me verrait pas souvent à Paris.



riverrun
 
  A espumante humidade das torrentes
(pp. 11)

A paixão é alimentada pela imaginação, pelo exercício de repetição de imagens na memória. Marcel quer obcecar-se, é extremamente dedicado à ideia da senhora de Guermantes - não tanto o que ela de facto será, mas apenas aquilo que Marcel espera que ela seja. O amor é necessariamente cegueira de espírito?


Leitora
 
  As minhas despedidas de Balbec
Ainda não tinha tido oportunidade de me despedir...

E durante meses seguidos, naquela Balbec que tanto desejara porque não a imaginava senão batida pela tempestade e perdida nas brumas, o bom tempo fora tão resplandecente e fixo que, quando ela vinha abrir a janela, sempre pudera contar, sem me enganar, com a mesma chapa de luz que se dobrava na esquina da parece exterior, e de uma cor imutável, ainda mais melancólica como a de um esmalte inerte e falso do que emocionante como sinal de Verão. E enquanto a Françoise tirava os alfinetes das bandeiras das janelas, soltava os tecidos, puxava os cortinados, a luz de Verão que ela desvelava parecia tão morta, tão imemorial, como uma sumptuosa e milenar múmia à qual a nossa velha criada apenas estivesse desatando cuidadosamente as ligaduras que a envolviam, até por fim a fazer surgir, embalsamada na sua veste de ouro.

Agora sim, posso dirigir-me para o lado de Guermantes.
nastenka-d
 
  O Lado de Guermantes
"Passagem do campo (Combray) e da praia (Balbec) para Paris e do meio burguês aos salões aristocráticos, via duques de Guermantes. E todos os caminhos vão dar ao Faubourg Saint-Germain, ou partem dele."

(fonte)

J.M.
 
  «A Françoise achava insípido o chilrear matinal dos pássaros»
(pp. 01)

Mais uma vez, fico encantada com a frase de abertura escolhida por Proust. Magnífica esta capacidade de, com uma frase curta e simples, conseguir imediatamente segurar a nossa atenção.


Que mau feitio tem esta mulher, exclamei, mal inicio a leitura do terceiro volume da RECHERCHE. Depois percebo que se trata apenas de um amuo da governanta, contrariada com a mudança de casa para o lado de Guermantes; Françoise sentia-se exilada. Fosse como fosse, regressei ao universo de Marcel.


Leitora
 

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

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"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

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"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

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"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

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