Leitura Partilhada
quinta-feira, julho 31, 2008
  dilemma (2)
O grande vale do Umzimkulu continua ainda na penumbra, mas a luz o inundará. Ndotsheni está ainda às escuras, mas a luz a inundará também. Porque a manhã vem nascendo, como nasce há milhares de séculos, sem nunca faltar. Mas quando virá a aurora da nossa emancipação do medo da escravidão e da escravidão do medo, isso é um segredo.
Chora, Terra Bem-Amada, Alan Paton (Publicações Europa-América)


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O problema de África é tão intrincado, as culpas estão tão repartidas, os cenários são tão complexos, que é simples perdermo-nos em labirintos de considerações. Apoiar é dificílimo e pode transformar-se num mecanismo perverso: o ser humano adapta-se demasiado depressa a que tratem dele. Exigir-lhes uma postura activa na construção do seu futuro, sim, mas é um tremendo dilema dizer-lhes que devem...
trabalhar, quando tudo é desolação,
tratar da terra, quando ela é um pedaço de aridez,
construir, quando os conflitos armados tudo arrasam,
ser justos e honestos, aos que nasceram em cidades sem água potável ou cuidados de saúde,
perdoar, aos que vivem martirizados,
ser razoáveis, às mães que vêem os filhos definhar,
ter brio, aos que não conhecem o prazer e o mérito do trabalho,
lutar pelos seus direito, aos que não sabem ler,
mudar o estado das coisas, aos que vivem amordaçados em ditaduras.

Não é assim tão complicado ser-se decente, quando se tem as condições para uma vida digna. E nós, somos decentes? Ajudamos o próximo, interessamo-nos pelo bem comum, utilizamos parcimoniosamente os dinheiros públicos? África está cada vez mais doente, mais miserável, mais cruel e insegura. O medo é o pior dos estados quando se vive assim; ele torna-nos defensivos, agressivos e vingativos. Conseguirão elas, crianças que já nascem condenadas, romper o círculo vicioso?

azuki

Obrigada à cristina_pt, pela fantástica sugestão deste mês

 
 

"Portanto, dedicarei o meu tempo, a minha energia, as minhas capacidades, ao serviço da África do Sul. Nunca perguntarei a mim próprio se isto ou aquilo é oportuno, mas somente se é justo. E procederei assim, não por grandeza de ânimo ou altruísmo, mas porque a vida foge e eu tenho necessidade de uma estrela que alumie o resto da minha jornada com a luz da verdade, preciso de uma bússula que não me minta. Procederei assim, não porque seja negrófico e odeie os da minha raça, mas porque não posso proceder de outro modo. Sinto-me perdido quando ponho em equilíbrio isto com aquilo, sinto-me perdido quando me pergunto se isto é ou não seguro, perco o meu rumo quando pergunto se os homens brancos ou negros, ingleses ou africânderes, cristãos ou judeus, concordarão comigo. Portanto, tentarei fazer o que é justo, dizer o que é verdadeiro.

Procedo assim não porque seja corajoso e honesto, mas porque é o único meio de aniquilar o conflito que se trava nas profundezas da minha alma. Procedo assim porque já não sou capaz de aspirar ao que é superior com uma parte de mim mesmo e negá-lo com a outra. Não quero viver tal vida; prefiro morrer a viver assim. Compreendo melhor aqueles que morreram pelas suas convicções sem haverem pensado que era maravilhoso, cheio de bravura ou cheio de nobreza, morrer. Preferiram morrer a viver - e foi tudo.

Contudo, não seria honesto pretender que é um egoísmo invertido que dita o meu procedimento. Sou levado a proceder assim por alguma coisa que não é de mim mesmo, mas que me impele a fazer o que é justo, custe o que custar."


Chora, Terra Bem Amada
Alan Paton

É este o trecho que traduz tudo o que amei neste livro. A necessidade de não viramos a cara a atrocidades e não ignorar o que se passa em nosso redor, somente porque não nos afecta directamente.

E ainda, outro grande homem que não poderia ficar esquecido:

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today!

Martin Luther King, Jr.

BOAS FÉRIAS

cristina_pt

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quarta-feira, julho 30, 2008
  dilemma
Estamos cada vez mais encurralados neste círculo vicioso que produziu, por exemplo, em torno das cidades africanas, campos de refugiados, cujos habitantes são cada vez mais numerosos e sobrevivem apenas graças às ajudas dos países industrializados. São incapazes de enveredar por uma vida diferente porque foram habituados a receber essas ajudas e a depender passivamente delas.
Os cínicos não servem para este ofício – conversas sobre o bom jornalismo
, Ryszard Kapuscinski (Relógio D’Água)


E, agora, Artur Jarvis:
- A verdade é que a nossa civilização não é cristã; é uma mistura trágica de um ideal grandioso e uma prática medrosa, de uma convicção elevada e uma ansiedade desesperada, de caridade cheia de amor e uma temerosa luta por riquezas.
Chora, Terra Bem-Amada, Alan Paton (Publicações Europa-América)

no Brasil

O Homem é madraço e a gratidão não abunda: quem recebe sem ter que dar, acaba por se sentir confortável no papel de vítima (basta pensar nos 4,26 euros de renda média mensal que alguns dos 776 fogos do bairro da Quinta da Fonte deixaram acumular para uma dívida de 1 milhão de euros). Com uma tal natureza humana, o assistencialismo não vai lá. Dir-me-ão que a alternativa é deixar o mercado funcionar: trata-se de adultos, as independências têm décadas, muitos dos líderes formaram-se em boas universidades ocidentais. Pois... mas em que condições regressou África às mãos dos africanos, se estes desaprenderam de a ter? Sempre me ensinaram que a perspectiva justa e equitativa consiste em exigir mais a quem tem condições de dar mais. Por isso, ajudá-los a construir uma qualquer espécie de futuro já não seria mau. E (talvez seja pedir muito) dando alguma trégua às contínua sabotagem em que nos especializámos.

As Nações Unidas fazem um trabalho notável em África, atribuindo-lhe colossais meios humanos, técnicos e financeiros. A Columbia University criou uma página muito interessante, onde se encontram compiladas as United Nations Agencies on Africa. Entre outras, vale a pena visitar a Economic Commission for Africa, criada em 1958, visando a promoção do desenvolvimento socio-económico dos seus Estados-membros, a integração intra-regional e o fomento da cooperação internacional neste continente.

azuki

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terça-feira, julho 29, 2008
  Vim para aqui para ensinar os agricultores a cultivar as terras








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- Entre! Entre! – disse Kumalo, excitado.
(...) – Mas diga-me uma coisa: porque veio para aqui? Quem o mandou ter comigo?
- Fui mandado pelo branco que me trouxe.
- Pelo Sr. Jarvis, não é verdade?
(...)
- Vim para aqui para ensinar os agricultores a cultivar as terras,
umfundisi.
- Aqui, em Ndotsheni?
- Sim,
umfundisi.
A face de Kumalo iluminou-se, os seus olhos cintilaram.
- O senhor é um anjo enviado por Deus.
Chora, Terra Bem-Amada, Alan Paton (Publicações Europa-América)


Eu partilho do sentimento de culpabilidade que faz parte do inconsciente colectivo do europeu e acho que é demasiado cedo para que este prescreva. Não falo da culpabilidade judaico-cristã, que nos tolhe em tantos domínios, mas num sentimento que pode ser estruturante, na medida em que alerta para o monstro que há em nós. Uma culpabilidade que é alheia ao discurso do coitadinho-do-pobrezinho, que não pretende desresponsabilizar através da vitimização, mas que consiste na capacidade para aprender com a História, assumir algumas obrigações e construir o futuro noutras bases, tentando que os nossos gestos correspondam às nossas boas intenções.

Julgo que Alan Paton nos fala de dois remédios para África (digo "África", e não "Áfricas", porque os problemas são recorrentes e comuns a quase todos os países da África negra: miséria, fome, guerra, corrupção e ódio). Um dos remédios é o amor (que associo à capacidade de perdoar), mas receio que o amor pouco possa fazer por sociedades minadas por ódios profundos. O outro remédio será um apoio sensato e consistente: ajudar as populações a prover ao seu próprio sustento, ensinando-as, por exemplo, a lidar com a terra. Para o insucesso desta estratégia, um dos entraves é deles: os atavismos do seu costume; o outro é nosso: ganância desmedida; a falta de escrúpulos será comum. Há um outro entrave, o maior de todos: o que se constrói em África é imediatamente destruído, geralmente por via dos conflitos armados. Posso estar errada, mas parece-me que, no continente, só a África do Sul e o Egipto são fabricantes de armas. O grosso é fornecido pelas sociedades pós-coloniais (e pelos norte-americanos, russos e chineses...), as tais que resolveram deixar que o indivíduo em África construísse o seu próprio futuro, enquanto o boicotam por todos os lados.

azuki

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  subserviência do negro africano
"Era velho demais para estas novas e perturbadoras ideias. Cão do homem branco, era o que lhe chamavam, a ele e aos da sua raça. Deixá-lo! Fora este o modo por que vivera a vida, seria este o modo por que morreria."
Alan Paton, Chora, Terra Bem Amada
Aqui se resume a subserviência do negro africano: como único modo de vida que a maioria viria a conhecer, como batalha demasiado árdua para combater.
cristina_pt

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segunda-feira, julho 28, 2008
  a pobreza não tem voz
Quando comecei a escrever sobre estes países, onde a maioria da população vive em pobreza, apercebi-me de que era a área a que me queria dedicar. Escrevia, no entanto, também por algumas razões éticas: os pobres, habitualmente, são silenciosos. A pobreza não chora, a pobreza não tem voz. A pobreza sofre, mas sofre em silêncio. A pobreza não se revolta. Só há situações de revolta quando as pessoas pobres têm alguma esperança. Então revoltam-se porque esperam melhorar alguma coisa. Na maior parte dos casos enganam-se, mas a esperança é um factor fundamental para que as pessoas reajam. Nas situações de eterna pobreza, a característica é a ausência de esperança.
Os cínicos não servem para este ofício – conversas sobre o bom jornalismo
, Ryszard Kapuscinski (Relógio D’Água)

Lembrei-me daquele trecho de Kapuscinski a propósito desta frase que é, para mim, uma das mais marcantes do livro:

Depois sentou-se à mesa, apoiou nela a cabeça e ficou silenciosa, naquela resignação dolorosa das mulheres negras, na resignação dolorosa dos bois e de todos os seres mudos.
Chora, Terra Bem-Amada, Alan Paton (Publicações Europa-América)

no Expresso, 26/07/2008

Um desalento imenso retira-nos capacidade de reacção. Pese embora a força extraordinária que reside na esperança (olho para a esperança como o mais poderoso dos bons sentimentos, porque decorre do instinto de sobrevivência), as pessoas só se esforçam se acharem que algo vai mudar. E, para os pobres em África, as coisas não mudam. É-lhes constantemente roubada a dignidade, através da miséria e de violentações várias, as instituições (que instituições?) não funcionam, não há imprensa efectiva, não têm uma sociedade civil preparada para exercer o seu protesto. Não sabem, nem têm meios para intervir contra os corruptos e os sanguinários, e tão-pouco são ouvidos pela comunidade internacional. Têm que aguentar tudo, até a contínua sabotagem do estimável Ocidente. E levam com o proselitismo religioso e os delírios do capitalismo e a exploração e o etnocentrismo e todos os seus alucinados tiranetes e, agora, levam com os chineses e os seus plásticos. África é um continente silencioso, porque os pobres não têm voz e, mesmo que a tivessem, ninguém estaria interessado em ouvi-los.

azuki

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  Resignação de Kumalo
Kumalo: "É como Vossa Excelência Reverendíssima quiser."
Alan Paton, Chora, Terra Bem Amada
Também Kumalo se resigna e repete as palavras do filho, que também se resignou perante o seu pai da mesma forma. Pequenas maestrias de Paton.
cristina_pt

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domingo, julho 27, 2008
  Cry, Beloved Country

cristina_pt

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sábado, julho 26, 2008
  O outro fardo do homem branco
Eu aos africanos não fiz nenhum mal. Posso carregar muitos fardos mas esse eu não carrego. Posso carregar aquele de não partilhar ou o outro de não ser solidário com meu semelhante. Mas o fardo do homem branco, este ou o outro, eu não carrego. Ilícito aos africanos eu nunca fiz. Como nunca fiz aos chineses nem aos indianos nem aos sul-americanos. Já ao meu vizinho …
A ideia de “os africanos” é uma ideia colonial, o outro como um todo, o exótico, o frágil, o alvo do nosso mal e da nossa culpa, aquele que precisa ser ressarcido e protegido de nós, por nós. É um paternalismo que as sociedades pós coloniais rejeitaram. Exclui o indivíduo, a sua diferença, e a construção autónoma do seu destino.
Muitos “líderes africanos” escondem atrás dessa culpa branca, o seu nepotismo, corrupção e crueldade. Quem assume a culpa de haver Mugabe? Quem o fizer esvaziará a luta de Tsvangirai.



paulo

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azuki

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  não, não é lícito
-… era lícito. O que fizemos quando viemos para a África do Sul era lícito.
(...) Mas não deixar que os homens se especializem por causa do trabalho não especializado é que não é lícito.
(…) Não nos é lícito destruir a vida da família, quando sabemos que estamos a destruí-la.
(…) Não é lícito a ninguém aumentar os seus haveres, se estes somente podem ser obtidos à custa dos outros homens. Esse sistema só pode ter uma designação verdadeira: exploração. Tudo isto podia ter sido lícito nas primeiras eras do nosso país, antes de conhecermos o seu preço: a desintegração da vida da comunidade indígena, a pobreza, bairros de miséria e crime. Mas agora, que sabemos o preço, já não é lícito.
(…) não é lícito contemplar a sua
[do sistema da tribo] destruição e não arranjar substituto para o sistema ou substituí-lo por tão pouco que cause a deterioração física e moral dum povo inteiro.
(…) Reservámos uma décima parte da terra para quatro quintos da população. E então deu-se o inevitável e muitos dizem que o fizemos deliberadamente: a massa trabalhadora afluiu às cidades. Fomos colhidos nas redes do nosso próprio egoísmo.

um cartaz, em Salvador, Bahia

O que fizemos aos africanos não é lícito. O que fizemos aos africanos é indescritível, incompreensível e indesculpável. O que fizemos aos africanos deveria encher-nos de vergonha para todo o sempre. Poderíamos dar com a cabeça na parede em acto de contrição até ao final dos tempos que, mesmo assim, não encontraríamos redenção.

azuki

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  Racismo é burrice - Gabriel, o Pensador

Sugestão de fim de semana: ver Crash, ou Colisão

Cristina_pt

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sexta-feira, julho 25, 2008
  Exposição sobre África do Sul no Porto - Fundação Serralves
Hoje, dia 25 Julho, inaugura no Porto uma exposição do fotógrafo sul-africano David Goldblatt, no museu de Serralves.
A exposição é composta por pares de fotografias que confrontam Goldblatt com Goldblatt, e o Apartheid com o pós-Apartheid.


Para quem estiver interessado em ver a exposição "Intersecções Intersectadas", amanhã às 17h o fotógrafo Goldblatt vai estar em Serralves, para uma conversa com o comissário da exposição.

A notícia vem hoje no jornal Público, com o título "O pós-Apartheid não existe". (P2 , 25 Julho 2008)
Quis partilhar com quem está a ler o livro Chora, Terra-Bem Amada. Pode ser que alguém do Porto queira ir ver, e depois dê notícias aqui no LP.

!@!

E outra noticia. Hoje em Lisboa , no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, António Lobo Antunes recebe o Prémio Camões 2007, o prémio é entregue pelos Presidentes Cavaco Silva e Lula da Silva.

fotografia retirada do site não oficial sobre ALA

Parabéns pelo merecido prémio. Para quem leu este ano com muito prazer as obras de Lobo Antunes , O Manual dos Inquisidores , Os Cus de Judas , fico muito satisfeito por ALA receber este prémio e pelo reconhecimento da importante obra do escritor.

E que para o ano venha o Nobel, que era também muito bem vindo. Fico a fazer figas para que ALA seja o 2º Nobel da literatura portuguesa.

Lobo Antunes... prémio Camões

Luis Neves

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  A despedida de Absalão
A despedida de Absalão é particularmente pungente pela sua simplicidade. Paton resistiu à tentação de, em tão significativo momento, contrapor Absalão a Arthur Jarvis.

Porém, o ciclo logo retoma e com as cartas que trazem a morte, chegam as nuvens que trazem a vida.

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quinta-feira, julho 24, 2008
 
"Mas um juíz não pode menosprezar a lei por a sociedade ser defeituosa. Se a lei é a lei de uma sociedade, que alguns julgam injusta, são a lei e a sociedade que devem ser modificadas. Entretanto, há uma lei em vigor que deve ser aplicada, e é dever sagrado do juiz aplicá-la. E o facto de ele ter liberdade para a aplicar só pode ser levado à conta de justiça numa sociedade que, a muitos respeitos, pode não ser considerada justa.

... um juiz não pode, não deve, não ousa consentir que os defeitos existentes na sociedade o possam influenciar de forma a que ele deixe de aplicar a lei. Perante a lei, um homem é responsável pelos seus actos, excepto sobre certas circunstâncias, que ninguém aqui alegou para serem apreciadas.

... Ao juiz não cabe mostrar piedade. Uma autoridade mais alta, neste caso o governador-geral, pode conceder a graça, mas é assunto que diz respeito a essa autoridade."


Alan Paton
Chora, Terra Bem Amada
cristina_pt

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  Nkosi Sikelel' iAfrika, Deus salve a África
Vejo só uma esperança para a nossa terra: é quando o Branco e o Preto, não desejando nem poder nem dinheiro, mas somente o bem da sua pátria, trabalharem juntos por ela.
Tornou-se grave e solene e concluiu sombriamente:
- Oprime-me o coração um grande medo: receio que, quando um dia eles se virarem para o amor, nos encontrem virados para o ódio.


Luís, tens razão, toda a razão. África convoca o meu pessimismo, um angustiante e irredutível pessimismo. África pode esmagar, se a deixarmos. Aquela terra negra que intimida, dá-nos um murro no estômago e convida-nos a observar todas as agressões, imagináveis e não imagináveis. Há muitas outras palavras que me deixam aflita: Serra Leoa, Somália, Sudão, Zimbabwe, Eritreia, Burundi, Ruanda, Libéria, Uganda, Guiné, Guiné-Bissau, Burkina Faso, Costa do Marfim, R.D.Congo, R. Congo, Chade, Nigéria, Angola (sim, Angola), Quénia, Etiópia, África do Sul (sim, África do Sul),….

Também é verdade que ninguém está inocente: nós somos culpados, eles são culpados. Oh sim, eles têm muita culpa. Pense-se no caso paradigmático da Libéria, criada para a liberdade e dignidade de ex-escravos, que resolveram celebrar a sua vida livre no jovem país começando por escravizar os africanos que lá se encontravam (mais fracos e, quiçá, mais negros). A exploração do ser humano pelo ser humano não é apanágio da cor ou da etnia, mas da raça humana. Se pudessem, os negros explorariam os brancos, tanto quanto os brancos os exploraram (e exploram). E também se sabe quão terríveis são os conflitos entre os negros.

África é tanto mais rica, quanto incapaz de gerir e reproduzir essa riqueza. É tanto mais bela, quanto devastada pela fome e pela doença. É tanto mais misteriosa e mágica, quanto a ganância e a pilhagem são escabrosos e impunes. Quando penso neste pobre continente dorido, faço sempre um enorme esforço para me convencer que, se houver remédio para a Humanidade, deve haver remédio para África.

azuki

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  isitututu
- Compreedo - disse o rapaz, satisfeito com a explicação. - E caixa é ibokisi.
- Exacto, inkosana*. É que nós não temos caixas e, por isso, essa nossa palavra deriva da vossa .1)
- Ah! compreendo. E motocicleta é isitututu.
- Exactamente. Vem do som que as motocicletas fazem: isi-tu-tu-tu.
...
E o rapazinho deu uma gargalhada, tirou o barrete e partiu no meio de uma nuvem de pó. Galopou pelo caminho acima, mas, a certa distância, parou, voltou-se e acenou com a mão. Em seguida disparou de novo a galope. E Kumalo ali ficou, ao lado do jovem prático, vendo sumir-se na distância o pequeno cavaleiro.
- Este - exclamou Kumalo com arrebatamento - é um anjo pequenino de Deus!

Chora terra bem amada, Alan Paton

* inkosana em zulo significa; senhor pequeno, pequeno chefe.


A relação de amizade que o velho sacerdote (umfundisi) faz com o pequeno branco (inkosana) que é o filho de Artur Jarvis , é muito fraterna. As aulas de Zulu que umfundisi vai dar ao jovem branco são uma das partes mais tocantes do livro. Abre a possibilidade de um futuro de paz e concórdia e partilha entre as comunidades branca e negra da África do Sul.

Escolhi esta parte, porque é divertida a forma como os povos "colonizados" vão construindo a sua língua, a invenção de palavras que fazem para designar objectos completamente novos, tecnologias que são para eles mistérios inexplicáveis (e também para nós). É muito engraçada a forma de em Zulu se dizer motocicleta, isitututu . Outras palavras em Zulu também devem ter designações muito divertidas. Deve ser engraçado saber como eles dirão palavras como Avião , Comboio , Telefone , Rádio , Computador.

Como gostava de ter aqui à mão um dicionário Português-Zulu!

Penso que esta forma de construção e invenção de novas palavras é comum em todos as línguas e dialectos dos povos africanos. Também no caso Português, dos nossos antigos territórios coloniais, existem várias línguas e dialectos. O mais conhecido é talvez o Crioulo de Cabo Verde. Esta língua(?) adopta muitas palavras do Português, e penso que criou novas palavras por analogia de sons e ou por semelhança com animais. Não sei se estarei a dizer alguma asneira , pois não conheço minimamente esta língua.

Será que alguém sabe Crioulo ?


Deixo o inicio do Poema Dôci Guérra, de Antero Simas (em Crioulo de Santiago) que tirei da Wikipédia (podem ver lá a tradução).

Ôi Cábu Vêrdi,
Bô qu’ ê nhâ dôr más sublími
Ôi Cábu Vêrdi,
Bô qu’ ê nhâ angústia, nhâ paxõ
Nhâ vída nâce
Dí disafíu dí bú clíma ingrátu
Vontádi férru ê bô nâ nhâ pêtu
Gôstu pâ lúta ê bô nâ nhâs bráçu
Bô qu’ ê nhâ guérra,
Nhâ dôci amôr


Luis Neves

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quarta-feira, julho 23, 2008
 
Atrevo-me a continuar a linha de pensamento da Azuki e citar Paton que através do pai:
"Além disso, há outra razão: se lhe derem mais terras onde eles possam trabalhar e sustentar-se, quem trabalhará nas terras dos Brancos."
contesta a inocência do filho em relação às intenções dos brancos [intencionalmente em letra minúscula]:
"...era lícito. O que fizemos quando viemos para África do Sul era lícito."
cristina_pt

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  nada está tranquilo, excepto para os loucos
E, em qualquer dos casos, toda a gente sabe que o custo do aumento do salário ameaçaria a própria existência das minas, a própria existência da África do Sul.
Há diversas formas de encarar este difícil problema. E há gente que se obstina a discutir a erosão do solo, a falência da tribo, a falta de escolas, a criminalidade, como se tudo isto fossem elementos do mesmo problema. E, quando se começa a cogitar demasiadamente nisto, é-se levado a pensar na república, no bilinguismo, na imigração, na Palestina e só Deus sabe em que mais. Por isso, de certo modo, é melhor não pensar em nada disto.
Entretanto, a greve acabou, com um número de perdas de vidas consideravelmente baixo. Tudo está sossegado, dizem, tudo está tranquilo.
*
No porto deserto há, contudo, água que bate de leve no molhe. Na floresta escura e silenciosa há uma folha que cai. Detrás dos apainelados polidos há formiga branca que devora a madeira. Na verdade, nada está tranquilo, excepto para os loucos.

no Pestana Convento do Carmo, em Salvador da Bahia

Trabalho escravo no exterior + petróleo + minas + vastíssimo mercado consumidor de produtos baratos e/ou usados + carne para canhão em sangrentos combates ideológicos e políticos. Quem são os donos de África? Depois da(s) independência(s), vêem-se na primeira linha as multinacionais (de capitais europeus, americanos, asiáticos) e os tiranos que, patrocinados pelo ocidente (e não só) e contaminados pela cobiça e pela necessidade de ostentação, se tornaram proprietários do próprio País. O povo, desgraçado povo, nem com os seus pode contar... Por todo o lado, forças indígenas e não indígenas impedem a intervenção dos bem-intencionados. O próprio pessoal destacado da ONU tem esquemas de tráfico humano e de exploração sexual (à margem da organização, é certo, mas talvez com a sua complacência). Se estes indivíduos, responsáveis e esclarecidos, atraiçoam o espírito da mensagem que deveriam levar a África, o que se poderá exigir de populações em estado de inanição física, moral e intelectual?

azuki

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terça-feira, julho 22, 2008
  Artur Jarvis
O filho assassinado da família Jarvis apresenta-se pela descrição dos seus conhecidos. É desta forma e de seguida através das suas palavras escritas que se apresentará aos seus pais.

Artur Jarvis é Alan Paton e a sua voz política. O seu discurso é de uma transparência e clareza magistral transformando a obra literária num manifesto que ilustra bem ambos os lados do apartheid.

Artur Jarvis é a voz dos justo e da justiça e (infelizmente) a necessidade do seu discurso perdura até hoje.
Na sua biblioteca encontraremos não só os interesses do próprio Paton (reforçando o carácter auto-biográfico da personagem), mas uma metáfora à África do Sul: a fauna e flora, os povos, os problemas sócio-económicos e as línguas.
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  Pais
Há uma estrada encantadora que vai de Ixopo até aos montes. Montes cobertos de relva ondulante e tão belos que não há palavras para os descrever.
Alan Paton, Chora Terra Bem Amada

Com o início do Livro II Alan Paton anuncia o que se seguirá: dois pais unidos num destino comum.

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segunda-feira, julho 21, 2008
  A responsabilidade
"De facto, Msimangu é conhecido como um bom pregador. É bom para o Governo, dizem em Johannesburg, que Msimangu pregue acerca dum mundo que não é feito com as mãos, porque ele toca o coração do povo, encaminhando-o para a estrada que leva ao Céu, e não para a que conduz a Pretória."
Alan Paton, Chora Terra Bem Amada
Ao ler este pequeno excerto, sou imediatamente recordada de Madre Teresa de Cálcuta, que foi fortemente criticada pelos seus contemporâneos (entre outras coisas) pelo facto de não ser política.
Existe sempre uma responsabilidade (bem ou mal) imputada a pessoas com reconhecimento social, de o utilizarem em prol de fins colectivos. Todavia, a verdade é que, apesar de se poderem imaginar contextualizações em que não apoiar uma posição (política ou outra) se traduz no apoio da parte contrária, noutras não será mais do que assumir o papel a que se propôs, na vida e na sociedade.
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  Chora, Terra Bem Amada
Chora, terra adorada, pelo filho ainda por nascer, que será herdeiro do nosso medo. Não o deixes amar demasiadamente a terra. Não o deixes rir com muita alegria quando a água lhe escorrer por entre os dedos. Não lhe consintas um silêncio completo quando ele contemplar o sol poente a tingir de fogo a campina. Não o deixes agitar-se demasiado quando as aves da sua aldeia se puserem a cantar; não o deixes dedicar-se com todo o seu coração aos montes e aos vales que o verão nascer. Porque o medo o despojará de tudo se tiver dado demasiado.

Alan Paton, Chora Terra Bem Amada
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domingo, julho 20, 2008
  Condição Humana
Não é de todo supreendente ver que esta obra abre diversos temas, na sua maioria socio-políticos. Sabia que assim o seria e que correria o risco de em algum momento a obra, em si, passar a segundo plano.

Poderiam pensar que este é um lamento, mas não é. Pelo contrário. Para mim, a leitura sempre foi mais que a forma, mas acima de tudo o conteúdo. Daí que muito me agrade que a mensagem seja lida. (Gostaste do trocadilho? Especialmente para ti!)



Mas outros dizem que isso é um perigo, porque o trabalhador bem pago não só compra mais, mas também lê mais, pensa mais, pede mais e não quer continuar calado e em posição inferior.
Alan Paton, Chora Terra Bem Amada
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sábado, julho 19, 2008
  Uma das partes do problema: nós
- O velho sistema da tribo, com toda a sua selvajaria e violência, com toda a sua superstição e bruxarias, era um sistema moral. Os nossos indígenas de hoje produzem criminosos, prostitutas e alcoólicos, não porque a sua natureza os leve a isso, mas porque o seu sistema simples de ordem, tradição e convenção foi destruído. Destruído pelo choque da nossa própria civilização. Por conseguinte, a nossa civilização tem o inelutável dever de erigir um outro sistema de ordem, tradição e convenção.

no Pestana Convento do Carmo, em Salvador da Bahia

Para o rol-dos-males-da-humanidade-em-todo-o-seu-esplendor que é África (preguiça, ignorância, ódio, medo, avidez, impotência, crueldade, corrupção), foi enorme a nossa contribuição. África é o único sítio do mundo que piora, de dia para dia. A esta triste realidade, não é alheio um colonialismo que descaracterizou e explorou os africanos até lhes roubar a alma. O homem branco dividiu-os, espalhou-os pelo mundo, tratou-os como animais, retirou-lhes as crianças, destruiu-lhes as aldeias, aniquilou-lhes as tribos, violentou-lhes as crenças. Anulou-lhes o carácter, até os possuir. Em troca, contaminou-os com armas, doenças e ganância. Enredados nos esquemas e vícios que nós lhes ensinámos e que a sua natureza instintivamente adoptou, as sociedades africanas construíram para si próprias cenários de fome e de guerra, de doença e de isolamento, de vidas miseráveis nos subúrbios das cidades. Tomámos tudo e não lhes demos nada.

azuki

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sexta-feira, julho 18, 2008
  Onde a LP tem algo a ver com a verde relva
Não é um post oportunista, acreditem, já que - pelo menos a fazer fé nas minhas memórias de infância - eu sou afinal do benfica: "Completa hoje 90 anos de idade o sócio número 37096 do Sporting Clube de Portugal, Nelson Mandela, nascido a 18 de Julho de 1918 em Qunu, Transkai, África do Sul." (fonte aqui). 

ams


 
 
18 de Julho de 2008
Um exemplo e uma inspiração para todos.
 
quarta-feira, julho 16, 2008
 
in http://www.nelsonmandela.org/
 
terça-feira, julho 15, 2008
  15 de Julho de 2008, 71 bons livros depois (pelo menos)

Hoje, o Leitura Partilhada faz cinco anos.



Caro leitor,
Partilhar leituras é um desejo de sempre que a internet veio tornar possível: assim nasceu, há exactamente 5 anos, este espaço de acessibilidade contínua, onde um pequeno e flutuante grupo de pessoas, na sua maioria sem formação específica em literatura, tenta encontrar tempo para os clássicos, e a que resolvemos chamar
Leitura Partilhada (LP).
Falar sobre livros no
LP significa escolher títulos prévia e unanimemente, lê-los em simultâneo e partilhar essa experiência pessoal. Os conhecedores vão pensar que somos básicos, os desinteressados achar-nos-ão enfadonhos, mas o mérito deste blogue está no mecanismo, não no conteúdo. Criado com o intuito de tornar a experiência da leitura mais gratificante, os seus participantes procuram que o LP seja um espaço de encontro e de comunhão, de enriquecimento pessoal e de descoberta, que respeite a natural solidão do exercício da leitura, ao mesmo tempo que lhe acrescenta algum calor.
Habitualmente, as participações são recebidas por e-mail e, depois, publicadas por um dos administradores do blogue. Poderá enviar um ou vários
posts, apenas referindo qual a ordem em que deseja vê-los publicados, um título (facultativo, é claro) e a sua assinatura (recorremos muito a nicknames, mas nada o obriga a usá-los). As leituras são programadas, sob consenso da maioria dos leitores amadores (no site, poderá visualizar a listagem de tudo o que já lemos e do que pretendemos ler, ordenada por meses) e, tanto quanto possível, privilegiamos as obras e os autores de referência. É comum, no início de cada mês, fazer uma breve resenha da vida e obra do autor.
Por fim, a regra de ouro: no
LP, com mais ou menos derivações, só falamos sobre o livro/autor em questão.
Esperamos que tenha ficado com vontade de se juntar a nós.

Leitura Partilhada
 
segunda-feira, julho 14, 2008
  Ébano – Febre Africana, de Ryszard Kapuscinski
Logo nas escadas do avião somos confrontados ainda com outra novidade: o cheiro dos trópicos. (…) Rapidamente começamos a sentir o seu peso, a sua textura pegajosa. Este cheiro alerta-nos imediatamente para o facto de nos encontrarmos a uma latitude em que a biologia exuberante e incansável está sempre a trabalhar, a gerar, a multiplicar, a florir e ao mesmo tempo a adoecer, a decompor-se, a apodrecer.
Trata-se do cheiro de corpos quentes e peixe seco, carne apodrecida e mandioca tostada, flores frescas e plantas aquáticas podres, resumindo, um cheiro a tudo o que é simultaneamente agradável e nojento, aquilo que atrai e repele, que seduz e provoca repugnância. Este cheiro sopra das palmeiras próximas até nós, nasce na terra quente, liberta-se dos esgotos da cidade. Não nos larga, faz parte integrante dos trópicos.
(Ébano – Febre Africana,
Ryszard Kapuscinski, Campo Das Letras)

Tenho que voltar a falar deste livro, o mais fascinante que já encontrei sobre África, com as suas imagens inesquecíveis e espantosas formas de pensar a existência, que nos fala de um ritmo que não é o ocidental e de escalas que não são as nossas (era uma vez uma aldeia onde se viveu uma pequena revolução, com a introdução do balde de plástico), que encontra significados profundos nos actos mais banais e tão bem define o misto de atracção e de repulsa que África inspira.

Numa sessão da Comunidade de Leitores promovida pela livraria Índex, Richard Zimler, escritor e professor de jornalismo, refere que Ryszard Kapuscinski é um jornalista diferente e politicamente incorrecto porque utiliza técnicas de ficção e a sua própria opinião para fazer jornalismo (numa altura em que tal era tabu), não se aloja nos hotéis destinados aos brancos e não se move em prol de critérios de audiências e de fascínio pelo poder, falando do que considera ser essencial, mesmo que o mundo inteiro entenda ser mais relevante deter-se com o costumeiro folclore.

Sensível e frontal, dotado de uma imensa coragem, Ryszard Kapuscinski (ou Kapu, como lhe chamavam os amigos) alia uma curiosidade nata a um enorme respeito por tudo o que o rodeia, e encara as suas experiências africanas com o sentido de missão de quem acredita que o verdadeiro jornalismo é [aquele que] tenta provocar algum tipo de mudança.

Em todas as páginas deste livro precioso, lá estão a elevação, a generosidade e o afecto: temos de ser bons seres humanos. As más pessoas não podem ser bons jornalistas. Esta passagem, lida por um dos participantes da Comunidade, o jornalista Miguel Carvalho*, é reveladora da ausência de pruridos em assumir essa postura tão pouco sofisticada e tão aparentemente pueril que é a noção de que, para se fazer bem o que quer que seja, é preciso ter princípios e um coração recto. E isso transpira na escrita de Kapuscinski. Não podemos deixar de querer estar ali, com ele, de sentir as suas dores, de sofrer com os sintomas da malária e de temer pela sua vida, de rir com a sua frescura, de sorrir quando ele sorri. Sim, ele sorri e este livro, que fala de chacinas e de miséria, é um sorriso para África, esse pobre continente dorido que o autor resolveu adoptar e defender. Porque os pobres são silenciosos e foi a África que Kapu quis dar a sua voz.

* a partir de outro dos livros do escritor, publicado em Espanha pela Anagrama: Los cínicos no sirven para este oficio – sobre el buen periodismo e que já se encontra disponível em português

azuki
 
sábado, julho 12, 2008
  Abolição da Pena de Morte

O livro tem no centro da sua história um crime de assassinato, e a condenação à morte do seu autor, Absalão Kumalo, o filho de umfundisi Joseph Kumalo, (sacerdote, na língua Zulu).


" - Absalão Kumalo, condeno-te a voltares para a prisão e a seres suspenso pelo pescoço até que a morte sobrevenha. E que possa Deus compadecer-se da tua alma. "

Porque acho que a defesa dos Direitos Humanos e a luta pela Abolição da Pena de Morte são causas que têm que ser apoiadas e reconhecidas pela sua humanidade. Porque acho que devemos destacar e louvar quem faz desta causa a sua intervenção cívica, queria deixar a minha homenagem a quem luta pelos Direitos Humanos em Portugal.


destaco apenas as organizações que conheço:








Amnistia Internacional ,


Death Penalty





AI grupo 6 - Porto ,


(para as bloggers do norte)



Relatório Amnistia Internacional 2008



Direitos Humanos na China - os Jogos Olimpicos de Pequim




Sabiam que?


Portugal foi o 1º país a abolir a pena de morte em 1867 , para "crimes cumuns" (Somos pioneiros !!), em 1976 é abolida a pena de morte para todos os crimes.


Na Africa do Sul é abolida a pena de morte em 1997, a última execução foi em 1991.


Factos chave sobre pena de morte:



Luis Neves

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sexta-feira, julho 11, 2008
  Homenagem ao Bispo do Porto - 50 anos da carta pró-memória a Salazar
" Alguns dizem que a terra chega para todos, que a melhoria de um não significa o mal doutrem, que o progresso deste não implica o atraso daquele. Dizem que o trabalho mal remunerado representa uma nação pobre e que o trabalho bem pago origina maiores mercados, campo mais amplo para a indústria e para a mão-de-obra. Mas outros dizem que isso é um perigo, porque o trabalhador bem pago não só compra mais, mas também lê mais , pensa mais , pede mais e não quer continuar calado e em posição de inferior.
Quem indica o meio de dar boa ordem a esta terra ? Sim, porque nós temos medo de perder não só o que possuímos, mas também a nossa superioridade, a brancura da nossa raça. Muitos dizem que o crime é mau, mas não seria isso pior? Não será melhor conservarmos o que temos e pagar o seu preço com o nosso medo?
E outros perguntam se o medo poderá ser suportado sempre. Pois não é ele que obriga os homens a meditar nestas coisas?
Não sabemos. Não sabemos. Viveremos a vida dia a dia , reforçando as fechaduras das portas, adquirindo um cão esperto e valente quando a esperta e valente cadela da vizinha tiver ninhada, acautelando cada vez mais a carteira ou a mala de mão. "

" E aqui a voz troveja de novo e o povo estremece. (João Kumalo)
- Nós sabemos que não temos o suficiente. Nós só exigimos aquelas coisas pelas quais luta a massa trabalhadora em todos os países do mundo: o direito a vendermos o nosso trabalho por um preço digno, o direito de darmos às nossas famílias uma situação decente. "

Chora terra bem amada, Alan Paton




Na mesma altura em Portugal também se estava num
regime que reprimia as liberdades civicas e politicas dos portugueses

Também em Portugal surgem vozes na Igreja que vão questionar o tipo de regime ditatorial que não permitiam a liberdade de expressão, as liberdades de associação , que reprimia as oposições politicas, e controlava a Igreja Católica.
Um dos principais polémicas com o regime de Salazar foi provocada pelo Bispo do Porto.
Em 13 Julho de 1958 , o Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes escreveu uma carta a Salazar, onde questionou o governante sobre a questão da liberdade de consciência , sobre a independencia da Igreja do Estado , sobre a liberdade sindical.
Faz hoje 50 anos que o Bispo do Porto teve um acto de grande coragem e de consciência cívica. E deu um grande contributo para a tomada de consciencia de muitos católicos para o tipo de regime que existia em Portugal.


foto no Blog Margem Esquerda



No jornal público de 6ª feira , 11 Julho, vinha um artigo sobre a apresentação de um livro com textos inéditos do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes:


" O caso do antigo bispo do Porto D. António Ferreira Gomes, que condenou aspectos da política de Salazar, revelou sobretudo "um notável desfasamento" entre o modo de ver de D. António e o dos restantes colegas de episcopado. A tese é do próprio bispo, que morreu em 1989, e está publicada em livro ontem apresentado no Porto, que reúne textos e documentos inéditos de Ferreira Gomes. Em Provas - A Outra Face da Situação e dos Factos do Caso do Bispo do Porto, que tinha sido organizado pelo próprio Ferreira Gomes mas que não chegou a publicar-se antes da sua morte, o bispo defende as suas posições e contesta as acusações do Estado Novo e do próprio Salazar.
A 13 de Julho de 1958, o bispo escreveu um pró-memória ao presidente do Conselho de Ministros, que deveria servir de base para um encontro entre ambos. No final, a audiência não se realizou e a "carta do bispo do Porto a Salazar", como o documento ficaria conhecido, acabou profusamente divulgada. Por causa disso, o bispo viveu exilado dez anos. O texto foi escrito após as eleições presidenciais em que participou Humberto Delgado, que acabaria derrotado, com a oposição ao regime a falar de fraude eleitoral.
D. António defendia a autonomia da Igreja Católica em relação ao Estado, o sindicalismo livre e a liberdade de consciência. E criticava "o já hoje exclusivo privilégio português do mendigo, do pé-descalço, do maltrapilho". O ditador acusava o bispo de ter sido este a divulgar a carta, para denegrir o regime e abrir brechas na "frente nacional", perturbando "muitas consciências, até agora tranquilas", como referiu num discurso. Embora não dissesse que era por causa da carta, o presidente do Conselho ameaçava mesmo denunciar a Concordata entre Portugal e a Santa Sé e dissolver a Acção Católica - que congregava milhares de pessoas. "


Um movimento civico de Coimbra vai realizar uma comemoração desta data.
Podem ver o programa no Blog
Margem Esquerda - Homenagem de Coimbra ao Bispo do Porto Dom António Ferreira Gomes no 50º Aniversário da carta a Salazar


Deixo aqui a página do site da Fundação Spes , fundada por D. António , Bispo do Porto

http://www.fspes.pt/default.htm
onde podemos ler a carta que tanta polémica gerou, está no site, Carta a Salazar

Luis Neves

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quinta-feira, julho 10, 2008
  apartheid
A face de Kumalo iluminou-se com um sorriso, estranho sorriso ignorado noutras terras, o sorriso de um negro que vê alguém da sua raça ser acarinhado em público por um branco, porque uma coisa dessas não se faz de ânimo leve.

Aconteceram em 1994, as eleições gerais livres da República da África do Sul e, pela primeira vez, todos foram iguais: pretos, mestiços, brancos, asiáticos. O Mundo aclamava o final pacífico de um longo e cruel período de segregação, que apenas a estatura moral e a coragem política de alguns homens (de ambos os lados do conflito, diga-se) tornou possível. Não se alcança o tremendo entusiasmo daquele dia: o apartheid tinha acabado e algo de bom estava finalmente a nascer.

Porque nunca estive na África negra, procuro-a nos livros e nas imagens, ausculto quem a conhece. Os olhos do meu amigo Vítor* são os meus e foi isto que ele escreveu, num texto publicado em 2000:

São raras as situações em que vejo um branco de mão dada com uma preta ou vice-versa, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que num restaurante vi um casal de brancos jantar com um casal de pretos, ainda não assisti a um concerto e/ou um espectáculo de outra qualquer natureza em que o número de pretos e brancos fosse balanceado, ainda não vi um desporto em que se misturassem brancos e pretos, ainda não encontrei um restaurante em que brancos ou pretos não se fizessem notar pela presença contra-natura, ainda não encontrei um preto no sítio onde corto o cabelo e nem um branco a cortá-lo num barbeiro de passeio, escapa-me da memória a lembrança de ter visto um branco num táxi colectivo (...) e lembro-me que escassas vezes vi uma criança preta a brincar com uma criança branca.
“Uma Lança em África”, de Vítor Neves

Quem disse que o apartheid acabou?

* O Vítor viveu e trabalhou em África entre Jul/97 e Set/00 e, neste seu conjunto de crónicas, fala-nos da África do Sul, Zimbabué, Moçambique e Suazilândia

azuki

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  Preto ou negro
" Quer se seja branco, quer se seja negro, eles levam-nos a Johannesburg"
Poucas palavras terão a propensão para caracterizar a significação das mesmas, como preto e negro.
Na língua portuguesa parece ter-se concluído que o preto é pejorativo e que deverá ser utilizado o negro. Já, por exemplo, na língua anglo-saxónica, será o contrário (apesar de haver distinção entre negro e nigger").
A verdade é que sempre me pareceu muito estranho dizer negro, em vez de preto. Mas somente porque preto é o equivalente ao branco e negro é uma palavra raramente utilizada na nossa língua.
Na verdade, o negro parece surgir somente em associação à cor de pele e mais como termo políticamente correcto para alternativa a preto. E com efeito, essa necessidade de alternativa surge, tão somente, para fazer face ao carácter pejorativo que foi sendo dado à palavra preto.
Por vezes penso, que essa necessidade de utilizar o negro, é por si pejorativa. Demostra, em certa perspectiva, que a cor da pele é algo de pejorativo que deveremos ter o cuidado de não realçar. Não será isso racismo?
cristina_pt

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quarta-feira, julho 09, 2008
  Nkosi sikelel' iAfrica *
- Sr. Dubula, onde está o médico?
- Mando-lhe o médico de manhã. Não se apoquente, que o comité paga-lhe a visita.
- Mas a criança está quase a morrer. Olhe o sangue.
- Pouco falta para amanhecer.
- Falta sempre muito quando uma criança está a morrer e o coração tem medo. Não podemos chama-lo já, Sr. Dubula?
- Vou ver, mãe. Vou ver se consigo.
- Fico-lhe muito agradecida, Sr. Dubula.

Lá fora há cânticos, cânticos em roda de uma fogueira. É o Nkosi sikelel' iAfrica que eles cantam, Deus salve a África. Deus salve este pedaço de África que é meu, nascido do meu corpo, alimentado com o meu peito, amado com o meu coração, porque essa é a condição das mulheres. Oh! , está sossegado, meu pequenino.

Chora Terra bem amada

Um video do hino Sul-Africano emocionante
* Deus abençoe África

Luis Neves

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terça-feira, julho 08, 2008
  Mudar, Transformar, Evoluir
"Começava a escurecer, mas a estrada continuava pejada de gente de Alexandra que se dirigia a casa. E continuavam a parar carros que lhes davam boleias, especialmente aos velhos, às mulheres e aos aleijados.
A face de Kumalo iluminou-se com um sorriso, estranho sorriso ignorado noutras terras, o sorriso de um negro que vê alguém da sua raça ser acarinhado em público por um branco, porque uma coisa dessas não se faz de ânimo leve."
Paton é particularmente romântico na sua descrição do boicote aos autocarros. Neste trecho, os heróis são vários, são todos: os que optam por não entrar nos autocarros, os que arriscam ao suporte do boicote, tentando convencer os passageiros a não o serem, sem esquecer a comunidade branca local corre iguais riscos ao tentar ajudar a comunidade negra.
Na verdade, é sorriso de Kumalo que mais me choca neste trecho. Um agradecimento submisso a que não podemos ficar alheios. No fundo descreve a baixa auto-estima de uma comunidade inteira, reflexo de séculos de abuso.
Uma das coisa que sempre me chocou e fez temer pelo futuro da humanidade foi a facilidade como adere a tirania. Faço o paralelo à Alemanha Nazi ou ao Portugal de Salazar. Para cada tirano ou seu apoiante, sempre existiram centenas ou mesmo milhares que não partilhariam dos fins ou dos meios. Então como foi possível? Como continua a ser possível?
A resignação de quem se defense com a impossibilidade de mudar o mundo. Felizmente, haverá sempre uma ou outro que se contentam a ajudar um de cada vez. São esses os verdadeiros heróis desta história.
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segunda-feira, julho 07, 2008
 
Fonte

É encantador o caminho que vai de Ixopo até aos montes. Montes cobertos de relva ondulante e tão belos que não há palavras para os descrever.


Descalçai-vos para a pisar, porque o solo é sagrado, tal como veio da mão do Criador. Conservai-a, guardai-a, cuidai dela, porque ela sustenta os homens, protege os homens, cuida dos homens. Destruí-la, e o homem será destruído.

CHORA TERRA BEM AMADA
CAP.1


Assim se incia a nossa obra. Achei particularmente curiosa a escolha da primeira frase. Talvez humildade a tenha determinado. Surge igualmente uma primeira referência religiosa; outras se seguirão, não fosse filho de um devotado cristão e a principal personagem um padre.

Desde que vi o cartaz da mais recente adaptação cinematográfica, não posso deixar de associar Stephen Kumalo à imagem de James Earl Jones. E assim, Umfundisi Kumalo já tem rosto.

fonte

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domingo, julho 06, 2008
  Lost in the stars

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sábado, julho 05, 2008
  Lincoln
Nas paredes, entre os livros, viam-se quatro quadros: Cristo crucificado, Abraão Lincoln, a casa branca (...) de Vergelegen, e um quadro de salgueiros sem folhas junto a um rio (...).
Levantou-se da cadeira e examinou os livros, todos acerca de Abraão Lincoln. Não sabia que se tinham escrito tantos livros a respeito de um só homem.


Lincoln Memorial, Washington

Regressei há uma semana de Washington onde, de novo, procurei um dos meus recantos predilectos, junto da estátua e das palavras do grande homem. Lembro-me de ter pensado que leria o "Chora, Terra Bem-Amada" e que seria apropriado e justo recordar o nome de Lincoln neste mês de LP. Não sabia que estava a adivinhar o que viria a seguir: Lincoln foi inspiração e ensinamento para Artur Jarvis, cuja estúpida morte não foi em vão.



that we here highly resolve that these dead shall not have died in vain
Abraham Lincoln




azuki

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Cry, The Beloved Country, 1948
Lost in the Stars, 1950
Too Late the Phalarope, 1953
The Land and People of South Africa, 1955
South Africa in Transition, 1956
Debbie Go Home, 1960
Tales from a Troubled Land, 1961
Hofmeyer, 1964
Spono, 1965
The Long View, 1967
Instrument of Thy Peace, 1968
Kontakio For You Departed, 1969
Case History of a Pinky, 1972
Apartheid and the Archbishop: the Life and Times of Geoffrey Clayton, Archbishop of Cape Town, 1973
Knocking on the Door, 1975
Towards the Mountain, 1980
Ah, but Your Land is Beautiful, 1981
Journey Continued: An Autobiography, 1988
Save the Beloved Country, 1989
The Hero of Currie Road: the complete short pieces, 2008

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sexta-feira, julho 04, 2008
  Olá, Luís
Por acaso, gosto bastante deste misto de pedido de auxílio e grito de desespero: acho Cry, the Beloved Country muito poético.

O meu exemplar é uma edição de bolso da Europa-América. Não aprecio a editora, nem sequer livros de bolso, mas foi o que consegui encontrar e, pese embora a fraca qualidade do texto (culpa da tradução ou da prosa?), vale a pena lê-lo. África desgasta, suga-nos a esperança num mundo mais justo, põe à prova todas as ilusões. Quem escreve assim, conhece-a bem e pode ajudar-nos a senti-la um pouco melhor.

azuki

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  Alan Paton - Nota Biográfica

Alan Paton nasceu em Pietermaritzburg, em Natal, em 1903.

Seu pai era James Paton, um escocês que havia emigrado para a África do Sul em 1895. Seu pai era um cristão profundamente religioso e um rigoroso autoritário. As suas práticas disciplinadoras levaram Alan Paton a desprezar e a opor-se abertamente a todas as formas de autoritarismo.

A influência do seu pai não foi exclusivamente negativa; ele também o ensinou a gostar de livros e natureza, duas paixões que são figura proeminente no seu trabalho.

Seu mais famoso e mais aclamado trabalho é CHORA, TERRA BEM AMADA (Cry, the Beloved Country) (1948). Até ao momento da sua morte, em 1988, a obra tinha vendido mais de 15 milhões de cópias.

Depois de escrever CHORA, TERRA BEM AMADA, Paton demitiu-se do seu trabalho como o director de um reformatório e dedicou-se à escrita.

Ele escreveu novo romance, Too Late o Phalarope (1953), em 1951. Ele recebeu elogios menos críticos do que o primeiro romance, em parte porque é mais polido.

Em 1953, Paton formou o Partido Liberal do Sul Africano, que foi dissolvido em 1968, quando as suas posições interraciais foram consideradas ilegais na África do Sul.

Ele continuou a escrever até à sua morte, apesar de nenhum de seus trabalhos ter obtido o mesmo reconhecimento do seu romance de 1948.


(Tradução livre da nota biográfica acedida em http://web.uflib.ufl.edu/cm/africana/paton.htm)

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quinta-feira, julho 03, 2008
  Mais vale tarde do que nunca
Parece que os EUA acabam de retirar Nelson Mandela da sua lista de terroristas. Quem será o próximo? Dalai Lama?

azuki

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E se ainda não estão convencidas/s?


Porque CHORA, TERRA BEM AMADA, tão importante?

Aqui está uma resposta de Doris Lessing, romancista e Prémio Nobel de Literatura em 2007, que nasceu no sul da Rodésia (actual Zimbabwe) e escreveu outro livro crítico da África do Sul, A ERVA CANTA, que apareceu logo após a obra de Paton's:


"O que você tem que se lembrar é que o conjunto da África Austral, foi visto como um grande prazer, diversão lugar cheio de negros… satisfeitos. CHORA, TERRA BEM AMADA destruiu essa visão. Então veio a A ERVA CANTA, que ajudou a quebrá-la ainda mais."

Doris Lessing
como citada por Emily Parker em “Provocateur” em "Weekend Interview with Doris Lessing",
The Wall Street Journal, March 15-16, 2008.

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terça-feira, julho 01, 2008
  A razão da escolha
"Cry, the Beloved Country é um monumento para o futuro. Um dos líderes humanistas da África do Sul, Alan Paton capturou vividamente a sua eloquente fé na bondade fundamental das pessoas."
Nelson Mandela


Ao contrário do habitual, decidi realizar uma apresentação muito pessoal da obra. Escolho um interlocutor que considero não só digno de poder recomendá-la, como de se poder recomendar. Se esta é a ode à bondade humana, quem melhor para a representar que um humanista como Nelson Mandela?

[Confesso-me mais partidária da mais famosa citação de Hobbes: “Homo homini lúpus” (Homem, lobo do Homem). Mas voltemos ao raciocínio inicial: a escolha do livro.]

Tudo começou com um filme: Amor em África. Poderiam pensar que estou a referir-me à adaptação cinematográfica da obra, mas enganam-se. Um pequeno grande filme com Samuel L. Jackson e Juliete Binoche sobre os tribunais comunitários que se seguiram ao fim do Apartheid e que visavam, através da mediação entre vítimas e agressores, a reconciliação nacional. Recomendo vivamente que o vejam.


Despertado o tema, haveria de o ver ligado à obra que sugeri, através de uma referência no programa Oprah. Tema e obra ficam assim ligados na minha mente até à associação à proximidade do 90º aniversário de Nelson Mandela, foi um neurónio. Fecha-se o ciclo.

Nelson Mandela nasceu em 18 de Julho de 1918. Viveu em cativeiro durante 25 anos por defender uma aparentemente ideia absurda: TODOS E TODAS NASCEMOS COM IGUAIS DIREITOS.
(Perdoem-me o romantismo. Não há Hobbes que consiga resistir a Mandela. E correndo maiores riscos pois vou parafrasear o D. Sebastião dos tempos modernos [que não caia do pedestal, que caímos todos]: YES, WE CAN!)
Cristina_pt

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  Chora, Terra Bem Amada - Alan Paton

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O QUE ESTAMOS A LER

(este blogue está temporariamente inactivo)

PROXIMAS LEITURAS

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LEITURAS NO ARQUIVO

"ULISSES", de James Joyce (17 de Julho de 2003 a 7 de Fevereiro de 2004)

"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)

"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)

"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)

"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)

"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)

UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)

"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)

Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)

"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)

"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)

"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)

"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)

"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)

"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)

"MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar (1 a 30 de Junho de 2006)

"ILÍADA", de Homero (1 a 31 de Julho de 2006)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2006)

POESIA DE ALBERTO CAEIRO (1 a 30 de Setembro de 2006)

"O ALEPH", de Jorge Luis Borges (1 a 31 de Outubro de 2006) (link)

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS (1 a 30 de Novembro de 2006)

"DOM CASMURRO", de Machado de Assis (1 a 31 de Dezembro de 2006)(link)

POESIA DE RICARDO REIS E DE FERNANDO PESSOA (1 a 31 de Janeiro de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 28 de Fevereiro de 2007)

"O VERMELHO E O NEGRO" e "A CARTUXA DE PARMA", de Stendhal (1 a 31 de Março de 2007)

"OS MISERÁVEIS", de Victor Hugo (1 a 30 de Abril de 2007)

"A RELÍQUIA", de Eça de Queirós (1 a 31 de Maio de 2007)

"CÂNDIDO", de Voltaire (1 a 30 de Junho de 2007)

"MOBY DICK", de Herman Melville (1 a 31 de Julho de 2007)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2007)

"PARAÍSO PERDIDO", de John Milton (1 a 30 de Setembro de 2007)

"AS FLORES DO MAL", de Charles Baudelaire (1 a 31 de Outubro de 2007)

"O NOME DA ROSA", de Umberto Eco (1 a 30 de Novembro de 2007)

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (1 a 31 de Dezembro de 2007)

"MERIDIANO DE SANGUE", de Cormac McCarthy (1 a 31 de Janeiro de 2008)

"METAMORFOSES", de Ovídio (1 a 29 de Fevereiro de 2008)

POESIA DE AL BERTO (1 a 31 de Março de 2008)

"O MANUAL DOS INQUISIDORES", de António Lobo Antunes (1 a 30 de Abril de 2008)

SERMÕES DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1 a 31 de Maio de 2008)

"MAU TEMPO NO CANAL", de Vitorino Nemésio (1 a 30 de Junho de 2008)

"CHORA, TERRA BEM-AMADA", de Alan Paton (1 a 31 de Julho de 2008)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2008)

"MENSAGEM", de Fernando Pessoa (1 a 30 de Setembro de 2008)

"LAVOURA ARCAICA" e "UM COPO DE CÓLERA" de Raduan Nassar (1 a 31 de Outubro de 2008)

POESIA de Sophia de Mello Breyner Andresen (1 a 30 de Novembro de 2008)

"FOME", de Knut Hamsun (1 a 31 de Dezembro de 2008)

"DIÁRIO 1941-1943", de Etty Hillesum (1 a 31 de Janeiro de 2009)

"NA PATAGÓNIA", de Bruce Chatwin (1 a 28 de Fevereiro de 2009)

"O DEUS DAS MOSCAS", de William Golding (1 a 31 de Março de 2009)

"O CÉU É DOS VIOLENTOS", de Flannery O´Connor (1 a 15 de Abril de 2009)

"O NÓ DO PROBLEMA", de Graham Greene (16 a 30 de Abril de 2009)

"APARIÇÃO", de Vergílio Ferreira (1 a 31 de Maio de 2009)

"AS VINHAS DA IRA", de John Steinbeck (1 a 30 de Junho de 2009)

"DEBAIXO DO VULCÃO", de Malcolm Lowry (1 a 31 de Julho de 2009)

...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2009)

POEMAS E CONTOS, de Edgar Allan Poe (1 a 30 de Setembro de 2009)

"POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA", de Harper Lee (1 a 31 de Outubro de 2009)

"A ORIGEM DAS ESPÉCIES", de Charles Darwin (1 a 30 de Novembro de 2009)

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