Perdoem-me esta desafinação de estilos. Saber o que o Barroco e o Simbolismo têm em comum não caberá aqui por várias ordens de razões, como dizem alguns dos nossos retóricos políticos da actualidade. Trata-se somente de uma associação livre, quem sabe ao jeito do divã freudiano, agora que a Áustria anda por aí a ser falada. E não por alguém ter a brilhante ideia de colocar uma multidão de figurantes a empurrar um belo autocarro da selecção portuguesa, sem gasóleo naturalmente, ensinando aos portugueses como devem deslocar-se perante esta escalada dos combustíveis. Eu explico.
A um determinado passo do Sermão da Sexagésima, Padre António Vieira fala de uma árvore, uma árvore da palavra. E, se a palavra é vida e princípio, que árvore melhor poderia estar aqui que não esta do famoso pintor austríaco?
Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria.
As dificuldades de pregação no Maranhão Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de creaturas: haviam de achar os homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. *
Com uma pequena mudança de género, haviam de achar igualmente: mulheres mulheres mulheres brutas mulheres troncos mulheres pedras
A terra boa são os corações bons, ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina com tanta fecundidade e abundância, que se colhe por cento por um. Os caminhos são os corações inquietos, e perturbados com a passagem, e torpel das cousas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque ou a desatendem, ou a desprezam. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delicias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros, e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. *
Como exemplo de mulher pedra dos dias de hoje fiz um Link (o mais óbvio), se alguém quiser dar sugestões para as outras creaturas mulheres.
O Sermão da Sexagésima faz parte do programa da disciplina da Literatura Portuguesa do Ensino Secundário. Excertos desse Sermão são lidos e comentados tendo em conta o enquadramento histórico e cultural da época. Estamos em pleno Barroco. Considerado um estilo exuberante e túrgido que a decoração douradamente rica das igrejas tratava de popularizar, foi também um tempo de muitas heresias.
Consolidada a Reforma Católica, como se explica o aparecimento de Miguel de Molinos e o molinismo em todas as suas variantes? Que tipo de sociedade defende António Vieira? Para quem prega, quem o ouve, quem se deixa influenciar pelas suas palavras? No fundo, quem as leva a sério no sentido de uma mudança de atitudes e comportamentos? Esta questão do público ouvinte é de grande importância no tenso contexto do século dezassete. O Barroco foi também a falência da Retórica. Um discurso que serve só para deleitar não cumpre a sua verdadeira função que é actuar sobre um comportamento e produzir a necessária alteração. O Sermão da Sexagésima é uma crítica mordaz a essa oratória cheia de conceitos e imagens engenhosas que visavam a volúpia da liturgia. Curiosamente, António Vieira viria a ser acusado do mesmo mal.
e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome (...), razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça *
Analisado à luz da missão de que se sentia imbuído, PAV estava a defender aquilo em que acreditava, mas nem sempre a convicção justifica o discurso. As razões invocadas não são as de que se vai ser atacado por um exército hostil, mas a circunstância de se ser detentor da verdadeira fé. O que é perigoso é a argumentação de que se está do lado da verdade e da justiça (na sua sede de conquista, os holandeses seriam destruidores, mas nós também; nada nos diferenciava, a não ser a legitimidade do Deus único). PAV sente-se no direito de protestar, pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça* e porque o pedido nem é por ele, é por Deus, pela sua honra e glória, pelo crédito de seu nome: Olhai, Senhor, que já dizem. Já dizem os hereges, insolentes com os sucessos prósperos, que vós lhe dais ou permitis; já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos.* Como se pode censurar quem pede pelo bem de outros?...
*Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda
"Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios?"*
São muito interessantes, o registo de autenticidade e a energia neste discurso, a profunda convicção, o desespero e os pungentes apelos do Padre António Vieira. E também o seu à-vontade a conversar com o Senhor, como se de um amigo próximo se tratasse. Não era desrespeito, mas sim intimidade e confiança, ao ponto de se sentir no direito de estabelecer contratos com Deus. Sinal de que acreditava plenamente na sua existência e na sua clemência.
*Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda
A entrevista com Deus
Acabo de ler o "Sermão de Sto António aos peixes". Na última parte do sermão (peroração ou epilogo) Padre António Vieira coloca uma pergunta que nunca me tinha ocorrido. Quando tivermos que partir do mundo (maneira suavezinha de dizer morrer), Qual será a cara com que vamos encarar Deus ? Toda a gente tem diferentes máscaras que utiliza em diferntes contextos, mas quando estivermos em frente de Deus não vai ser possível utilizá-las. Estamos em dia de peregrinações e de aparições, costume medieval. Podemos colocar o mesmo tipo de questão em relação a uma aparição, Qual a cara que vamos apresentar se nos ocorrer uma aparição ? (Incrédulos? Hipnotizados? Aterrorizados?)
O que se interroga Pde.Vieira de forma muito acutilante é,
" eu espero que o hei de ver, mas com que rosto hei de aparecer diante do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender ? .... pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento."
Claro que para quem não é crente e não tem convicções religiosas católicas , não vai ter este tipo de dores de consciência. podemos encontrar-nos com Deus com grande tranquilidade, tal como Pde Vieira se refere aos peixes,
" Vós (peixes) não haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente, porque não o ofendestes."
O olhar de Pde António Vieira sobre a Sociedade dos Homens
No "Sermão de S. António aos peixes" Padre António Vieira pede aos peixes que se voltem para terra , e descreve-lhes a sociedade humana pelos seus olhos.
"Olhai, peixes lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos, e para o Sertão? Para cá, para cá, para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros, muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças: e cruzar as ruas, vedes aquele subir, e descer as calçadas, vedes aquele entrar, e sair sem quietação, nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer."
"Diz Deus, que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: porque a plebe, e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem, e os que menos avultam na República, estes são os comidos. E não só diz, que os comem de qualquer modo, senão que os engolem, e os devoram. Porque os grandes , que têm o mando das Cidades e das Províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram, e engolem os povos inteiros."
"E isto é o que padecem os pequenos. São o pão cotideano dos grandes: e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo, e em tudo são comidos os miseraveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício, em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem, e devorem. "
É fácil perceber porque foi expulso do Brasil, e depois foi perseguido em Portugal pela Inquisição. Mas, e se fosse hoje? O nosso Padre Vieira também não iria ter uma vida muito fácil! Hoje, com os poderes que vingaram dentro da Igreja e nos Governos das nossas cidades, não ia ser muito bem aceite, nem bem visto.
Tapuias: Tribo de Indios Brasileiros Luis Neves
¶ 10:36 AM
Sexta-feira, Maio 09, 2008
porque gosto do Padre António Vieira
Padre António Vieira pregando aos índios no Brasil
(autor n/d)
Este orador excelente, que sempre falava na maravilha e na catástrofe, que foi diplomata e conselheiro real, mestre nas letras, pensador profético, missionário, filósofo e teólogo, sonhava com um mundo melhor. Impermeável ao fanatismo corrente, foi favorável a uma aproximação aos cristãos-novos e aos judeus (ainda que motivado por algum espírito prático, do foro financeiro); superior ao espírito da época, censurou a escravatura (muito embora, de forma mitigada); crente numa sociedade mais justa, defendeu os direitos dos ameríndios, contra a exploração dos colonos (porventura, em troca de uma outra forma de escravatura); visionário, acreditou até ao fim da vida na quimera do Quinto Império e na construção de um Reino de Deus na terra; lutador feroz contra os interesses instalados e mesquinhos, apontou o dedo aos arrogantes, aos predadores, aos corruptos; extravagante, foi combatido e incompreendido.
Os Sermões do Padre António Vieira são divididos em vários grupos: os panegíricos,os congratulatórios, os apologéticos, os políticos, os bélicos, os funerários e os ascéticos. Mas todos, desde que a matéria o permita, são morais.
A estrutura de Sermão obedece sempre ao mesmo tipo de construção. A primeira parte chama-se Exórdio. Rege-se pelas leis da Retórica. Nesta parte, o orador dirige-se ao público ouvinte e tenta cativar a sua atenção.
SERMÃO PELO BOM SUCESSO DAS ARMAS DE PORTUGAL CONTRA AS DE HOLANDA
Assim se hão-de lograr os hereges e inimigos da Fé dos trabalhos dos portugueses e dos suores católicos? (...) Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fores servido. Entregai aos Holandeses o Brasil, entregai-lhe as Indias, entregai-lhe as Espanhas (...), entregai-lhe quanto temos e possuímos (como já lhe entregastes tanta parte), pondo em suas mãos o mundo; e a nós, aos Portugueses e Espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia e que os não tenhais.
Começo pelo primeiro contacto que tive com a obra do Padre António Vieira e que veio a revelar-se experiência pouco gratificante. A imagem que eu então tinha construído era a de um homem diferente, muito para além do seu tempo, superior aos constrangimentos do contexto histórico. Confesso que fiquei desiludida.
É certo que se trata de um discurso inflamado, enérgico, profundamente galvanizador, de uma forma diferente de falar com Deus, inusitada, atrevida, por vezes refrescante. Não deixa, contudo, de ser um produto da época: demonização do inimigo e apelo à intolerância religiosa, quiçá carecendo de maior honestidade intelectual, porque manipulador e de argumentação fácil. Tudo estaria bem, não fosse este padre estar a falar em justiça, verdade e paz.
Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética.
Vieira, para além de fabuloso prosador, é um notável pensador, mas estes factos não o impedem de ser um homem prático, porque... " as acções de cada um são a sua essência". (S, 1, 212). Castela
¶ 1:10 AM
Segunda-feira, Maio 05, 2008
sermões e igrejas
A Igreja de S. Roque foi mandada edificar pelos Jesuítas, em 1553, no lugar da ermida com o mesmo nome. A confraria só aceitou vender a ermida à Companhia de Jesus na condição de ficarem com uma capela dentro da nova igreja. Após vários riscos, o que acabou por ser concretizado foi o do arquitecto régio Afonso Álvares, plano de nave única com capelas laterais comunicantes, austera e com luz seguindo as recomendações saídas da Contra-Reforma, que pretendiam criar espaços para cativar toda a atenção dos fiéis. A igreja, construída na época maneirista, mostra no seu interior as paredes laterais divididas em dois sectores: o térreo, composto por capelas interligadas, e o superior, rasgado por janelas de rectangulares balaustradas, intercaladas nos vãos por telas pintadas. A capela-mor, com pouca profundidade, ostenta belíssimo retábulo maneirista, bem adaptado na arquitectura, ladeado por dois nichos que albergam pequenos altares e são encimados por quatro janelas (duas de cada lado). Do excelente efeito plástico resultante dos contrastes provocados pelo branco do cálcario, dos elementos estruturais e dos revestimentos de talha e pinturas, ressalta a graciosidade e harmonia do interior do templo. Ainda na nave existem dois púlpitos em pedra, num dos quais pregou o Pe. António Vieira, com escultura reforçando a beleza deste templo.
Para se ler a Mensagem de Fernando Pessoa, já sabemos, precisamos de entender os símbolos, os que estão nesse livrinho que teve direito a um segundo lugar num concurso literário cujo nome não me recordo. Para chegar ao entendimento desses símbolos precisamos também de algumas qualidades: a simpatia, a intuição, a inteligência, a compreensão e... a graça.
Na verdade pelo mesmo livrinho só circulam aqueles seres 'iluminados', os que deixaram a marca definitiva nisto que vamos chamando ser português, mesmo que não saibamos o que isso seja. António Vieira está lá na limpidez total da língua. Porque não nos enganemos, com Vieira é sobretudo uma questão de língua e do papel social da literatura.
O céu 'strela o azul e tem grandeza. Este, que teve a fama e à glória tem, Imperador da língua portuguesa, Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar, Constelado de forma e de visão, Surge, prenúncio claro do luar, El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo. É um dia, e, no céu amplo de desejo, A madrugada irreal do Quinto Império Doira as margens do Tejo.
Sermão aos peixesO incontornável Sermão aos Peixes é (também) para mim o ponto de partida.
Contextualizado, foi proferido aos fiéis do Maranhão, antes da sua ida (oculta) para Portugal, que visava intervir no estabelecimento de legislação em defesa dos indígenas brasileiros. Voltaria com as leis concretizadas, mas seria expulso do Brasil por tentar que fossem aplicadas.
As coisas não mudaram muito, pois não?
E já agora, um momento de lazer. Um pequeno excerto musical inspirado no Sermão aos Peixes.
Sermão de Stº António aos Peixes - O inicio "Corrupção"
O Sermão de "Santo António aos peixes" foi proferido no maranhão em 1654. A palavra Corrupção a que Padre António Vieira se refere no inicio deste sermão (no sec XVII) não tem própriamente o mesmo significado que tem hoje em pleno sec XXI. Mas podemos pegar no inicio do sermão e ler com o conceito que temos hoje: crimes essencialmente económicos "apropriação de bens alheios em proveito próprio", "embuste", "tráfico de influências". Deixo o primeiro paragrafo deste sermão, e com facilidade se pode fazer um paralelismo com a realidade actual do nosso país.
" Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção , mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela, que têm o ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porquê a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhes dão, a não querem receber: Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uã cousa, e fazem outra , ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem: Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal."
As mentalidades em Portugal teimam em evoluir muito devagar, ou continuam muito parecidas.
Um pouco mais à frente, "E à terra, que se não deixa salgar, que se lhe há de fazer? Este ponto não resolveu Cristo Senhor nosso no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande Português S.António"
E agora, podem continuar a descobrir o que nos diz o Padre Vieira.
Defensor dos injustiçados, voz severa contra os abusos de toda a espécie, corajoso a enfrentar os poderosos, despreocupado com o sucesso material, o Padre António Vieira foi um raro exemplo de quem vive como prega. Incansável, atravessou sete vezes o Atlântico, fez milhares de quilómetros a pé ou de piroga através do Brasil, viajou por vários países da Europa, viveu o desconforto e a doença, foi perseguido pela sua heterodoxia. Talvez a minha seja uma visão romanceada, mas vejo-o como um homem audaz, inteligente e sensível, um patriota e um humanista (ao mesmo tempo, teimoso e incauto, talvez até um pouco alucinado), merecedor de figurar por entre os seres humanos exemplares que nos servem de referência.
Padre António Vieira foi um homem genial que teve uma existência fascinante. Vale a pena tentar conhecê-lo um pouco melhor.
Notas biograficas e obra No site do Ano Vieirinho pode encontrar-se uma página com uma interessante lista de notas biográficas e correspondentes obras associadas.
Além das notas biográficas, surgem algumas contextualizações históricas que certamente auxiliarão a leitura.
E eu estudei ( e de certa maneira ainda estudo) onde ele esteve desterrado a partir de 1663, no Colégio de Jesus, e que é agora o Departamento de Ciências da Terra da universidade de Coimbra. Em 1665 esteve encarcerado na Inquisição de Coimbra num espaço, que é também um pátio do meu agrado.
"Os portugueses têm um pequeno país para berço e o mundo todo para morrerem."
Retrato do Padre António Vieira, de autor desconhecido do início do sec. XVIII
No passado dia 6 de Fevereiro, completaram-se 400 anos sobre o nascimento do Padre António Vieira, missionário jesuíta do sec. XVII, figura maior das Letras e da História portuguesas. Ao longo de 90 anos de vida, o Padre António Vieira constrói uma obra monumental, na qual sobressaem, entre outros, 200 sermões e 700 cartas. 2008 É ANO VIEIRINO e o Leitura Partilhada associa-se às comemorações.
ainda não estou preparada para deixar o Manual ou ALA. Falta-me tanto. Quero rever as personagens, ver no papel todas as ligações e repensá-las devagar, muito devagarinho.
para fechar com chave de ouro: temos um grande vencedor
é verdade, o prémio que oferecemos nesta página já tem dono. Trata-se de Pedro Guilherme-Moreira, que não deu hipóteses à concorrência. Assim:
É AMOR
Porque não há nada que goste mais senão ler sobre Lobo Antunes, mais ainda que lê-lo, não posso perder a oportunidade de ser iluminado por um livro que nem sequer conhecia e cuja propriedade potencial já me está a embriagar.
E porque o quero mesmo, vou ser por uma vez sincero, usando aquela sinceridade sem artifícios ou tácticas de auto-depreciação, e essa sinceridade é coisa que intelectualmente é quase impossível, porque convém sempre disfarçar a sabedoria de ignorância e a vaidade de modéstia.
A minha sinceridade leva-me a confessar que o compreendo tão profundamente quanto me sinto pensando da mesma forma. Lobo Antunes não faz nada de extraordinário, mas tem o mero de o ter feito em português de uma forma inaugural. Se se reparar, o António acaba por repetir fórmulas e recursos, mas o facto é que nunca considerei que na literatura a diversidade fosse um mérito. Não me espantou que o vaidoso do João Pedro George não tivesse pegado no António para explanar a sua tese do auto-plágio. É que criticar Lobo Antunes não granjeia respeito entre os pares, e criticá-lo seriamente, então, está fora de causa. Claro que Lobo Antunes tem o mérito de cada crítica que lhe é dirigida poder ser utilizada negativa e positivamente.
Ele sabe, e transpira, e eu acho-o, radicalmente egoísta. Mas a verdade é que não escreveria como escreve se o não fosse. Complementarmente, quem estiver atento (e não é preciso estar muito atento) sabe que ele é de humanidade desarmante. Aliás, Lobo Antunes dá-se (deu-se) a críticas ignorantes. É muito fácil dizer que não é acessível, que é críptico, mesmo sem ler. É muito fácil dizer que é lunático, antipático e anti-social sem sequer olhar dez segundo seguidos para ele. Mais difícil é dizer que a sua escrita é simples e com um vocabulário acessível. Uma verdade. E que dá vontade de ser amigo dele e ficar à conversa calado durante duas horas na pastelaria onde ele vai comer uma torrada todos os dias, e depois abraçá-lo no fim só para ele dizer o nosso nome: Adeus, Pedro.
Portanto, sou sincero se te disser que Lobo Antunes me é complementar e fácil, mas quanto à escrita, bom, essa não é exemplo para ninguém, apenas um desafio para todos. Um escritor, e eu sou um escritor, come relva para escrever diferente e melhor, mas Lobo Antunes está lá, na génese, na raiz.
Do ponto de vista de um livro, o que é melhor, o escritor ou a página em branco?
Obviamente não poderiam existir um sem o outro. Não há virtuosismo sem um vazio pré-existente, não há excelência sem mediocridade.
Mas o que realmente faz de Lobo Antunes um desafio fundamental é a consciência de que o esforço de o perceber é o esforço que todos devíamos fazer todos os dias para entendermos o nosso próximo.
E como nos julgamos sumariamente uns aos outros todos os dias, sem qualquer esforço de compreensão, assim fazem muitos dos que violentam a bondade e simplicidade da escrita de Lobo Antunes com o desprezo do escritor difícil.
É difícil como o é uma pessoa, é simples como o é uma pessoa.
É, afinal, amor, necessariamente ódio em contraponto, mas sempre amor.
Pedro Guilherme-Moreira
Sinto que este exemplar não podia ir para melhores mãos - um livro de que gosto profundamente. Um livro que comprei mal foi publicado, e de que me ofereceram uma cópia alguns dias depois. Está muito bem entregue, final feliz.
"(...) a sua [do ministro] frase fica em suspenso, porque eu próprio não sei muito bem o que estaria na sua cabeça. (...) No fundo todos os romances ficam suspensos, todos."
António Lobo Antunes in Escrita em Dia, SIC, 1996, com Francisco José Viegas
"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)
"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)
"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)
"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)
"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)
"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)
"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)
"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)
"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)
"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)
"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)
"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)
"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)
"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)
"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)
"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)
"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)
"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)
...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)
UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)
"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)
"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)
Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)
"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)
"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)
"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)
"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)
"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)
"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)