Leitura Partilhada
domingo, julho 31, 2005
 
 
 
 
 
 
  Pela arte, o absoluto
Até ao Tempo Reencontrado, Marcel afigura-se-nos preguiçoso, enfastiado, perdido nos seus convívios superficiais, debatendo-se de forma constante com a incomodidade de não conseguir a dedicação à literatura de que gostaria. Olhando em redor, morre de tédio, parecendo não conseguir ver nada de válido, nem encontrar as palavras adequadas.

Ele medita aturadamente sobre a criação artística, criticando de forma dura a objectividade do realismo. Aliás, ao longo de toda a obra, as referências à arte são inúmeras, riquíssimas: música (Saint-Saens, Borodine, Strauss, Rameau, Debussy,…), pintura (Carpaccio, Munkacsy, Delacroix, Rembrant, Botticelli, Giotto, Corot, Poussin,…), literatura (Gogol, Madame de Sévigné, Choderlos de Laclos, Tolstoi , Gide, Balzac, Barbey d´Aurevilly, Saint-Simon, Thomas Hardy, Stendhal, Shakespeare, George Sand, Baudelaire, Claudel, Dostoievski,…).


(“Vista de Delft”, de Vermeer, que Proust considerava ser a mais bela obra de arte do mundo)

Enfim, chega à conclusão de que a arte, missão da sua vida, é o que lhe permitirá contrariar a inevitabilidade da degradação. Assim, iniciará uma clausura de 13 anos, para lançar mãos a esta obra abismal e que irá terminar, precisamente, no ano em que morre (há pessoas que têm uma excepcional noção dos timings!…). A Recherche acaba por ser uma profunda meditação ontológica: como encarar a existência? qual o seu sentido? onde está a verdade? o que é a realidade? como transpor a precariedade? como lidar com a angústia da finitude? Com a arte, Marcel acredita poder vir a tocar na essência, atingindo a verdade. E nada será mais importante. O que poderá justificar uma existência? A arte. Só ela consegue ultrapassar o ilusório, o aparente, o efémero. O homem reencontra o tempo, entra em recolhimento, fecha-se ao mundo e vive a sua experiência do absoluto.

azuki
 
  Retrato
Eu não tinha esse rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo
eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas
eu não tinha este coração que nem se mostra
eu não dei por esta mudança tão simples, tão certa, tão fácil
em que espelho ficou perdida minha face?

Cecília Meireles

azuki
 
  Basta semicerrar os olhos
Ler Proust é fazer uma viagem inesquecível dentro do labirinto da nossa mente. Acompanhar o seu raciocínio é desvendar o nosso próprio processo de pensamento, é descobrir os meandros, é encontrar as possibilidades e as negações. É incrível como ele consegue mostrar-nos o nascimento de uma sensação, a maturação de um sentimento, a evolução de uma ideia, o valor de uma impressão. Nós não estamos atentos a estes fenómenos, não temos tempo para colocar perguntas, fazer especulações e aprofundar sentidos; pura e simplesmente temos outras coisas para fazer. E passamos adiante, a vida é um tropel e não podemos demorar meia hora em lucubrações que não nos dão respostas favoráveis. É melhor pensar a direito, dá menos trabalho; além disso, a cogitação no século XXI não rende. Quem quer aprofundar o pensamento, seu ou dos outros, e encontrar o que não gosta? E ser confrontado? Não é nada útil na cultura do hedenismo desenfreado em que vivemos. Ao mostrar-nos a sua profundidade, Proust obriga-nos a ver, a reconhecer, a questionar tudo, num paralelismo consigo, e leva-nos a mostrar a nós próprios a nossa essência, presente em tudo o que foi a nossa vida, seja ela boa ou má. É um processo duro mas frutuoso, porque passamos a conhecer o nosso amâgo de uma forma nunca antes alcançada e acabamos por conseguir ler o muito que tínhamos deixado ao longo do tempo. Ao conseguir fazer-nos relembrar cada momento do nosso passado, Proust dá-nos uma matéria viva que nos enriquece e nos motiva. E esta conquista será nossa para sempre. Com ele aprendemos que aquele minúsculo fragmento do tempo que julgávamos perdido, está, afinal, bem vivo dentro de nós. Basta semicerrar os olhos.

Troti
 
 
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?


Eugénio de Andrade

Bom dia!!
azuki
 
  Chegar ao fim
desta Busca do Tempo Perdido é gratificante. Não vou gritar de alegria (Acabamos o Ulisses!!! Acabamos o Ulisses!!!). Não planeio reler - bom, quando um dia entrar em fase de releituras, poderei ser capaz de reler este último volume, mas não a obra toda.

A alegria de chegar ao fim, para lá de ter atingido o objectivo, de ter engrossado a biblioteca, está intimamente ligado à monumentalidade da busca encetada, e ao resultado do reencontro do tempo.

Continuo a achar pesada a opção de Proust para a construção da obra, a falta de síntese, as páginas intermináveis... mas o que é certo é que Proust justifica tudo, faz com que tudo tenha sentido, prova que este era o caminho. E, ao chegar ao fim, faz-me sentir melhor, com energia e mais um sorriso. É um final galvanizador, curioso, como se fosse possível sermos surpreendidos por algo que estamos à espera.

É possível.

leitora
 
sábado, julho 30, 2005
  CONCEPÇÃO
“Mas, voltando ao meu caso, eu pensava mais modestamente no meu livro, e seria até inexacto dizer que pensava nos que o leriam, nos meus leitores. Porque, a meu ver, eles não seriam meus leitores, mas leitores de si mesmos..., seria o meu livro, mas um livro graças ao qual eu lhes forneceria uma maneira de lerem em si mesmos. De modo que não lhes pediria que me louvassem ou me denegrissem, mas apenas que me dissessem se é mesmo assim, se as palavras que lêem dentro de si mesmos são de facto aquelas que eu escrevi.”
Pág.361/362

Eu sinto que, muitas delas, são.

Troti
 
  GÉNESE
“Por fim, esta ideia do tempo tinha para mim um derradeiro valor, ela era um aguilhão, dizia-me que era tempo de começar se é que queria alcançar o que por vezes sentira no decurso da minha vida, em breves relâmpagos, do lado de Guermantes ou nos meus passeios..., e que me fizera considerar a vida digna de ser vivida. Quanto mais digna de ser vivida ma parecia agora, agora que achava que ela, antes vista no meio das trevas, podia ser iluminada, podia ser reconduzida à sua verdade depois de constantemente falseada, podia ser enfim realizada num livro! Como aquele que fosse capaz de escrever esse livro se sentiria feliz!, pensava eu; que trabalho à sua frente! Para fazer uma ideia seria preciso recorrer a comparações com as artes mais elevadas e mais diversas; porque esse escritor...devia preparar o seu livro com toda a minúcia, reunindo constantemente as suas forças como numa ofensiva, deveria suportá-lo como uma fadiga, aceitá-lo como uma regra, construí-lo como uma igreja, segui-lo como um regime, vencê-lo como um obstáculo, conquistá-lo como uma amizade,, sobrealimentá-lo como uma criança, criá-lo como um mundo..."
Pág.361


E foi o que Proust fez.

Troti
 
  Enfim, reencontrado
Neste sétimo volume, Proust faz um esboço claro dos objectivos da sua obra, desvenda todos os mistérios, ata todas as pontas soltas. Define o que é arte, o que é um verdadeiro livro, o que os leitores devem encontrar. Se os volumes anteriores são na maioria as narrativas das festas de sociedade (por regra duas festas em cada volume), este é o prémio dos resistentes. Li-o com emoção, com arrebatamento.

Nada o faria esperar, depois de seis volumes que não achei envolventes nem entusiasmantes - li-os com o desejo de ver o resultado, de descobrir a volta que Proust dava a tanto material social. E havia a questão do tempo, que muito me intriga, e que fui esperando ver analisado por Proust, um escritor que ao longo de toda a obra exibe a sua inteligência e capacidade de observação.

Chegando ao fim, estou feliz, valeu bem a pena. Superou, até, as minhas expectativas.

A quem ainda não leu a Recherche, deixo um aviso: só merece, e de facto só recebe, a oferenda do último volume, quem resistir, quem fizer todo o percurso. Esta obra precisa, também, de tempo, tem de ir amadurecendo no leitor. (Ou será o leitor que amadurece com ela?)

leitora
 
  Para (re)encontrar o tempo, há que perdê-lo
Na Recherche, romance retrospectivo de estrutura elíptica, que acaba precisamente onde começa, estão sempre presentes o mundo social (a conduta da aristocracia e da alta burguesia, com os seus banquetes, chás e festas) e o amor e os seus logros (o ciúme, a ausência, a saudade, a mentira, as maquinações,…). À primeira vista, até se diria ser uma extensíssima monografia sobre as frivolidades da vida mundana. Mas é mais, muito mais, até porque todas estas não deixam de ser, para o narrador, formas de perder o tempo, actividades menores (o amor, por exemplo, perde todo o seu encanto quando comparado com a escrita). Porque é tudo aparente, oco, superficial, não nos conduz à percepção da verdade… No entanto, nunca lhe teria sido possível escrever esta obra sem, porventura, ter perdido o tempo… Ou seja, perder o tempo acaba por ser ganhá-lo….

Desta leitura, fica-me um álbum de retratos da memória afectiva, que passa necessariamente pelo tempo, pelo amor, pela ausência. Fica-me o grande poder da impressão (memória involuntária), a força tremenda de um cheiro, uma paisagem, um sabor, um toque. Fica-me o homem no centro do seu mundo.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.

Álvaro de Campos

azuki
 
  Dispersão (EXCERTO)
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(..)

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...


Mário de Sá Carneiro

azuki
 
  Para ser grande, sê inteiro
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Bom dia!!
azuki
 
sexta-feira, julho 29, 2005
  Olhar para as estrelas

Nenhuma experiência subjectiva é replicável. Não é replicável de indivíduo para indivíduo, nem, tão-pouco, num mesmo indivíduo. Ao contrário do que Proust parece dizer-nos, é impossível recuperar, de forma exacta, todo o quadro emocional e sensorial de outrora, ainda que através da memória involuntária. Aquele que somos Hoje irá, necessariamente, filtrar essas vivências passadas com todo o esquema mental que foi desenvolvendo até ao momento (Einstein diz que a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original). Admito que, por se tratar de um frémito estranho e incontrolável, que nos faz recuar ao passado de uma forma tão vívida, essa recuperação também não seja feita com o Eu de Hoje. Mas, é um facto que, segundo a segundo, nos vamos modificando.

Nesta longa reflexão sobre o processo de organização mental e as representações subjectivas do mundo, Proust refere não utilizar o microscópio, mas sim o telescópio. Ele olha para as estrelas. Aquelas que estão dentro. E espera que, através da sua obra, também nós consigamos olhar para as nossas próprias estrelas.

azuki
 
 
«Sentia a vertigem de ver tantos anos abaixo de mim, mas em mim, como se tivesse léguas de altura.» (p. 377)

Todos os eus, todos os presentes, todas as vivências, em camadas, vivas na memória. De facto, só esta clarividência justificaria o envelhecimento.

leitora
 
  Proust regained
by Daniel Mark Epstein

Our journalists are increasingly inclined, or seem obliged, to call A la recherche the greatest novel of the twentieth century, taking their cue perhaps from Graham Greene’s comment that “Proust was the greatest novelist of the twentieth century, just as Tolstoy was in the nineteenth.”
But the consensus is mystical, mired in longing and embarrassed ignorance. I was happier when they were calling Ulysses the greatest, though I prefer Proust to Joyce, because that sounded more sincere. I do not know personally ten people who have read Proust’s novel whole, and yet the work cannot really be appreciated any other way. Like a cathedral, it must be seen from all points of the compass, and from inside and out, to understand its perfections. The second-best read man I know has not read A la recherche (though he has enjoyed the first volume, Swann’s Way) for the compelling reason that he has not had time to study its four-thousand pages. They are not for speed reading. At twenty pages per hour, the trip takes two-hundred hours. In that time you might peruse War and Peace, The Brothers Karamazov, Bleak House, and Middlemarch, and still have time left over for several James novellas. No one is advised to read Proust’s masterpiece before those other books.
Most well-educated people have not finished A la recherche for the same reason that most well-traveled people have not visited Antarctica: it is a long and expensive journey of uncertain value. Reports are unreliable. Whom do we trust to advise us to go or stay home? No one who has really been there wants to think he has wasted his time. So he will lavish upon the remote continent the most extravagant praises, sure that no one at the party will protest, calling Proust the Rembrandt, the Beethoven, the Einstein of prose fiction, praises befitting the effort of the journey. Those who have given it up in mid-career, like Aldous Huxley, returning with tales of disappointment and disgust, are even less to be trusted. They have not been there. So we bide our time, hoping for the leisure to read Proust, all of his mysterious novel, and find out things for ourselves. And, if life is generous, the time comes while one still has the eyesight and concentration to appreciate the peaks and caverns of this rangy masterpiece



Troti
 
  Todo o tempo é de poesia
Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.


António Gedeão

azuki
 
 
Nada é mais limitado que o prazer e o vício.

Mas algum vício, e o maior de todos, a falta de vontade que não deixa que se resista a qualquer deles…


Bom dia!!
azuki
 
quinta-feira, julho 28, 2005
 
“Então eu, que desde a infância vivia o dia-a-dia, e que além disso formara de mim próprio e dos outros uma impressão definitiva, apercebia-me pela primeira vez, pelas metamorfoses que se tinham produzido em toda aquela gente, do tempo que por ela havia passado, o que me transtornou com a revelação de que passara igualmente para mim.”
Pág.250

...

É assim que aquilo que avistamos no horizonte assume uma grandeza misteriosa e nos parece fechado sobre um mundo que não tornaremos a ve; mas, entretanto, avançamos e não tardaremos a ser nós a estar no horizonte para as gerações que se situam atrás de nós; entretanto o horizonte recua, e o mundo, que parecia acabado, recomeça.”
Pág.253

...

Mas uma razão mais grave explicava a minha angústia; descobria aquela acção destruidora do tempo no preciso momento em que queria começar a tornar claras, a intelectualizar numa obra de arte, certas realidades extratemporais."
Pág.254


Troti
 
 
«Em novo, era dotado de facilidade, e Bergotte achara as minhas páginas de estudante "perfeitas". Mas, em vez de trabalhar, vivera entregue à preguiça, à dissipação dos prazeres, à doença, aos tratamentos, às manias, e realizava a minha obra em vésperas de morrer, sem saber nada do meu ofício. Já não sentia forças para enfrentar as minhas obrigações para com as criaturas, nem os meus deveres para com o meu pensamento e a minha obra, e menos ainda para com ambos.» (p. 370)

Acabou por ser a tomada de consciência do tempo irremediavelmente perdido que despoletou todo o trabalho. Que teria acontecido se Proust tivesse "despertado" mais cedo? Uma Recherche com 397 volumes, como alguém sugeriu? Ou uma obra menos maturada, menos conseguida, perseguida ao longo da carreira?

leitora
 
  Há certas personagens que, por si só, bastariam para nos apaziguar com uma obra
A Françoise (…) acabara por acreditar, ela, uma pessoa de tanta moralidade e tão cheia de preconceitos, que aquele era um costume cuja universalidade o tornava respeitável. Há certas personagens que, por si só, bastariam para nos apaziguar com uma obra. É o caso do postal da Françoise (quem disse que Proust não tem espírito?): Quanto à Françoise, o seu ódio aos Alemães era extremo; um ódio apenas temperado pelo que lhe inspiravam os nossos ministros. E não sei se desejava com maior ardor a morte de Hindenburg ou a de Clemenceau.

Recordo-me do inenarrável tio, num dos mais excruciantes livros que, infelizmente, me foram dados a conhecer: "Sinais de Fogo", de Jorge de Sena. Como é possível gostar deste livro, quer do ponto de vista do conteúdo, quer da forma, faz parte dos mistérios da minha existência. Por voltas e mais voltas que dê à cabeça, por mais que tente transportar-me para aquele contexto e abstrair-me do meu género, simplesmente, não consigo atingir o porquê dos inúmeros elogios que lhe são feitos. O que existe naquele livro para se gostar, para além do tio e dos poemas?? riverrun: teria sido importante ouvir as explicações de António Mega Ferreira. Fico com a esperança de que te aventures a lê-lo no mês de Agosto e que possas vir a esclarecer-me. Talvez eu mude de ideias e deixe de me sentir uma extraterrestre.

azuki
 
 
Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

Fernando Pessoa

Bom dia!!
azuki
 
quarta-feira, julho 27, 2005
  Momentos únicos, íntimos, irreplicáveis
Esta obra é uma monumental descrição da forma como se desenrola o processo da tomada de consciência do mundo pelo Eu. Um longo processo de descodificação do nosso próprio processo de descodificação. Proust fala-nos da percepção que cada um tem da existência, que é subjectiva e, por isso mesmo, individual e única. Não há duas pessoas que experimentem algo de forma absolutamente idêntica. Por isso, uma nota de música vai ser mais do que uma nota de música. Ela é todas as vivências íntimas que desencadeia em todos os indivíduos que a ouvem. O objecto está lá, mas será tantos, quantas as pessoas que o apreenderem.

É extraordinário conseguirmos, como leitores, entrar na cabeça de alguém, nesses momentos únicos, íntimos, irreplicáveis. E, como é sempre magnífico percorrer os nossos amores, não resisto à tentação de transcrever aquele que sabemos ter sido o primeiro grande exemplo de monólogo interior da história da literatura:

...I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes. (“Ulisses”, J. Joyce)

azuki
 
 
“A beleza das imagens situa-se na retaguarda das coisas, e a das ideias à frente. E, assim, deixamos de nos maravilhar quando as atingimos, mas só compreendemos a segunda depois de as ultrapassarmos.”
Pág238

Troti
 
 
«Os nossos maiores temores, como as nossas maiores esperanças, não estão acima das nossas forças, e podemos acabar por dominar uns e realizar as outras.» (p. 364)

Assim evoluiu Marcel, ganhou confiança com a idade. Ou com a obra feita; esta frase não faria sentido num dos anteriores volumes, em que Marcel ainda se debatia com as suas incertezas e a sua tremenda inactividade/preguiça/distracção. Tão diferente é o discurso de um vitorioso, a posteriori.

leitora
 
 
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Bom dia!!
azuki
 
terça-feira, julho 26, 2005
 
“Não há hora da minha vida que não tenha servido para me ensinar que só a percepçãp grosseira e errónea situa tudo no objecto, quando tudo está no espírito...”
Pág.231

Troti
 
  os meus leitores
«A meu ver, eles não seriam os meus leitores, mas leitores de si mesmos, e o meu livro seria apenas como que uma daquelas lentes de aumentar igual às que o oculista de Combray propunha ao comprador; seria o meu livro, mas um livro graças ao qual eu lhes forneceria uma maneira de lerem em si mesmos.» (p. 362)

Eu encontrei a lente no neste último volume da Recherche; nos seis volumes anteriores nem tanto. Se este volume é de uma lucidez tremenda, os anteriores mostram o percurso, e exigem leitores teimosos ou resistentes. Chega-se ao sétimo volume, reencontra-se o tempo, e tudo faz sentido, tudo é demonstrado.

leitora
 
  Marcel Proust sur son lit de mort (20 novembre 1922)


Man Ray (Emmanuel Rudnitsky, dit)
Epreuve sur papier au gélatino-bromure d'argent, 15 x 20 cm.
Paris, Musée d'Orsay, PHO 1986-61


Installé à Paris depuis un an, le photographe américain Man Ray ne savait pas qui était Marcel Proust quand Jean Cocteau lui demanda de la photographier sur son lit de mort, dans sa chambre de la rue Hamelin, le surlendemain de son décès. Man Ray faisait quelquefois ce genre de cliché, non sans déplaisir. D'après le photographe, il n'y eut que trois tirages originaux : un pour sa famille, qui refusa toute communication du cliché à la presse, un pour Cocteau et un pour l'auteur. "Le visage de Proust était blanc mais il avait une barbe noire de plusieurs jours.", raconta-t-il dans ses souvenirs. Ce beau cliché donne une forte présence au visage que l'on avait si souvent qualifié d'assyrien, au profil sombre, à la paupière incomplètement abaissée, en contraste avec la blancheur et la souplesse des lignes. Le 22 novembre, après un office à Saint-Pierre de Chaillot, avec les honneurs militaires qui étaient dus au chevalier de la Légion d'honneur, Marcel Proust fut enterré au Père-Lachaise. Ses amis étaient venus très nombreux.

riverrun
 
  A filosofia do Homem comum e suas pérolas: problemática da “enverjadura”
Diz Gramsci que todos os Homens são filósofos. De facto, na mais elementar manifestação de acto intelectual do Homem encontra-se já uma concepção sobre a vida, que nasce da tomada de consciência da dualidade eu/mundo, sendo que a transformação deste será tanto maior, quanto mais profunda for a reflexão que dele se faz (a propósito, com os nossos dois aninhos de Leitura Partilhada, acho que Piaget consideraria estarmos a ultrapassar o estádio sensório-motor, não é assim? já percebemos que o mundo é uma entidade diferenciada, deixamos de gatinhar e gostamos muito de palrar..). Contudo, muito embora cada indivíduo disponha de capacidades de interrogação, nem sempre as utiliza de forma crítica. Ao nível do senso comum, a problematização tem ainda um carácter superficial e espontâneo, e visa dar resposta às interrogações ligadas ao quotidiano; corresponde a conhecimentos imprecisos e ambíguos; está impregnada de preconceitos, tradições, crenças, folclore,…. Trata-se, por isso, de um conhecimento não-metódico e insuficientemente crítico, dificultando a separação dos conteúdos objectivos da carga emocional e afectiva que os acompanha. E, às vezes, aparecem verdadeiras pérolas como esta:

E, como a guerra lançara no Mercado das conversas das pessoas do povo uma quantidade de termos que elas só conheciam de vista, pela leitura dos jornais, e cuja pronúncia, por conseguinte, ignoravam, o mordomo acrescentava: “Não sou capaz de entender como o mundo é louco a este ponto. Vai ver, Françoise, eles estão a preparar um novo ataque de maior enverjadura que todos os outros”. Quando eu me insurgi, se não em nome a piedade pela Françoise e do bom senso estratégico, ao menos da gramática, e quando declarei que se devia pronunciar “envergadura”, o que ganhei foi fazer com que ele repetisse à Françoise a terrível frase sempre que eu entrava na cozinha, porque o mordomo sentia-se feliz, quase tanto como em assustar a colega, em mostrar ao patrão que, embora fosse um antigo jardineiro de Combray e simples mordomo, era bom francês segundo a regra de Saint-André-des-Champs, mas retirava da Declaração dos Direitos do Homem o direito de pronunciar “enverjadura” com toda a independência e de não deixar que mandassem nele num ponto que não fazia parte do seu serviço e em que, por consequência, desde a Revolução, ninguém tinha nada a dizer-lhe, visto que era meu igual.

azuki
 
 
Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...
Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...

Eugénio de Castro

azuki
 
  As pessoas lêem os jornais como gostam, com uma venda nos olhos.
Bom dia!!
azuki
 
segunda-feira, julho 25, 2005
  O Deus do Tempo (revisitando Joyce)
Este nosso Leitura Partilhada anda a precisar de uma cor. Por isso, a propósito do tempo, aqui vos deixo Goya (mais uma vez), um dos meus pintores predilectos (Prado, Prado, tenho saudades,..) e o seu impressionante “Saturno devorando um filho”. Afinal, se os filhos perdurarem, o Deus do tempo deixa de o ser…

Para quem apreciar um estilo mais… redondo… fica o modelo em que Goya se inspirou, de Rubens. Fantástico.


É um novo macho; o seu crescimento representa o declínio do pai, a sua juventude a inveja do pai, o seu amigo o inimigo do pai. ("Ulisses", J. Joyce)

azuki
 
 
«Quantas grandes catedrais permanecem inacabadas!» (p. 361)

A obra só começa ao sétimo volume, tanto foi o tempo perdido. Proust decerto temeu que a catedral que tanto idealizou e planeou não chegasse a tomar forma. Eu, ao longo da obra, ia pensando "calma, se a obra está nas minhas mãos, Marcel terá chegado a bom porto".

Procurando o eu no livro, quantas catedrais permanecem inacabadas? E será que após o tempo perdido, sempre imenso, conseguirei chegar a bom porto?

leitora
 
  Baile de Máscaras
Desprende-se uma terrível melancolia: é que entrei um dia no carro e olhei o rosto do meu pai; pela primeira vez pareceu-me envelhecido, como se nunca antes tivesse reparado na teia de rugas e na pele escurecida pelo mar e pelo tempo. Olho-o com mais atenção: seria possível que, até àquele momento, o continuasse a ver com a mesma idade que agora eu tenho? Parece-me que esta inesperada lucidez prenuncia outras, bem mais dolorosas; e começo a espreitar-me ao espelho, em busca da inevitável decadência. É uma fina ruga que me desenha agora o olhar? E a linha que me define a face, será ainda a mesma? O que é este cansaço que me assola no mudar das estações?
Olho em redor e já não sei se não me encontro num baile de máscaras, transformada pelo Tempo, sem saber se reconheço quem quer que seja.
nastenka-d
 
 
“...a felicidade, tem quase uma só utilidade, que é a de tornar a infelicidade possível...Se não tivéssemos sido felizes, quanto mais não seja em esperança, as infelicidades não seriam cruéis e, por consequência, não dariam frutos.
Pág.229

“Os anos felizes são os anos perdidos...”
Pág.231


Troti
 
 
“Uma mulher de quem sentimos necessidade, que nos faz sofrer, arranca-nos sentimentos muito mais profundos, muito mais vitais, que um homem superior que nos interessa.”
Pág.229

Troti
 
 
“...a felicidade é salutar para o corpo; mas é o desgosto que desenvolve as forças do espírito...
...
deixemos que o nosso corpo se desagregue...

...
As ideias são sucedâneos dos desgostos; no momento em que estes se transformam em ideias, perdem uma parte da sua acção nociva sobre o nosso coração...”

Pág. 228

Troti
 
  Tudo o que é importante deveria ser inadiável
Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa

Bom dia!!
azuki
 
domingo, julho 24, 2005
  Ama como a estrada começa (Mário Cesariny)
azuki
 
 
“Então, menos resplandecente, por certo, que a que fizera ver que a obra de arte era o único meio de reencontrar o Tempo Perdido, uma nova luz se fez em mim. E comprrendi que todos estes materiais da obra literária eram a minha vida passada; compreendi que tinham vindo até mim nos prazeres frívolos, na preguiça, na ternura, na dor, que os armazenara tanto lhes adivinhando o destino, ou até a sobrevivência, como a semente ao guardar a reserva de todos os nutrientes que haverão de alimentar a planta. Tal como a semente, eu poderia morrer quando a planta se desenvolvesse, e verificava que, sem o saber, tinha vivido por causa dela...”
Pág.220/221

Troti
 
 
«Num livro que quisesse contar uma vida, seria preciso utilizar, ao contrário da psicologia plana habitualmente utilizada, uma espécie de psicologia no espaço, acrescentavam uma beleza nova a essas ressurreições que a minha memória ia operando enquanto refletia a sós na biblioteca, visto que a minha memória, ao introduzir o passado no presente sem o modificar, tal qual ele era no momento em que era presente, suprime precisamente essa grande dimensão do Tempo segundo a qual a vida se realiza.» (pp. 359/360)


E sendo que todas as obras querem contar pelo menos uma vida, Proust deixa-nos a bitola. Revolução.

leitora
 
  Canção
Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...


Cecília Meireles

azuki
 
sábado, julho 23, 2005
 
«De resto, que pessoas teremos nós conhecido que, para podermos contar a nossa amizade com elas, não nos obriguem a situá-las sucessivamente em todos os mais diversos lugares da nossa vida?» (p. 358)

1. Aqui está parte da lógica da longa Recherche: impossível amputar vidas, fases, personagens; tudo tem de ser retratado com calma e pormenor, sob pena de não poder ser conhecido.

2. De facto, as pessoas que melhor conhecemos impregnam toda a nossa vida, tanto a partilhada com elas, como o antes e o depois; definem o sentido, a ponderação, toda a nossa postura.

leitora
 
 
“os verdadeiros livros devem ser filhos, não da plena luz e da tagarelice, mas da obscuridade e do silêncio. E, como a arte recompõe exactamente a vida, em redor das verdades que atingimos em nós mesmos flutuará sempre uma atmosfera de poesia, a doçura de um mistério que é apenas o vestígio da penumbra que tivemos que atravessar...”
Pág.219

Troti
 
 
“...o meu passado está atravancado de inúmeros instantâneos que permanecem inúteis porque a inteligência não os “revelou”.
Pág.217

Troti
 
 
“...apercebia-me então de que o livro essencial, o único livro verdadeiro, não é preciso um escritor inventá-lo, no sentido corrente da palavra, visto que ele existe já em cada um de nós: ele apenas tem de o traduzir. O dever e a tarefa de um escritor são os de um tradutor.
Pág. 211

Troti
 
  O Livro dos Amantes (EXCERTO)
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.


(...)

Natália Correia

azuki
 
sexta-feira, julho 22, 2005
 
“Uma hora não é apenas uma hora. É um vaso cheio de perfumes, se sons, de projectos, de climas.”
Pág.210


É assim que quero ver todas as minhas horas.

Troti
 
  Nunca mais será hoje
A minha hora de almoço de ontem. Cheguei à piscina, o gancho do separador estava partido, fiquei sem uma pista só para mim; ao contrário da maravilhosa pasmaceira de sempre, estava pejada de criancinhas e suas bóias; acabei por me ver rodeada por esse pequeno exército tonitruante e pouco sensível à gestão do espaço. No balneário, liguei a torneira do chuveiro, e nada; liguei todas as torneiras de todos os chuveiros, e nada; o lavatório, o autoclismo, nada; lá fiquei, despida e enrolada numa toalha, a sentir o cloro colar-se-me à cara, ao cabelo, ao corpo, durante…. 50 minutos!; ao longo desse tempo, a água arremetia timidamente e eu corria para debaixo do chuveiro, e ficava, feita parva, a olhar as gotas; quando, finalmente, resolveu dar um ar da sua graça, veio gelada; com o tempo a passar, o tempo a passar, e a ajuda de uns berros para arranque inicial, ensaboei-me debaixo daquela água gelada. Depois, uma actividade tão pouco perigosa como esfregar creme no dorso; a embalagem era nova, daquelas cuja abertura se pressiona; a qual, por acaso, estava mal direccionada, pelo que foi simples projectar uma considerável quantidade de creme branco nas calças pretas. A caminho do lavatório, uma pequena poça perto dos chuveiros; mais magra, a roupa pinga por mim abaixo; linear, isso de encharcar a bainha das calças. Finalmente vestida, voei para o cabide à procura do casaco, preparadíssima para uma saída fulminante quando dou de caras com uma miúda que me pede, com o ar mais doce do mundo, que lhe faça um totó… fiquei ali especada, estupidificada… e derretida (fiz-lhe o totó, claro).

O que tem isto a ver com a Recherche? Tudo!! Este é o resumo que a Anabela nos tinha pedido: Tempo Perdido Tempo Perdido Tempo Perdido. São estas as palavras que me tilintam na cabeça. Não no sentido da auto-comiseração, que não leva a lado nenhum, essa nostalgia de pensar no que já foi ou se deixou fugir; nem na odiosa perspectiva do oportunismo; nem de sugerir que se viva numa voragem, aturdindo-nos de forma constante com o que quer que seja. Trata-se, apenas, de estarmos concentrados no momento, qualquer momento. Porque nunca mais será hoje. Foi nisso que pensei, nesses 50 minutos em que me vi a transformar numa estátua de cloro. Não fiquei pior que uma barata; consegui encontrar em mim o fair-play suficiente para saborear aqueles instantes bizarros; e, depois, caminhei pela rua, aflitivamente atrasada, com um luminoso sorriso no rosto.

azuki
 
 
«O tempo que muda as criaturas não modifica a imagem que delas conservámos. Nada é mais doloroso que essa oposição entre a alteração das pessoas e a fixidez da recordação, quando compreendemos que o que conservou tanta frescura na nossa memória já a não pode ter na vida, que só podemos aproximar-nos por fora do que dentro de nós nos parece tão belo, do que em nós desperta um desejo, ainda que tão individual, de o tornar a ver, se o procurarmos numa pessoa da mesma idade, isto é, noutra pessoa. É que, como muitas vezes suspeitara, o que parece único numa pessoa que desejamos não lhe petence.» (pp. 313-314)

leitora
 
  …o rosto tão altivo, o tronco tão arqueado não passavam de um farrapo espapaçado, que se movia aqui e além.
A senescência começa no nascimento. Velhice, é algo bem diferente. Senilidade, é ainda uma outra coisa. Quando leio, num qualquer jornal de província, um título como “sexagenária atropelada por uma bicicleta”, lembro-me de que há palavras que deveriam ser banidas do dicionário.

Soltei uma indominável gargalhada perante aquele sublime gagá, tão amolecido na sua benévola criatura de si mesmo como o era, de uma maneira trágica, o senhor de Charlus paralisado e cortês.

Marcel fornece-nos descrições dramáticas dos primeiros sintomas de alheamento, da debilidade física, da perda de autonomia, causados por um processo de envelhecimento avançado. Sabemos que Marcel-Proust é muito vaidoso. É certo que a vaidade traduz alguma fragilidade mas, por outro lado, significa desejo de viver, tentativa de preservação. A vaidade é uma forma de rejeição daquele percurso de humilhação que, por vezes, a deterioração e a incapacidade significam. Nem me refiro aos casos extremos, em que os velhos são tratados como uma trouxa, a quem só é preciso mudar a fralda e dar de comer (nota: acho a palavra velho mais “limpa” do que idoso). Falo de todos aqueles que, ainda que de uma forma inconsciente, os infantilizam. É que os velhos não são crianças.

azuki
 
quinta-feira, julho 21, 2005
  Os muros da rotina
A Françoise, quando eu lhe falava de uma igreja de Milão – cidade aonde provavelmente nunca iria – ou da catedral de Reims, ou mesmo da de Arras – que não poderia ver, já que estavam mais ou menos destruídas -, invejava os ricos que podem dar-se ao luxo do espectáculo de tesouros assim, e exclamava num nostálgico lamento: “Que belo que devia ser!” – ela que, vivendo agora em Paris havia tantos anos nunca tivera a curiosidade de ir ver a Notre-Dame…

Este é um bom exemplo da forma como nos relacionamos com o mundo, sem nos darmos conta de que, a maior parte das vezes, basta apenas saber olhar em volta (fica a mensagem, em epígrafe, de um dos Ensaios de Saramago, o da Cegueira, claro: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara", não é, leitora? uma das experiências mais interessantes do Leitura Partilhada é o modo como, agora, os nossos pensamentos se cruzam… lembrarmo-nos das mesmas coisas é uma extraordinária forma de cumplicidade). Só que este APENAS assume uma complexidade tremenda, na medida em que se torna impossível valorizar, se não tivermos a noção daquilo que é, de facto, importante. A maior parte das pessoas não se sabe auscultar, nem tem tempo para o fazer! Vivemos esmagados em rotinas e automatismos, numa engrenagem que nos provoca cegueira emocional. Como vaguear pelo abstracto, se existimos imergidos no concreto? Como valorizar o simbólico, se estamos tão colados aos imediatismos?

Há quem se esqueça de partir para dentro de si e carregue uma inexcedível falta de brilho; há quem nunca se questione e viva agarrado a uma existência enferrujada. Também há quem funcione por compartimentos, quase estanques: chegamos às férias assolados por uma vontade imensa de nos transportarmos para outro universo, trilhar novos caminhos, soltar o grito que nos comprime (limites? aqueles impostos pela educação e pela formação moral de cada um, pois o bom senso… esse, coitado, muitas vezes fica arredado).

Consigamos apercebermo-nos de nós mesmos, sabendo reconhecer a forma do que é valioso; consigamos entender que é irresistível acarinhar o tempo. Porque não contrariar o tão íntimo esquema mental diário, apreciando a Notre-Dame ali tão perto? Quebremos a rotina, por alguém. Quebremos a rotina, por nós. É enternecedor, quebrarmos a nossa rotina por alguém. Enternece, que alguém quebre a sua rotina por nós.

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

azuki
 
  Uma senhora gorda
(p. 306)

Não podia deixar de referir a parte para mim mais hilariante de toda a Recherche. Proust é um escritor sério, acentuadamente snob, e a sua obra tem poucos momentos de comicidade. No tempo reencontrado, há uma senhora gorda cumprimenta Marcel. Quem raio será a senhora gorda, claramente íntima tal o sorriso que esboça, a insistência do olhar, como quem espera uma aproximação e consequente conversa?

Todo o desenrolar da peripécia é hilariante, porque Marcel não consegue de todo actualizar as imagens que guardou das pessoas com quem privou. Até a mais sublime mulher envelhece, e a mais desejada namorada perde as suas formas frescas e graciosas. Valeu-lhe tratar-se de uma senhora espirituosa, que lhe perdoou as sucessivas gaffes.

leitora
 
 
“...a minha pessoa de hoje não passa de uma pedreira abandonada que julga que tudo o que contém é igual e monótono, mas da qual cada recordação, como um escultor da Grécia, tira inúmeras estátuas.
...
... do volume propriamente dito a neve que cobria os Campos Elíseos no dia em que o li não foi retirada, continuo a vê-la
.
Pág. 206/207

Troti
 
  Um trecho para todos aqueles que sempre tiveram esta dúvida inquietante: afinal, o que é um mundano??
Bloch anunciou-nos a morte do Kaiser com um ar de importância e mistério, mas igualmente colérico. Estava particularmente exasperado por ouvir Robert falar do “imperador Guilherme”. Acho que sob a lâmina da guilhotina nem Saint-Loup, nem o senhor de Guermantes diriam de outro modo.

Dois mundanos que restassem vivos numa ilha deserta, onde não tivessem que dar provas das suas boas maneiras a ninguém, haveriam de reconhecer-se por estes sinais de educação, tal como dois latinistas haveriam de citar correctamente Virgílio. Nunca Saint-Loup, mesmo que sob tortura dos Alemães, seria capaz de dizer outra coisa que não “o imperador Guilherme”.

E esta prática do mundo é apesar de tudo o indício de grandes entraves para o espírito. Quem não sabe rejeitá-los permanece um mundano. Aliás, esta elegante mediocridade é deliciosa comparada com a de Bloch, simultaneamente pusilânime e fanfarrão.


(há uma coisa que não aprecio nesta tradução: a colocação das vírgulas…)

Bom dia!!

azuki
 
  O génio de Proust III
“...uma coisa que em tempos observámos, se tornarmos a vê-la, traz-nos, juntamente com o olhar que nela poisámos, todas as imagens que então o enchiam. É que as coisas – um livro como outro qualquer sob a sua capa vermelha -, logo que vistas por nós, tornam-se em nós algo de imaterial, da mesma natureza de todas as nossas preocupações ou das nossas sensações desse tempo, e misturam-se indissoluvelmente com elas. Um determinado nome lido em tempos num livro contém entre as suas sílabas o vento rápido e o sol brilhante que fazia quando estávamos a lê-lo. Na mínima sensação fornecida pelo mais humilde alimento, o aroma do café com leite, reencontramos aquela vaga esperança de uns bons tempos que com tanta frequência nos sorriem, quando o dia era ainda intacto e pleno na incerteza do céu matinal; um clarão é um vaso cheio de perfumes, de sons, de momentos; de humores variados, de climas. De modo que a literatura que se limita a “descrever as coisas”, a apresentar apenas um miserável extracto delas feito de linhas e superfícies, é aquela que, intitulando-se realista, mais afastada está da realidade, a que mais nos empobrece e entristece, porque corta bruscamente toda a comunicação do nosso “eu” presente com o passado, cuja essência era conservada pelas coisas, e com o futuro, no qual elas nos incitam a saboreá-la de novo. É ela que a arte digna desse nome deve exprimir e, se fracassar aí, podemos ainda colher da sua impotência um ensinamento,..., a saber, que essa essência é em parte subjectiva e incomunicável."
Pág. 205/206

Troti
 
quarta-feira, julho 20, 2005
  Os sete volumes de "À la recherche du temps perdu" contados pelos Monty Python
A propósito de já se estar a ler o sétimo volume de "Em Busca do Tempo Perdido", ou de já se ter lido todos os volumes, - felicidade que a mim é alheia, ainda -, lembro-me de que uma minha amiga contou-me que se recordava mais ou menos de ter visto num episódio dos Monty Python alguém a resumir os sete volumes em sete segundos. Algo absolutamente hilariante, sobretudo para os leitores mais avançados que já passaram os olhos pelas linhas do último volume. E esse resumo de sete segundos seria qualquer coisa como:

- E... ele... foi... a casa... do... Swaaannn!!!

Dá-me vontade de rir!

E tive de ir pesquisar e confirmar tanto quanto possível esta história bem engraçada. Eis o que pude apurar: esta cena parece-me que é aquela que se encontra num episódio 31 ("The All-England Summarize Proust Competition") de uma das várias séries dos Monty Python. Nesse sketch há um concurso que consiste em resumir "Em Busca do Tempo Perdido" em quinze segundos. Arthur Mee questiona um dos concorrentes, Ronald:

Mee: Thank you ladies and gentlemen. Mr. Rutherford from Leicester, are you ready Ronald? (Ronald is very eager man in tails) Right. On the summarizing spot. You have got fifteen seconds from now.

Ronald: Er, well, Swann, Swann, there's this house, there's this house, and er, it's in the morning, it's in the morning - no, it's in the evening, in the evening and er, there's a garden and er, this bloke comes in - bloke comes in - what's his name - what's his name, er just said it - big bloke - Swarm, Swarm


O desafio a quem já leu tudo: como resumiriam a história em quinze ou sete segundos?!

Anabela
 
 
“...perguntara a mim mesmo com irritação quem seria o estranho que me vinha perturbar. Esse estranho era eu próprio...”
Pág.205

Troti
 
 
«Um determinado nome lido em tempos num livro contém entre as suas sílabas o vento rápido e o sol brilhante que fazia quando estávamos a lê-lo.» (p. 206)

Este efeito de memória acontece-me com frequência; os livros ficam irremediavelmente ligados ao momento em que os li, em especial os que foram lidos fora de casa, em viagens. Ao tocar-lhes sinto na pele a ilusão do calor do sol, ou nos ouvidos os ruídos do comboio, do avião... ou volto a sentir a vertigem de uma idade distante.

ADENDA:
Claro que Proust não podia passar ao lado desta ideia, para mais neste livro fantástico onde disseca todos os aspectos da memória! Umas linhas abaixo, na mesma página:

«Mais ainda, uma coisa que vimos em determinada época, um livro que lemos não fica apenas ligado para sempre ao que havia à nossa volta; fica ligado com a mesma fidelidade ao que éramos então, já não pode tornar a ser experimentado senão pela sensibilidade, pela pessoa que nós éramos então.»


leitora
 
  Esclarecer a natureza do seu amor
Gravei na memória esta frase. Hoje não ouço um quarteto sem me perguntar: porque o amo? Não vejo uma exposição que não me toca sem questionar: porque me afasto? É difícil esclarecer a natureza do amor quando não há um desejo ou uma paixão a sustentá-lo. Deverei procurar mais longe, para além do imediato? Será sempre uma evocação mais ou menos longínqua que se desprende destes afectos? E onde colocar as descobertas?
Recordo uma frase do segundo volume: E iremos amá-la mais longamente do que os outros, pois teremos levado mais tempo a amá-la.

nastenka-d
 
  .. quando se seguiu o que mais adiante se lerá.
Does it ring any bell???

Bom dia!!

azuki
 
terça-feira, julho 19, 2005
 
“A realidade a exprimir residia, compreendia-o agora, não na aparência do assunto, mas numa profundidade em que tal aparência pouca importância tinha..."
Pág.203

Troti
 
  A minha imaginação era o único orgão para disfrutar a beleza. (pag. 192)
Before the white chrysanthemum

Before the white chrysanthemum
the scissors hesitate
a moment.


Yosa Buson
(Translated by Robert Hass)

azuki
 
 
«A arte verdadeira nada tem a ver com tanta ostentação, e consuma-se no silêncio.» (p. 202)

A nossa leitura, aqui, não é nada silenciosa; fala-se, comenta-se, desabafa-se. Mas estou em crer que respeitamos, sempre, o seu silêncio, quer na leitura prévia, quer na pausa anterior à partilha.

A minha observação da arte que espero verdadeira nunca é totalmente silenciosa; os meus olhos são extraordinariamente barulhentos quando me emociono...

leitora
 
  … tantas vezes muito tempo depois, só me permitira conhecer a beleza de uma coisa em outra coisa….
Torna-se difícil contrariar certas disposições, quando os flashes nos assolam e o corpo reage desordenado (palpitações, tremuras, nó no estômago...), quando certas imagens insistem em nos invadir, quando os sentidos não conseguem fugir ao estímulo (um cheiro, uma paisagem,…). Acima de tudo, ajuda muito um empurrãozinho da natureza: há espíritos frágeis que, mesmo num contexto favorável, se deixam vencer ao menor sinal de luta, ao mesmo tempo que existe quem se levante sempre, sempre, sempre. Mas há também pessoas que, para além dos condicionantes da vida, fazem uma péssima gestão do seu percurso. Enfim, existe um pequenino espaço de manobra que a nossa vida mental nos concede (particularmente, no campo emocional). Ter capacidade para a aproveitar é a maior das sabedorias.

Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.


Eugénio de Andrade

Bom dia!!

azuki
 
segunda-feira, julho 18, 2005
 
«De modo algum somos livres diante de uma obra de arte.» (p. 201)

De facto, eu não consigo identificar a minha liberdade perante grandes livros; o fascínio com que se leia é necessariamente uma forma de cegueira. É amor.

leitora
 
 
«A minha imaginação era o único orgão para disfrutar a beleza.» (p. 192)

«Não podemos imaginar senão o que está ausente.» (p. 192)


Curioso. A beleza não poder ser senão imaginada; não podemos imaginar o que nos é visível.

De facto, no que concerne a beleza, esta, de facto, não existe. Ou como diria Proust, não poderá existir senão dentro de nós.

(consegues ver o belo? ah, isso é muito bom sinal - no mínimo, de generosidade!)

leitora
 
  ecos
«O milagre da analogia fizera-me fugir ao presente. Só ele tinha o poder de me fazeer reencontrar os dias antigos, o tempo perdido, perante o qual sempre fracassavam os esforços da minha memória, da minha inteligência.» (p. 191)

Quantas vezes temos a impressão de estar a viver algo já visto, estar a repetir um momento guardado no nosso inconsciente? A mim aflige-me a baralhação daquele instante - como se fora vidente, sabendo o que está a acontecer, a resposta que se seguirá... Regressada a calma, não tinha passado de uma analogia, de um eco da memória.

leitora
 
domingo, julho 17, 2005
  «Porque os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos»
(p. 191)

leitora
 
  O enigma da felicidade
Tal como no momento em que saboreava a madalena, toda a inquietação sobre o futuro, toda a dúvida intelectual se haviam dissipado.

Começa aqui o de toda a obra - como numa fraga desvenda-se à nossa frente o enigma, ou pelo menos mostra-se, que até aqui andava arredado, esquivo: agora tudo começa a tomar um sentido. Preparem os vossos lápis, que as frases sucedem-se; e as páginas enchem-se de riscos e de notas, mapas de cada um - cartas das nossas viagens.
nastenka-d
 
  Reencontrando Albertine no Volume V
Os gelados desejados
A partir da página 122, Albertine descreve os gelados de que está desejosa:

Disse-me ela (e apesar de tudo senti-me profundamente enternecido porque pensei: «É claro que não seria capaz de falar como ela, mas todavia, se não fosse eu, ela não falaria assim, sofreu profundamente a minha influência, e portanto não pode deixar de amar-me, ela é obra minha»): «Aquilo de que gosto nos alimentos apregoados na rua é que uma coisa ouvida, como uma rapsódia, à mesa muda de natureza e dirige-se ao meu paladar. No caso dos gelados (porque espero bem que só me compre dos que vêm naqueles moldes que já não se usam e que têm todas as formas possíveis de arquitectura), de cada vez que como um, templos, igrejas, obeliscos, rochedos, é como que uma geografia pitoresca que começo por contemplar e cujos monumentos de framboesa ou de baunilha converto depois em frescura pela garganta abaixo.»

Albertine deseja derrubar as paredes geladas que a aprisionam. Elas sabem a framboesa, a baunilha: por isso sabe bem derrubá-las. Isso é o prazer, é a "frescura pela garganta abaixo".

Na página 123, continua a descrição desses gelados que ela deseja derreter na sua boca sequiosa:

«Meu Deus, no Hotel Ritz receio que não encontre colunas Vendôme de gelado, de gelado de chocolate, ou com framboesa, e então serão precisos vários para que tudo tenha o ar de colunas votivas ou de pilones levantados numa alameda à glória da Frescura. Eles também fazem obeliscos de framboesa, que se erguerão de praça em praça no deserto ardente da minha sede e cujo granito rosado deixarei desfazer-se ao fundo da garganta, que melhor hão-de desalterar do que se fossem oásis (e aqui estalou o riso profundo, ou de satisfação por falar tão bem, ou de troça de si mesma por se exprimir em imagens tão constantes, ou ainda, infelizmente, pela volúpia física de sentir em si algo tão bom, tão fresco, que lhe causava o equivalente de um prazer erótico). Esses picos de gelado do Ritz parecem às vezes o monte Rosa, e mesmo, quando o gelado é de limão, não me importa que não possua uma forma monumental, que seja irregular, abrupto, como uma montanha de Elstir. (...) ao pé do meu meio gelado amarelado de limão vejo muito bem postilhões, viajantes, seges de posta, sobre os quais a minha língua se encarrega de fazer rolar glaciais avalanchas que os engolirão (a volúpia cruel com que ela disse isto despertou o meu ciúme); exactamente», acrescentou, «como me encarrego de destruir com os lábios, pilar por pilar, essas igrejas venezianas de um pórfiro que é morango, e de fazer cair sobre os fiéis o que tiver poupado. Sim, todos esses monumentos passarão do seu lugar de pedra para o meu peito, onde já palpita a sua frescura em fusão.»

Albertine só quer gelados esculpidos em formas arquitectónicas: quer desfazer paredes, destruir com os seus lábios ardentes igrejas venezianas. Quer derrubar a casa que a aprisiona, e, no fundo, a sociedade e a Igreja, que oprimem a sua liberdade sexual. Na sua língua, pela sua garganta abaixo, rolarão paredes claustrofóbicas, igrejas opressoras, viajantes que ela deseja saborear. Colunas, pilares, tudo se desfará nos lábios, na boca, na garganta, no peito de Albertine. Erguer-se-ão "de praça em praça no deserto ardente da sua sede" para se derretem em frescura dentro do calor da sua garganta insaciável. E - qual pedra intragável - serão chocolate, framboesa, limão, morango, baunilha a derreter e a deleitar uma língua destruidora.

Anabela
 
  O génio de Proust II
“...o ser que então saboreava em mim aquela impressão, saboreava-a no que ela tinha de comum num dia antigo e agora, no que tinha de extratemporal, um ser que só aparecia quando, devido a uma dessas identidades entre presente e passado, podia encontrar-se no único meio onde poderia viver e gozar da essência das coisas, isto é, fora do tempo. Isso explicava que as minhas inquietações acerca da minha morte tivessem cessado no momento em que reconhecera inconscientemente o gosto da pequena madalena, visto que nesse momento o ser que eu fora era um ser extratemporal, e por conseguinte despreocupado com as vissicitudes do futuro. Tal ser não tinha vindo até mim, nunca se manifestara, a não ser fora da acção, fora da fruição imediata, sempre que o milagre de uma analogia me fizera fugir ao presente. Só ele tinha o poder de me fazer reencontrar os dias antigos, o tempo perdido, perante o qual sempre fracassavam os esforços da minha memória e da minha inteligência.
Pág.191

...

tinha um enorme apetite de viver agora que acabava de renascer em mim...um verdadeiro momento do passado.

...

...juntara aos sonhos da imaginação aquilo de que habitualmente estão desprovidos, a ideia de existência, e graças a esse subterfúgio permitira que o meu ser obtivesse, isolasse, imobilizasse – no tempo de um relâmpago – aquilo que nunca apreende: um pouco de tempo em estado puro...

...

o ser que renascera em mim... alimenta-se exclusivamente da essência das coisas, só nesta encontra a sua subsistência
Pág.192

...

Um minuto liberto da ordem do tempo recriou em nós, para o sentir, o homem liberto da ordem do tempo.
Pág.193

...

o que o ser...ressuscitado em mim acabava de saborear eram porventura fragmentos de existência subtraídos ao tempo...
Pág.195

...


Estava agora decidido a apegar-me a esta contemplação da essência das coisas, a fixá-la – mas como? Por que meios?
Pág.196

...

Demais experimentara eu a impossibilidade de atingir na realidade o que estava no fundo de mim mesmo.
Pág.197

...


precisava de procurar interpretar as sensações como sinais de outras tantas leis e ideias, tentando pensar, isto é, tentando fazer sair da penumbra o que sentira, convertê-lo num equivalente espiritual. Ora este meio, que me parecia o único, que outra coisa seria senão fazer uma obra de arte?
Pág.199

...

Quanto ao livro interior de sinais desconhecidos..., para cuja leitura ninguém podia ajudar-me com algumna regra, essa leitura consistia num acto de criação em que ninguém pode ser nosso substituto ou sequer colaborador...Este livro, o mais penoso de todos de decifrar, é também o único que a realidade nos ditou, o único cuja “impressão” foi em nós causada pela própria realidade...Só a impressão é um critério de verdade, por muito insignificante que pareça a sua matéria, por muito inapreensível que pareça a sua marca, e por conseguinte só ela merece ser apreendida pelo espírito, porque só ela é capaz, se o espírito souber retirar dela essa verdade, de o levar a uma maior perfeição e de lhe conceder uma pura alegria.
Pág.200

...


Só vem de nós o que tiramos da obscuridade que está em nós e que os outros não conhecem. E como a arte recompõe exactamente a vida, em torno dessas verdades que atingimos em nós mesmos flutua uma atmosfera de poesia, a doçura de um mistério, que não é mais que a penumbra que atravessámos.
Pág.201


Troti
 
sábado, julho 16, 2005
  Perceber quando parar
Quantas vezes eu fora incapaz de prestar atenção a coisas ou a pessoas que mais tarde, logo que a sua imagem me era apresentada a sós por um artista, faria léguas ou correria riscos de morte para redescobrir! (…) “Será mesmo impossível vê-lo? O que não daria eu para isso!” Pois é, Marcel. Há que aceitar que, mesmo estando disposto a fazer léguas ou a correr riscos de morte, o impossível existe. Se fosses inglês, mais valia que dissesses “ok, life, I think I understood your message”. Pára de perseguir quimeras, respira fundo e segue em frente. Pode custar horrores, mas o que não tem solução é facílimo de resolver.

(...)
¿Por qué te perdí por siempre
En aquella tarde clara?
Hoy mi pecho está reseco
Como una estrella apagada.

Federico Garcia Lorca

azuki
 
  Verosimilhança
«Neste livro onde não há um único facto que não seja fictício, onde não existe uma única personagem real disfarçada sob nome falso, em que tudo foi por mim inventado em conformidade com as necessidades da minha demonstração.» (p. 164)


A mim parece-me que não há nada mais verosímil do que a mentira, em qualquer circunstância. E nada poderá inspirar a imaginação como a vida, a que temos e a que não temos.

Ao escrever o sétimo volume, Proust estaria decerto farto dos comentários, das comparações, que são necessariamente desvalorização da obra. Mas também inevitáveis, irresistíveis...

leitora
 
  Reencontrando Albertine no Volume V
Foi-me dito que posso participar com impressões minhas vindas também da leitura do quinto volume. Vou na página 188; ainda não consegui ler o resto, nem os seguintes volumes. Mas hei-de ler!

Vou então falar de uma parte do volume V, que eu achei interessante e, também, deliciosa:

Albertine fala de gelados...

A partir da página 121, no quinto volume (tradução de Pedro Tamen), em consequência de pregões que chegam à janela da casa de Marcel, Albertine deseja, com verdadeira gula e apetite, os mais variados alimentos:

«Cenouras de encher o olho, a dois soldos o molho!» «Oh!», exclamou Albertine, «couves, cenouras, laranjas. Tudo coisas que me apetece comer. Mande a Françoise comprar. E ela que faça cenouras com natas. Além disso, será um gosto comer tudo aquilo junto. Serão todos os ruídos que estamos a ouvir transformados numa leve refeição. Ah, peço-lhe, diga à Françoise que faça antes uma raia com molho de manteiga. É tão bom!» «Queridinha, está combinado, não se demore mais, que, se não, vai pedir tudo o que as vendedeiras de hortaliça apregoam.» «Está dito, vou-me embora, mas daqui em diante só quero para os nossos jantares coisas que tenhamos ouvido apregoar. É muito divertido. Pensar que ainda faltam dois meses para ouvirmos: "Feijão-verde tenrinho, olha o feijão-verde!" Que bem dito: " Feijão tenrinho." Sabe que eu os quero fininhos, muito finos, a escorrer vinagrete, nem parece que os comemos, são frescos como o orvalho. Infelizmente acontece o mesmo que se passa com os queijinhos frescos, ainda vêm longe: "Bons queijinhos frescos, olha os queijinhos!" E a uva branca de Fontainebleau: "Olha a bela uva branca!"» E eu pensava com susto em todo o tempo que teria que ficar com ela até chegar a uva branca. «Olhe que eu digo que daqui em diante só quero as coisas que tenhamos ouvido apregoar, mas é claro que abro excepções. Por isso não seria nada impossível que eu passasse pelo Rebattet a comprar um gelado para nós os dois. Vai dizer-me que ainda não é a época, mas apetece-me tanto!»

De imediato, vemos uma Albertine prisioneira e sucumbida às tentações do mundo exterior, para lá das paredes da casa de Marcel. Diz ela que dali "em diante só quer as coisas que tenham ouvido apregoar". Acabara-se tudo o que a saciasse naquela casa. Dali em diante só lá fora estava o fruto apetecido. E ouso dizer que estes alimentos que ela deseja têm um simbolismo erótico se os associarmos ao corpo humano: as cenouras são fálicas, as laranjas são seios redondos, o sumo que delas escorre, as natas, o molho de manteiga são secreções corporais... E será a raia também passível de se associar a alguma parte do corpo? E as couves? Posso estar enganada ou a forçar alguma interpretação, porém são estas ideias que estas imagens me despertam.

E a uva? Simbolizará delírio, orgia, embriaguez?

Anabela
 
  …lá continuava…todo este passado a desdobrar-se indefinidamente
As recordações deveriam funcionar, não como motor de infelicidade e de distanciamento do nosso tempo, mas como uma importante amarra do presente. Todas essas imagens, sensações, experiências e emoções de que nos fazemos acompanhar têm que servir para nos iluminar a vida, e não como um esconderijo de um presente sem significado e de um futuro que não se deseja.

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.” (Kierkegaard)

Há uma outra vertente da memória que teima em nos conduzir por caminhos que nunca percorremos. Por vezes, somos assolados pela urgência desse alguém que não fomos, de tudo aquilo que não fizemos. Existirá sempre em nós uma angústia funda que nos diz que, por um segundo diferente, a vida teria tido mil outros trilhos…. (bons? maus? melhores? piores? é um facto que, quando idealizamos algo, tendemos a aligeirar os inconvenientes e a reforçar as vantagens…). A verdade é que são belos os ses da nossa vida, essas maravilhosas possibilidades incumpridas. Porque as portas onde não entramos ontem reforçam o significado das perspectivas que se nos abrem Hoje. Urgente, é sempre a partir de agora.

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade

azuki
 
  O génio de Proust I
"“...às vezes é no momento em que tudo nos parece perdido que chega o aviso que pode salvar-nos...
...
Remoendo os tristes pensamentos e distraído como ia não vira um carro que avançava;...recuei tanto que tropecei sem querer nas pedras bastante irregulares da calçada...Mas, no momento em que, ao endireitar-me, poisei um pé numa pedra menos alta que a anterior, todo o meu desânimo se desvaneceu perante a mesma felicidade que em diversas épocas da vida me havia sido concedida pela contemplação de umas árvores que julgara reconhecer..., pela imagem dos campanários ..., pelo sabor de uma madalena molhada numa infusão, por tantas outras sensações de que falei...Tal como no momento em que saborerava a madalena, toda a inquietação sobre o futuro, toda a dúvida intelectual se haviam dissipado. As que pouco antes me assaltavam acerca da realidade dos meus dotes literários tinham desaparecido como que por encanto. Sem que tivesse feito qualquer novo raciocínio, ou encontrado qualquer argumento decisivo, as dificuldades, ainda há pouco insolúveis, tinham perdido toda a importância. Mas desta vez estava deveras decidido a não me resignar a ignorar porquê, como havia feito no dia em que saboreara uma madalena molhada numa infusão. A felicidade que acabava de experimentar era efectivamente a mesma que sentira ao comer a madalena, mas então adiara a procura das causas profundas dessa alegria. A diferença puramente material estava nas imagens evocadas; um azul profundo inebriava-me os olhos, impressões de frescura, de luz deslumbrante, giravam junto de mim e, no meu desejo de as agarrar sem me atrever a mover-me como quando sentia o sabor das madalena tentando fazer com que viesse até mim o que ela me reordava, ali fiquei...vacilando...com um pé em cima da pedra mais alta e o outro pé na pedra mais baixa. De cada vez que, apenas materialmente, repetia aquele mesmo passo, não me servia de nada; mas se, esquecendo a matinée Guermantes, conseguia recuperar o que sentira ao poisar os pés daquela maneira, de novo a visão deslumbrante e indistinta passava junto a mim como se me tivesse dito: “Apanha-me à passagem se tiveres forças para isso, e trata de resolver o enugma de felicidade que te proponho.” E reconhecia-a quase imediatamente: era Veneza, Veneza acerca da qual os meus esforços para a descrever e os pretensos instantâneos captados pela memória nada me haviam dito nunca, e que me fora agora devolvida pela sensação que outrora sentira em cima de duas lajes desiguais do baptistério de São Marcos e por todas as outras sensações que naquele dia se haviam juntado a essa sensação e que tinham ficado à espera...Fora do mesmo modo que a pequena madalena me recordara Combray. Mas porque é que as imagens de Combray e Veneza num e noutro momento me haviam causado uma alegria semelhante a uma certeza e que bastava, sem necessidade de outras provas, para me tornar a morte indiferente? Inrterrogando-me sobre isso, e hoje resolvido a encontrar a resposta, entrei no palacete Guermantes...
...
limpei a boca ao guardanapo e...de imediato...uma nova visão de azul me passou diante dos olhos...parecia-me que o criado acabava de abrir a janela que dava para a praia...o guardanapo em que pegara para enxaguar a boca tinha precisamente o mesmo género de rígido engomado da toalha a que tanto me custara e enxaguar-me diante da janela no primeiro dia da minha chegada a Balbec...
...
procurava esclarecer o mais depressa possível a natureza dos prazeres idênticos...
...
se a recordação, graças ao esquecimento, não contraiu qualquer laço, não estabeleceu qualquer elo de ligação com o minuto presente, se permaneceu no seu lugar, na sua data, se manteve as suas distâncias, o seu isolamento no fundo de um vale, ou num píncaro de um monte, ela faz-nos de repente respirar um ar novo, precisamente porque é um ar que respiramos outrora, esse ar mais puro que os poetas em vão tentaram fazer reinar no Paraíso e que só pode causar essa sensação profunda de renovação por já ter sido respirado, porque os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos."

Pág.186/191

Troti
 
sexta-feira, julho 15, 2005
  15 de Julho de 2005, segundo aniversário do Leitura Partilhada
 
  2 anos e 11.643 páginas depois...
 
  habent sua fata libelli
(p. 108)
Marcel Proust
"O Tempo Reencontrado"

Eu procuro, desde sempre, livros que tenham o seu próprio destino. Alguns venho encontrá-los aqui, e tenho tido a sorte de poder partilhar o que neles penso e sinto vai para dois anos. Continuo a sentir-me afortunada.

Penso nos próximos dois anos com alguma apreensão, porque vou estar impedida de ler e de participar de forma tão activa, mas ao mesmo tempo com tranquilidade, por saber que continuarei a ter aqui o meu refúgio, um aconchego de leituras. E tudo farei para não me ausentar por mais que algumas horas, e manter uma participação fiel.


Foram dois anos excelentes. Beijos aos amigos que por cá encontrei, obrigada por tudo o que me deram.

E venham mais vinte!

leitora
 
  «Na realidade, cada leitor é, quando lê, leitor de si próprio.»
Tenho falado muito (embora não aqui) sobre o que é a Leitura Partilhada em mim; não desejo repetir-me, banalizar em mim a consciência ou o sentimento. Não; refugio-me em Proust porque assim o celebro, e a mim mesma; naquilo que leio e integro, e depois devolvo e projecto, está o mistério da partilha. Feliz aniversário.
nastenka-d
 
  Querem saber uma coisa?
Não consigo passar sem a Leitura Partilhada. Preciso do seu estímulo e do seu aconchego para me sentir viva. A felicidade que esta iniciativa me trouxe é algo muito difícil de descrever, pois está profundamente enraizada no meu íntimo.
O acto de ler fez parte dos meus dias desde sempre, mas ler com partilha aumentou o meu interesse pelas letras e levou-me a uma enorme mudança na abordagem da leitura. Hoje em dia, quando pego num livro, dou um mergulho na profundidade da sua narrativa e perco-me nos meandros das suas palavras. Nunca, até ter começado a ler o "Ulisses", tinha tido o impulso de esmiuçar uma trama (e o seu autor)e de procurar entender todos os seus sentidos. A atenção que tive de ir buscar ao fundo de mim para absorver e partilhar esta obra, mudou para sempre a minha abordagem de cada novo livro. E esta riqueza da procura e da interpretação transportou-me para uma dimensão de leitura nunca antes imaginada e trouxe-me uma possibilidade de conhecimento que já não achava possível, pois a vida não nos dá o tempo nem a calma que precisamos para nos podermos empenhar de alma e coração. Foi essa a grande aventura da Leitura Partilhada. Abriu um espaço e permitiu o despertar do espírito que, associado à troca de ideias e emoções, enche os meus dias de uma luminosidade que, espero, nunca mais me abandone. Com todos os que passaram comigo momentos e sensações ao longo destes dois anos, gostava de partilhar um abraço sincero e um extremo amor à vida. Afinal, é por ela e para ela que partilhamos com tanto gosto as nossas leituras.

Troti
 
  PaRaBéNs!

Princípio das Coisas
1998
60 x 70 cms
Técnica Mista - colagem e acrílico s/tela
ISABEL MAGALHÃES

Col. Particular

Como este espaço está hoje de parabéns, penduro aqui um trabalho de alguém que também ama os livros e que revela em cores os sentidos das palavras.

Depoimento número seis.

Eu sabia que hoje seria um dia de balanço. Isto está tão ao pormenor que até o número de páginas lidas vai às "centêsimas", como se isso fosse possível com os livros. Mas eu compreendo, são ossos do ofício.
Eu apanhei o comboio há muito pouco tempo mas confesso que acompanho o seu percurso há mais ou menos um ano, por isso sei do que falo.
Num certo sentido posso dizer também que o Leitura Partilhada me abriu uma porta de amizade à volta de livros. Posso dizer que me veio acrescentar muitas outras leituras às minhas leituras e que, acima de tudo, me veio apresentar pessoas que comungam comigo o prazer de ler.
A todos os que aqui vêm, que se manifestam ou não com opiniões; a todos os que gostam de ler; e sobretudo a estas pessoas que dão a forma ao blogue e que eu quase não conheço. Tchim, Tchim!
laerce
 
  Diário de uma leitora amadora
LEITORES AMADORES. Amante, amador.
Amo os livros, ainda que não saiba muito bem como isso se faz…

Neste nosso segundo aniversário, aprecio a gradual liberdade que os meus posts vão adquirindo, vendo-os a aproximar-se da pessoa que sou (até a troca de nickname fez todo o sentido, porque a J.M. era bem mais contida e menos afável do que a azuki). Continuo, no entanto, a procurar o formato em que me sentirei mais confortável. Qual a melhor abordagem, se não tenho capacidade para fazer crítica literária? Citações? Links? Pesquisa? Falar daquilo que não domino, com uma leveza que a respeitabilidade da linguagem escrita não merece?

Porque o crescimento é lento e o equilíbrio instável, será sempre pedagógico recorrer a Eça, imaginando que, com alguma concentração e bom senso, talvez nunca venha a merecer o dedo acusador de Fradique: Tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os juízos ligeiros, se exacerbe mais a vaidade, e se endureça mais a intolerância. Não me olhes assim, Fradique, vai ler os teus jornais…

O que espero dos livros? Acima de tudo, que me deslumbrem; e que me abalem, apaixonem, despertem, ensinem, alarmem, preencham, encantem, desafiem, fracturem, inquietem, confortem, choquem, confundam, surpreendam. O que significa o Leitura Partilhada na minha vida? Bom, procurei explicá-lo ao longo dos dois meses que dedicamos ao Quixote... Qual o registo de participação com que mais me identifico? Como leitora amadora que sou, será uma espécie de diário afectivo das leituras, tentando transmitir a forma como as absorvo e projecto e quão fundo cada livro consegue tocar-me.

Mas escrever sobre o nosso mundo e o mundo dos outros sem criatividade é curto, muito curto…. Por isso, reservemos espaço para a admiração, a surpresa, a interrogação; que haja um lugar para o intuído e para o imaginado; que fique muito por dizer e ainda mais por explicar. Para que exista sempre um caminho misterioso, muito para além das nossas palavras, que são tão-somente e, ao mesmo tempo, tanto quanto, uma pulsação.

Leitura Partilhada, a todos e a tudo o que significas: bem hajas.

azuki
 
  Que sei eu??


Neste nosso segundo aniversário, estando eu a reflectir sobre a minha participação no Leitura Partilhada, lembrei-me dos Que sais-je, usados pelos nossos pais, no tempo em que os alunos ainda ganhavam o tempo a tentar saber. Eram centenas, julgo mesmo que seriam milhares. Uma edição universitária francesa (PUF), composta por milhares de livrinhos, acessíveis e de divulgação generalizada, que abordavam muitos dos muitos temas que é possível conceber: o humor, a fotografia científica, o casamento e o divórcio, o direito internacional do mar, o crédito agrícola, os coptas, a televisão por cabo, a psicologia do desporto, o totalitarismo, o império otomano, a técnica do cinema, a literatura alemã, a cartografia, o sindicalismo no mundo, a educação das crianças difíceis, o urbanismo, a Sibéria, a ficção científica, a fome, a dermatologia, o fundo dos oceanos, os etruscos, a arte dos jardins, o espiritismo, a sexualidade, a hidráulica, as civilizações pré-colombianas, a célula fotoeléctrica, a alquimia, o hinduísmo, os mecanismos da visão, o aparelho digestivo e as suas doenças, a história do teatro, o arroz, o vírus, a geografia do Japão, a economia da Índia, os micróbios, a objecção de consciência, o Antigo Egipto, o anarquismo, a medicina chinesa, a génese da humanidade, a memória, o canto coral, a energia nuclear, as guerras púnicas, as ondas hertzianas, o caso Dreyfus, o nascimento, o espaço rural, a literatura americana, o golfe, o ensino à distância, as barragens, a piscicultura, os arquivos, a economia espanhola, o socialismo, o hidrogénio, as borboletas……… Uffffff. Que sei eu? Pouco mais que nada.

Parabéns, Leitura Partilhada!!

azuki
 
quinta-feira, julho 14, 2005
  Dar tempo ao tempo
Ter-te assim em mim já não me chega já não me chega já não me chega ver-te tão perto tão perto fez-me sede fez-me sede fez-me sede apetece-me ir buscar-te agarrar-te raptar-te engolir-te e nem o tempo me conforta pois a sua passagem apenas me recorda de que esta imensa sede que não consigo aplacar é o seu puro desperdício

Cultivar o tempo passa também pela antecipação e pelo mistério. Como referi num post anterior, a propósito de Quixote (ai o Quixote, que não me sai da cabeça….), alimentar o desejo é essencial à preservação do equilíbrio. Mas a capacidade para sonhar exige tempo, esforço, devoção, e é um processo longo, que não dispensa todas as fases: preparação, degustação, maturação, renovação. Junte-se a alucinante sofreguidão da sociedade actual à acessibilidade e a alguma leveza e acabamos, ou na banalização, ou na congestão. Fácil de perceber: basta soltar a malta num buffet e observar.

Ao mesmo tempo, que bom que é namorar-te, devagarinho, saboreando-te sem te tocar

azuki
 
  .... amanhã, quase 12.000 páginas depois...
...o Leitura Partilhada cumpre dois anos de vida!!
 
  Amor
“Nas pessoas que amamos existe, nelas imanente, um certo sonho que nós nem sempre sabemos distinguir, mas que procuramos realizar.”
Pág.157

Troti
 
  os eus
«Acontece justamente uma pessoa ser tantas pessoas diferentes quantos aqueles que a julgam, mesmo descontando as diferenças de juízo.» (p. 50)

Esta é uma teoria que alguns livros desenvolvem de forma explícita, mas no fundo está presente em todo e qualquer livro. Sendo as personagens duplos de pessoas reais ou imaginárias, são desdobradas em identidades diferentes por cada leitura que delas é feita. Connosco, pessoas eventualmente reais, não é diferente.

E quanto mais consciência tomei desta inevitabilidade, menos me preocupo com o que possam pensar e dizer: a minha identidade nunca poderá estar fora, apenas reflexos, leituras, suposições. Por isso, para quê preocupar-me?

leitora
 
  Nota final
Acabei a leitura da obra "definitiva" de M.Proust.

Dois excertos do 7º Volume:

"....a obra de arte era o único meio de reencontrar o Tempo Perdido" (páginas 220/221)

"Porque,a meu ver,eles não seriam meus leitores, mas leitores de si mesmos...." (página 361)

Assim se percebe, porque é que este monumento da literatura,é tão famoso mas também tão difícil e por vezes penoso de ler!!!


A.L.B.Barrinhas
 
  Um novo tempo para o Porto
Ontem, fui à Casa da Música, pela enésima vez. E, claro, ganhei o meu tempo. Não obstante as inúmeras vicissitudes, e mesmo que o futuro não possa continuar a oferecer-nos muitos mais dos superlativos Brendel ou Sokolov, os cidadãos do Porto têm agora um local magnífico para se abrirem a um outro tempo. Não tenho dúvidas de que a minha cidade entrou num superior estádio de desenvolvimento. *

* ok, ok, alguns dos portuenses mais aplicados lá terão que continuar a recorrer ao fosso de orquestra do S. Carlos, porque o Coliseu e as companhias que lá actuam, coitadinhos, não cumprem os requisitos mínimos….mas, acreditem, isto já foi pior, isto já foi muito pior!! E, se alguém me disser que, naquela coisa do Europarque, também se faz ópera, retribuo-lhe com uma das minhas mais garridas gargalhadas.

Bom dia!!

azuki
 
quarta-feira, julho 13, 2005
  O Tempo Reencontrado
Ao longo de milhares de páginas, Marcel lamenta o tempo perdido, embora também saiba que apenas o tempo lhe teria dado a profundidade e a perspectiva necessárias para a elaboração do romance que sempre desejou escrever. Há certos circunstancialismos que nem os avançados conhecimentos técnicos da humanidade permitem ultrapassar. Para se atingir o bouquet, o corpo, o sabor, a consistência, a qualidade de certos vinhos, ainda não foi encontrado substituto melhor…

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade

azuki
 
  na sexta-feira, dia 15 de Julho...
...o Leitura Partilhada terá cumprido dois anos!!!!!!!!!
 
  Se alguma vez me julguei poeta, sei agora que não o sou.
Milarepa era um camponês com uma vida infeliz e cheia de crimes. Ansioso por mudar, atingindo o conhecimento, aproxima-se de um mestre budista. Este, ao ouvir que Milarepa se propunha a pagar qualquer preço pelos seus ensinamentos, fá-lo construir uma série de casas: no final da construção de cada uma, Marpa, o mestre, ordena a sua destruição, alegando razões absurdas. E, de cada vez, Milarepa, ansioso pelo conhecimento, destrói a casa e recomeça-a.
Acaba por se arruinar. Marpa, indiferente ao facto, exige um novo pagamento para o iniciar no caminho da iluminação. Despojado de todos os seus bens, Milarepa tenta finalmente entrar no círculo do mestre, mas este expulsa-o. E Milarepa, desistindo de vez de conseguir que Marpa aceda a ensiná-lo, decide suicidar-se. E então que o mestre se aproxima e o declara pronto para receber os ensinamentos.

«On his path to an enlightment of sorts, he must be stripped of everything, especially hope.»
(John Burnside, Introduction to The Sea, The Sea, by Iris Murdoch)

nastenka-d
 
  Ainda Borges Oral
«Não podemos prescindir do tempo. A nossa consciência passa continuamente de um estado para o outro, e o tempo consiste nessa sucessão. Creio que Henri Bergson afirmou que o tempo era o problema capital da metafísica. Resolvido esse problema, estaria tudo resolvido. Felizmente estou convencido de que não existe perigo algum de que venha a ser resolvido, ou seja, continuaremos semper ansiosos.»

Jorge Luis Borges
"Borges Oral"

Há também a pessagem inconsciente do tempo, de que são exemplos o baile de máscaras que Marcel julga encontrar, ou a deliciosa passagem sobre o largo sorriso de uma certa senhora gorda.

Nem sempre temos esta noção da passagem do tempo, invisível a cada segundo, contudo deixando as suas marcas irreparáveis. E a ansiedade, essa, é uma constante: só se reencontra o tempo perdido, irrecuperável.

leitora
 
  Onde a vida nos empareda, a inteligência abre uma saída.
Acho que foi Goebells, esse paladino do bem-estar da raça humana, que disse que uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade. Não quero, com isto, sugerir que nos enganemos, mas acredito que, se há que insistir numa tecla, que seja uma tecla positiva. Acabamos por criar evidências saudáveis!

Tal como o corpo necessita de exercício, existe também uma higiene mental que passa por contrariar pensamentos nefastos, não alimentar o que nos faz sofrer, estarmos atentos a nós e ao Outro, cultivar as boas práticas, investir em tudo o que nos permita reforçar o amor-próprio e dignificar-nos. Enfim, sempre que possível, convocar o que quer que sejam as “forças positivas” que a vida nos coloca à disposição, por vezes de forma tão prosaica, tão simples, tão discreta*. É que há uma parte de nós que só depende de nós.

* qual é o papel da dádiva nas nossas vidas? quantas vezes nos lembramos de nos darmos, nem que seja um pouquinho, através de um sorriso, um afago, uma palavra? quantas vezes dizemos, às pessoas verdadeiramente importantes, o quanto gostamos delas?? uma vez, ouvi uma menina inglesa dizer à mãe: You´re the bestest mummy!! haverá coisa mais fofa? desde então, não mais me esqueci de repetir essa frase (e repetir, e repetir, e repetir…).

Bom dia!!

azuki
 
terça-feira, julho 12, 2005
  ...andamos há (quase quase quase) dois anos a falar de livros!
uau............
 
  Os traços do tempo
… muitas destas pessoas eram imediatamente identificáveis, mas como sendo retratos bastante maus de si próprias reunidos na exposição em que um artista inexacto e malevolente endurece as feições a esta, retira àquela o viço da pele ou a ligeireza da figura, e lhes carrega o olhar.

Ao mesmo tempo que demonstra uma tendência inata para ser um cretino, Marcel surpreende-me com frases magníficas, tais como “as mulheres bonitas para os homens sem imaginação” (enfim, parece-me ser capaz do pior e do melhor...). Por isso, as páginas em que se dedica a descrever os traços do tempo nos rostos e nos corpos, talvez sejam chocantes, mas não inesperadas.

É evidente que a passagem do tempo provoca devastação, mas: as crises tornam-nos mais fortes, as fracturas são ensinamentos; a experiência refina a nossa capacidade de discernir o essencial do acessório; o tempo reproduz a sabedoria e dá-nos serenidade; a memória é uma peneira fantástica que consegue guardar em nós o que interessa, formando um espólio de valor inestimável. É isso que eu sempre procuro ler nos traços com que o tempo vai marcando um rosto.

azuki
 
  Da morte de Saint-Loup
«E tê-lo visto afinal tão pouco, em locais tão variados, em circunstâncias tão diversas e separadas por tantos intervalos, (...) ainda me oferecia da sua vida quadros mais sugestivos, mais nítidos, e da sua morte um desgosto mais lúcido que o que muitas vezes sentimos por pessoas mais amadas, mas tão continuamente frequentadas que a imagem que delas guardamos não passa de uma vaga média tirada de uma infinidade de imagens insensivelmente diferentes.»

nastenka-d
 
  Aula de Borges sobre a memória
Sempre que penso em memória, penso em Proust, em reencontrar o tempo. Borges, nas suas 6 aulas universitárias, não referiu o nosso autor francês, mas disse coisas admiráveis e muito próximas. Aqui fica um exemplo:

«Em todo o caso, fica a memória. A memória é individual. Somos feitos, em larga medida, de memória.
Essa nossa memória é feita, em boa parte, de esquecimento.»


Jorge Luis Borges
"Borges Oral"

leitora
 
  As pernas, os braços, estão cheios de recordações entorpecidas.
O tempo dentro de nós, esse corrupio desenfreado. Para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, para a frente e para trás; mais depressa ou mais devagar. Esquecemo-nos do que nos quereríamos lembrar, lembramo-nos do que gostaríamos de esquecer. O tempo que desrespeita todos os parâmetros, indomável. Mas a memória não é, de todo, incontrolável. A disciplina mental passa também por uma certa censura inteligente aos estímulos que nos povoam o pensamento. É altamente limitativa a concepção conformista de que “uma pessoa não se faz”. Em boa medida, somos aquilo que os outros nos deixam ser e somos, sobretudo, aquilo que nos deixamos ser.

Bom dia!!

azuki
 
segunda-feira, julho 11, 2005
  esta semana fazemos 2 anos, esta semana fazemos 2 anos, esta semana fazemos 2 anos!!!!
uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
 
  Não estava a atravessar as mesmas ruas dos transeuntes que andavam por fora naquele dia, mas sim um passado escorregadio, triste e doce.
Dizia-me uma amiga, ontem: “acontece-me, amiúde, uma coisa tão trivial como estar a comer um determinado prato e a achar que aquele prato confeccionado pela minha mãe era muitíssimo melhor; só tenho pena de, na altura, não me ter apercebido disso….”. Sucede que, o que não conseguimos na primeira pessoa, acabamos por recuperar mais tarde, quase que personificando um terceiro alguém. Esta terceira pessoa que seremos já conseguirá absorver a vida de uma outra forma, mas não deixará de lamentar o facto de não o ter podido fazer no passado.

Mas, pergunto-me se será possível viver, no momento, as múltiplas dimensões com que a memória nos devolve o tempo que já passou… Qual é o poder da memória? A que ponto consegue ela transformar as nossas diversas etapas, os pequenos nadas da existência? Porque a experiência nos ensinou e nos foi abrindo os olhos? Pelo sofrimento, pelas perdas, pelos conflitos, que nos fizeram crescer? Porque a maturidade nos fornece balizas, e só com parâmetros de comparação é possível valorizar convenientemente? Sim, por tudo isso, e também porque a memória dulcifica. A memória dulcifica.

azuki
 
  Atribulações de um masoquista
«Nem sequer o ladrão e o assassino mais determinado o teriam contentado, porque esses não falam do seu crime; e, aliás, existe no sádico – por muito bom que possa ser, mais ainda: tanto mais quanto melhor for – uma sede de mal que os maus que agem com outros fins não podem satisfazer.»

Mas é ao masoquista que, ao fim e ao cabo, cabe a última palavra; é ele quem decide o fim, o limite da sua dor, do seu prazer. É ele quem detém o poder – como Charlus o detém, na casa de Jupien.
nastenka-d
 
  É bonito ter tanta verdura na janela do meu quarto (iii)
Ao contrário de Marcel, não acho que precisemos de estar sempre à espera do milagre de uma analogia, desesperados por fugir ao presente. O nosso eu pode perfeitamente despertar sem um ruído ou um cheiro de outrora. Mesmo que tudo não seja mais do que simples aparência, há sempre formas de tornar especial a banalidade do nosso quotidiano.

Na minha hora de almoço, de bom grado aceito perder informações relevantes (tanto se aprende nessas alturas…) e as pequenas intrigas que costumam vir no pacote, por umas braçadas na piscina. Na minha hora de almoço, que não é de almoço (geralmente, há uma sandes mastigada debaixo do chuveiro…), procedo à descompressão da intensidade da manhã, levantando a cabeça e olhando para o céu. Nesse momento verde-azul de todos os dias possuo o absoluto privilégio de pensar que me basta estar dentro de água para ser feliz.

Bom dia!!

azuki
 
domingo, julho 10, 2005
  "Pequena célula espiritual"
Na definição de Proust uma pessoa é uma “pequena célula espiritual”.

Querem comentar?

Troti
 
 
«Então o prazer que no primeiro dia se esperava das carícias é mais tarde recebido completamente desnaturado sob a forma de palavras amigas, de promessas de presença que razem deliciosos alívios depois das agonias da incerteza, ás vezes simplesmente depois de um olhar enevoado por todas as brumas da frieza e que afasta a pessoa para tão longe que julgamos que não mais tornaremos a vê-la.»

nastenka-d
 
  Par délicatesse J'ai perdu ma vie. (Rimbaud)
Ao fazer o rol de todas as marcas da passagem dos anos nos restantes, Marcel identifica os sinais da própria erosão, ao mesmo tempo que rejeita a ideia do seu envelhecimento. Atitude paradoxal, misto de voyerismo e de repulsa, mas perfeitamente natural: olhamos para os outros como que procurando um espelho de nós próprios, pensando "eu também tenho isto, eu também sou isto". Nestas páginas duras lê-se o pânico de Marcel. Subitamente, ele apercebeu-se.

Acima de tudo, não será fácil carregar a angústia de sentirmos que não participamos convenientemente na vida. Os pequenos episódios, os singelos prazeres, as descobertas, os afectos, os sabores, os cheiros, a luz, o vento, o silêncio, o olhar dos outros, a tranquilidade, o toque, a noite,…. seriam muito mais intensamente sentidos caso tivéssemos andado despertos a nós e ao mundo. É um facto que vivemos o nosso dia-a-dia com muito pouca concentração, lidando com o tempo de uma forma leviana, por não o sabermos cultivar.

Um dia, tal como Marcel, talvez venhamos a tomar consciência da perda, do vazio, da ausência, da saudade, de tudo o que foi desperdiçado e que já não podemos recuperar. Como se tivéssemos apenas pairado sobre a existência, perdendo o gozo de algo precioso, simplesmente porque não estávamos atentos aos sinais. Por vezes, há evidências tão fortes em nós que só precisam de um aceno. Talvez eles estejam lá e não os consigamos vislumbrar ou, simplesmente, tenhamos receio de não saber interpretá-los...

(...)
Cadê meu caminho a água levou
Cadê meu rastro, a chuva apagou
E a minha casa, o rio carregou
E o meu amor me abandonou
Voou, voou, voou
Voou, voou, voou
E passou o tempo e o vento levou

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho me conta então, me diz
Por que que eu também não fui feliz
Cadê meu amor minha canção
Que me alegrava o coração
Que me alegrava o coração
Que iluminava o coração
Que iluminava a escuridão
E a luz da manhã, o dia queimou
Cadê o dia, envelheceu
E a tarde caiu e o sol morreu
E de repente escureceu
E a lua então brilhou
Depois sumiu no breu
E ficou tão frio que amanheceu
(Passarim quis pousar, não deu, voou)
Passarim quis pousar não deu
Voou, voou, voou, voou, voou


Tom Jobim, “O Tempo e o Vento – Passarim” (EXCERTO)

O passarinho regressa uma vez, duas vezes, três vezes. Mas não dá. Para pousar, ele precisa de um sinal.

azuki
 
sábado, julho 09, 2005
 
“...as pessoas... São vencidas e felizes porque não se julgam vencidas, mas vencedoras.”
Pág.62

Que frase tão triste!

Troti
 
  Para a Leitura Partilhada
«... porque a vida nos decepciona de tal modo que acabamos por acreditar que a literatura não tem qualquer relação com ela.»

Será de facto assim?
nastenka-d
 
 
“Eu já reparara em diversas pessoas que o fingimento de sentimentos louváveis não é o único meio de disfarçar os maus; há outro mais recente que é a exibição desses maus sentimentos, de modo a que a pessoa, ao menos, não pareça escondê-los de si mesma.”
Pág.48

Troti
 
 
“...as mulheres sabem adaptar-se”
pág.41

Fiquei a pensar nesta frase, principalmente no vocábulo "sabem". Será que sabem mesmo?

Troti
 
  Um tempo que queimou as asas da luz
Quando eu te falar de amor, por favor, aguarda um pouco, não digas que há coisas que não se podem consertar. Entristeces-me, pões-me a pensar em não sei o quê. Para que te apressas a falar de mecanismos avariados, se sabes que estou atenta aos sinais? Toca-me de mansinho, se puderes, porque o meu coração está frágil e os meus olhos (ainda) são demasiado jovens. Sei que não me crês, mas há certas luzes que resistem ao tempo. Sim, acho que irei precisar de todo o tempo do mundo para te esquecer.

azuki
 
sexta-feira, julho 08, 2005
 
"...HOMENS ARRASTADOS NA IMENSA REVOLUÇÃO DA TERRA, DA TERRA SOBRE A QUAL SÃO SUFICIENTEMENTE LOUCOS PARA CONTINUAREM AS SUAS PRÓPRIAS REVOLUÇÕES E AS SUAS GUERRAS VÃS..."

Pá. 76

Troti
 
  Do patriotismo
Nesses casos lamentamos mais aqueles que não conhecemos, que imaginamos, que aqueles que estão perto de nós na vulgaridade da vida quotidiana, a não ser que sejamos totalmente desses, que sejamos uma só carne com eles; o patriotismo faz esse milagre, somos a favor do nosso país tal como somos a favor de nós mesmos num conflito amoroso.»

nastenka-d
 
quinta-feira, julho 07, 2005
  O lugar onde está a verdade
«Como um geómetra que, despojando as coisas das suas qualidades sensíveis, delas só vê o respectivo substracto linear, aquilo que as pessoas contavam escapavam-me, porque o que me interessava era, não o que elas queriam dizer, mas a maneira como o diziam, enquanto reveladora do seu carácter e dos seus ridículos.»

Marcel chama-lhe radiografia; talvez o seja. A mim parece-me uma outra espécie de sensibilidade: a de estar atento aos sinais que se lançam involuntariamente e que de cada um diz mais do que que qualquer discurso que se produza. As impressões de Marcel dizem-nos mais acerca do que ele vive (e ele vive muito, ou pouco?) do que qualquer romance realista. Ele torna-se «aquele que sabe tornar-se espelho e pode assim reflectir a vida.»
nastenka-d
 
  Canção do Amor-Perfeito (EXCERTO)
O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras,
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.

(...)

Cecília Meireles

azuki
 

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"OS PAPEIS DE K.", de Manuel António Pina (1 a 3 de Outubro de 2003)

"AS ONDAS", de Virginia Woolf (13 a 20 de Outubro de 2003)

"AS HORAS", de Michael Cunningham (27 a 30 de Outubro de 2003)

"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)

"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)

"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)

"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)

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"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)

"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)

"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)

"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)

"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)

"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)

"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)

"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)

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"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)

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UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)

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