(do conjunto de litografias denominado “Los toros de Burdeos”)
Arena Tomalín... Como toda a gente se divertia maravilhosamente, como todos se sentiam felizes, como toda a gente se sentia feliz! Como o México ria, esquecendo a sua história trágica, o passado, os mortos debaixo da terra! (...) O pobre e velho animal parecia agora realmente um ser atraído, arrastado para acontecimentos dos quais não possuía verdadeira compreensão, por pessoas com quem desejaria entrar em relações cordiais, divertir-se, até, pessoas que o incitavam, encorajando-o a ter desses desejos e com as quais, afinal, por desejosas de o desprezarem e humilharem, acabava por se ver enredado. (...) O touro lutou mais um pouco contra as forças contrárias das cordas; depois, submeteu-se melancolicamente, abanado a cabeça para um e outro lado, com movimentos que varriam o chão, quase revolvendo o pó, onde, temporariamente derrotado, se assemelhava a um fantástico insecto apanhado no centro de uma enorme teia vibrante... (...) Tumba, tumba, tumba – matraqueavam as guitarras, enquanto o cavaleiro lançava um olhar furioso para os lados; agarrou a corda com maior firmeza em torno do pescoço do touro; puxou-o com um movimento brusco e, por um momento, o animal fez realmente aquilo que dele se esperava, ao que parecia, projectando-se violenta e convulsivamente como uma máquina e dando pequenos saltos no ar com as quatro patas. (...) A orquestra atacou de novo os compassos da Guadalajara, e o touro urrou, com os chifres presos nas grades, através das quais, indefeso, ia sendo picado com varas no que lhe restava dos testículos. Cocegavam-no com varinhas flexíveis, com uma faca de mato e, depois de o animal se ter desembaraçado e de novo deixado enredar, continuaram a importuná-lo com um ancinho de jardim; atiravam-lhe com poeira e bosta aos olhos congestionados.
“Debaixo do Vulcão” (1947), de Malcolm Lowry, Edição "Livros do Brasil" Lisboa, tradução de Virgínia Motta
Lendo esta passagem, mais se reforça o meu muito emocional e inflexível antagonismo às touradas. Quais são as razões soberanas em nome das quais faremos má figura perante gerações futuras, (desejavelmente) não familiarizadas com a barbárie? Celebração colectiva, identificação cultural, prática ancestral, estratégia de diferenciação para projecção da terrinha e estímulo económico, simplesmente porque se gosta…? Por motivos de contenção, abstenho-me de referir onde desejaria que as pontas (quando existem) daqueles animais assustados desorientados maltratados extenuados se fossem enterrar.
É o Cônsul que diz que uma das primeiras penitências que alguma vez se impôs a ele mesmo foi aprender de cor a parte filosófica do Guerra e Paz […] mas a única coisa que lhe ficara do livro fora o facto de Napoleão sofrer de um tique nervoso numa perna.* Se a leitura deste livro for uma espécie de penitência, o que guardará cada leitor desta penitência? Falo por mim. A leitura nunca foi uma penitência mas um vício, sadio direi, desvalorizando a contradição. E penso que deste livro me vai ficar mais do que a afeição intensa e indestrutível que o Cônsul tem pela bebida.
Por exemplo, essa Calle Nicaragua é deveras inquietante. Os que por lá caminham, os nossos angustiados personagens, primeiro Laruelle, depois o Cônsul que, bêbado, achou ter sido a rua a subir até ele e não ele a nela se estatelar, num exercício extremo de equilíbrio do ponto de vista do narrador,e agora no capítulo quarto Hugh, o irmão do Cônsul, que a percorre na companhia de Yvonne, acabam por a transformar no ponto para onde convergem todas as viagens, as do cérebro e as outras.
Malcolm utiliza a mesma técnica narrativa com os dois irmãos, ou seja, Hugh deixa a coitada da Yvonne a falar sozinha e viaja para muito lados enchendo-nos de informações geográficas sobre o Canadá, históricas e políticas sobre a Espanha, e até sobre a suavidade climática de Trinidad, o seu sonho de ilha. Realço duas conclusões prévias: Yvonne vale pelas emoções que desperta nos irmãos; os irmãos são as duas faces da mesma moeda: de Malcolm. Numa aproximação à heteronímia de Pessoa. Et pour cause.
Nada, no mundo, existia de mais terrível que uma garrafa vazia! A não ser um copo vazio.*
Não tenho dúvidas nenhumas de estarmos perante uma obra que merece uma atenção especial. Imagino o que os estudiosos da literatura e da psicologia poderão retirar destas trezentas e cinquenta páginas escritas a ferro e fogo, ou como quem diz, à luz do álcool, mescal, uísque, estricnina ou sei lá. O Cônsul é uma personagem próxima de mais do autor Malcolm Lowry. Percebe-se isso pela apropriação constante que este faz do que lhe vai na mente, face à formalidade na composição das personagens exteriores. Os diálogos são sistematicamente interrompidos por lembranças intrusas de situações vividas. Yvonne, por vezes, fica a falar sozinha, porque, entretanto, o Cônsul distraiu - se com acontecimentos extraordinários que se iam desenrolando dentro do seu próprio cérebro. A dependência do álcool acaba por dar o tom a esta sinfonia de bebedeiras. Bebedeiras adiadas, encobertas ou desenfreadas, que dão mais consistência e mais segurança à mão que segura o copo, ou antes, à mão que escreve, pois não diz o Cônsul, ainda no terceiro capítulo, que se sentia mais lúcido precisamente quanto mais bêbado se encontrava?
O Popocatépetl é um estratovulcão activo, localizado a 60 km a sudeste da capital mexicana. O seu cume atinge 5.482 metros de altitude e é o segundo mais alto do México. Nos últimos dez anos, sempre no mês de Dezembro, entra em actividade, soltando colunas de fumaça que cessam gradualmente (fonte: wikipedia).
Em Fev/03: Popocatépetl entra em erupção no México - O vulcão Popocatépetl, a sudeste da capital mexicana, lançou hoje duas novas colunas de fumaça, que alcançaram dois e quatro quilômetros de altura, respectivamente. O Centro Nacional de Prevenção de Desastres (Cenapred), encarregado da observação do comportamento do vulcão, explicou que as exalações estiveram acompanhadas de explosões no interior da cratera, o que ocasionou a expulsão de material incandescente. (…) O coordenador do Plano Operacional Popocatépetl, Ramón Peña, explicou que estas explosões são normais num vulcão ativo e estão relacionadas com a destruição do domo de lava do interior da cratera. Peña garantiu que, apesar da intensidade dos fenômenos, não existe nenhum risco para as pessoas que vivem em comunidades próximas ao vulcão (…) As autoridades do estado de Puebla disseram, por sua vez, que diante do aumento da atividade do vulcão, foi intensificada a vigilância nos arredores. O Popocatépetl, que entrou em atividade em 1994, fica entre os estados do México, Puebla e Morelos. Em maio de 1996, cinco pessoas morreram perto da cratera por causa de uma explosão em seu interior e, em dezembro de 2000, novas explosões fizeram com que milhares de pessoas evacuassem a região. (fonte)
Em Dez/00: 40 mil deixam casas próximas a vulcão no México - Cerca de 40 mil pessoas estão deixando suas casas para fugir da erupção do vulcão Popocatepetl, na região central México. Nos últimos dias o vulcão tem lançado colunas de fumaça e fragmentos de rocha a centenas de metros de altura. De acordo com especialistas, a atividade do Popocatepetl ainda não pode ser considerada uma erupção porque não existe a expectativa de que lava também seja lançada. Mas eles advertem que a pressão está aumentando perigosamente no interior do vulcão, e os fragmentos de rocha que estão sendo lançados constituem um risco real para a segurança dos moradores da região. (…) Um pedaço de rocha chegou a ser encontrado a 10 km de distância do Popocatepetl, que fica a 60 km da Cidade do México. Praticamente todas as pessoas que moram a uma distância de até 6 km do vulcão já foram evacuadas. Mas as autoridades locais estudam evacuar todas as pessoas que moram dentro de uma faixa de 12 km ao redor do Popocatepetl. O presidente Vicente Fox pediu à população que mantenha a calma. (fonte)
Este blog fue creado con el propósito de unir a la comunidad lowryana de todo el mundo a fin de intercambiar ideas e información sobre el escritor, además de promover y organizar conferencias, coloquios y otras actividades acerca de su obra. Cuernavaca, Morelos.
En el centenario del natalicio de Lowry habrá tres eventos grandiosos a nivel mundial. 1.- El tercer coloquio internacional Malcolm Lowry en Cuernavaca del 25-28 de julio del 2009. 2.- El Festival Internacional Malcolm Lowry en Liverpool Inglaterra durante el mes de septiembre del 2009. 3.- La Conferencia del Centenario de Malcolm Lowry en la Universidad de British Columbia Canadá del 23 al 25 de julio del 2009... y allá nos vemos.
Este romance tem como tema, para usar a frase de Edmund Wilson, as forças que habitam no interior do homem, e que o levam a assustar-se consigo próprio. O tema é também o da queda do homem, o dos seus remorsos, e do seu incessante combate para alcançar a luz, sob o peso do passado, ou do seu destino. A alegoria é a do jardim do Éden, e o jardim representa este mundo, de que corremos o risco de ser expulsos, talvez mais agora do que na altura em que escrevi o livro. Num desses muitos planos de significação, a bebedeira do Cônsul deve simbolizar a bebedeira universal durante a guerra, ou durante o período que a antecedeu, ou em qualquer altura. Ao longo dos doze capítulos o destino do meu herói pode ser considerado em relação com o destino da humanidade.
(...) O livro situa-se em diferentes planos. A minha intenção foi a de clarificar, na medida do possível, aquilo que a princípio me surgira de uma maneira complicada e esotérica. Este romance pode ser lido simplesmente como uma história no decurso da qual o leitor pode saltar passagens, mas que desfrutará muito mais se o não fizer. Pode ser considerado como uma espécie de sinfonia, como uma ópera, ou como um filme de cowboys. Eu quis fazer música hot, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e assim sucessivamente. É superficial, profundo, distraído, pesado, segundo os gostos de cada um. É uma profecia, uma advertência política, um criptograma, um filme cómico, um absurdo, uma frase escrita na parede. Pode ser considerado uma espécie de máquina: funciona, acredite, descobri-o à minha custa. No caso de suspeitar que fiz qualquer coisa excepto um romance, responder-lhe-ia que afinal de contas a minha intenção foi a de escrever um verdadeiro romance, de facto um romance endiabradamente sério. Malcolm Lowry
O conteúdo da carta queimada por Laruelle é uma antecipação e corresponde ao ponto final da história que começa a ser contada no segundo capítulo. Aqui, as personagens são de carne e osso, se assim posso falar. Yvonne e o Cônsul reencontram-se, é importante salientar, reencontram-se. Pergunto-me o que leva um casal de divorciados a retomar a relação. É óbvio que o livro vai dizer-me, não sei em que capítulo – não tenho pressa – mas essa pergunta faz-se, mesmo sem ser diante deste livro.
O modo como tomamos conhecimento da primeira parte da relação é muito peculiar: são as malas de Yvonne, três malas e uma caixa de chapéus, floreadas de rótulos dos locais onde estiveram, Honolulu, Granada, Algeciras, Gibraltar, Paris, Londres, que nos informam silenciosamente dessas andanças. Esse é o mundo, provavelmente cheio de fotografias a preto e branco, no entanto, outro mundo se vai revelando, o submundo manifesto na bandeja que Concepta leva para a varanda onde estão os reencontrados ex-marido e ex-mulher: dois copos, uma garrafa John Walker, com uísque até meio, um sifão de soda, um jarro de gelo a derreter-se e uma garrafa de aspecto sinistro, também semicheia de um cozimento vermelho escuro como um clarete de má qualidade. Era a estricnina*.
*Alcalóide! vegetal, muito venenoso, extraído da noz-vómica, que provoca a contracção! e depois a paralisia dos músculos. (Em dose fraca, a estricnina é estimulante.)Priberam - dicionário online
Debaixo do Vulcão, considerado por muitos um dos grandes romances do século XX, faz parte de uma enorme lista de originais que foram recusados pelas editoras. Na altura em que foi publicado, era mais difícil “impulsionar” o sucesso de um livro através de uma assertiva campanha publicitária: a qualidade literária era mesmo um critério. E, no entanto…
(…) A Espera Enviado o original, tem de saber esperar. Mostrar impaciência passada uma semana é mau sinal. E esperar mais de seis meses revela falta de convicção. O melhor é informar-se dos prazos junto do editor (são poucos os que em Portugal têm o apoio de Comissões de Leitura). Mas o principal é saber que apenas um em mil originais será aceite. De qualquer modo, envie o seu para vários editores. As possibilidades aumentam e se um deles o aceitar poderá sempre ter o prazer de explicar aos outros que lamenta mas... Em caso de recusa, pode pensar que o editor é um incompetente, o que pode muito bem ser o caso. Em Busca do Tempo, Debaixo do Vulcão, Uma Conspiração de Estúpidos e Levantado do Chão, integram a longa lista de originais recusados. Em alternativa, leia A Tabacaria com «Desespoir agréable» de Satie como música de fundo, e convença-se que a posteridade saberá reconhecer os seus. (…) fonte: Blogue da Relógio D’Água Editores
Debaixo do Vulcão (1947), é um dos grandes romances do século XX. Passados sessenta anos da sua publicação, e cinquenta da morte do seu autor, mais claro se afigura o seu lugar na tradição literária, a par deA Montanha Mágica, de T. Mann, ou A Morte de Virgílio, de H. Broch, sem esquecer a sombra deMoby Dick, de H. Melville, para citar apenas três bons exemplos. O México aqui descrito oscila entre o naturalista e o alucinatório, palco onde se reúnem numerosas dimensões e significados sobrepostos, do humano ao político, da paisagem interior à natureza selvagem, do mítico e mágico ao religioso, numa tessitura onírica e poderosa. Acima de tudo, é um mural feérico e subjectivo, onde perpassa a nostalgia de um lugar que não seja escuro como um barranco e frio como a ausência do amor. (...) O livro, em prosa luxuriante, que em doze partes cobre doze horas, assemelha-se a um sonho semeado de símbolos, a um delírio alcoólico, a um filme expressionista, a uma elegia musical ao amor perdido, mas também a uma viagem xamânica pelo labirinto da existência humana, privada de uma luz redentora, entre memórias e alusões, num sobrevoo de Ícaro, caindo sempre, esperando ainda um regresso a um lugar perdido. A sua estrutura pode ser assimilada à Árvore da Cabala, uma homenagem a Dante e ás aventuras de Alice; o seu herói, ao Louco do Tarot, a um Perceval caído em desgraça, abandonado pela visão do Graal, ao Rei Pescador, ferido de morte, retrato a sépia de um “eu” que se desintegra e perece. A atmosfera sombria e deletéria é atenuada por momentos de pura comédia, incursões e discussões de vária índole, que dão cor e espessura ao cenário, onde se desenrola esse dia singular, com profundos ecos da expulsão do Éden, a queda no mundo e a expiação, no calvário da existência, longe do jardim inicial. (...) Rejeitado inúmeras vezes e reescrito sem parar ao longo de uma década, o manuscrito sofreu desastres naturais, incêndios, incompreensões. Numa célebre carta ao seu editor (in “Por Cima do Vulcão”, Hiena, 1991), dá conta dos seus propósitos e intenções, fazendo a defesa acalorada da obra, como se pode aferir no prefácio do autor para esta edição [da Relógio D´Água, 2007]. Tinha razão em defender a sua dama, ou melhor, a sua visão do inferno, onde deambula o Cônsul, vítima sacrificial num mundo de trevas, em busca da lucidez e do retorno ao paraíso, mesmo sem esperança de o alcançar, mas com a paixão de quem cumpre um destino, pois “no se puede vivir sin amor”.
Encontrei este video no Blog http://malcolmlowry.blogspot.com/
Desta vez não vou acompanhar a leitura do livro "Debaixo do Vulcão", mas pelo que vi neste Blog é um escritor que tem um grande número de admiradores. Uma boa leitura para quem se aventurar a ler este livro. Luis Neves
Nisto de separar autor e obra, aliás um assunto também tratado por Malcolm Lowry no dito prefácio, não deixa de ser interessante ler um pouco acerca da experiência de vida do escritor e dos reflexos dessa experiência no enredo. No caso de Debaixo do Vulcão, pelo que fui lendo na net, parece ser demasiado evidente o autobiografismo no acto de criação, o qual está engenhosamente documentado no já referido facto do autor ocupar a torre em que o herói terá tido alguns problemas devido ao atraso de correspondência. Assim sendo, acho que, nestes primeiros dias tradicionalmente atribuídos ao autor e à obra, é possível avançar na exploração do primeiro capítulo, mesmo porque nos previnem que se trata da trave mestra de todo o romance.
E o que diz o primeiro capítulo? Para além das coordenadas geográficas que trataremos mais tarde; das características da cidade de Quauhnahuac (dezoito igrejas, cinquenta e sete bares, um campo de golfe, quatrocentas piscinas, públicas e particulares, muitos e esplêndidos hotéis e um único cinema); do percurso de uma determinada rua, a Calle Nicaragua; de uma repentina memória da vida passada em Inglaterra pelo francesito Laruelle para introduzir o Cônsul e das referências a um passado recente, temos uma longa carta encontrada por acaso no meio de um livro que o Cônsul emprestara a Laruelle com o objectivo propositado de não o querer devolvido e que Laruelle, por acaso realizador de cinema, esqueceu no acima referido cinema, local onde se encontra no final do capítulo. Deixem-se levar pelo romantismo e leiam a carta! De acordo com Laruelle está escrita em duas folhas de papel de bloco de hotel, papel invulgarmente fino, comprido mas estreito e escrito dos dois lados e sem margens. Leiam! Até porque depois de a ler, Laruelle queimá-la-á.
Malcolm Lowry, nasceu numa abastada família de Liverpool, teve uma infância protegida, mas cedo começou a afastar-se do meio social e familiar. Aos 17 anos embarca num cargueiro rumo ao Japão. Dessa viagem há-se retirar matéria para o primeiro livro, Ultramarine (1933). Ingressa em Cambridge, que frequenta por três anos. É descrito pelos amigos como um tipo jovial, mas dado a excessos de álcool. Em Nova Iorque passa dez dias internado na ala psiquiátrica de Bellevue. A experiência é descrita emLunar Caustic(Assírio & Alvim, 1985). Finalmente, em 1936, desembarca no México, onde começa a escreverDebaixo do Vulcão. Quatro anos mais tarde fixa-se no Canadá, perto de Vancouver, até regressar à Europa no final da década, não sem antes passar uma segunda vez pelo México, de onde é expulso. A década de 50 é-lhe penosa e, ao mesmo tempo, muito produtiva. A morte vem por “acidente”, ao cabo de uma tentativa de suicídio. Havia escrito: Há mil escritores que podem criar personagens adequadas para um que diz algo de novo acerca do fogo do Inferno, e eu digo alguma coisa nova acerca desse fogo.
A edição da Relógio d' Água traz um prefácio escrito por Malcolm Lowry para a primeira edição francesa de Debaixo do Vulcão. O prefácio tem o firme propósito de esclarecer e facilitar a compreensão da obra, pois, pelo que é dito a seguir, parece que o leitor profissional que leu o manuscrito ainda não publicado colocou sérias reservas ao conteúdo, sugerindo mesmo que Lowry reescrevesse capítulos e suprimisse personagens. Ora, como muito bem diz o autor, com tanto trabalho feito e tanto tempo gasto na construção, obscura ou não, de uma obra literária, é óbvio que se tornava imperioso esclarecer certos pormenores, quanto mais não fosse para, digo eu, prevenir o leitor de que ele, Malcolm Lowry, - como aliás qualquer outro escritor - nunca teve qualquer intenção de escrever um livro pesado e aborrecido.
A interpretação dada pelo autor acerca do seu romance, já quando considerado obra-prima da literatura moderna, não deixa de ser curiosa por dois motivos: primeiro porque ficamos a saber que Lowry sempre desejou escrever aquele livro e que o seu modelo foi Almas Mortas, de Gógol; segundo que, escrito o livro e criados os personagens, o próprio autor, no momento em que escreve o prefácio, ocupa a torre na qual o herói do romance terá alguns problemas devido ao atraso de correspondência, o que saberemos melhor lendo o capítulo seis da obra, se entretanto lá chegarmos.
Um pouco insensível a este tu cá tu lá leitor autor, resolvi deixar o prefácio (será para mim um posfácio) exactamente no parágrafo que termina na data Novembro de 1938 e acompanhar o francês pelo fim de tarde na cidade de Quauhnahuac. O bar aí em cima está fechado, mas uma bebida calha bem com leitores amadores. Mesmo que seja virtual. À nossa!
- Não nos esquecemos de nada? Fizemos, com certeza, tudo o que era possível?
- Aquele tipo lá da cadeia dizia assim: “De qualquer maneira, a gente faz o que pode.” E acrescentava: “A única coisa que nos deve importar é dar sempre um passo em frente, por mais pequeno que ele seja. Se depois, a coisa fizer marcha atrás, nunca recuará tanto como andou para a frente. É uma coisa que se pode provar, e é por isso que vale a pena agir. Está provado que nada é inútil, mesmo que o pareça. “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
(foto minha)
Em face do livro que elegemos para este mês e dos tempos que correm, julgo pertinente transcrever aqui as palavras do meu amigo José Ferraz Alves que, para além do exercício da sua actividade profissional, tem estado a trabalhar de forma muito envolvida na temática do empreendedorismo social:
Porque não integrar a dimensão social na teoria económica? A generalidade das pessoas preocupa-se com o mundo e com os outros. Os seres humanos têm o desejo instintivo e natural de melhorar a vida dos outros, caso tenham oportunidade. Se pudessem escolher, prefeririam viver num mundo sem pobreza e doença, livre da ignorância e do sofrimento desnecessário. Porque não construir empresas que tenham por objectivo pagar decentemente aos assalariados e melhorar a sua situação social, em vez de fazer com que dirigentes e accionistas se encham de lucros? (...) John Kenneth Galbraith, a propósito da crise de 1928, colocou a desigualdade na distribuição de rendimentos como sendo a sua principal causa. O problema não era o consumo, mas existirem poucos consumidores, o que tornou a economia dependente de um alto nível de investimento ou de um elevado nível de consumo de bens de luxo, ou de uma composição de ambos. O capitalismo moderno tentou resolver o problema através do crédito. Mas, a solução passa necessariamente pela correcção real das desigualdades na distribuição de rendimentos. Numa sociedade onde a riqueza é melhor distribuída, esta circula melhor. Mais vale entregar migalhas a milhões, do que muito a poucos.
Heres a virtual movie of the novelist John Steinbeck (1902 - 1968) discussing his reasons for writing his great novelThe Grapes of Wrath in a sound interview recorded in 1952.
Outro Video, http://www.youtube.com/watch?v=xqaTv8cCWeg
Foi um grande prazer ler este livro e partilhar algumas das minhas opiniões sobre o livro. Escrever na companhia da Azuki e ler os seus textos inspirados acompanhados por belas fotografias, ainda tornou a leitura mais agradável. É como embarcar e viajar por dentro da história, descobrir os mais interessantes detalhes e encontrar o mais significativo da história. Por todos os teus Posts cheios de vigor, para a Azuki um Beijinho. Luis Neves
- Então comecei a compreender. É a miséria que provoca todos os males. (...) um dia, deram-nos feijão azedo. Um tipo começou a refilar, mas não ganhou nada com isso. Berrou que nem um cabrito. Veio um guarda, olhou para dentro e foi-se embora. Então, um outro tipo começou também a berrar. E acabámos por berrar todos. Até parecia que a cadeia ia explodir. Então passou-se uma coisa. Eles vieram, a correr e deram-nos outra comida. Sim, senhor. Trocaram a comida. Compreende? “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
Hoover Dam, construída durante os anos 30 (foto minha)
Durante a Grande Depressão norte-americana e anos subsequentes, as pessoas vendiam ao desbarato tudo o que possuíam, para alimentar a família e poder partir em busca de uma vida melhor. Em todo o País, uma profusão de filas: filas para arranjar emprego, filas para os subsídios, filas para a distribuição de alimentos. E, enquanto milhões se viam obrigados a recorrer à caridade pública e pais assistiam à morte dos filhos por inanição e doença, os produtores destruíam as colheitas, numa tentativa de parar a espiral de redução de preços. Os EUA dos anos 30 devem ter constituído um cenário tétrico, esse mesmo que pudemos ver numa parte da exposição “Arquivo Universal”, no Museu Berardo.
O New Deal, posto em prática pela administração Roosevelt, vem finalmente determinar a recuperação do País e a melhoria generalizada das condições de vida da população, através: - da estabilização da produção e normalização de preços (indemnizações aos agricultores para redução da terra cultivada, concessão de crédito agrícola a longo prazo, estabelecimento de preços mínimos, fixação de níveis de produção,..); - do aumento do poder de compra e da redistribuição dos rendimentos (via aumento de salários, criação de postos de trabalho através de um grande plano de obras públicas, legalização da actividade sindical e Welfare State - semana de trabalho de 40 horas, subsídio de desemprego, salário mínimo nacional,...).
A crise e os seus horrendos custos humanos, a crise do indizível sofrimento, a crise com os seus motores do desespero e da ira, permitiu o surgimento de algo bom: uma sociedade melhor e mais justa. Uma sociedade mais atenta às temáticas da redistribuição dos rendimentos e do equilíbrio económico-financeiro, uma sociedade mais sensível aos interesses das classes mais desfavorecidas, uma sociedade com outra concepção do papel do Estado; uma sociedade mais livre, em que os Homens se podem organizar e reunir para reivindicar os seus direitos e melhores condições de trabalho. Enfim, uma sociedade que reflectiu sobre os modelos vigentes e elencou erros, que reequacionou escolhas e que conseguiu reinventar-se.
Uma sociedade que, todavia, voltou a prevaricar. O que nos reservará esta nova crise do século XXI?
E, enquanto os californianos desejavam muitas coisas: acumular riquezas, triunfos sociais, diversões, luxo e uma boa segurança bancária, os novos bárbaros só desejavam duas coisas: terra e comida. “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
Nada contra os ricos. Que haja muitos e cada vez mais. Mas, nos EUA dos anos 30, a desigualdade social atingiu níveis obscenos. Tal como hoje. Nos últimos tempos, devem ter-se produzido incontáveis notícias sobre a transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid (e sobre a taxa de imposto que será aplicada aos rendimentos do jogador). Não li nenhuma, apenas fixei a verba e não pude deixar de sentir vergonha. Um pouco de compostura e de decência nunca fizeram mal a ninguém, mas parece que estes senhores não querem saber disso. Tal como os outros, aqueles dos salários e prémios sumptuosos.
Ao contrário do que muitos yuppies nos querem fazer crer (agora menos, é certo, depois das ajudas públicas a tantas empresas privadas que tão bem tratavam os seus gestores, e do exercício de lucidez a que, finalmente, a administração Obama os obrigou), é incorrecto dizer que os salários e prémios sumptuosos dos gestores de empresas privadas só aos seus accionistas dizem respeito. Isso seria verdade num mundo em que: - os modelos de governance fossem equilibrados e eficazes e as estruturas accionistas fortes; - os mercados, incluindo entidades reguladoras, funcionassem (onde, como tal, não fosse possível cobrar preços de monopólio/cartelizados, abrigados da concorrência e excessivos para os consumidores); - essas empresas não usufruíssem de benefícios fiscais e de benesses públicas várias (como alegadas “permutas de terrenos”, perdões de dívida, favorecimentos e negociatas de conteúdo duvidoso..); - os trabalhadores auferissem salários condignos; - os gestores não tendessem a privilegiar os ganhos obtidos no decurso do mandato, pondo em risco a solidez da empresa no mlp + os CA’s de empresas privadas mas com fortes ligações ao Estado não fossem sinecura para os amigos do Partido => os contribuintes não fossem tantas vezes chamados para acudir ao mau resultado dos abusos e das ineficiências destes verdadeiros modelos de generosidade para com os seus gestores. Acresce que, nos difíceis tempos que correm, existe o argumento da moral pública.
Por isso, se me disserem a mim, que não tenho opinião formada sobre estas questões do futebol, que há importantes contribuições do erário público na actividade do Real Madrid, eu vou achar que a transacção é obscena. E vou pensar que, num país onde há mais de 3,5 milhões de desempregados, estes montantes estratosféricos são um insulto ao povo espanhol. Mesmo que as suas atitudes estejam branqueadas por argumentos apelativos (como o impulso que o jogador trará ao futebol e à economia espanhola, etc, etc), os dirigentes têm a obrigação de saber que há critérios de razoabilidade que não podem deixar de cumprir. Em alturas de enorme penúria e desespero, em que as pessoas andam abatidas e se sentem espoliadas, o exemplo é algo de precioso, como o referiu de forma notável António Barreto, no seu discurso do 10 de Junho. De facto, os bons exemplos não alimentam ninguém, mas melhoram os ânimos e têm efeitos virtuosos. Pelo contrário, os maus exemplos são contributo para a ira.
As companhias e o bancos trabalhavam para a sua própria ruína, mas ignoravam-no. Os campos estavam prenhes de fruta, mas nas estradas marchavam homens que morriam de fome. Os celeiros estavam repletos, mas as crianças cresciam raquíticas e inchava-lhes o corpo com as pústulas da pelagra. As grandes companhias ignoravam quão estreita é a linha divisória entre a fome e a ira. E o dinheiro, que podia ter sido empregado na melhoria dos salários, gastava-se em bombas de gás, em carabinas, em agentes e espiões, em listas negras e exércitos bélicos. Nas estradas, os homens deslocavam-se como formigas, à procura de trabalho e de comida. E a ira começou a fermentar. (idem, ibidem)
A Mãe Joad, a força unificadora da família" - Eu sei, mas nem reparo nas terras. Só vejo os salgueiros lá da nossa casa, com as folhas a caírem. Às vezes, dá-me para pensar que tenho de consertar aquele velho buraco da cerca, do lado sul. E engraçado! A mulher a dar ordens à família! A mulher a dizer que se vai fazer isto, que é preciso ir para acolá... E eu nem sequer me ralo com isso. - As mulheres acostumam-se mais depressa que os homens - disse a mãe, para o consolar. Uma mulher tem a vida toda nos braços; o homem tem-na na cabeça. Não te preocupes. Quem sabe?... talvez para o ano já a gente possa ter a nossa casinha. - Mas, por enquanto, não temos nada - replicou o pai. - E daqui até lá, nem trabalho nem colheitas... O que é que a gente há-de fazer? E como é que vamos arranjar que comer? E não se esqueçam de que a Rosasharn vai ter o menino não tarda muito. Estou tão desgostoso que me sinto incapaz de pensar. Refugio-me nos tempos antigos para não pensar no futuro. Acho que a nossa vida já deu o que tinha a dar; é coisa liquidada. - Nada disso - argumentou a mãe, sorrindo.- Não é não, pai. E isto é mais uma das coisas de que uma mulher tem a certeza. já reparei nisso. O homem vive como se desse saltos... nasce uma criança e morre um homem, e é como se fosse um salto; arranja uma territa; perde a territa, e é outro salto. Para a mulher tudo corre sem parar, como um rio cheio de remoinhos e de cascatas, mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não morre, a gente continua... muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme. - Como é que sabes isso? - perguntou o tio John. - Como é que se pode evitar que as coisas parem e que as pessoas se cansem e queiram fechar os olhos? A mãe pôs-se a meditar. Esfregou o dorso luzidio de uma das mãos com a palma da outra, e encaixou os dedos da mão direita nos da esquerda. - Isso é difícil de explicar - continuou. - Parece-me que tudo que a gente faz deve ter continuação. Eu penso assim. Mesmo a fome... mesmo a doença. Alguns morrem, mas os que ficam tornam-se mais fortes. O que vocês têm de fazer é viver somente o dia de hoje, o dia a dia. " As vinhas da ira, capítulo XXVIII
A Mãe é a personagem do livro que tem mais força e coragem e que mostra à sua família como se tem de resistir às difíceis provações. É a força de união da família Joad, a pessoa que assume as decisões fundamentais para a sobrevivencia da familia. A Mãe tem uma força admirável e tem sempre uma grande ternura para a família. Talvez como Steinbeck diz nesta passagem do livro, por as mulheres terem uma maior capacidade de se adaptarem a condições difíceis e por terem uma grande resistência psicológica, que os homens nesta história não têm.
Deixo aqui um poema do Nuno Júdice que encontrei no Blog A a Z , que nos dá uma visão da importancia da Mulher na vida rural.
Luta de classes - O campesinato A chave do campo está na mão das mulheres que o lavraram, desfazendo os nós do inverno com a exactidão da pá. Vi estas mulheres no grande caminho da História, perdendo as suas vidas em cada nova colheita. O sol tisnou a sua pele; o frio enrugou os seus rostos. À noite, quando o vento batia nas janelas de madeira, os seus olhos atravessavam a treva e perdiam-se em destinos que não conheciam, como se tivessem outra saída. Ouvi as suas queixas no murmúrio das árvores que as abrigaram; e vi os seus corpos deitados nas igrejas, sem ninguém que os velasse, a caminho da vala comum. Amei-as, sem que o soubessem; e ouço o ruído das pás na terra, quando os seus rostos me atravessam a memória, e o inverno cai sobre a lama dos campos.
São uns malditos de uns Okies, uns ignorantes imundos
Reinou o pânico no Oeste, quando se multiplicaram os homens nas estradas. Os homens receavam pelas suas propriedades. Homens que nunca tinham tido fome viam os olhos dos esfaimados. Homens que nunca na sua vida tinham sentido verdadeira necessidade de qualquer coisa viam a chama da necessidade arder nos olhos dos homens das estradas. E os homens das cidades e dos campos suburbanos que rodeavam as cidades preparavam a defesa. Tinham estabelecido que eles é que eram bons e que os outros – os invasores – eram maus, como fazem sempre os homens antes dos combates. E diziam: “São uns malditos de uns Okies, uns ignorantes imundos. São uns degenerados, uns maníacos sexuais. Uns ladrões, esse Okies danados, que roubam tudo o que encontram. Não têm consciência do direito de propriedade. (...) São uns imundos que espalham epidemias. Não podemos consentir que os filhos deles frequentem a mesma escola que os nossos. Eles são estranhos. O que é que tu dirias se a tua irmã fosse passear com um deles? “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
(tirei estas fotos na exposição "Arquivo Universal", Museu Berardo; infelizmente, desconheço o nome dos seus autores)
Uma crise clássica de superprodução, conjugada com uma crise financeira, em círculo vicioso: (1) década de aumento exponencial da produção agrícola e industrial (mecanização, movimentos de concentração de empresas, acesso ao crédito, reconstrução europeia) => insuficiente procura nacional e recuperação pós-guerra na Europa: excesso de produção => acumulação de stocks => quebras de preços, falências, defaults => (2) década de aumento exponencial das transacções e cotações em bolsa: ebulição e especulação => crash na bolsa de NY => perdas colossais (de bancos, empresas e indivíduos) => falências, defaults => (1) + (2) => despedimentos em massa => quebra do poder de compra, crise de confiança, restrições no acesso ao crédito => contracção do consumo e do investimento, mais falências e despedimentos => pobreza, criminalidade, tensões sociais => ...
Durante a década de 20, o American Way of Living com os seus high standards estava pujante, assistindo-se a um aumento exponencial da produção agrícola e industrial e à vertiginosa subida das transacções em Bolsa. Com a mecanização e o aumento da dimensão das empresas, atingiram-se níveis de produtividade nunca vistos; o acesso ao crédito era cada vez mais fácil; todos jogavam no mercado de capitais, mesmo os que não tinham preparação técnica ou desafogo financeiro para assumir riscos tão elevados; a Europa estava a reconstruir-se e os fluxos de capitais americanos e suas exportações eram bem-vindos. Como sempre em que não há mecanismos que façam acalmar espíritos e ganância, entrou-se numa espiral de elevado consumo, especulação e preços inflacionados. A esta década de enorme prosperidade, seguiu-se uma crise mundial sem precedentes.
As crises de superprodução e financeira originaram graves problemas sociais: desemprego pobreza suicídios, mas também banditismo e criminalidade, bem como violência e repressão. Os períodos de dificuldades exacerbam os ânimos e, seja porque se sentem ameaçados na sua segurança e estabilidade (pelo Outro: o esfomeado, que vem do campo ou da fábrica que fechou, ou o diferente – negro, hispânico, judeu), seja porque há preconceitos que a prosperidade tinha permitido atenuar, os indivíduos gastam as suas energias a violentar ameaçar rejeitar, em vez de, como cidadãos solidários, as utilizarem de uma forma virtuosa. Nas fases de penúria, acentuam-se os movimentos "de cariz centrípeto" (nacionalismo, proteccionismo, racismo, xenofobia,...): apoia-se mais facilmente a tirania, descobrem-se argumentos para o ódio, encontra-se legitimidade para a violência. De crise económica e financeira para a crise social e dos valores.
- Vão por caminho errado, diabo! Não queremos aqui nenhum Okie dos diabos, ouviu? (...) - Dê meia volta e siga para os lados do Norte. E não volte cá antes da safra do algodão! Idem, ibidem
Vale muito a pena ler o livro. É de leitura muito fácil. Tem muitos diálogos.
E podem ver este pequeno filme feito com um telemóvel, é muito bom. Ganhou o prémio do festival Tropfest NY 2008 , o título é "Mankind is no island."
"- Hum... Olhe cá, ó mãe. Tenho passado os dias e as noites sozinho, aqui escondido. E sabe em quem me tenho entretido a pensar? No Casy! Ele falava muito. Às vezes aborrecia-me. Mas, agora, tenho pensado e repensado no que ele dizia, e lembro-me, lembro-me bem de tudo. Ele disse uma vez que tinha ido para o mato, à procura da própria alma, e que, por fim, descobrira que não tinha uma alma que fosse só dele. Disse que tinha unicamente uma pequena parte de uma alma enorme. E ele achava que não servia de nada andar em sítios desertos, porque aí, a tal pequena alma que ele tinha não servia para nada. Só tinha utilidade quando estava junto das outras com que formava um todo. É engraçado como eu me lembro de tudo isso! E, no entanto, tinha, nessa altura, a impressão de que mal o ouvia... Mas, agora, sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum. (...)
- Nesse caso, todas essas coisas deixam de ter importância. Eu estarei em qualquer sítio, na escuridão. Estarei em toda a parte, em qualquer sítio para onde a senhora se puser a olhar. Onde quer que se lute para que a gente com fome possa comer... eu estarei presente. Onde quer que a polícia esteja a bater num tipo, eu estarei presente. Imagine se o Casy soubesse disto! Estarei onde quer que se vejam criaturas a gritar de raiva... e estarei onde as crianças sorriam porque têm fome mas saibam que a ceia não tarda. E quando a nossa gente comer aquilo que plantar e morar nas casas que construir... então também eu estarei presente. Está a ver? Olhe que já vou falando como o Casy. Isto é de pensar nele tantas vezes. Há ocasiões em que até me parece que o estou a ver. "
diálogo de Tom Joad com a sua mãe , As vinhas da ira , Capítulo XXVIII
O empregado de branco entrou na barraca de chapa de ferro, onde o seu ajudante trabalhava num livro-caixa. - Livra! Nunca vi um camião tão cheio de cangalhada! - Qual? O calhambeque desses Okies? Todos eles são assim… - Deus do céu! Eu é que não viajava de semelhante maneira. - Bem, é que a gente não é trouxa. Mas esses Okies danados andam completamente malucos, já não têm sentimentos; não são humanos. Um homem não pode viver assim. Nenhum ser humano poderia suportar ver-se assim sujo e miserável. Valem pouco mais do que um gorila. - De qualquer modo, ainda bem que eu não sou forçado a atravessar o deserto num Hudson Super-Six. Esses carros fazem barulho que nem uma metralhadora. O outro debruçou-se de novo sobre o livro-caixa. Uma grossa baga de suor caiu-lhe no dedo, parando sobre o maço de facturas cor-de-rosa. - Sabe, eles não se incomodam muito com isso. São tão estúpidos que nem notam o perigo. Eles não vêem um palmo adiante do nariz, santo Deus! Para que é que você se incomoda tanto com eles? - Eu não me incomodo. Só disse que eu é que não fazia semelhante coisa. - É natural. Você sabe o que significa uma viagem dessas. Mas eles não sabem. – E limpou com a manga o suor que caíra na factura cor-de-rosa. “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
(foto minha)
Sobre as estranhas cumplicidades e os fortes laços que se criam quando se partilha o sofrimento: belas descrições do que a Humanidade tem de melhor, mesmo no limite do desespero e da penúria. Não, eles não eram animais, eles eram bem mais humanos do que tu, porque conservaram a humanidade em situações-limite e tu, nesse teu mundo confortável, não o consegues fazer. Há sempre um sorriso, uma palavra, um acto de carinho e de generosidade para quem sofre tanto ou mais do que nós. Quando um sequioso divide a sua água, quando um esfaimado partilha o seu alimento, quando em desconforto somos ainda capazes de encontrar lugar para mais um, isto é ser-se Homem.
Dia Mundial dos Refugiados
Hoje é o dia mundial dos Refugiados, sendo a ACNUR a agência da ONU de apoio e protecção de refugiados. Esta agência tem o português António Guterres como o seu presidente. Vale a pena divulgar e conhecer o trabalho desta organização. O seu trabalho é bem importante. E com uma linda embaixadora, a actriz Angelina Jolie.
Sendo que o tema dos deslocados e dos campos de refugiados é um dos mais importantes no livro "As vinhas da ira".
" Reinou o pânico no Oeste, quando se multiplicaram os homens nas estradas. Os homens receavam pelas suas propriedades. Homens que nunca tinham tido fome viam os olhos dos esfaimados. Homens que nunca na sua vida tinham sentido verdadeira necessidade de qualquer coisa viam a chama da necessidade arder nos olhos dos homens das estradas. E os homens das cidades e dos campos suburbanos que rodeavam as cidades preparavam a defesa. Tinham estabelecido que eles é que eram bons e que os outros - os invasores - eram maus, como fazem sempre os homens antes dos combates. E diziam: “São uns malditos duns Okies, uns ignorantes imundos. São uns degenerados, uns maníacos sexuais. Uns ladrões, esses Okies danados, que roubam tudo o que encontram. Não têm a consciência do direito de propriedade.” E esta última afirmação era realmente verdadeira, pois, como pode um homem que nada possui compreender as preocupações dos que possuem alguma coisa? E os que se defendiam, diziam: “São uns imundos que espalham epidemias. Não podemos consentir que os filhos deles frequentem a mesma escola que os nossos. Eles são estranhos. O que é que tu dirias se a tua irmã fosse passear com um deles?” A gente das cidades esforçava-se por adoptar ares de crueldade. Formava grupos e companhias e armava-os; armava-os com cassetetes, bombas de gás e carabinas. A terra é nossa - diziam. É bom a gente não perder de vista esses danados desses Okies. E as terras não pertenciam aos homens armados, mas estes pensavam que eram os donos das terras. E os empregados, que se exercitavam à noite, nada possuíam de seu e os donos de lojas insignificantes não possuíam outra coisa além de dívidas. Mas até um emprego é alguma coisa; até uma dívida é alguma coisa. " Capítulo XXI, As vinhas da ira
Os carros dos emigrantes arrastavam-se pela estrada principal, vindos dos caminhos que a cruzavam, e despejavam populações para o Oeste. À luz do dia, marchavam como percevejos nesse rumo; quando a escuridão baixava, agrupavam-se como percevejos à volta de um abrigo ou em regiões onde a água abundava. (…) Agrupavam-se estreitamente, falavam uns com os outros sobre as esperanças que depositavam na nova terra, dividiam entre si a comida, a própria vida. (…) À noite, acontecia uma coisa estranha: as vinte famílias tornavam-se uma só família; as crianças eram filhas de todos. A perda de um lar tornava-se uma perda colectiva, e o sonho dourado do Oeste, um sonho colectivo. E podia acontecer que uma criança enferma enchesse de pena os corações de vinte famílias, de cem pessoas; que um parto numa tenda mantivesse cem pessoas em silêncio e em expectativa durante uma noite e que a manhã seguinte encontrasse cem pessoas felizes com o êxito de um parto de gente estranha. Uma família que, uma noite antes tivesse errado apavorada na estrada, era capaz de procurar entre os seus parcos tesouros, algo que se pudesse dar de presente ao recém-nascido. À noite, sentados em redor da fogueira, os vinte perfaziam um só; uniam-se como um só, nos acampamentos, quer de tarde, quer de noite. Uma guitarra surgia então de sob um cobertor, e soava tristemente e entoavam-se canções – canções populares. Os homens cantavam a letra e as mulheres cantarolavam a melodia. “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
(foto minha)
O aprendiz de feiticeiro tarde percebeu que a criatura tinha vida própria e já não era controlável. Assim é com a evolução da técnica: surgem as máquinas e deixa de ser possível voltar atrás - elas vão permitir produzir mais e mais barato, irão alimentar muito mais gente (porque o progresso tem um lado bom e até é por isso que se chama assim). Acresce que nós, por ignorância estupidez necessidade, ajudámos a cavar a nossa ruína, abusando até ao limite de uma terra que agora se ergue em poeira enfurecida. Os campos estão exaustos, o clima tornou-se inóspito, os conhecimentos técnicos são parcos, os Bancos já não querem esperar.
Vai-se a terra e, com ela, se vai o que somos e tudo o que alguma vez nossos olhos viram. As famílias tremem, como se houvesse que atravessar uma porta para um outro mundo, mas sabem que ali não podem ficar e que na Califórnia há laranjas e trabalho e que é infinita a capacidade de adaptação do ser humano. Vão empreender uma viagem que porá à prova a sua resistência ao sofrimento. Vai ser enorme, o sofrimento, quase insuportável: desconforto, sol, sede, fome, já não sei quem sou, abandonei o meu lugar, tive que abater porcos e abandonar cães, deixei as camas vazias e os lugares de sempre estão para sempre perdidos, sou responsável por crianças velhos e grávidas cuja dor me causará maior dor do que a minha, não sei o que me espera nem tão-pouco se lá conseguirei chegar, tenho medo, estarei à altura? (para os Joad, o inferno ainda mal começou…) No entanto, quando o transporte é fraco e a comida escassa, quando há excesso de pessoas e de bocas, existe sempre lugar para a dádiva. São passagens como esta que nos reconciliam com a Humanidade.
prazeres
O livro descreve as condições de miséria em que os migrantes viviam quando chegaram ao Oeste, a terra prometida. A familia Joad tem a sorte de conseguir um lugar num campo para deslocados do governo onde as condições de acolhimento são muito boas.
Num momento de transição do livro o autor mostra que o povo migrante também tinha as suas aspirações para desfrutar de um pouco das alegrias, dos divertimentos, e procurava os prazeres de viver.
O povo em êxodo, correndo atrás do trabalho, procurando a vida encarniçadamente, esse povo também procurava o prazer; andava à cata de prazeres, fabricava prazeres e sentia fome de divertimentos. Às vezes, o seu prazer consistia em conversar; distraíam-se com ditos engraçados. O Contador de histórias E acontecia que, nos acampamentos, à beira da estrada ou nos fossos dos rios ou à sombra dos sicómoros, o narrador de histórias se revelava, e a gente reunia-se à luz mortiça das fogueiras, para ouvir os mais dotados. E o interesse com que os homens ouviam as histórias fazia com que essas histórias se tornassem grandiosas. Eu estive como recruta na guerra contra Jerónimo... E o povo escutava, e nos seus olhos fixos reflectiam-se as brasas prestes a extinguir-se. O Cinema Acontecia também que um homem, desviando vinte cents da comida para o prazer, fosse a um cinema em Marysville ou Tulare, em Geres ou Mountain View. E voltava, então, para o acampamento da beira-rio com o cérebro cheio de recordações. E contava o que tinha visto: Beber E sempre que um qualquer arranjava algum dinheiro, tinha o recurso de se embriagar. A Música Pode-se fazer tudo com uma gaita; pode-se-lhe arrancar um som agudo e penetrante e acordes simples ou uma melodia de acordes rítmicos. Pode-se moldar a música com as mãos em concha, fazendo-a lamentar-se, chorar como uma gaita escocesa, torná-la volumosa, cheia como um órgão ou fina e amarga como a das flautas das montanhas. E pode-se tocar e guardar o instrumento no bolso. Tê-lo sempre no bolso, sempre acompanhando a gente. Um viola, já tem mais valor. Tem de se aprender. Os dedos da mão esquerda têm de calejar. O polegar da mão direita também precisa de ter calosidades. Esticam-se os dedos da mão esquerda como patas de aranha, para acertar bem nas marcações das cordas. O violino, esse, é difícil de aprender. Poucos sabem tocar violino. As cordas não estão marcadas. A Dança E esses três instrumentos tocam à noite: gaita, violão e violino. Tocam músicas de dança, batendo o ritmo, as cordas fortes do violão palpitando como um coração, a acompanhar os acordes agudos da gaita e o gemer do violino. As pessoas chegam-se todas. Não resistem. Tocam, agora, o “Chicken Reel”, a dança dos pintos, e os pés batem o compasso e um rapaz magro dá três passos rápidos, com os braços pendentes e frouxos. Fecha-se a roda e começa a dança e os pés batem com força, assentando os calcanhares. As mãos giram e agitam-se. Os penteados desmancham-se; a respiração torna-se ofegante. Capítulo XXIV , As vinhas da ira
Na Califórnia, as estradas estão cheias de gente alucinada, que corre como formigas, à procura de algo para puxar, para arrancar, para erguer, para trabalhar, enfim. Para cada carga a levantar, cinco braços se estendiam; para receber cada mão-cheia de comida, cinco bocas famintas se escancaravam. “As Vinhas da Ira” - John Steinbeck, Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
Em Outubro de 1929, no país que apregoava o american way of life, ideal assente no crédito e no consumo, e na crença na felicidade daí resultante, o "tremor" que atingiu a Bolsa de Nova Iorque alastrou rapidamente a toda a economia e provocou graves problemas sociais.
Na década de 20, a concentração de empresas e os novos métodos produtivos geraram elevados níveis de produção, que a publicidade e o crédito fácil incentivavam a consumir, mas que nem sempre era escoada. O movimento bolsista, onde o recurso ao crédito era também uma prática corrente, cresceu, e o valor das acções multiplicou-se à medida que aumentava a especulação.
No momento em que a produção industrial superou a procura, aumentou o volume de mercadorias armazenadas por falta de mercados e os preços começaram a baixar, levando esta situação, a breve prazo, à falência de empresas e ao desemprego. A recuperação económica dos países europeus, após a guerra de 1914-18, levou à diminuição das importações de bens alimentares e de produtos industriais dos EUA, contribuindo para a acumulação dos stocks, o encerramento de unidades produtivas e o aumento do número de desempregados. A intensa mecanização e a alta produtividade do sector agrícola geraram uma produção excedentária, seguida de uma forte descida dos preços, provocando a ruína dos proprietários endividados e a miséria dos rendeiros, expulsos das terras.
O crash de Wall Street, ocorrido a 24 de Outubro, precipitou os acontecimentos: a ruína dos accionistas; a falência de bancos (mais de 600, no ano de 1929), com a consequente paralisia de uma economia baseada no crédito; o encerramento de empresas; a baixa dos preços; o desemprego crescente, que atinge cerca de 13 milhões de americanos em 1932; a diminuição dos salários; o empobrecimento das classes média e baixa, e a consequente perda de poder de compra, que agrava a diminuição do consumo; o aumento da criminalidade, do racismo e das tensões sociais; a fome e a miséria; o recurso à caridade privada e pública.
A Grande Depressão afectou os Estados Unidos e o mundo inteiro, levando os governos a tomar medidas de carácter intervencionista, quer para a sociedade, quer para os sectores da economia e das finanças.
Descobri este album "The Ghost of Tom Joad" do Bruce Springsteen de 1995, que não conhecia e que se inspira no romance "As Vinhas da ira" e no personagem Tom Joad. Como gosto muito do Bruce , acho que fica muito bem aqui no Blog deste mês. (Dica: Bruce Springsteen vem este Verão actuar na Corunha).
Men walkin' 'long the railroad tracks Goin' someplace there's no goin' back Highway patrol choppers comin' up over the ridge Hot soup on a campfire under the bridge Shelter line stretchin' round the corner Welcome to the new world order Families sleepin' in their cars in the southwest No home no job no peace no rest
The highway is alive tonight But nobody's kiddin' nobody about where it goes I'm sittin' down here in the campfire light Searchin' for the ghost of Tom Joad The Ghost of Tom Joad , Bruce Springsteen
é a nossa terra. Medimo-la e rasgámo-la. Nela nascemos; fazemo-nos matar nela; morremos nela
O avô havia-se apoderado da terra; tivera de matar os índios e de os expulsar. E o pai nascera ali e matara ervas ruins e cobras. Depois, viera um ano mau e ele tivera de pedir algum dinheiro emprestado. - E nós nascemos aqui. Esses que estão ali às portas, os nossos filhos, nasceram aqui. E o pai teve de pedir dinheiro emprestado. O banco achou-se então dono da terra, e nós ficámos, mas apenas com uma pequena parte daquilo que colhíamos. (...) - (...) é a nossa terra. Medimo-la e rasgámo-la. Nela nascemos; fazemo-nos matar nela; morremos nela. Apesar de não ser boa, mesmo assim é nossa. É isso que faz que ela seja nossa: termos nascido nela, trabalhado nela, morrido nela. Isto é que justifica o direito de propriedade e não um papel com algarismos escritos. “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
Um homem e a sua família, com as colunas dobradas de sol a sol, já não eram eficazes. O seu duro trabalho manual violava agora todas as regras de produtividade. Havia uma coisa chamada tractor que os iria substituir e um conceito designado escala que traria vantagens competitivas aos senhorios. Assim se diluiriam os custos fixos, assim se aumentaria a rentabilidade da exploração, assim se ganharia poder negocial perante fornecedores e na fase de comercialização. Findava a ligação afectiva do homem à terra: já não seria necessário escolhê-la, prepará-la, semeá-la, tratá-la e colhê-la, cuidando dela como a um filho, adormecendo a pensar nela, temendo pragas insectos pássaros inundações e secas, sofrendo com os seus revezes, derramando nela todas as esperanças. A terra dos avós e dos pais, sustento de toda a família, fonte única de sobrevivência, a terra que era salvação e orgulho, identificação e celebração colectiva, a terra que moldava as suas vidas, através da qual se reconheciam como seres humanos, deixaria de ser sua. Sim, sempre a sentira como sua, ainda que mais não fosse do que um mero rendeiro.
Os homens, agachados, erguiam os olhos para compreender. Não seria possível esperar mais algum tempo? Talvez o próximo ano seja um bom ano. Sabe Deus se haverá muito algodão no próximo ano? E, com todas as guerras, sabe Deus o preço a que o algodão chegará. Não se fazem explosivos de algodão? E uniformes? Arranjem bastantes guerras e o algodão subirá até ao tecto. No próximo ano, talvez. Olhavam para os senhorios com ar interrogativo. - Não podemos estar atidos a isso. O banco – o monstro – tem de recolher sempre lucros. Não pode esperar. Senão, morre. Não, os juros estão continuamente a subir. Quando o monstro pára de crescer, morre. Não pode estar sempre do mesmo tamanho. (...) Agachados, os homens tornavam a ferrar os olhos no chão. - Que querem os senhores que a gente faça? Não podemos tirar partilha menor da colheita; estamos quase a morrer de fome. As crianças andam sempre esfomeadas. Não temos roupas; só farrapos. Se todos os vizinhos não estivessem na mesma, teríamos vergonha de ir ao culto. E, por fim, os senhorios chegaram ao ponto crucial. - O sistema de arrendamento não pode vigorar mais. Um só homem a guiar um tractor pode fazer o trabalho de doze ou catorze famílias. Paguem-lhe um salário e ele toma para si toda a colheita. Temos de fazer isso. É contra a nossa vontade. Mas o monstro exige-o. Não nos podemos opor a ele. “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta
(foto minha)
Sim, parte da culpa era dos Bancos que, não sendo IPSSs, têm, não só o direito, como o dever moral de não emprestar a quem não pode pagar. E, emprestando, de o fazer com serviços de dívida passíveis de serem cumpridos. Mas há outros culpados. A culpa é dos senhores da terra que pedem rendas impossíveis e que depois olham para o lado. A culpa é dos comerciantes da zona que, em situação de quase monopólio, vendem os artigos por várias vezes o preço de custo. A cuja é dos rendeiros, cuja ignorância e falta de preparação abusam de uma terra exausta. A culpa é do poder local que não cria estruturas recreativas que permitam manter os homens longe do vício. A culpa é dos mercados e de quem os regula, que concentram as margens nos circuitos de distribuição e remuneram os produtores de forma miserável. A culpa é dos cidadãos, pela incapacidade de se associarem e tirarem proveito dos avanços da técnica, comprando tractores e empregando a sua força de trabalho em tarefas de maior valor acrescentado; e por não optarem por culturas com potencial superior, chegando ao ponto de desejar a guerra para que o preço do algodão suba. A culpa é da falta de vontade (ou, simplesmente, inércia) dos poderes central e estadual, que sabem que pessoas humildes e analfabetas, que sempre trabalharam a terra, não se associam nem reciclam nem adaptam ao progresso por toques de magia, e que nada fizeram para prestar apoio àquelas famílias, nem os encaminharam para os locais onde seriam necessários, nem tão-pouco proveram para que lhes fosse pago o justo valor pelo seu trabalho. A culpa é, em última análise, do ser humano, por não contrariar o mais vil dos instintos: tirar benefício do desespero alheio.
Também conhecida como The Main Street of America a Route 66 foi durante muito tempo uma das principais estradas dos EUA, atravessando todo o continente americano de Leste a Oeste. Com início em Chicago atravessava os estados de Illinois Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia, terminando em Los Angeles após 3,940 km (2,448 milhas). Desde a sua construção em 1926 até à sua desactivação em 1985 foi percorrida por milhares de veículos e contribuiu decisivamente para a afirmação da maior nação do mundo. Quando foi aberta ao trânsito grande parte da sua extensão era feita em gravilha ou terra batida. Em 1938 foi pavimentada. O seu traçado e o seu perfil muito plano tornou-a desde cedo uma via de comunicação importante, muito procurada por camiões e outros transportes rodoviários. Durante a Depressão foi percorrida por muitas famílias de agricultores que procuravam as terras da Califórnia em consequência do Dust Bowl. Ao longo do seu trajecto a economia prosperava ainda que timidamente em pequenos negócios familiares (restaurantes, estações de serviço, etc.). Foi o berço dos restaurantes drive-thru e da Fast-food - o primeiro McDonald's surgiu em San Bernardino, ponto de passagem da estrada.
" A 66 é o caminho de um povo em fuga, a estrada dos refugiados das terras da poeira e do pavor, do trovejar dos tratores , dos proprietários assustados com a invasão lenta do deserto pelas bandas do norte e com os ventos que vêm ululando aos remoinhos do lado do Texas, as inundações que não traziam benefícios às terras e ainda acabavam com o pouco de bom que ainda possuiam. De tudo isso os homens fugiam e encontravam-se na estrada 66, vindos dos caminhos tributários e das estradas sulcadas de calhas e de marcas fundas de rodas, que cortavam todo o interior.
Arquivo Universal - Rumo a Oeste
Uma grande exposição de fotografia esteve este ano no CCB "Arquivo Universal - o Documento e a Utopia Fotográfica".
Uma das salas era dedicada ás migrações na América, um conjunto de fotografias sobre a grande travessia para Oeste dos anos da "Grande Depressão" na América, numa fuga à miséria e à procura de uma nova esperança. Para mim foi uma das partes da exposição que gostei mais. E que me deu mais vontade de ler o livro deste mês "As vinhas da ira" de Steinbeck, pois essas fotografias ilustram perfeitamente a parte do livro da travessia dos camponeses rumo à Califórnia.
Dorothea Lange Destitute pea pickers in California. Mother of seven children, age 32
Nas casinhas em que moravam, os arrendatários examinavam o que lhes pertencia e o que pertencera a seus pais e a seus avós. Reuniam tudo para a grande viagem lá para o Oeste.
...
Os arrendatários arrastavam-se até às suas terras, através da poeira avermelhada.
Depois de vendido tudo o que podia ser liquidado: fogões e camas, cadeiras e mesas, pequenos armários de canto, canos e tanques, ainda havia pilhas de tralha, e as mulheres sentavam-se em torno dessas pilhas, remexedo-as e olhando-as pela frente e por detrás, fotografias, espelhos quadrados e - olha está ali um vaso!
Bem, vocês sabem o que a gente pode levar e o que não pode levar. Nós vamos acampar sempre ao ar livre - algumas panelas para se cozinhar, colchões e outras comodidades, uma lanterna, baldes e uma peça de lona. É para fazer a tenda. Esta lata de querosene vai. Sabe o que é isto? É o fogão. E roupas... levem todas as roupas. E ... a espingarda? Não nos vamos embora sem a espingarda. Quando tudo se for, calçado e roupas e comida - e até mesmo a esperança - teremos ainda a espingarda.
"A CIDADE E AS SERRAS", de Eça de Queirós (30 de Outubro a 2 de Novembro de 2003)
"OBRA POÉTICA", de Ferreira Gullar (10 a 12 de Novembro de 2003)
"A VOLTA NO PARAFUSO", de Henry James (13 a 16 de Novembro de 2003)
"DESGRAÇA", de J. M. Coetzee (24 a 27 de Novembro de 2003)
"PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES", de Paulinho Assunção (22 a 28 de Dezembro de 2003)
"O SOM E A FÚRIA", de William Faulkner (8 a 29 de Fevereiro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. I - Do lado de Swann)", de Marcel Proust (1 a 31 de Março de 2004)
"O COMPLEXO DE PORTNOY", de Philip Roth (1 a 15 de Abril de 2004)
"O TEATRO DE SABBATH", de Philip Roth (16 a 22 de Abril de 2004)
"A MANCHA HUMANA", de Philip Roth (23 de Abril a 1 de Maio de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. II - À Sombra das Raparigas em Flor)", de Marcel Proust (1 a 31 de Maio de 2004)
"A MULHER DE TRINTA ANOS", de Honoré de Balzac (1 a 15 de Junho de 2004)
"A QUEDA DUM ANJO", de Camilo Castelo Branco (19 a 30 de Junho de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. III - O Lado de Guermantes)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2004)
"O LEITOR", de Bernhard Schlink (1 a 31 de Agosto de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. IV - Sodoma e Gomorra)", de Marcel Proust (1 a 30 de Setembro de 2004)
"UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES" e outros, de Clarice Lispector (1 a 31 de Outubro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. V - A Prisioneira)", de Marcel Proust (1 a 30 de Novembro de 2004)
"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", de José Saramago (1 a 21 de Dezembro de 2004)
"ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ", de José Saramago (21 a 31 de Dezembro de 2004)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VI - A Fugitiva)", de Marcel Proust (1 a 31 de Janeiro de 2005)
"A CRIAÇÃO DO MUNDO", de Miguel Torga (1 de Fevereiro a 31 de Março de 2005)
"A GRANDE ARTE", de Rubem Fonseca (1 a 30 de Abril de 2005)
"D. QUIXOTE DE LA MANCHA", de Miguel de Cervantes (de 1 de Maio a 30 de Junho de 2005)
"EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (Vol. VII - O Tempo Reencontrado)", de Marcel Proust (1 a 31 de Julho de 2005)
...leitura livre... de leitores amadores (1 a 31 de Agosto de 2005)
UMA SELECÇÃO DE CONTOS LP (1 a 3O de Setembro de 2005)
"À ESPERA NO CENTEIO", de JD Salinger (1 a 31 de Outubro de 2005)(link)
"NOVE CONTOS", de JD Salinger (21 a 29 de Outubro de 2005)(link)
Van Gogh, o suicidado da sociedade; Heliogabalo ou o Anarquista Coroado; Tarahumaras; O Teatro e o seu Duplo, de Antonin Artaud (1 a 30 de Novembro de 2005)
"A SELVA", de Ferreira de Castro (1 a 31 de Dezembro de 2005)
"RICARDO III" e "HAMLET", de William Shakespeare (1 a 31 de Janeiro de 2006)
"SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE" e "PALOMAR", de Italo Calvino (1 a 28 de Fevereiro de 2006)
"OTELO" e "MACBETH", de William Shakespeare (1 a 31 de Março de 2006)
"VALE ABRAÃO", de Agustina Bessa-Luis (1 a 30 de Abril de 2006)
"O REI LEAR" e "TEMPESTADE", de William Shakespeare (1 a 31 de Maio de 2006)